quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Jean-Pierre Bayard (História das Lendas) Parte I



INTRODUÇÃO

A evolução constante da humanidade para um fim inatingível influi sobre a vida do indivíduo; as artes, expressão natural do homem, constantemente modificada, seguem uma curva que pretendemos ser ascendente.

Foi dito que tudo o que era estático, imóvel, era atrasado; a evolução só deve ser dinâmica. Contudo, o estudo da evolução nos confunde dada a soma de mistérios que surgem a todo momento.

Parece paradoxal que homens, em épocas em que a ciência era menos adiantada do que a nossa, tenham descoberto leis que apenas encontramos. Contudo, as características das grandes pirâmides nos provam, de maneira irrefutável, que os egípcios conheciam os segredos de fórmulas que ainda não descobrimos inteiramente. Nossos rigorosos cálculos científicos eram, sem dúvida, substituídos por outra ciência tão precisa quanto a nossa.

Esta evolução ascendente torna-se, desta forma, menos positiva; cremos apenas que as questões formuladas o eram de maneira diferente; é uma transformação de energias. O mar, com seu fluxo e refluxo, pode, em certos momentos, fazer crer que evolui; contudo, permanece como é, não enche sem vazante. Nossa lei de transformação torna-se então uma constante e a contribuição de nossa atividade científica cuja utilidade não é certa — é anulada pela nossa falta de raciocínio. Numa civilização mecanizada o espírito acha-se cada vez mais deslocado

Se nossos conhecimentos se modificaram, a inteligência continua a ser um bem imutável; não se pode dizer que Einstein seja mais inteligente do que Pascal, mas apenas que Einstein resolveu, em seu tempo, outros problemas. Einstein — ou qualquer outro sábio — descobriu apenas o que outros já haviam vislumbrado, e quando diz que o mundo está fechado, repete apenas o que o Evangelho de São João Batista já nos ensinou.

A evolução do homem continua pois a ser uma miragem e os grandes iniciados revelam, simbolicamente, algumas verdades cuja veracidade controlamos com dificuldade. O estudo de problemas humanos, de raças, de folclore; nos leva a crer que o homem, anteriormente, tenha sido um iniciado mas que seus conhecimentos se perderam. Algumas tribos da África equatorial conservaram virtudes e sentidos que já não temos. Nossas sensações se evaporaram. É assim que um ensinamento geral emana dos contos e que toda essa poesia anônima, feita de graça e frescor, reflete a mesma preocupação.

Acontece que essa literatura coletiva, criada pelo produto inconsciente da imaginação, pela massa, pretendia ser um testemunho, uma prova. Não é absurdo pensar que os contos, antes divulgados oralmente e depois, por escrito, provavam, apoiavam teses, argumentavam em seu favor. Sob a forma de um divertimento, a fábula educava.

A moral dessas fábulas é agradável, engraçada; distrai pois não aborrece aquele a quem se dirige.

O estudo do folclore mundial — que reflete a atividade, o pensamento de uma época e de um povo — é pois o estudo da humanidade. Essas obras esclarecem períodos obscuros e suas deformações são instrutivas, pois nada mais são do que a evocação de mores locais, de concepções particulares e humanas. A lenda, mais verdadeira do que a história, é um precioso documento: ela exara a vida do povo, comunica-lhe um ardor de sentimentos que nos comove mais do que a rigidez cronológica de fatos consignados; desta forma, o romance é a sobrevivência das lendas. Imaginamos uma literatura científica na qual os “robots” escrevem poemas; mas esses engenhos mecânicos nunca poderão transmitir emoções iguais às contidas nos poemas de Villon ou de Baudelaire, pois que as obras desses homens eram feitas com sangue.

Além do maravilhoso que envolve esses mitos é preciso descobrir o tema inicial que se reproduz em países diferentes e muito longínquos: essa concepção nos leva a uma nova interpretação. Esses contos misteriosos fazem a Th. Briant escrever (Le Goéland, n.o III) (A Gaivota): “cada lenda podia ter uma explicação mística no plano de analogias e correspondências”, contudo, “as identidades nos fogem e chapinhamos no Relativo”.

Alguns contos, assim tratados, mostraram aspectos de sua evolução e interpretação; é evidente que estas simples páginas não esgotarão o assunto.

Primeira Parte: Evolução Das Lendas

Capítulo I: Generalidades

I. — Definições

A palavra lenda provém do baixo latim legenda, que significa “o que deve ser lido”. No princípio, as lendas constituíam uma compilação da vida dos santos, dos mártires (Voragine); eram lidas nos refeitórios dos conventos. Com o tempo ingressaram na vida profana; essas narrações populares, baseadas em fatos históricos precisos, não tardaram a evoluir e embelezar-se. Atualmente, a lenda, transformada pela tradição, é o produto inconsciente da imaginação popular Desta forma o herói sujeito a dados históricos, reflete os anseios de um grupo ou de um povo; sua conduta depõe a favor de uma ação ou de uma idéia cujo objetivo é arrastar outros indivíduos para o mesmo caminho.

A fábula é uma narração em verso, cujos personagens são animais dotados de qualidades humanas. As mais célebres fábulas são as de Esopo, La Fontaine e Florian.

Os contos de animais são fábulas redigidas em prosa.

O conto é uma narração maravilhosa baseada numa trama romanesca; os lugares não são determinados e os personagens não têm nenhuma precisão histórica; a narração distrai. A lenda é um conto no qual a ação maravilhosa se localiza com exatidão; os personagens são precisos e definidos. As ações se fundamentam em fatos históricos conhecidos e tudo parece se desenrolar de maneira positiva. Freqüentemente a história é deformada pela imaginação popular.

O mito é uma forma de lenda; mas os personagens humanos tomam-se divinos; a ação é então sobrenatural e irracional. O tempo nada mais é do que uma ficção. Na realidade, essas categorias se embaraçam e os mitos são de uma infinita variedade; relacionam--se às religiões, são cosmogônicos, divinos — ou heróicos. As lendas, com personagens mais modestos, fazem evoluir mágicos, fadas, bruxas, que, de uma maneira quase divina, influem nos destinos humanos.

2. — Origem

A lenda, mais verdadeira do que a história, devido à quantidade de ensinamentos humanos, contraria freqüentemente a verdade psicológica; uma abóbora transforma-se em carruagem; um rato, em cocheiro. Entretanto, essas ficções não são nem pueris nem grotescas; elas nos interessam, nos repousam e nos deslumbram. Esse mundo fluido que põe em xeque o nosso mundo real, foi definido pelo bondoso Jean de la Fontaine:

e até mesmo eu.
Se me contassem a Pele de burro
sentiria um extremo prazer

Este divertimento do povo é sua aspiração secreta, sua busca espiritual de um mundo maravilhoso onde impere o valor do homem, onde as leis, tão detestadas, sejam abolidas. E o encantamento, a volta ao Paraíso Terrestre.

A lenda existe desde a formação do clã, da sociedade e os temas se desenvolvem com preocupações semelhantes em todas as culturas.

Essa literatura coletiva pode ser proveniente de um único mito propalado de país em país A Índia foi primeira a nos fornecer o índice escrito desse folclore mundial, o que não implica que a Índia seja o seu berço. Divulgados oralmente, esses contos -foram talvez escritos e conservados em outros países, mas sua mensagem não chegou até nós: por muito tempo ignorou-se as riquezas contidas nas pirâmides cujos segredos ainda não foram completamente desvendados, o que não permitiria aos nossos filhos dizerem que as pirâmides não contêm nenhum segredo.

Esses contos, transformados, decantados, modificados, foram portanto transcritos nos Vedas, aproximadamente 4.500 anos a. C. base de nossa mais antiga civilização teriam os Arias e o original da compilação é o Pantchatantra (os “cinco livros”). Considerando os animais que falam e as leis da metempsicose, parece ser a fábula um produto espontâneo da Índia. É curioso, contudo, que uma passagem do romance de Merlin esteja reproduzida num conto Indiano (Gulcasapati) e numa compilação de Somadeva. Sinais do budismo aparecem em vários outros lugares e principalmente na grande caridade demonstrada pelos heróis para com os animais.

Nestes últimos anos, a escola folclorista compilou contos semelhantes aos da Índia, em todos os países. Portanto, os mitos se divulgaram através do tempo e do espaço. A religião grega toma emprestado à religião fenícia, o mito de Adônis e Cibele. Reinhold Kohler e Theodor Benfey ficaram estupefatos ao encontrar os mesmos temas iniciais em todos os países. É verdade que durante sua peregrinação, os contos se transformaram; há a influência do meio, a alteração de certos fatos, lacunas que foram preenchidas e novos motivos surgiram, mas a base da criação continua a mesma; as particularidades locais, muitas vezes morais, fornecem preciosos ensinamentos sobre o povo e sua maneira de pensar.

A divulgação dos contos talvez nos surpreenda em função da época mas, na realidade, os países se comunicavam entre si muito antes das viagens de Cristóvão Colombo, Magellan ou Marco Polo. Teria havido navegadores, verdadeiros aventureiros, que transportavam ensinamento de uma a outra civilização e o ritmo da vida era assim o mesmo em cada país. A América possuía suas fundições no mesmo período que a Ásia ou a Europa.

Concluindo, não se pode afirmar que houve uma única invenção, mas apenas a Índia possui os documentos antigos onde nossos mitos estão registrados.

3. — Os temas

Transcrição do pensamento do povo, os temas simbolizam suas aspirações. Transposição de sentimentos e desejos humanos a lenda abole o real.

O homem — infeliz torna-se poderoso. A pastora bela e incompreendida, desposa um príncipe encantado; o sapatinho perdido, emblema de sua beleza, é cultuado na Índia. As mulheres, prisioneiras dos hábitos, vivem sob a dependência do homem: as princesas terão liberdade e o rei será passivo. O subconsciente criou uma “supercompensação” para os nossos sentimentos de inferioridade

Os mistérios naturais preocupam a imaginação: tudo é maravilhoso, incompreensível, surpreendente e fascinante. Desde o desabrochar da flor até as ondas sorrateiras que dirigimos sem conhecer — a eletricidade — essas manifestações são de uma amplitude desconcertante. O sol e, conseqüentemente, a lua, favorecem com seu culto, a criação de malefícios, de palavras mágicas e de palavras-chave.

Entretanto, esses conhecimentos só podem ser adquiridos com uma certa iniciação; para comandar os espíritos é preciso instrução e o adepto, depois das provas e dos três estágios (purificação, conhecimento e poder), conhecerá, finalmente, todas as virtudes da câmara secreta. O conto será uma lição mas o mito não poderia se enunciar claramente; elementos conscientes, só instruiriam os iniciados enquanto que o povo veria nisso apenas um divertimento. Naturalmente a bruxaria liga-se a essa magia feiticeira. É a estranha personalidade do diabo. A lenda religiosa deveria se utilizar do antagonismo entre a dualidade da alma humana.

De acordo com Freud, a sexualidade desempenha um papel primordial no comportamento da sociedade; é representada sob o símbolo do algarismo 3 — a Trindade mística — e o lírio heráldico representaria o órgão macho. A psicanálise interpretará os contos da mesma forma que os sonhos.

A lenda histórica fundamenta-se em fatos reais, mas o narrador altera a verdade a fim de provar. A lenda do Cid, criada quarenta anos depois da morte do herói, é de composição diferente da de Rolando, escrita duzentos e setenta anos depois de Roncesvales. As suas falhas são flagrantes, bem como nas duas célebres lendas épicas, a Ilíada e a Odisséia.

Outras lendas estão em formação. Eis a de Cartouche, Mandrin, Jack, o Estripador, Mayerling, o mito de Hitler vivendo num rancho americano é análogo ao de Napoleão. A irmãzinha de Lisieux deu origem, segundo o padre de Ars ou São Vicente de Paula, a uma imensa literatura que não pode desaparecer imediatamente.

Todavia, nesses ciclos temáticos, raramente um tema se representa no estado isolado; ele se imbrica com vários outros, também mais ou menos modificados. Sendo esses assuntos primordiais inumeráveis, estudaremos apenas alguns mitos principais.

4. — A pesquisa folclórica

A palavra folklore foi criada por W. J. Thomas, em 1846. Folk significa povo e lore; saber ou conhecimento. Antigamente os franceses empregavam a expressão: “Tradições Populares”.

Perrault, quando publicou, na editora Barbin (Paris), em 1697, suas Histoires ou Contes du temps passé, abriu caminho aos irmãos Grimm que compilavam os contos ouvidos da boca dos camponeses de Hesse, em 1810. Walter Scott fez o mesmo na Inglaterra, em 1820, aproximadamente.

Quando se descobriu, em diferentes países, o mesmo repertório de contos, com pequenas variações de costumes, a atividade dos folcloristas tornou-se intensa. Essa atividade permitiu a interpretação das lendas e principalmente sua classificação; foram unidos entre si e compiladas. Miss Roalfe Cox publicou análises notáveis sobre Cendrillon (Gata Borralheira) e Peau d’Ane (Pele de burro) (Folklore Society, Londres, 1893).

Com o estudo dessas narrações maravilhosas, a análise das crenças e dos costumes permitiu evocar períodos pouco ricos em comentários. Contudo, o folclore não se interessa unicamente pelo passado; dedica-se também ao presente, tanto em economia política como em instituições, ofícios ou atividades populares. Saintyves assim o definiu: “É a ciência da vida popular no seio de sociedades civilizadas.”

Embora a explicação dos contos seja mais ou menos fantasista, este método de observação permitiu ligar os fatos uns aos outros de forma que parecessem, de início, disparatados. O folclore permitiu preencher essas lacunas e acompanhar a evolução da psicologia coletiva mesmo fora das grandes civilizações que nunca foram homogêneas. Essa cultura tradicional, devida à massa popular à margem do ensino oficial, tem uma base permanente que, apesar de incompleta, assegurou definitivamente a estabilidade das sociedades sucessivas. Essa camada inferior, verdadeira corrente cultural, transmite-se de geração em geração e é graças a ela que os contos foram conservados.
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Continua…
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Fonte:
BAYARD, Jean-Pierre. História das Lendas. (Tradução: Jeanne Marillier). Ed. Ridendo Castigat Mores

Belmonte (É proibido casar!)


Introdução

Benedito Carneiro Bastos Barreto, ou melhor, Belmonte, pseudônimo que adotou por que, como noticia o bom amigo Abrahão, tinha em seu nome “Bs aos Montes” merece ter sua obra conhecida pelas novas gerações a mais de um título.

Tivesse sido “apenas” o primeiro ilustrador dos livros infantis de Monteiro Lobato, um dos maiores chargistas e jornalistas brasileiros, já mereceria lembrança.

Mais não fosse, ainda, pelo simples fato de uma criação sua, o Juca Pato, simbolizar hoje um dos maiores prêmios atribuídos a escritores no Brasil.

Seu criador morreu em 1947. Em 1958, nasceu a União Brasileira de Escritores [ http://www.ube.org.br ], com sede em São Paulo, e em 1962 foi lançado o Troféu “Juca Pato“ em homenagem a Belmonte, para premiar o “Intelectual do Ano”.

João Ninguém, menos conhecido que o Juca Pato, mas talvez mais simbólico do que seu irmão, foi o título que escolhemos para relembrar Belmonte, às vésperas de mais uma entrega do “Juca Pato”.

Antes da publicação, consultamos as livrarias online para conferir quais obras de Belmonte estariam disponíveis. Nenhuma. Só encontramos uma homenagem que lhe foi prestada em 1996, centenário de seu nascimento, com a edição de “Belmonte: 100 Anos” [CARVALL, Editora SENAC, ISBN 8573590076], que o website da Livraria Cultura dá como esgotado (em outros parece estar ainda disponível) e que, com maiores ou menores variantes, é mencionado como “Livro de arte comemorativo devido ao centenário de nascimento do chargista Belmonte. Traz suas principais obras, em uma edição bem cuidada.”

Injustiça total! Um livro de menos de 100 páginas não poderia conter, jamais, as principais obras de Belmonte! Talvez algumas charges e ilustrações; importantes, sem dúvida, mas que nunca, jamais, em tempo algum, retratariam às novas gerações tudo o que foi e representou Belmonte para as letras nacionais. Um aperitivo, não mais.

Só na edição de Idéias de João Ninguém são mencionadas as seguintes obras do autor: Angústias de Juca Pato (álbum de caricaturas políticas), O Amor Através dos Séculos (álbum de desenhos humorísticos), Assim Falou Juca Pato (coletânea de crônicas humorísticas), e o lançamento de A “Realidade Brasileira” (álbum de caricaturas políticas), Bandeiras e Bandeirantes (crônicas históricas ilustradas pelo autor) e uma História de São Paulo (em desenhos, para crianças).

Como se vê, Belmonte foi um artista completo da pena, com um traço maravilhoso para ilustrações e charges, com uma verve cáustica e incisiva ao apontar as mazelas nacionais de mais de quinhentos anos...
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É Proibido Casar!

Um cidadão de indiscutível mau gosto, que tem o feio costume de ler todos os disparates que eu escrevinho aqui, manda-me um recorte de jornal acompanhado desta pergunta inquietante:

“Que é que você pensa desta estupidez?”

O recorte aludido contém um telegrama vindo de Istambul, no qual se dá conta de uma das últimas medidas tomadas pelo governo turco. A tal medida consiste em punir “severamente” todo o professor que se entregue a “flirts” com suas alunas e que “pense” em realizar qualquer projeto matrimonial com alguma delas.

Há dias, referi-me aqui às medidas temerosas que vêm sendo tomadas pelos vários “governos fortes” que existem por aí afora, entre as quais fixei a de um general chinês inimigo figadal dos cabelos ondulados. Hoje, segundo me comunica um heróico leitor, é o governo turco, igualmente “forte”, quem se levanta, de durindana em riste, para castigar os pedagogos sentimentais que “pensem” em contrair matrimônio com alguma das suas alunas.

Não sei se as ditaduras, além da força material, possuem também poderes ocultos que as habilitem a saber, com a devida antecedência, qual o professor que “pensa” em casar-se com qualquer de suas discípulas. É possível que esses governos discricionários, possuidores de tão bravos generais, possuam igualmente ocultistas famosos ao seu serviço, não sendo mesmo temerário supor-se que o governo turco tenha criado, para mais facilmente desempenhar-se de suas funções, um Ministério das Ciências Ocultas ou um Departamento Federal das Transmissões de Pensamento.

Todavia, não devemos estranhar a original medida do sr. Kemal. Poder-se-ia mesmo perguntar: Kemal há nisso? se me fosse permitido perpetrar um trocadilho tão detestável. Não há mal nenhum porque, afinal de contas, se os professores turcos estão proibidos de se casarem com suas alunas, poderão fazê-lo com qualquer outra mulher, mesmo que seja aluna de outrem. A estranheza do meu heróico leitor provém de que ele, como quase nós todos, vivemos de olhos pregados no Estrangeiro sem vistas para o que se passa aqui dentro de casa. “Aqui dentro de casa” é um modo de dizer. Todavia, se nós olhássemos em torno de nós, notaríamos que o governo turco, perto dos governichos brasileiros, é muito menos do que um pinto.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, há um interventor cujo nome não tenho a honra de saber — quem saberá o nome de todos eles? — o qual interventor, por motivos que até hoje não estão convenientemente explicados, baixou um decreto — decreto ou qualquer coisa semelhante — proibindo as professoras de contraírem matrimônio.

É verdade que, se, por um lado, o governo do Rio Grande do Norte foi mais liberal, por outro lado foi mais arbitrário. Com efeito: o governo turco não admite que o professorado “pense” em contrair matrimônio. Já o governador brasileiro admite que os pedagogos pensem em casar-se; há no Norte, nesse ponto, inteira liberdade de pensamento. O que ele não admite é que os pedagogos se casem. Mas se, na Turquia, os professores podem contrair matrimônio, desde que não o façam com qualquer de suas alunas, no Brasil isso não é possível ser realizado com ninguém. Na capitania do norte proibiu-se, pura e simplesmente, o casório — seja lá com quem for.

Dir-se-á que isso é um crime de lesa-pátria, uma vez que a pátria precisa de quem a povoe — tanto que resolveu importar vinte mil assírios para esse fim. As professoras, não podendo casar-se, não poderão exercer esse direito multiplicador — embora haja pessoas que afirmem o contrário. O certo, porém, é que, multiplicando-se ou não, o Brasil se mostra eminentemente liberal, eis que permite às suas professoras do norte o direito de “pensar” em casamento. A coação é puramente material, como se vê, porque as professoras nordestinas poderão soltar as rédeas da imaginação em devaneios líricos, sonhando com “ele”, sofrendo por “ele”, pensando “nele”...

Todavia, como o interventor proibiu apenas o casamento não vá acontecer às educadoras rio-grandenses o que aconteceu com o caipira a quem perguntaram, quando o viram de braço dado a uma cafuza, se eles haviam se casado.

— Não! respondeu ele, nóis se ajuntemo...

Fonte:
Belmonte. Idéias de João Ninguém. Livraria José Olympio Editora, 1935.
Imagem de Dirceu Veiga = http://www.dirceuveiga.com.br

Belmonte (1896 – 1947)



Benedito Carneiro Bastos Barreto, aliás, Belmonte, nasceu na cidade de São Paulo em 1896. Paulista e paulistano da gema, aqui mesmo faleceu em 1947, antecedendo em um ano no Parnaso a chegada de Monteiro Lobato, a cujas criações infantis dera corpo e forma.

Suas caricaturas apareciam regularmente em Cigarra, Verde e Amarelo, Kosmos, Vida Paulista, Queixoso, Frou-Frou, O Cruzeiro, Folha da Manhã e, no exterior, em Judge (USA), Caras y Caretas (Argentina), ABC (Portugal), Le Rire (França), Kladeradatsch (Alemanha).

As crônicas e charges que publicou no período que antecedeu a II Guerra Mundial, premonitórias. As que criou durante a Guerra, granjearam-lhe protestos oficiais do Japão e da Alemanha... E olha que vivíamos em “Estado Novo” — mas esta ditadura, por sinal, nunca despertou em Belmonte nem a auto-censura, nem simpatias...

Foi pesquisador, desenhista, pintor, caricaturista e jornalista. Começou fazendo desenhos para a revista Alvorada e posteriormente desenhou para a revista Miscellanea. Tentou conciliar a carreira de caricaturista com os estudos de medicina, porém acabou optando pelo jornalismo. Tempos depois foi contratado como caricaturista pelo jornal Folha da Noite. Como desenhista ilustrou diversos livros de Monteiro Lobato e Viriato Correia.

Nas décadas de 1930 e 1940, se perguntássemos a qualquer paulistano qual era a figura mais popular na cidade, com boa dose de certeza, diriam que era o Juca Pato. A popularidade podia ser comprovada nas ruas: havia nome de bar e restaurante, marca de cigarro, graxa de sapato, vinho, água sanitária, pacote de café, aperitivo de bar e até letra de samba com o nome Juca Pato.

Contudo, Juca Pato, um sujeitinho careca, de óculos, gravatinha e polainas, a mais completa tradução do paulistano médio da época, que sofria a impotência ante os desmandos e injustiças dos poderosos do momento, nunca tivera uma existência de carne e osso...

Foi com a criação do personagem Juca Pato e do lema "podia ser pior", onde procurava traduzir as críticas e aspirações da classe média paulistana, que Belmonte obteve reconhecimento. Se dedicou à caricatura política; seus desenhos não apelavam para a grosseria; ao contrário, revelavam um alto grau de intelectualidade.

O famoso personagem de Belmonte deu nome também ao prêmio da União Brasileira dos Escritores, o prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano.

A caricatura de Belmonte estava em dia com os problemas do mundo, trazendo informação de forma ágil, e rendeu inclusive críticas do ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebels, em um de seus pronunciamentos pela Rádio de Berlim. Pelo seu conhecimento dos problemas políticos, sociais e econômicos, divulgou trabalhos em diversos jornais internacionais. Recusou convite para ir para Nova York, como desenhista da Metro G. Meyer, mas permaneceu como Diretor do Departamento de Publicidade das Empresas Cinematográficas Reunidas, em São Paulo.


Além de tudo isso, como noticia Romeu Martins [ http://omalaco.hpg.com.br / http://pracinha_belmonte.htm ]: “Um lado seu bem menos citado foi o trabalho como quadrinista, fato que foi resgatado pelo nº 1 da Phenix (é essa mesmo a grafia), revista publicada pelo Clube dos Quadrinhos comemorando o centenário de nascimento de Belmonte, em 1996. Phenix traz uma análise extremamente minuciosa das 210 páginas de HQs que o artista publicou, entre 1933 e 1936, no jornal infantil A Gazetinha”. Nem é necessário dizer: esta revista é, talvez menos que os livros de Belmonte, mas igualmente, difícil de ser encontrada.

Fontes:
Belmonte. Idéias de João Ninguém. Livraria José Olympio Editora, 1935.
http://www.prefeitura.sp.gov.br

Voltaire (Aventura da Memória)


O gênero humano pensante, isto é, a centésima-milésima parte do gênero humano, quando muito, acreditara por muito tempo, ou pelo menos por muitas vezes o repetira, que nós não tínhamos idéias senão por intermédio dos sentidos, e que a memória era o único instrumento com o qual podíamos reunir duas idéias e duas palavras.

Eis por que Júpiter, símbolo da natureza, se enamorou, à primeira vista, de Mnemósine, deusa da memória; e desse casamento nasceram as nove Musas, que inventaram todas as artes.

Este dogma, no qual se fundam todos os nossos conhecimentos, foi universalmente aceito, e até mesmo a Nonsobre o adotou, embora se tratasse de uma verdade.

Algum tempo depois surgiu um argumentador, metade geômetra, metade lunático, o qual se pôs a argumentar contra os cinco sentidos e contra a memória. E disse ao reduzido grupo do gênero humano pensante:

— Até agora estivestes enganados, porque os vossos sentidos são inúteis, porque as idéias são inatas em vós, antes de que qualquer dos vossos sentidos possa ter operado; porque já tínheis todas as noções necessárias quando viestes ao mundo; porque já sabíeis tudo sem nunca haver sentido nada; todas as vossas idéias, nascidas convosco, se achavam presentes em vossa inteligência, chamada alma, e sem auxílio da memória. Esta memória não serve para coisa alguma.

A Nonsobre condenou tal proposição, não porque fosse ridícula mas porque era nova. No entanto, quando em seguida um inglês começou a provar, e a provar longamente, que não havia idéias inatas, que nada era tão necessário como os cinco sentidos, que a memória muito servia para reter as coisas recebidas pelos cinco sentidos, a Nonsobre condenou suas próprias idéias, visto que eram agora as mesmas de um inglês. Ordenou por conseguinte ao gênero humano que acreditasse dali por diante nas idéias inatas, e perdesse toda e qualquer crença nos cinco sentidos e na memória. O gênero humano, em vez de obedecer, pôs-se a rir da Nonsobre, a qual entrou em tamanha fúria, que quis mandar queimar a um filósofo. Pois dissera esse filósofo que era impossível formar idéia completa de um queijo sem o ter visto e comido; e chegou o celerado a afirmar que os homens e mulheres jamais poderiam fazer trabalhos de tapeçaria se não tivessem agulhas e dedos para as enfiar.

Os liolistas juntaram-se à Nonsobre pela primeira vez na vida; e os sejanistas, inimigos mortais dos liolistas, reuniram-se por um momento a estes. Chamaram em seu auxílio os antigos dicastéricos; e todos eles, antes de morrer, baniram unanimemente a memória e os cinco sentidos, e mais o autor que dissera bem dessa meia dúzia de coisas.

Um cavalo que estava presente ao julgamento estatuído por aqueles senhores, embora não pertencesse à mesma espécie e houvesse muita coisa que os diferenciava, tal como a estatura, a voz, as crinas e as orelhas, esse cavalo, dizia eu, que tanto possuía senso como sentidos, contou a história a Pégaso, na minha estrebaria, e Pégaso, com a sua ordinária vivacidade, foi repeti-la às Musas.

As Musas que, durante uns cem anos, vinham singularmente favorecendo o país, por tanto tempo bárbaro, onde se passava esta cena, ficaram muito escandalizadas; amavam ternamente a Memória, ou Mnemósine, sua mãe, à qual essas nove filhas são credoras de tudo quanto sabem. Irritou-as a ingratidão dos homens. Não satirizaram os antigos dicastéricos, os liolistas, os sejanistas e a Nonsobre, porque as sátiras não corrigem ninguém, irritam os tolos e os tornam ainda piores. Elas imaginaram um meio de esclarecê-los, punindo-os. Os homens haviam blasfemado contra a memória; as Musas lhes tiraram esse dom dos deuses, a fim de que aprendessem de uma vez por todas, a que se fica reduzido sem o seu auxílio.

Aconteceu, pois, que durante uma bela noite todos os cérebros se obscureceram, de modo que no dia seguinte, de manhã, todos se acordaram sem a mínima lembrança do passado. Alguns dicastérios, deitados com as suas mulheres, quiseram aproximar-se delas por um resto de instinto Independente da memória. As mulheres, que só muito raramente possuem o instinto de entrar em contato com os maridos, repeliram asperamente as suas desagradáveis carícias, e a maioria dos casais acabou aos tapas.

Alguns senhores, encontrando um chapéu, serviram-se dele para certas necessidades que nem a memória nem, o bom senso justificam. E senhoras empregaram para o mesmo uso as bacias de rosto. Os criados, esquecidos do contrato que haviam feito com os patrões, entraram no quarto dos mesmos, sem saber onde se achavam; mas, como o homem nasceu curioso, abriram todas as gavetas; e, como o homem ama naturalmente o brilho da prata e do ouro, sem ter para isso necessidade de memória, apanharam tudo o que estava a seu alcance. Os patrões quiseram bradar contra ladrão; mas, tendo-lhes saído do cérebro a idéia de ladrão, não pôde a palavra lhes chegar à língua. Cada qual, tendo esquecido o seu idioma, articulava sons informes. Era muito pior que em Babel, onde cada um inventava imediatamente uma língua nova. A inata inclinação dos criados moços pelas mulheres bonitas se manifestou com tal premência que os atrevidos se lançaram irrefletidamente sobre as primeiras mulheres ou raparigas que encontraram, fossem elas taberneiras ou presidentas; e estas, esquecidas das leis do pudor, deixaram-se manobrar com toda liberdade.

Foi preciso almoçar; ninguém sabia o que fazer para isso. Ninguém fora ao mercado, nem para vender nem para comprar. Os criados tinham vestido a roupa dos patrões, e os patrões a dos criados. Todo mundo se olhava aparvalhado. Os que tinham mais jeito para obter o necessário (e era a gente do povo) conseguiram um pouco com que viver; aos outros, faltou-lhes tudo. O ministro e o arcebispo andavam inteiramente nus, e seus palefreneiros passeavam, uns de hábito vermelho, outros com dalmáticas: tudo estava confundido, iam todos morrer de miséria e de fome, por falta de mútuo entendimento.

Ao cabo de alguns dias, as Musas tiveram piedade dessa pobre raça: elas são boas afinal, embora algumas vezes façam sentir aos maus a sua cólera; suplicaram, pois, à mãe, que devolvesse àqueles blasfemos a memória que lhes havia tirado. Mnemósine desceu à região dos contrários, onde tão temerariamente a tinham insultado, e falou-lhes nos seguintes termos:

— Perdôo-vos, imbecis; mas lembrai-vos de que sem sentido não há memória e sem memória não há senso.

Os dicastéricos agradeceram-lhe secamente, e decidiram fazer-lhe uma admoestação. Os sejanistas publicaram toda essa aventura na sua gazeta; viu-se que ainda não estavam curados. Os liolistas transformaram o caso numa intriga de corte. Mestre Coger, pasmado da aventura e sem compreender patavina daquilo tudo, disse a seus alunos do quinto ano este belo axioma: Non magis musis quam hominibus infensa est ista quae vocatur memoria. (O que se chama memória não é mais infenso às musas que aos homens)

Fonte:
VOLTAIRE. Breves Contos. Ed. Ridendo Castigat Mores. Disponível em Domínio Público.

Imagem = ilustração de Julio Saens

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Folclore em Trovas 6 (Boitatá)

Jorge Miranda (Boitatá)



Um brilho no rio
em noite escura é fogo fátuo
gênio protetor dos campos e das águas
cobra grande, boiaçú
boiúna, boiúna, sucurijú
a fera que surge do nada

corre no corpo o arrepio
o sangue nas veias fica frio
o fogo que a água não apaga

um facho de luz ilumina a escuridão
seus olhos de fogo incandeiam
tapando furos, singrando rios
a dona da noite à boca da noite
a dona da noite vai chegar

boitatá, boitatá
fogo no ar, fogo no ar
cobra de fogo, boiaçú
boiúna flutua
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Fonte:
DVD Festival de Parintins
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Folclore Brasileiro (Boitatá)


Antigo mito brasileiro cujo nome significa "coisa de fogo", em tupi. Já referido por José de Anchieta em 1560, o boitatá é um gênio protetor dos campos: mata quem os destrói, pelo fogo ou pelo medo. Aparece sob a forma de enorme serpente de fogo, na realidade o fogo-fátuo, ou santelmo, do qual emana fosfato de hidrogênio pela decomposição de substâncias animais. A causa desse mito pode ser explicada com uma reação química, ossos de animais, como bois, cavalos etc. que são ricos em fósforo branco, que é um material inflamável (diferente do fósforo vermelho que é usado como medicamento), se aglomeram em um lugar, o osso começa a se decompor, e sobra apenas o fósforo. Quando um raio ou faísca, entra em contato com os ossos semi-decompostos causa uma enorme chama.

O Boitatá é o gênio que protege as campinas e sempre castiga os que põem fogo no mato. Quase sempre ele aparece sob a forma de uma cobra muito grande, com dois olhos enormes, que parecem faróis. Às vezes, surge também com a aparência de um boi gigantesco, brilhante.

O Boitatá é um mito universal. Na Inglaterra é conhecido como "Jack with a lantern" (Jack com uma lanterna), na Alemanha é "Irlicht" (a luz louca), na França é "Moine des marais" (assombração dos pântanos) e nos países que se fala espanhol é "Luz mala" ou "Víbora de Fuego".

Em 1560 registrou o Padre José de Anchieta:

"Há também outros (fantasmas), máxime nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatá, que quer dizer cousa de fogo, o que é o mesmo como se se dissesse o que é todo de fogo. Não se vê outra cousa senão um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras; o que seja isto, ainda não se sabe com certeza." (in: Cartas, Informações, Framentos Históricos, etc. do Padre José de Anchieta, Rio de Janeiro, 1933)

Etimologia e variantes nominais

O termo mais difundido é boitatá. O termo seria a junção das palavras tupis mboi e tatá, significando cobra e fogo, respectivamente - ou ainda de mboi - a coisa ou o agente. Significa, assim, cobra de fogo, fogo da cobra, em forma de cobra ou coisa de fogo.

Sobre a etimologia, escreveu Couto de Magalhães que "como a palavra o diz, mboitatá é cobra-de-fogo'" .

No Centro-Sul é chamado de baitatá ou batatá e até mesmo de mboitatá. Na Bahia aparece como biatatá. Em Minas Gerais chamam-no de batatal. Em São Paulo é bitatá. No Nordeste é comum o termo batatão. Nos estados de Sergipe e Alagoas recebem os nomes de Jean de la foice ou Jean Delafosse.

Do Boitatá, no Sul, se conhece três versões: a primeira mostra-o com os olhos ferventes. Nas trevas distingue tudo, porém na luz nada vê. Quando as águas tomaram conta da campanha (Dilúvio), alagando caminhos, várzeas e coxilhas, ela foi para o lugar mais alto que encontrou. Tanto furou, que conseguiu fazer um buraco muito fundo e escuro. Recolhe-se neste local e esperou até que as águas baixassem. A necessidade de distinguir nas trevas, obrigou-a a arregalar os olhos. Mas ela arregalou tanto...tanto, que elas passaram a brilhar como duas tochas de fogo. São os olhos de Boitatá, assim transformados, que o gaúcho se depara à noite, quando passeia pelos campos.

A segunda versão, corrente entre os estanceiros gaúchos, é que durante à noite ao cavalgar ou viajar à noite, avistam um fogo volante, às vezes em forma de cobra, outras vezes em forma de pássaro, voando na frente do cavaleiro e impedindo-lhe a marcha. Há uma crendice popular que Boitatá se deixa atrair pelo ferro. E, então um meio de se livrar de seu ataque, consiste em desatar o laço e arrastá-lo pela presilha. Ele acompanhará o ferro da argola do laço e ao se passar por um arbusto, ele se desmancha todo. Até que se recomponha, a pessoa tem tempo de fugir.

A terceira versão nos foi transmitida por J. Simões Lopes Neto. Ele nos relata que numa noite muito escura iniciou-se o grande dilúvio. A água cobriu todas as coxilhas, inundou as sangas e arroios, encheu todas as tocas dos animais, inclusive a de uma cobra grande chamada de "boiguaçu" que dormia quieta. Acordando com o frio da água, encheu-se de susto. Saiu para fora e apertada de fome começou a comer só os olhos dos animais que encontrava a sua volta. Como os animais sofrem influência do alimento que comem, a Boiguaçu não escapou a regra, sua pele tornou-se muito fina e ficou luminosa pelos mil olhos que devorou.

Os homens quando voltaram à vê-la, não a reconheceram e pensaram tratar-se ser de uma nova cobra, por causa de seu aspecto deram-lhe o nome de Boitatá, ou seja, cobra de fogo.

Passado um certo tempo, a Boitatá morreu de pura fraqueza, porque só os olhos que comeu não a alimentaram o suficiente. Ao decompor-se, a luz que estava presa dentro dela esparramou-se pelos brejos e pode tomar a forma tanto de cobra como de boi. O povo da campanha adverte, ao vê-la deve-se ficar imóvel, de olhos fechados, sem respirar, até que ela resolva ir embora.

Há muitos outros casos e lendas, o povo do País de Gales tinham o seu "Jack com uma lanterna" e atribuem-lhe a intenção de espírito zombeteiro, que ensina o caminho errado aos que se perdem pelos prados. O budismo nipônico, admite entre os seus "gakis", o "Shinen-Gaki", que aparece à noite, sob a forma de fogo errante. E justifica historicamente o caso remontado aos celtas, que tinham o "fogo dos Druidas" e à antiguidade clássica, onde encontramos o fogo de Helena.

Na região missioneira, adquiriu Boitatá uma função disciplinadora de castigo entre pessoas que se estimam e consideram. Para conservar o respeito que deve haver entre compadre e comadre e levando em conta a fragilidade humana, existia a lenda de Mboitatá (Víbora de Fogo) que se reduz ao seguinte: se os compadres esquecerem-se do sacramento que os une, não fazerem caso dele, faltando a comadre a seus deveres conjugais com seu compadre, de noite se transformarão os culpados em Mboitatá, ou seja, em grandes serpentes ou pássaros que possuem em vez da cabeça uma chama de fogo. Eles brigarão toda a noite, lançando chamas e queimando-se mutuamente até o final da madrugada, para tornar a fazer tal feito na noite seguinte, assim por séculos e séculos, mesmo depois de mortos.

Segundo a ciência, todas estas lendas surgiram da mera observação de um fenômeno comum que ocorre sempre em há algo ou pessoa em estado adiantado de decomposição. É conhecido pelo nome de fogo-fátuo, inflamações espontâneas emanadas em virtude da enorme quantidade de gases que se desprendem das ossadas dos animais dispersos pelos pampas.

São estes fogos-fátuos desprendidos de lugares pantanosos, de coxilhas onde encontramos animais decompostos, nas estrumadeiras, nos campos de folhagens apodrecidas, os grandes geradores de tais lendas.

Este mito não é exclusivamente aborígene, porque há nas lendas cosmogônicas dos Fans da África a imagem de Mboya, representando na floresta um acham errante à procura de Bingo, o filho a quem Nzamé atirara ao precipício. Existe também no Maranhão, um mito mais aproximado do da tribo dos Fans do que do Boitatá. É o que se conhece pelo nome de kuracanga. Quando uma mulher tem sete filhas, a última vira kuracanga, isto é, a cabeça sai do corpo, à noite e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de sustar-se esse horrível fadário, é fazer com que a filha mais velha seja madrinha desta caçula.

SIMBOLISMO

A serpente troca de pele de tempo em tempos. Este ciclo de transformação simboliza viver, morrer e renascer. Na Grécia a serpente é representada como arco-íris. Ela simboliza o poder de cura. Duas serpente entrelaçadas num bastão de madeira ou metal formam o caduceu, símbolo da paz. A serpente gera o fogo. Essa energia atua no plano material, na paixão, na vitalidade e na procriação. Nos mitos, a serpente é mediadora dos deuses e do conhecimento.
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A LENDA

Fazia bastante tempo que havia anoitecido. As pessoas estavam apavoradas, pensando que o dia não voltaria mais. E como a noite estava durando muito, tudo ficou desorganizado. Não havia mais carne. As colheitas não podiam ser feitas no escuro e ficaram perdidas. Todos estavam cansados da escuridão, daquela noite estranha, onde não brilhavam a lua nem as estrelas, onde não se ouvia um rumor, nem se sentia o cheiro dos pastos e o perfume das flores.

Tão grande era a escuridão, que as pessoas tinham medo de se afastar e não encontrar mais o caminho. Ficavam reunidas em volta das pequenas fogueiras, embora as brasas, cobertas de cinza, mal esquentassem... Ninguém tinha coragem sequer para soprá-las, tão desanimados estavam todos.

Não muito longe, numa gruta escura, vivia a Boiguaçu - a Cobra Grande - quase sempre a dormir. De tanto viver no escuro, seus olhos tinham crescido e ficado como dois faróis.

No início da longa noite, caiu uma chuva tão forte e seguida, que todos os lugares baixos foram inundados. Os bichos atingidos correram, aos bandos, para os lugares mais altos. Só se ouviam berros, pios, gritos. O que salvou as pessoas foram as fogueiras que, então, havia sido acesas. Não fosse isto, não teriam sobrevivido diante daquela multidão de bichos apavorados.

A água também invadiu a gruta onde morava a Boiguaçu. Ela custou muito para acordar e quase morreu afogada. Por fim, despertou; percebendo o perigo, deixou o esconderijo e seguiu para onde já estavam os outros bichos.

Diante da necessidade, todos acabaram ficando amigos: perdizes, onças, cavalos.... Menos o Boiguaçu. O seu mau gênio não lhe permitia conviver com os outros. Ficou de lado, o mais longe possível.

A chuva cessou, mas com a escuridão que fazia, os bichos não conseguiram encontrar o caminho de volta. O tempo foi passando e a fome apertando. Começaram as brigas entre eles. Brigavam às escuras, sem enxergar nada! Somente a Boiguaçu via tudo, com seus olhos de fogo.

Acontece que, se os outros animais sentiam fome, a Boiguaçu também andava com o estômago no fundo. Só não havia atacado por causa da grande quantidade de animais.
Se a cobra podia ficar muito tempo sem comer, os outros bichos já não podiam mais.

Ela percebeu isso e viu que era chegada a hora. Preparou-se, então, para o ataque. O que comeria em primeiro lugar? Um cavalo? Uma onça? Uma perdiz? Eram tantos, que ela nem sabia.

Os bichos têm preferência por determinada coisa. A Boiguaçu gostava especialmente de comer olhos. Como era grande a quantidade de animais que ela podia atacar, naturalmente ia ficar satisfeita comendo apenas os olhos.

O animal que se encontrava mais perto era justamente uma enorme onça pintada. A Boiguaçu atacou-a. Fosse em outra ocasião e a onça não teria sido presa tão fácil, não! Porém, enfraquecida pela fome e cega pela escuridão, ela nem reagiu. A Boiguaçu matou a onça e comeu-lhe os olhos.

Logo depois, atacou outros animais. Mas só comia os olhos.

Gostou tanto que não fazia outra coisa. Ou melhor: também dormia. Quando estava satisfeita, recolhia-se num canto e dormia, dormia.... Depois, quando a fome voltava, ela retornava ao seu trabalho de matar os companheiros.

Como sua pele era muito fina, ela começou a ficar luminosa, com a luz dos inúmeros olhos engolidos. Os que viram a cobra não reconheceram mais a Boiguaçu e pensaram que fosse uma nova cobra.

Deram-lhe, então, o nome de Boitatá, ou seja, cobra de fogo, nome muito apropriado, pois realmente ela era uma grande listra de fogo, um fogo triste, frio, azulado.

A partir de então, as pessoas não tiveram mais sossego. Viviam com medo de ser atacadas pelo monstro. Do jeito que ele andava matando os bichos, logo necessitaria atacar as pessoas.

Entretanto, tiveram sorte. A preferência do Boitatá foi a sua própria perdição.

Só comia olhos e, assim, foi ficando cada vez mais luminoso e mais fraco, também, pois os olhos não sustentavam, embora lhe satisfizessem o apetite. Tão fraco ficou que acabou morrendo, sem conseguir sequer sair do, lugar!

O monstro morreu, mas a sua luz esparramou-se pelos brejos e cemitérios e hoje pode tomar a forma de cobra ou de touro. Parece que, por castigo, o Boitatá ficou encarregado de zelar pelas campinas.

Logo que ele morreu, o dia surgiu outra vez. Foi uma alegria enorme. As pessoas voltaram a sorrir e as aves, a cantar. Tudo, enfim, voltou a ser como era antes

Fontes:
http://www.terrabrasileira.net/
http://pt.wikipedia.org/
http://www.rosanevolpatto.trd.br/

Andréia Donadon Leal (Amanhã, hoje ontem!)



Da janela do apartamento eu espiava a vida lá fora. Era noite clara de lua minguante pendurada caoticamente no céu. Uma estrela lá outra acolá. Não ventava, não chovia nem fazia calor. Um extremo mal gosto do tempo. A maioria das luzes dos postes da rua estavam queimadas. Eu do alto do décimo quinto andar vigiava a rua avidamente; outros apartamentos, casas, cabines de telefone pichadas, janelas de outros apartamentos. Alguns estavam como eu, parado olhando tudo e nada, outros vestiam o uniforme doméstico, outros com o corpo jogado no sofá assistindo ao noticiário da TV. Não me dava o desatino de ligar a televisão e escutar a mesma ladainha de sempre; tudo era cópia da cópia, da cópia, da cópia de ontem! Às vezes fincava noite adentro a encarar a rua pela janela do apartamento e afogava em pensamentos estranhos, ou filosóficos? Será que estava ali mesmo? Eu era eu, ou era outro? Dentro daquela gaiola de loucos, sem sentido.

De manhã levantava de sobressalto com o barulho tormentoso do despertador. Calçava meus chinelos e ia até o banheiro enfrentar minha carranca no espelho amassada pelas listras em alto relevo do travesseiro. As escovas estavam estáticas no copo de alumínio, encardidas de lodo. Duas escovas? Isso não tinha muito sentido. Elas só dependiam de mim para sua existência banal. O estômago contorcia com o gosto de flúor da pasta dental ressecada devido a úlcera não cuidada. Meu desjejum matutino: meia lata de coca-cola misturada com pó de café; um cigarro de maconha e a pílula da felicidade: 180 mg de fluoxetina. Trocar de roupa, qualquer uma serve, pegar a maleta e sair do apartamento. Mais uma vez o martelo no cérebro: pra que mesmo trocar de roupa? Num flash a resposta vinha à tona: para não ficar sujo; mas não estava sujo; para quê? Pra nada? Não! As pessoas trocam de roupa sempre! Tomam banho, trocam de roupa! Vão sair trocam de roupa! Vão trabalhar trocam de roupa! As roupas estão sujas? Trocam de roupa, aí tudo bem! Mas se estão limpas trocam de roupa também!? Tem sentido? Sim, por que isso é a convenção! Isso me causava pânico, tédio, raiva, angústia, revolta, ódio... Sei lá, pouco importa!

O bafo do vento soprou intrometido no rosto ressecado; os cabelos não mexeram engomados de poeira e gel; diabo com o sopro do vento! Não gostava do vento, do sol, do nascer nem do pôr-do-sol, da noite, da madrugada. Das pessoas andando na rua, às vezes, encostando em mim com seus corpos desastrados, uma trombada aqui outra desculpa ali. Ou um tanto pior quando me dirigiam um bom dia! Não olhava para as pessoas, estava farto da existência delas. Eram úlceras pro meu estômago queimado.

Os passos eram trêmulos pelo quarteirão. Dois longos quarteirões, até entrar num outro prédio. O elevador me enjoava o estômago, a cabeça, o corpo, a cara. As pessoas dentro dele me faziam pensar na imbecilidade de cada um que estava ali. Inclusive a minha, a nossa , a de todo ser humano com senso mínimo de raciocínio. O barulho da porta do elevador se abrindo, o porteiro anunciou o andar me acordando da excentricidade. Saí de má vontade do elevador vazio e me dirigi à sala com a placa : Psiquiatria e Terapia.

O ar da sala acometido por ar condicionado e incenso de flores que espantava maus fluidos. O som que entrou nos meus ouvidos lembrava clássicos que acalmavam os nervos. Nos meus não acalmavam, só irritavam, pois não suportava escutá-los mais! Música para os pacientes... Sem querer soltei um bocejo, um sorriso amarelo e finalmente um gemido enfastiado. Parei no limiar da porta, não entrei nem saí... Cocei a cabeça, forcei os olhos para a sala cheia de pessoas distribuídas uma a uma pelas cadeiras estofadas e confortáveis. A secretária no centro completando o cenário insensato do inexplicável olhava para mim com olhos forçados, certamente treinados, pois escondiam qualquer sentimento que viesse à tona em um ser humano que era cópia da cópia, da cópia, da cópia, da cópia... Levantou da cadeira como em câmera lenta, tudo estudado, calculado, treinado como ontem, anteontem, antes de anteontem, diversos anteontens, há uma década! Abriu a porta, levantou as sobrancelhas com ar de cinismo e um sorriso amável no rosto; delicadamente entrei na sala titulada: doutor...

Tudo em ordem... Fui para trás da escrivaninha, sentei na cadeira giratória, peguei as fichas dos novos pacientes com problemas velhos sem interesse, olhei para o relógio, mesma hora ontem, hoje e amanhã ... Amanhã?! Amanhã nunca será, porque quando chegar vai ser hoje! Tudo cópia da cópia, da cópia da cópia, da cópia da cópia…

Fonte:
Jornal Aldrava Cultural. http://www.jornalaldrava.com.br/
Imagem = montagem de José Feldman

Centro Paranaense Feminino de Cultura



Fundado em 5 de dezembro de 1933, o Centro Paranaense Feminino de Cultura, a mais antiga instituição cultural independente de Curitiba, é uma idéia transformada em realidade por intelectuais corajosas.

Numa época em que tantas barreiras inibiam as mulheres, esse grupo abriu novos caminhos para a promoção da mulher. A partir daquela data, qualquer mulher poderia participar de cursos de arte e de idiomas, aprender sobre puericultura e desempenho social, e manter reuniões com a intelectualidade da cidade. Estas atividades ampliaram o espírito feminino, a consciência humana e a generosidade da mulher curitibana.

O Centro Feminino já teve várias sedes. Em 1965, um antigo sonho tornou-se realidade: a aquisição da sede própria, na Rua Visconde do Rio Branco, 1717. Em 1998, novamente demonstrando visão do futuro, foi negociado o terreno da antiga sede pelos três primeiros pavimentos do Edifício “Times Square”, construído no mesmo local.

Sede do Centro Feminino

A nova sede manteve o mesmo endereço, e sua área disponível foi ampliada de 356m² para 825m², com entrada independente e elevador privativo.

As novas instalações foram planejadas a fim de proporcionar conforto e atender as principais atividades: no Térreo encontra-se o hall de entrada, a secretaria, oficina de artes e um lavabo. No Primeiro Andar temos o saguão, auditório, salão nobre com terraço, sala de reuniões, biblioteca, copa-cozinha e toaletes. E no Segundo Andar estão a galeria de exposições, teatro com terraço lateral, camarim e toaletes.

Grandes Espaços no Centro

Para dar uma amostra do Centro Feminino, vamos destacar a Biblioteca, o Auditório e o Teatro:

Teatro: 108m², platéia para 105 espectadores, com equipamento de som e luz, palco, camarim e um piano de meia-cauda Essenfelder.

Auditório: 86m² com 80 lugares confortáveis, equipado com sistema de som e um piano Essenfelder.

Biblioteca: acervo com aproximadamente 3.500 títulos e 7.000 volumes, destacando 1.800 títulos de autores paranaenses, além de livros raros, documentação, atas de reuniões e livros para empréstimo. Atualmente o acervo está na fase final do processo de higienização, restauração e catalogação

ASSOCIADAS

Adélia Maria Woellner
Adelina Kuster
Aidéia Tourinho
Alboni Pianosvski
Ana Maria Lacombe Feijo
Anastácia Lúcia Baron
Anice A. Messmar
Arahyr Di Lauro
Arice Cubas Buchman
Arlete Costa
Arlete Souza
Branca Casagrande Sabbag
Carmem Macedo Gutierrez
Cecília Muller
Céres De Ferrante
Cerli Jardim Kupchak
Chloris Casagrande Justen
Chloris Eliane J. de Oliveira
Ciroba Cecy Ritzmann
Clarice Quadros Dalledone
Cleusa César de Paula
Claudia Teresa Clevé Franklin
Clotilde Bianco Germiniani
Clotilde Quadros Cravo
Dalilla Morgenstern
Daria Farion
Dercilia Ribas Malachini
Diva Bonk Giacomel
Dirce Doroti Merlin Clêve
Doris Anna S. Sanchez
Doris Herdérico
Dorothy Gomes Carneiro
Dulce Bepler Portugal
Dulce Lezan Japiassú
Edith Borges de Macedo
Elizabelh Di Lauro
Elmira Barroso
Eloina Teixeira de Britto
Eni Ferreira da Silva
Enoì Navarro Swain
Ester Essenfelder
Evangelina Strutt
Fabiane Batista Balvedi
Flora Munhoz da Rocha
Glaci Cardoso de Carvalho
Glacy Tramujas Silva Mueller
Heloina Greca
Hilary Gral Passos
Ida Hanemann de Campos
Idalina B. Magalhães
Irena ZetzscheJandira Maranhão
Isabel Sprenger Ribas
Janske M. Schelencke
Judith Corrêa de Araújo
Juril Carnasciali
Kathleen Evelyn Müller
Lais Miranda
Leonídia Otto Debiazio
Leonilda Higenberg Justus
Leonor Lezan
Leony Diotaleve
Lia Passafini
Liamir Santos Hauer
Liana Marcia Justen
Liliane C. Sabbag
Lourete Tacla
Lygia Lopes dos Santos França
Manoela Fernanda Colognazi
Maria Alice Gomes Saldanha
Maria da Luz Portugal Werneck
Maria de Lourdes Canziani
Maria Cannan Moraes de Oliveira
Maria Rosa Cartaxo
Maria Thereza B. Lacerda
Mariliza Fagundes Cunha
Marisa Sampaio
Marisa Soares
Marita França
Marta Francisca Scripes
Milena A. Tassi de Andrade
Mirna Lopes
Muriel Mashke
Nely Lídia Valente Almeida
Nilcéa Romanowski
Noely Bastos Maia
Nylzamira Cunha Bejes
Odete Nauffal Freut
Olga Ana Walcewski Gioppo
Olga Gutierrez
Olga Jorge Kalluf
Olga Miranda Finzeto
Orly Bach Andrade
Osires Haddad
Pura Domingues Bandeira
Quintina Caniné
Rosa Maria Chiamulera
Roza de Oliveira
Rose Anne Lezan Japiassú Ribas
Salete Lins Alencar
Shyrlei Queiroz
Silvia Maria de Araújo
Susy Veloso Queiroz
Teresa Teixeira de Britto
Teresinha Procopiack
Valderez cachuba
Vera Buck
Yaramara de Castro Araújo
Zakie Tacla Sabbag
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Fonte:
http://www.centrofeminino.com.br/literatura13.html

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Folclore em Trovas 5 (Iara)

Trova sobre pintura de Emerson Fialho

Folclore Brasileiro (A Iara)

Iara ou Uiara (do tupi ‘y-îara “senhora das águas”) ou Mãe-d’água, segundo o folclore brasileiro, é uma sereia. Não se sabe se ela é morena, loira ou ruiva, mas tem olhos verdes e costuma banhar-se nos rios, cantando uma melodia irresistível. Os homens que a vêem não conseguem resistir a seus desejos e pulam nas águas e ela então os leva para o fundo; quase nunca voltam vivos e depois os comem. Os que voltam ficam loucos e apenas uma benzedeira ou algum ritual realizado por um pajé consegue curá-los. Os índios têm tanto medo da Iara que procuram evitar os lagos ao entardecer.

Iara antes de ser sereia era uma índia guerreira, a melhor de sua tribo. Seus irmãos ficaram com inveja de Iara pois só ela recebia elogios de seu pai que era pajé, e um dia eles resolveram tentar matá-la. De noite quando Iara estava dormindo seus irmãos entraram em sua cabana, só que como Iara tinha a audição aguçada os ouviu e teve que matá-los para se defender e, com medo de seu pai, fugiu. Seu pai propôs uma busca implacável por Iara. E conseguiram pegá-la; como punição Iara foi jogada bem no encontro do rio Negro com Solimões. Os peixes a trouxeram à superfície e de noite a lua cheia a transformou em uma linda sereia, de longos cabelos negros, brilhantes e sedosos além de olhos verdes da cor das matas, com uma voz divina e uma beleza que enfeitiça.

Iara era, segundo outros, a deusa dos peixes.

Moça bonita, de cabelos demasiadamente longos, que sempre mora nas águas perto das matas. Pode morar no mar, nos rios, nos lagos, nas cachoeiras e nas lagoas.

Vez por outra, nas horas mortas da noite, especialmente em noite de luar, canta.

Diz que duma voz tão boa, bonita e tocante que o homem que a ouve morre de paixão por ela.

Quando o Homem se apaixona por ela, ele é levado ao fundo das águas (mar, rio, cachoeira, lago ou lagoa) e é devorado pela Iara

Não se entende nada de suas cantigas porque canta em língua indígena. Se a mãe-d’água por acaso um dia morre, sua fonte seca.

A canção das sereias chama o homem para abandonar-se e lançar-se ao fundo do rio para morrer e emergir em uma nova vida com um novo entendimento. As sereias são criaturas da água, que por sua vez possuem um valor simbólico de longo alcance. Para água, convergem uma dualidade, ela nos dá comodidade e elasticidade, assim como é fonte de abundância. É a água que usamos no batismo e representa a purificação e renovação espiritual. Mas a água também é destrutiva nas inundações e nos afogamentos, que aniquilam e matam. As sereias incorporam todas estas qualidades e são símbolos tanto da morte, como da imortalidade. Elas clamam pelo homem ao desconhecido, impulsionando-o a abandonar o que é, para transformar-se em algo novo. O medo das sereias é o medo da transformação, o medo de aprender, o medo de perder o controle, o medo de ascender ao inconsciente.

No livro de M. Esther Harding, "Os Mistérios da Mulher", está descrita uma impressionante associação entre as fases da lua com as fases da deusa. A cada fase da lua, conta, a deusa veste um diferente traje de escamas, que é o traje de seu instinto.Os peixes eram dedicados a Atárgatis, a deusa lua de Ascalon, uma das formas de Ishtar, que era algumas vezes representada com rabo de peixe. Esta representação refere-se a extrema inconsciência do instinto feminino. Aqui a satisfação do instinto é essencial, não importando as conseqüências do tal ato. O aspecto deusa-sereia corresponde ao período da Lua Escura, onde ela está inteiramente sob o domínio do instinto. Esta fase pertence à esfera dos mistérios da mulher e, para um homem olhar para a ela nestes dias, significa "doença e morte", pois estará agindo como fêmea, desprezando qualquer consideração humana.

É a "Viúva Negra" nos seus melhores dias. Muitas mulheres não estão conscientes do poder desta qualidade feminina e então, um efeito desastroso pode ocorrer em virtude de sua desatenção ao papel de destruidora de seu amor. Mas há também algumas, que conscientes do seu poder sobre os homens o usam inescrupulosamente para vantagens pessoais. Para aceitar o poder desta Lua, sem se deixar sucumbir a ele, é necessário autodisciplina e sacrifício do auto-erotismo.

Uma mulher que se confronta com tais aspectos na escuridão de seu coração pode aprender a lidar melhor com este conflito em vez, de tornar-se responsável de atitudes irreconciliáveis e opostas. Em verdade, esta energia instintiva se transformará em algo bom e utilizável na vida. Esta energia fluirá naturalmente em seus relacionamentos aprofundando-os, ou pode tornar-se um escape direcionado à um trabalho criativo, ou ainda, suprirá a força motriz que torna possível a construção de uma personalidade mais completa, fundamentada tanto no lado sombrio quanto no aspecto luminoso.

Na galeria de nossos mitos, Uiara aparece como a Ninfa das Águas, tendo características ao mesmo tempo de mulher e homem. Mulher para seduzir os homens e homem para seduzir as mulheres. Apresenta, portanto, propriedades andróginas, diferente de outras figuras do lendário aquático.

Há estudiosos, que acreditam que a lenda do boto seja a masculinização de Iara. O assunto em verdade comporta discussão, dado ao grande número de conjecturas e contradições. Iara, ao meu ver, nada tem a ver com a lenda do boto. Ela é uma deusa das águas fluviais, ondina, sereia e Mãe D'água, portanto sua divindade feminina lunar. Já o boto é uma divindade masculina solar. O certo, é que a nossa Iara aparece tanto sob a forma de uma bela mulher, como a forma de um homem que desvia e arrebata donzelas.

Verifica-se que as nossas Iaras correspondem ao mito da Iemanjá e é também a mesma sereia dos tempos gregos, metade mulher e metade mulher que Ulisses encontrou no mar e aquela mesma Lorelei, a fada da Germânia. Quem olha descuidadamente o espelho do rio ou da lagoa, verá a Iara em sua deslumbrante beleza, ela abrirá os olhos como um doce convite e atrairá a vítima, levando-a para o fundo de seu palácio encantado-a e matando-a no arrebatamento delicioso das núpcias funestas.

Numerosas são as lendas em torno de Iara, seus encantamentos e artimanhas. É o mito que mais inspirou poetas brasileiros. José de Alencar, por exemplo, incluiu no romance "O Tronco de Ipê" um conto sobre a Mãe-d'água, em que figura um palácio de ouro e de brilhantes no fundo do mar.
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Jaraguari e a Iara

Jaguarari era um moço índio. Ele era muito forte, tão forte como a onça. E se houvesse uma luta entre os dois, não sei quem sairia ganhando. Era, também, muito corajoso e os outros moços índios morriam de inveja. Os velhos gostavam dele, porque era bondoso. As moças, então, viviam elogiando sua elegância, sua força, sua ligeireza! É claro que ele se sentia feliz.

O índio Jaguarari gostava de remar e possuía uma canoa muito bonita. Mas bonita mesmo! Feita com todo o capricho. Quando ele passava, remando, as aves da beira do rio não fugiam, ao contrário, esticavam o pescoço o mais que podiam para vê-lo passar.

Para pescar e caçar não havia outro! Não tinha nem graça: enquanto os outros índios se cansavam, correndo pela selva atrás de algum bicho, Jaguarari caçava quantos queria. Depois, pedia aos jovens índios que o ajudassem a carregar os animais que havia caçado. E eles, embora tivessem inveja de Jaguarari, não conseguiam resistir ao seu pedido, tão grande era sua simpatia.

Como o moço era bondoso, ainda repartia os animais abatidos com os amigos, proibindo-os de contar aos outros índios quem os havia caçado...

Um dia, ele partiu bem cedo para a caça. Ia sozinho. A manhã estava linda. De toda parte, saíam gritos, pios, cantos, saudando o sol que transformava tudo em vida e alegria. O moço índio sentia-se mais feliz do que nunca e não parava de admirar as maravilhas que encontrava: as aves voando perto das águas tranqüilas do lago... O colorido das flores... As teias de aranha cobertas de orvalho, parecendo tecidas com fios de prata... Quanta beleza! Entusiasmado, ele resolveu passar o dia na floresta. Só voltaria à aldeia quando começasse a anoitecer. Queria aproveitar bem aquele dia maravilhoso. Foi entrando pela selva, até alcançar lugares que ainda não conhecia. Em tudo encontrava a mesma vida e a mesma beleza, que pareciam nascer da luz do sol.

Encontrou um lago muito bonito, o mais bonito que ele já havia visto. Tinha uma superfície tão calma e cristalina, que parecia ser de vidro. Não resistiu e resolveu dar um mergulho. Como sempre, as aves que se achavam nas margens não fugiram. Chegaram mais perto do lago, para ver melhor o moço índio.

Depois de se banhar demoradamente, deitou-se à beira do lago e ficou admirando a beleza do céu. Ficou assim horas, completamente esquecido do que pretendia fazer. Quando se lembrou, deu um salto, apanhou o arco, as flechas e partiu para a caça. Não queria caçar muito, pois estava longe de sua aldeia.

E ficou por ali, caçando, até sentir fome. Preparou e comeu uma das caças e, sentindo sono, deitou-se para descansar um pouco. Adormeceu profundamente. Quando despertou, viu que o dia já estava terminando. Apressou-se em voltar à aldeia.

Mal começou a andar, ouviu um canto que o deixou maravilhado. Nunca ouvira nada tão bonito, antes. Deixava longe o canto do uirapuru! Jaguarari, encantado, queria conhecer a ave que cantava assim, mas já era tarde. Precisava ir embora, mas era tão bonito! Poderia voltar outro dia... E não conseguia afastar-se.

Sem perceber, foi andando na direção da doce e mágica melodia. Afastando cipós e folhagens, sem ligar para o perigo que podia encontrar, foi seguindo como que puxado por uma corda invisível.

Não demorou muito, chegou, por outro caminho, ao lago onde havia nadado. E viu a Iara.
Era realmente a Iara. Tinha um rosto tão lindo, que o moço ficou impressionado.

Sempre atraído, ele já estava quase dentro da água. Lembrou-se, porém, do que os velhos costumavam contar sobre a Iara e se agarrou desesperadamente ao tronco de uma árvore, à beira do lago.

Iara, que já o tinha visto antes, quando ele estava nadando, queria leva-lo para o fundo das águas. Como não gostava da luz do dia, esperara entardecer para atrair o moço com o seu canto.

Jaguarari, por ser forte, muito forte, conseguiu resistir, agarrado ao tronco da árvore. Depois, segurando os cipós que havia por perto, conseguiu afastar-se do lago. Percebeu, então, inúmeros animais e aves, paralisados pelo canto da Iara. Estavam tão hipnotizados, que nem perceberam a sua passagem.

Quando chegou à aldeia, sua mãe notou que ele estava diferente.

- Que aconteceu? - perguntou-lhe. Você foi atacado por alguma fera?

- Não, minha mãe. Nada me aconteceu.

- Mas você está tão esquisito! Nunca o vi assim!

- E apenas cansaço. Estive muito longe e precisei andar depressa, para que a noite não me pegasse na floresta.

- Ainda bem. Pensei que fosse coisa mais grave.

No dia seguinte, ele continuou preocupado e triste, bem diferente do que havia sido até então. Todos estranharam e queriam saber o que lhe havia acontecido. Muitos acreditavam que ele estava sendo vítima de Jurupari, o espirito do mal, pois o moço não ligava para mais nada. Apenas continuava a caçar e a pescar. Só que não trazia mais bichos e peixes, como antes. Agora, trazia apenas algum bichinho e dois ou três peixes, quando muito. Ele ficava a maior parte do tempo na beira do lago, para tornar a ver a Iara. Estava completamente enfeitiçado.

A Iara, porém, não aparecia mais. E o moço ficava ali, atento, procurando perceber algum movimento na água ou ouvir algumas notas de seu maravilhoso canto.

A mãe dele é que não conseguia descansar. Ficava à espera do filho e, todas as vezes que lhe perguntava o que estava acontecendo, a resposta era sempre a mesma:

- Nada. Apenas estou cansado.

Ele, que antes não gostava de ficar na floresta quando escurecia, voltava agora muitas horas depois de ter anoitecido. E, desde aquele dia, não aceitou mais a companhia de ninguém.

Os dias foram passando e cada vez Jaguarari parecia mais triste e desanimado. Tanto sua mãe insistiu, que, uma noite, ao voltar do lago, ele lhe contou:

- Vi a Iara, minha mãe. Num lago, bem dentro da floresta. É a moça mais linda que já me apareceu. Não existe outra igual. Seu canto é tão bonito, que não consigo esquecê-lo. Preciso vê-la outra vez e, novamente, ouvir a sua voz maravilhosa!

A pobre mãe pôs-se a chorar:

- Fuja da Iara! - pediu-lhe. Ela conseguiu enfeitiçá-lo e você será morto, se não se afastar dela!

Ele foi para a rede, mas não pôde dormir. A lembrança do canto da Iara roubara-lhe o sono.

No dia seguinte, ouvindo o conselho da mãe, Jaguarari não saiu da aldeia. À medida, porém, que a tarde ia caindo, ele foi ficando impaciente. Não conseguia conter-se. Precisava ir até o lago! Como era tarde demais para atravessar a floresta, tomou uma canoa e começou a descer o rio. Os que estavam por perto pensaram que ele ia pescar.

De repente, um índio gritou:

- Ei, Jaguarari não estava sozinho? Pois agora não está mais! Vejam!

Ao longe, avistava-se Jaguarari de pé, na canoa, em companhia de uma moça. Era a Iara. Foi a última vez que alguém o viu.
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Fontes:
texto e imagem Jurupari e a Iara = http://www.terrabrasileira.net/
http://folclore.brwww.com.br/
http://www.rosanevolpatto.trd.br/
Imagem da Iara = http://fotolog.com/

Declaração Universal dos Direitos dos Poetas


Capítulo I

DISPOSIÇÃO PRELIMINAR
Art. 1º - Esta declaração estatui as normas que regerão o coração do poeta na esteira luminosa da vida.

Capítulo II

DOS POETAS

Art. 2º - Considerar-se-á poeta todo homem que tenha em seu peito a marca inefável do perdão e as cores matinais da liberdade.

Parágrafo Único – todo homem é capaz de ser poeta.

Art. 3º - São absolutamente incapazes de serem poetas:

I – os que roubam em nome de Deus.
II – os que exploram em nome da caridade.
III – os que matam em nome da justiça.
IV – os que colhem os frutos que não semearam.
V – os que não sabem amar.

Art. 4º - São símbolos mundiais do poeta:

I – o amor
II – a paz
III – a fé
IV – a justiça
V – a esperança
VI – a poesia
VII – o canto

Capítulo III
DA COMPETÊNCIA DOS POETAS

Art. 5º - Compete aos poetas:
divulgar a paz porque esta será uma bandeira assentada no firmamento da consciência do homem.

II. espalhar o perdão porque este será atado no coração, igual a um lenço branco no vaso do esquecimento.

proclamar o amor em forma de oração todos os dias de sua existência.

semear a esperança para que esta não pereça nos despenhadeiros das amarguras, adubando-a com a raiz da verdade.

propagar a fé porque esta é a eterna riqueza do homem nos caminhos que o conduz às glórias pela luta de novo amanhecer.

cantar seu canto indiferente ao sabre que o ameaça.

denunciar a tirania quando esta for vestida com a couraça da hipocrisia.

não servir a reis nem a rainhas para que seu canto não se torne prisioneiro dos favores.

Parágrafo Único – Compete aos poetas serem escravos de seu próprio amor.

Art. 6º - O poeta não intervirá no coração do homem, salvo para:

semear o amor
manter as esperanças

Capítulo IV

DOS DIREITOS E GARANTIAS DOS POETAS

Art. 7º - Esta declaração assegura aos poetas de todo o universo a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, ao amor, à igualdade, nos termos seguintes:

todo poeta tem direito de cantar seu amor ou a sua dor nas manhãs claras de domingo.

os poetas poderão entregar em sacrifício sua própria vida quando ela servir de luz por onde passará a liberdade para os oprimidos.

o poeta não terá Pátria; sua Pátria será o coração do homem.

o poeta poderá andar armado por todo o mundo e sua arma será sempre seu canto..

é permitido ao poeta dormir nas manhãs ensolaradas de uma segunda-feira.

é plena a liberdade de criação e fica assegurado a todos, mesmo aos guerrilheiros, o exercício de criar, desde que não semeie a discórdia entre os homens.

ninguém será obrigado a amar ou deixar de amar, senão em virtude da lei do amor.

dar-se-á perdão e entendimento ao poeta que morrer por amor.

é permitido ao poeta vestir roupas brancas nos dias de chuva e declamar seus versos nas tribunas das Assembléias mesmo quando o assunto versar sobre economia internacional.

o poeta será eternamente livre como o vôo de uma garça amazonense.

Parágrafo Único – ninguém será punido por andar descalço nos corredores dos palácios.

Art. 8º - Fica decretado por todos os séculos que:

os homens viverão soltos nos campos de seu ideal e a liberdade é seu canto maior.

todos têm direito ao amor mesmo que não sejam amados, porque o amor é livre para nascer.

não é proibido colher flores nos jardins públicos para dedicar aos olhos da mulher amada, desde que elas sejam plantadas no jarro do coração.

todos se entregarão ao fogo da paixão iguais às crianças que se entregam aos braços da mãe,
só se falará de amor quando as ordens do coração ditarem a sentença definitiva.

todos serão livres como as espumas do mar e indevassáveis em seus segredos como o mistério da vida.

a verdade será servida na mesa do homem e nela buscar-se-á o alimento da alma para purificação do sentimento.

as mulheres casadas maiores de 18 anos, sem autorização do marido, poderão sair de suas casas nas tardes de março com um imenso sorriso nos lábios para que os poetas possam admirar sua beleza.

as canções de igualdade serão cantadas em todos os becos mesmo quando o gosto da aurora tiver sabor de repressão.

o mundo será um cordeiro e os homens os pastores.

Parágrafo Único – O poema cantado com amor poderá sair sujo de sangue.

Art. 9º - Será lembrado a todo instante que os homens nasceram despidos e por isso são iguais.

Art. 10º - Todo poeta é filho do povo e em nome deste elevará seu canto.

Título I

DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 11º - Somente Deus poderá pôr um selo na mão do homem para distingui-lo dos demais.

Art. 12º - A divisibilidade dos pães será respeitada e a balança será o coração do homem.

Art. 13º - Os homens, mesmo os incrédulos, acreditarão que um vestido branco pode se tornar vermelho e a corrosiva ferida do ódio se transformar em amor.

Art. 14º - A pira da verdade será alimentada com o fogo da justiça.

Art. 15º - A liberdade será a morada inviolável do homem e ninguém poderá nela penetrar senão para cultivá-la com as mãos da caridade.

Art. 16º - Deus não será visão utópica perdido em parábola, mas verdadeiramente razão da essência do viver.

Art. 17º - Será preservado o verde das matas, o azul do firmamento, o vôo dos pássaros e a pureza das crianças para que possam servir de estrela-guia na inspiração dos poetas.

Art. 18º - Não haverá cartas de apreço e apresentação entre poetas; todos, ao se encontrarem, tocarão em seu coração o hino da amizade e comerão da mesma aurora igual às crianças que se olham e se tocam num sorriso.

Art. 19º - As mãos dos homens semearão os grãos do amor da justiça, da caridade e do perdão para colherem os frutos da harmonia.

DISPOSIÇÃO FINAL

Mandamos, portanto a todos os homens a quem o conhecimento e execução da referida declaração pertencer que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém.

Os editores das nações e os jornalistas façam imprimir, publicar e correr.

Cumpra-se

Manoel Santana Câmara Alves

Fonte:
http://www.dhnet.org.br/

Myrna Atalla Senise (Perto de Clarice: um coração selvagem)



Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida.” (James Joyce)

Quando Clarice Lispector estreou com Perto do coração selvagem, a crítica recebeu o romance com entusiasmo. Louvou-se nele a "mais séria tentativa de romance introspectivo" (Sérgio Milliet), e Antônio Cândido previu na autora a afirmação de "um dos valores mais sólidos... mais originais de nossa literatura". Não erraram.

Clarice, autêntica brasileira-não-brasileira, nascida nem Tchetchelnik, na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920, de família russa que fugia às perseguições contra judeus, na então URSS. Chega ao Brasil com os pais e as duas irmãs aos dois meses de idade, instalando-se em Recife. Sérias dificuldades financeiras. A mãe morre quando ela conta 9 anos de idade. A família então se transfere para o Rio de Janeiro, onde Clarice começa a trabalhar como professora particular de Português, depois redatora da Agência Nacional. No jornalismo, conhece e se aproxima de escritores e jornalistas como Antônio Callado, Hélio Pelegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Alberto Dines e Rubem Braga. Os passos seguintes são o jornal A Noite e o início do livro Perto do Coração Selvagem - segundo ela, um processo cercado pela angústia. O romance a persegue. As idéias surgem a qualquer hora, em qualquer lugar. Nasce aí uma das características do seu método de escrita - anotar as idéias a qualquer hora, em qualquer pedaço de papel. Entra para a Faculdade de Direito em 1940, ano em que falece o pai. Em 1943 publica Perto do coração selvagem, ganhador do prêmio da Fundação Graça Aranha. Naturaliza-se brasileira e casa com um colega de curso, diplomata Maury Gurgel Valente. Escreve O Lustre, seu segundo romance, publicado em 1946. Dois filhos: Pedro e Paulo. Perto do Coração Selvagem, é publicado em francês, em 1954. Publica A Maçã no Escuro em 1956 e recebe o prêmio Carmen Dolores Barbosa. Separa-se do marido em 1959 e publica A Paixão Segundo GH, em 1964. Morre, de câncer, no Rio de Janeiro, em nove de dezembro de 1977, após ter escrito A Hora da Estrela.

Aprofundou uma visão do mundo muito pessoal e aperfeiçoou a técnica narrativa com uma linguagem metafórico-poética, coerente/incoerente, numa abordagem pode-se dizer fenomenológica, sem preconceito. Introspectiva. Prosa introspectiva. Angustiante. Graciliano já havia buscado o romance introspectivo. Clarice completou-o. Completou-se. Esmiuçar o psicologismo das pessoas, saber da existência, das angústias, das buscas e não concluir. Não saber o que fazer com tudo, ou saber e não fazer ou não fazer por saber. Obra aberta, como já disse Umberto Eco. Sempre indagando. Não concluindo. Sua busca não é a conclusão. É a busca.

Há três coisas para as quais nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos.
Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca
.”

Era o meu sonho ter várias vidas. Numa eu seria só mãe, em outra vida eu só escreveria, em outra eu só amava.”

Ampliou o valor da frase, da construção, ampliou o sentido da palavra. Amplitude da palavra. Ampla palavra. Amplo silêncio pleno de palavras em sua própria ausência. Recriou o romance, o conto. Fez prosa-poética. Viveu a dor de escrever e de criar. Ansiedade. Insatisfação. Comunicou a solidão. A solidão comunicou Clarice. O seu dizer-sem dizer-dizendo foi perfeito

Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.”

“O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.”

Construiu desconstruindo. Desconstruindo o mundo. Regras. Padrões. Um mundo perplexo diante de uma menina perplexa. Uma jovem aturdida. Uma mulher perplexa com o próprio poder da escrita. Perplexidade. Às vezes até com a própria fama, às vezes com a falta de interesse das editoras. Domina a palavra. Trabalha com os sons. Sons onomatopaicos e o silêncio.

A máquina de papai batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz.O guarda-roupa dizia o quê? Roupa-roupa-roupa. Não não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta.”

Crítica antes dos críticos. Sensível ante a própria crítica. Alma ligada a uma realidade que não existia. Real enquanto arte, não sendo real tanto na arte quanto na vida.

O esmagar, esmaecer, o dizer em silêncio, a profundidade das entrelinhas. Novamente as entrelinhas. Quem disse que o silêncio não comunica? Quem disse que o silêncio não fala? Quem disse que o silêncio existe? Ou que não existe? Macabea? Macabea poderia dizê-lo? Joana? Por que Joana? Perto do coração selvagem? Coragem selvagem da vida. Age. Viaja. Interage. Joana buscava. Clarice buscava? Quem disse que a personagem é o alter-ego da autora? A personagem é o alter-ego da autora? Clarice não disse. Não disse nada e disse tudo. Disse não dizendo. Não dizendo, disse. Inquietude plena de mistério e criação.

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

Eu sou uma atriz para mim mesma. Eu finjo que sou determinada pessoa mas na realidade não sou nada.”

“ Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. – Sou pois um brinquedo a quem dão corda e que terminada esta não encontrará vida própria, mais profunda. Procurar tranqüilamente admitir que talvez só a encontre se for buscá-la nas fontes pequenas. Ou senão morrerei de sede. Talvez não tenha sido feita para as águas puras e largas, mas para as pequenas e de fácil acesso. E talvez meu desejo de outra fonte, essa ânsia que me dá ao rosto um ar de quem caça para se alimentar, talvez essa ânsia seja uma idéia – e nada mais. Porém – os raros instantes que às vezes consigo de suficiência, de vida cega, de alegria tão intensa e tão serena como o canto de um órgão – esses instantes não provam que sou capaz de satisfazer minha busca e que esta é sede de todo um ser e não apenas uma idéia? Além do mais, a idéia é a verdade! Grito-me. (...)


Perto do coração selvagem mostra a reação à disciplina enquanto disciplina. As coisas não estão porque estão. Não são porque são. Otávio, o marido, tem nome. Lúcia, a amante, tem nome. O amante não tem. Seria o quê? Quem? Víbora? Por não aceitar as regras pré-estabelecidas pelo adulto? Víbora por questionar a professora, o professor, sobre ser feliz ou não? Depois de ser feliz o que acontece?

Bom é viver. Mau é não viver. É morrer? Não não. Mau é não viver, só isso. Morrer já é outra coisa. Morrer é diferente do bom e do mau.

Víbora por não sentir remorsos de atos incoerentes-coerentes? Por aceitar a amante? Por desestruturar sem desejar ou desejar desestruturar sem querer, ou mesmo, atavicamente, desestruturar? Desestruturar tudo? Tudo: escola, família, Deus, relação humana. Tudo. Vida--morte, morte-vida. Sentir e não se entender. Ter sensações, ser sensações, misturas, o tempo, o vazio, tudo e nada. Uma criança que percebe além do mundo adulto e se aturde. Tudo é nada. Não. Não havia o tudo. Não havia o nada. Não havia. Só o corpo. As sensações. O tempo. Estranho. Lento e rápido. Sem tempo. Basta se cumprir. Criador(a) e criatura.

Não há propriamente mistério, senão o da vida, em profundidade e em superfície.”

Importante somente o texto. Nem a vida. Morte-sem-medo. Um cavalo novo.

“... não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.”

Fonte:
Academia Sorocabana de Letras

Academia Sorocabana de Letras realiza 1º Seminário Internacional de Literatura durante a III Expo-Literária



A III Expo Literária de Sorocaba, que será realizada de 21 a 24 deste mês, em Sorocaba, pelas Secretarias Municipais de Cultura (Secult) e Educação (Sedu) e Academia Sorocabana de Letras, inclui em sua programação o 1º Seminário Internacional de Literatura, que será desenvolvido no anfiteatro da Biblioteca Municipal Jorge Guilherme Senger, subordinado ao tema “O tempo é a minha matéria”

As sessões do Seminário serão realizadas nos dias 22 a 24, de 14 a 18 horas. A inscrição é gratuita, sendo as vagas limitadas à capacidade do auditório. O acompanhamento das atividades dá direito a um certificado de participação.

A alocução de abertura será realizada no dia 21, quarta-feira, às 19 horas, durante a instalação da Expo-Literária.

Programação do Seminário

III Expo Literária de Sorocaba
Terra tatuada de sonhos
Homenageando Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos e Carlos Drummond de Andrade
Seminário Internacional de Literatura
O tempo é a minha matéria
Biblioteca Municipal Jorge Guilherme Senger
De 21 a 24 de outubro de 2009

Dia 21 (4ª feira)

19 h
Abertura - Geraldo Bonadio
Interações e rupturas entre tecnologia, criação e recepção da obra artística e literária. A arte de escrever do tablete de barro ao livro eletrônico.

Dia 22 (5ª feira)

14 h - Nancy Ridell Kaplan
A Ilíada e A Odisséia: percurso em imagens

15 h - Adalberto Nascimento
Galileu Galilei,o mensageiro das estrelas

16 h - Juliana Simonetti
Pelas veredas de Guimarães Rosa: um roteiro de palavras e imagens

17 h - Questões do auditório. Debate.

Dia 23 (6ª feira)

14 h - Maria Virgília Frota Guariglia
Abertura e Introdução

14h15 - Fernando Segolin
Fernando Pessoa e a busca da Palavra Perdida

15h45 - E. M. de Melo e Castro
Poética e Visualidade na Contemporaneidade: os caminhos da infopoesia

17 h - Questões do auditório. Debate.

Dia 24 (sábado)

14 h - Miriam Cris Carlos
Culturas: conceitos, implicações, tendências

15 h - Myrna Ely Atalla Senise da Silva
Mário de Andrade entre Malfatti, Villa e Drummond

16h - Questões do auditório. Debate. Encerramento.
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Fonte:
Douglas Lara.