quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 223)

Cantigas de Roda. por Juan Cruz
Uma Trova Nacional

Na soleira da saudade,
toda insônia se acomoda;
lembrando da mocidade,
nossa alma brinca de roda!
–MIFORI/SP–

Uma Trova Potiguar

Os teus olhos sacrossantos,
Musa do idílio e do amor;
enchem meus versos de encantos
e os meus olhos de esplendor.
DJALMA MOTA/RN–

Uma Trova Premiada

1988 - São Paulo/RJ
Tema: LIVRO - M/H

Cada página que é escrita
para o livro de nós dois
diz que é ainda mais bonita
a história que vem depois.
–VANDA FAGUNDES QUEIRÓZ/PR–

Uma Trova de Ademar

Saudade dói e magoa,
e é por demais persistente;
basta pensar na pessoa
para voltar novamente.
–ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram


É uma ilusão a desculpa
de querer culpar alguém,
quando a gente tem a culpa
das culpas que a gente tem.
–ELTON CARVALHO/RJ–

Simplesmente Poesia


–ANTONIO M. A. SARDENBERG/RJ–
Seu Beijo

Seu beijo é favo de mel,
a seiva que me alimenta,
é pedacinho do céu,
desejo que me atormenta!

É o fogo mais ardente,
que se pode experimentar,
é sinônimo de querer,
volúpia louca de amar!

Seu beijo é tudo, enfim!
É o querer.
O gostar,
vontade imensa de ter
mas que não posso alcançar!
seu beijo é gotinha dágua,
nas profundezas do mar!

Estrofe do Dia

Te dou tudo que queres nesta vida
gasto minha saliva esquento o crânio,
o esforço que faço é momentâneo
o que vejo e o que sinto é sem medida;
tua fuga é um beco sem saída
confundindo o amor com a razão,
misturando cabeça e coração
transformando o real no fictício,
eu te trato com tanto sacrifício
e tu me pagas com tanta ingratidão.
–ANTÔNIO LISBOA/RN–

Soneto do Dia

–DIAMANTINO FERREIRA/RJ–
Conselho.

Afasta de mim os teus olhos… Procuras
curvar-me ao seu brilho? Por que não desistes?
Nas lutas de amor não triunfam loucuras:
mais pode um sorriso que os olhos mais tristes…

Se almejas da vida somente as venturas
por que – se é frustrado – no intento persistes?
Não poupes sorrisos, palavras, ternuras…
E foge de tudo, daquilo em que insistes.

Repara nos outros que vivem ditosos:
felizes, tranqüilos, semblantes formosos…
Sem manchas no dia do Eterno Juízo!

A vida é tão bela! Desterra a tristeza!
Insere em teus olhos a eterna beleza!
Reabre teus lábios num doce sorriso!…

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

A. A. De Assis (A Cólica de Sua Alteza)


Quem me contou foi um cearense brincalhão, mas garantindo que tudo se dera como aqui será narrado. A cidadezinha recebera a visita de um príncipe que por aquelas áreas excursionava. Faixas saudando Sua Alteza, bandinha de música, a criançada abrindo alas, o povo todo em traje de festa para a nobre acolhida.

Chegado, saudado, discursado, o mais amedalhado visitante que o lugar já conhecera foi almoçar na chácara do principal chefe político do município. Vasta macarronada, carnes várias, o homem comeu além da conta, resultando inoportuno incômodo abdominal. A discreta pergunta a um dos empregados: “Onde é o banheiro?” A resposta simplória: “A gente aqui toma banho no rio ou na bacia; qual é que a alteza prefere?” O problema, porém, não era banho, eram outras necessidades: “Onde vocês fazem cocô?”, indagou o ilustre sem rodeios. “Ah, sim... nós costuma ir atrás da moita, lá fora... mas alteza também faz isso?”

A alteza em apuros, o pessoal estudando a solução honrosa: “Se segura um pouco, que vamos cuidar dos preparativos”. Minutos depois voltou a dona da casa: “A alteza pode adentrar ali naquele aposento”.

Já quase coisando nas calças, o príncipe fechou a porta, assustou-se com o cenário: jarros de flores em volta, um tapete vermelho, sobre o tapete um penico. Se é que príncipe também faz “dessas coisas”, então que as faça com a indispensável dignidade. Mas a hora não era apropriada para muitos raciocínios. O distinto sentou-se, aliviou-se. Um tanto desajeitado com a gorda retaguarda em tão acanhado recipiente, todavia...

Resolvida a emergência, entrou em pauta outra circunstância: o papel. Nem sequer um pedaço de jornal. Usar o lenço? Nesses momentos vale tudo. Ia começar a operação quando ouviu a banda vindo na direção da casa...

Que seria agora? Os músicos pararam em frente, o príncipe não conteve a curiosidade, levantou-se em condições não muito elegantes, foi espiar pela greta da janela. Era a homenagem mais estranha que já recebera em toda a sua biografia.

A bandinha caprichando no dobrado, a criançada formando duas filas, no meio vinha entrando um par de moças trazendo vistosa bandeja de prata com o sucedâneo local do papel higiênico: meia dúzia de sabugos, mimosamente escolhidos. “Para a alteza havera de ser tudo muito especial”.

Fonte:
ASSIS, A. A. de. Vida, verso e prosa. Maringá: EDUEM, 2010.

Instituto Memória Convida para Lançamento Nacional em 7 de Junho, em Curitiba


CONVITE!

07/06/2011 - 19H00 - PALACETE DOS LEÕES

O Instituto Memória Editora & Projetos Culturais e o BRDE - Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul - convidam para o Lançamento Nacional das obras abaixo.

Lembramos que a sociedade somos NÓS e contamos com a presença de todos para abrilhantar esta noite de valorização da cultura nacional.

Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam.
(Edmund Burke)
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Anthony Leahy - Editor Presidente
Conselheiro da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História - SP
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e da Academia de Cultura de Curitiba
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www.institutomemoria.com.br

IRENE COELHO
Uma Brasileira de Coração Português
Thais Matarazzo Cantero

UM FILME JAMAIS ESQUECIDO
e outras crônicas
Ilário Iéteka
O TOQUE: ESSÊNCIA DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Vislumbre de uma Nova Humanidade
Renata Jurach Bueno

ÊXTASE ALÉM DA MAGIA
Pedro Henrique Osório

SÓ SEI QUE FOI ASSIM!
Crônicas Escolhidas
Alcione Prá
Jocelino Freitas
Neyd Montingelli

COMO FALAR EM PÚBLICO MELHOR
Manual de Oratória - 2a.Edição
Enos de Castro Deus Filho

SERVIÇO:

Data: 07 de Junho de 2011

Horário: das 19h às 22h

Local: Palacete dos Leões - Av. João Gualberto, 530, Alto da Glória.
# Estacionamento interno gratuito #

Fonte:
Texto enviado por Anthony Leahy

Ialmar Pio Schneider (Pinhão)


Fruto do pago crioulo
Que a peonada saboreia,
Junto ao fogo que clareia
O hospitaleiro galpão,
Enquanto que o chimarrão
Complementa a xucra ceia !

Eu te bendigo, alimento
Que a Divina Providência
Nos legou por excelência,
Pois não existe na estância
Alguém que negue a sustância
Que nasce da tua essência.

Nas noites frias de inverno,
Quando procuro o aconchego
E sentado num pelego,
Vou curtindo a solidão,
No meu peito redomão
Só sinto paz e sossego.

Fruto selvagem do pago
Que se debulha da pinha,
Em toda ignorância minha
Desconheço outro igual,
Que a gente come com sal
Com as prendas, na cozinha.

E mesmo assado na chapa
De um fogão ou sobre a brasa,
És um grito que extravasa
Aquilo que o guasca sente,
Ao se encontrar de repente
Solito e longe de casa.

Peço ao Patrão lá de riba,
No verso que vai ao léu,
Sem fazer muito escarcéu,
Que embora tenha comida,
Quando for pra outra vida
Não falte pinhão no Céu.

Fonte:
Texto enviado pelo autor

Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XXXVI – O Jabuti e o Jacaré


Louco de inveja da gaitinha do jabuti, o jacaré resolveu furtá-la. Para isso ficou à espera dele no bebedouro.

— Olá, amigo jacaré — disse o jabuti aparecendo. — Que faz- aí?

— Tomando sol.

O jabuti bebeu e pôs-se a tocar a gaitinha.

O jacaré então disse:

— Empreste-me um pouco isso; quero ver se sei tocar.

O jabuti deu-lhe a gaita. Ele, pluf, atirou-se ao rio e lá se foi com ela.

O jabuti danou. Passados dias, engoliu uma porção de abelhas duma colméia e foi para o bebedouro esperar o jacaré. Escondeu-se num monte de folhas secas, apenas com a boca de fora, bem lambuzada de mel. De vez em quando soltava uma abelha: zum!

O jacaré apareceu, e pensando que fosse uma colméia enfiou o dedo na boca do jabuti. O jabuti, nhoc! ferrou o dedo dele.

— Ai, ai ai! — gritava o jacaré. — Largue meu dedo!

E,o jabuti

— Só largarei se me entregar a gaitinha — e apertava o dedo do jacaré. Não agüentando mais, este gritou para o seu filho, lá longe:

Ó Gonçalo,
meu filho mais velho,
a gaita do cágado!
A gaita do cágado!
Tango-lê-rê...
A gaita do cágado!
Tango-lê-rê...

O rapaz, que era meio surdo, respondia:

— O quê? Sua camisa, meu pai? Seu chapéu?

E o jacaré, aflito:

Não, Gonçalo,
meu filho mais velho,
a gaita do cágado!
Tango-lê-rê...
A gaita do cágado!
Tango-lê-rê...

E o Gonçalo:

— O que; meu pai? Suas calças?

O jacaré tornava a repetir a cantilena — e assim uma porção de tempo até que o filho entendeu e veio com a gaitinha. Só então o jabuti largou o dedo do jacaré, que saiu ventando.
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— Que graça! — exclamou Emília. — Jacaré com dedo e filho gente! Mas serve, a historinha. Gostei.

— Então vai gostar ainda mais da do jabuti e os sapinhos — disse tia Nastácia. E contou.
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Continua… XXXVII – O Jabuti e os Sapinhos
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Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

Marcelo Spalding (O Certo e o Errado no Ensino da Língua Portuguesa)


Chegou aos noticiários nacionais o dilema de cada professor de língua portuguesa: diante das novas teorias linguísticas e, em especial, da sociolinguistica, como lidar com variações como “nós pega” ou “os carro” em sala de aula? Simplesmente apontar o erro seria reforçar o que tem se chamado de preconceito linguístico, mas deixar de fazê-lo poderia colocar a disciplina num limbo perigoso onde o vale-tudo acaba com a especificidade da disciplina.

O tema ganhou relevância graças à polêmica provocada pelo livro Por uma Vida Melhor, da Coleção Viver, Aprender – adotado pelo Ministério da Educação (MEC) e distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (PNLD-EJA) a 484.195 alunos de 4.236 escolas. Confira um trecho do livro, publicado pela Editora Global:

“Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro’?’ Claro que pode. Mas fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico (…) Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas.”

Professores respeitados, como Claudio Moreno, foram enfáticos na defesa do ensino do português chamado padrão, reafirmando que o papel da escola é ensinar o futuro cidadão a se utilizar da língua escrita culta, “cujas potencialidades espantosas aparecem na obra de nossos grandes autores”. Para Moreno, “os linguistas sabem que nosso idioma é muito mais amplo do que a língua escrita culta que é ensinada na escola — mas a escola sabe, mais que os linguistas, que essa é a língua que ela deve ensinar”.

Por outro lado, linguistas de consistente formação acadêmica, como Pedro Garcez, reiteraram que não é uma questão de certo e errado, mas de adequação: “de certa forma, todos nós brasileiros produzimos frases com falta de concordância. Isso do nosso ponto de vista não é erro, é a linguagem natural. Esse é o português brasileiro.”, afirma o professor da UFRGS.

Claro que a questão é mais profunda do que esses exemplos um tanto grosseiros pegos pela mídia, pois outras tantas construções corriqueiras são erradas do ponto de vista gramatical, mas continuam sendo repetidas por pessoas das mais variadas classes sociais e pela própria mídia. Exemplos? “Tu vai”, “duzentas gramas”, “Houveram momentos”, “Me empresta”, “Ele trouxe para mim ver”, “Assisti o show”, etc.

No fundo o que está em jogo é a entrada de novos atores sociais no dia a dia da língua portuguesa, com suas influências e estilos. O paulistano usa “então” no começo de cada frase, um vício de linguagem horrível, mas nem por isso se discrimina o paulistano ou, por outro lado, se usa isso em filmes, novelas e livros didáticos. Mesma coisa o “r” carregado dos cariocas ou o “tu vai” dos gaúchos. Essas são as variações geográficas, por isso não causam tanto furor como as variações sociais, marcas linguísticas de classes ou grupos sociais específicos. Essa variação pode ser de interpretação, léxico, sintaxe e até ortografia (como os sempre criticados “vc” ou “tb” da Era Digital).

E o professor, em sala de aula, faz o quê? Uma das formas de lidar com o problema sem encara-lo de frente tem sido concentrar o trabalho com a Língua Portuguesa em textos, evitando a normatização da gramática e da ortografia. Mas será que, afora os exageros, não é importante que os jovens tenham um conhecimento técnico de sua língua, e não apenas intuitivo, para melhor interpretação, correção, clareza e variação na leitura e na produção textual? Não será importante, especialmente aos futuros profissionais da língua, como comunicadores, advogados, professores de todas as áreas, cientistas sociais, etc, saber onde se utiliza ou não o “a” craseado, a vírgula, a preposição antes do “que”? E não é importante que, para isso, eles saibam pelo menos o que é um sujeito, um verbo, um objeto, um adjunto adverbial? Um adjetivo, um advérbio, um substantivo, um pronome, uma preposição?

Pode parecer espantoso, mas nem sempre eles sabem. Não com facilidade. Vejamos um exemplo bem prático do meu dia a dia em sala de aula, a frase "A expansão desenfreada da cidade é uma grande ameaça para seu desenvolvimento". Para muitos, o verbo é "expansão", o que pode causar grande confusão na hora de concordar o verbo com o sujeito e faria com que muitos escrevessem essa frase com “Há” ou “À” no lugar do “A”. Adiante, poucos percebem que “seu” é um pronome que retoma “a cidade”, ainda que um esteja no masculino e o outro no feminino.

Claro que o mais importante não é a gramatiquice, é que nosso cidadão saiba expressar-se com coerência, coesão e, mais ainda, tenha postura crítica e ideias originais. Também é importante, entretanto, que não sejam sonegadas desse cidadão as regras sociais, incluindo aí o português padrão, pois ali adiante esse desconhecimento pode acabar excluindo, ou, pelo menos, subvalorizando pessoas de alta capacidade e que lutaram muito para reescrever seus destinos.

O papel da escola, enfim, é apresentar e ensinar ao aluno a variante “culta” da língua: aprender ou não, interessar-se ou não por ela, é um direito do aluno, mas se ele precisar dessa variante e não conhecê-la por omissão da escola teremos praticado, sem exagero, um crime. Dos grave.

Fonte:
Texto enviado pelo autor
Imagem = Junior Paiva

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 222)


Uma Trova Nacional

No embalo da serenata,
quisera ser como a lua
vestindo com tons de prata
os homens tristes da rua!
–SELMA PATTI SPINELLI/SP–

Uma Trova Potiguar

A saudade, a dor, o trauma,
que pranteia, os olhos meus,
tortura e faz de minha alma,
refúgio, de um triste adeus...
–FABIANO WANDERLEY/RN–

Uma Trova Premiada

2007 - Bandeirantes/PR
Tema: DESVELO - M/H.

Com desvelo produzindo,
nas pinceladas finais,
Deus devia estar sorrindo
quando fez os pinheirais!
–PEDRO ORNELLAS/SP–

Uma Trova de Ademar

A mais triste Solidão
que os seres humanos têm
é abrir o seu coração...
Olhar e não ver ninguém!
–ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

Teus passos eu sigo a esmo
numa atração que me assombra,
deixando de ser eu mesmo
para ser a tua sombra...
–VENTURELLI SOBRINHO/MG–

Simplesmente Poesia


–MENOTTI DEL PICCHIA/SP–
Noite

As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.

Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.

Estrofe do Dia

É tranquilo viver a juventude
no remanso febril dos verdes anos,
sem sentir o amargor dos desenganos
nem as dores da falta de saúde;
mas não é permanente essa virtude,
porque o tempo interfere no viver,
muitas vezes trazendo desprazer,
com o peso enfadonho da canseira.
Quem quiser ser feliz a vida inteira,
é preciso saber envelhecer.
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Soneto do Dia

–EDMAR JAPIASSÚ MAIA/RJ–
Auto Retrato

Nem sei há quanto tempo que um sorriso
não enfeita o meu rosto macerado
pelas dores que têm me dominado,
pelos árduos caminhos que hoje piso...

Bem sei o quanto tenho me esforçado
para encontrar o amor de que preciso,
e transportar-me em luz ao paraíso
de sonhos que a ilusão me tem negado...

Quando tristonho ao pranto me condeno,
percebo ser no pranto um Ser pequeno,
que na apatia busca o seu abrigo.

E a sorte, nos seus rasgos de avareza,
não deixa que eu me dispa da tristeza,
e possa parecer menos comigo!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas no. 221)



Uma Trova Nacional

Cabelo é um negócio louco...
há divergências fatais:
– Na cabeça, um fio é pouco;
mas... na sopa... ele é demais!
–ELISABETH SOUZA CRUZ/RJ–

Uma Trova Potiguar

Nosso mundo anda e desanda
não é como a gente quer;
na guerra, o homem é quem manda,
em casa, manda a mulher.
–HILTON DA CRUZ GOUVEIA/RN–

Uma Trova Premiada

2009 – Campos dos Goytacazes
Tema: Conhaque – Venc.

Foi tão grande o benefício
daquele conhaque a dois,
que eu fui lembrar-me do início
só nove meses depois!.
– RODOLPHO ABBUD/RJ –

Uma Trova de Ademar

Vejam a triste desdita
da minha prima Filó:
namorou um eremita
e morreu no caritó!
–ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

O forró foi bom de fato,
no sítio do Manelão.
Tinha mais casal no mato
do que dentro do salão.
ALYDIO C. SILVA /MG–

Simplesmente Poesia

–NASSER QUEIROGA/PE–
Extra…. Extra‼‼‼!

Encontrei um poeta sem talento
Que escreve o que já existe
Que diz ser alegre quando e' triste
Pois escreve só o que os outros sentem
E diz ser profundo sendo raso
Tem ate torcida organizada

Este cara e' um arraso
Pões na verdade e' um arrasado
E ainda fica zangado
Se o pai o da cria o descobre

Também o pobre tem um trabalhão danado
De copiar e colar
Pra outro vim reclamar

Extra….. Extra‼‼‼‼‼‼‼‼!

Estrofe do Dia

Era metida à grã-fina,
pertencia à alta roda,
copiava toda a moda
de uma atriz bailarina.
Só queria ser menina,
parda querendo ser branca,
vivia botando banca,
mas tomei conhecimento...
No sutiã só enchimento,
e a roupa era da “sulanca”
–FRANCISCO MACEDO/RN–

Soneto do Dia

–JERSON BRITO/RO–
A Entrega

Entregadores carregavam grande estante
Subindo escada, seu destino: a cobertura
O prédio tinha dez andares... Que tortura!
Diz um do trio: "alguém vá ver quanto é faltante"

Um deles sobe e no retorno comunica:
"Duas notícias vou lhes dar, nenhuma anima"
"Apenas uma diga agora e lá em cima
Você nos fala e, descansado, a outra explica"

De imediato, ele concorda com seus pares:
"Pois, sendo assim, informarei vocês primeiro
Que são restantes pro final mais sete andares"

Chegando ao topo, o cara foi logo indagado:
"Qual a segunda má notícia, companheiro?"
"Nós acessamos, por engano, o bloco errado...”

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

Antonio Manuel Abreu Sardenberg (Poesia, Soneto e Trova)



ALMA
Antonio Manoel Abreu Sardenbera
São Fidélis/RJ

Quando a vida vem sussurrar baixinho
Dizendo coisas que se quer ouvir,
Deixe o recado chegar de mansinho,
Que toda a alma também quer sentir.

Prepare o peito para uma festa,
Faça um convite para ela entrar,
Reparta o resto todo que inda resta,
Pois dividir é muito mais que dar.

E deixe o amor enaltecer a vida
Dando guarida ao pobre coração.
Quando chegar a hora da partida,
Que nos sussurre a voz da emoção.

E que o acalanto de linda cantiga
Deixe que venha a paz que tanto acalma
Trazendo junto a esperança antiga
Que ainda vive dentro dessa alma.

AMOR À ROÇA
Amilton Maciel Monteiro
São José dos Campos/SP

Idoso, já comendo de apisteiro,
Sem condição alguma de voltar
À minha antiga faina de vaqueiro,
Eu passo o dia todo a meditar...

Mas não lamento estar o tempo inteiro
Deitado, sem poder me levantar,
Pois aproveito bem ainda o cheiro
Gostoso do curral que vem no ar...

Vem-me à lembrança o verde da campina
Bastante esbranquiçada de nelore,
Mal dissipava o sol toda a neblina...

E vou compondo versos, quanto possa...
Não quero que a saudade me estupore,
Com tanto amor que tenho pela roça!

TROVAS

Nos braços do bailarino,
na garganta do cantor,
em cada tango argentino
geme uma história de amor!
A. A. DE ASSIS – PR

Velho farol apagado,
as ondas vêm te beijar,
pelo serviço prestado
aos navegantes do mar.
EVANDRO SARMENTO – RJ

Depois que fiquei sozinho,
meu cantar emudeceu;
o mais triste passarinho
canta mais feliz que eu!
FRANCISCO GARCIA – RN

Amigo é firme presença,
seja no riso ou na dor;
é uma forte bem-querença
que chega a ser quase amor!
ALICE CRISTINA BRANDÃO – RS

A vida é renovação
(é amor, é sonho e alegria);
é feita só de emoção,
recomeça a cada dia!
GISLAINE CANALES – SC

Das estrelas não esperes
mais que palavras ao vento;
as estrelas são mulheres
que piscam sem sentimento.
SELMA PATTI SPINELLI – SP

Ao ver o cair da tarde,
sinto vontade de estar
longe do mundo covarde,
perto do céu para amar...
CARMEM PIO – RS

A máscara é camuflagem
do que oculta a veleidade,
pois perdeu toda a coragem
de confrontar a verdade.
SÔNIA SOBREIRA DA SILVA – RJ

Soltei o teu nome ao vento...
e o vento, só por maldade,
repete a todo momento
o nome desta saudade.
CONCEIÇÃO ABRITTA – MG

Quando de noite o cansaço
envolve-me de mansinho,
busco a paz em teu abraço,
sedenta do teu carinho
VANDA ALVES DA SILVA – PR

Liberdade inconsequente
é tolice, é ilusão;
é liberdade demente,
bem pior que a escravidão...
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG/RJ.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

Hercílio Pinheiro (1918 – 1958)




artigo publicado por José Lucas de Barros

ERCÍLIO OU HERCÍLIO PINHEIRO(Francisco Ercílio Pinheiro de Oliveira) – Luiz Gomes-RN, 18-11-1918 – Tabuleiro do Norte - CE, 09-04-1958, morreu com apenas 40 anos incompletos, mas deixou um respeitável nome na história da cantoria nordestina. Boa voz, dom de repentista, estudioso, carismático, impressionou fortemente a quantos o ouviram e com ele cantaram. Dizem que o velho Pinto do Monteiro foi ao Ceará somente para cantar com ele, e, não o encontrando por lá, disse:

“Eu subi ao Ceará,
que chamam terra da luz,
mas não cantar com Hercílio
é cravar-me numa cruz,
é como subir ao céu
e não falar com Jesus!”

Conta-se que, na cantoria em que os dois geniais repentistas realmente se encontraram, Hercílio brindou o mestre Pinto com esta magistral sextilha:

“Canta, Severino Pinto,
massa dos quatro elementos,
catadupa do improviso,
montanha de pensamentos,
grandeza de céus e mares,
força da rosa-dos-ventos!”

(Informante: Raimundo Lourival de Lima(Lourinho), funcionário do Banco do Nordeste, Currais Novos – RN, gerente, em 1985). O poeta José de Sousa tem uma versão desse repente de Hercílio que apresenta diferenças em alguns versos, mas não demonstrou a devida segurança para contestar a informação de Raimundo Lourival. Esse tipo de dúvida para trabalho de improviso que não foi gravado ou anotado no momento de sua criação é muito comum, e o pesquisador muitas vezes não tem como solucionar, optando por apresentar a forma mais aceitável, para não deixar de registrar um repente de alta expressão, como é o caso analisado.

Numa cantoria, quando o assunto girava em torno da fé em Deus, Hercílio, reconhecendo que sem Ele nada somos, improvisou:

“Eu fui, eu sou e serei...
São três coisas de mister.
Se eu fui foi porque Deus quis,
se eu sou é porque Deus quer,
e para o tempo futuro
eu serei, se Deus quiser.”

Hercílio cantava numa casa sertaneja quando o companheiro chamou sua atenção para uma lagartixa que caía do teto:


“Caiu um bicho nojento,
feio e sujo sem parelha!”

Hercílio resumiu com arte e graça:

“Caiu um bicho da telha,
parece uma lagartixa:
é carne que não se come,
é couro que não se espicha.
Eu peço ao dono da casa:
pegue um pau, mate essa bicha!”

Hercílio cantava com Dimas Batista em mútuos elogios. Dimas findou assim uma sextilha:

“Não vejo quem pague os versos
do grande Hercílio Pinheiro.”

Hercílio, inspirado e elegante, respondeu:

“Enfrentar meu companheiro,
cantando, ninguém se atreve.
No momento em que ele canta
Parece que Deus escreve
Com tinta da cor do céu,
Em papel feito de neve

Numa cantoria em que os repentistas falavam da Escritura Sagrada, Hercílio improvisou:

“Na Escritura Sagrada,
me lembro que Jesus disse:
“Quem tivesse pra dar, desse,
quem não tivesse, pedisse;
quem fosse triste chorasse,
quem fosse alegre sorrisse.”

Dimas Batista, em dura peleja com Hercílio, assanhou a fera:

O que eu fizer num minuto
Você num ano não faz.

Hercílio foi fulminante na reprimenda:

Você tem razão demais,
Porque nasceu desumano,
Mesmo este é o costume
Do povo pernambucano:
Fala a verdade um minuto
E mente o resto do ano.

Por fim, minha homenagem ao inesquecível Hercílio Pinheiro:

-Perdemos há meio século
Nosso grande violeiro
E, por todos os recantos,
Lamenta o Nordeste inteiro
O silêncio da viola
Do grande Hercílio Pinheiro.

Seu nome virou legenda
No mundo da cantoria;
Morreu jovem, mas deixou
Um rastro de poesia
Que ilustra as mais lindas páginas
De sua biografia.

Fonte:

Honório de Medeiros (Ercílio Pinheiro)



“Um dom dado por Deus”. Assim Seu Chico Honório começou a me falar de sua amizade com o grande cantador de viola e repentista Ercílio Pinheiro, de quem foi amigo pessoal, nascido em Luis Gomes, Rio Grande do Norte, no Sítio Arapuá, no dia 13 de novembro de 1918, e morto tão prematuramente em 9 de abril de 1958, aos quarenta anos de idade.

Ercílio, desde pequenino, versejava batendo em uma lata “desafiando” sua irmã. Cedo aprendeu as técnicas de sua arte através de Inocêncio Gato, com quem fez sua primeira cantoria. E cedo, também, veio morar em Mossoró, onde exerceu a atividade de locutor da Rádio Tapuyo até se entregar totalmente à viola.

Seu Chico recorda suas primeiras cantorias – com Antônio de Lelé, na casa de Zé Honório, em São João do Sabugi; com Justo Amorim, na casa de Cabo Palmeira, patrocinada por Zuza Patrício; com Chico Monteiro na fazenda de Sinhozinho Crisóstomo, a cinco léguas de Alexandria, todas tiradas a cavalo, no novenário de Santo Izidro. Eu o deixo divagar mergulhado nas lembranças de quase setenta anos atrás. Ele, entretanto, não demorada a repetir: “Ercílio foi um dom de Deus.”

“Hospedei Ercílio e Dimas Batista em Mossoró. Ercílio era um homem correto, digno, honesto. Transpirava honestidade. Morreu dezessete dias antes de você nascer. Foi o melhor cantador de viola do Brasil em sua época. Respeitava todos seus companheiros, mas, os superava em muito. A grande teima, naqueles anos, era qual dos dois cantadores era o melhor: Ercílio ou Dimas. Houve um desafio célebre, na década de cinqüenta, entre os dois, um desafio real, não esses de hoje, onde tudo é combinado, que começou de tarde, varou a noite e ganhou a madrugada e somente parou por que o juiz da cidade – Taboleiro do Norte, Ceará – deu por encerrada a peleja, dando-a como empatada.”

“Ercílio era irmão de João Pinheiro e seu sócio no bar “Irmãos Pinheiro” aqui em Mossoró. Esse bar é tradicional ponto de encontro de comerciantes, políticos, advogados, ainda hoje, mas a maioria de seus familiares mora em Taboleiro do Norte, no Ceará. Ercílio tinha entre um metro e setenta e um a um metro e setenta e seis. Era muito magro. Branco, calvo, cabelos finos, usava óculos com grau muito forte por que era quase cego em conseqüência de uma miopia. Fumava cigarro de palha ou de fumo cortado.”

“Eu o conheci quando era chefe de trem na linha Mossoró-Sousa. Como era seu admirador, terminei fazendo amizade com ele por conta das viagens que ele fazia para ir cantar. Na verdade devo a Ercílio minha vinda para a Igreja Católica. Um dia, quando já estávamos perto de Mossoró, ele me perguntou: Chico, você já fez sua Páscoa? Respondi-lhe que nunca tinha me crismado nem feito Páscoa. Ele me ofereceu os livros que eu tinha que estudar e me disse que ia me levar a Frei Luis. Esse Frei Luis era um terror. No dia seguinte fui me confessar com Frei Luis, a mando de Ercílio, e lhe disse que nunca tinha me confessado. Levei um grande carão e ganhei uma penitência de sete padres-nossos de joelho. Até que não foi muito pesada. A segunda confissão foi com Frei Damião. Ercílio foi quem encaminhou. Novo carão e novas penitências.”

“Quando Ercílio vinha a Mossoró eu já sabia: de manhã, lá pelas dez horas, nós nos encontrávamos e a outros amigos na praça do Pax, para conversar sobre cantoria, repente, cantadores, viola. Ercílio era muito admirado, entre outras qualidades, por ter o que os entendidos chamam de “pulmão limpo”, ou seja, sem pigarro, um canto claro e bonito. Uma vez, não me contive: Ercílio, quem é o cantador que você teme em uma disputa? Não temo ninguém, respondeu. Aliás, continuou, não disputo com ninguém, só comigo mesmo. Mas eu sempre me fiz respeitado na minha profissão. Agora respeito e sou respeitado por Dimas Batista.”

“Assim é o gênio”, conclui Seu Chico. “Estudou à luz de lamparina, mas seu dom, esse não tem como aprender, Ercílio nasceu com ele.”

Fonte:
Honório de Medeiros

Safira (A Dormição de um Poeta)




Não estava muito velho. Ocupava-se o dia inteiro com a produção literária, o que o conservava entusiasmado, lúcido e atuante.

Naquela tarde, como em todas as outras, teria muitos papéis para preencher com poemas e com o que mais lhe satisfazia: autos de origem medieval renovados em estilo atual, adaptados em rimas sonoras. Tudo bem aceito pelo mercado livreiro. Letras puras, sem mesclas de maldade ou cinismo. Seu dom granjeava-lhe leitores assíduos. Frases limpas, ditadas pelo amor universal que cultivava com cuidado e que brotavam do reduto de seus sentimentos. O cérebro apenas equacionava e compunha em versos, quase sempre metrificados, o pensamento consagrado.

Assim cumpriu Dom Marcos Barbosa, o tempo a ele designado. Cumpriu-o bem até ser chamado à morada eterna para, então, ingressar na eternidade.
*
O povo contrito e vários bispos confrades do falecido, compareceram ao velório e encomendaram a Deus o corpo inerte.

Daí, alguém pediu que todos se acomodassem, pois que haveria mais uma oração. Esse alguém colocou uma fita cassete para rodar.
*
A voz de Dom Marcos irrompeu em timbre claro, perfeitamente audível. Ele fazia a própria entrega da alma à Misericórdia de Deus, a quem dedicara a vida. Foi um adeus-agradecimento aos amigos que tinham-no acompanhado na caminhada. Muitos seguraram as lágrimas quando o ouviram encerrar dessa maneira:

- Adeus...! Alegrem-se...! Estou indo para uma festa!

Fonte:
Texto enviado pela autora

A. A. de Assis (Triversos III)




61
Longindo-se vai,
suminte, o barquinho a vela.
Quem será com quem?

62
Ah, espelho meu.
Cada vez que em ti me vejo
vejo menos eu.

63
Receita do sapo:
quem quer um sono tranquilo
antes coma o grilo.

64
A rosa, Keké,
a rosa que coisa é?
– Email de Deus.

65
Quantas vezes, ah,
eu vi o pião rodar.
E os anos também.

66
Poeta no parque.
Enquanto caminha ao sol
vai catando haicais.

67
Do dente por dente
ao voto por dentadura.
A lei da mordida.

68
Nuns de vez em quando
sou porventura menino.
Melhores momentos.

69
Na praia desfilam
sungas, biquínis. De gala,
um par de pinguins.

70
O Sol que se cuide.
Volta e meia a meia-lua
chega em casa cheia.

71
Tanto foi ao brejo,
que a vaca um lírio gerou.
O copo-de-leite.

72
Bolsa de valores.
Nem só de ações morre o homem,
mas também de infarto.

73
Mágica é a palavra.
Beija-flor é beija-flor,
colibri nem tanto.

74
Tinha um pé de pinha
no quintal vizinho. Tinha.
Nem quintal tem mais.

75
Nem ao vento verga
o velho jequitibá.
Dá flores, porém.

76
As celebridades?...
Dê-lhes tempo: logo-logo
serão gasparzinhos.

77
Equino sem trema?
Desculpem, mas me parece
cavalo sem jóquei.

78
O parto da história:
aquele em que Adão, dormindo,
fez-se Adão e Eva.

79
Um pingo de luz
no topo do arranhacéu.
Brincando de estrela.

80
Garrincha e Pelé.
Depois deles nunca mais
houve igual olé.

81
Ao velhinho, o dia.
Nem passado nem futuro
têm-lhe serventia.

82
Meu sonho está aí?...
Por favor, mande-o de volta,
que a saudade dói.

83
Entre o céu e a terra,
quanta vã filosofia...
E o pior: bem paga.

84
Pois é, meu poeta:
até as crateras da Lua
de longe são belas.

85
Antissolidão.
A cada velhinho a tela
de um computador.

86
Doce portuñol.
Para los niños los nidos
... y los abuelos.

87
Pousa o passarinho
na imagem de São Francisco.
Os irmãos se entendem.

88
Branquinhas, branquinhas,
voam as garças em V.
Vitória da paz.
--

Fonte:
ASSIS, A. A. de. Vida, verso e prosa. Maringá: EDUEM, 2010.

Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XXXV – O Jabuti e o Lagarto



Era uma onça que tinha uma filha no ponto de casar-se. Havia dois pretendentes: o lagarto e o jabuti. Para desmoralizar o rival, o jabuti andou dizendo que o lagarto não valia nada, que era bicho tão à-toa que ele jabuti até o usava como cavalo. Como a onça duvidasse, o jabuti ficou de aparecer montado no lagarto, e dar-lhe de chicote e espora na vista de todos.

No dia seguinte o jabuti ficou à porta de sua casa com um lenço amarrado na cabeça. Chega o lagarto.

— Compadre jabuti, vou indo para a casa da onça. Não quer ir comigo?

O jabuti agradeceu o convite — mas ir como, se estava com uma dor de cabeça furiosa?

O lagarto insistiu, e ele:

— Só poderei ir se alguém levar-me às costas.

— Pois levo — disse o lagarto — mas há de descer longe da casa da onça. Não quero que me vejam servindo de cavalo.

— Muito bem, compadre lagarto, mas montar em pêlo não dá certo. Deixe-me botar em seu lombo o meu caquinho de sela.

O lagarto protestou que não era cavalo para andar de sela às costas.

— Sei que não é cavalo, compadre, mas isso de montar em pêlo não vai comigo — e tanto insistiu que o lagarto deixou-se arrear.

O jabuti, então, montou, depois de munir-se dum bom chicote e dum par de esporas.

Foram. A cem metros da casa da onça o lagarto pediu-lhe que apeasse e lhe tirasse do lombo o caquinho de sela.

— Oh, compadre, estou me sentindo tão ruim que nem pensar em pôr o pé no chão eu posso. Tenha paciência. Leve-me até ali adiante — e o lagarto caminhou mais cinqüenta metros com ele às costas. Vencidos os cinqüenta metros, o lagarto pediu-lhe de novo que descesse — mas o jabuti tanto chorou que o lagarto foi com ele às costas até o terreiro da onça. A onça apareceu.

— Então, senhora onça! — gritou o jabuti. — Está convencida de que o lagarto é meu cavalo? E fincou a espora e meteu o chicote no pobre lagarto até não poder mais.

Encantada com a valentia do jabuti, a filha da onça casou-se com ele.
=======================
— Que grandissíssimo pândego! — observou Narizinho. — Bobeou duma vez o outro. Quatro já que o jabuti logra: o homem que o prendeu na caixa, duas onças e este lagarto. Estou vendo que nenhum bicho pode com ele.

— E não pode mesmo — confirmou tia Nastácia. — O jacaré também não pôde, querem ver?
–––––––––––––
Continua… XXXVI – O Jabuti e o Jacaré
–––––––––––––-
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas no. 220)



Uma Trova Nacional

Lembranças do meu passado
cabem na minha algibeira,
num retrato desbotado
que carrego na carteira...
–DIVENEI BOSELI/SP–

Uma Trova Potiguar

Se ante um momento sofrido
alguém te estender a mão,
que em teu olhar comovido
brilhe a luz da gratidão!
–MARIA ANTONIETA BITTENCOURT/RN–

Uma Trova Premiada

2009 - Jogos florais Del Caribe
Tema: AMIZADE - Venc.

Cultive a fraternidade
como quem cultiva a terra;
quem planta grãos de amizade
não colhe os frutos da guerra.
–OLYMPIO COUTINHO/MG–

Uma Trova de Ademar

A saudade faz doer,
disse um grande pensador:
– é difícil descrever
o tamanho dessa dor!
–ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

Amanhece... A névoa fina
vai cobrindo a serração...
E solidão com neblina
é muito mais solidão!
–WALDIR NEVES/RJ–

Simplesmente Poesia

–SUELY NOBRE FELIPE/RN–
Desencanto

Nossas ruas estão vazias de gente
O medo que afugentou nossa alegria
Escondeu a beleza das madrugadas
Confundiu-se com o sangue
Jorrado nas suas veias
E que agora,
Desfila escandaloso em cada esquina,
Cada beco ou viela.
Dos dias enternecidos
Da juventude de outrora
Resta apenas a esperança
De um novo amanhecer".

Estrofe do Dia

Para cortar a lavoura
que existir na terra nossa,
vive a formiga de roça
esmerilhando a tesoura,
a santa mão protetora
deu-lhe mais este saber,
de guardar o que comer
sobre os seus silos mofando,
é a natureza mostrando
quanto é grande o seu poder.
ZÉ DE CAZUZA/PB–

Soneto do Dia

–SERGIO AUGUSTO SEVERO/RN–
Predador

Mesmo sabendo que não sou profeta,
não "vou morrer de amar mais do que pude",
nem "por amar assim, tanto e amiúde"
(Sem desdizer os versos do POETA").

Quem sabe as dores que o Amor desperta,
quem faz do Coração a moradia
de tanto amor (Vinicius já sabia),
o Tempo cobrará a Conta Certa.

Tanta aventura louca que vivi,
tantos caminhos tortos percorri,
a desculpar-me: "Se foi por Amor"...

Se levou tempo, hoje percebi,
foi tanto que de mim eu consumi,
que me tornei meu próprio Predador!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas no. 219)

Teatro Santa Rosa em João Pessoa/PB
Uma Trova Nacional

Sem você, sigo calado,
e o meu viver é sombrio,
qual velho ator fracassado
vendo o teatro vazio!...
RODOLPHO ABUDD/RJ–

Uma Trova Potiguar

Sofrendo e sentindo as dores
de um mundo que nos liquida,
todos nos somos atores
no teatro desta vida!
–ZÉ DE SOUSA/RN–

Uma Trova Premiada

2004 - ATRN - Natal/RN
Tema: TEATRO - 6º Lugar

O teatro imita a vida,
mas também corrige o mundo.
Em cada cena exibida,
passa um recado fecundo!
–A. A. DE ASSIS/PR–

Uma Trova de Ademar

Construí dentro de mim,
com minh’alma enternecida,
um teatro onde, por fim,
pude encenar minha vida!...
ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

Nos palcos, comédias quantas
nestes teatros da vida...
Fracassos e glórias tantas
e no fim a despedida!
ANITA ALVES DE OLIVEIRA/RJ–

Simplesmente Poesia

A favela prepara os arsenais
num rancor e num ódio tão profundo,
uma arma acionada assusta o mundo
um conflito infernal destrói a paz,
num prostíbulo de cenas imorais
a valente mulher prostituída
se abastece de droga e de bebida,
vende amor ao amante, mas não ama,
o mistério noturno enfeita o drama
no teatro da noite mal dormida.
CHICO SOBRINHO/PB–

Estrofe do Dia

Lampião no passado foi sofrido,
bem pequeno junto ao pai já trabalhava
e quando era garoto não pensava
de um dia também virar bandido;
mas depois que perdeu seu pai querido
sentiu raiva cortando o coração,
comprou armas e chamou o seu irmão
e montou logo o teatro da matança
lampião fez em letras de vingança
uma história de sangue no sertão.
ZÉ CARDOSO/RN–

Soneto do Dia

–JOÃO JUSTINIANO/BA–
O Soneto Moderno.

O soneto renasce, e a todo pano,
transita pelos mares da poesia.
É clássico ou moderno, em confraria,
navega ao vento norte ou ao minuano.

É discriminação e puro engano
dizer que a rima é velha e sem valia.
O belo é sempre belo, na poesia,
na pintura, na música... E que dano

causa o teatro antigo, o enceno, a mímica,
que afaga o espírito e ilumina a química,
do riso alegre, da tranqüilidade?

Renascendo o acadêmico soneto,
traz um sentido novo, e, em branco e preto,
tem gosto e aroma de modernidade!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

José Faria Nunes (O Natal de Jurandir)


Conto publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol.8
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Adolescente, Jurandir não sabe definir o que sente. Só sabe que é tempo de Natal de um ano qualquer, lá pela metade do século XX. Perplexo, confuso, um misto de alegria e tristeza. Do rádio na mesa da sala do tio na pequena cidade da Água Fria ouve músicas que lhe tocam fundo. Sentimentos complexos. Incompreensão, dúvida, esperança, revolta. Presta atenção na letra da música: “Bate o sino pequenino, sino de Belém. Já nasceu o Deus-Menino, para nosso bem”. Para nosso bem? Questiona! A quem estaria se referindo aquela frase? Com certeza não para o bem dele próprio, Jurandir.

Volta-se para dentro de si mesmo. Para dentro de seu passado. Em sua regressão vê-se criança na roça. Casinha de pau-a-pique, dois cômodos, cobertura de capim de varge. A rotina, sempre a mesma. Entra ano, sai ano. E o Natal sempre chega. De ano em ano. Feliz Natal, nada mais que apenas uma expressão da boca pra fora. Entre os ricos até que pode fazer sentido. Festas, presentes... Na família de Jurandir o Natal é um dia como qualquer outro. Apenas mais um dia santo. Como se Domingo fosse. Na roça os homens não trabalham num dia desses. As mulheres e as crianças, para essas não tem domingo e nem dia santo. Café da manhã, varrer a casa, fazer o almoço, depois a janta e, à noite, ferver água no caldeirão de ferro para se lavar os pés na bacia de cobre.

Nas casas em que há meninas, essas ajudam a mãe nos afazeres domésticos. Os meninos dão milho para as galinhas e os porcos, apartam os bezerros das vacas leiteiras.

Na casa de Jurandir é diferente. Primogênito e único vivo de uma irmandade de três, cabe a ele o duplo papel de filho e filha: ajuda o pai e a mãe. Cuida do quintal, leva comida para o pai na roça, mas também ajuda a mãe na cozinha. Reclamar? Pra que e pra quem? Incomoda-o, logo de manhã, a ordem da mãe para que ele se levante, abra a porta de paus-a-pique e toque para o terreiro da cozinha a galinha de pintos que dorme dentro de casa. Precaução para que bicho do mato não coma mãe e filhotes ainda desempenados. A tarefa, em dias de frio, é pior. Levantar cedo demais é um verdadeiro suplício. Tarefa seguinte: cuidar de acender o fogo no fogão a lenha para o café da manhã. A tarefa, em tempos de chuva, é por demais ingrata. A lenha úmida, teimosa, não deixa o fogo vingar. A fumaça arde-lhe os olhos. É então que Jurandir inventa um meio para a fumaça não lhe incomodar. Tira da mamoneira do quintal uma folha com talo, retira a folha, faz um corte em cada extremidade do talo oco e passa a utilizar o estratégico canudo para assoprar as brasas sem que a fumaça lhe agrida os olhos. O invento ajuda-o a ganhar tempo nos domingos e dias santos para brincar com os carrinhos que ele mesmo faz com carretéis que a mãe lhe dá quando costura à máquina manual. A máquina, herança de dona Belarmina falecida faz pouco tempo.

Para fabricação dos carrinhos, além de carretéis, utiliza fibra de talos de buriti, matéria prima utilizada também pelo pai para rolhas de garrafas e de cabaças. Garrafas para curtir pimentas e cabaças para levar água para se beber na roça.

O primeiro e único brinquedo industrializado só ganha aos seis anos de idade. Um urso de plástico rígido com patas presas em eixos. Colocado em superfície inclinada o urso desloca-se para a frente, protagoniza risos e emoção na trôpega caminhada. O presente, recomendado pela mãe, é um agrado especial do pai. Uma forma de distração do menino enquanto está impedido de brincar com seus brinquedos tradicionais pois que convalesce da lesão sofrida com a fratura do antebraço direito ao brincar de pique-esconde com os primos maiores na casa da avó.

Outra brincadeira prazerosa do Jurandir-criança é a corrida em cavalinhos, que também ele próprio faz, de cana de milho, para arrebanhar o gadinho (laranjas-da-terra) para os currais de paus roliços colhidos por ele no cerrado da frente ou do lado esquerdo da casa. O quintal onde brinca fica aos fundos e a rocinha de arroz do lado direito, que dá para o olho d’água. Este fica no fundo de um buraco de alguns metros, uma forma de grota, certamente produto de erosão em tempos imemoriais, junto ao córrego. Hoje tudo ali é cerrado. Referido olho d’água localiza-se a uns cento e poucos metros da casa de Jurandir. A família busca água do olho d’água para o consumo doméstico desde quando foi encontrado um gato morto na cisterna.

A cisterna, quando de queimadas de pastos, na seca, tem a função de hidrante. É dela que a mãe de Jurandir tira a água para molhar o capim que cobre o casebre para que alguma faísca não se atreva a queimar a cobertura. Os instrumentos? Um balde na extremidade de uma corda de bacalhau presa ao sarilho tocado por manivela de madeira.

A mãe e o filho, que sempre garante a segurança da humilde habitação quando das queimadas, desta vez não tem a mesma sorte com a chuva. Como das ocasiões anteriores, ao notar o surgimento de nuvens escuras que sobem do horizonte para o alto do céu, a mãe começa a rezar. Sempre a mesma reza que Jurandir praticamente já decorou. “Santa Barba levantô; se carçô, se mudô; sua bandera sua mão pegô; seu caminho caminhô; encontrô com Jesus Cristo, Jesus Cristo preguntô: Barba adonde vai? Eu vou pro céu, Sinhô; vô livrá de chuva braba e de baque os cristão”.

Jurandir não compreende bem o teor da oração feita pela mãe mas a ajuda a rezar. Aliás há mais coisas práticas da mãe e do pai que Jurandir não entende, mas pratica. É o exemplo de colocar nos quatro cantos do quintal e da roça estacas com palha benta ou palha santa nos dias de muito frio para se livrar da geada. A palha santa é conseguida no dia de Domingo de Ramos, na entrada da semana santa, quando vem padre da cidade grande para celebrar na corrutela os ofícios comemorativos da Semana das Dores e da Semana Santa. O pai colhe uma folha de guariroba, leva pra Missa de Ramos na capela. Abençoada a folha, que passa a se chamar palha benta, é guardada para proteção das plantações. O ritual é repetido no ano seguinte, quando vem de novo o padre que benze novas folhas, a nova palha benta, estrategicamente guardada em pequeno feixe entre a viga da casa e o capim da cobertura.

Algazarra de meninos na rua traz de volta Jurandir para a realidade. Ele vai à janela: um homem com roupas espalhafatosas, uma pequena bola vermelha no nariz que se destaca no rosto pintado de vermelho e preto. É o palhaço com uma corneta em forma de cone e um grupo de crianças anunciando a estréia do circo à noite. “Hoje tem, hoje tem?” “Tem sim sinhô!” “Hoje tem espetáco?” “Tem sim sinhô!” “É na rua do buraco?” “É sim sinhô!”...

Jurandir sabe que não vai ao circo, pois terá que voltar para a fazenda. Se bem que tem vontade. Ele fica na casa do tio enquanto o pai vai até a loja do Atalaia comprar uma foice e uma enxada, ferramentas novas para melhor desempenho na roça.

No rádio sintonizado em uma emissora de São Paulo o locutor intercala músicas natalinas com o incentivo ao consumismo. Aqui está o seu presente para quem você ama. Ele fica a imaginar como seria bom ter um rádio. Corrutela pequena não tem emissora de rádio. Sintonizam no povoado apenas emissoras de São Paulo, do Rio e de Uberlândia. O turco da esquina tem um rádio grande, diferente daquele do tio. Ele pega até uma tal de Síria ou Palestina.

Jurandir não tem rádio em casa. Nunca tivera. A avó e os tios da fazenda também não. Rádio é artigo de luxo para a família. O tio que mora na corrutela não tem terras mas tem um bom emprego no Estado e ganha bem. É coletor de impostos. E pode até se dar ao luxo de, quando vai a cidade grande, comprar revistas. Sempre tem em casa a Manchete e a Cruzeiro. Que bom passar suas páginas! Muita coisa bonita, colorida.

A frase “feliz natal” Jurandir só vem a conhecer mais tarde, já no Grupo Escolar. Aprende a ler, escrever, contar e questionar. Questiona o mundo que acha injusto. Enquanto uns poucos têm tanto, muitos têm nada. Até o material escolar é diferente. Os lápis de cor de alguns alunos são grandes e de qualidade melhor que os lápis da maioria da classe. Alguns nem lápis têm. Pedem emprestado. E, por serem emprestados os lápis, as tarefas que dependem deles são feitas por último e às pressas. E, pela pressa da devolução, os cuidados, os caprichos são menores.

Jurandir é tímido, muito quieto, mas observador. Percebe as diferenças entre os colegas pelo vestuário, até pelo jeito de falar. Alguns vão pra escola de bicicleta. E ele até que os admira mas tem uma pontinha de inveja deles. Aquele filho do dono da farmácia, tem dia que vem de carro pra escola. Vem com a mãe. Pra que vir de carro pra escola, se a maioria vem a pé? Alguns, como é o caso dele, vêm até de fazendas.

Jurandir não maldiz a vida, embora discorde das disparidades existentes entre as pessoas. Ele, por exemplo, se conforma. Tem, pelo menos, lugar onde morar. Apesar de simples, é um verdadeiro lar. Ao final de qualquer dia tem para onde voltar. Há pessoas que nem moradia tem.

Outra música ecoa do rádio do tio e com essa Jurandir reforça seu questionamento. Ele observa umas e outras frases, ainda que não sequenciais. Uma: “Papai Noel vê se você tem / a felicidade / pra você me dar.” Outra: “Eu pensei que todo o mundo fosse filho de papai Noel.” E outras e outras: “A felicidade é brincadeira de papel.” E ainda: “Ou que a felicidade é brinquedo que não tem”.

Ao voltar para casa Jurandir leva na cabeça um misto de sonhos e de decepções. Mas de uma coisa está certo. Irá estudar com seriedade para, quando adulto, possa ter um lar como aquele descrito na cartilha do Grupo Escolar. Seus filhos não haverão de passar fome como a ele passou no ano em que o pai vendera a roça de arroz e milho e não recebera o devido pagamento, fazendo com que a família ficasse sem o que comer; não terão seus filhos que fabricar seus próprios brinquedos de buriti e carretel ou cana de milho; que eles possam ter brinquedos modernos sem que, para isso, tenham que quebrar um osso qualquer; poderão até ter rádio em casa, como o tio Astolfo, talvez até televisão como aquela da revista; poderão ter cama boa, de molas como na casa da tia Virgínia, e não aquelas tábuas sobre estacas e colchão de palhas de milho como a dele e dos pais; seus filhos não haverão de ter que assoprar brasas para acender o fogo em lenha úmida, haverão de ter até fogão a gás; não terão q ue buscar água da fonte do buraco junto ao córrego, poderão até ter água encanada ou cisterna com bomba; não terão que tomar banho de balde e caneca; ao contrário, hão de ter banheiro com chuveiro; e o Natal há de ser mais que simples música no rádio do tio.

Fontes:
Texto enviado pelo autor
Imagem = http://jardimdeurtigas.blogspot.com

A. A. de Assis (Triversos) II


31
É a cegonha, bem...
Tá caçando uma barriga
pra ninhar neném...

32
Tudo bem, poeta.
Minha terra tem Palmeiras,
mas sou são-paulino.

33
“Por que não te calas?”,
diz a arara ao papagaio.
– Se calo, me peias.

34
Na aguinha da bica
molha o bico o tico-tico.
Depois bica a tica.

35
Céu de “brigadeiro”.
– Aniversário de quem?,
me pergunta o neto.

36
Zunzunzum... zunzum...
É um pernilongo brincando
de fórmula um.

37
Balança o palanque.
O peso na consciência
do nobre orador.

38
Xô daqui, Seu Grilo.
Pega a tua cantoria,
pousa noutra cuca.

39
Dó-ré-mi-fá-sol,
dó-ré-mi-fá-sol-lá-si.
Sabiá-laranjeira.

40
Eram todos sábios.
Mas somente o sabiá
sabia cantar.

41
Tão simples, meu santo:
“ame e faça o que quiser”.
O resto é discurso.

42
Diz-me alegre a neta:
– Olha, vô, é a borboleta
do poeta azul.

43
Releio Bilac.
Aquele que a Via Lác-
tea ouvia e via.

44
Vaga o vagalume.
Vaga luz num vago mundo
procurando vaga.

45
Cigarra dá curso
de canto no formigueiro.
E a fábula acaba.

46
De longe o cheirinho
a que Adão não resistiu.
Festa da maçã.

47
Rodada de mate.
Negrinho do Pastoreio
passa bem no meio.

48
Quero-quero-quero,
que queres tu tanto assim?
– Quero a quera-quera.

49
Mindim, seu-vizim,
pai-de-todos, fura-bolo...
Ao sobrante, o piolho.

50
Tão meninas elas,
as meninas dos teus olhos.
Pedem colo, ainda.

51
Nobre girassol.
Como podem, no mercado,
chamá-lo commodity?

52
Toda prosa a rosa.
Vitória-régia-mirim
numa poça d’água.

53
Cubram-se as estrelas.
Tem gente capaz de ao vê-las
lhes roubar as pilhas.

54
Vovó faz a sesta
na cadeira de balanço.
Reprise de sonhos.

55
Corrija-se a tempo.
Mais de mater que magistra
necessita o povo.

56
Era um fino belga.
Fez sucesso ao transformar-se
num canário brega.

57
No ap da canária
pinta o 7 o pintassilgo.
Pinta um pintagol.

58
A abelhinha, não.
Bela e útil, não lhe assenta
ser chamada “inseto”.

59
Na Idade da Pedra
talvez já se comentasse:
– É uma pedra a idade.

60
Cada tiquetaque
leva um tiquinho da gente.
Para o céu, espero.

Fonte:
ASSIS, A. A. de. Vida, Verso e Prosa. Maringá:EDUEM, 2010.

Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XXXIV – O Jabuti e a Fruta


Havia no mato uma fruta que nenhum bicho podia comer sem antes pronunciar o nome dela, e como só uma mulher sabia o nome da fruta, os bichos tinham de ir à sua casa perguntar o tal nome.

— Boioio-boioio-quizama-quizu — respondia a mulher, mas assim que o bicho ia saindo ela o chamava, dizendo: "Eu errei, amigo bicho. O nome não é esse, é outro" — e dizia outro. Os bichos faziam grande confusão, de modo que ao chegarem ao pé da fruta erravam no nome.

O jabuti resolveu comer a fruta. Ao saberem disso os outros animais caçoaram.

— Ora, logo quem! Se os mais pintados não conseguem decorar o nome, que é que espera aquele cascudo?

Mas o jabuti foi à casa da mulher com a sua violinha e perguntou o nome da fruta.

A mulher disse o nome, que ele imediatamente tocou na viola. Depois a mulher disse outro nome, e outro, e outro — e o jabuti ia tocando-os todos na viola até o último, que era o certo. E foi tocando na viola aquele último nome até chegar à árvore. Repetiu, então, a palavra, certinho, ficando com direito à fruta.

Nisto a onça se aproximou.

— Jabuti não sabe trepar em árvore — disse ela. — Eu trepo para você e em paga recebo algumas frutas.

O jabuti concordou. A onça trepou à árvore, encheu um saco e desceu sem dar nenhuma ao jabuti, que lá se foi atrás dela.

Chegando a um rio, disse ele à onça:

— Comadre onça, me dê o saco para eu passar. Bem sabe que sou bom nadador. Você passa depois.

A onça deu-lhe o saco das frutas, que o jabuti levou às costas até a outra margem do rio — e lá desapareceu com as frutas deixando a onça lograda.

Furiosa com aquilo, a onça jurou vingar-se. Mas o jabuti, avisado, armou um plano. Foi esconder-se numa cova, bem embaixo da raiz em que a onça costumava descansar. Logo depois a onça veio e deitou-se.

— Jabuti, amigo jabuti, apareça! — disse ela.

E o jabuti respondeu de muito pertinho (dentro da cova): "Oi! Oi!"

A onça olhou duma banda e doutra, sem ver sinal de jabuti. Gritou de novo:

— Jabuti, onde está ?

— Oi! Oi! — foi a resposta.

Vendo aquele som sair debaixo dela, a onça ficou desconfiada. Contou o caso a um macaco que vinha passando e pediu--lhe que desse uma sova em seu traseiro, por andar fingindo de jabuti.

O macaco deu tanto no traseiro da onça que a matou — e o jabuti saiu da cova muito satisfeito

— Lé, ré, lé, ré...
===============================
— Arre, que é demais! — exclamou Narizinho. — Os "historiadores" pintam as onças ainda mais estúpidas que os perus. Veja se ela havia de mandar que o macaco desse tamanha surra no seu traseiro...

— Ora, menina, você está a pedir muito aos nossos pobres índios. Já eles fizeram alguma coisa pondo uma noção verdadeira nessa historinha.

— Que noção?

— A do jabuti botar em música a tal palavra difícil para melhor guardá-la na memória. Isso é muito certo. A toada musical ajuda a decorar.

— E que mania essa dos índios, de fazerem o jabuti músico? Ora o descrevem com uma gaita, ora com uma violinha. Será mesmo musical o jabuti?

— Coitadinho! Se há bicho que não nasceu para a música é ele. Bobagem dos índios. Fazem isso porque com a gaita ou a viola o jabuti pode lograr mais facilmente os outros bichos.

— E há mais histórias de jabuti, Nastácia?

— Há sim.
–––––––––––––
Continua… XXXV – O Jabuti e o Lagarto
–––––––––––––-
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas no. 218)


Uma Trova Nacional

Olhando o mar na vidraça
e a cadência das palmeiras,
embalo um sonho que passa,
atravessando fronteiras!
–CARMEN PIO/RS–

Uma Trova Potiguar

O que falta em Ademar
nas suas locomoções,
sobra no seu recitar
recheado de emoções...
–MARCOS MEDEIROS/RN)–

Uma Trova Premiada

2009 - Niterói/RJ
Tema : CRENÇA - M/H.

No bem-querer eu sou crente
quando o sofrer me descora...
Que importa estar no poente
se trago as crenças da aurora?
–JOSÉ VALDEZ DE C. MOURA/SP–

Uma Trova de Ademar

Eu não mais me sacrifico
pois a vida me ensinou...
Se for para o bar, eu fico;
se for para igreja, eu vou!
–ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

O livro é um mestre mudo
que fala só por sinais.
Lido uma vez, já diz tudo;
e duas, diz muito mais.
–PROF. WALDSON PINHEIRO/RN–

Simplesmente Poesia

–RITA MOURÃO/SP–
Canto Triste

Um carro de boi
passou pela minha infância,
varou meus sentimentos
e até hoje me segue com seu canto triste.
Nada mais existe.
Tudo isso virou pedra fria na estrada do ontem.
Por que só a lembrança existe?

Estrofe do Dia

Eu fico impressionado
vendo um pobre com aleijo,
tenho pena quando vejo
um animal cargueado,
as vezes até pisado
e sangrando o ferimento,
nem em lombo de jumento
eu boto carga pesada;
quem nunca ofendeu a nada
vê Deus por merecimento.
ZÉ DE CAZUZA/PB–

Soneto do Dia

–ÁLVARES DE AZEVEDO/SP–
Para Você

Pálida, á luz da lâmpada sombria,
sobre um leito de flores reclinada,
como a lua por noite embalsamada,
entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria,
pela maré das águas embalada...
Era um anjo entre nuvens de alvorada,
que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo....
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti as noites eu velei chorando,
por ti nos sonhos morrerei sorrindo!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Afinal porque A. A. de Assis e não Antonio Augusto de Assis?


A. A. de Assis nos dá esta explicação em seu livro Vida, Verso e Prosa, lançado pela EDUEM.
Aproveito o espaço para recomendar o livro: cronicas, trovas, triversos, poesias, contos, documento histórico, enfim, um livro para todos os gostos, escrito por um dos maiores escritores vivos de nossa literatura.

Vamos então à explicação:

A. A. de Assis

A poucos metros de nossa casa havia uma gráfica onde se imprimia O Fidelense ("um hebdomadário independente a serviço da coletividade"). O jornal pertencia ao deputado Gouveia de Abreu (Doutor Dó), mas quem o dirigia era o Doutor Jacy Seicas. O impressor era o Fidélis Subieta. Um dia criei coragem, escrevi um artigo e entreguei ao Subieta, dizendo: "Peça ao Doutor Jacy que dê uma olhada e veja se dá para publicar".

Eu tinha 16 anos de idade. Não falei a mais ninguém sobre bo tal escrito. No domingo seguinte, fui logo cedinho comprar o jornal... Tremi nas pernas: lá estava, ainda com aquele delicioso cheirinho de tinta, o texto que inaugurava minha vida de jornalista. Estranhei, porém, um pequeno detalhe: em vez de Antonio Augusto de Assis, como assinei no original, o nome que saiu embaixo do título foi A. A. de Assis.

Na segunda-feira perguntei ao Subieta o que acontecera. Fácil de entender: naquela época as gráficas trabalhavam com tipos móveis. Cada fonte de tipos ficava numa caixa e o tipógrafo ia catando letra por letra para compor a matéria. E havia o costume de escrever os nomes dos autores de artigos utilizando os tipos chamados "itálicos", aqueles inclinadinhos. Deu-se, todavia, que a caixa de itálicos estava desfalcada, faltando a letra "t", daí a impossibilidade de escrever tanto Antonio quanto Augusto. E foi assim que, por conta e arte desse genial tipógrafo, virei A. A. de Assis.

Animado pela publicação do artigo, procurei pessoalmente o Doutor Jacy, que generosamente me aceitou como coloaborador permanente d'O Fidelense. Fiquei todo prosa, claro. Mas surgiu um problema. Como em São Fidélis todos me conheciam pelo apelido de Gutinho, os leitores começaram a indagar quem era aquele tal A. A. de Assis. Assim que descobriram, começou a fofoca. Duvidavam que eu, tão menino ainda, pudesse escrever aquelas coisas. Havia quem dissesse que o verdadeiro autor era outro Augusto Assis, meu primo monsenhor Augusto José de Assis Maia, pároco local. Fiquei fulo da vida com aquilo. Para não deixar dúvida, publiquei no domingo seguinte um artigo falando de carnaval, rebolado, etc., e com um vocabulário bem apimentado, coisa que ninguém jamais iria atribuir a um padre. Deu certo: acabou a fofoca.

Fontes:
ASSIS, A. A. De. Vida, verso e prosa. Maringá/PR: EDUEM, 2010. p.34-35.

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 217)


Uma Trova Nacional

A lua, que nos clareia,
é diferente de quem,
recebendo luz alheia,
não ilumina ninguém!
–JOÃO FREIRE FILHO/RJ–

Uma Trova Potiguar

Nas noites de solidão...
— Lua, que embala os amores,
és, em tua mansidão,
a musa dos trovadores!
–MARA MELINNI GARCIA/RN–

Uma Trova Premiada

1986 - Belém/PA
Tema: LUA - Venc.

Em meus sonhos de criança,
desejei pescar a Lua
e pus anzóis de esperança
nas poças d’água da rua!
–DELCY CANALLES/RS–

Uma Trova de Ademar

A Lua, que a noite ronda
com o seu lindo clarão,
é a lamparina redonda
que ilumina o meu sertão!
ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

A lua serena e pura,
quem a pesquisar se afoite,
verá que é um lírio plantado
no jarro negro da noite.
–CESAR COELHO/CE–

Simplesmente Poesia

MOTE.
A Lua é uma medalha,
no peito do infinito.

GLOSA:
As aves são mensageiras
doutros galhos, doutros ninhos,
as arvores, dos passarinhos
são casas hospitaleiras,
as nuvens são as bandeiras
do firmamento bonito,
cada estrela é um granito
que lá no céu se espalha;
a lua é uma medalha
no peito do infinito.
–CANHOTINHO/PB–

Estrofe do Dia

Saio à noite a passear
como um louco em desatino,
eu Paro e fico a pensar
sem entender meu destino.
Eu me escoro na muleta
tiro do bolso a caneta
e escrevo um verso bonito;
perambulando na rua,
ouvindo os passos da lua
caminhando no infinito.
–ADEMAR MACEDO/RN–

Soneto do Dia

–RAYMUNDO DE SALLES BRASIL/BA–
Em Solidariedade à Lua

Cantei a minha última canção,
quando da madrugada a luz raiava;
em cada nota pus meu coração,
e o meu pinho, gemendo, acompanhava.

A lua já não mais se derramava
desenhando de luz a escuridão,
e o sol, de pouco em pouco, pincelava,
todos os quatro cantos da amplidão.

Tive pena da lua – coitadinha!
Tive raiva do sol – que coisa feia!
Ele deixou sem graça a pobrezinha...

Por vingar-me do rei, que a destronou,
e em solidariedade à lua cheia,
eu fui dormir enquanto ele brilhou.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

A. A. de Assis (Triversos)


1
Passa a teoria
por debaixo do arco-íris.
Vira poesia.

2
Andorinha sobe,
andorinha sobe e desce,
faz um “s” e some.

3
Dizem que a cigarra
nada faz senão cantar.
Ah, é indispensável.

4
Da folha de amora
para o lencinho da amada.
Mágico tear.

5
Estrela cadente.
Vagalumes se alvoroçam
cobiçando a vaga.

6
Se borda é prendada,
bem mais ainda se pinta.
E se pinta e borda?

7
Casal de velhinhos
na janela olhando a Lua.
Tão longe a de mel...

8
E agora, vovô?
– Agora, nas mãos dos netos,
sou que nem ioiô.

9
Assanhadas rosas.
Disputam a preferência
de um raio de sol.

10
No lombo do boi
faz-lhe um cafuné o anu.
E ele gosta: muuu...

11
Ursinha moderna.
Toda noite, após a lida,
na internet hiberna.

12
Xexéu na gaiola
para o peixinho no aquário:
– Como vai, colega?

13
No meio do pasto
um ponto de exclamação.
Último coqueiro.

14
Ante o Pão-de-Açúcar,
dá as costas a Lua ao mar.
A lei do mais doce.

15
Alô... é da Lua?...
Manda uma cheia, com flores,
para a minha amada.

16
Florzinha silvestre
no jardim do shopping-center.
Êxodo rural.

17
Do asfalto se avista
ao longe um carro de boi.
Cheinho de histórias.

18
Serás a sereia
que na lua cheia cantas?
Serei-a, serei-a.

19
Pálidas pernocas
na areia pegando cor.
Ou pescando amor?

20
Mosca na parede.
Avisem à lagartixa
que o jantar chegou.

21
Ao luar, no Éden,
primeiro jantar a dois.
Que deu no que deu.

22
Menino de sete
versus menino de oitenta.
Jogo de botão.

23
Diz o sapo à sapa:
– Coá-coaxá... coará-coaxá...
E ela a ele: – Topo.

24
Um pulo, medalha.
Milhões de cabeças boas
tão longe das loas.

25
Trenzinho da serra.
Pa... Pa-ra-ná... Pa-ra-ná....
pra Paranaguá.

26
Piupiu canta à porta
da gaiola da piupia.
Se arrepia a bela.

27
Na fila de idosos,
troca-troca de sintomas.
Quem não tem inventa.

28
Flagra na cozinha.
Um par de abelhas aos beijos
sobre o meu pudim.

29
Galinha caipira
desposa um pavão real.
Continho de fada.

30
Veja a parasita:
parece gente que a gente
acha até bonita...
---------------------
continua...
--------------------
Fonte:
ASSIS, A. A. de. Vida, verso e prosa. Maringá/PR: EDUEM, 2010.