sábado, 1 de maio de 2010

Lairton Trovão de Andrade (Pinhalão)


PINHALÃO, MINHA TERRA

Quisera cantar minha terra natal
E muito acender deste povo a paixão;
Por certo, não há no Brasil terra igual,
Que possa atrair a qualquer coração.


Em solo tão rico de plena poesia,
Com graça, surgiu e se ergueu Pinhalão;
E o seu mui glorioso futuro teria
História heróica e sem par tradição.

Situada no norte setentrional,
Outrora região de soberbo pinheiro,
Nasceu silenciosa, também natural,
No último dia do mês fevereiro.

Menina dos olhos do pinhalonense,
Irmã natural da araucária do sul;
Saudável torrão – solo paranaense –
Dos dobres festivos da gralha azul.

Com ruas tão amplas, bem arborizadas,
De muita esperança sorri Pinhalão;
Seus dias são sempre canções de alvoradas,
Que prendem os filhos ao seu coração.

Existe centelha de felicidade,
Que vida feliz tem-se neste lugar!
E quem se mudou para outra cidade,
Espera, em breve, poder regressar.

Pra mistificar esta bela paisagem,
Jovial serpenteia seu rio, Pinhalão;
Levando em seu curso a voz da mensagem,
Que espera da gente vital proteção.

O “Boa Vista” altivo, qual dedo de Deus,
No alto insuflado – beleza da serra –
Parece trazer opulência aos plebeus,
Que vivem o nobre labor desta terra.

Região benfazeja, por Deus, abençoada,
Aqui já prosperam sutis morangais;
E a sua lavoura é prenda dourada,
Perante a altivez dos rubis cafezais.

Verdejam, à margem da estrada, amoreiras,
Da seda é fonte de orgulho tão vasto;
Além, na colina, estão vacas leiteiras,
Tranquilas vivendo da seiva do pasto.

Estâncias floridas de clima ameno,
Jardim-paraíso em perene maná;
A brisa suave balança, em aceno,
Cheirosa ramagem de maracujá.

“Cidade querida, feliz Pinhalão,
Tremulam as cores da tua Bandeira;
E o teu Hino Pátrio só traz emoção
E orgulho à Pátria gentil brasileira”.

Pinhalão, 20 de setembro de 1993.

DIA DE PINHALÃO

Alegra-se minha terra
Com sua emancipação;
Nasceu este município
Com nome de Pinhalão.

Foi no século passado
Que surgiu belo rincão;
Pequeno entre os municípios,

Mas grande para a Nação.

É 14 de dezembro
O dia deste torrão;
Com senso de patriotismo
Digo: Viva, Pinhalão!

Salve, Leonardo Nogueira!
Salve, primeira gestão!
Homem do rico e do pobre
Que governou Pinhalão.

Não se aborreça jamais
Com tantas rimas em “ao”,
Pinhalão é a melhor rima
Da seiva do coração.

Cheio de vida feliz
Bato palmas, doce chão;
És nossa pequena pátria,
És mesmo grande paixão!

Enquanto no meu viver
Tiver imaginação,
Hei de louvar e dizer:
Oh, querida, Pinhalão!
***

RIO PINHALÃO
(RIBEIRÃO GRANDE)

Águas mansas, mansas águas,
Que descem pelas encostas,
Brincando com redemoinhos,
Levam sonhos, levam mágoas,
Decepções cheias de crostas,
Em chorosos burburinhos.

Do Rio, em cada paragem,
De alegria ou de tristeza,
Há história pra contar;
A enchente que alaga a vargem,
Com a forte correnteza,
Arrasta histórias pro mar.

Como é imensa a saudade
Dos infantes gorjeios tantos
Em águas do Ribeirão!
Foram-se a felicidade
Que trouxera seus encantos
Às ondas do Pinhalão!

As flores das quaresmeiras
Povoam suas barrancas,
Matizando águas do Rio.
Sobre as verdes trepadeiras
Pousavam garcinhas brancas
Que voavam pro céu de anil.

Na altura do “Lavador”
Senhoras branqueavam roupas,
Num festival de alegria.
O ágil Martim Pescador
Prendia-se nas garoupas
Da pujante cercania.

E a tranqüila criançada
Saltitava em algazarra
Na prainha do “Razão”.
Os gritos da petizada,
Como canto de cigarra,
Zumbiam no Ribeirão.

O “Poção”, a “Corredeira”,
A velha “Ponte-de-Pedra”
O lago ameno da “Usina”!
A brIsa da “Amoreira”,
Beleza que ainda medra
Até a saudosa “Turbina””

Extensa aguada em represa
Na “Ponte da Serraria”
– Cevada região pesqueira!
Ali, havia a certeza
De pródiga pescaria
De segunda à sexta-feira.

O Rio declina o planalto...
É mais bravio na ladeira
– Protegido pela mata.
Tomba, espumejante, do alto,
Criando linda cachoeira,
Em dobres de serenata.

Que saudade eu tenho agora
Dos meus tempos de esperança
Nas margens do Pinhalão.
Saudade tanta se aflora
Dos dias quando, em criança,
Sonhava meu coração.

... E descem as mansas águas,
Descem pelas encostas,
Águas do rio que se expande...
Leva sonhos, leva mágoas,
Decepções cheias de crostas,
O calmo Ribeirão Grande.

Pinhalão, 03 de novembro de 2003.

VILA GOMES
(Memória de Pinhalão)

Nesta Vila, onde moro,
Passaram-se muitos nomes;
Quem deu origem à Vila
Foi um tal de Chico Gomes.

Havia, então, só uma rua,
Com casas à beira chão;
Foi esta rua a primeira
Que surgiu em Pinhalão.

Na memória há moradores,
Num bel desfilar sem fim:
Zé Floriano, nhá Frosina
E Caetano Terezin...

Dito Machado, Zezico,
Tião Moreira, Malaquias,
“Joaquim, Pedro e Antônio Melo”,
Seu Bonejo e Dito Dias...

O tio Nório, Zé Bocaina,
Seu Leonide, nhô Servino,
João Marcondes, siá Nardina,
E, na rima, o tio Josino.

Pedro Rita, Zé Estevo,
Tião Maia, nhô Bacelar,
Seu Reni, Liseu Machado
E outros que se viu passar...

Esta rua , no futuro,
Ia cruzar Pinhalão;
Por ela, na linha reta,
Chegar-se-ia à estação.

Era dono de alguns lotes
O pioneiro Chico Gomes;
Morava na mesma rua,
Antes de ser Vila Gomes.

Junto da sua morada,
Inda em terra sertaneja,
Determinou o lugar
Pra construir a igreja.

Ao registrar a promessa,
Lavrou o mais nobre madeiro
E, em sinal de devoção,
Ergueu ali o cruzeiro.

No fundo da propriedade,
Havia silêncio sério;
Poucos são os que hoje sabem
Que ali era o cemitério.

Portanto, pinhalonenses,
A mesma Vila, onde moro,
É ancestral de Pinhalão,
Cidade que comemoro.

No início deste milênio,
A praça de Pinhalão
É feliz co´as sete vilas
E a Estrela Setentrião!

Pinhalão, 21 de março de 2005.

CRUZEIRO DA VILA GOMES
(Memórias de Pinhalão)

O cristão do Chico Gomes
Lavrou o mais nobre madeiro
E, em sinal de devoção,
Ergueu, na Vila, o Cruzeiro.

Mas, um dia seu terreno
Caiu nas mãos de um tacanho;
Sem respeito à religião,
Houve lá horror tamanho.

Pois, comprou, sem crer na cruz,
Aquele local ungido;
Tomou posse pra morar,
Com direito adquirido.

A madeira do Cruzeiro
Foi, com escárnio, serrada,
Para humilhante baldrames
Duma maldita “privada”.

Mas muçurungas bravias,
Testemunhas contra o herege,
Invadiram a privada,
Antes das humanas fezes.

Transformou-se em grande caixa
De himenópteras sem mel
– Venenosas e mortais –
Só por castigo do céu.

Eram guardiãs da relíquia
As muçurungas ferozes;
Todos que ali se achegavam
Bramiam “ais” em suas vozes.

Pra exterminar o tormento,
A colméia foi queimada;
E o blasfemo jamais viu
A privada inaugurada.

Não fosse a ignorância ímpia,
Nossa cultura de fé
Veria o Cruzeiro, ainda,
Contando histórias, de pé.

E a Vila Gomes chorou
O fim de uma santa cruz,
Símbolo da Redenção,
Sinal da crença em Jesus.

Pinhalão, 27 de março de 2005.

HINO DA PADROEIRA DE PINHALÃO

I

Soberana divina dos céus,
Linda rosa de encanto eternal,
O perfume da graça trazeis,
Pra solver os odores do mal.

ESTRIBILHO

Pinhalão protegei, ó Padroeira,
E cobri-nos com o azul do seu véu;
Transformai esta terra querida
Em feliz ante-sala do céu!

II

E surgistes nas águas do rio,
Mas viveis na mansão celestial;
Água viva, que alveja, sois vós,
Pra nos dar coração virginal.

ESTRIBILHO

Pinhalão protegei, ó Padroeira...

III

Ó Maria, coragem dos justos,
À nossa alma trazei fortaleza!
Conduzi-nos às plagas dos céus,
Pois em nós há imensa fraqueza!

ESTRIBILHO

Pinhalão protegei, ó Padroeira...

IV

Pinhalão sempre quer vos amar,
Doce Mãe, Senhora Aparecida,
Dai-nos sempre Jesus feito pão,
Luz do mundo, por vós, concebida.

ESTRIBILHO

Pinhalão protegei, ó Padroeira...

***

HINO DE PINHALÃO

I

Sob a crista altaneira da serra,
Proliferas febril, Pinhalão;
Do humilde recanto da Terra
Surges meiga na imensa Nação.

Nas sombras dos teus bosques
Brilhou o céu de anil,
Profundo desafio
À virgem selva em flor.

ESTRIBILHO

Doce torrão querido,
Reino dos cafezais,
Onde se têm palmeiras
E lindos pinheirais.

II

Verdes campos de reses mimadas,
Tremulantes jardins de cereais,
Enobrecem tuas mãos calejadas,
Sobre o solo de mil minerais.

As ondas das colinas,
Planícies, serranias
Emitem melodias
Do ouro vegetal.

ESTRIBILHO

Doce torrão querido,
Reino dos cafezais,
Onde se têm palmeiras
E lindos pinheirais.

III

Terra amada de eterna bonança,
Com firmeza aderiste ao Brasil;
Turbilhões em caudais de esperança
Revigoram-te o ardor varonil.

“Rio Cinzas”! “Boa Vista”!
“Triângulo” e “Serrinha”!
“Campina” e “Lavrinha”!
Oh! Salve! Salve! Salve!

ESTRIBILHO

Doce torrão querido,
Reino dos cafezais,
Onde se têm palmeiras
E lindos pinheirais.

***

Fonte:
Colaboração do autor

Secretaria de Cultura de Maringá (Agenda de Maio)



De 03 a 31/05 – PROJETO SALA INFANTO-JUVENIL / HORA DA HISTÓRIA (horário conforme agendamento de turmas pelo telefone 3901-1794, com entrada franca). Histórias disponíveis: “Os doze trabalhos de Hércules”, adaptação de Monteiro Lobato. Contadora: Zery Monteiro + “A visita do Príncipe”, adaptação de Monteiro Lobato. Contadora: Ivone Ribeiro da Silva + “Félix e seu fole fedem”, de Elias José. Contadora: Zery Monteiro +

Dia 07/05 – Palestra “Vida e obra de Monteiro Lobato”, ministrada por Léo Pires Ferreira, na Sala Joubert de Carvalho, Biblioteca Centro, das 9 às 12 horas (entrada franca, mediante inscrição).

Dia 10/05 – Desfile comemorativo / aniversário de Maringá, às 9h30, na Avenida XV de Novembro. Tema: O TEATRO INFANTIL DE MARIA CLARA MACHADO.

CLUBE DE LEITURA ADULTO (na Biblioteca Centro, entrada franca)

Dia 15/05, às 10 horas – Livro: “Crime e Castigo”, de Dostoievski. Coordenação: Geni Matsuda.

CLUBETEEN (entrada franca)

Livro: “Amanhecer”, de S. Meyer. Coordenação: Márcia Santa Maria.
Dia 14/05, às 14 horas, na Biblioteca Operária.
Dia 19/05, às 14 horas, na Biblioteca Palmeiras.

CLUBINHO DE LEITURA (entrada franca)

Livro: “Marcelo, marmelo, martelo, e outras histórias” / História: “O dono da bola”. Autora: Ruth Rocha. Contadora: Natalia Santos.
Dias 07 e 14/05, às 15 horas, na Biblioteca Centro.
Dia 12/05, às 10 horas, na Biblioteca Palmeiras.
Dia 13/05, às 15 horas, na Biblioteca Mandacaru.
Dia 21/05, às 15 horas, na Biblioteca Alvorada.
Dia 28/05, às 15 horas, na Biblioteca Operária.

HORA DA HISTÓRIA (entrada franca)
Livro: “Os doze trabalhos de Hércules”, adaptação de Monteiro Lobato. Contadora: Zery Monteiro.
Dia 06/05, às 14h30, na Biblioteca Mandacaru.
Dia 14/05, às 14 horas, na Biblioteca Mandacaru.
Dia 26/05, às 15 horas, na Biblioteca Palmeiras.

Dia 24/05, na Biblioteca Palmeiras.
Livro: “Vovô Aranha vai à festa”, de R. Barcha. Contadora: Cristina Begnossi, às 14 horas + Livro: “Miss Sardine”, de Monteiro Lobato. Contadora: Karla Morelli, às 15 horas.

Dia 25/05, na Biblioteca Palmeiras.
Livro: “A visita do príncipe”, adaptação de Monteiro Lobato. Contadora: Ivone Ribeiro, às 10 horas + Livro: “Festa no céu”, de Ana Maria Machado. Contadora: Luana Moscatto Orsini, às 15 horas + Livro: “Galo de briga, de paz”, de C. Martins. Contadora: Luana Moscatto Orsini, às 16 horas.

Dia 26/05, na Biblioteca Palmeiras.
Livro: “A boca do sapo”, de M. França. Contadora: Letícia Pasquini, às 10 horas + Livro: “Félix e seu fole fedem”, de Elias José. Contadora: Zery Monteiro, às 14 horas.

CONVITE AO TEATRO (sempre no Teatro Barracão, às 21 horas, entrada franca).
Dias 07 e 14/05 – “O menino que ganhou uma boneca”, direção de Majô Baptistoni, com a Cia Tipos e Caras.
Dias 21 e 28/05 – “Exercícios para a desordem”, direção de Paulo Campagnolo, com a Cia Teatro e Ponto (aconselhável para maiores de 16 anos).

Fonte:
Academia de Letras de Maringá

I Concurso Antonio Facci (Resultado Final)



O I Concurso Antonio Facci, de âmbito estudantil, teve a participação dos alunos de 5ª a 8ª séries das escolas municipais de Maringá.

Tema: MARINGÁ DO FUTURO.

MODALIDADE REDAÇÃO

1º lugar: Milena Beatriz da Silva.
8ª série – professora Odete Chiroli Maroneze.
Escola Municipal Victor Beloti.

2º lugar: Suelen Carolina Pereira dos Santos.
7ª série – professora Maria de Lourdes Aguiar Furlan Gonçalves.
Escola Municipal Victor Beloti.

3º lugar: Roger Braguim.
6ª série – professora Maria de Lourdes Aguiar Furlan Gonçalves.
Escola Municipal Victor Beloti.

4º lugar: Geovana Carolina Mansanari Simão.
8ª série – professora Odete Chiroli Maroneze.
Escola Municipal Victor Beloti.

5º lugar: Vinícius Campanha Meneghini.
6ª série – professora Maria de Lourdes Aguiar Furlan Gonçalves.
Escola Municipal Victor Beloti.

MODALIDADE POEMA LIVRE

1º lugar: Rubia dos Santos Celestino.
8ª série – professora Odete Chiroli Maroneze.
Escola Municipal Victor Beloti.

2º lugar: Gabriel Pirondi de Lima.
8ª série – professora Odete Chiroli Maroneze.
Escola Municipal Victor Beloti.

3º lugar: Gabriela Rosana Manrique dos Santos.
5ª série – professora Maria de Lourdes Aguiar Furlan Gonçalves.
Escola Municipal Victor Beloti.

4º lugar: Daniela Pereira Baptista Silva.
8ª série – professora Odete Chiroli Maroneze.
Escola Municipal Victor Beloti.

5º lugar: Matheus Gonçalves Naro.
7ª série – professora Vera Lúcia Simões Costa
Escola Municipal Machado de Assis.

Fonte:
Academia de Letras de Maringá

terça-feira, 27 de abril de 2010

Raul de Leoni (Antologia Poética)


LEGENDA DOS DIAS

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao Poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não veio hoje, virá na outra jornada..."

Ontem, hoje, amanhã, depois, e assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera...

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

HISTÓRIA ANTIGA

No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube por que foi... um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

Desde então, transformou-se de repente
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...

PLATÔNICO

As idéias são seres superiores,
— Almas recônditas de sensitivas —
Cheias de intimidades fugitivas,
De crepúsculos, melindres e pudores.

Por onde andares e por onde fores,
Cuidado com essas flores pensativas,
Que tem pólen, perfumes, órgãos e cores
E sofrem mais que as outras cousas vivas.

Colhe-as na solidão... são obras-primas
Que vieram de outros tempos e outros climas
Para os jardins de tua alma que transponho,

Para com ela teceres, na subida,
A coroa votiva do teu Sonho
E a legenda imperial da tua Vida.

CANÇÃO DE TODOS

Duas almas deves ter...
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel da ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias...

Alma anônima e usual,
Longe do Bem e do Mal,
Que não é má nem é boa,
Mas, simplesmente, ilusória,

Ágil, sutil, diluída,
Moeda falsa da Vida,
Que vale só porque soa,
Que compra os homens e a glória
E a vaidade que reboa
Alma que se enche e transborda,
Que não tem porquê nem quando,
Que não pensa e não recorda,
Não ama, não crê, não sente,
Mas vai vivendo e passando
No turbilhão da torrente,
Través intrincadas teias,
Sem prazeres e sem mágoas.
Fugitiva como as águas,
Ingrata como as areias.

Alma que passa entre apodos
Ou entre abraços, sorrindo,
Que vem e vai, vai e vem,
Que tu emprestas a todos,
Mas não pertence a ninguém.
Salamandra furta-cor,
Que muda ao menor rumor
Das folhas pelas devesas;
Alma que nunca se exprime,
Que é uma caixa de surpresas
Nas mãos dos homens prudentes;
Alma que é talvez um crime,
Mas que é uma grande defesa.

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranqüila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Para melhor conhecê-las
E jamais comprometê-las,
Entre perdões e doçuras,
Num pudor silencioso,
Com o mesmo olhar generoso,
Com que contempla as estrelas
E assiste o sonho das flores...

Alma que é apenas tua,
Que não te trai nem te engana,
Que nunca se desvirtua,
Que é voz do mundo em surdina.
Que é a semente divina

Da tua têmpera humana,
Alma que só se descobre
Para uma lágrima nobre,
Para um heroísmo afetivo,
Nas íntimas confidências
De verdade e de beleza:

Milagre da natureza
Transcorrendo em reticências
Num sonho límpido e honesto,
De idealidade suprema,
Ora, aflorando num gesto,
Ora, subindo num poema.

Fonte do Sonho, jazida
Que se esconde aos garimpeiros,
Guardando, em fundos esteiros,
O ouro da tua Vida.

Alma de santo e pastor,
De herói, de mártir e de homem;
A redenção interior
Das forças que te consomem,
A legenda e o pedestal
Que se aprofunda e se agita
Da aspiração infinita
No teu ser universal.

Alma profunda e sombria,
Que ao fechar-se cada dia,
Sob o silêncio fecundo
Das horas graves e calmas,
Te ensina a filosofia
Que descobriu pelo mundo,
Que aprendeu nas outras almas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

INGRATIDÃO

Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
E florescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

ARTISTA

Por um destino acima do teu Ser,
Tens que buscar nas coisas inconscientes
Um sentido harmonioso, o alto prazer
Que se esconde entre as formas aparentes.

Sempre o achas, mas ao tê-lo em teu poder
Nem no pões na tua alma, nem no sentes
Na tua vida, e o levas, sem saber,
Ao sonho de outras almas diferentes...

Vives humilde e inda ao morrer ignoras
O Ideal que achaste... (Ingratidão das musas!)
Mas não faz mal, meu bômbix inocente:

Fia na primavera, entre as amoras.
A tua seda de ouro, que nem usas
Mas que faz tanto bem a tanta gente...

CIGANOS

Lá vêm os saltimbancos, às dezenas
Levantando a poeira das estradas.
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.

Vêm num rancho faminto e libertino,
Almas estranhas, seres erradios,
Que tem na vida um único destino,
O Destino das aves e dos rios.

Ir mundo a mundo é o único programa,
A disciplina única do bando;
O cigano não crê, erra, não ama,
Se sofre, a sua dor chora cantando.

Nunca pararam desde que nasceram.
São da Espanha, da Pérsia ou da Tartária?
Eles mesmos não sabem; esqueceram
A sua antiga pátria originária...

Quando passam, aldeias, vilarinhos
Maldizem suas almas indefesas,
E a alegria que espalham nos caminhos
É talvez um excesso de tristezas...

Quando acampam de noite, é no relento,
Que vão sonhar seu Sonho aventureiro;
Seu teto é o vácuo azul do Firmamento,
Lar? o lar do cigano é o mundo inteiro.

Às vezes, em vigílias ambulantes,
A noite em fora, entre canções dalmatas,
Vão seguindo ao luar, vão delirantes,
Alados no langor das serenatas.

Gemem guzlas e vibram castanholas,
E este rumor de errantes cavatinas
Lembra coisas das terras espanholas,
Nas saudades das terras levantinas.

E, então, seus vultos tredos envolvidos
Em vestes rotas, sórdidas, imundas.
Vão passando por ermos esquecidos,
Como um grupo de sombras vagabundas.

Lá vem os saltimbancos, às dezenas,
Levantando a poeira das estradas,
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.

Povo sem Fé, sem Deus e sem Bandeira!
Todos o temem como horrível gente,
Mas ele na existência aventureira,
Ri-se do medo alheio, indiferente.

E, livres como o Vento e a Luz volante,
Sob a aparência de Infelicidade,
Realizam, na sua vida errante,
O poema da eterna Liberdade.
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Mais poesias de Raul de Leoni em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/06/raul-de-leoni-poesias.html

Fontes:
– LEONI, Raul de. Trechos escolhidos. Org. Luiz Santa Cruz. Rio de Janeiro: Agir, 1961. (Série Nossos clássicos).
– LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. São Paulo: Livraria Martins, 1959
– Colaboração de Antonio Manoel Abreu Sardenberg

Raul de Leoni: “Semeador de Harmonia e Beleza”

artigo de José Antonio Jacob

Raul de Leoni Ramos nasceu em Petrópolis-RJ, e faleceu na "Vila Serena", em Itaipava-RJ, (30 de outubro de 1895 - 21 de novembro de 1926). Bacharel em Direito, prosador, diplomata e político. Chegou a eleger-se deputado estadual.

Acima dessas coisas foi poeta.

Foi o poeta de maior realce na última fase do simbolismo, e justamente considerado como uma das figuras mais notáveis do soneto brasileiro de todos os tempos.

Parnasianos, simbolistas e até modernistas o têm em alta conta, apreciando-o sem reservas. Cada um de seus versos tem sonoridade e ritmo primorosos, especialmente os dos sonetos, em decassílabos, mesclados de simbolismo e de modernismo, com tessitura clássica e técnica parnasiana. São versos considerados dos mais perfeitos: em idéia, filosofia, e essência das temáticas.

O seu ritmo peculiar e admirável de versificação, o conjunto de idéias sublimes de suas palavras, são os aspectos mais fortes que envolvem a magnífica harmonia da unidade de pensamento que existe em toda sua obra.

O nome de Raul de Leoni é dos mais reconhecidos pela crítica brasileira, não havendo uma só voz discordante, o que não acontece com outros poetas, sobretudo, os da sua época que eram conhecidos poetas independentes, Augusto dos Anjos, Alceu Wamosy , José Albano, Andrade Muricy e outros. Ao próprio Muricy declarou o poeta Alberto de Oliveira: "Raul de Leôni é o maior de vocês todos. Li o seu livro, agora, em Petrópolis, e é extraordinário".

A mesma unanimidade não tem a crítica ao situar o poeta, em diferentes julgamentos, onde foi colocado nas escolas e posições poéticas as mais diferentes e contraditórias. Enquanto alguns dos seus críticos o consideram um genuíno parnasiano, outros enxergam nele o simbolista autêntico, terceiros acreditam ter sido um neo-parnasiano e outros o situam num grupo completamente independente das regras poéticas e influências de escolas e movimentos literários.

Todavia a crítica literária brasileira é unânime em assinalar a alta linhagem clássica da poesia de Raul de Leoni, fundada na homogeneidade da sua primazia gramatical, temática e métrica, e consolidada no seu bom gosto literário, reconhecidos como impecáveis, desde a sua época até os dias atuais.

Diante da grandeza da sua escassa obra e da diversidade da crítica, ao situar o poeta nesta ou naquela escola literária, não existe aqui propósito de fazer análise da obra de Raul de Leôni: com respeito e admiração reconhecemos não existir a menor possibilidade de alguém tentar fazer, em poucas palavras, um julgamento ou estudo crítico legítimo sobre a prosa, filosofia e poesia de Raul de Leoni.

A sua poesia embora contenha formas antigas e clássicas, é caracterizada por um imperecível espírito de modernidade, o que lhe assegura compreensão ilimitada e aperiódica, e o introduz na seleta plêiade dos poetas imortais.

Para melhor entendimento sobre a poesia de Raul é preciso voltar ao século passado, precisamente em 1922, quando publicou o seu livro clássico "Luz Mediterrânea", onde está a essência da sua poesia, (grande parte em sonetos decassílabos) no meio da "explosão" do modernismo no Brasil.

Já em 1919, segundo alguns críticos ainda sob a ascendência parnasiana, ele publicara o extraordinário poema "Ode a um Poeta Morto" em homenagem a Olavo Bilac.

Depois do acontecimento da "Semana de Arte Moderna", em 1922, os integrantes deste movimento, simpatizantes do "futurismo", do "dadaísmo", do "imagismo", do "surrealismo", do "ultraísmo" e principalmente do "concretismo", que segundo um dos seus mais importantes seguidores, Haroldo de Campos, "a melodia na música, a figura na pintura, o discurso-conteudista-sentimental na poesia são fósseis gustativos que nada mais dizem à mente criativa contemporânea", iniciaram, em São Paulo, e depois país afora, uma implacável crítica objetivando a destruição das "fórmulas já caducas" e "tradicionais" dos poetas parnasianos, simbolistas, românticos, e dos demais gêneros de poesia consagrados pelo tempo, logrando, extirpar, definitivamente, das letras brasileiras, os preceitos considerados "ultrapassados" pelo indeclinável julgamento modernista que havia no Brasil de então.

De todos os poetas brasileiros, de qualquer escola onde existissem regras poéticas, incluindo os independentes, o único que não sofreu sequer um sopro de menosprezo do assíduo fôlego da "corrente modernista brasileira" foi Raul de Leoni.

Seus sonetos, de métricas perfeitas, repletos de metáforas e de concepções filosóficas extraordinárias, corriam nos cadernos de poesia dos moços e moças da época, que compreendiam aqueles versos de palavras doces, que continham, ao mesmo tempo, tanta simplicidade e tanto esclarecimento.

Ao homem erudito a mensagem poética de Raul de Leoni causou, em todos os tempos, uma exclusiva distinção, pois que, se ao adolescente é de fácil entendimento, ao homem letrado dá o sinal da desmedida idéia que ele tinha sobre a profundidade dos mistérios da vida (ou das "cousas" da vida, conforme ele mesmo) porque, segundo alguns críticos, ele foi um profundo conhecedor da Alma Humana.

Rodrigo Melo Franco de Andrade, prefaciando "Luz Mediterrânea", único livro de verso do poeta, escreveu: "Para Raul de Leoni, as idéias representam seres vivos". (...) "Ele foi entre nós, e o foi com singular grandeza, o único poeta de emoção puramente filosófica".

Os seus sonetos "Ingratidão", "História Antiga" "Perfeição" "Legenda dos Dias" e "Argila", popularíssimos, de indizível simplicidade e de extraordinária beleza, estão entre os sonetos brasileiros mais importantes e imperecíveis.

Segundo Agrippino Grieco, em artigo sobre os inéditos de Raul de Leôni, o soneto "Ingratidão", um dos mais bonitos e singelos, foi casualmente encontrado, por Luís Murat, no álbum íntimo de poesias de uma encantadora dama dos meios sociais de Santa Catarina, com uma especial dedicatória do poeta, que já a havia esquecido.

A 1ª edição do "Luz Mediterrânea", de 1922, saída, em vida do autor, por ele mesmo organizada, começa com o poema "Pórtico" (onde ele se desvencilha, quase por completo, dos laços da influência do Parnaso brasileiro) e termina com o "Diálogo Final", tendo sido os "Poemas Inacabados" (que o poeta, ao pressentir a morte prematura, pediu para sua mulher queimar, e ela não compreendeu o seu pedido) que fazem parte da 2ª edição, e das edições seguintes, foram anexados ao "Luz Mediterrânea" pelos outros editores das mesmas.

O soneto "Argila", que muitos chamaram "Eufemismo", considerado um dos mais bonito da sua obra, não foi publicado antes por respeito que o poeta tinha pelos escrúpulos cristãos e religiosos de sua mãe, já que alguns de seus amigos, equivocadamente, achavam que o soneto tinha conotação pagã e erótica. Somente após a morte do poeta e da mãe, Dona Augusta Villaboim Ramos, e cessados os motivos para a publicação o soneto foi publicado.

Segundo Agrippino Grieco este soneto "todo brasileiro deveria saber de cor".

Após a sua morte em Itaipava seu corpo foi conduzido para Petrópolis, que lhe prestou suas últimas homenagens, sepultando-o à sombra do Cruzeiro das Almas, erigindo-lhe um mausoléu e dando o seu nome a um trecho da Rua Sete de Setembro.

Quase oitenta anos da sua morte e Raul de Leoni é venerado por seus inúmeros leitores, mas ainda não chegou às carteiras universitárias dos cursos de Letras do nosso pais, onde por mérito poético, e para o bem dos estudantes da poesia brasileira, já deveria estar presente, se algum outro, menos competente e mais favorecido, não estivesse ocupando o seu lugar
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Biografia de Raul de Leoni em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/06/raul-de-leoni-1895-1926.html

Fonte:
Colaboração de Antonio Manoel Abreu Sardenberg

XVI Jogos Florais de Curitiba (Classificação Final - Âmbito Estadual)


Tema IMAGEM (Líricas-filosóficas)

VENCEDORES

- A. A. de Assis (Maringá)
- Gerson Cesar Souza (São Mateus do Sul)
- Maria Lúcia Daloce (Bandeirantes
- Neide Rocha Portugal (Bandeirantes)
- Vanda Fagundes Queiroz (Curitiba)

MENÇÕES HONROSAS

- Maria Lúcia Daloce (Bandeirantes)
- Neide Rocha Portugal (Bandeirantes)
- Nei Garcez (Curitiba)
- Roza De Oliveira (Curitiba)
- Wandira Fagundes Queiroz (Curitiba)

MENÇÕES ESPECIAIS

- A. A. de Assis (Maringá)
- Amália Max (Ponta Grossa)
- Maria Da Conceição Fagundes (Curitiba)
- Vanda Fagundes Queiroz (Curitiba)
- Wandira Fagundes Queiroz (Curitiba)
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Tema PIJAMA (Humorísticas)

VENCEDORES

- A. A. de Assis (Maringá)
- Lucília A. T. Decarli (Bandeirantes)
- Luiz Hélio Friedrich (Curitiba)
- Maria Lúcia Daloce (Bandeirantes)
- Maurício N. Friedrich (Curitiba)

MENÇÕES HONROSAS

- Gerson Cesar Souza (São Mateus do Sul)
- Maria Aparecida Pires (Curitiba)
- Neide Rocha Portugal (Bandeirantes)
- Vanda Alves da Silva (Curitiba)
- Vanda Fagundes Queiroz (Curitiba)

MENÇÕES ESPECIAIS

- A. A. de Assis (Maringá)
- Istela Marina Gotelipe Lima (Bandeirantes)
- Neide Rocha Portugal (Bandeirantes)
- Nei Garcez (Curitiba)
- Wandira Fagundes Queiroz (Curitiba)

Fonte:
UBT/Curitiba

domingo, 25 de abril de 2010

Trova Triste - Ivan Augusto de Andrade Teixeira (Ribeirão Preto/SP)


Ivan Augusto de Andrade Teixeira, natural de Ribeirão Preto (11/8/47) morre, a 20 de abril de 2010. Professor e Técnico em Contabilidade pelo Colégio Amaro Cavalcante, sempre esteve envolvido com atividades sócio culturais. Como sócio fundador da União Brasileira de Trovadores, deixou boas trovas premiadas em concursos de diversas entidades trovadorescas. Foi sepultado no jazigo da família. Ivan Augusto era filho da profa. Ophélia e do trovador Nilton da Costa Teixeira.

Antonio Brás Constante (Ameaças Ameaçadoras por Telefone)



(O telefone toca).

- Alô?

- Escuta bem cara, nóis tamo com a tua filha aqui com a gente e se não rolar grana ela morre, sacou?

- Filha? Que filha? Quiçá em outrora eu ainda tivesse uma filha, mas expulsei aquela delinqüente de minha residência e da minha vida há meses.

- Não brinca, mané. Se tu não passar a grana, eu e meus mano vamo fazê ela. Tá me entendendo cumpadi?

- Se vocês forem “fazer” ela, aconselho que tomem cuidado. Ela fazia ponto na esquina aqui de casa sabiam? Um escândalo. E este foi apenas um dos motivos pelos quais eu a expulsei daqui...

- Então tá, ô esperto. Se tu não tem apego com a tua filhota, nóis vai acha tua esposinha e judiar dela. Que tal? Agora tu vai colaborar?

- Se acharem, podem ficar com ela. Mas prometam que vão judiar bem dela. A ordinária fugiu com nosso vizinho Edward, levando todas as economias que tínhamos no banco, em conta conjunta. Eu nunca pude me vingar do que ela fez. Se pegarem os dois, posso até tentar arrumar algum dinheiro para vocês, mas tem que me garantir que vocês vão torturar aqueles desalmados com vontade.

- Olha aqui Sangue bom, vamo fazê melhor então. Nóis vamo toca fogo na tua baiúca e ver se tu ri disso, que tal?

- Prometem que fazem isto? Seria fantástico, já que a casa está no seguro. Se queimarem ela, que por sinal foi hipotecada pela safada da minha “ex”, vão estar me fazendo um bem enorme...

- Malandro, tu ta tirando onda com a nossa cara. Saca só, nóis vai te pega e mete três azeitona nas tuas fuças, te borda na bala, tá ligado?

- Eu... Depois de tudo que aconteceu, estava pensando em me matar mesmo... Só não tive coragem de cometer tal ato de suicídio, e aplacar esta dor atroz que esmaga meu coração... Vocês fariam isso por mim?

- Caramba, Zé ruela! Tu não te sensibiliza com nada? A gente até ia desistir de te amolar, mas não podemo deixa barato assim. Vamo te que se vinga de ti cumpadi.

- E como pretendem fazer isto, seus bárbaros execráveis e sem cultura? Façam o que quiserem. Sou um ser amargurado pela mordaz crueldade do destino. Um arremedo humano que não liga mais para nada...

- Vamo vê se tu diz isto depois que a gente largar a “encomenda” aí no teu colo.

- Que encomenda?

- Tua sogra reclamona e teu cunhado bebum, seu mané. Nóis seqüestrou ele e a velha, mas não quis abrir o jogo logo de cara, pois achou que tu não ligava muito pros dois. Mas depois de passar um tempo com eles aqui no cativeiro, a gente se ligou do castigo que os dois são, e resolvemo entrega eles ai bunito, e é o que vamo fazê agora.

- NÃO, eles não! Quanto dinheiro vocês querem para ficar com os dois?

- Esquece brou. O lance agora é pessoal. Daqui a pouco tamo largando eles aí pra morar contigo.

- Não, isso não! Tenham um pouco de humanidade, de compaixão, de clemência, por favor, Não! NÃO! NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!

Fonte:
Colaboração do autor.

Nilto Maciel (Aqueles Homens Tristes)


Deitou-se ao lado da mulher, como se preparasse para morrer, sem uma palavra, um gesto de carícia, qualquer menção de repetir cotidianas cenas de brutalidade e desejo. Fechou os olhos e imobilizou-se. Queria apenas pensar, pensar ilimitadamente, desprender-se de todos os laços palpáveis de seu conhecimento, perder-se por corredores e labirintos, por horizontes e profundezas. Desordenar as coisas, as pessoas, o mundo. Fazer redondos os quadrados, aparar arestas, encrespar as formas planas, reduzir a montículos as grandes montanhas, agigantar-se. Como em noites idas.

Não conseguia compreender como e por que tudo se deformava e nunca teve coragem de contar nenhuma de suas descobertas a ninguém. A não ser as mentiras menos assombrosas: aquela porção de frutas amontoadas, a paulada na cabeça de fulano, a tempestade, os monstros. Umas já se haviam perdido no tempo ou tinham ocorrido com outras pessoas. Às vezes discutiam, se ameaçavam e até se matavam, raivosos, incapazes de ouvir tantos disparates, insultos, desafios.

E a mulher, os filhos, os companheiros de caça, o resto será que não saía, um pouquinho só, além dos limites da mesmice? Ou também sentiam medo de contar novidades?

De noite, depois de fechar os olhos, entregar-se ao invisível, tudo virava de cabeça para baixo, transformava-se, confundia-se. A mulher se fazia outra, os filhos morriam, sumiam, se batiam contra feras. Os bichos se devoravam, violentos, estraçalhavam-se, sangrentos. Muitas águas, muito fogo, ventanias de arrastar homens e animais. E nada era verdade, quando não era mentira. Sua mentira.

Não, talvez não fosse bem assim. De dia, os olhos viam o mundo e o mundo existia. De noite, os olhos de dentro viam o mundo, porém um outro mundo.

Abriu os olhos, levantou-se, suado e trêmulo, e olhou para as estrelas que piscavam no céu e para o fogo que ardia ao redor das cabanas. A mulher dormia, os filhos dormiam, todos dormiam. Deu dois passos, escutou o grito dos bichos e sentou-se numa pedra. Aonde andavam as milhares de pessoas de minutos atrás? Onde estavam aquelas construções enormes, feito cabanas sobre cabanas? E os objetos que se locomoviam, feito tartarugas de rodas, a conduzir gente, às carreiras? E os outros que voavam, feito pássaros? O que fazia tanta gente ajoelhada, diante de imagens de barro e homens que falavam de “morada do céu”? E por que quase todos não paravam de suar, o dia todo a derrubar árvores, cavar o chão, lavrar a terra, bater ferros, sob as ordens de uns poucos? Que diabo significavam pedaços de papel coloridos e numerados que aqueles recebiam dos chefes e trocavam por comida, roupa, objetos variados de propriedade dos mesmos chefes?

O sol se anunciou vermelho e encantatório por detrás das montanhas. E se lá vivessem aqueles homens tristes?

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contos Reunidos vol.1. Porto Alegre: Bestiário, 2009. p.14.
- Imagem = http://sequicosacro.blogspot.com/

Folclore Indigena (A Mandioca)



Lenda Baré

A filha de um poderoso tuxaua (chefe) foi expulsa de sua tribo, por ter engravidado misteriosamente. Foi viver em uma velha cabana distante. Parentes iam levar-lhe comida para seu sustento. E, assim, a índia viveu até dar a luz a uma linda menina, muito branca, que chamou de Mani.

A notícia do nascimento espalhou-se por toda aldeia, fez o grande chefe esquecer os rancores e, cruzar os rios, para ver sua filha. O avô se rendeu aos encantos da criança que se tornou muito amada. No entanto, ao completar 3 anos, Mani morreu de forma misteriosa, sem nunca ter adoecido. A mãe ficou desolada e sepultou a filha de acordo com o costume, no meio da oca. Ao amanhecer, viu uma plantinha brotar da terra que molhara com suas lágrimas. A plantinha começou imediatamente a crescer e furou o teto da oca, onde floriu e deu pequenos frutos.

A tribo acorreu, maravilhada. Ao revolverem a terra, observaram que a planta saía do ouvido de Mani e mostrava raízes grossas e brancas em forma de chifre. “Manihua!" exclamaram os índios. Então, muitos passarinhos vieram, comeram as frutinhas e saíram semeando a maniva (manihua). Os pássaros de goela branca semearam a maniva branca e os de goela amarela, a maniva amarela. A raiz por ser semelhante a um chifre (aca), foi denominada mandioca (manihuaca).

Lenda Tupi

Há muitos anos passados apareceu grávida a filha de um cacique. Querendo punir o autor da infelicidade de sua filha, o cacique usou de todos os meios para saber quem havia sido o autor da desonra de sua filha que, apesar dos castigos recebidos, nunca disse quem lhe havia tirado a virgindade e que também nunca havia mantido relações sexuais com nenhum homem. O pai resolveu, então, matar, sacrificar a filha, quando, num sonho, lhe apareceu um homem branco que lhe disse para não matar a moça, que ela era inocente. Passados os nove meses nasceu uma menina muito bonita e, para surpresa de todos, de cor branca. A menina que recebeu o nome de Mani, morreu após um ano sem haver adoecido nem sofrido nenhuma dor. Mani foi enterrada na sua própria casa e, de sua sepultura, nasceu uma planta que, por ser desconhecida, nunca foi arrancada. Um dia, a sepultura se abriu e, nas suas raízes, brancas como Mani, os indígenas encontraram alimento para matar a fome. Mandioca, na língua tupi, vem de Mani-oca, que significa casa de Mani. (Dicionário de Folclore para Estudantes)

Lenda Apurinã

Saíra, a filha do chefe Cauré, era a mais bela da tribo. Um dia, porém, ela engravidou sem ter sido dada em casamento a nenhum guerreiro. O desgosto de Cauré foi imenso. Chamou a filha e questionou-a sobre o pai da criança. Saíra emudeceu. A decisão de Cauré foi inexorável. Ela seria banida da tribo e viveria confinada em uma oca no centro da mata. Ela deu a luz a uma linda menina de pele alva e olhos azuis. Ao ver a beleza da neta, Cauré caiu de amores pela menina. Regressou para a tribo com a filha Saíra e a neta Mani. No entanto, ao completar 4 anos, a menina morreu de forma misteriosa. Era costume da tribo Ipurinã cremar seus mortos mas, desolado, Cauré quebrou a tradição e enterrou Mani na entrada de sua oca. Passaram-se quatro luas e da terra em que Mani foi enterrada nasceu uma planta que, depois de um certo tempo, desnudou-se das folhas. Cauré julgava que as folhas fossem eternas e ficou triste pois a planta havia morrido. Resolveu arrancá-la e, ao fazê-lo, viu surgir, à guisa de raízes, grandes tubérculos radiculares. Curioso, resolveu mordê-la e, ao mastigá-la, achou-a deliciosa. Desde então a mandioca passou a ser um importante alimento para os índios.

Lenda Pareci

Zatinaré e sua mulher, Kokoterô, tiveram dois filhos: Atiolô e Zokooiê. Atiolô era menina. Por esta razão o pai não lhe dava a menor importância; tratava-a displicentemente e, se ela dizia alguma coisa, respondia-lhe assobiando. A pobrezinha não se lembrava de uma só vez que tivesse obtido dele uma resposta em palavras. Por isso, vivia triste e acabrunhada, pelos cantos da ocara; não sorria, não brincava... Um dia, tomou uma resolução. Foi a sua mãe e pediu-lhe que a enterrasse viva:

"Talvez desse modo, mamãe, eu possa fazer algo de bom por nosso povo."
"Não fales assim!" Replicou a mãe, aterrorizada com a idéia. "Tremo só de pensar..."

Finalmente, após vários dias de insistência, Atiolô conseguiu convencê-la. A mãe tomou a filha e levou-a até um cerrado. Sepultou-a ali. Mas o sol estava muito quente. A menina sentia muito calor. Queria outro lugar. Novamente, tomou-a Kokoterô; desta vez, escolheu o campo, aberto e de capim verde e macio. Enterrou-a. O calor, porém, era ainda maior. Atiolô não quis ficar ali. Enfim, acharam um bom local. Era o bosque, escuro, silencioso, calmo. Lá, a menininha não sofreria; lá poderia descansar sossegada. Atiolô rogou à mãe que se afastasse. Atendendo-a, a mulher foi-se retirando. Contudo, não pode resistir e voltou-se. Do túmulo, saía uma plantinha que ia crescendo vagarosamente. Correu para a sepultura; a plantinha diminuiu.

Desde esse dia, começou a tratá-la. Todas as tardes, regava-a com água fresca. A arvorezinha desenvolveu-se. Passaram-se várias luas. Quando ninguém esperava, um grito irrompeu do solo. A índia tremeu de medo. Agarrou o arbusto pelo caule e arrancou-o. Que surpresa! A raiz era grande e grossa; a casca era morena, da cor da pele das jovens da taba; a polpa era branca e gostosa. Kokoterô colocou-a nas costas e carregou-a para casa. Mostrou-a aos índios. Estavam todos espantados.

"Nunca vimos isso antes!" Diziam uns para os outros. Provaram-na e gostaram. Era a mandioca, um dos melhores alimentos que tem os índios até hoje. Eis porque a mandioca não cresce bem no campo ou no cerrado. Prefere sempre a sombra da floresta.

Lenda Bakairi

O veado foi beber água e o peixe bagadu (pirara), espécie de bagre brasileiro comum nas Amazônia, que estava preso num regato quase seco, pediu-lhe ajuda: "Faz uma corda de embira e puxa-me até o rio." Lá chegando, o peixe convidou o veado para ir até sua casa no fundo do rio, onde lhe serviu mingau (pogü) e beiju.

O veado, que desconhecia aquelas iguarias, ficou encantado e o peixe levou-o até sua roça de mandioca. Quando o veado foi embora, o peixe presenteou-o com mudas de mandioca, para que as plantasse também. Em casa, o veado fez uma roça de mandioca. E, tornou-se o senhor da mandioca, pois só a sua família a consumia. Um dia, Keri o encontrou e pediu-lhe mandioca. O veado negou, Keri ficou bravo, segurou o veado pelo pescoço e assoprou na sua cabeça, onde surgiu uma galhada. Keri levou a muda de mandioca, deu de presente as mulheres Bakairi e mostrou-lhes, conforme o veado lhe ensinou, o que deviam fazer para não morrer com o veneno.

Fonte:
http://www.lendorelendogabi.com/

Viviane Tremeia (Num Porto Qualquer)


(Conto classificado em terceiro lugar no Prêmio Escriba de Contos 2009)

Tem os olhos fixos num lugar qualquer. Os cabelos opacos, o rosto pálido levemente inclinado para os pés que se mexem vagarosamente, sem parar. Não se ouve um ruído, e a pouca luz que entra pela porta não alcança a poltrona que fica ao lado da cama onde ela tem passado os dias. O que eu faço? Como tirá-la dessa inércia sem tamanho? Desde que este quarto passou a ser o único lugar que existe, ninguém mais acessou o seu humor, nem quase tudo o que lhe fazia ser quem era. Desde o olhar generoso, o riso solto, as palavras certas, aos gestos mínimos como o de abanar as mãos para diminuir nossos problemas ou de empunhar os braços para nos dar uma bronca. Eu fecho os olhos e ainda consigo vê-la caminhando rápido entre uma peça e outra da casa. Ouço os gritos vindos da cozinha quando ela resolvia se enfurecer com o papagaio, presente de grego da minha avó paterna, ou a boa gargalhada quando não cabia de alegria por estar simplesmente viva. Já faz algum tempo que isso tudo seria para sempre. Por uma fresta de intenção, ainda consigo ver minha mãe de ontem nesse pouco dela de hoje que faço força para reconhecer.

Os dois eram inseparáveis. Meu pai sempre fora o porto seguro, o ferrolho, a mão quente, forte e alerta. Ela, um pássaro feliz, que rodopiava pelos caminhos dele como se enfeitasse e colorisse. Um dia, lembro-me de ter entendido o sentido de cumplicidade ao vê-los caminhando pelo jardim da nossa casa. Conversavam baixinho para que não ouvíssemos a conversa. Um parava para podar um galho seco, o outro acompanhava com os olhos admirando o gesto. Meu pai gostava de mexer com carros antigos. Era engraçado vê-la admirando um motor 250-S, como se
realmente a interessasse. Formavam uma dupla e tanto. Não era raro vê-los olhando longamente um para o outro, como se falassem sem o uso das palavras. Minha mãe tinha o poder de alegra-lo. Ele, o dom de aninha-la e adorna-la. Ambos, a sabedoria de serem felizes.

“Verônica, que loucura é essa agora. O que tu estás fazendo?” Foi a única vez que o vi levantar a voz para ela. Enquanto gritava, minha mãe rasgava cada uma das fotos que eles haviam recém trazido da última viagem de férias. Chorando em desespero, com raiva transpirando pelos punhos, ela murmurava quase como num transe que não aceitaria de jeito nenhum. Que deveria ser um equívoco, que não poderia ser verdade. Concentrada na tarefa, ela não vira que todos nós na sala estávamos aturdidos pela cena. Meu pai constrangido se movia em vão de um lado para o outro como se entendesse o que se passava, mas não quisesse nos dizer.

Aquele episódio foi apenas o primeiro de uma sequência de vários bem estranhos, carregados de angústia e incompreensão. Passamos a vê-la falando sozinha pela casa, fitando, por tempos, o pátio dos fundos pela janela da cozinha. Percebemos o descuido com as roupas que usava e evitava qualquer tentativa de conversa que fazíamos.

“Próstata, meus filhos. Estou com câncer de próstata”. Repetia nosso pai completamente arrasado pela notícia. Esfregando as mãos pesadas no cabelo ralo e grisalho e sem coragem para nos fitar os olhos, seu corpo foi se encolhendo e um homem impotente e desatinado surgiu em nossa frente. Era isso. A insistência o fez confessar. Nenhum de nós aguentava mais assistir nossa mãe desaparecendo de si.

Corri para abraçá-lo. Seu choro fora inédito. A estranheza, absoluta e, como um susto, tudo mudara diante de nós. Incólume, a certeza de que jamais seríamos os mesmos e entre nós um olhar conivente de quem busca uma saída.

Ele nunca adoecia. Lembro da mãe me dizendo: “Juliana, tu devias ter puxado ao teu pai, igual ao Murilo”, meu irmão mais novo. “Estás sempre doente, menina!” Já o Tiago, o irmão do meio, era como eu. Qualquer resfriado era motivo para gazear aula. O nosso pai não. Não havia o que derrubasse o homem. Sim, a doença fatal era descabida, um desaforo.

O médico lhe dera um prognóstico vago. Tudo dependeria do tratamento. Meu pai ergueu-se num pacto particular impressionante. Dispondo-se a enfrentar a morte, a dor, a doença. Minha mãe não. Irônica e lentamente como um câncer, a doença dele a consumia, levando-a para longe de nós, para um porto qualquer de endereço desconhecido.

Os dias transformaram-se em meses que tornaram-se anos e minha mãe jamais voltou.
Não houve sequer um especialista que não tivéssemos procurado para tentar resgatá-la.
Assistimos, em pânico, o abandono de si mesma, como um mistério silencioso e cruel.
Num domingo desses, peguei os dois caminhando no pátio como nos velhos tempos.

Meu coração se encheu de esperanças. Meu pai acariciava a cabeleira desajeitada de minha mãe, enquanto a consolava do seu pavor sem volta. Sim, era assim que chamávamos o que nós víamos. Ela não reagia. Via-se que o desvio pego por ela já havia sido por demais percorrido. Os olhos ternos do meu pai clamavam por uma reação. Mostrava-se forte, com a vivacidade que sempre nos balizou. A doença dormia no corpo dele, os sinais eram de um homem absolutamente saudável. Ela, nunca mais voltara.

Estico os lençóis ainda quentes, abro a janela do quarto, olho para ela o mais fundo que consigo pelo tempo que ela me permite. Com meus braços em seu contorno, me faço presente. “Mãe? Fala comigo. Onde te encontro, mãe? Em que porto te perdeste?”

Cinco anos se passaram desde o anúncio da doença do meu pai. Ela pisca os olhos em resposta e um sorriso seu, de canto de boca, me acende.

Fonte:
Grupo Oficina Literária de Piracicaba. http://golp-piracicaba.blogspot.com/

Durval Mendonça (Trovas que eu Dou à Vida !) Parte III


IN MEMORIAM a Renato Vieira. da Silva
Vai, Poeta, deslumbrado,
tu que soubeste entendê-las,
buscar no céu constelado
tua coroa de estrelas!

Exausta de solidões
de um céu escuro e vazio,
a lua busca emoções
no leito alegre do rio.

Quando, amorosas, nos pisam,
em sublime ditadura,
as mulheres escravizam
com desumana ternura.

Essa ternura em teus lábios,
quando me beijas, querida,
faz-me esquecer os ressábios
dos lábios frios da vida.

Chopin!... A tarde morrendo...
Prelúdios tristes, sombrios,
como lágrimas correndo
daqueles dedos esguios...

Rosas rubras, amarelas,
rosas de todo matiz,
não sois, por certo, mais belas
do que a Rosa que me quis.

Na estrada de Samaria,
por um gesto de bondade,
um homem bom construía
a própria imortalidade.

Nossa estória - grande anseio
de coisas inatingidas;
romance deixado a meio
no meio de duas vidas...

Vai a lua em serenata
pela noite andando ao léu,
triste boêmia, de prata,
pelas esquinas do céu.

O nome - por que dizê-lo?
da mulher, hoje esquecida.
Foi sonho... Foi pesadelo?
Ou, talvez, a própria vida?

Dois destinos paralelos,
na trilha de um só desejo,
são duas linhas de anelos
que se tocam pelo beijo.

Pelada, aos gritos, na rua...
Vidraça que se estilhaça...
"A minha, não, é a tua!"
E depois... a infância passa.

Pelo terror que a sublima,
pela incerteza que lança,
vejo a Rosa de Hiroshima
como a Rosa da Esperança...

Sentadinha aí defronte,
professorinha, conduzes
para as luzes do horizonte
meu horizonte sem luzes.

Com humildade e paciência,
como juncos eu me inclino
para abrandar a inclemência
dos vendavais do destino.

Quando uma lágrima desce
dos teus olhinhos levados,
Deus, no céu, sorrindo esquece
de castigar-te os pecados.

Sertanejo amargurado,
teu triste olhar me comove,
quando te vejo ajoelhado
pedindo chuva e não chove.

Teu amor - minha utopia ...
Esfinge dos meus fracassos ...
Pedaço de fantasia,
que se desfaz em pedaços.

Maroto, o sol se deleita
sobre o mar lá no horizonte:
um olho rubro que espreita
a praia nua defronte.

Em meu caminho sem luz,
sem pousada, sem roteiro,
eu não carrego uma cruz,
eu sofro um calvário inteiro.

Bateram, fui ver. À toa...
Ninguém bateu... Ilusão!
Deve ter sido a garoa
fugindo da solidão.

A lágrima, companheiro,
que reflete minha mágoa,
parece mais um braseiro
que uma simples gota dágua.

Alta noite... Um sino plange...
No espaço, a lua silente
traz a arrogância do alfange
no lirismo do crescente.

Quando meus sonhos dispersos
o luar envolve e conduz,
eu me ponho a fazer versos
bebendo taças de luz...

De mãos dadas, lentamente,
vamos indo, aí, à toa...
Garoa molhando a gente...
Que bem me importa a garoa!...

Ah, como são transitórias
minhas raras alegrias!
Elas me vêm de vitórias
num mundo de fantasias.

Às vezes, a conjuntura
faz covardes destemidos.
Eu já vi muita bravura
por privação de sentidos.

As vitórias que eu consigo
neste mundo de ilusões
vêm, por certo, dos perigos
que transponho aos trambolhões

Desprezando minhas queixas,
passando de andar felino,
deixas no rastro que deixas
o rastro do meu destino.

Um burro, ao filho imprudente,
ajuda, num bom conselho:
- Olha, filho, muita gente
não te serve como espelho...

Como é belo, à luz mortiça
do dia, quando desmaia,
ver o mar, que se espreguiça,
rolando, em ondas na praia

Vale de lágrimas, eis
o mundo que nos foi dado...
Tantas regras, tantas leis,
e... cada vez mais errado!

Destino, que a gente inculpa
e nos livra de embaraços,
em ti jogamos a culpa
dos nossos próprios fracassos.

Teu beijo tem tal ternura
e tal calor aparenta,
que sua temperatura
deve andar pelos quarenta.

Engraçado, mas profundo,
não sei se já percebeste:
hoje, as almas do outro mundo
têm medo das almas deste.

Este sorriso em meu rosto
é, por estranha ironia,
mais filho do meu desgosto
do que de minha alegria.

A gente vê a poesia
mais natural e mais pura,
quando a rês, lambendo a cria,
dá-lhe um banho de ternura.

Chuva que empoça no chão
e depois, em mudo anseio,
mostrando ter coração,
reflete o céu de onde veio.

Chica da Silva amorosa,
crioula terna e gentil,
canela tingindo a rosa
numa florada de abril!

Maria gosta de beijo
e diz que sente vergonha.
Maria, pelo que vejo,
tem é medo da cegonha.

0 meu barraco é tão pobre,
que a verdade, nua e crua,
é que meu corpo se cobre
com o manto branco da lua.

Sempre justa e compassiva,
sua vida foi tão breve...
Quando Mamãe era viva,
minha cruz era mais leve.

Garoa - tédio que desce
maçante, fina sem dó...
De tão miúda, parece
que é chuva desfeita em pó...

Quando uma lágrima aflora
em teus olhos muito azuis,
vejo a beleza da aurora
nessa gotinha de luz.

Chico-Rei, tua ternura
por teus irmãos de senzala,
a História, mística e pura,
fez justiça em exaltá-la.

Pela vida a gente avança,
não vamos sós, na verdade;
a nosso lado a esperança
vai arrastando a saudade.

Este amor que me ofertaste
e, comovido, eu aceito
é pedra de luz no engaste
da jóia que tens no peito.

Teu beijo é o determinismo
de milênios num segundo;
sensação rósea de abismo...
e o paraíso no fundo.

Hoje, triste, no meu canto,
revejo minhas memórias
e surpreende- me este pranto,
banhando antigas vitórias.

Se eu pudesse a meu destino,
dar um destino a meu jeito,
o meu mundo de menino
jamais seria desfeito.

Penetrantes, importunos,
belos no verde invulgar,
tens olhos são dois gatunos
das esmeraldas do mar.

Por que minutos felizes,
inconsequente, me furtas,
quando tu mesma me dizes
que as horas boas são curtas?

Saudade, mágoa feliz
que vive em nossa lembrança;
tristeza que se bendiz,
quando se tem esperança.

A vida tem seus volteios:
ora sobe, ora é descida
e arrasta nos seus rodeios
os sem-destino da vida.

Na incerteza dos caminhos,
eu, de revés em revés,
vou arrancando os espinhos
que vão ferindo meus pés.

Em nossa casa singela
do meu tempo de criança,
minha mãe vinha à janela
esperar sua esperança.

Fonte:
– UBT Juiz de Fora

Aparecido Raimundo de Souza (Mula sem cabeça)



Dona Glória bate desesperadamente à porta do quarto de seu filho Fumarato. Não é a primeira vez que o faz. Está preocupada, impaciente, temerosa. Grita para se fazer ouvida:

- O que faz aí trancado, meu filho?

Fumarato em meio a desordem que reina lá dentro, responde, aos berros:

- Estou brincando, mãe.
- Brincando com quem, ou com quê?
- Sozinho.
- Que barulho estranho é esse?
- Não estou ouvindo nada.

À medida que mantém o diálogo, dona Glória insiste com as pancadas. A palma de sua mão inchou e uma vermelhidão muito forte tomou o lugar da cor natural.

- Destranque e venha lanchar. Cetotifeno, seu coleguinha, se abancou à mesa e lhe espera.
- Já vou, mãe, já vou.

A zoada persiste veloz como um tufão que se realça. Parece um ritual macabro. A impressão de dona Glória é a de que alguma coisa sofre horrores nas mãos do menino. O que ela ouve se assemelhava a grunhidos, urros e relinchos de dor e agonia entrecortados, como se um animal indefeso tivesse sendo barbaramente espancado. Mas impossível. O quarto de Fumarato fica no oitavo andar de um prédio de apartamentos. A janela do garoto media com a de outro edifício, de forma que não assiste razão para qualquer pessoa normal aceitar a idéia de que lá dentro tenha sido introduzido um animal, qualquer que seja o tamanho dele. Ademais, não existe como. Além da portaria não permitir, ela ou a empregada teriam se dado conta e brecado. Que alguma coisa diferente se metera lá dentro, não havia mais duvidas. Os estrondos produzidos não deixavam margens a dúvidas. Dona Gloria não ficara louca, Dorinha e Cetotifeno igualmente ouviam os urros e os chiados, sem, no entanto, identificarem sua possível origem. O que mais intrigava: Fumarato não possuía computador, nem aparelho de tevê. Aquele barulho inexplicável não advinha de nenhum jogo caseiro conhecido, menos ainda de um aparelho eletroeletrônico ligado.

- Abra Fumarato.
- Calma mãe!
- Cetotifeno está aqui. O café foi servido. Dorinha trouxe pão quente e a manteiga que você gosta. Venha, filho. Está me ouvindo?

Ouvindo Fumarato certamente estava. E bem. No entanto, alguma coisa fora dos padrões normais rolava à solta. A voz do guri, ora sobressaia aos relinchos, ora sumia de vez. Às vezes a balburdia aumentava de intensidade, outras cessava misteriosamente. Dona Glória não desistia e parecia cosida a parede.

- Filho, pare com essa bagunça.
- Que saco mãe! Vê se me erra.
- Cetotifeno vai subir pra casa dele. Não faça desfeita ao seu colega.
- Não faça o que, mãe?
- Desfeita, filho, desfeita.

Dona Glória se afasta, tolhida por forte indisposição que a invade. Pede socorro a empregada, sem esmiuçar os comentos malévolos que assaltam seu espírito. Dorinha acode e volta à carga pancadeando a porta com mais intensidade.

- Pó, qual é, mãe. Já vou...
- Não é sua mãe, sou eu, Dorinha.
- Me esquece, cara. Vá lavar as loucas.
- Que diabos acontece ai?
- O que você acha?
- Se eu soubesse alguma coisa não te perguntaria. Vamos, fale comigo. O que se passa?
- Dorinha, você não vai acreditar.
- No que não vou acreditar? Tente?
- Pintou aqui no meu quarto uma mula...
- Uma o quê?
- Uma mula.
- Faça me rir, garoto. Saia para o café. Deixe de pilherias. Você está bem grandinho para essas criancices. Vamos, abra...
- Assim que eu der cabo da mula...
- Só falta você me convencer de que essa mula é sem cabeça...
- Pêra ai, Dorinha. Como sabe?
- Adivinhei. Agora saia. Tenho mais que fazer. Preciso limpar seu quarto.

Dona Glória se prostra a porta. Junto dela, Cetotifeno.

- Filho, se não sair daí, interfonarei para a portaria.

Faz um gesto a Cetotifeno para que a ajude e intervenha. Cochicha com o moleque algumas palavras. O guri aquiesce e repete a história de providenciar reforços.

- Fumarato, sua mãe vai mandar subir a galera. Se eu fosse você caia fora daí agora. Abre ai, ô mané! Vou rachar no trecho. Qualé a sua, mano!
- Assim que acabar com a mula sem cabeça eu saio.
- Pirou, meu?
- Não.

As tentativas restam, por fim, infrutíferas. A contenda segue indiferente as batidas e as súplicas dos mais chegados. O subsíndico chega acompanhado com dois funcionários da administração. Os petitórios para que Fumarato deixe o quarto são redobrados. Nada. Dona Glória decide, então, pelo arrombamento. A ninguém mais interessa aquele estado de intranqüilidade. O pessoal põe a porta ao chão. A cena que surge, entrementes, é violenta e brutal. Assas incrédula e chocante. Fumarato está montado, a cavaleiro, sobre o lombo de um bicho enorme, que jaz estirado. Em volta, sangue por todos os lados respingados pelas paredes e móveis. Uma mancha se estende pelo chão e se transforma num desenho de dimensões grotescas escorrendo para o lado onde fica a cama. A cortina é aberta e a janela escancarada. Um “Meu Deus, que horror!” uníssono se faz ouvir em meio a uma onda de terror e ceticismo. A galera petrifica as feições. Dona Glória desmaia. Dorinha lhe segue os passos e vomita as tripas. Cetotifeno sai correndo em desabalada carreira. O pessoal do socorro acode com álcool e massagens. Fumarato realmente havia acabado de matar uma mula. Uma mula enorme. E sem cabeça.

Fonte:
Colaboração do autor.

Antologia Poética de Piracicaba


Ana Marly de Oliveira Jacobino
PARA "BANDEIRA E TODOS OS POETAS"

Que saudades do Brasil.
Lá eu era amigo do poeta.
Lia Andrade, Bandeira, Drummond
No sítio do meu avô Giubbina,
De bermuda, chinela, camiseta,
Caminhava pela grama orvalhada.

Que saudades do Brasil.
Como Lispector fui feliz por lá,
No Brasil tinha grandes aventuras, como,
Coordenar um Sarau Literário repleto
De poemas de quem sabe fazer
Do bom e belo juntando as palavras,
Passar por Passargada e visitar Bandeira.

Conhecerei meninos e meninas brancos, negros, índios...
Vou visitar a casa Encantada de Santos Dumont
Subir os degraus da escada com o pé direito.
Escada, que ele planejou, enquanto fazia o avião.
Ouvirei Vila Lobos, em sua Sinfonia de Brasilidade,
E, no Carnaval de Ouro Preto, descer as ladeiras,
Com as Repúblicas Históricas vestida de colombina.

Que saudade do Brasil.
Lá sou amiga do Bandeira
Sei que seus poemas são belos,
Tem bolsa família para os mais pobres.
E os trens sumiram das estações,
As pistas viraram sambódromos
Os rios, alguns, estão poluídos,
Mas, as pessoas são alegres, assim mesmo.

Quero ir à Sala São Paulo
Cantando o “Trenzinho Caipira”,
E beber uma caipirinha em Piracicaba
Ler as homilias de D. Paulo Evaristo Arns,
Na linda Catedral da Sé.
Vou-me embora para o Brasil!

E , se porventura vier a sentir
Saudade do vento gelado,
De ouvir um Jayhawks, imitar o toque do celular
De ver as árvores sem folhas,
E a grama queimada pela neve tão alva,
Quem sabe volte pra lá.
Talvez! Porque, aqui sou tão feliz.

Que saudade do Brasil. Lá sou amiga do Bandeira
Sei que no Brasil há Antonio, Benedito, João, Pedro.
Terei uma cama de palha de milho,
Cachaça, rapadura, mandioca e um amigo, à quem escrever.
Porque no Brasil, quem é amiga do Bandeira,
É quase, como amigo do Rei.

(Dedico este poema paráfrase ao Poeta rio pedrense "Richard Mathenhauer ")
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Elda Nympha Cobra Silveira
O PIANO

Estou ao piano...
Os sons saem lânguidos,
dolentes, às vezes, em forte,
fortíssimo, ou piano...pianíssimo.

Vou dedilhando
com sentimento,
e percebo que a vida
é um orquestrar constante.
Batendo nas teclas,
pretas ou brancas,
de stacatto em stacatto,
vou vibrando sempre.

No correr dos anos,
quando a angústia chega,
vou para um moderato
e sigo em frente,
mais devagar, mais silente...
E noto que, de repente,
a música da vida é mais terna,
mais amena, então,
meu sentimento se aprimora,
e quero tocá-la toda hora,
para ver se chego, sem demora,
ao gran finale esperado,
porque não quero acabar num desengano.
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Ana Lúcia Stipp Paterniani
PAISAGEM

Um lago que fica
Cada vez mais tranquilo
Até virar espelho
E refletir as flores coloridas
Que estão ao seu redor
E o céu azul

Escolho uma flor branca,
Parece um lírio -
- colírio para os olhos -
- bálsamo para as feridas da alma -
Assim pura, suave e
Perfumada
Assim, simples e bela -
- como eu quando consigo
Simplesmente
Ser.
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Benedita(Bêne) Giangrossi
CHORO

Lágrimas choradas
Fazendo pular o peito
Tão desalinhado
De Tanto chorar.
Lágrimas escondidas
Só o peito compreendido,
Desalinhando-se
De tanto chorar.
O banheiro único refúgio
Das lágrimas escondidas;
Alinhando o peito
De tanto desabafar.
================

Ivana Maria França de Negri
ASAS DA POESIA

Há um pássaro aprisionado
dentro de mim,
em frêmitos,
que quer voar,
adejar asas,
viajar no azul com o vento.
Quer eclodir seu canto
e espalhar pelo universo
o doce gorjeio
em forma de verso.
E ele se chama Poesia...
===================

Eliane Vidal
ESPERANDO O BEIJA-FLOR

Um bem-te-vi eu vi
no meu quintal
pousou num galho
que pesado balançou

e eu, que plantei
um pé de primavera
esperando pelo beija-flor
me encantei
com o bem-te-vi

na vida também
temos que admitir
pra ser feliz
temos que chacoalhar
a nossa primavera...
quem dera
pudéssemos ser como
o beija-flor

tão leve, tão solto,
tão livre, envolto
num brilho que é
só seu...
quisera fosse igual o meu
=======

Bruno Enei: Um Passeio pela Literatura Italiana



artigo de Ismael de Freitas

Livro traz aulas do professor Bruno Enei que foram taquigrafadas por sua aluna Sigrid Renaux entre os anos de 1956 a 58

A autoridade e o conhecimento em Literatura Italiana de um dos maiores intelectuais que Ponta Grossa já teve, aliados à dedicação de uma aluna que taquigrafava e depois datilografava as aulas, resulta agora no livro "Bruno Enei, aulas de Literatura Italiana e Desafios Críticos", da professora Sigrid Lange Scherrer Renaux, distribuído pela Todapalavra Editora.

O projeto do livro foi iniciado em 1983, na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), e através do patrocínio da Itaipu Binacional vai ser distribuído para escolas públicas municipais e estaduais, além de instituições particulares e de Ensino Superior, bibliotecas e instituições culturais de Ponta Grossa.

A embaixada da Itália, consulados daquele país e as principais bibliotecas do Brasil também receberão exemplares. A solenidade que marca o início da distribuição acontece no próximo dia 6 de maio, às 20 horas, no Colégio Regente Feijó, que também foi palco das aulas magistrais de Bruno Enei. No entanto, quem quiser ter o conteúdo da obra poderá baixar gratuitamente na internet, através do site www.todapapavraeditora.com.br.

A obra é um passeio pela Cultura Italiana, desde os tempos medievais, passando pelo Humanismo, Romantismo, Decadentismo até a Literatura após D'Annunzio. O leitor também vai encontrar escritos de Bruno Enei sobre Leonardo da Vinci, Carlos Drumond de Andrade, Literatura dos Campos Gerais e uma carta dirigida à professora Sigrid, então aluna de Bruno Enei, onde ele discorre sobre trechos da "Divina Comédia", de Dante Aliguieri. Finalizando, o livro traz textos publicados em jornais sobre o professor.

As aulas de Bruno Enei foram taquigrafadas entre os anos de 1956 e 58, período em que Sigrid foi aluna de Língua e Literatura Italiana no Curso de Letras Neolatinas da UEPG, naquela época, Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras. "Estudei taquigrafia com a professora Ema de Macedo, esposa do doutor Carlos de Macedo, numa época (década de 50) em que não se usavam ainda gravadores. Como eu também havia feito o curso de datilografia, aproveitei os dois cursos já enquanto estudava na Escola Técnica de Comércio Ponta-grossense. Assim, quando ingressei na UEPG (1956-59), costumava taquigrafar as aulas de Literatura Latina, Portuguesa, Francesa, Espanhola e Brasileira, além da Italiana, porque os assuntos me interessavam", conta.

Erudição e entusiasmo eram suas marcas

A autora diz que havia algo de especial na maneira como Bruno Enei ministrava suas aulas, marcadas pelo entusiasmo. "Tive excelentes professores no curso de Letras Neo-Latinas, como Nicolau Meira de Angelis, Faris A. Michaele e Robert K. Bowles, entre outros. As aulas do professor Bruno, entretanto, caracterizavam-se não só pela profunda erudição e conhecimento de literatura, arte, filosofia e história, mas também pelo entusiasmo contagiante que impregnava todas as suas palavras em sala de aula".

O livro também é o resultado da forte impressão que Bruno Enei causava em seus alunos. "Na realidade, foi a figura humana e o idealismo do professor Bruno que, acredito, marcaram não só a mim mas a todos os meus colegas de faculdade, características essas presentes em todas as páginas do livro publicado", salienta a professora Sigrid.

Texto mostra liberdade de pensamento

Um dos trechos mais impressionantes do livro é parte de um discurso por ocasião da formatura de seus alunos. O professor aconselha aos formandos a matar o "cepticismo, o mecanicismo, a gramática e o ponto". Para a professora Sigrid essa atitude o aproximava dos mestres. "Acredito que todo grande escritor, como todo grande crítico de literatura, está acima e além das regras fixas, seja de gramática, de gênero ou outras. O próprio Guimarães Rosa, numa entrevista, já dizia que '[A] língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a benção eclesiástica e científica. Entretanto, como sou sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim', dizia. O fato de o professor Bruno aconselhar aos formandos 'Matai a gramática', bem revela sua afinidade com os grandes mestres e sua coragem em proclamar isso numa sessão pública de formatura".

Obra quer preservar atividade intelectual

De acordo com a professora Sigrid, a intenção de publicar o livro com as aulas do professor Bruno Enei é uma maneira de reconhecer o trabalho desenvolvido pelo mestre. "Estou extremamente gratificada por poder, através da publicação desses textos, retribuir de alguma maneira todo o conhecimento e cultura que adquiri do professor Bruno. Acredito que a merecida divulgação de seus textos irá aumentar em muito o reconhecimento, para as gerações atuais e futuras, da figura ímpar deste mestre. Gostaria de registrar meus agradecimentos ao professor Hein L. Bowles, como editor da Todapalavra, que me procurou para retomar este projeto de publicação, iniciado em 1983 na UEPG e interrompido por motivos alheios à minha iniciativa. Graças a ele, à sua equipe e ao patrocínio da Itaipu Binacional, o livro finalmente se concretiza", finaliza a professora.

Professor recebe homenagens em Ponta Groosa

O professor Bruno dá nome à Biblioteca Pública de Ponta Grossa e a um evento anual de cultura na cidade. Muitos consideram que ele foi o principal intelectual que a cidade já teve. "Álvaro Augusto da Cunha Rocha, num artigo publicado na imprensa local em 5 de novembro de 1983, já se referiu a Bruno e à sua mulher Maria Enei como 'duas das mais extraordinárias figuras (intelectuais e humanas) que esta cidade já abrigou'. Compartilho dessa opinião" , frisa a professora Sigrid Renaux.

>> A professora Sigrid Paula Maria Lange Scherrer Renaux, carioca, radicada em Curitiba. É licenciada em Letras Neo-Latinas pela UEPG e em Letras Anglo-Germânicas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. É mestre em Estudos Anglo-Americanos e doutora em Literatura Norte-Americana e Inglesa pela Universidade de São Paulo (USP) com pós-doutorado pela Universidade de Chicago.

Fonte:
Jornal da Manhã.
http://www.jmnews.com.br/

‘Alice’ volta às livrarias em versões de luxo, mangá e até cordel

A personagem Alice, em ilustração assinada
pelo artista John Tenniel
artigo de Caio Terreran

Aos 145 anos, Alice está em todo lugar. De carona no blockbuster que Tim Burton preparou para a Disney, a história infantil criada em 1865 pelo escritor Lewis Carroll volta a marcar presença nas livrarias do país em um punhado de formatos e interpretações.

Destacados em nichos separados nas lojas, é possível encontrar desde a edição clássica do livro, que reúne as duas partes da história - “As aventuras de Alice no País das Maravilhas” e “Através do espelho” – e conta com as ilustrações originais de John Tenniel, até uma versão luxuosa renovada, com ilustrações de Luiz Zerbini e tradução do historiador Nicolau Sevcenko.

Há ainda edições especiais da obra para crianças, com páginas que “saltam” do livro, passando por guias visuais para acompanhar o filme de Burton, até versões em mangá e cordel de “Alice” (veja infográfico abaixo).

Mais que um conto de fadas

Com pitadas de surrealismo e nonsense, a saga da garota que despenca em um buraco no jardim e acorda em um mundo fantástico se mostra ainda hoje um tema contemporâneo e atraente, defende a professora de literatura da Universidade de São Paulo Maria dos Prazeres Mendes.

"'Alice no País das Maravilhas' é um clássico", categoriza Maria dos Prazeres, especializada em literatura infantil e juvenil. "[No livro] Carroll constrói uma linguagem inovadora, com marcas imensas de absurdo, que resgata a necessidade de uma adolescente em conhecer-se, adentrar a aventura da descoberta."

Para a professora, é partindo desse ponto comum a todos - a necessidade de se desvendar e entender - que a obra se mantém atraente para todas as gerações. "'Alice' não se equipara a contos de fadas. O efeito cômico, burlesco e popular, explicado em notas, continua atual e universal", garante.

Pop que remete ao clássico

O interesse dos leitores por "Alice" não é recente. Livrarias vêm observando crescimento na procura por livros da personagem desde o ano passado. “Foi a partir de setembro, bem antes de o filme ter data de lançamento ou mais informações divulgadas, que notamos um aumento na procura”, conta o responsável por compras da Livraria Cultura Rodrigo Cardoso.

“É interessante ver que hoje há um caminho inverso ao que era percorrido anteriormente: agora, em vez de um filme ‘vir’ do livro, é o livro que tem seu apelo ressuscitado pelo cinema. Enxergamos isso acontecendo até com gêneros: ‘Crepúsculo’, por exemplo, fez subir as vendas de ‘O morro dos ventos uivantes’”, revela Cardoso.

“O universo de partida é pop, mas leva o leitor, geralmente adolescente, a travar contato com obras clássicas e de qualidade”. Segundo Cardoso, desde o começo do ano toda filial da rede de livrarias montou um espaço apenas com livros baseados na mais famosa criação de Carroll.

Movimento semelhante foi feito na Livraria da Vila – que criou uma vitrine especial para “Alice” em sua unidade no bairro de Pinheiros (na zona oeste de São Paulo). “Como muitas editoras têm direitos sobre a história, foi grande o número de lançamentos que recebemos. Dar destaque foi a forma encontrada para contemplar tantas novidades”, diz o funcionário de marketing da empresa Júlio César Brugnari.

E o estoque, inclusive, já foi reforçado prevendo uma procura maior após a estreia do filme, adianta.

Fonte:
G1 Pop & Arte.

sábado, 24 de abril de 2010

Érico Verissimo (Os Devaneios do General)


Abre-se uma clareira azul no escuro céu de inverno.

O sol inunda os telhados de Jacarecanga. Um galo salta para cima da cerca do quintal, sacode a crista vermelha que fulgura, estica o pescoço e solta um cocoricó alegre. Nos quintais vizinhos outros galos respondem.

O sol! As poças d'água que as últimas chuvas deixaram no chão se enchem de jóias coruscantes. Crianças saem de suas casas e vão brincar nos rios barrentos das sarjetas. Um vento frio afugenta as nuvens para as bandas do norte e dentro de alguns instantes o céu é todo um clarão de puro azul.

O General Chicuta resolve então sair da toca. A toca é o quarto. O quarto fica na casa da neta e é o seu último reduto. Aqui na sombra ele passa as horas sozinho, esperando a morte. Poucos móveis: a cama antiga, a cômoda com papeis velhos, medalhas, relíquias, uniformes, lembranças; a cadeira de balanço, o retrato do Senador; o busto do Patriarca; duas ou três cadeiras... E recordações... Recordações dum tempo bom que passou, — patifes! — dum mundo de homens diferentes dos de hoje. — Canalhas! — duma Jacarecanga passiva e ordeira, dócil e disciplinada, que não fazia nada sem primeiro ouvir o General Chicuta Campolargo.

O general aceita o convite do sol e vai sentar-se à janela que dá para a rua. Ali está ele com a cabeça atirada para trás, apoiada no respaldo da poltrona. Seus olhinhos sujos e diluídos se fecham ofuscados pela violência da luz. E ele arqueja, porque a caminhada do quarto até a janela foi penosa, cansativa. De seu peito sai um ronco que lembra o do estertor da morte.

O general passa a mão pelo rosto murcho: mão de cadáver passeando num rosto de cadáver. Sua barbicha branca e rala esvoaça ao vento. O velho deixa cair os braços e fica imóvel como um defunto.

Os galos tornam a cantar. As crianças gritam. Um preto de cara reluzente passa alegre na rua com um cesto de laranjas à cabeça.

Animado aos poucos pela ilusão de vida que a luz quente lhe dá, o general entreabre os olhos e devaneia...

Jacarecanga! Sim senhor! Quem diria? A gente não conhece mais a terra onde nasceu... Ares de cidade. Automóveis. Rádios. Modernismos. Negro quase igual a branco. Criado tão bom como patrão. Noutro tempo todos vinham pedir a benção ao General Chicuta, intendente municipal e chefe político... A oposição comia fogo com ele.

O general sorria a um pensamento travesso. Naquele dia toda a cidade ficou alvoroçada. Tinha aparecido na "Voz de Jacarecanga" um artigo desaforado... Não trazia assinatura. Dizia assim: "A hiena sanguinária que bebeu o sangue dos revolucionários de 93 agora tripudia sobre a nossa mísera cidade desgraçada". Era com ele, sim, não havia dúvida. (Corria por todo o Estado a sua fama de degolador.) Era com ele! Por isso Jacarecanga tinha prendido fogo ao ler o artigo. Ele quase estourou de raiva. Tremeu, bufou, enxergou vermelho. Pegou o revólver. Largou. Resmungou "Patife! Canalha!" Depois ficou mais calmo. Botou a farda de general e dirigiu-se para a Intendência. Mandou chamar o Mendanha, diretor do jornal. O Mendanha veio. Estava pálido. Era atrevido mas covarde. Entrou de chapéu na mão, tremendo. Ficaram os dois sozinhos, frente a frente.

— Sente-se, canalha!

O Mendanha obedeceu. O general levantou-se. (Brilhavam os alamares dourados contra o pano negro do dólmã.) Tirou da gaveta da mesa a página do jornal que trazia o famoso artigo. Aproximou-se do adversário.

— Abra a boca! — ordenou.

Mendanha abriu, sem dizer palavra. O general picou a página em pedacinhos, amassou-os todos numa bola e atochou-a na boca do outro.

— Come! — gritou.

Os olhos de Mendanha estavam arregalados. O sangue lhe fugira do rosto.

— Coma! — sibilou o general.

Mendanha suplicava com o olhar. O general encostou-lhe no peito o cano do revolver e rosnou com raiva mal contida.

— Coma, pústula!

E o homem comeu.

Um avião passa roncando por cima da casa, cujas vidraças trepidam. O general tem um sobressalto desagradável. A sombra do grande pássaro se desenha lá em baixo, no chão do jardim. O general ergue o punho para o ar, numa ameaça.

— Patifes! Vagabundos, ordinários! Não têm mais o que fazer? Vão pegar no cabo duma enxada, seus canalhas. Isso não é serviço de homem macho.

Fica olhando, com olho hostil, o avião amarelo que passa voando rente aos telhados da cidade.

No seu tempo não havia daquelas engenhocas, daquelas malditas máquinas. Para que servem? Para matar gente. Para acordar quem dorme. Para gastar dinheiro. Para a guerra. Guerras covardes, as de hoje! Antigamente brigava-se em campo aberto, peito contra peito, homem contra homem. Hoje se metem os poltrões nesses "banheiros" que voam, e lá de cima se põem a atirar bombas em cima da infantaria. A guerra perdeu toda a sua dignidade.

O general remergulha no devaneio.

93... Foi lindo. O Rio Grande inteiro cheirava a sangue. Quando se aproximava a hora do combate, ele ficava assanhado. Tinha perto de cinqüenta anos mas não se trocava por nenhum rapaz de vinte.
Por um instante, o general se revê montado no seu tordilho, teso e glorioso, a espada chispando ao sol, o pala voando ao vento... Vejam só! Agora está aqui, um caco velho, sem força nem serventia, esperando a todo instante a visita da morte. Pode entrar. Sente-se. Cale a boca!

Morte... O general vê mentalmente uma garganta aberta sangrando. Fecha os olhos e pensa naquela noite... Naquela noite que ele nunca mais esqueceu. Naquela noite que é uma recordação que o há de acompanhar decerto até o outro mundo... se houver outro mundo.

Os seus vanguardeiros voltaram contando que a força revolucionária estava dormindo desprevenida, sem sentinelas... Se fizessem um ataque rápido, ela seria apanhada de surpresa. O general deu um pulo. Chamou os oficiais. Traçou o plano. Cercariam o acampamento inimigo. Marchariam no maior silêncio e, a um sinal, cairiam sobre os "maragatos". Ia ser uma festa! Acrescentou com energia: "Inimigo não se poupa. Ferro neles!"

Sorriu um sorriso torto de canto de boca. (Como a gente se lembra dos mínimos detalhes...) Passou o indicador da mão direita pelo próprio pescoço, no simulacro duma operação familiar... Os oficiais sorriam, compreendendo. O ataque se fez. Foi uma tempestade. Não ficou nenhum prisioneiro vivo para contar dos outros. Quando a madrugada raiou, a luz do dia novo caiu sobre duzentos homens degolados. Corvos voavam sobre o acampamento de cadáveres. O general passou por entre os destroços. Encontrou conhecidos entre os mortos, antigos camaradas. Deu com a cabeça dum prisioneiro fincada no espeto que na tarde anterior servira aos maragatos para assar churrasco. Teve um leve estremecimento. Mas uma frase soou-lhe na mente: "Inimigo não se poupa".

O general agora recorda... Remorso? Qual! Um homem é um homem e um gato é um bicho.

Lambe os lábios gretados. Sede. Procura gritar:

— Petronilho!

A voz que sai da garganta é tão remota e apagada que parece a voz de um moribundo, vinda do fundo do tempo, dum acampamento de 93.

— Petronilho! Negro safado! Petronilho!

Começa a bater forte no chão com a ponta da bengala, frenético. A neta aparece à porta. Traz nas mãos duas agulhas vermelhas de tricô e um novelo de lã verde.
— Que é, vovô?

— Morreu a gente desta casa? Ninguém me atende. Canalhas! Onde está o Petronilho?

— Está lá fora, vovô.

— Ele não ganha pra cuidar de mim? Então? Chame ele.

— Não precisa ficar brabo, vovô. Que é que o senhor quer?

— Quero um copo d'água. Estou com sede.

— Por que não toma suco de laranja?

— Água, eu disse.

A neta suspira e sai. O general entrega-se a pensamentos amargos. Deus negou-lhe filhos homens. Deu-lhe uma única filha mulher que morreu no dia em que dava à luz uma neta. Uma neta! Por que não um neto, um macho? Agora aí está a Juventina, metida o dia inteiro com tricôs e figurinos, casada com um bacharel que fala em socialismo, na extinção dos latifúndios, em igualdade. Há seis anos nasceu-lhe um filho. Homem, até que enfim! Mas está sendo mal educado. Ensinam-lhe boas maneiras. Dão-lhe mimos. Estão a transformá-lo num maricas. Parece uma menina. Tem a pele tão delicada, tão macia, tão corada... Chiquinho... Não tem nada que lembre os Campolargos. Os Campolargos que brilharam na guerra do Paraguai, na Revolução de 1893 e que ainda defenderam o governo em 1923...

Um dia ele perguntou ao menino:

— Chiquinho, você quer ser general como o vovô?

— Não. Eu quero ser doutor como o papai.

— Canalhinha! Patifinho!

Petronilho entra, trazendo um copo de suco de laranja.

— Eu disse água! — sibila o general.

O mulato sacode os ombros.

— Mas eu digo suco de laranja.

— Eu quero água. Vá buscar água, seu cachorro!

Petronilho responde sereno:

— Não vou, general de bobagem...

O general escabuja de raiva, esgrime a bengala, procurando inutilmente atingir o criado. Agita-se todo, num tremor desesperado.

— Canalha! — cicia arquejante — Vou te mandar dar umas chicotadas!

— Suco de laranja — cantarola o mulato.

— Água! Juventina! Negro patife! Cachorro!

Petronilho sorri:

— Suco de laranja, seu sargento!

Com um grito de fera o general arremessa a bengala na direção do criado. Num movimento ágil de gato, Petronilho quebra o corpo e esquiva-se do golpe.

O general se entrega. Atira a cabeça para trás e, de braços caídos, fica todo trêmulo, com a respiração ofegante e os olhos revirados, uma baba a escorrer-lhe pelos cantos da boca mole, parda e gretada.

Petronilho sorri. Já faz três anos que assiste com gozo a esta agonia. Veio oferecer-se de propósito para cuidar do general. Pediu apenas casa, comida e roupa. Não quis mais nada. Só tinha um desejo: ver os últimos dias da fera. Porque ele sabe que foi o general Chicuta Campolargo que mandou matar o seu pai. Uma bala na cabeça, os miolos escorrendo para o chão... Só porque o mulato velho na última eleição fora o melhor cabo eleitoral da oposição. O general chamou-o a intendência. Quis esbofeteá-lo. O mulato reagiu, disse-lhe desaforos, saiu altivo. No outro dia...

Petronilho compreendeu tudo. Muito menino, pensou na vingança mas, com o correr do tempo, esqueceu. Depois a situação política da cidade melhorou. O general aos poucos foi perdendo a autoridade. Hoje os jornais já falam na "hiena que bebeu em 93 o sangue dos degolados". Ninguém mais dá importância ao velho. chegou aos ouvidos de Petronilho a notícia de que a fera agonizava. Então ele se apresentou como enfermeiro. Agora goza, provoca, desrespeita. E fica rindo... Pede a Deus que lhe permita ver o fim, que não deve tardar. É questão de meses, de semanas, talvez até de dias... O animal passou o inverno metido na toca, conversando com os seus defuntos, gritando, dizendo desaforos para os fantasmas, dando vozes de comando: "Romper fogo! Cessar Fogo! Acampar".

E recitando coisas esquisitas. "V. Exa. precisa de ser reeleito para glória do nosso invencível Partido". Outras vezes olhava para o busto e berrava: "Inimigo não se poupa. Ferro neles".

Mais sereno agora, o general estende a mão pedindo. Petronilho dá-lhe o copo de suco de laranja. O velho bebe, tremulamente. Lambendo os beiços, como se acabasse de saborear o seu prato predileto, o mulato volta para a cozinha, a pensar em novas perversidades.

O general contempla os telhados de Jacarecanga. Tudo isto já lhe pertenceu... Aqui ele mandava e desmandava. Elegia sempre os seus candidatos; derrubava urnas, anulava eleições. Conforme a sua conveniência, condenava ou absolvia réus. Certa vez mandou dar uma sova num promotor público que não lhe obedeceu à ordem de ser brando na acusação. Doutra feita correu a relho da cidade um juiz que teve o caradurismo de assumir ares de integridade de opor resistência a uma ordem sua.

Fecha os olhos e recorda a glória antiga.

Um grito de criança. O general baixa os olhos. No jardim, o bisneto brinca com os pedregulhos do chão. Seus cabelos louros estão incendiados de sol. O general contempla-o com tristeza e se perde em divagações...

Que será o mundo de amanhã, quando Chiquinho for homem feito? Mais aviões cruzarão nos céus. E terá desaparecido o último "homem" da face da terra. Só restarão idiotas efeminados, criaturas que acreditam na igualdade social, que não têm o sentido da autoridade, fracalhões que não se hão de lembrar dos feitos dos seus antepassados, nem... Oh! Não vale a pena pensar no que será amanhã o mundo dos maricas, o mundo de Chiquinho, talvez o último dos Campolargos!

E, dispnéico, se entrega de novo ao devaneio, adormentado pela carícia do sol.

De repente, a criança entra de novo na sala, correndo, muito vermelho:

— Vovô! Vovô!

Traz a mão erguida e seus olhos brilham. Faz alto ao pé da poltrona do general.

— A lagartixa, vovozinho...

O general inclina a cabeça. Uma lagartixa verde se retorce na mãozinha delicada, manchada de sangue. O velho olha para o bisneto com ar interrogador. Alvorotado, o menino explica:

— Degolei a lagartixa, vovô!

No primeiro instante o general perde a voz, no choque da surpresa. Depois murmura, comovido:

— Seu patife! Seu canalha! Degolou a lagartixa? Muito bem. Inimigo não se poupa. Seu patife!

E afaga a cabeça do bisneto, com uma luz de esperança nos olhos de sáurio.

Fonte:
"Entrevero". Porto Alegre: L&PM, 1984. (edição especial para MPM Propaganda).