domingo, 22 de agosto de 2010

Ialmar Pio Schneider (O Folclore Gaúcho)

Imagem por Lucia Aragão
Aqui no Rio Grande do Sul, o folclore, considerado como ciência do povo, termo que foi pela primeira vez empregado pelo arqueólogo inglês G. J. Thoms, originando-se de Folk, povo, e lore, ciência, em 22 de agosto de 1846, portanto, há cento e cinqüenta e dois anos passados, é sobremaneira cultuado, notadamente nos Centros de Tradições Gaúchas, já difundidos, segundo me consta, por vários estados do país e até no exterior. O que mais impressiona é o amor ao torrão natal, ao pingo, à china, que o gaúcho demonstra onde quer que se encontre, e deixa extravasar através de versos e toadas nas tertúlias e fandangos galponeiros. Seja no pontear de um violão, cantando uma milonga, ou no toque de uma cordeona ou bandônio, num xote bem largado, é que o gaudério se diverte e procura esquecer os reveses da vida nos braços de uma chinoca querendona. Também mostra sua destreza na dança da chula.

Mas o folclore gaúcho é deveras portentoso e abrange, além do lazer, os costumes, crendices populares, superstições e até práticas médicas de curandeiros, velhos pajés, parteiras de campanha, benzedeiras de cobreiros, costura de rendidura (hérnia), etc. São herança dos nativos, e povoadores açorianos e castelhanos que se mesclaram para formar a estirpe gaúcha.

Bem acentuados e conhecidos temos os mitos e lendas, tais como as do Negrinho do Pastoreio, A Salamanca do Jarau e A Mboitatá e muitos outros. Discorrendo sobre as Lendas do Sul, assim registra o ínclito mestre folclorista gaúcho Augusto Meyer, que foi membro da Academia Brasileira de Letras, em seu livro GUIA DO FOLCLORE GAÚCHO - Gráfica Editora Aurora, Ltda - RIO - 1951, pág. 96: “O único mito realmente popular, com raízes profundas na tradição gaúcha, é o do Negrinho do Pastoreio; é também o único de pura cepa rio-grandense, livre de qualquer influência gringa.” Mais recentemente, o erudito folclorista gaúcho Antonio Augusto Fagundes, em seu livro MITOS E LENDAS DO RIO GRANDE DO SUL - Martins Livreiro-Editor - Porto Alegre - 1992, num trabalho muito bem elaborado, desenvolveu o assunto, abrangendo nosso Estado, externando de modo cabal o seu conhecimento e assim se expressando, magistralmente, no final do prefácio: “Há muito amor nestes estudos, amor pelo povo, que é uma forma de amarmos a nós mesmos. O Folclore é a ciência do amor, por isso eu me fiz folclorista.”

Muito expressiva é a colaboração afro-brasileira para com o folclore gaúcho, representada, principalmente, pelas Congadas que se realizavam próximo ao litoral, em Santo Antônio da Patrulha, abrangendo Conceição do Arroio (hoje Osório), Palmares e Morro Alto, como bem explica Augusto Meyer, em seu livro acima citado, à pág. 60.

Resta acrescentar as contribuições dos imigrantes ao folclore gaúcho e que não foram poucas. Os alemães trouxeram o Kerb, o jogo de bolão, as “bandinhas” e os italianos com as festas paroquiais nas igrejas católicas, a vindima, o jogo da móra, da bocha, e as suas maravilhosas melodias.

É oportuno lembrar que a riqueza de um povo também se mede pela cultura de suas tradições.

(Publicado no Diário de Canoas em 19-08-1998)

Fontes:
O Autor

Folclore do Rio Grande do Sul

São Sepé
SÃO SEPÉ

Sepé era um índio valente e bom, que lutou contra os estrangeiros para defender a terra das missões. Ele era predestinado por Deus e São Miguel: tinha nascido com um lunar na testa. Nas noites escuras ou em pleno combate, o lunar de Sepé brilhava, guiando seus soldados missioneiros. Quando ele morreu, vencido pelas armas e o número de portugueses e espanhóis, Deus retirou de sua testa o lunar, que colocou no céu do pampa para ser o guia de todos os gaúchos - é o Cruzeiro do Sul.

CASA DE MBORORÉ (Missões)

No tempo dos Sete Povos das Missões, havia um índio velho muito fiel aos padres jesuítas, chamado MBororé. Com a chegada dos invasores portugueses e espanhóis, os padres precisaram fugir levando em carretas os tesouros e bens que pudessem carregar. Assim, amontoaram o muito que não podiam levar consigo – ouro, prata, alfaias, jóias, tudo!- e construíram ao redor uma casa branca, sem porta e sem janela. Para evitar a descoberta da casa pelo inimigo e o conseqüente saqueio, deixaram o velho índio fiel MBororé cuidando, com ordens severas de só entregar o tesouro quando os jesuítas voltassem às Missões.

Mas os jesuítas nunca mais voltaram. Com o passar dos anos, o velho índio morreu e o tempo foi marcando tudo, deixando as ruínas de pé como as cicatrizes de um sonho que acabou. Acabou? Não. A Casa de MBororé continua lá num mato das Missões, imaculadamente branca, cuidada pela alma do índio fiel que ainda espera a volta dos jesuítas.

Às vezes, algum mateiro –lenhador ou caçador- dá com ela, de repente, num campestre qualquer. Imediatamente dá-se conta de que é a Casa de MBororé, cheia de tesouros. Resolve então marcar bem o local para voltar com ferramentas e abrir a força a casa que não tem porta nem janela. Guarda bem o lugar na memória pelas árvores tais e tais, pela direção do sol e coisas assim. Sai, volta com ferramentas, só que nunca mais acha de novo a Casa Branca de MBororé, sem porta e sem janela.

CAVERÁ

O Caverá é uma região na fronteira-oeste do Rio Grande do Sul, ouriçada de cerros, que se estende entre Rosário do Sul e Alegrete. Na Revolução de 1923, entre os maragatos (os revolucionários) e os chimangos (os legalistas) o Caverá foi o santuário do caudilho maragato Honório Lemes, justamente apelidado "O Leão do Caverá".

Diz a lenda que a região, no passado, era território de uma tribo dos Minuanos, índios bravios dos campos, ao contrário dos Tapes e Guaranis gente mais do mato. Entre esses Minuanos, destacava-se a figura de Camaco, guerreiro forte e altivo, mas vivendo uma paixão não correspondida por Ponaim, a princesinha da tribo, que só amava a própria beleza...

Os melhores frutos de suas caçadas, os mais valiosos troféus de seus combates, Camaco vinha depositar aos pés de Ponaim, sem conseguir dela qualquer demonstração de amor.

Um dia, achando que lhe dava uma tarefa impossível, Ponaim disse que só se casaria com Camaco se ele trouxesse a pele do Cervo Berá para forrar o leito do casamento. O Cervo Berá era um bicho encantado, com o pelo brilhante - daí o seu nome. O mato era dele: Caa-Berá, Caaverá, Caverá, finalmente.

Então Camaco resolveu caçar o cervo encantado. Montando o seu melhor cavalo, armado com vários pares de boleadeiras, saiu a rastrear, dizendo que só voltaria depois de caçar e courear o Cervo Berá.

Depois de muitas luas, num fim de tarde ele avistou a caça tão procurada na aba do cerro. O cervo estava parado, cabeça erguida, desafiador, brilhando contra a luz do sol morrente. Sem medo, Camaco taloneou o cavalo, desprendeu da cintura um par de boleadeiras e fez as pedras zunirem, arrodeando por cima da cabeça. Então, no justo momento em que o Cervo Berá deu um salto para a frente quando o guerreiro atirou as Três Marias, houve um grande estouro no cerro e uma cerração muito forte tapou tudo. Durante três dias e três noites os outros índios campearam Camaco e seu cavalo, mas só acharam uma grande caverna que tina se rasgado na pedra dura do cerro e por onde, quem sabe, Camaco e seu cavalo tinham entrado a galope atrás do Cervo Berá para nunca mais voltar.

A PANELINHA

Na bela cidade de Cruz Alta, nos começos deste século, havia uma grande fonte em forma de poço, de onde partia uma sanga, hoje tudo urbanizado no cruzamento das ruas Andrade Neves e General Portinho, quase no centro da cidade.

Essa fonte, pela sua forma de poço, recebeu o nome de Fonte da Panelinha e ali muita gente boa, praticamente toda a zona nobre da cidade, abastecia-se de água. E era crença geral a de que beber água da Panelinha era amarrar-se definitivamente a Cruz Alta. Quem bebesse dessa água, mesmo que partisse, logo dava um jeito de voltar.

Muitas moças cruzaltenses, namoradas de oficiais do Exército de outras plagas ou de viajantes que eventualmente passavam por Cruz Alta, sempre davam um jeito de lhes servir um copo d´água da Fonte da Panelinha.

A LENDA DE ANGOÉRA

Nos sete povos das Missões, no Pirapó, ainda no tempo dos padres jesuítas, vivia um índio muito triste, que se escondia de tudo e de todos pelos matos e peraus. Era um verdadeiro fantasma e por isso era chamado de Angoéra (fantasma, em guarani). E fugia da igreja
como o diabo da cruz!

Mas um dia a paciência dos padres valeu mais e o Angoéra foi batizado, convertendo-se à fé cristã e deixando de vagar pelos rincões escondidos. Recebeu o nome de Generoso e tornou-se alegre e bom, mui amigo de festas e alegrias. E um dia morreu, mas sua alma alegre e festeira continuou por aí, até hoje, campeando diversão. Onde tenha um fandango, lá anda rondando a alma do Generoso. Se rufa uma viola sozinha, é a mão dele. Se houve uma risada galponeira ou se levanta de repente a saia de alguma moça, todos sabem - é ele.

Quando isto acontece, o tocador que está animando a festa deve cantar em sua homenagem:

"Eu me chamo Generoso, morador de Pirapó. Gosto muito de dançar com as moças, de paletó".

A LENDA DA LAGOA VERMELHA

A primeira tentativa dos padres jesuítas, que resultou na fundação de 18 Povos Missioneiros no Rio Grande do Sul, deu em nada. Os bandeirantes de Piratininga, que haviam arrasado as reduções do Guairá caçando e escravizando índios para a escravidão das lavouras de cana-de-açúcar de São Paulo e Rio de Janeiro, quando souberam que os padres tinham vindo mais para o sul e erguido suas aldeias no Tape, vieram aqui fazer o que sabiam fazer. Assim e aos poucos, os padres tiveram que refluir para o oeste, fazendo agora na volta o mesmo caminho que tinham feito na vinda.

E nessa fuga tratavam de levar consigo tudo o que podiam carregar. O que não podiam, queimavam ou enterravam. Casas, plantações, até igrejas foram incendiadas, para que nada ficasse aos bandeirantes.
Pois diz que numa dessas avançadas pelo Planalto, no rumo da Serra, uma carreta carregada de ouro e prata, fugindo das Missões.

Ali vinha a alfaia das igrejas, candelabros, castiçais, moedas, ouro em pó, um verdadeiro tesouro cujo peso faziam os bois peludearem. Com a carreta, alguns índios e padres jesuítas e atrás deles, sedentos de sangue e ouro, os bandeirantes.

Ao chegarem às margens de uma lagoa, não puderam mais.

Desuniram os bois e atiraram a carreta com toda a sua preciosa carga na lagoa, muito profunda. E aí então os padres mataram os índios carreteiros e atiraram os corpos n'água, para que não contassem a ninguém onde estava o tesouro. Com o sangue dos mortos, a lagoa ficou vermelha.

E lá está, até hoje. Ao seu redor, cresceu uma bela cidade, que tomou seu nome - Lagoa Vermelha. E cada um dos seus moradores que passa na beira das águas coloradas, lembra que ali ninguém se banha, nem pesca, e segundo a tradição, a lagoa não tem fundo. E nas secas mais fortes e nas chuvaradas mais bravas, o nível da lagoa é sempre o mesmo.

Fontes:
http://www.lendas-gauchas.radar-rs.com.br/
Imagem = São Sepé por Azuir Filho

Folclore do Paraná



O Paraná é rico em tradições folclóricas, assim como os demais estados brasileiros. Os costumes indígenas, podemos afirmar, são os mais antigos hábitos da terra e muitas influências legaram à nossa cultura. A língua portuguesa, por exemplo, de onde parte e retorna nosso mundo real e imaginário, recebeu inúmeras influências do tupi. Além disso, a imaginação do europeu, que aqui aportou na aurora da conquista, se redimensionou com os mitos e costumes indígenas. Por exemplo, em todo o Paraná, assim como em quase toda a América, o milho é parte integrante da culinária; a nossa pamonha, nosso bolo de milho ou o curau estão presentes em qualquer festa junina, ou festa de roça na época da colheita. Esse hábito herdamos dos índios e até hoje os guaranis ainda fazem o batismo do seu milho, confeccionando seus Mbojape, nossa pamonha ancestral.

No litoral, as tradições se encontram no cotidiano; em muitas localidades ainda se pratica o artesanato tradicional. Os potes de barro, os trançados, as pinturas com traços europeus e índios, podem ser encontrados em lugares recônditos das baías do litoral paranaense. Os “caiçaras” confeccionavam, até bem pouco tempo, as canoas de um pau só, com a árvore do guapuruvu, que, quase extinta, obriga a busca de outras soluções. O fandango, bailado tradicional do litoral, possui um aparato impressionante que envolve as comunidades em todo o seu processo. As violas, as rabecas, os tamancos são feitos pela comunidade; as danças, os cantos e modo de executar os instrumentos e bailar as modas são transmitidos espontaneamente; o fandango de um lugar traz sua marca, sua identidade própria, diferenciando-se de outros. É um arcabouço pertencente a uma comunidade, que identifica suas tradições, mentalidade e valores.

A professora Roselys Veloso Roderjan, musicista e grande pesquisadora da história e do folclore paranaense, realizou importante pesquisa, recolhendo junto a essas comunidades canções tradicionais do fandango, inclusive cifrando as letras para partituras, dando uma contribuição importante para a preservação da memória dessa nossa tradição.

As Folias de Reis ocorrem em quase todo o país. No norte e noroeste do Paraná são ainda uma tradição significativa. No processo de colonização do Paraná, migrou para o Estado com os paulistas e mineiros que colonizaram estas regiões. Assim como no fandango, os pontos de viola, os cantos, o conhecimento das alegorias são passados oralmente e intuitivamente de geração a geração. A memória dos velhos, dos cantadores, ou dos rezadores antigos, é o eixo principal da tradição: sem estes personagens a corrente se quebra e as tradições podem desaparecer. As bandeiras do divino são uma rica tradição ainda encontrada. Em Guaratuba celebra-se uma festa tradicional do divino, com duas bandeiras bem caracterizadas em procissão. As festas, rodas, danças ou terços de São Gonçalo do Amarante praticamente desapareceram – infelizmente – do Paraná (existe uma comemoração magnífica em Pernambuco, no município de Igarassu, localidade de Itapissuma). Santo que, em suas peregrinações no século XII, levava uma viola e unia o povo em torno dos seus cantos e em meio à roda de danças, São Gonçalo é, para os fiéis, detentor de grandes poderes.

As cavalhadas e as congadas são festas riquíssimas, de longa tradição. Guarapuava e Palmas realizavam suas cavalhadas. Na Lapa realiza-se uma congada de São Benedito; a festa que tem como principal elemento o simbolismo da coroação de um rei do Congo é realizada por ocasião da comemoração de São Benedito. As cavalhadas no Paraná, parece-nos, foram mais largamente praticadas pelo povo sertanejo no princípio do século XX. Estes, abandonados nos sertões do sul do Paraná e norte de Santa Catarina, pela república que nascia, promoveram uma das maiores revoluções camponesas da história do Brasil: a Guerra do Contestado (1912-1916). Liderados pelo monge João Maria praticavam a cavalhada, como forma de combate. Elementos medievais das cruzadas foram incorporados pelo Exército Encantado de São Sebastião, criado pelos revolucionários. Se as cavalhadas eram praticadas nos redutos dos camponeses, bem pode ser que tenham contribuído para a difusão e a permanência, até os dias de hoje, deste costume entre o povo da região de Palmas e Guarapuava.

Os imigrantes, radicados principalmente no sul, trouxeram manifestações próprias, incorporaram-nas ao nosso acervo popular. Tradições polonesas, alemãs, ucranianas, japonesas e tantas outras, somaram-se a essas manifestações antigas de origens índias, africanas, portuguesas e espanholas, tornando o Paraná moderno ainda mais complexo e rico.

Durante todo o ano ocorrem festas populares e celebrações sacras em todo o Estado. A maioria dessas celebrações homenageia santos ou santas padroeiras dos municípios, outras são antigas tradições praticadas por devotos, ou manifestações populares muito ricas, nas quais a arte popular e a religião se misturam ao longo do tempo. Grande parte é oriunda de antigas tradições, herdadas da Europa medieval; várias celebrações e festejos praticados no Brasil ocorriam, ou ainda ocorrem, também em Portugal, ou na Península Ibérica, demonstrando as influências culturais que possuímos da colonização portuguesa e espanhola.

Nas festas populares encontramos raramente as antigas manifestações folclóricas paranaenses: as cavalhadas ainda são praticadas, porém já desfiguradas de suas características originais; o fandango do litoral, com todos os costumes que o envolvem, ainda ocorre, porém somente em algumas localidades das baías de nosso litoral.

Estado com grande diversidade cultural, o Paraná recebeu também imigrantes de diversas partes do mundo e migrantes de inúmeros outros estados do Brasil. Deste modo, existe uma grande variedade de festas regionais, que são heranças da história local e, muitas vezes, devido a estas características singulares de ocupação e colonização, somente se apresentam naquela região. Em Siqueira Campos, por exemplo, ocorre há mais de setenta anos a festa do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, em honra a quem foi edificado um santuário com a vinda da imagem do santo, provavelmente de Minas Gerais. A região recebeu no início do século XX um grande número de migrantes mineiros, que estabeleceram um dos primeiros núcleos coloniais do norte pioneiro, então denominado Colônia Mineira.

Celebrações como as festas de São Benedito, santo negro protetor dos escravos, são encontradas em vários municípios. Em alguns municípios que margeiam rios, como o Paraná e o Iguaçu, se realiza a festa de Nossa Senhora dos Navegantes, celebração muito popular no Brasil, ocorrendo também na região norte e no sul do país. As celebrações de Folia de Reis, que contam a história da visita dos três reis magos à manjedoura de Jesus Cristo recém-nascido, são realizadas em muitos municípios; em alguns deles ocorrendo, inclusive, concursos para premiar as melhores folias. As folias, muito comuns em todo o país, também foram trazidas por paulistas e mineiros para o Paraná.

Em Antonio Olinto, tem-se a romaria de Nossa Senhora dos Corais, inclusive com missa dita em ucraniano. Os ucranianos são um dos mais significativos grupos de imigrantes que aportaram nestas terras, no início do século XX. A festa para a Virgem de Caacupê, em Guaíra, de origem paraguaia, homenageia a santa com procissões e, inclusive, missa em língua guarani. Os índios guaranis, por seu turno, ainda realizam seu ritual vespertino da Casa de Reza, talvez uma das mais antigas celebrações religiosas do Paraná, já que os guaranis, autóctones habitantes da terra, conviveram com as reduções jesuíticas há mais de quatrocentos anos.

Nos Campos Gerais, região de influência tropeira, grande parte das tradições são heranças desse ciclo econômico e cultural, um dos mais importantes ocorridos nas regiões meridionais do Brasil. Em Piraí do Sul, homenageia-se o senhor Menino Deus, festa que remonta a esses tempos do tropeirismo e cuja imagem original, estima-se, tenha sido trazida no século XVIII por tropeiros das ruínas das missões jesuíticas de Sete Povos, no Rio Grande do Sul, para a primeira capela surgida em Piraí do Sul, então local de passagem das tropas.

Inúmeras tradições populares, porém, estão em vias de desaparecer ou desapareceram no Paraná, como as festas de São Gonçalo, o Boi de Mamão, o Pau-de-Fita etc. As Folias de Reis são um bom exemplo desse fenômeno; outrora comuns em quase todo o Brasil – não diferentemente no Paraná – são hoje pequenas reminiscências praticadas pelos antigos em alguns municípios, com o singelo desinteresse das gerações mais novas. Os novos tempos se impõem, as tradições tendem a se transformar e, algumas vezes, infelizmente, são esquecidas e abandonadas.

... as flores que nunca morrem,
são essas que em ti se movem.
Árvore do Mundo, Carlos Nejar

Quem vai podar o homem dos sonhos, das suas ilusões, da imaginação fértil e livre que constrói os básicos sentidos para o mundo e a vida. Isso, até hoje, não pode, e não deve ser contido. Os símbolos e a linguagem (outro símbolo) planam soltos. Vêm, de onde ninguém sabe. E são eles que identificam uma sociedade, um povo, dando-lhe uma identidade singular, onde quer que ele esteja.

Os mitos e as lendas são fenômenos da psique, dos dados individuais e coletivos, da trajetória épica, trágica ou cômica, dos seres humanos. Através dos mitos e das lendas pode-se penetrar nos meandros psicológicos dos homens, investigar seus desejos e suas leituras da terra e de si mesmos; o que é, num certo sentido, conhecer a própria história. Só que em uma visão mais ampla do que a análise fatual. É uma tarefa árdua tentar divisar nas mitologias seus possíveis adventos fatuais. Mitos de criação do mundo, com seus heróis épicos em luta com a natureza e os deuses, são comuns nas sociedades antigas.

Essas histórias estão recheadas de eventos naturais catastróficos e monstros transumanos, contra os quais os heróis e heroínas se põem em luta bravia, para redimir a sociedade, de uma falta, uma culpa, ou um desvio impensado das conveniências divinas. Muitos desses eventos parecem ter sido ocorrências físicas, ou geológicas, reais. Mas, como o homem podia explicar o inexplicável? Os rituais de nascimento, morte e de passagens, as viagens fantásticas, são procedimentos necessários de expiação, busca da paz, da superação, da transposição para uma nova posição individual e social; são caminhos para o apaziguamento da alma. E, assim, os mitos e as lendas se fizeram e se fazem.

Como para a poesia está o poema. Ou seja, a antiga discussão entre forma e conteúdo. Sendo o poema a forma, as vestes da poesia, que se vela muito mais além e guarda os sentidos mais próprios. Muitas vezes está a lenda para o mito. O mito é fundante, mais profundo, uma matriz originária; as lendas e contos populares contam os mitos, de diversas maneiras, sendo que esses relatos vão se metamorfoseando, conforme o tempo passa, a natureza e a sociedade mudam.

O tempo e a imaginação popular se encarregam de rebuscá-los, continuamente. Como uma pintura que jamais é finalizada, interminável; pois, a cada dia o artista, ou os artistas, lhe altera as cores, os tons, as formas. E assim infinitamente.

As lendas e os contos populares, porém, estão libertos. Não estão presos ao destino de serem cantores dos mitos. Soltos, criam suas próprias histórias. Sua base fundamental é a oralidade. A fala do povo. É na conversa do povo, nos sotaques, feitos e jeitos, na produção artística e no trabalho, nos acontecimentos que "ninguém" viu, mas ouviu dizer, que os contos florescem. Férteis, sólidas crenças e crendices, pois bem arraigados na liberta imaginação.

Fonte:
SEEC – Paraná da Gente

Folclore da Lapa/Paraná (João Maria, o Monge da Lapa)


Entre fins do século XIX e a primeira década do XX, o campo brasileiro viu-se sacudido por alguns movimentos populares. De norte a sul surgiram manifestações de cunho religioso, como se o país despertasse de uma enorme letargia.

Conselheiros no nordeste brasileiro (como Antônio Conselheiro, de Canudos, na Bahia) e monges nos sertões meridionais, vários personagens cruzavam os campos de lado a lado, medicando e aconselhando os caboclos, granjeando fama de milagrosos e poderosos. No interior do Paraná, uma figura que aparecia envolta em mistério, antes e durante os conflitos pela posse da terra na região sul do estado, na divisa contestada por Santa Catarina, foi um andarilho conhecido como o Monge da Lapa. Na verdade, foram três os monges que freqüentaram a região, em momentos críticos da história de nosso país.

O primeiro surgiu em meados do século XIX, na década de 40, pouco depois das revoltas liberais que sacudiram o Brasil e pouco antes do término da Guerra dos Farrapos. O segundo marcou sua presença nos anos próximos à abolição da escravidão e do advento da República; em meio à Revolução Federalista temos o seu primeiro registro concreto. Finalmente, José Maria, o terceiro monge, surgiu em 1912, quando a Primeira República incentivava largamente a imigração e a construção de estradas de ferro, com contratos altamente vantajosos para as construtoras.

Entre os dois primeiros existia uma forte semelhança no proceder, a ponto de serem considerados uma só pessoa. "Num dos retratos que corre como sendo do ‘santo’, estampa-se a legenda: ‘João Maria de Jesus, profeta com 188 anos’ - como que a afirmar que os dois foram um só" [2].

As explicações de ambos terem utilizado o mesmo nome aparecem na obra de Oswaldo Cabral, quando o autor aponta as razões de tal procedimento. "O povo chamava todos os monges de João Maria. Não sendo João Maria não seria monge"[3].

Ao assumir o nome de seu predecessor, João Maria de Jesus não forçava, ao ver de Cabral, uma impostura, mas assumia para si a memória de santidade do primeiro monge. Místico também, ele encontrava assim uma melhor forma de penetração junto às populações interioranas. A mudança do nome marca o início de uma transformação na vida.

Apesar de utilizar os dois primeiros nomes de João Maria de Agostini, nunca tomou o último nome deste, do mesmo modo que nunca afirmou ser o mesmo que percorreu os sertões em meados do século XIX. Afinal, o santo dos sertanejos não era de Agostini ou de Jesus, "... há apenas um João Maria, e não só o João Maria do Contestado, mas o querido João Maria da devoção popular" [4].

Várias são as lendas que permanecem na memória de moradores do interior paranaense e que acabaram por conquistar as cidades, localizando-se em diversas camadas da população, trazidas pelo êxodo rural. Muitas das localidades de Santa Catarina, apontadas a seguir, pertenciam ao território do Paraná e foram repassadas ao estado vizinho após acordo que ratificou a divisão da região contestada, à época do presidente Wenceslau Braz, em 1916.

São lendas que dizem respeito à origem dos monges, lendas sobre profecias, punições, milagres e prodígios e finalmente lendas relativas ao fim dos monges. Estas lendas confundem os monges que as praticaram ou sofreram, sendo atribuídas ao monge simplesmente. Este caráter dúbio é parte da própria estrutura das lendas.

Sobre a origem do monge, do porquê de sua peregrinação pelo sertão, a mais rica lenda que encontramos é a de que sendo cristão, abandonou a religião para se casar com uma moura e combateu o exército expedicionário francês. Sendo feito prisioneiro, após a morte de sua esposa, conseguiu fugir e no Egito teve a visão do apóstolo Paulo, que o mandou peregrinar 14 anos (ou 40 em outra versão) pelo mundo, reconvertendo-se assim ao cristianismo. Sua cidade de origem seria, neste caso, Belém, na Galiléia.

Outras lendas davam conta de ser o monge um criminoso, não se dizendo o crime, ou que tivesse seduzido uma religiosa, que teria falecido na viagem para a América. Sua penitência seria vagar solitário pelos sertões. Existe também aquela que dizia ser o monge um apátrida, nascido no mar, de pais franceses, tendo sido criado no Uruguai.

As lendas sobre profecias são também bastante extensas, a começar de seu próprio desaparecimento, quando terminasse sua missão, no morro do Taió, hoje território de Santa Catarina. Previu o aparecimento de uma cidade no local em que estava, o que efetivamente se deu após a definição do litígio sobre a fronteira; seu nome, segundo o monge, seria Santa Cruz, e a cidade chamou-se Cruzeiro e hoje é o município de Joaçaba, SC.

Teria previsto o advento da República alguns anos antes. Previu também os trens e os aviões, no estilo dos antigos profetas. "Linhas de burros pretos, de ferro, carregarão o pessoal". Depois deles, as guerras com as derrotas sucessivas dos sertanejos e "gafanhotos de asas de ferro, e estes seriam os mais perigosos porque deitariam as cidades por terra".

Chegando a uma casa onde uma mãe acabara de dar à luz, reclamou o batismo da criança recém-nascida e somente depois lhe foi contado que a parturiente havia feito promessa de dar o nome de João Maria e convidar o monge para padrinho, se fosse feliz na hora do nascimento.
O primeiro monge teria previsto que outros o seguiriam, enquanto o segundo teria indicado a guerra que se avizinhava (a guerra do Contestado), onde os seus seriam dizimados.

As lendas de caráter punitivo são muitas, que contrastam com a imagem bondosa do monge. De modo geral, são castigos para aqueles que, desdenhando de sua santidade, não respeitaram regras estabelecidas por ele.

Existem as histórias relativas ao queijo. Conta-se que pedindo um pedaço de queijo em uma fazenda, este lhe foi negado, tendo então repetido a profecia feita para Canoinhas, anunciando o fim da prosperidade da fazenda.

Conta-se que uma senhora querendo dar ao monge um queijo, tendo falado a este respeito com seu marido, ordenou-lhe este que lhe fosse dado um outro menor (outra versão diz menor e podre). Segundo uma narrativa teria o monge aceitado apenas um pequeno pedaço do queijo, jogado fora mais da metade, por adivinhar a má vontade do dono. Outros comentam que sendo podre o queijo, João Maria o levou e escondeu sob uma pedra, ou o esmigalhou no pasto, ainda dentro da propriedade do tal fazendeiro. Em todos os casos, a prosperidade da fazenda desandou, chegando, em uma das versões, toda a família à loucura, ou morrendo o fazendeiro na mais miserável pobreza.

Às regiões de pouca fé do povo, predisse pragas, dizendo que aqueles que quisessem salvar suas roças deveriam plantar aquilo que desse sob a terra (tubérculos) - o que realmente aconteceu em Taquara Verde, município de Porto União, SC. Predisse que a localidade de Vila Nova do Timbó, por seu povo ateu, se transformaria num porungal, ou seja, suas terras perderiam a fertilidade. O lugarejo teria realmente regredido.

Ao ser preso na Lapa, predisse castigos dos céus e um violento temporal sobre a cidade. Em duas cidades diferentes, Hamburgo Velho (RS) e outra do Paraná, ao ser apedrejado por crianças que o tomavam por mendigo, perdoou às crianças, mas disse, serenamente, que as cidades seriam apedrejadas como ele. Em ambos os casos, dias depois, uma chuva de granizo arrasou as plantações, castigando a cidade. Tal evento teria também acontecido na Lapa.

Com relação às fontes, contam-se duas lendas de caráter punitivo. Uma seria uma água abençoada por ele, com a previsão de que não se entrasse na fonte para se banhar. Duas prostitutas, tendo ignorado o aviso, banharam-se para curar algumas feridas, o que provocou o ressecamento imediato da fonte.

Nas proximidades da Lapa, uma família tendo comprado uma propriedade, que tinha em suas terras uma fonte benzida, e não crendo no poder da água santa, cercou a área, proibindo a entrada de intrusos. Ao mesmo tempo, ateou fogo ao cruzeiro e ao pinheiro que havia no pouso. Como resultado, perdeu todas as suas posses e ficou louca.
As lendas sobre milagres e prodígios fazem parte do maior grupo conhecido. Existia a crença de que em meio às tempestades, o monge permanecia sentado ao relento, mas que não se molhava, bem como nos lugares de determinadas cruzes.

Conta-se também que podia estar em dois lugares diferentes, orando em sua gruta e ao lado de uma doente que invocava por ele. Conta-se que podia ficar invisível aos seus perseguidores, atravessar a pé sobre as águas dos rios, e que suas cruzes cresciam – não só o corpo, como também os braços – ou brotavam 40 dias após o monge tê-las levantado.
Bastões, com a "medida do monge", fincados em cada extremo de uma fazenda protegiam o gado contra doenças. As velas, feitas na medida do palmo do monge, afugentavam os maus espíritos e acalmavam as tempestades.

Conta-se que o monge era imune aos índios e às feras, não sendo jamais atacado por elas. Diz-se também que fazia surgir olhos d’água nos lugares onde pousava. Da mesma maneira, podia se fazer transportar no ar ou desaparecer quando a multidão que o cercava crescia em demasia.

As curas são constantes em suas lendas. Teria curado adultos e crianças já à morte com infusões de uma planta chamada vassourinha e rezas. Em Mangueirinha e na Lapa, se contam casos de curas milagrosas de dores de dentes.

As lendas referentes a galinhas são bastante difundidas. Conta-se que uma senhora ofereceu uma galinha ao monge, que não aceitou o presente por ele ter sido dado antes ao diabo. A mulher teria se referido à ave como "galinha do diabo" ao ter esta sujado seu vestido no caminho para a pousada de João Maria, ou praguejado dizendo "que o diabo a carregue", por não ter conseguido pegar no terreiro, só o fazendo horas depois. É interessante notar, como o faz Oswaldo Cabral, que essa lenda já teria se referido anteriormente a outras pessoas.

Igualmente se conta a lenda da batata. João Maria teria sido convidado a comer batata-doce com leite com uma família, a qual havia incumbido uma escrava de colhê-las. A escrava teria dito que a maior seria dela e não do velho mendigo. Na hora do jantar, todas as batatas da mesa, o monge se recusou a comer a melhor das batatas-doces, por já possuir dono.

Pernoitando na dita fazenda, pediu ao amanhecer um cavalo ou burrico, para atender ao chamado de um doente distante. Pedindo um animal manso, foi lhe dado um manco, o qual na volta da jornada não portava nenhuma deficiência no andar. João Maria teria debelado, ainda, uma epidemia de varíola em Rio Negro, afastando a peste com rezas e com 14 cruzes plantadas como Via Sacra na cidade. Ainda hoje existe uma das cruzes na cidade: chama-se cruz de Mafra.

As lendas relativas ao desaparecimento ou morte do monge dão conta que ele teria dito que ao final de sua peregrinação iria para o morro do Taió, região que se sabia habitada por índios hostis, os botocudos. Após a sua morte, seu espírito teria aconselhado um viajante de Guarapuava que foi à sua procura no morro.

Outra tradição diz que morreu de velhice em Araraquara (SP), ou que foi encontrado agonizante próximo aos trilhos da estrada de ferro perto de Ponta Grossa. A crença mais difundida é, no entanto, que não teria morrido. Após jejuar por 48 horas no Taió, o monge teria sido levado por dois anjos para o céu. Em outra hipótese, seu corpo teria se envolvido em luz tão forte que o fez desaparecer, deixando uma marca vermelha no chão, que os incrédulos confundiam com sangue.

Criações do povo, estas lendas formam um conjunto de crenças que demonstram o caráter mágico de sua apreensão da realidade, indubitavelmente belas como demonstração de mentes criadoras. Vejamos algumas que permanecem na tradição de alguns outros municípios paranaenses.
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Notas
[1].Parte deste texto foi publicado como integrante da monografia para conclusão do curso de especialização Metodologia do Ensino Superior. CARNEIRO JR., Renato Carneiro. O Monge da Lapa: um estudo da religiosidade popular no Paraná. Curitiba: Faculdades Positivo, 1996.
[2].CABRAL, Oswaldo R. João Maria. Interpretação da Campanha do Contestado. São Paulo: Comp. Editora Nacional, 1960.
[3]. Idem.
[4]. Idem.
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Fontes:
SEEC – Paraná da Gente
Imagem do Acervo de Orty de Magalhães

Folclore do Ceará (A Princesa Encantada de Jericoacoara)



Na cidade de Jericoacoara, no Ceará, diz a lenda que, debaixo do morro do farol local, existe uma linda princesa encantada, morando numa gruta, cheia de riquezas. Só se desencantará se alguém for sacrificado. A Princesa está transformada numa serpente, com a cabeça e os pés femininos. Faz-se uma cruz com o sangue humano no dorso da cobra. E ela voltará a forma humana para sempre.

Perto da praia, quando a maré está baixa, há uma furna onde só se pode entrar agachado. Esta furna de fato existe. Só se pode entrar pela boca da caverna, mas não se pode percorrê-la, porque, está bloqueada por um enorme portão de ferro.

A cidade encantada e a princesa estariam além daquele portão. A encantadora princesa está transformada, por magia, numa serpente de escamas de ouro, só tendo a cabeça e os pés de mulher.

De acordo com a lenda, ela só pode ser desencantada com sangue humano. Assim, no dia em que alguém for sacrificado junto do portão, abrir-se-á a entrada para um reino maravilhoso. Com o sangue será feita uma cruz no dorso da serpente, e então surgirá a princesa com toda sua beleza, cercada de tesouros inimagináveis, e a cidade com suas torres douradas, finalmente poderá ser vista. Então, o felizardo responsável pelo desencantamento, poderá casar com a princesa cuja beleza é sem igual nesse mundo.

Mas, como até hoje não apareceu ninguém disposto a quebrar esse encanto, a princesa, metade mulher, metade serpente, com seus tesouros e sua cidade encantada, continuam na gruta a espera desse "heróí".

Essas princesas-serpentinas são comuns no folclore nortista. Mário Melo fala da furna da Serra Talhada, em Vila Bela, Pernambuco, morada duma princesa, semelhante a esta.

Princesas tornadas serpentes são vestígios do ciclo das Mouras na península ibérica. Em Portugal quase a totalidade das Mouras Encantadas vive sob a forma de serpentes. Nas noites de São João ou Natal, antes da meia-noite, voltam à forma humana, tornadas mulheres lindas, cantam, penteando-se com pentes de ouro. Ao seu lado pode-se ver a pele de serpente à espera do corpo para a continuação da maldição. O ferimento, mesmo diminuto, bastando apenas que derrame sangue, quebra o encanto. Aqui a lenda se assemelha com o mito da Cobra Norato, do Pará.

Informações Complementares:

Nomes comuns: Cidade encantada de Jericoacoara, A Princesa encantada do mesmo nome, O Reino Encantado, O Reino de Pedra Bonita.

Origem Provável: A tradição de Jericoacoara é legitimamente portuguesa e a princesa enfeitiçada é uma "moura", esquecida em seu castelo obscuro, guardando ouro, joias, pedrarias, barras de prata, montões de moedas, para o heroi audacioso que resolva lhe "quebrar" o encanto. Em toda a Europa e Ásia, existem relatos muito antigos de vários povos que falam de cidades encantadas, onde moram reis e princesas, outras vezes raças de inteligência superior.

Vinda da Europa, pelos espanhóis, havia a lenda que falava de um lugar maravilhoso que poderia estar oculto nas florestas virgens da América do Sul, onde as pessoas viviam eternamente. Se alimentariam da água da Fonte da Juventude eterna. Também os espanhóis acreditavam existir uma fenomenal cidade subterrânea com tesouros fabulosos, nas montanhas dos Andes, seu nome seria Cibola.

No estado de Pernambuco, na cidade de Serra Talhada, antiga Vila Bela, existe uma lenda parecida que também fala de uma gruta encantada onde mora uma princesa serpente. Outros afirmam que esta gruta, seria na verdade o Reino de Pedra Bonita, que ficava no sítio de Pedra Bonita, na mesma cidade, e onde viveu um povo muito místico e cruel.

Conta a lenda que para manter o reino encantado e oculto das vistas de curiosos, os habitantes locais sacrificavam crianças cujo sangue puro, mantinha sua invisibilidade. Se isto não fosse feito, o reino se desencataria e se tornaria visível. Naquele reino existiria uma fabulosa mina encantada de diamantes.

A Serpente, o animal sem idade, o animal sábio, é a forma preferida pela alta e velha magia árabe. As tradições orientais estão repletas de rainhas e princesas que vivem como grandes cobras, sujeitas a uma penitência cujo fim depende dum gesto humano e cavalheiresco.

Toda Europa conhece a tradição de Melusina, a fada amorosa da casa dos Lusignan. Filha da fada Pressina, Melusina se tornava serpente todos os sábados. Durante uma caçada, Raimondin, filho do conde de Forez, encontrou-a numa floresta do Poitou. Apaixonaram-se e se casaram. Melusina construiu milagrosamente o castelo de Lusignan. Viviam amorosamente. Nasceram oito filhos, fortes e belos mas portadores de anomalias.

Vriam, o primogênito, tinha a face mais larga do que longa e um olho era vermelho e o outro azul. Odon, o segundo, possuía orelhas enormes. Guion, o terceiro, apresentava os olhos colocados desigualmente. A face do quarto filho, Antônio, era marcada por uma garra de leão. Renault, o quinto, parecia um Ciclops, com seu único olho mas enxergava numa distância de vinte e uma léguas. Godofredo, o sexto, orgulhava-se de ter apenas um dente que lhe saía da boca mais de uma polegada. O sétimo tinha um nariz peludo como se fosse uma toupeira. O oitavo, não se sabe o nome, se tornou monge. Este possuía três olhos.

Melusina fizera o marido jurar que não a procuraria ver durante os sábados. Anos depois, tomado pela curiosidade, o fidalgo abriu um furo com a espada na porta do aposento onde a esposa se banhava. Viu-a como uma enorme e horrenda serpente. Gemendo de dor, Melusina desapareceu por uma janela. Nunca mais o marido tornou a vê-la. Fiel ao seu amor, cada vez que o castelo de Lusignan mudava de senhor, ou um dos chefes da família ia morrer, Melusina aparecia no alto das torres do castelo, chorando. Três dias depois voltava para anunciar a visita do anjo da morte.

Vê-se claramente, pelo exposto, porque a princesa de Jericoacoara ainda espera pelo seu Salvador, um homem sem medo e sem mácula, armado apenas de coragem e transbordando de amor.

Fonte:
http://sitededicas.uol.com.br/folk20.htm

Folclore do Pernambuco (A Lenda do Papa Figo)

O Papa Figo, ao contrário dos outros mitos, não tem aparência extraordinária. Parece mais com uma pessoa comum. Outras vezes, pode parecer como um velho esquisito que carrega um grande saco às costas.

Na verdade, ele mesmo pouco aparece. Prefere mandar seus ajudantes em busca de suas vítimas. Os ajudantes por sua vez, usam de todos os artifícios para atrair as vítimas, todas crianças. Para isso vale distribuir presentes, doces, moedas ou cédulas de dinheiro, brincar fazendo caretas, brinquedos ou comida. Eles agem em qualquer lugar público ou em portas de escolas, parques, ou locais com pouco movimento.

Depois de atrair as vítimas, estas são levadas para o verdadeiro Papa-Figo, um sujeito estranho, rico, que sofre de uma doença rara e sem cura. Alguns sintomas dessa doença seriam o crescimento anormal de suas orelhas ou o corpo leproso.

Diz a lenda, que para aliviar os sintomas dessa terrivel doença ou maldição, o Papa-Figo, precisa se alimentar do Fígado de uma criança. Feito a extração do fígado, eles costumam deixar junto com a vítima, uma grande quantia em dinheiro, que é para o enterro e também para compensar a perda junto a família.

O Papa-Figo é uma espécie de Lobisomem da cidade. Nunca muda a forma. É um homem velho, sujo, vestindo farrapos, com ou sem um saco às costas, ocupando-se em raptar crianças para comer-lhes o fígado ou vendê-lo aos leprosos ricos. É alto e magro. Conforme a região é pálido, sórdido, com barba sempre por fazer. Sai à noite, às tardes, ao por do sol. Aproveita a saída das escolas, os parques onde as babás se distraem com os namorados, as praças ensombradas.

Nesses ambientes atrai as crianças com gestos engraçados, ou mostrando brinquedos, dando falsos recados ou prometendo levá-las para um local onde há muita coisa bonita.

Informações Complementares:

Nomes comuns: Negro Velho, Velho do Saco, etc.

Origem Provável: Mito universal, muito comum em todo meio rural. Acredita-se que a intenção do conto era um alerta às crianças sobre o contato com estranhos. Nesse ponto se assemelha ao conto original de Chapeuzinho Vermelho, cuja ideia por trás da estória, era simplesmente alertar sobre o perigo do contato com os viajantes, os forasteiros, que, não raramente, costumavam raptar crianças em suas andanças pelas aldeias medievais.

Em abril de 1938 foram presos na cidade de Natal dois indivíduos de cor que iam levando crianças. Eram pretos de meia idade, doentes, palúdicos, visivelmente dementes. A polícia resgatou as crianças e mandou-os embora.

Fatos semelhantes se repetiram em Ceará e Pernambuco. No interior dos Estados corre a mesma estória, irradiando pavores idênticos em todos.

Dizia Gilberto Freire (Casa Grande & Senzala, 1933, p. 368): "E havia ainda o Papa-Figo - homem que comia fígado de menino. Ainda hoje se afirma em Pernambuco que certo ricaço do Recife, não podendo se alimentar senão de fígados de crianças, tinha seus negros por toda parte pegando menino num saco de estopa."

Na terapêutica contra a Lepra, o banho do sangue humano e a degustação do fígado, especialmente das crianças, são remédios tradicionais. Hermeto Lima conta a horripilante estória da Onça, uma velha leprosa que, a consellho dos ciganos, furtava as crianças da "Roda dos Enjeitados", para banhar-se no seu sangue. Só depois de morta a polícia soube das monstruosidades que cometera. (A Onça se chamava Bárbara dos Prazeres e morreu no Rio de Janeiro em 1835. Hermeto Lima narra em detalhes o episódio em Os Crimes célebres do Rio de Janeiro, 1820-1860, Ed. da Empresa de Romances Populares, 1921)

De depoimentos dos leprosos da época, entre todos, era corrente a ideia de que a Lepra não era doença da pele. Era crença firme entre todos que a Lepra era doença do sangue, o sangue está impuro. E muitas doenças ainda conservam nomes decorrentes dessa crença: Sangue Novo (urticária), Calor do Sangue (tinha), Calor do Figo, etc.

Assim, depurar, reforçar o sangue era a única terapêutica que lhes assegurava a tradição secular. Como o sangue vem do fígado, tratar, melhorar o fígado, era o único meio de cura, o resto, para eles, era perda de tempo. "Um fígado doente trata-se com um fígado sadio", era a firme convicção, o coro, daqueles infelizes acometidos pelo mal.

Fonte:
http://sitededicas.uol.com.br/folk04.htm

Folclore de Minas Gerais (Chibamba)


Fantasma do ciclo das assombrações criadas para assustar crianças, para fazer parte dos seus pesadelos noturnos. É do sul de Minas Gerais. Amedronta as crianças que choram, as teimosas e as malcriadas. Anda envolto em longa esteira de folhas de bananeira, ronca como se fosse um porco e dança de forma compassada enquanto caminha; às vezes gira.

O nome é um vocábulo africano, Bantu na verdade, e teria como significado uma espécie de canto ou dança africana à exemplo do Lundu [Espécie de dança nativa africana].

Há uma quadrinha que diz:
Ê vém o Chibamba, nêném, ele papa minino, cala a boca!...

O Chibamba vestido de folhas de bananeira e dançando, lembra a África de onde o nome é originário. Em Angola e Congo ainda os negros, em suas tradições festivas e folclóricas, dançam vestindo elaboradas roupas feitas de folhas, ramos e galhinhos de plantas locais.

Na Ásia, entre os antepassados dos Laos, da indochina francesa, chamados de Pu Nhiê, há uma dança. Os Pu Nhiê, em certa época, vestindo folhas e peles, surgem com máscaras de monstros excêntricos. E Dançam lentos, compassados, dando giros misteriosos, ao som de tambores.

A dança grave, em giro, é bem africana e de finalidade religiosa. As outras, coletivas, festivas, em ritmo mais agitado, são rituais de pesca e caça.

O Chibamba é um remanescente dos rituais negros da África, que se transformou em Cuca, ou Negro Velho, e se tornou encarregado de fazer dormir à força as crianças. O fato de "roncar como um porco" é uma adaptação brasileira.

Chibamba, pelo nome e maior influência negra que indígena em Minas Gerais, é africano. Ali ele vive, fazendo as crianças dormirem, mesmo quando não estão com vontade.

Notas complementares:

Nomes comuns: Chibamba.

Origem: Africana.

De fato, os nativos africanos se vestiam com folhas e usavam máscaras assustadoras nos seus rituais de pesca, caça e mesmo religiosos. Sua chegada ao Brasil mineiro, em seus terreiros festivos, onde as amas pretas de leite cuidavam dos seus bebês e também das crianças brancas, explica o surgimento do Chibamba como criatura assustadora.

Era uma oportunidade e tanto mostrar às crianças, aqueles figurantes caracterizados como monstros cobertos de folhas e mascarados, como uma entidade que viria atormentar crianças que não queriam dormir.

Na tradição africana, os figurantes cobertos de folhas e mascarados, simbolizavam a reencarnação dos seus antepassados, que ora os visitavam, para abençoar suas festas, caçadas, colheitas, guerras e rituais de casamento.

Também os nossos índios dançavam envoltos em folhas e tecidos vegetais. Não é uma tradição dos Tupis, mas entre os pajés do Brasil colônia. Estes dançavam, nas horas dos rituais religiosos, disfarçados, cobertos de folhas e pintados com corantes vegetais. A dança lenta, rodada, com os figurantes cobertos com vestimentas ornamentadas, era tradição entre os Gês, Nu-aruacos e Caraíbas. Mas a influência para a existência do Chibamba mineiro é mesmo africana.

Fonte:
http://sitededicas.uol.com.br/cfolc.htm

Folclore do Amazonas (A Lenda do Mapinguari)


O Mapinguari é o mais popular dos monstros da Amazônia. Seu domínio estende-se pelo Pará, Amazonas, Acre, vivificado pelo medo de uma população meio nômade que mora nas matas, subindo os rios, acampando nas margens desertas dos grandes lagos e lagoas sem nome.

Caçadores e trabalhadores de todos os ofícios citam o Mapinguari como um verdadeiro demônio do Mal. Não tem utilidades ou vícios cuja satisfação determine aliança momentânea com os religiosos cristãos. Mata sempre, infalivelmente, obstinadamente, quem encontra pela frente. Mata para comer. Descrevem-no como um homem agigantado, negro pelos cabelos longos que recobrem seu corpo como um manto, de mãos compridas, unhas em garra, fome insaciável, ou "canina" como é conhecida uma fome de tamanha envergadura.

Só é vulnerável no umbigo. É crença universal a existência da vulnerabilidade umbilical dos monstros. Indica também que um dia nasceu de outro nascido, que é um ser vivente como todos os outros que habitam a terra, apenas pertencente a uma linhagem pouco compreendida.

Em algumas regiões, também o Lobisomem, pode ser abatido pelo umbigo. O Mapinguari, ao contrário de outras entidades fabulosas, não anda durante a noite. Durante a noite, dorme. O perigo é de dia, a penumbra no meio das florestas fechadas que mal deixam passar a luz do Sol. Na obscuridade dos troncos de muitas formas o Mapinguari se destaca, surge bruscamente, para atacar e ferir. Mas não avança silencioso como seria a lógica. Vem berrando alto, gritos soltos, curtos, horríveis, que deixam suas vítimas atordoadas, sem ação.

De longe os homens ouvem seus apelos terríveis. E fogem, sem olhar para trás. É como se o Mapinguari estivesse desafiando os carajosos para um encontro supremo, face a face. Esses gritos roucos e contínuos explicam os rumores naturais que a floresta produz e não se consegue de forma sensata explicá-los. Assim, sem uma explicação lógica para os muitos e difusos barulhos e murmúrios da densa e misteriosa mata, os homens logo atribuem ao Mapinguari tal repertório sonoro.

Qual seria a origem do Mapinguari? Não parece muito antiga porque seu nome não está presente na lista dos cronistas coloniais. Aparece já nos tempos modernos, mais comumente nas narrativas dos seringueiros, nas lembranças dos récem-vindos da Amazônia. Cronistas famosos como o minucioso Stradelli, ou Tastevin, não registram sua existência nos vocabulários.

Seu físico é quase uma descrição literal do Caapora, assim desenhado por Couto Magalhães: "Um grande homem coberto de pelos negros por todo corpo e cara, montando sempre um grande porco de dimensões exageradas, tristonho, taciturno, e dando vez por outra um grito para impelir a vara."

Essa é a descrição do Caapora, onde o porco é o elemento não concordante com o Mapinguari.

Já o Caapora de Gonçalves Dias era um índio anão. O Mapinguari é, evidentemente, um Caapora desfigurado, sem alguns elementos que no passado autenticavam sua origem e atividade dentro das florestas. Guarda a estrutura, o grito, o corpo vestido de pelos. Também o seu habitat florestal, continuando a ser um mito das matas, conhecido especialmente por aqueles que nela vivem.

Resumo:
Mapinguari é um animal fabuloso, semelhante ao homem, mas todo cabeludo.
Os seus grandes pelos o tornam invulnerável à bala de qualquer calibre, exceção da parte do umbigo.
Segundo a lenda é ele um terrível inimigo do homem, a quem devora e despreza. Mas devora apenas a cabeça.
Acreditam alguns índios Tuixauas que se trata da reencarnação viva de um antigo rei de sua etnia, que no passado habitava aquelas regiões.

Como o Quibungo africano, o Mapinguari tem a posição anômala da boca, rasgada do nariz ao estômago, num corte vertical, cujos lábios estão sempre sujos de sangue. Depoimentos atestam que seus pés em forma de casco, são virados ao avesso, como o Curupira.

Informações Complementares:

Nomes comuns
: Mapinguari.

Origem Provável: É de origem recente e possivelmente uma variante do Curupira. Nenhum cronista do Brasil colônia ou império citam seu nome. Entre os seringueiros e moradores da floresta Amazônica é quase uma unanimidade. Alguns elementos de sua fisiologia e costumes foram com certeza tirados do Caipora ou Curupira. Mas não é de origem indígena, uma vez que há nele uma espécie de caráter punitivo de cunho religioso, coisa alheia aos aborígenes.

O nome Mapinguari possivelmente se trata de uma contração de mbaé-pi-guari, a cousa que tem o pé torto, retorcido, ao avesso. O início da surpresa seria o rastro de forma estranha, circular, indicando justamente a direção oposta ao verdadeiro rumo. Posteriormente é que a imaginação criou a figura material, semelhante aos outros monstros.

Quando ele apanha um caçador, mete-o debaixo do grande braço forte como aço, mergulha-lhe a cabeça na imensa bocarra e masca-o, isto é, come-o aos poucos, mastigando lentamente, remoendo.

Em um ponto distancia-se do Lobisomem. Não há notícia de alguém poder se tornar Mapinguari. O Sr. Mário Guedes[3], pesquisador de mitos, informa que é crença entre alguns índios Tuixauas, escutou isso de um chefe indígena dessa etnia, que o Mapinguari era o "antigo rei da região". Mas se há essa lenda, o Tuixaua só tomou a nova encarnação depois de morto. Mas, o Mapinguari é uma forma definitiva.

Um dos traços visíveis da catequese católica é a intercorrência do resguardo aos dias santos e domingos. O Mapinguari escolhe quase sempre esses dias para suas aventuras predatórias. Caçador que encontrar matando caça nesses dias proibidos e de preceito, é homem morto.

É opinião concreta entre os compiladores folcloristas, que nessa insinuação está a antiga influência da catequese de tentar incutir entre os selvagens obediência a uma das leis da Igreja, sob o jugo do medo.


Documentário:

J. da silva Campos, em seu livro de contos tradicionais, relata o seguinte episódio.

O Mapinguari (Rio Purus, Amazonas).

Dois seringueiros moravam na mesma barraca, em um "centro" muito afastado, lá naqueles fins de mundo. Um deles tinha por costume sair todos os domingos para caçar. O companheiro sempre lhe dizia:
"Olha, fulano, Deus deixou os domingos para a gente descansar".
Ao que ele retrucava:
"Ora, no domingo também se come".

E lá se ia para o mato, onde ficava o dia inteiro.
Por muita insistência sua, o companheiro resolveu-se a ir fazer uma caçada com ele, certo domingo. Foram e perderam-se um do outro. O que não estava habituado a tais empreitadas andou muito tempo à toa, sem acertar o caminho e já não sabia mais onde tinha a cabeça, de atarantado. Foi quando ouviu uns berros medonhos e estranhos, que o encheram de pavor. Subiu mais que depressa numa árvore bem alta e ficou lá em cima, quieto, imóvel, para ver o que era aquilo.

Os berros foram se fazendo ouvir cada vez mais perto, até que ele pôde testemunhar um espetáculo horrendo, que quase o põe louco de terror. Um Mapinguari, aquele macacão enorme, peludo que nem um coatá, de pés de burro, virados para trás, trazia debaixo do braço o seu pobre companheiro de barraca, morto, esfrangalhado, gotejando sangue. O monstro, com as unhas que pareciam de uma onça, começou a arrancar pedaços do infeliz e metia-os na boca, grande como uma solapa, rasgada à altura do estômago, dizendo em altas e terríveis vozes:
"No domingo também se come!"

Assim, o seringueiro viu a estraha fera engolir o infeliz caçador. E lá foi a besta horrenda pela mata, urrando num tom de voz que fazia estremecer até as próprias árvores:
"No domingo também se come!"

Fonte:
http://sitededicas.uol.com.br/folclore_mapinguari.htm

Folclore do Alagoas (A Cabra Cabriola)



A Cabra Cabriola, era uma espécie de Cabra, meio bicho, meio monstro. Sua lenda em Pernambuco, é do fim do século XIX e início do seculo XX. Ocorre também outros estados.

Era um Bicho que deixava qualquer menino arrepiado só de ouvir falar. Soltava fogo e fumaça pelos olhos, nariz e boca. Atacava quem andasse pelas ruas desertas nas noites de sexta. Mas, o pior era que a Cabriola entrava nas casas, pelo telhado ou porta, à procura de meninos malcriados e travessos, e cantava mais ou menos assim, quando ia chegando:

Eu sou a Cabra Cabriola
Que como meninos aos pares
Também comerei a vós
Uns carochinhos de nada...

As crianças não podiam sair de perto das mães, ao escutarem qualquer ruído estranho perto da casa. Podia ser qualquer outro bicho, ou então a Cabriola, assim era bom não arriscar. Astuta como uma Raposa e fétida como um bode, assim era ela.

Em casa de menino obediente, bom para a mãe, que não mijasse na cama e não fosse traquino, a Cabra Cabriola não passava nem perto.

Quando no silêncio da noite, alguma criança chorava, diziam que a Cabriola estava devorando algum malcriado. O melhor nessa hora era rezar o Padre Nosso e fazer o Sinal da Cruz.

Considerada mais temida que o Lobisomem e a Mula-sem-Cabeça, que são mitos vindos de fora há muito mais tempo, a Cabra Cabriola, logo se tornaria o consolo das mães, já que não precisavam se esforçar muito para fazerem seus filhos a irem para cama cedo. Para os pequenos era o maior pesadelo.

São muitos e coisa regular os contos populares em que figura a Cabra Cabriola em ação. Os testemunhos de época logo se tornavam valiosos meios para as mães colocarem na linha seus filhos travessos.

Notas complementares:

Nomes comuns: Cabra Cabriola, Cabriola, Papão de Meninos, Bicho Papão, etc.

Origem Provável: O mito do Bicho papão que ataca as crianças travessas, é bem antigo e remonta ao tempo da Idade Média na Europa. É uma assombração portuguesa que se tornou parte do nosso fabulário. Na América Central, o Gulén-Gulén-Bo, é um negro que também assusta e come as crianças mal comportadas, e tem as mesmas características da nossa Cabriola.

No Brasil, deriva-se de um mito afro-brasileiro, onde acreditava-se tratar-se de um duende maligno que tomava a forma de uma cabra. Costumava atacar as mães quando estavam amamentando. Bebiam seu leite direto nos seus seios, e depois devoravam as crianças. Além de Pernambuco, há versões deste mito nos estados do Ceará, Bahia, Alagoas, Sergipe e Pará.

A figura da Cabra Cabriola, também é mencionada na Espanha e Portugal. Chegou ao Brasil durante o período da colonização portuguesa.

Fonte:
http://sitededicas.uol.com.br/cfolc.htm

Folclore de São Paulo (A Mulher da Meia Noite)


A Mulher da Meia Noite, também Dama de Vermelho, Dama de Branco, é um mito universal. Ocorre nas Américas e em toda Europa.

É uma aparição, na forma de uma bela mulher, normalmente vestida de vermelho, mas pode ser também de branco. Alguns dizem, que é uma alma penada que não sabe que já morreu; outros afirmam que é o fantasma de uma jovem assassinada que desde então vaga sem rumo.

Na verdade ela não aparece à meia-noite, e sim, desaparece nessa hora. Muito bela, parece uma jovem normal. Gosta de se aproximar de homens solitários nas mesas de bares noturnos. Senta com eles, e logo os convida para que a leve para casa.

Encantado com tamanha beleza, todos topam na hora. Entretidos, logo chegam ao destino. Parando ao lado de um muro alto, ela então diz ao acompanhante: "É aqui que eu moro...". É nesse momento que a pessoa se dá conta que está ao lado de um cemitério, e antes que diga alguma coisa, ela já desapareceu. Nessa hora, o sino da igreja anuncia que é meia noite.

Outras vezes, ela surge nas estradas desertas, pedindo carona. Então pede ao motorista que a acompanhe até sua casa. E, mais uma vez, a pessoa só percebe que está diante do cemitério, quando ela com sua voz suave e encantadora diz: "É aqui que eu moro, não quer entrar comigo?". Gelado, da cabeça aos pés, a única coisa que a pessoa vê, é que ela acabou de sumir diante dos seus olhos, à meia-noite em ponto.

Notas complementares:

Nomes comuns: Moça de Branco, Noiva de Branco, Mulher de Branco, Fantasma da Estrada, Sapatos Vermelhos, Mulher de Duas Cores (Minas e São Paulo), Alamoa (Fernando de Noronha), La Llorona (México), Paquita Munhoz (Região dos Andes), La Sayona (Venezuela), etc.

Origem Provável: É um Mito universal. Na América Hispânica, no tempo da colonização Espanhola já era conhecido. Existem versões semelhantes, Na América do Norte e Europa. Em São Paulo e Minas, há relatos que mencionam uma aparição que veste sempre roupas de duas cores. Branco com Preto, Vermelho com Azul, Azul com Amarelo, etc. Em Fernando de Noronha é uma Loura que, depois de atrair suas vítimas, diante delas, se transforma em um horrível esqueleto.

No México há uma versão local, La Llorona, que é uma mulher que afogou seus dois filhos e depois se suicidou. Então perambula chorando, ora pelas beiras de rios em busca deles, ora pelas estradas pedindo carona com um bebê no colo. Quando entra no carro, dá para ver que é uma assombração com o seu rosto de caveira.

Para muitos trata-se de uma noiva, que na noite do seu casamento, quando se dirigia à igreja, foi atropelada. Era uma noite de sexta-feira. Então nas noites de sexta, ela volta à estrada vestida de noiva e pedindo carona. Já dentro da cabine do carro, ela se dissolve, vezes como cera derretida, vezes como fumaça.

Fonte:
http://sitededicas.uol.com.br/cfolc.htm

Folclore Brasileiro (A Cuca)


A Cuca ou a Coca é um ente velho, muito feio, desgrenhado, que aparece no meio da noite para levar consigo crianças inquietas, que não dormem ou falam muito. Para muitos, a Coca ou Cuca, é apenas uma ameaça de perigo sem forma. Amedronta pela deformidade. Ninguém sabe ao certo que aparência tem esse fantasma.

A maioria, no entanto, identifica-a como uma Velha, muito velha, enrugada, de cabelos brancos e assanhados, magríssima, corcunda e sempre ávida pelas crianças que não querem dormir cedo e fazem barulho. É um fantasma noturno. Figura em todo Brasil nas cantigas de ninar. Não está localizado em nenhuma região específica, mas em toda parte. Atua em todos os lugares mas nunca se disse quem carregou e como o faz. Conduz a criança num saco e some imediatamente depois de fazer a presa, sem deixar vestígios.

Em Portugal chama-se Coca, e possui uma forma de Dragão. Lá, na província do Minho, no meio da procissão de Corpus Christi, a figura de São Jorge a ataca com sua lança.

Mas no Brasil, ela não é monstruosa, tem forma humana, tanto que se confunde com o Preto Velho, ou a Negra Velha das histórias.

Vem ainda de Portugal, um espantalho que seguia a Procissão dos Passos. No Brasil, este chamava-se Farrinoco, era conhecido como A Morte e amedrontava as crianças que atrapalhavam o cortejo.

Literalmente quer dizer, entidade fantástica, com que se mete medo às criancinhas. A Cuca Paulista parece o Negro Velho de Minas, o Tutu de outros estados, e o Papão de Portugal. Em Pernambuco significa mulher velha e feia, espécie de feiticeira, também Quicuca, ticuca, rolo de mato. Há uma quadrinha mineira, que se originou de uma criada para o Papão Português. Na versão mineira, a palavra Papão é Coca.

Vai-te, Coca, sai daqui
para cima do telhado;
deixa dormir o menino,
seu sono sossegado.

E há a versão nordestina, a mais comum dessa cantiga:

Durma, nenê,
Senão a Cuca vem,
Papai foi à roça,
Mamãe logo vem.

Informações complementares:

Nomes comuns: Cuca, La cuca, Cuco, Coca, Coco, Santa Coca, Farrinoco, Papão.

Origem Provável: Européia. Possui elementos da Mitologia Grega e agregou alguns vestígios da Mitologia africana, como, por exemplo, O Negro Velho, Negro de Angola.

Na Espanha há a Coca, serpente de lona e papelão que sai no dia de Corpus Christi. A Coca é apenas um dragão gigante, com patas de grilo, cauda de serpente e um par de asas.

A palavra castelhana Coco, viria do Grego Kakos ou Cacos, um monstro meio homem, meio animal, feio, feroz e bruto. Este representaria uma entidade fantástica, que se julga habituada a devorar criaturas humanas, como faz o Papão. Na Espanha era um fantasma para assombrar as crianças e já era citado nos séculos XVI e XVII.

Há também a tradição de uma Coca humanizada. Na Vila Nova de Portimão, no Algarve, as crianças portuguesas correm apavoradas por causa de um espantalho que segue a procissão dos Passos. Este veste uma túnica amortalhada, cabeça com um capuz afunilado onde os olhos espreitam por dois buracos, que se encarrega de afastar os meninos para que não perturbem a marcha.

Em Portugal, no Minho, chamam de "coca", uma abóbora vazia, cortados os lugares da boca e olhos, com uma luz acesa dentro, que colocam em lugares desertos, à noite, para amendrontar crianças e aldeões distraídos.

Há ainda o elemento africano que, no Brasil, ajudou a dar a forma atual do mito. No idioma nbunda, Cuco ou cuca, quer dizer avô e avó. Simboliza a velhice, a melancolia física. É assim que surge o "negro Velho" de Minas, um Cuca Angolês. No Nordeste, o "negro de Angola" vale pela "Coca" e pela "Cuca" do Sul do Brasil, que assusta as crianças que se julgam espertas.

Coca serve de prefixo para outros bichos fantásticos, como a Cocaloba, espécie de Cabra Cabriola de Portugal, que cerca as casas onde as crianças dormem, procurando incansavelmente raptá-las. A Cocaloba não veio para o Brasil com os emigrantes.

Em Tupi, cuca, significa trago, o ato de engolir, de onde vem a ideia de voracidade. Em resumo, "Coca" e "Cuca", resumem espécimes africanos, europeus e ameríndios. Assim, como fantasma, herdou do Coco, sua aparência demoníaca; da Coca, o ar de monstro, e do Cuco negro, a aparência misteriosa e antropófaga.

Fonte:
http://sitededicas.uol.com.br/cfolc.htm

sábado, 21 de agosto de 2010

Arnoldo Pimentel e Silviah Carvalho (Amor e Amizade)


A brisa toca a noite com seu silêncio
Pareço sentir o aroma leve do vento a tocar em ti
Que me leva a quimeras de momentos
Recordações criadas por mim

*Se eu contasse quantos castelos de areia desfiz
E quantos que com minhas próprias mãos construí
Desfaria amizades, inutilizaria lembranças,
Mataria esperanças das muitas promessas que ouvi

Imagino seu sorriso, seus cabelos soltos ao ar
Seus olhos a me fitar. Sinto-me feliz só em pensar
Vivo tardes de lembranças que me nutrem de esperança
De talvez um dia... Quem sabe um dia te encontrar

*Esperança, palavra por mim desconhecida
Quase perdi a vida tentando a encontrar
Porem, não me dou por vencida e prefiro esperar
Esse amor tão falado, do qual vivo a me esquivar

Você me perguntou o que eu faria se gostasse de alguém
Respondi que ficaria sempre perto dela, a tratando bem
Com amor, amizade, carinho, lhe suprindo as vontades
Para que nada desejasse d mais ninguém

Sei, não posso pôr sentimento em seu coração
Mas posso ser seu amigo, mais ainda que um irmão
... Quem sabe assim ela me notasse
Quem sabe assim você me amasse...

*O amor necessita de alimento
Torna-se um tormento se não se saciar
Vem o sofrer, a carência, a saudade
A amizade já é um amor... Com outras finalidades.

Fonte:
Silviah Carvalho. Um coração que ama.

Fernando Sabino (O Enviado de Deus)



FAZIA um dia lindo. O ar ao longo da praia era desses de lavar a alma. O meu fusca deslizava dócil no asfalto, eu ia para a cidade feliz da vida. Tomara o meu banho, fizera a barba e, metido além do mais num terno novo, saíra para enfrentar com otimismo a única perspectiva sombria naquela manhã de cristal: a da hora marcada no dentista.

Mas eis que o sinal se fecha na Avenida Princesa Isabel e um rapazinho humilde se aproxima de meu carro.

— Moço, me dá uma carona até a cidade?

O que mais me impressionou foi a espontaneidade com que respondi:

— Eu não vou até a cidade, meu filho.

Havia no meu tom algo de paternal e compassivo, mas que suficiência na minha voz! Que segurança no meu destino! Mal tive tempo de olhar o rapazinho e o sinal se abria, o carro arrancava em meio aos outros, a caminho da cidade.

Logo uma voz que não era a minha saltou dentro de mim:

— Por que você mentiu?

Tentei vagamente justificar-me, alegando ser imprudente, tantos casos de assalto...

— Assalto? A esta hora? Neste lugar? Com aquele jeito humilde? Ora, não seja ridículo.

Protestei contra a voz, mandando que se calasse: eu não admitia impertinência. E nem bem entrara no túnel, já concluía que fizera muito bem, por que diabo ele não podia tomar um ônibus? Que fosse pedir a outro, certamente seria atendido.

Mas a voz insistia: eu bem vira pelo espelho retrovisor que alguém mais, atrás de mim, também havia recusado, despachando-o com um gesto displicente. Nem ao menos dera uma desculpa qualquer, como eu. Não contaria com ninguém, o pobre diabo. Como os mais afortunados podem ser assim insensíveis! Era óbvio que ele não dispunha de dinheiro para o ônibus e ficaria ali o dia todo.

E eu no meu carro, de corpo e alma lavada, todo feliz no meu terninho novo. Comecei a aborrecer o terno, já me parecia mesmo ligeiramente apertado. Dentro do túnel a voz agora ganhara o eco da própria voz de Deus:

— Não custava nada levá-lo.

Não, Deus não podia ser tão chato: que importância tinha conceder ou negar uma simples carona?

Ah, sim? Pois então eu ficasse sabendo que aquele era simplesmente o teste, o Grande Teste da minha existência de homem. Se eu pensava que Deus iria me esperar numa esquina da vida para me oferecer solenemente numa bandeja a minha oportunidade de Salvação, eu estava muitíssimo enganado: ali é que Ele decidia o meu destino. Pusera aquele sujeitinho no meu caminho para me submeter à prova definitiva. Era um enviado Seu, e a humildade do pedido fora só para disfarçar — Deus é muito disfarçado.

Agora o terno novo me apertava, a gravata me estrangulava, e eu seguia diretamente para as profundas do inferno, deixando lá atrás o último Mensageiro, como um anjo abandonado. Ao meu lado, no carro, só havia lugar para o demônio.

— Não tem dúvida: aquele cara me estragou o dia — resmunguei, aborrecido, acelerando mais o carro a caminho da cidade.

Quando dei por mim, já em Botafogo, entrava no primeiro retorno à esquerda, sem saber por quê, de volta em direção ao túnel.

Imediatamente me revoltei contra aquela tolice, que apenas me faria perder o dentista — o que, aliás, não seria mau. Mas era tarde, e o fluxo do tráfego agora me obrigaria a refazer todo o percurso.

Como explicar-lhe, sem perda de dignidade, que havia mentido e voltara para buscá-lo? Certamente ele nem estaria mais lá.

Estava. Foi só fazer a volta na praia, e pude vê-lo no mesmo lugar, ainda postulando condução. Detive o carro a seu lado. Justificando meu regresso, gaguejei uma desculpa qualquer, que ele mal escutou. Aceitou logo a carona que eu lhe oferecia: sentou-se a meu lado como se fosse a coisa mais natural do mundo eu ter voltado para buscá-lo.

Era mesmo alguém que pedia condução simplesmente porque não tinha dinheiro para o ônibus. Desempregado, ia para a cidade por não saber mais para onde ir — o que já é outra história.

Só não me pareceu que fosse um enviado de Deus: não perdi o dentista e, ainda por cima, Deus houve por bem distinguir-me com um nervo exposto.

Fonte:
SABINO, Fernando. Deixa o Alfredo Falar! Rio de Janeiro: Record, 1985.

Fábio Lucas (A Leitura do Crítico)


O poema não se concretiza como um silêncio perante um crítico . No mínimo deseja emocioná-lo, quando não entra em diálogo com ele, seu leitor mais equipado. Anseia por que ele fale após a leitura. Torna-se um apelo.

Cada ficção traz consigo uma rede de eventos, cuja conexão precisa ser decifrada. Repousa por detrás da trama um argumento, talvez o relato do mundo real. Constitui uma provocação ao comentário, exige uma resposta as inumeráveis questões ali adormecidas.

A obra necessita de uma fala, de um eco que a julgue e consagre. O despertar de qualquer peça literária reside na sua leitura. O leitor passivo acorda os apelos mais elementares, se satisfaz com o senso comum mais vulgar, pelo qual se conhecem as pessoas de fácil manobra. Já o leitor ativo não se contenta com os argumentos e as imagens retraçadas pelo autor, ou pelo agente de uma intencionalidade direta, refratária às sutilezas verbais. A cadeia de palavras organizada no texto despertam nele, leitor, as reminiscências de outras informações, captadas de leituras passadas e observações colhidas no comércio com a comunidade em estado de comunicação. Ativa memória da convivência coletiva.

O texto que se apresenta ao leitor ativo de consciência crítica, está mergulhado no grande universo da Cultura, na herança histórica, que compreende gerações e gerações de expectativas colhidas na rede literária.

O crítico é o leitor qualificado que tenta levar aos seus próprios leitores a experiência da leitura armada. Sua escrita se reveste de juízos de valores, numa perspectiva de maior objetividade possível. Reconhece a dificuldade de pesar a emoção despertada mediante a leitura, assim como a aquisição argumentada.

Ademais, durante a leitura, o crítico é levado a suspender temporariamente a noção que tem da realidade. Ou a pactuar com a forma e o sentido que o autor imprimiu à obra, dando a este cabal credibilidade. Quem já leu Invenção de Orfeu de Jorge de Lima e Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa sabe do ajuste mental do leitor ao linguajar do escritor.

Ninguém desconhece que o poeta é capaz de transmitir experiência cujo refinamento e precisão não chegam a ser usuais aos outros meios de comunicação. Isso quer dizer que o poeta emprega uma técnica verbal que exprime intensamente um modo exclusivo e pessoal de sentir. É que ele se mostra tanto interessado nos sentimentos, quanto nas palavras. Emoções, palavras e conceitos são inseparáveis do poeta na construção do seu texto.

Pela glosa ou comentário crítico transformamos o texto em sentido, asseveram os adeptos da hermenêutica literária. A interpretação seria o substrato da experiência da leitura, concedemos ao texto uma interpretação crítica, arte de conferir sentido aos signos identificados na serie literária.
Há, na duração histórica, duas respostas básicas ao estatuto da obra no conjunto literário. A primeira canoniza-a e a torna unidade singular entre os paradigmas representativos que estruturam o paço social.

A obra “clássica” destina-se a realizar a mediação entre ó passado e o presente, na medida em que é portadora de validade nas diferentes épocas em que é lida. Permanece singular na sucessão das expectativas, pois estabelece uma situação dialógica com o publico de cada época. Interessa, portanto, na continuidade movente da experiência literária, mantendo-se intacta diante dos horizontes que não param de mudar.

Se ultrapassa os tempos é porque submeteu-se ao julgamento estéticos de épocas diferentes, desde a inicial até a presente, numa cadeia de recepções que lhe atribuem determinado escalão na hierarquia literária. Sobreviveu desde o efeito inicial até o atual sem decair de significação.

O leitor de hoje seguramente não consegue reviver o efeito da recepção inicial da obra. Teria que transportar para hoje os leitores da edição inicial, conhecer-lhes as motivações da leitura. É desta que se da o verdadeiro nascimento da obra, como ato cognitivo, somente se opera na data da leitura, ou seja, quando a obra se dá à luz do entendimento.

Estamos ainda na resposta canonizadora da obra, aquele que atravessa o tempo da cristalização do efeito das leituras através das gerações. Há, na fase contemporânea, o falso efeito canonizador; o efeito do consumo, sob o jugo do mercado e da publicidade. A moda, no caso, leva à instrumentação da consciência contábil, que aprisiona a consciência ingênua.

O efeito de consumo se compraz em seduzir a demanda desarmada, aquela que vive ao arrepio das solicitações primarias dos espíritos.

Já o efeito seletivo é diferente: une ao conhecimento da obra duas forças: a primeira vem a ser a passagem pela prova do tempo, o que significa guardar a aura que ela carregou nas várias fases de indagações de variadas épocas; a segunda demonstra o reconhecimento da transcendência da obra ao horizonte da vulgaridade. A leitura o leitor aparelhado adiciona a comparação com outras leituras, formado na consciência do seu leitor uma instância de escrutinação valorativa.
Daí decorre a leitura transtextual, já que a obra comumente se remete a outra, cita, alude, parodia, glosa ou, em suma, se intertextualiza.

Passemos, agora, à segunda resposta à leitura crítica: a que investiga a obra como transgressora do paradigma, na sua busca de originalidade expressiva. Como em tudo o que eu constitui promessas de ciência e objetividade no âmbito das Humanidades, temos que determinar a natureza do desvio da norma ou da ruptura com o sistema vigente de valores.

Ora, analisar uma obra intrinsecamente, desgarrada de seu contexto, torna-se impossível sem a remissão às demais obras de que ela se tornou desvio ou exceção. Somente após consulta a um amplo espectro de analogias e de contrastes é que se encontrará o rosto da originalidade, dissonância e excepcionalidade da obra. Somente na ação comparativa é que se determinam os prógonos e os epígonos.

O estilo da época vira uma constante narrativa supra-histórica. O Clássico é, ao mesmo tempo, uma realidade histórica e supra-histórica. O critério de valor (norma) confere à obra sua legitimação histórica e supra-histórica, ou seja, estilística. Algo lhe garante a presença intemporal: contemporânea de qualquer tempo presente. De certa forma, uma das modalidades do ser histórico.

O prógono é o cume de um estilo, possui antecedentes e conseqüentes, precursores e sucessores. Tem a força de propagação e sobrevive às ruínas do tempo. É clássica uma obra porque deve a si mesma a sua significação. Depende ela da negatividade introduzida no seu tempo: ser exceção nos paramos da arte expressividade.

A força estética da obra repousa em três aspectos; unidade, complexidade e intensidade. A obra artística, não raro, apresenta-se como uma peça da totalidade, como o arco de um círculo. A obra pode sugerir ao leitor a sua aliança com uma totalidade aparentemente ausente. Ao mesmo tempo, ela é uma totalidade intensiva, como a concebeu G. Lukacs.

Toda obra e arte, para alcançar o seu mais respeitável e legítimo juízo de valor, tende a responder, na sociedade contemporânea, às seguintes questões: primeiro, às solicitações do publico, cujos critérios de avaliação estão muito próximos das sugestões levantadas da oferta comercial, portanto, da publicidade. Segundo; compor-se de acordo com a internacionalidade do autor, que determina a natureza de sua experiência e, ao mesmo tempo, apresenta-se à opinião, a fim de obter tanto o reconhecimento estético, quanto os meios de subsistência pessoal. O artista aspira a ser um profissional do seu ofício, além, é claro, de satisfazer-se com a necessidade íntima de se comunicar por intermédio da sua obra, já que também atende a uma pulsão comunicativa e desinteressada. A tais objetivos corresponde, por parte do leitor (consumidor) a necessidade de receber informação nova.

Enfim, a obra ideal a que visa o crítico é aquela universal e intemporal, que constituía o bem comum da humanidade e legítimo patrimônio nacional. Há de ter, como vimos, a conjuração dos três aspectos: unidade, complexidade e intensidade.

A obra nasce com a leitura e esta é feita de acordo com determinado horizonte de expectativas. Que horizonte seria esse? Assemelha-se a um conjunto de hipótese compartilhada por uma geração de leitores. Entre o leitor, a obra e o público forma-se uma cumplicidade de informações e valores, de tal sorte que se instaura entre eles verdadeira harmonia com o quadro social.

A apreciação individual do crítico, quando atinge os canais de comunicação com o publico, exerce função didática, estabiliza conceitos e ajuda a fixar padrões de gosto. De forma auxilia a formular a avaliação coletiva e social da obra de arte.

A legitimidade do juízo crítico provém do julgamento da posteridade, quando lhe dá sustento, homologação e reconhecimento, o que pressupõe a objetivização do valor, ainda que de modo empírico. A longo prazo, a boa literatura prima sobre a má, que cai no olvido. O tempo cassa a literatura dos falsos valores, consagra a tradição do novo. Instaura a dinâmica da negatividade. Obras excepcionais refazem o quadro contextual, alteram o gosto e as expectativas.
Escolas e teorias passam e a obra continua sem a resposta cabal dos seus críticos. Ela aparece costumeiramente caucionada a uma verdade. A verdade transitória da época.

Artigo publicado na revista da Academia Paulista de Letras.

Fontes:
Helio Consolaro. Portal Por Tras das Letras.
Imagem = André Lux

Antonio Cândido (Literatura e Sociedade: A Literatura na Evolução de uma Comunidade) Parte 5


4 — A comunidade absorve o grupo

O terceiro momento que pretendemos fixar situa-se na passagem do século XIX: entre 1890 e 1910, digamos sem maior preocupação cronológica.

A cidade é outra. Tem setenta mil habitantes naquela data; duzentos e quarenta mil nesta. É um importante centro ferroviário, comercial, político, onde a indústria se esboça. A população mudou radicalmente. Não há mais escravos, os caipiras vão sumindo, chegaram magotes de italianos, espanhóis, portugueses, alemães. Há uma diferenciação social muito mais acentuada, quer no sentido horizontal do aparecimento de novos grupos, e alargamento dos que havia, quer no vertical, em que as camadas se superpõem de modo diverso, recompostas quanto ao número, à composição, aos padrões de comportamento. A Faculdade de Direito é importante, mas já surgiram ou vão surgir outros institutos de ensino superior, e o novo perfil da estrutura social e demográfica não favorece mais a sua posição excepcional. É um segmento integrado, ao lado de outros. A literatura já não depende mais dos estudantes para sobreviver, nem eles precisam mais da literatura como expressão sua, para equilibrar-se na sociedade. No lapso corrido desde o decênio transformador de 1870, deu-se um processo decisivo: a literatura é absorvida pela comunidade — antes impermeável a ela — e deixa de ser manifestação encerrada no âmbito de um grupo multifuncional, ao mesmo tempo produtor e consumidor. Formou-se um público, e se não a profissão de escritor (cuja primeira associação se esboça aqui pouco antes de 1890), certamente uma atividade literária que não mais depende de um só grupo, recrutando os seus membros em vários deles.

Deixando de ser manifestação grupai, ela vai tornar-se manifestação de uma classe — a nova burguesia, recém-formada, que refinava os costumes segundo o modelo europeu, envernizada de academismo, decadentismo e art-nouveau.

Nesse terceiro momento a literatura se torna acentuadamente social, no sentido mundano da palavra. Manifesta-se na atividade dos profissionais liberais, nas revistas, nos jornais, nos salões que então aparecem. E por uma conjunção verdadeiramente providencial, é o momento do Parnasianismo e do Naturalismo.

Com efeito, assim como as tendências românticas prestaram-se à definição de uma literatura de grupo, oposta de certo modo à comunidade tacanha, pelo coeficiente de isolamento e antagonismo que trazia, o Parnasianismo e o Naturalismo se ajustaram com vantagem a essa difusão da literatura na comunidade em mudança, pelos seus cânones de comunicabilidade e consciência formal. Expressão clara, embora elaborada; sentimentos naturais; conformidade ao bom senso e à realidade como ela é; comunicabilidade, porém definida segundo os padrões da gente culta, incorporada à classe dominante e dispersando-se a partir dela pela população.

Daí um certo aristocratismo intelectual, certo refinamento de superfície, tão do agrado da burguesia, que nele encontra atmosfera confortável e lisonjeira. Não é de estranhar, portanto, que as concepções literárias de então se hajam enraizado em São Paulo, a ponto de até hoje formarem a base do gosto médio, que parou em Vicente de Carvalho e Martins Fontes. Os oradores, os jornalistas, os homens públicos ainda se reportam automaticamente a elas, quando elaboram a sua expressão, e os poetas modernos mais queridos são os que a elas mais se prendem: Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia.

Grande significado social, como se vê, tem este processo por meio do qual a produção literária se transferiu do grupo fechado de estudantes para a comunidade, organizando-se de acordo com padrões definidos pelos da elite social. Processo que serviu à própria poesia romântica — ao alargar o âmbito dos seus consumidores, dando-lhes difusão que antes não possuía. E ao fazê-lo, recalcou as tendências satânicas tão características do meado do século, selecionando as do sentimentalismo e do nacionalismo, mais comunicáveis, e de fato incorporados pela musa parnasiana. Resultado: talvez nunca tenha havido em São Paulo uma coincidência tão grande entre a inspiração dos criadores, o gosto do público, a aprovação das elites. Contos e romances reais ("a gente parece ver"; "parece que aconteceu com a gente"); poemas sonoros, límpidos, fáceis de decorar e recitar, mas ao mesmo tempo corretos, de acordo com as normas da língua — cujo cultivo encontra então o seu apogeu. Não é por mera coincidência que dois dos poetas mais característicos da época sejam professores: Francisca Júlia e Sílvio de Almeida — este, bom conhecedor do idioma. Nem que o mais famoso romancista, dentre os que viviam em São Paulo, fosse Júlio Ribeiro, gramático eminente. "Língua", "linguagem", "apuro", "estilo terso", "escoimado de erros", "vernáculo"; "decoro", "lapidar", "escorreito", "nitidamente desenhado", "fino lavor", "opulento", "riqueza de vocabulário"; "real", "traçado ao vivo", "tirado da vida", "só falta falar", — eis um ramalhete da crítica do tempo, mais eloquente do que tudo que pudéssemos dizer.

Compreensível, portanto, que ocorresse então o beneplácito dos poderes à literatura. Literatura na política, na administração. Literatura como degrau de ascensão social. Solenidades públicas. Academias literárias — não mais de mocinhos imberbes, cedo dispersados pela vida, mas de respeitáveis senhores, com posição na sociedade. Salons em vez de repúblicas; em vez das sessões de grêmio, a acolhida ampla de um público já constituído, com interesses norteados pela burguesia semiletrada.

No entanto, a herança dos mocinhos parece qualitativamente mais sólida, — pois de todo esse período, tão cheio de talentos estimáveis e de um real fervor pelas coisas do espírito, apenas nos fere a sensibilidade, hoje em dia, Vicente de Carvalho. Olhando-o em bloco, vemos que a sua função foi sobretudo social: a incorporação efetiva da literatura à vida da comunidade paulistana, por meio dos padrões de suas classes dominantes.
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continua……………
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Fonte:
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9. ed. RJ: Ouro Sobre Azul, 2006.