terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Trova 333 - Carolina Ramos

Imagem de fundo: Deusa Flora, de autoria desconhecida

Janske Niemann (Poemas Escolhidos)



A PETRÓPOLIS

És minha! Com tuas manhãs muito frias,
com montes e céu, confundindo-se além.
És minha nas mais infantis alegria
se és minha na lágrima triste que vem...

És minha! com toda a balbúrdia dos dias
e com toda a calma das noites também.
Às vezes te encontro nas minhas poesias
e às vezes em sonhos que os outros não têm...

És minha, quando eu te contemplo e, sozinha,
escrevo o que sinto. Que felicidade
olhar-te e dizer o que mais ninguém diz!

Mas nesta alegria de ter-te tão minha,
ocorre-me às vezes (estranho em verdade)
que eu tenho vergonha... de ser tão feliz!

CANTA! 
Para Oswaldo Montenegro

Canta para mim! Canta a tristeza,
canta a solidão e canta o mar!
Quero acompanhar-te no teu canto...
... mas eu não sei cantar...

Toca o violão, toca bem alto
para que não me ouçam soluçar.
Amo o violão contra o teu peito...
... mas eu não sei tocar...

Canta para mim, enquanto escrevo
versos que, talvez, ninguém vá ler.
Ouço-te cantar e escrevo versos:
é só o que sei fazer...

Canta para mim! Grita Poesia!
Canta pela boca, as mãos, o olhar!
Vou cantar também, cantar contigo...
... mas eu só sei chorar...

CONVITE PARA O CAFÉ

Observo a mesa posta. Com cuidado
coloco cada coisa em seu lugar:
a xícara mais bela deste lado
e logo poderemos nos sentar.

O pão quentinho (o aroma paira no ar...)
o guardanapo limpo, bem dobrado.
Colho um botão de rosa; meu olhar
se alegra ao ver chegar o convidado.

Esta manhã de inverno, um pouco fria,
parece que aumentou minha alegria
e me aqueceu enquanto eu esperei.

O filho chega - alegre e desatento -
(não vê que eu esperava este momento)
e apenas diz:"Café? Eu já tomei...”

DEIXA-ME RIR

RIR, como se fosse eterna a primavera...
... como se eu pudesse adormecer
entre flores

RIR, como se eu não te amasse...
... como se não houvesse adeus
e eu fosse livre
qual na planície uma rajada de vento...

RIR, embriagada pelo amor
até me tornar uma nuvem branca 
solta no espaço contra o azul do céu

... como se o rugido da tempestade
me perseguisse
sem me alcançar

RIR, como se o clamor pela paz fosse ouvido...
... como se a vida fosse um poema

RIR, louca, desvairadamente,
e viver num riso interminável
... como se Poesia não fosse dor…

D O R

Não me verão, no dia que amanhece,
a voz que treme, o passo que vacila
e nem, na face, a lágrima que desce:
sorrindo chegarei, quase tranquila...

Conseguirei, no rosto que padece,
a máscara moldar, qual fosse argila.
A boca esconde a dor: até parece
não a sentir... ou finge não senti-la...

Não me ouvirão palavras de revolta,
o grito angustiado não se solta,
a estranha solidão não se revela.

Da dor, nasce a poesia quase feita:
- a rima bela, a métrica perfeita! -
Amas a dor, poeta! Vives dela...

LIVRE

Julguei que eu fosse livre:
livre como uma nuvem é livre
como uma borboleta é livre
como é livre o vento...

Julguei-me bela:
bela como uma flor é bela
como o crepúsculo é belo
e como é belo o luar...

Pensei ter encontrado o amor:
aquele amor que é sempre amor
que é ternura e afago
aquele que não existe...

(De repente quero ficar só:
preciso chorar um pouquinho...)

MINHA CASA

Conheço-te tão bem! A sala, o quarto,
a vista da janela escancarada!
Na mesa da cozinha, o almoço farto,
o som de cada porta ao ser fechada...

Conheço-te demais! No entanto, parto...
De tudo o que era meu, não fica nada:
na sala, nada... e nada no meu quarto,
só o vento na varanda ensolarada...

E deixo a antiga casa na ladeira:
risadas quantas! quanta brincadeira!
Mas parto... e minha casa deixo aqui.

Horrível ver-te assim: fria e despida...
Nem fecho a porta: saio pela vida,
avaliando o quanto empobreci!

SER SÍLABA

Não me ouvirás queixume nem lamento
(só o frio da manhã me reanima...)
e mesmo estando triste de momento,
não me ouvirás chorar, pois choro em rima.

Não me verás a dor, pois mostro apenas
a mão que apara os golpes mais adversos.
Um lânguido sorriso esconde as penas:
não me verás chorar, pois choro em versos.

Ser frágil como pétala intocada
e ainda assim ser símbolo da paz;
ser luz... ser sombra... e se não for mais nada,
ser sílaba, que em versos se desfaz…

Fontes:
Facebook e Blog da poetisa

Janske Niemann


Janske Niemann Schlenker nasceu em Amsterdã, Holanda, e veio para o Brasil ainda muito jovem, residindo primeiramente em Petrópolis-RJ e, desde 1957, em Curitiba-PR. 

Estudou música e foi organista. 

Por seu domínio em holandês e alemão, sobretudo no inglês, trabalhou como tradutora e, por dez anos, como secretária bilíngue. 

Publicou textos em diversos jornais de São Paulo (O Fanal e Movimento Poético Nacional) e de Petrópolis e, desde 2006, publica poemas no Festival de Sonetos, promovido pela Academia Jacarehyense de Letras. 

Conquistou o primeiro lugar no Programa Poesia Viva aos 18 anos e seu primeiro livro recebeu um prêmio-publicação pelo programa Chamada Geral. 

Integra a Academia de Letras José de Alencar, a União Brasileira de Trovadores, o Centro de Letras do Paraná, o Centro Paranaense Feminino de Cultura e a Academia Paranaense de Poesia (Cadeira nº 16).

Livros publicados:

Deixa que eu chore. (Biblioteca Pública do Parana´, Secretaria de Estado da Cultura e do Esporte, 1985), poesias.

Deixa que eu fale (Centro de Letras do Paraná, 1999), poesias.

Deixa que doa. (Edição da autora, s.d.), poesias.

Fonte:

Contos e Lendas do Mundo (Estados Unidos: O Homem que semeava árvores)


Para os primeiros colonos europeus que viajaram de carroça até ao Oeste desconhecido, as macieiras forneciam abrigo, comida e um cheirinho a casa. A lenda diz que a maioria das árvores foi plantada por John Chapman, recordado hoje como Johnny Appleseed (Appleseed: semente de maçã).

Johnny Appleseed era feliz onde estava. Ouvira histórias do Oeste um lugar selvagem de planícies sem fim, montanhas enormes e densos pinhais - e não vislumbrava nenhuma boa razão para abandonar a segurança da sua amada quinta de macieiras no Massachusetts. A quinta de Johnny era um pomar imenso de centenas de macieiras que davam bonitas flores na Primavera e deliciosas maçãs no Verão.

Como aqueles que o rodeavam, Johnny Appleseed era uma pessoa simples, temente a Deus. Trabalhava seis dias por semana e ia à igreja ao sétimo. Era feliz com a vida e por estar num país onde havia terra suficiente para partilhar. Adorava as pessoas, a língua e a comida - e a que mais adorava era tarte de maçã, feita com maçãs da sua própria quinta. Que a comida favorita de Johnny fosse torta de maçã não era surpresa para ninguém. O que foi surpresa foi um dia anunciar que ia para o Oeste.

- Mas por que razão é que te vais embora? - perguntou um amigo quando ouviu a notícia.

- Porque um anjo me pediu - disse Johnny. - Apareceu de trás de um arbusto e incumbiu-me de uma missão na vida.

- A ti? - disse o amigo, sorrindo, surpreso. - Porquê a ti, Johnny? A única coisa de que entendes é de maçãs!

 - Foi essa a razão da minha escolha - disse Johnny. - A minha missão é encaminhar-me para o Oeste e semear macieiras à medida que caminho.

E foi exatamente o que ele fez. Não levou nem cavalo nem mula. Não levou qualquer arma - apenas alguns víveres, as suas preciosas sementes de macieira e uma pá para escavar o solo - e foi assim que ele ficou com o nome de Johnny Appleseed.

Johnny Appleseed não se limitou a semear apenas macieiras na sua incrível caminhada para o Oeste. Semeou também muita boa vontade. Preocupava-se tanto com os animais como com as pessoas. Uma vez, preferiu passar uma noite fria de Inverno ao relento, na neve, a expulsar uma mãe ursa e os seus filhos de dentro de um tronco de árvore que seria um abrigo ideal para si.

Para onde quer que fosse, era bem-vindo. Quando chegou a velho já semeara macieiras pelas planícies. Alguns dizem que se não fosse Johnny Appleseed, não existiria a expressão «tão americano como uma torta de maçã».

Um dia, o anjo apareceu a Johnny uma segunda vez.

- O teu trabalho aqui está terminado - disse ele ao ancião. - Vem semear macieiras no Céu.

E assim Johnny e o anjo partiram juntos, deixando atrás de si um país coberto de bonitos pomares cheios de maçãs deliciosas.

Fonte:

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Trova 332 - Prof. Garcia


D. João da Câmara (O Presépio)


Havia quase um ano que estava na loja, mercearia num bairro escuro, em que mal entrava de esguelha, como espreitando a medo, um raio de sol, entre as casarias muito altas da rua tortuosa.

Com doze anos, que saudades tinha da aldeia, da família, dos antigos companheiros de escola, dos cães amigos que ladravam de noite a vigiar a casa!

Tudo lá tão longe! Ah! Se ele soubesse!...

Pois nem uma lágrima lhe viera anuviar o último adeus, quando a diligência dera volta na estrada e ele vira sumirem-se os choupos da ribeira e o lenço que mão saudosa sacudia no alto da cabeça. É que o deslumbrava a ideia de Lisboa, de que tantas maravilhas grandes lhe contavam. Ainda agora partia, e já se via de volta na aldeia, de relógio e cadeia de ouro, a falar de alto, a puxar o bigode, a dar enchente, como o Januário, que lhe arranjara o lugar.

Com o seu examezinho de instrução primária, marçano* de uma tenda... Não, que os pais não o queriam para cavador. Tinham sido consultados o mestre-escola, o prior, o senhor Freitas, lavrador muito importante que arrastava tudo nas eleições, o Custódio, velhote de muito bom conselho, e todos se tinham mostrado de acordo: não havia como Lisboa para fazer um homem. Era ver o Januário que tinha casado com a viúva do patrão. A loja era de um cunhado dele, bom homem, áspero mas bom homem. Os olhos baixos do Manuelzito, fitos no chão, viam no tijolo resplandecer auréolas, que giravam como o fogo de vistas pelas festas.

Ah estava, havia quase um ano; e no desvão da escada, onde às dez horas o mandavam deitar, a morrer de calor no Verão, no Inverno a morrer de frio, punha-se a rever os campos e a casa deixados sem as lágrimas, que lhe corriam agora em grossos fios pelas faces.

Os primeiros dias tinham passado muito lentos. A conselho do Januário, um biscoito ou outro da mão papuda e oleosa do merceeiro tinham-no ajudado na tarefa. Assim é que ele havia de ser homem, um dia. Mas o patrão mostrava maior pressa. Pai, mãe e mestre-escola nunca lhe tinham batido. Atreveu-se uma vez a declará-lo. Foi pior. 

Chegou o Verão. As festas de São João e São Pedro aumentaram-lhe a tristeza. Reviu nesses dias mais intensamente a alegria da aldeia, os bailes à noite em volta da fogueira, a ida à fonte pela manhã, o sino a tocar à missa, e ele a pensar que, quando fosse crescido, havia de ter uma namorada por quem queimasse uma alcachofra, a quem cantasse umas quadras falando de estrelas e de flores.

A bulha nas ruas, nessas noites, não o deixara dormir. Cada bomba era uma pancada no coração. Um sol-e-dó que passou tocando arrancou-lhe lágrimas de imensa saudade.

Pelos Santos, com a melancolia do tempo, ainda foi pior. Depois veio o Inverno, começaram os dias de chuva. O mau tempo irritava o patrão, porque lhe afugentava fregueses. Na loja, com recantos muito negros, acendiam-se muito cedo os candeeiros, e o Manuelzito tinha pena da sombra em que se acolhia com maior amor. Pasmava os olhos, fugia com o pensamento para muito longe.

— Acorda, moleque! — gritava-lhe o patrão.

Estava a chegar o Natal. Que lindo era o Natal lá na aldeia! Andavam na rua a abrir um cano; quase ninguém ali passava; os passeios eram cheios de lama. O patrão andava furioso. Então o pequeno teve uma ideia.
* * *

Lembrou-se de fazer muito misteriosamente um presépio. O segredo em que havia de trabalhar mais o animava na tarefa. Todos os dias, muito a medo, enquanto o patrão almoçava ou saía da loja algum instante, vinha à porta, se não havia freguês a servir, espreitava, corria, apanhava um nadinha de barro nas escavações do cano. Escondia-o, e debaixo do balcão, quase às apalpadelas, ia fazendo as figurinhas. Assim modelou o menino Jesus, que deitou num berço de caixa de fósforos, Nossa Senhora de mãos postas, São José de grandes barbas, os três Reis Magos a cavalo, e os pastores, um a tocar gaita de foles, outro com um cordeirinho às costas, e uma mulher com uma bilha. Não se pareceriam lá muito; mas ele deu provas de que sabia puxar pela imaginação. Sempre lhe faltava alguma coisa. Havia problemas difíceis de resolver. 

Um dia, engraxando as botas do patrão, lembrou-se de engraxar um dos reis, e pôs-lhe depois umas bolinhas brancas, de papel a fingir os olhos. Aos anjos fez asas com as penas de uma galinha que depenou para um jantar de festa que não comeu. Moeu vidro para fingir as águas do rio, e no papel de embrulho recortou um moinho que só havia de armar à última hora. Levou nisso parte de Novembro e Dezembro todo, até ao Natal. Escondia os materiais debaixo da enxerga e, de vez em quando, revia-se na obra.

O que mais o encantava era o menino Jesus, com a cabeça do tamanho de um grão de milho, com buraquinhos a fingirem olhos, ouvidos, nariz e boca. Tinha mãos com cinco dedos riscados a canivete e dois pezinhos que ele achava um encanto. Com tiras de papel azul havia de fazer o céu e, como o não tinha dourado onde recortasse a estrela, fez em papel branco uma meia Lua; vinha quase a dar na mesma

Aquele mês passou correndo.

Era a véspera do Natal. As dez e meia, o patrão mandou-o deitar e saiu. Que alegria estar só! Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o presépio. E logo começou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia o céu e pregou nele com um alfinete a meia Lua; espalhou o vidro moído, num S em volta das palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos. Depois fez uma carreira de fósforos de cera, que todos se tinham de acender ao mesmo tempo, num deslumbramento, quando desse meia noite.

Deram onze e três quartos. Ajoelhou. Batia-lhe o coração, que lhe parecia que deviam de ser milagrosas as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação da sua vida triste. Que seria quando ele iluminasse o desvão da escada e os santinhos se pusessem todos a luzir quase tanto como os verdadeiros? Rezava-lhes... Rezava-lhes... Àquela hora, lá na aldeia, tocavam os sinos alegres e iam ranchos contentes a caminho da igreja. Lá dentro reluzia o trono, e o sacristão muito atarefado ia, vinha...

Meia noite!

Acendeu os fósforos e ficou embasbacado! Nunca assim vira coisa tão perfeita. Os anjos voavam deveras, os cavalos dos reis galopavam, o rio corria, as velas giravam no moinho e os pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto a São José e a Nossa Senhora!

Pôs-se a cantar, como lá na aldeia:

Andava nessas campinas,
Esta noite, um querubim.

Tão enlevado cantava, que nem ouviu o patrão abrir a porta, entrar na loja, chegar ao desvão. Acordou-o do êxtase um pontapé.

— Isso... Agora larga-me fogo à escada!... Varre-me já esse lixo!

E ele, a chorar, levantou-se, foi buscar a vassoura.

O bruto continuava aos pontapés.

— Vá?... Vá!

Mas quando se deitou, encontrou na enxerga uma figurinha. Apalpou-a, conheceu-a logo: era a do Menino Jesus. Beijou-a muito. Pior vida levara do que ele... Sentiu de repente um dó muito grande do patrão, que não vira nada, nem que era tão bonito aquele Menino, com um olhar tão meigo nos seus olhinhos picados.
____________________
Nota:
* Marçano: aprendiz de caixeiro, esp. de loja de gêneros alimentícios; 
por extensão: novato em qualquer ocupação; principiante.

Fonte:
Vários Autores. Contos de Natal Portugueses

Caldeirão Poético XVIII



ELOGIOS
                                
Teus olhos têm momentos desiguais;
sua luz ora é plácida, ora é ardente,
é o suave fluir da água corrente
ou o relampejar de dois punhais.

Estranhos pirilampos de savanas
brilhando nos meus céus tão desolados,
são dois negros diamantes resguardados
por tuas magníficas pestanas.

Únicos olhos que hão por mim chorado,
únicos olhos que hão interpretado
toda a minha alma lutadora e forte;

quero que sejam, com sua luz querida,
os únicos a rir em minha vida,
os únicos que chorem minha morte.

(Tradução de Othon Costa)



A PROMESSA 

... E todo o ouro do mundo parecia
diluído na tarde luminosa.
Apenas um crepúsculo de rosa
a alta copa das árvores tingia.

Súbito amor, a minha mão unia
à tua mão morena, carinhosa...
Éramos Booz e Ruth ante a formosa
terra que aos nossos olhos se estendia.

- Me amarás? perguntaste. Lenta e grave
veio-me aos lábios a promessa suave
da amante moabita, tão querida;

e foi como um “Amém!”  que neste instante
se ouviu, num toque de oração, vibrante
bater o sino da pequena ermida!

(Tradução de J. G. de Araujo Jorge)


EXPLOSÃO

Se a vida é amor, bendita seja então!
Quero mais vida, se esse amor aumento;
que não valem mil anos de razão
um só minuto azul de sentimento.

Meu coração morria triste e lento
e hoje é uma flor de luz em combustão!
A vida canta como um mar violento
quando a mão de um amor a agita em vão!

Esfuma-se na noite triste, fria,
de asas rotas - minha melancolia;
como a indelével mancha de uma dor

que na sombra distante já perdi...
A vida toda canta, beija, ri,
numa explosão como uma boca em flor!

(Tradução de J. G. de Araujo Jorge)


SÚPLICA 

Sê franca uma só vez! Desfaz o engano
se teus olhos me dizem que tu mentes,
- se nunca amor sentiste, e se o não sentes
por que juntar a farsa ao desengano?

Tratas-me como estranho... É desumano!
Por piedade, confessa! Não aumentes
com promessas que querem ser ardentes
este sonho que a mim só causa dano.

Se pudesses saber quanto te quero!
Fugir, mil vezes tento e não consigo,
meu querer faz-se pranto, e eu desespero...

Maldigo a sorte então, e um tal encanto,
pois me tens a teus pés... E te maldigo
e até te odeio. . . mesmo a amar-te tanto!

(Tradução de J. G. de Araujo Jorge)

Fonte:
J G de Araujo Jorge. Os Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou. 
vol. III (Poesia Universal - Européia e Americana), 1966.

Franz Kafka (O Vizinho)


Meu negócio descansa inteiramente sobre os meus ombros. Duas senhoritas com suas máquinas de escrever e seus livros comerciais no primeiro quarto, e uma escrivaninha, caixa, mesa de informações, cadeiras de braços e telefone no meu, constituem todo meu aparelhamento de trabalho. É muito fácil controlar isso com uma vista de olhos, e dirigi-lo. Sou muito jovem e os negócios se acumulam aos meus pés. Não me queixo, não me queixo. 

Desde o Ano Novo, um jovem alugou sem hesitar a sala contígua, pequena e desocupada, que por tanto tempo titubeei, estupidamente, em tomar para mim. Trata-se de um quarto com antecâmara e, além do mais, uma cozinha. Tivesse podido utilizar o quarto e a antecâmara - minhas duas empregadas sentiram-se mais uma vez sobrecarregadas em suas tarefas -, mas, para que me teria servido a cozinha? Esta pequena hesitação foi a causa de permitir que me tirassem a sala. Nela está instalado, pois, esse jovem. Chama-se Harras. Com exatidão não sei o que faz ali. Sobre a porta lê-se: "Harras, escritório". Pedi informações, comunicaram-me que se trataria de um negócio idêntico ao meu. Na realidade, não vem ao caso dificultar-lhe a concessão de crédito, pois se trata de um homem jovem e de aspirações, cujas atividades tenham talvez futuro, mas não se poderia, contudo, aconselhar que se lhe outorgue crédito, pois atualmente, segundo todas as presunções, careceria de fundos. Quer dizer, a informação que se dá habitualmente quando não se sabe de nada. 

Às vezes encontro Harras na escada, deve ter sempre uma pressa extraordinária, pois se escapule diante de mim. Nem mesmo pude vê-lo bem ainda, e já tem pronta na mão a chave do escritório. Num instante abre a porta, e antes que o observe bem já deslizou para dentro como a cauda de uma rata e aí tenho outra vez à minha frente o cartaz "Harras, escritório", que li muitas mais vezes do que o merece. 

A miserável finura das paredes, que denunciam o homem eternamente ativo, ocultam porém o desonesto. O telefone está suspenso à parede que me separa do quarto de meu vizinho. 

Não obstante, destaco-o apenas como constatação particularmente irônica. Mesmo quando pendesse da parede oposta, ouvir-se-ia tudo da sala vizinha. Evitei o meu costume de pronunciar ao telefone o nome de meus clientes. Mas não é necessária muita astúcia para adivinhar os nomes através de característicos mas inevitáveis torneiros da conversação. Às vezes, aguilhoado pela inquietação, sapateio nas pontas dos pés em volta do aparelho, com o receptor no ouvido, mas não posso impedir que se revelem segredos.

Naturalmente, as resoluções de caráter comercial se tornam assim inseguras e minhas voz, trêmula. Que faz Harras enquanto telefono? Se quisesse exagerar muito - o que é preciso fazer com frequência para ver claro -, poderia dizer: Harras não precisa telefone, usa o meu, colocou o sofá contra a parede e escuta; eu, em troca, quando o telefone toca, devo ir atender, tomar nota dos desejos do cliente, adotar resoluções graves, sustentar conversações de grandes proporções, porém, antes de tudo, proporcionar a Harras informações involuntárias, através da parede. 

Ou antes, nem mesmo espera o fim da conversação, porém que se ergue depois da passagem que lhe informa suficientemente sobre o caso, atira-se, segundo o seu costume, através da cidade e, antes de eu ter pendurado o receptor, está talvez trabalhando já contra mim.

Fonte:
Franz Kafka. Contos.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Olivaldo Júnior (Trovas para o Dia Universal do Palhaço)

10 de dezembro: Dia Universal do Palhaço


1
Ponho a bola no nariz
e pareço outra pessoa:
sou palhaço, sou feliz,
levo a vida "numa boa"!...
2
Lá na lona improvisada,
entre tantos dissabores,
o palhaço e a garotada
da alegria são doutores.
3
Cada riso que eu coloco
no meu rosto semimudo
'vira' o riso que provoco
no seu rosto carrancudo.
4
Das estrelas decadentes,
o palhaço vence a "treva"
e ressurge dos ausentes:
alva estrela que se eleva!
5
Não sou Bozo, nem sou clown,
mas, em plena noite escura
- toda vez que eu fico "down" -,
me transformo com ternura…

Fonte:
O Trovador

Carlos Drummond de Andrade (Caso de Arroz)



E assim aquela eficiente dona de casa do Leblon resolveu o problema do arroz, do feijão, da carne e de outras preciosidades da nossa era: mudando de mercearia.

- Não! - exclamou a amiga. - Não vá me dizer que Nossa Senhora Aparecida desceu por aqui e montou um supermercado. Milagre não vale!

Pois não era milagre, quem falou nisso? Era apenas a federação, que divide (e reúne) o Brasil em nações autônomas, com seus recursos econômicos e seu comércio próprios. Os novos fornecedores de dona Araci ficam ali no estado do Rio. Não é precisamente no bairro em que ela mora, mas o casal comprou um carrinho paulista, e o marido de dona Araci é um amor: concordou em ir de lotação para o escritório. Ela pegou os dois garotos, botou-os no carro e tocou para o País da Fartura, Caxias chamado:

- Vocês dão um passeio e me ajudam a carregar os sacos.

O merceeiro de Caxias vendeu a dona Araci umas duas arrobas de magnificente arroz, mas ponderou-lhe, com o saber de experiências feito:

- Madame não passa na barreira com esse sortimento. O máximo permitido são cinco quilos.

- Não seja por isso. Trouxe fronhas em quantidade, e vou transformar meus feijões e meu arroz em travesseiros para os meninos repousarem a cabeça - retrucou-lhe a precavida senhora.

Assim foi feito, e, de novo com o pé na tábua, a família voltou muito feliz para o País do Está-em-Falta, conhecido também por Guanabara.

Junto à barreira, a fila de caminhões e automóveis era longa, e os guardas procediam a uma investigação cabal. A Alfândega de Nova York não seria mais rigorosa, ao farejar entorpecentes ou engenhos nucleares. Alguns veículos retrocediam, e de outros os motoristas retiravam pacotes condenados, que eram entregues à lei, na pessoa de seus agentes implacáveis.

- Qual, não atravesso esse muro de Berlim - suspirou dona Araci, desanimada. - Eles fazem até radiografia da gente.

Nisso apareceu um cortejo fúnebre, que os guardas deixaram passar sem formalidades, dando-lhe preferência, e dona Araci não teve dúvida: incorporou-se a ele, recomendando aos garotos:

- Vocês aí: façam cara triste!

E lá se foi o enterro, enorme. Que defunto seria aquele, tão estimado, a julgar pelo número de acompanhantes, pelas fisionomias compungidas? Eis que aparece o cemitério, na curva da estrada, e de súbito o imenso acompanhamento deixa o carro mortuário quase sozinho, com um ou dois carros na retaguarda, e toca para o Rio. Os motoristas interpelam-se aos gritos:

- Quantos quilos você trouxe?

- E você?

- E você?

Dona Araci não chegou a apurar quem era o morto a que prestara aquela homenagem de emergência. Os outros também não sabiam. E daí, o caixão talvez não contivesse nenhum defunto, quem sabe?

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. 70 Historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Elciana Goedert (Poemas Escolhidos)


BARREIRAS?

Barreiras a vencer,
Ou medos a enfrentar? 
A quem quer convencer? 
Não queira se enganar... 

Se a vontade for real
Encontra-se uma maneira
Mas se a intenção for virtual, 
Persistirá a "cegueira”

CATARSE

É preciso percepção 
É finda uma fase
Mas nada foi em vão... 

Minha última frase:
"Por que te amo tanto"? 
E interrompi a metástase... 

Não me olhe com espanto
A missão foi cumprida
Cada um pro seu canto... 

Inicio uma nova vida
Sem tê-lo do meu lado
Oculto a minha ferida... 

Pronto! Está extirpado…

CONFIANTE

De olhos fechados
e mente aberta, 
mergulho... 
arrisco.... 
dou uma incerta. 
Ouço um barulho... 
Fico alerta. 
Venço o orgulho... 
Espanto o medo... 
Se preciso, espero... 
Dispenso a regra. 
Não sou deste aprisco... 
Ovelha negra, 
sei o que quero.

CONVITE

Toque-me
Sem receios
Entregue-se
Sem titubeios
Liberte-se
Das incertezas
Que te atormentam
Das dores
Que te acompanham
Venha comigo
Confie... 
Te darei abrigo
Aconchego 
Quebro o protocolo
Te dou meu colo
E cedo-te espaço
Em minha vida
E no meu coração.

DESILUDIDA

Ela queria um poeta 
Alma sensível como a sua 
Que enxergasse as mesmas cores
Ainda que em outros tons
Teve a poesia, a alegria...
O amor tocou seu coração. 
Mas como nem tudo são flores 
Com elas vieram dissabores
O amargor da desconfiança 
A sombra da inverdade 
E ela... optou pela solidão.

ENTÃO É NATAL…

São momentos de magia
Tempo de confraternização
Demonstrações de alegria
Dias de paz, amor e união 

Se reclamam de consumismo
Nem me atento, foco na festa
Sou da turma do otimismo
Só o lado bom se manifesta

Pra demonstrar o que se sente
Basta a presença e um abraço 
Dispensa-se aquele presente
Enfeitado com grande laço 

Mas pra ver o riso do menino
Enfeito a árvore com carinho
Abaixo dela, Jesus pequenino
Dorme em paz no seu "bercinho"

Quando vem a "noite feliz" 
Saborear a ceia, que delícia! 
A sobremesa merece bis
Cada presente, uma carícia 

E assim a noite termina
Prometendo continuação 
Esse espírito contamina
É Natal em nosso coração.

LIBERTAÇÃO

Metamorfoses...

Emoções 
Sentimentos 
Sensações

Não mais lamentos
Não mais rotina
Reais envolvimentos 
Injeção de adrenalina

Transmutação! 
De ruína a monumento
De teorias à ação 
De ingrediente a alimento

Eis o resultado! 
Chega de ilusão 
Chega de futilidades
Organiza teu coração 
E realiza tuas vontades.

NA ESTAÇÃO

Decida... 
Qual bagagem quer levar? 
A que está arrumada à sua frente, 
Ou aquela que ficou pra trás 
Espalhada pelo caminho? 

Pense bem... 
Perceba qual não pesa
E a que dificulta seus passos. 

Só não se distraia com a dúvida, 
Com os vendedores de ilusões... 
Ou perderá a viagem. 

SILÊNCIO

Essa alma anda calada... 
Dizem que foi a decepção: 
Roubou-lhe toda inspiração. 
Ou está apenas cansada... 
A vida anda uma confusão! 
Em breve, talvez, exprima
Medos, sonhos, desilusão 
Amores, humores ou... nada. 
Essa alma perdeu a rima... 
Essa alma precisa ser amada.

TEIMOSIA

Droga de coração!!! 
Não aprende nunca... 
Mal sai d'uma fria
Entra numa gelada... 
Bem te avisou a razão
"Sai fora, que é cilada!"
Pode ser covardia, 
Mas... melhor dar fim
Seguir outra estrada...