quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A. A. de Assis (Lançamento da Revista Virtual de Trovas, n. 145, janeiro de 2012)

INESQUECÍVEIS

Eu vi o rio chorando
quando te foste banhar,
por não poder, te banhando,
dar-te um abraço e ficar...
ADELMAR TAVARES

A vida o tempo devora;
o próprio tempo não dura.
Colhe a alegria de agora,
para a saudade futura!
HELENA KOLODY

Eu... você... as confidências...
o amor que intenso cresceu...
e o resto são reticências
que a própria vida escreveu...
LUIZ OTÁVIO

Meu coração, vacilante,
ressoa em cada batida.
– Igual a um tambor distante
marcando o passo da vida.
NEWTON MEYER

Não tenho calma!... Não posso
esquecer tão de repente,
o grande amor que foi nosso
e hoje em dia é meu somente...
NYDIA IAGGI MARTINS

Meu amor, que mau pedaço
eu passo quando demoras...
Meu coração perde o passo,
atrás do passo das horas!...
WALDIR NEVES

Tornar-se um trovador conhecido não é difícil. Mas você
precisa ajudar, pelo menos divulgando as suas trovas.

BRINCANTES

Qualquer vivente se esbarra
nesta evidência que aterra:
– é no balanço da farra
que o bom farrista se ferra!
ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA – PA

Por ironia, um defeito
a manicure consome:
não consegue dar um jeito
no marido “unha-de-fome”!
ARLINDO TADEU HAGEN – MG

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– A porca... tem masculino?
– Tem, fessora... o parafuso!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA – RJ

– Perdão! Perdi a cabeça...
E a esposa assim retrucou:
– Tudo bem, não se aborreça...
Azar é de quem a achou!
JOSÉ FABIANO – MG

– Carro velho, meu amor,
dá trabalho: além de feio,
no morro, falta motor;
na ladeira... falta freio!
JOSÉ OUVERNEY – SP

Quando a mulher não sacia
sua “fome de leão”,
come na sogra  ou na tia...
boas de forno e fogão!
Mª MADALENA FERREIRA – RJ

Foi à loucura a torcida
porque a mulher do goleiro,
em gandula convertida,
dava bola ao time inteiro...
NEWTON VIEIRA – MG

Com a internet, hoje em dia,
até o maestro desanda.
A banda-larga o inebria,
vicia, e ele larga a banda...
OSVALDO REIS – PR

LÍRICAS E FILOSÓFICAS

Quanto mais rápido passa
o tempo a mim concedido,
mais grato eu sou pela graça
de cada instante vivido!
A. A. DE ASSIS – PR

Deus, demonstrando poder,
quando a mulher engravida,
transforma a dor em prazer,
na celebração da vida!
ADEMAR MACEDO – RN

Enquanto a vida se enfeita
com sorrisos e saudades,
vou preparando a colheita
das lembranças e saudades.
ALICE BRANDÃO – RS

Quando vejo uma casinha
sem nenhum luxo e de chão,
lembro a criança que eu tinha
dentro do meu coração...
AMILTON MACIEL – SP

Delírio é lira do poeta,
a rima do trovador.
É liturgia completa,
quer na alegria ou na dor.
ANDRÉA MOTTA – PR

As promessas que fizeste
nem a lua abençoou.
Tudo não passou de um teste,
pois você nunca me amou.
ÂNGELA STEFANELLI – RJ

As saudades não têm fim,
a luz do sol se apagou...
Secou a flor do jardim,
o trem da vida passou.
ARI SANTOS DE CAMPOS – SC

Do PhD ao leitor mais simples, todos
entendem a trova. E gostam dela... muito.

No trem da felicidade
vamos todos embarcar.
Aceita qualquer idade...
Nunca pare de sonhar!
ARLENE LIMA – PR

Estar perto, mas distante;
amar sem poder “amar”...
Em que trama torturante
fomos nós nos enfiar!
BRUNO PEDINA TORRES – RJ

Ante o talento me ajoelho...
E o teu talento invulgar,
tanto me serve de espelho
como me serve de altar.
CLÁUDIO DE CÁPUA – SP

Penso que assim como os trilhos
levam e trazem o trem,
o pai conduz os seus filhos
pelo caminho do bem.
CLÊNIO BORGES – RS

No dejes pasar la vida
sin flores en tu enramada,
ni lo que Dios te convida
de una bella madrugada.
CRISTINA CHÁVEZ – MÉXICO

Um coração que se isola
cava a própria solidão
e não há melhor escola
que o convívio com o irmão.
DÁGUIMA DE OLIVEIRA – MG

Espero que sempre a lua,
apesar da timidez,
se nos mostre toda nua,
toda nua, a cada vez.
DIAMANTINO FERREIRA – RJ

Foi capricho ou devaneio,
quando eu lhe disse: “Não sei”!
Orgulhoso – ele não veio;
caprichosa – eu não voltei!
DILVA DE MORAES – RJ

Dizemos que o tempo voa,
e enquanto filosofamos,
ele vive aí... à toa,
e somos nós que voamos!
DOROTHY J. MORETTI – SP

Não te rendas nunca à dor,
se o teu bem tem rumo incerto,
pois, muitas vezes, no amor,
esse longe é muito perto!
EDUARDO A. O. TOLEDO – MG

Vivo sempre a divagar,
no silêncio em que me abrigo:
– Ah que bom poder voltar,
e estar outra vez contigo!
ELIANA JIMENEZ – SC

A noite passa e o luar
permanece em mim, refém,
quando a Lua vem brilhar
no doce olhar do meu bem
ELISABETH SOUZA CRUZ – RJ

Moisés caminhou, por certo,
da forma que Deus queria.
É fácil andar  no deserto
tendo-se Deus como guia.
EVANDO MARINHO SALIM – RJ

Mar e terra acasalados,
na sacrossanta medida,
fazem sal, sêmen sagrado,
para dar sabor à vida.
FRANCISCO MACEDO – RN

Meu verso é meu companheiro
no cenário da ilusão
e o universo, imenso, inteiro,
se torna pequeno então!
GISLAINE CANALES – SC

Milhares de pessoas ouvem e leem as nossas
trovas: que bem enorme lhes fazemos nós!


Batem-me à porta, são muitas,
e fico a me questionar:
por que visitas fortuitas
se já nem sei mais amar?
HUMBERTO DEL MAESTRO – ES

Se o amor não pode conter-se,
entre nós, não há receios.
Gosto de vê-lo perder-se
na doçura dos meus seios.
IEDA LIMA – RN

Pior que não ver estrelas
sobre os caminhos que eu trilho
é olhar para o céu e vê-las,
mas não enxergar seu brilho...
IZO GOLDMAN – SP

Diz-me esta ruga esculpida,
entalhe que o tempo fez,
que a primavera da vida
só nos floresce uma vez.
JAIME PINA DA SILVEIRA – SP

Voltei. Cabisbaixa eu vinha,
com o orgulho lá no chão...
Melhor do que estar sozinha
e coberta de razão!
JEANETTE DE CNOP – PR

Na clausura da existência,
das prisões que nos impomos,
um devaneio é a essência
do que pensamos que somos!
J. B. XAVIER – SP

Para iludir solidão,
cantando falsos enredos,
abraço o meu violão
passando as dores aos dedos.
JOÃO B. X. OLIVEIRA - SP

Vivo em busca de carinho,
em castelos de ilusão...
Tanto tempo estou sozinho,
quem me aquece é a solidão.
JOSÉ FELDMAN – PR

Não culpe, nunca, o destino
pelas quedas e fracassos.
Não se censura um menino
que cai nos primeiros passos!
LISETE JOHNSON – RS

Quando o ocaso traz tristeza,
meu refúgio mais frequente
é espalhar fotos na mesa:
ver o passado... presente!
LUCÍLIA DECARLI – PR

Passa o tempo num instante
e dele jamais se esquece,
pois fica sempre o importante:
o velho amor permanece.
LUIZ CARLOS ABRITTA – MG

Se eu me for antes de ti...
levarei, dos nossos traços,
cada noite que vivi
na cortina... dos teus braços.
MARA MELINNI GARCIA – RN

Quando a noite vai embora,
a aurora vem, de mansinho,
despertando fauna e flora
na mata e no ribeirinho.
MARCOS MEDEIROS – RN

Ruínas... sonhos contidos
no penoso caminhar...
Passos trôpegos, sofridos,
à noite esperam sonhar.
Mª DA CONCEIÇÃO FAGUNDES – PR

O teu carinho constante
é  musica a me embalar
encantando o meu instante
e me fazendo te amar.
Mª LUIZA WALENDOWSKY – SC

Na tribo dos trovadores, entre irmãos te sentirás.
Quanto mais fraterno fores, melhor trovador serás! (aaa)


Se de novo o amor palpita,
o velho se faz criança...
E como a vida é bonita
no retorno da esperança!
Mª THEREZA CAVALHEIRO – SP

Contemplar o mar infindo,
entender sua poesia,
ver o sol se despedindo,
é sentir paz e alegria.
MARINA VALENTE – SP

Meu amor da mocidade
foi efêmera ilusão;
dele só resta a saudade,
nas cinzas de uma paixão.
MAURÍCIO FRIEDRICH – PR

A fé que você procura,
às vezes sem solução,
encontrará na ternura
que existe no coração.
NEIVA FERNANDES – RJ

Os teus olhos patrocinam
pensamentos variados;
todos aqueles que animam
os sonhos dos namorados.
NÍLTON MANOEL – SP

Quanto sonho não vivido
do jeito que foi sonhado!
Mas tudo tem mais sentido
quando, enfim, é conquistado.
OLGA AGULHON – PR

Nada recebe quem nega
dar amor ou coisa assim;
só colhe flores quem rega
dia e noite o seu jardim.
OLYMPIO COUTINHO – MG

Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda:
és a minha “caixa preta”.
RENATO ALVES – RJ

Sou rio, minha querida,
correndo para o seu mar,
para adoçar sua vida
com pena de me salgar.
ROBERTO ACRUCHE – RJ

Minha infância – que linguagem!
Se no céu relampejava,
eu sentia, nessa imagem,
que Deus me fotografava!
ROZA DE OLIVEIRA – PR

"Os lírios do Campo olhai",
diz a Sagrada Escritura.
Feliz aquele que cai,
mas mantém a mente pura.
ROSE MARY ASSUMPÇÃO – PR

No refúgio desmanchamos,
quando ficamos a sós,
esses nós que carregamos
no fundo de todos nós!
SELMA PATTI SPINELLI – SP

Brincando, na meninice,
uma árvore plantei...
Na solidão da velhice,
à sua sombra eu chorei...
THEREZINHA BRISOLLA – SP

Na vida eu prefiro o jogo,
não de azar, de sedução...
e, em vez de cartas, o fogo
que incendeia uma paixão.
VANDA ALVES DA SILVA – PR

Numa riqueza sem fim,
nasce a força da bondade,
como as flores do jardim
na sua simplicidade!
VIDAL IDONY STOCKLER – PR

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João Paulo Parisio (A Lua)

A Lua é uma lâmina fina, um pêndulo oblíquo imobilizado no céu, flutuando sem algum cordão que a sustente. Imagina como seria se a Lua começasse a balançar no céu, para lá e para cá, e gerasse uma brisa que lentamente empurrasse as estrelas para as bordas do firmamento. E se a Lua, como uma lâmina mesmo, balançando para lá e para cá no Abismo, começasse a descer na direção da Terra, mais e mais próxima a cada movimento inexorável, até que devastasse cidades e searas, derrubasse palácios e montanhas, abrisse na face do planeta um talho comprido que fosse aprofundando a cada nova passagem até que através dele se pudesse ver o espaço, através do qual a Terra sangraria todo o seu ar e por onde entraria o Vazio como bolhas de ar na corrente sangüínea. A Terra ficaria murcha, morreria exangue. Certamente o cadáver da Terra se soltaria da velha rota e partiria numa viagem desgovernada, como uma folha seca que cai no rio e é levada pela correnteza. No percurso a Terra poderia cair na direção de alguma Estrela e se consumir em seu calor, ou desaparecer para sempre no mistério de um Buraco Negro, ou escapar cegamente de todos os obstáculos, todas as pedras e redemoinhos, e chegar ao fim do rio, desembocar no mar.

 Tudo isso se a Lua, disfarçada por milênios como lamparina de nossas noites, inspiração dos poetas e dos amantes, anelo dos loucos e dos mares, fosse um carrasco e ao mesmo tempo seu instrumento, se a Lua Cheia fosse um olho que observa e informa o que viu aos Senhores do Universo para que eles julguem o que ouviram. E no dia em que os Senhores do Universo condenassem a Terra à morte, a Lua seria uma lâmina fatal, cimitarra impiedosa.

 Pensou nisso tudo, apesar de que jamais seria capaz de traduzir em palavras seus pensamentos, nem sequer em sua própria mente, pois aqueles pensamentos haviam brotado do nada, eram imagens, símbolos, não eram palavras organizadas em constelações, gravitando nas suas órbitas. Não imaginava como sua fantasia pareceria estranha a alguém que a escutasse e, portanto, a esqueceria. Poderia esquecê-la para sempre ou talvez num dia qualquer uma visão real ou uma outra fantasia a evocasse novamente, e ele a continuaria, como um conto, ou talvez a misturasse com outras, e deturpasse, e se confundisse, e a abandonasse novamente nas obscuridades de sua memória. Mas para imaginar aquelas fantasias precisava saber muitas coisas que as pessoas nem suspeitavam que sabia. Mas ele sabia, sabia da Terra, da Lua, do Espaço, que os Buracos Negros têm o formato de um redemoinho, que o Universo era infinito e cismava com a idéia de infinito. Sabia de tudo isso, mas não podia falar.

 O velho apareceu no umbral da porta. Ele se voltou, sorriu, e disse com dificuldade, a voz anasalada, os olhos arregalados e brilhantes:

 - A Lua é estraaanha...

 O velho sorriu sem sorrir, apenas expirou com um pouco mais de força e fez um ligeiro movimento com a cabeça para cima, nem sequer mostrando os dentes. Resmungou que entrasse, e não deu atenção às suas palavras nem à Lua, pois sabia como era simples e limitada a mente de um debilóide. Entrou, pensando nas dívidas, na carga que chegaria à mercearia na manhã seguinte, pensou utilizando-se de palavras e números, mas ao fundo piscava o velho medo da morte, de não amanhecer. Viu-o entrar, obediente como quase sempre era, aprisionado em sua mente mal desenvolvida. Havia muito o velho não lembrava da Lua, da Terra, do Infinito. Tinha pena do menino aluado.

Fonte:
Garganta da Serpente

Lino Mendes (Tempo de Natal)

Estamos em MONTARGIL e o ano de 1920 está quase a chegar ao fim. Continua a apanha da azeitona, e com a ajuda de vacas e de bois tenta-se acabar a sementeira. Embelga-se e semeia-se aproveitando bem o tempo--- já que é neste mês que existe o dia mais pequeno(em que acontecem os dias mais pequenos).

Ou porque chove ou porque está frio, a azeitona está difícil de apanhar, tempo que aliás já se esperava, pois que andasse lá por onde andasse o mês de Natal (do frio) cá havia de chegar.

Antes da Missa do Galo, no Largo da Igreja começa a arder um enorme madeiro. Enquanto do campo (dos arredores da vila) vem muita gente, os homens trazendo archotes de gamão para alumiar o caminho.

As pessoas de mais idade vestem o fato domingueiro e de festa para ir à missa do Galo, em especial as mulheres que põem o xale preto e o lenço na cabeça, com as de mais idade, já avós, usando capa preta que chega por vezes aos pés e ainda touca de veludo igualmente preta.
 
A ementa tradicional na quadra natalícia integrava um prato hoje ainda muito apetecido— miolos de porco. Dizia-se até, que quem nessa quadra não comesse miolos de porco não festejava o Natal. Isto, ao almoço, porque ao jantar havia chibo e/ou galinha corada.

Ainda quanto aos miolos de porco, essa ementa só era possível se a matança do porco tivesse sido feita duas ou três semanas antes. Que quase não havia “casa” que não engordasse o seu porquito para durante o ano ter na salgadeira carne que durasse. Enquanto outro engordava no “rodeio”

Entretanto, e com os tempos sempre se mudam alguns hábitos,e a cozinheira Fernanda Inês diz-me que no Natal sempre se fizeram os pasteis, as filhoses e o arroz doce. E depois cada um fazia aquilo que tinha. Se tinha uns coelhitos fazia um coelho, se tinha um borreguinho matava-o e se não tinha podia comprar um bocadinho, fazia aquilo que tinha na capoeira. Mas a ceia de Natal era sempre uma couve de azeite e vinagre.
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Lino Mendes é de Montargil, em Portugal

Fontes:
Texto enviado pelo autor
Imagem = Montargil - http://www.montargil.com

Ialmar Pio Schneider (Livro de Sonetos II)

SONETO 4243
POETA

 Ressurge a primavera fulgurando,
 e os pássaros soluçam pelos ares.
 São novos sonhos, cálidos cantares,
 são novas ilusões, um novo bando...

 Poeta, se teus cânticos calares,
 oh! com tristeza ficarás cantando
 nos gorjeios das aves, pelo brando
 vento que passa pelos verdes mares !...

 Tua ausência será na primavera,
 quando disseste um dia: - Ah! quem me dera,
 morrer numa tardinha rubra e calma

 e entrar cantando lá no paraíso,
 meus cantos, pobres cantos sem sorriso,
 que acalentam na terra as mágoas d alma !...

SONETO 15362
SONETO HENDECASSÍLABO


Não me importa que velha sejas agora,
 nem que tenhas perdido todo teu viço,
 meu coração, ainda, meu bem, te adora,
 pois foste em meu triste viver, um feitiço !...

 Mal nos conhecemos ontem, e por isso,
 faltou aquele lampejo que vigora,
 para que um amor assuma o compromisso,
 de ver se concretizar a qualquer hora...

 Um dia nos encontramos e fizemos
 de conta que nunca nos tínhamos visto,
 mas eu sei que nós dois, no entanto, sofremos

 a fim de conter o que nos ia n´alma...
 Tudo é passado... Perdoa-me se insisto
 em não te olvidar... e de perder a calma !

SONETO 16061:
SONETO HEXASSÍLABO


 Por quanto tempo ainda
 há de permanecer,
 aquela luz infinda
 que me fez renascer?

 Eu sei que vou viver,
 lembrando a jovem linda
 do meu alvorecer,
 enquanto o amor não finda...

 É por esse motivo
 que poetizando vivo,
 quer seja noite ou dia;

 e se enfrento a tristeza,
 poderei, com certeza,
 encontrar alegria…

SONETO 15637:
SONETO ENEASSILÁBICO

Apesar de só, eu me contenho
 para não turvar o dia claro;
 pois, há muito tempo meu empenho,
 é conseguir na luz, amparo.

 Sei o quanto ser feliz é raro
 e por isto humildemente venho
 pedir a Deus o clarão de um faro
 que me conduza a um bom desempenho...

 Amei e fui amado e por isso
 acredito no amor, no feitiço
 que representa esta Divindade...

 Vou morrer, um dia, não sei quando,
 mas minh´alma vai viver sonhando,
 que só no sonho há felicidade !

SONETO 15982:
SONETO EM REDONDILHA MENOR (5 sílabas poéticas)


 Se tens esperança,
 procures alguém
 que a tenha também
 pra tua confiança;

 porque não convém
 entrar numa dança
 na qual não se alcança
 algum querer bem.

 Assim a existência
 com tua paciência,
 irás desfrutar

 e por muitos anos,
 sem ter desenganos,
 poderás amar…

SONETO 15626
SONETO TRISSILÁBICO


Porventura
 conseguiste
 vida dura,
 sem ser triste?

 Se perdura
 e persiste,
 a ventura
 já existe...

 Vai em frente
 bem consciente
 do sucesso,

 pois, terás
 muita paz
 e progresso…

SONETO 15614
SONETO DISSILÁBICO


Quisera
 te amar;
 na espera
 sonhar...

 Um lar,
 quem dera,
 te dar,
 pantera !

 Depois
 viver
 feliz

 os dois
 e ter
 que eu quis !

SONETO 7993
SONETO À FILHA


 Eu canto o amor à filha que é inocente
 e floresce no lar junto dos pais;
 estudiosa, querida, inteligente,
 guardo-a no coração cada vez mais...

 Quantas vezes perdida a fé, descrente,
 passei por horas duras, infernais,
 mas um carinho dela e já contente
 esquecia os tormentos tão cruciais...

 Em nossa casa simples e modesta
 representas um rútilo tesouro
 que nos alegra e que tanto brilha;

 e agradecendo a Deus só me resta
 dizer que tens um coração de ouro
 e que és o alicerce da família…

SONETO 7861
SONETO A UMA FADA


 Fazes de conta que jamais me viste
 e eu também finjo que não te conheço;
 nossa união terminou sem ter começo
 e eu continuo, como sempre, triste.

 O que tu prometias não cumpriste;
 mas esquece-me, então, pois eu te esqueço;
 isto conosco foi mais um tropeço;
 vamos saber qual de nós dois desiste.

 Quero descrer de ti, não mais te amar;
 porém, tudo me leva à tua presença
 e por nada te posso condenar.

 Foste uma Fada que surgiu voando
 e não trouxeste, enfim, a recompensa
 ao poeta que vive te adorando…

SONETO 7441
À SOMBRA DO COQUEIRO


 À sombra de um coqueiro eu fico a meditar,
 sentindo um doce aroma espalhado no ar,
 e as águas a cantar de uma sonora fonte,
 e o sol a se esconder ao longe no horizonte,

 e os sinos a planger em dobres doloridos,
 e as aves a soltar seus últimos gemidos,
 e a brisa a balançar os galhos do arvoredo,
 e o drama desta vida ao fim quase no enredo,

 e as horas a fugir bem como as luzes frouxas
 que já vão se apagando atrás daquelas rochas,
 produzem dentro em mim uma poesia solene

 e eu sinto em toda parte um sentimento infrene
 de amar-te para sempre enquanto persistir
 o sonho mais ardente anunciando o porvir...

SONETO 6708
PASSEIO MATINAL


 Quando o sol faz menção de aparecer
 ao longe no horizonte cor de brasa,
 eu saio do meu rancho, minha casa
 e me ponho no pingo pra correr.

 Nem que a geada estiver a embranquecer
 toda a campina branca como a asa
 da garça solitária, nada atrasa
 meu madrugar que é pra mim um dever.

 Levanto nem que chova canivete
 e parto pelo campo no meu flete,
 fazendo meu passeio matinal;

 que o prazer do gaúcho é respirar,
 profundamente, de manhã, o ar
 deste forte minuano hibernal.

SONETO 16049

Certa vez quis compor os versos nobres
 que me trouxessem, afinal, a glória
 numa epopeia que transforma a história,
 mas simples como sou fiz cantos pobres...

 À tardinha, escutando os tristes dobres
 dos sinos que lembrando a trajetória
 de quem lutou e sem obter vitória,
 serei apenas eu e meus desdobres.

 Vejo a paisagem, ora ensolarada,
 as árvores floridas da estação
 primaveril em pleno curso ainda...

 e permaneço como se mais nada
 ne interessasse neste instante vão,
 mas tão brilhante de uma luz infinda…

SONETO 16032

Dediquei-me à poesia e fiz meus versos
 p´ra amenizar tristezas e tormentos,
 pois, hoje, ao vê-los por aí dispersos,
 me recordam amores ciumentos...

 Mas, se não foram, ao meu ver, perversos,
 representam os nobres sentimentos,
 não impossíveis nem também adversos,
 apesar de sofridos e violentos.

 Outrossim, me fizeram bem e mal,
 porquanto, no contexto da existência,
 vamos formando nosso cabedal...

 E tudo que tivermos computado,
 permanece no livro da existência,
 como um fiel registro do passado…

SONETO 15992

Procurei um soneto que tivesse
 algo de amor ao coração que sofre,
 e deparei-me na primeira estrofe
 com a rima perfeita que merece.

 Mas não faz mal, o texto é como a prece
 que já rezei outrora a Santo Onofre,
 cujo segredo guardo no meu cofre
 e divulgá-lo agora não carece.

 A vida é feita de altos e de baixos
 e o sofrimento dos criados guaxos
 permanece gravado em suas almas.

 Mas Deus que tudo vê lá das Alturas,
 estende Sua bênção às criaturas
 pra que vivam na paz e sejam calmas.

SONETO 15956

Sonetos, trovas, versos e canções,
 Que admiro ler de tardezinha, quando
 O sol vai no horizonte declinando
 E as horas nos envolvem de emoções...

 Se permaneço em sonhos meditando,
 Tudo vem me lembrar desilusões,
 Que ficaram das cálidas paixões
 De um passado sentido e quase brando.

 Se naveguei por mares de loucura,
 amei demais alguém que me feriu
 com a lança desleal da falsidade...

 Desejo sepultar essa amargura
 e seguir meu caminho como o rio
 que corre livremente... Ah! que saudade !

SONETO 15938

Os versos que escrevi me trazem, hoje,
 à lembrança, aventuras que sonhei,
 mas vivo a presenciar que o tempo foge
 e aquelas metas nunca realizei...

 Posso dizer que alguém eu muito amei,
 e sem usar a culta metagoge,
 deva esquecê-la... como poderei?
 para que deste carma me despoje?!

 Mas as minhas poesias ´stão aí
 e formam os momentos que vivi,
 sempre cantando tristes madrigais...

 Se algumas penas sofro nesta vida,
 são o produto da missão cumprida,
 procurando no amor meus ideais !

SONETO 15712

Por que teria que surgir agora
 este amor impossível, malsinado,
 se meu coração hoje já nem chora,
 de tanto que ficou assaz magoado?!

 Um dia alguém partiu, foi embora;
 era donzela e muito a havia amado,
 culpa minha talvez, pela demora
 de ter àquele amor me declarado...

 Devia ser ridículo e enfrentar
 a todos na maior serenidade
 de alguém que não tem medo de sonhar...

 E penso que fui tímido demais,
 próprio do pensamento nessa idade,
 que infelizmente não retorna mais !
Fonte:
Sonetos enviados pelo autor
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=44

Jorge Luis Borges (Funes, o Memorioso)

Recordo-o (não tenho o direito de pronunciar esse verbo sagrado, apenas um homem na terra teve o direito e tal homem está morto) com uma obscura passiflórea na mão, vendo-a como ninguém jamais a vira, ainda que a contemplasse do crepúsculo do dia até o da noite, uma vida inteira. Recordo-o, o rosto taciturno e indianizado e singularmente remoto, por trás do cigarro. Recordo (creio) suas mãos delicadas de trançador. Recordo próximo dessas mãos um mate, com as armas da Banda Oriental, recordo na janela da casa uma esteira amarela, com uma vaga paisagem lacustre. Recordo claramente a sua voz; a voz pausada, ressentida e nasal de orillero antigo, sem os assobios italianos de agora. Mais de três vezes não o vi; a última, em 1887... Parece-me muito feliz o projeto de que todos aqueles que o conheceram escrevam sobre ele; meu testemunho será por certo o mais breve e sem dúvida o mais pobre, porém não o menos imparcial do volume que vós editareis. A minha deplorável condição de argentino impedir-me-á de incorrer no ditirambo - gênero obrigatório no Uruguai; quando o tema é um uruguaio. Literato, cajetilla, porteño. Funes não disse essas palavras injuriosas, mas de um modo suficiente me consta que eu representava para ele tais desventuras. Pedro Leandro Ipuche escreveu que Funes era um precursor dos super-homens; "Um Zaratustra cimarrón e vernáculo"; não o discuto, mas não se deve esquecer que era também natural de Fray Bentos, com certas limitações incuráveis.

A minha primeira lembrança de Funes é muito clara. Vejo-o em um entardecer de Março ou Fevereiro do ano de 1884. Meu pai, nesse ano, levara-me a veranear em Fray Bentos. Voltava com meu primo Bernardo Haedo da estância de San Francisco. Voltávamos cantando, a cavalo, e essa não era a única circunstância da minha felicidade. Após um dia abafado, uma enorme tempestade cor cinza escura havia escondido o céu. Alentava-me o vento Sul, já enlouqueciam-se as árvores; eu tinha o temor (a esperança) de que nos surpreenderia em um descampado a água elemental. Apostamos uma espécie de corrida com a tempestade. Entramos em um desfiladeiro que se aprofundava entre duas veredas altíssimas de tijolo. Escurecera repentinamente; ouvi passos rápidos e quase secretos no alto; levantei os olhos e vi um rapaz que corria pela vereda estreita e esburacada como que por uma parede estreita e esburacada. Recordo a bombacha, as alpargatas, recordo o cigarro no rosto duro, contra a densa nuvem já sem limites. Bernardo gritou-lhe imprevisivelmente: Que horas são, Ireneo? Sem consultar o céu, sem deter-se, o outro respondeu: Faltam quatro minutos para as oito, jovem Bernardo Juan Francisco. A voz era aguda, zombeteira.

Sou tão distraído que o diálogo a que acabo de me referir não teria chamado a minha atenção se não o tivesse enfatizado o meu primo, a quem estimulavam (creio) certo orgulho local, e o desejo de mostrar-se indiferente à réplica tripartite do outro.

Disse-me que o rapaz do desfiladeiro era um tal Ireneo Funes, conhecido por algumas peculiaridades como a de não se dar com ninguém e a de saber sempre a hora, como um relógio. Complementou dizendo que era filho de uma passadeira do povo, Maria Clementina Funes, e que alguns diziam que seu pai era um médico de saladeiro, um inglês O'Connor, e outros um domador ou rastreador do departamento de Salto. Vivia com a sua mãe, na curva da quinta dos Laureles.

Nos anos de 1885 e 1886 veraneamos na cidade de Montevideo. Em 1887 voltei a Fray Bentos. Perguntei, como é natural, por todos os conhecidos e, finalmente, pelo "cronométrico Funes". Responderam-me que um redomão o havia derrubado na estância de San Francisco, e que havia se tornado paralítico, sem esperança. Recordo a sensação de incômoda magia que a notícia despertou-me: a única vez que eu o vi, vínhamos a cavalo de São Francisco e ele andava em um lugar alto; o fato, na boca do meu primo Bernardo, tinha muito de sonho elaborado com elementos anteriores. Disseram-me que não se movia da cama, os olhos repousados na figueira do fundo ou em uma teia de aranha. Ao entardecer, permitia que o levassem para perto da janela. Levava a arrogância ao ponto de simular que era benéfico o golpe que o havia fulminado... Duas vezes o vi atrás da relha, que toscamente enfatizava a sua condição de eterno prisioneiro; uma, imóvel, com os olhos cerrados; outra, imóvel também, absorto na contemplação de um aromático galho de santonina.

Não sem um certo orgulho havia iniciado naquele tempo o estudo metódico do latim. A minha mala incluía o De viris illustribus de Lhamond, o Thesaurus de Quicherat, os comentários de Júlio César e um volume ímpar da Naturalis historia de Plínio, que excedia (e continua excedendo) as minhas modestas virtudes de latinista. Tudo se propaga em um povoado; Ireneo, em seu rancho das orillas, não tardou em enteirar-se da chegada desses livros anômalos. Dirigiu-me uma carta florida e cerimoniosa, na qual recordava no encontro, desditosamente fugaz, "do dia 7 de Fevereiro de 1884", ponderava os gloriosos serviços que Don Gregorio Haedo, meu tio, falecido nesse mesmo ano, "havia prestado às duas pátrias na valorosa jornada de Ituzaingó", e me solicitava o empréstimo de qualquer dos volumes, acompanhado de um dicionário "para a boa intelecção do texto original, pois todavia ignoro o latim". Prometia devolvê-los em bom estado, quase imediatamente. A letra era perfeita, muito perfilada; a ortografia, do tipo que Andrés Bello preconizou: i por y, j por g. A princípio, suspeitei naturalmente tratar-se de uma zombaria. Meus primos asseguraram que não, que eram coisas de Ireneo. Não sabia se atribuía ao atrevimento, à ignorância ou à estupidez a idéia de que o árduo latim não requeresse mais instrumento do que um dicionário; para desencorajá-lo completamente enviei-lhe o Gradus ad parnassum de Quicherat e a obra de Plínio.

No dia 14 de Fevereiro telegrafaram-me de Buenos Aires que voltasse imediatamente, pois meu pai não estava "nada bem". Deus me perdôe; o prestígio de ser o destinatário de um telegrama urgente, o desejo de comunicar a toda Fray Bentos a contradição entre a forma negativa da notícia e o peremptório advérbio, a tentação de dramatizar a minha dor, fingindo um estoicismo viril, talvez distraíram-me de toda a possibilidade de dor. Ao fazer a mala, notei que me faltavam o Gradus e o primeiro tomo da Naturalis historia. O "Saturno" sarpava no dia seguinte, pela manhã; essa noite, depois da janta, dirigi-me à casa de Funes. Assombrou-me que a noite fora não menos pesada que o dia.

No humilde rancho, a mãe de Funes recebeu-me.

Disse-me que Ireneo estava no quarto dos fundos e que não me estranhasse encontrá-lo às escuras, pois Ireneo preferia passar as horas mortas sem acender a vela. Atrevessei o pátio de lajota, o pequeno corredor; cheguei ao segundo pátio. Havia uma parreira; a escuridão pareceu-me total. Ouvi prontamente a voz alta e zombeteira de Ireneo. Essa voz falava em latim; essa voz (que vinha das trevas) articulava com moroso deleite um discurso, ou prece, ou encantamento. Ressoavam as sílabas romanas no pátio de terra; o meu temor as tomava por indecifráveis, intermináveis; depois, no enorme diálogo dessa noite, soube que formavam o primeiro parágrafo do 24º capítulo do 7º livro da Naturalis historia. O tema desse capítulo é a memória: as últimas palavras foram ut nihil non iisdem verbis redderetur auditum.

Sem a menor mudança de voz, Ireneo disse-me o que se passara. Estava na cama, funmando. Parece-me que não vi o seu rosto até a aurora; creio lembrar-me da brasa momentânea do cigarro. O quarto exalava um vago odor de umidade. Sentei-me, repeti a história do telegrama e da enfermidade de meu pai.

Chego, agora, ao ponto mais difícil do meu relato. Este (é bem verdade que já o sabe o leitor) não tem outro argumento senão esse diálogo de há já meio século. Não tratarei de reproduzir as suas palavras, irrecuperáveis agora. Prefiro resumir com veracidade as muitas coisas que me disse Ireneo. O estilo indireto é remoto e débil; eu sei que sacrifico a eficácia do meu relato; que os meus leitores imaginem os períodos entrecortados que me abrumaram essa noite.

Ireneo começou por enumerar, em latim e espanhol, os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis historia: Ciro, rei dos persas, que sabia chamar pelo nome todos os soldados de seus exércitos; Metríadates e Eupator, que administrava a justiça dos 22 idiomas de seu império; Simónides, inventor da mnemotecnia; Metrodoro, que professava a arte de repetir com fidelidade o escutado de uma só vez. Com evidente boa fé maravilhou-se de que tais casos maravilharam. Disse-me que antes daquela tarde chuvosa em que o azulego o derrubou, ele havia sido o que são todos os cristãos; um cego, um surdo, um tolo, um desmemoriado. (Tratei de recordar-lhe a percepção exata do tempo, a sua memória de nomes próprios; não me fez caso.) Dezenove anos havia vivido como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando o recobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as memórias mais antigas e mais triviais. Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato pouco o interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora a sua percepção e sua memória eram infalíveis.

Num rápido olhar, nós percebemos três taças em uma mesa; Funes, todos os brotos e cachos e frutas que se encontravam em uma parreira. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer de trinta de abril de 1882 e podia compará-los na lembrança às dobras de um livro em pasta espanhola que só havia olhado uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no Rio Negro na véspera da ação de Quebrado. Essas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada a sensações musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os entresonhos. Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro, não havia jamais duvidado, mas cada reconstrução havia requerido um dia inteiro. Disse-me: Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como a vossa vigília. E também, até a aurora; Minha memória, senhor, é como depósito de lixo. Uma circunferência em um quadro-negro, um triângulo retângulo; um losango, são formas que podemos intuir plenamente; o mesmo se passava a Ireneo com as tempestuosas crinas de um potro, com uma ponta de gado em um coxilha, com o fogo mutante e com a cinza inumerável, com as muitas faces de um morto em um grande velório. Não sei quantas estrelas via no céu.

Essas coisas me disse; nem então nem depois coloquei-as em dúvida. Naquele tempo não havia cinematógrafos nem fonógrafos; é, no entanto, verossímil e até incrível que ninguém fizera um experimento com Funes. O cérto é que vivemos postergando todo o postergável; talvez todos saibamos pronfundamente que somos imortais e que mais cedo ou mais tarde, todo homem fará todas as coisas e saberá tudo.

A voz de Funes, vinda da escuridão, seguia falando.

Disse-me que em 1886 havia elaborado um sistema original de numeração e que em muito poucos dias havia ultrapassado vinte e quatro mil. Não o havia escrito, porque o pensado uma só vez já não podia desvanecer-lhe. Seu primeiro estímulo, creio, foi o descontentamento de que os trinta e três uruguaios requeressem dois signos e três palavras, em lugar de uma só palavra e um só signo. Aplicou logo esse desparatado princípio aos outros números. Em lugar de sete mil e treze, dizia (por exemplo) Máximo Pérez; em lugar de sete mil e catorze, A Ferrovia; outros números eram Luis Melián Lafinur, Olivar, enxofre, os rústicos, a baleia, o gás, a caldeira, Napoleão, Agustín de Vedia. Em lugar de quinhentos, dizia nove. Cada palavra tinha um signo particular, uma espécie de marca; as últimas eram muito complicadas... Eu tratei de explicar-lhe que essa rapsódia de vozes desconexas era precisamente o contrário de um sistema de numeração. Eu lhe observei que dizer 365 era dizer três centenas, seis dezenas, cinco unidades; análise que não existe nos "números". O Negro Timoteo a manta de carne. Funes não me entendeu ou não quis me entender.

Locke, no século XVII, postulou (ou reprovou) um idioma impossível no qual cada coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio; Funes projetou alguma vez um idioma análogo, mas o desejou por parecer-lhe demasiado geral, demasiado ambígüo. De fato, Funes não apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado. Resolveu reduzir cada uma de suas jornadas pretéritas a umas setenta mil lembranças, que definiria logo por cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência de que a tarefa era interminável, a consciência de que era inútil. Pensou que na hora da morte não havia acabo ainda de classificar todas as lembranças da infância.

Os dois projetos que foi indicado (um vocabulário infinito para a série natural dos números, um inútil catálogo mental de todas as imagens da lembrança) são insensatos, mas revelam certa balbuciante grandeza. Nos deixam vislumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama, na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho não pavimentado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente.

Havia aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.

A receosa claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra.

Então vi a face da voz que toda a noite havia falado. Ireneo tinha dezenove anos; havia nascido em 1868; pareceu-me tão monumental como o bronze, mais antigo que o Egito, anterior às profecias e às pirâmides. Pensei que cada uma das minhas palavras (que cada um dos meus gestos) perduraria em sua implacável memória; entorpeceu-me o temor de multiplicar trejeitos inúteis.

Ireneo Funes morreu em 1889, de uma congestão pulmonar.

Fonte:
Pequena Antologia para se Ler Jorge Luis Borges. Digital Source.

Murilo Rubiao (Por que Escrevo? Como Escrevo?)

Por que escrevo?

"Em O pirotécnico eu digo que escrevo por maldições, porque não há outra maneira. Passei quatro anos na Espanha e disse que não ia escrever mais, porque já tinha escrito dois livros e decidi que ia ler, que era melhor. Mas resisti só três anos; no quarto comecei a escrever novamente. Não está em mim. Talvez no início eu procurasse a literatura, hoje eu verifico que fui mesmo levado e não havia outra maneira. Se nascesse novamente, não escaparia da maldição. Às vezes, fico bastante tempo sem escrever, mas continuo sempre com o pensamento voltado para a literatura, estou sempre pensando em novos contos ou voltando aos antigos e, mesmo que não esteja escrevendo, estou permanentemente ligado à criação. Da criação não consigo escapar".

Como escrevo?

"O conto nasce sem um acontecimento. Nos primeiros tempos, veio principalmente de leituras. Às vezes, a leitura de um escritor que me entusiasmou, certamente, daria material para outro trabalho meu. Às vezes, de maneira aparentemente espontânea, surgia um tema. Meu processo, depois do amadurecimento (quando eu era jovem, escrevia imediatamente um conto), foi um trabalho de reelaboração. Mais tarde, vinha a idéia, fazia as anotações, trabalhava um pouco, fazia um primeiro rascunho e deixava na gaveta. O meu livro O convidado foi escrito 26 anos antes de ser publicado. Se o tema resistia a uma segunda investida, eu continuava a trabalhar; se mesmo com uma segunda investida, o resultado não era bom, eu deixava dormir uns tempos e, depois, às vezes, eu ainda jogava fora. Não gosto de escrever a frio; as emoções do momento, geralmente, não são boas".

Fonte:
RICCIARDI, Giovanni. Auto-retratos. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

Adélia Prado (Rodando)

Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato!

Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro.

Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia.

Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia.

Concluiu sonolenta, o mundo está certo.

Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições.

Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta.

Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada.

Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.

 Fonte:
Adélia Prado. Filandras. RJ: Record, 2001

Baú de Trovas (Esperança)

Na vida tudo se alcança,
quando a Esperança se tem!...
Porém se morre a Esperança,
a vida morre também.
A..B. LOPES RIBEIRO - MG

Esperança - voam aves...
Galhos, cascas flutuando...
Colombo comanda as naves
cheias de nautas cantando.
ADALBERTO DUTRA DE RESENDE - PR

Quanta vez em tristes rotas
tombei sem me ter queixado
porque nas minhas derrotas
tive a Esperança ao meu lado.
AGMAR MURGEL DUTRA - RJ

No verdor da mocidade,
 quanta esperança entretive!
 Agora tenho saudade
 das esperanças que tive!
 ALFREDO DE CASTRO -  MG

A esperança é voz do Além
  que nesta vida nos guia.
Sem este amparo ninguém
às mágoas sobrevivia.
ANA ROLÃO PRETO M. ABANO - ANGOLA

Mãe que traz uma criança
nas entranhas do seu ser,
carrega a própria esperança
no filho que vai nascer.
ANIS MURAD - RJ

Há muita gente na vida
que a felicidade alcança,
não por ter sorte florida,
mas por viver de Esperança!
ANTONIETA BORGES ALVES - SP

Pensando, na tarde calma,
 logo me ocorre à lembrança
 que a própria vida tem alma,
 e a alma da vida é a esperança!
 APARÍCIO FERNANDES - RJ

A Esperança se revela
 em cousa bem natural:
 um sapato na janela
 numa noite de Natal!
 ARCHIMINO LAPAGESSE - RJ

Desde o tempo de criança
- de ingênua colegial -
fiz de ti minha esperança
e só tenho esse fanal.
ARIETE REGINA DE PAULA FERNANDES - RJ

Por que é verdade a esperança?...   
Se todo o mundo soubesse...
- É que, por mais que se espere,
ela nunca amadurece...       
PE. BELCHIOR D'ATHAYDE - BA

Que não seja a tua esmola,
vazia de coração;
a esperança mais consola
do que um pedaço de pão.
CÉLIA CAVALCANTE - RJ

Há muito mais esperança,
 segundo o meu evangelho,
 numa lágrima de criança
 que num sorriso de velho.
 COLBERT RANGEL COELHO -  RJ

Entre o meu pai - já velhinho,
 e o meu filho - uma criança,
 vejo estender-se o caminho
 por onde passa a esperança.
 DENANCY MELLO ANOMAL – RJ

Esperança - chama acesa
no coração a brilhar.
quando ela morrer, a tristeza
vem tomar o seu lugar.
DINARTE BARBOSA ARMOND - MG

A esperança é como um sopro
 de vida, dado por Deus.
 É o dia, depois da noite,
 é a volta, depois do adeus.
 EDGAR BARCELOS CERQUEIRA - RJ

Todos nós temos na vida,
quer seja agitada ou mansa,
a doce, a terna guarida,
onde se abriga a esperança!
EDNA DE CASTRO - MG

A dor de tua partida,
que não sai da lembrança,
já me levou mais que a vida:
levou-me toda esperança!
FRAZÃO TEIXEIRA – RJ

Esperança - bem que enleva
nossa vida, no presente;
- um raio de luz na treva
  do incerto amanhã da gente.
GERALDO PIMENTA DE MORAES - MG

Ante a inclemência dos fados
da vida em cada revés...
Consolo dos desgraçados!
- Esperança é o que tu és!...
HONÓRIO SANTANA - BA

Com mágoa de toda a sorte,
se a velhice nos alcança,
crendo que há vida na morte,
temos na morte, Esperança.
JOÃO BATISTA DE AZEVEDO - MG

Esperança - céu nublado
 no Nordeste, os bois ao léu;
 o sertanejo ajoelhado,
 de mãos postas para o céu...
 JORGE MURAD  - RJ

Neste mundo que nos cansa
 tanta maldade se vê,
 que a gente tem esperança
 mas já nem sabe de quê...
 JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO - RJ

Esperança e, simplesmente
um sentimento perjuro:
são mentiras no presente...       
desenganos no futuro...
LECTÍCIA PIRES RANGEL COELHO - RJ

Quando a ventura está morta,
deixando a dor como herança,
nossa alma se reconforta,
buscando a luz da esperança!
LEONARDO HENKE - PR

Mesmo sendo uma quimera
 a Esperança anima e acalma,
 pois ela, enquanto se espera,
 enche de rosas nossa alma!...
 LINCOLN DE SOUZA - RJ

Esperança é aquela estrela
de verde luz envolvida,
a cintilar, pura e bela,
no céu escuro da vida.
LÚCIA LOBO FADIGAS - RJ

Numa era de baixeza,
num mundo de podridão,        
a esperança  é a tocha acesa
que trago no coração.
 LUIZ EVANDRO INOCÊNCIO - RJ

A Esperança corre, voa,
mas deixa por onde passa,
uma impressão suave e boa:
de paz, de amor e de graça.
MANOELITA AMORIM MEYER - MG

Quando um bem está perdido
outro nos vem consolar -
Esta esperança, querido,
Deus não me pode negar.
MARIA CARMEM SAUER BATISTA - RJ

Culpada de minha dor,
 foi a esperança, Maria.
 Leu nos teus olhos - amor
 em vez de ler simpatia.
 MARIA JOSÉ BARCELLOS CERQUEIRA - RJ

De flores tão enfeitada,
loiros cabelos em trança
Neste esquife azul , deitada,
vai toda a minha Esperança.
(MARIA JOSÉ FORTES BRAGA - MG

Esperança, isto se chama
e a todo instante acontece:
uma carta... um telegrama...
um meigo olhar... uma prece...
MAURO BARBOSA ARMOND - MG

Com o verde da natureza
e o sorriso da criança
Deus coloriu a tristeza
pondo no mundo a esperança.
NATAL MACHADO - DF

Podes perder mocidade,
amor, ventura, abastança,
nada perdes, em verdade,
se te ficar a esperança.
OCTACÍLIO AZEVEDO - CE

Esperança - nordestino                
numa cerca debruçado,
contemplando, sol a pino,
o verdejante roçado.
OLDEMAR ANDRADE - RJ

No porto dos meus anseios
 esperanças são navios,
 que de manhã partem cheios
 e à tarde voltam vazios...
 ORLANDO BRITO – SP

Quando minha alma sentida
nesta vida nada alcança,
inda me resta na vida
- graças a Deus ! - a esperança!
RODOLFO COELHO CAVALCANTI - BA

Quem quiser ver a Esperança
olha uma noiva no altar,
fite um rosto de criança,
repare uma mãe rezar!
SEVERINO UCHOA - SE

No tédio de minha vida
de emoções vazia e nua,
só me torna comovida
a Esperança de ser tua...
VERA MILWARD DE CARVALHO - SP

Ai, do pobre, sem carinhos,
cuja dor se vê na face,           
se no meio dos espinhos,    
a esperança não brilhasse...
VIRGILIO GUERREIRO - SP

N'alma, a esperança reflete
 uma risonha mentira,
 pois é o que a vida promete
 em troca do que nos tira...
 WALTER WAENY JUNIOR - SP

A fonte da minha vida
- o meu  sonhar de criança -
não ficou toda perdida…
- Vive um pouco na Esperança...
 ZALKIND PIATIGORSKY - RJ

Fonte:
Organização em ordem alfabética dos trovadores por José Feldman. Trovas selecionadas de 100 Trovas  sobre a  “Esperança”, dos I Jogos Florais de Pouso Alegre. Disponível no site de J. G. de Araújo Jorge. http://www.jgaraujo.com.br/trovadores/11_trovas_sobre_esperanca.htm

Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cara De Coruja –VIII – A Varinha de Condão

Durante todo aquele tempo Pedrinho, Aladim e o Gato de Botas ficaram de parte, conversando sobre valentias. Aladim contava as mil façanhas de sua lâmpada maravilhosa. Não querendo ficar atrás, Pedrinho contou as proezas do seu famoso bodoque. Por fim chegaram a brigar.

— Pois apareça aqui um dia — disse Pedrinho — para vermos quem pode mais, você com sua lâmpada ou eu com o meu bodoque.

— Aposto na minha lâmpada! — disse Aladim.

— E eu aposto no meu bodoque! — disse Pedrinho.

O Gato de Botas interveio.

— Eu serei o juiz e em seguida desafiarei a ambos. Quero ver o que vale mais, se esse bodoque e essa lâmpada ou as minhas botas de sete léguas!...

Enquanto discutiam e marcavam a data do pega, um acidente muito grave aconteceu na sala. O pobre Visconde dormia em cima do binóculo, tão bem dormido que, de repente, plaft!... caiu lá do alto um grande tombo no chão. Caiu e ficou desacordado. As princesas correram a acudi-lo com água e esfregações pelo corpo. Mas como o pobre sábio não voltasse a si, foi uma consternação geral.

— O melhor é virar o Visconde nalguma coisa – sugeriu Emília dirigindo-se a Cinderela. — Dê-lhe uma varada com a varinha de condão, princesa!

Cinderela, achando boa a idéia, assim fez. Mas antes quis saber no que havia de virar o Visconde. Narizinho achava que deviam virá-lo num grande mágico de chapéu de cartucho. Rosa Vermelha preferiu que o virassem em lobo. Venceu afinal a opinião da Emília, que era a mais prática.

— Tia Nastácia anda precisando dum pilãozinho de socar sal. Boa ocasião para virar o Visconde em pilão! Ao menos fica servindo para alguma coisa.

Aprovada a idéia, a princesa da varinha bateu nele, dizendo:

— Vira que vira, vira virando, vira pilão!

Imediatamente o Visconde virou num pilãozinho novo, exatamente como tia Nastácia queria. A princípio a negra ficou assombrada. Depois disse:

— Mas eu não tenho coragem de socar sal nesse pilãozinho!

Pego a imaginar que já foi o Visconde e morro de dó. Em todo caso, fico muito agradecida a dona Cinderela pelo lindo presente.

E guardou o pilãozinho numa prateleira, resmungando:

— O mundo está perdido!... Quando eu havia de pensar que o Visconde ia ter este fim? Não valemos nada nesta vida. Quando chega a hora de virar, pode ser rei, pode ser Visconde, a gente vira mesmo — e ainda é bom quando vira pilão...

Na sala de baile estavam todos brincando de virar. Cinderela batia com a varinha e virava tudo que lhe pediam. Emília trouxe todos os seus brinquedos para os fazer virar em outros brinquedos ainda mais bonitos. Depois sentiu saudades dos brinquedos velhos e os fez desvirar novamente. E estavam ainda nessa brincadeira, quando ouviram na porta uma batida esquisita, muito diferente das demais. As princesas assustaram-se.

— Parece batida de lobo! — disse Capinha Vermelha que fora espiar pelo buraco da fechadura. — É lobo mesmo! — exclamou de lá, arregalando os olhos de pavor. — Justamente o malvado que comeu vovó...

Foi uma correria. Narizinho procurou acalmar as princesas.

— Não pode ser — disse ela. — O lobo que comeu a avó de Capinha foi morto a machadadas por aquele homem que entrou, É o que dizem os livros.

— Deve de ser erro tipográfico — sugeriu asnaticamente Emília, que também fora espiar o lobo. É lobo, sim – e magríssimo! Bem se vê que só se alimenta de velhas bem velhas. Com certeza soube que dona Benta morava aqui e...

Não pôde concluir. Narizinho estava em prantos.

— Pobre vovó! — gemia ela torcendo as mãos. — Que desgraça se o lobo a devora! Chamem Pedrinho e os príncipes! Corra Emília!...

Mas justamente minutos antes Pedrinho e os príncipes haviam saído para o terreiro a fim de fazerem uma experiência com a lâmpada de Aladim. Estavam as meninas ali sem um homem que as pudesse socorrer.

— Bata com a vara nele e vire-o numa pulga – lembrou Emília já preparando a unhinha para matar a pulga.

— Impossível! — exclamou Cinderela aflita. — Seria preciso abrir a porta e o lobo poderia me agarrar de um bote.

Enquanto isso o lobo continuava a bater, toc, toc, toc, cada vez mais furioso. Depois começou a arranhar a porta, tirando lascas.

Rabicó tremia como geléia; em vez de ajudar as princesas a se salvarem dos apuros, mais atrapalhava. Agarrou-se à saia de Branca de Neve, que teve de afastá-lo com um bom pontapé.

— Só o Visconde poderá nos salvar! — exclamou Emília. – Os sábios sabem meios para tudo.

Disse e foi correndo buscar o pilãozinho para que Cinderela o virasse em Visconde. Cinderela, muito trêmula, bateu com a varinha e o Visconde surgiu de novo, tonto e assustado. Narizinho explicou-lhe do que se tratava e apontou para a porta.

— O lobo está arrebentando as tábuas. Mais um minuto e penetra aqui. Veja se acha um jeito de nos salvar, Visconde!...

Mal a menina acabara de pronunciar essas palavras, o lobo arrancou uma tábua e enfiou o focinho pelo buraco, farejando o ar.

— Hum... Hum!... Estou sentindo cheiro de avó de gente... — rosnou ele.

Era demais. Narizinho desmaiou. Vendo aquilo, as princesas desmaiaram também. Emília ficou na sala sozinha com o Visconde.

— Vamos, Visconde! Faça alguma coisa! Mexa-se!...

Mas o Visconde não saía do lugar, e só então Emília percebeu que ele tinha virado Visconde só da cintura para cima, continuando pilão da cintura para baixo. Com a pressa e o nervoso, Cinderela só lhe havia dado meia varada...

— E agora! — exclamou Emília coçando a cabeça e pensando lá consigo se valeria a pena desmaiar também.

E talvez fizesse isso, se o lobo naquele instante não arrancasse mais uma tábua e não enfiasse dentro da sala quase meio corpo. Vendo que o monstro entrava mesmo, Emília berrou com todas as forças dos seus pulmões:

— Acuda, tia Nastácia! O lobo está entrando de verdade e vai comer dona Benta...

Ouvindo o berro, a negra veio lá da cozinha com a vassoura e num instante espantou dali a fera com três boas vassouradas no focinho.

— Lobo sem-vergonha! Vá prear no mato que é o melhor. Dona Benta nunca foi quitute pra teu bico, seu cão sarnento!...

— Bravos! — exclamou Emília batendo palmas. — A senhora é tão valente que até merece casar com o pássaro Roca.

A preta só disse:

— Em vez de dizer bobagens, antes me ajude a acordar estas princesas. Traga depressa uma caneca de água fria, ande...

A primeira a ser despertada foi Narizinho.

— Que é do lobo? — perguntou ao voltar a si, ainda tonta e com a vista atrapalhada. — Já comeu vovó? A negra deu uma risada com a beiçaria inteira.

— Credo! Que idéia! O lobo a estas horas já deve estar chegando na Europa!... e contou o que havia acontecido.

Em seguida despertou as outras. Capinha Vermelha, louca de alegria, abraçou tia Nastácia, prometendo mandar-lhe uma cesta de bolinhos. As princesas também a abraçaram, prometendo mandar pilõezinhos de verdade e mais coisas bonitas.

Nisto entrou o menino com os príncipes.

— Bonito! — exclamou Narizinho. — Os senhores vão para a troça e nos deixam aqui sozinhas à mercê das feras... e contou tudo.

Aladim ficou aborrecidíssimo de haver perdido aquela oportunidade de mostrar o poder da sua lâmpada e Pedrinho ainda mais, pois com duas bodocadas tinha a certeza de que o lobo sairia ventando. Nesse momento um vulto entrou pela janela como um grande pássaro Peter Pan! Assim que Pedrinho e os demais o reconheceram, reboou uma grande salva de palmas, seguida do hino dos índios guerreiros, composto pela boneca. Dona Benta, que havia acabado de escrever a sua carta, ouviu o rumor e lembrou-se da promessa feita a Narizinho. Veio espiar a festa.

Entrou na sala.

— Boa tarde, senhor Peter Pan! Fico satisfeita de saber que o senhor também é amigo dos meus netos — mas quero que não faça com eles o que fez com Wendy e seus irmãozinhos. Não lhes ensine a voar, senão estou perdida. Se não sabendo voar já são assim, imagine sabendo...

— A senhora pensa que voar é perigoso? — perguntou Emília.

— Levando o seu guarda-chuva como pára-quedas, não há perigo nenhum!...

— Sei que não há perigo — disse a velha. — Mas sei também que se voarem começarão a ir para muito longe e poderão um dia esquecer-se de voltar.

Peter Pan sossegou-a. Disse que nada receasse, pois só lhes ensinaria a voar se obtivesse o consentimento dela.
–––––––
Continua... Cara de Coruja– IX – A Partida

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Carolina Ramos (Parceria)

Isabel Furini (A Disputa)


Apoiou as unhas longas e grossas sobre as grades e arranhou-as violentamente. Um chirriado agudo reverberou no lugar. A fila enorme que acompanhava as curvas das nuvens, tremeu. Alimentou-se das emoções de medo e incerteza. O arroto com odor de enxofre e a estrondosa gargalhada aumentaram o temor das almas. Depois observou esse homem magro que caminhava lentamente. Olhava-o com a voracidade de um vampiro. Uma mente brilhante, murmurou.

São Pedro, o bondoso, organizava a fila. Algumas almas estavam ansiosas e moviam suas formas feitas de matéria etérica, formas luminosas e muito semelhantes aos corpos físicos, mas sem o peso e as limitações dos verdadeiros corpos. Outras, acostumadas a esperar em filas de mercados e bancos, permaneciam quietas e resignadas. As mais impetuosas agitavam no ar as mãos quase transparentes, elas queriam entrar.

Na recepção, antes do segundo portal, o chamado Portal Definitivo, Deus, rodeado pelos seus anjos de belas asas brancas, ia julgando as almas com infinita sabedoria. Algumas podiam entrar no céu, outras caíam vítimas de suas más ações.

No momento em que esse homem idoso, calmo, aproximou-se, o próprio guardião dos portões, São Pedro disse:

– Peço perdão para ele, Senhor, ele foi um escritor brilhante.

O diabo, que permanecia em silêncio, no lado esquerdo do portão, encostado nas grades, reclamou:

– Ele é meu, Altíssimo. Brilhantes foram muitos militares e arrasaram cidades. Brilhantes foram muitos reis e massacraram o povo. Até alguns papas como Bórgia...

– Esse escritor defendeu os oprimidos! Merece seu perdão, Senhor.

– Ele é meu! Há tempos que não recebo alguém com uma mente, digamos, tão criativa, tão suculenta... Falou o diabo arrumando sua capa vermelha.

– Ele foi um bom homem.

– Não é essa a questão, Pedro - gritou enfurecido o diabo e bateu o tridente na ponta de um asteróide – A questão é que ele foi ateu, negou sua existência, Senhor.

– O lugar dele é no Céu!

– Não, Pedro. O lugar dele é no inferno.

– Céu!

– Inferno! Ateus vão ao inferno!

– Não seja preconceituoso, Satã – disse Deus. E Pedro, ao ouvir a voz de Deus, ajoelhou-se em sinal de humildade.

– Você sabe, anjo do mal, que eu amo todos os meus filhos e não tenho preconceitos contra ateus. Alguns me adoram só com os lábios, por isso eu não julgo os homens segundo suas palavras. Eu meço corações. Se julgasse os homens segundo suas palavras, o céu estaria cheio de retóricos e de políticos...

– Aproxime-se, filho.

O escritor se aproximou lentamente. Estaria sonhando?

Pedro pegou uma faca feita de luz violeta e abriu o peito do escritor. Mas ele não sentiu dor. Pedro retirou o coração e colocou-o em uma balança. Se o prato da balança desce, a alma do morto cai no abismo da culpa e da desolação. Pedro fechou os olhos e escutou um Ahhh!!! Era o diabo.

O peso do coração apontava: bondade, compaixão e fraternidade. E Pedro, triunfante, abriu os Portões para essa nobre alma. O escritor estava entrando no Céu quando Satã gritou:

– Antes de entrar, por favor, autografe este exemplar de seu último livro. Quero mostrar aos outros anjos caídos que quase, quase consegui sua alma.

Fonte:
Isabel Furini (organizadora). Passageiros do Espelho: antologia de contos. Curitiba: Íthala, 2011.

Antonio Brás Constante (Um Toque Sobre a Essência das Mãos)


As mãos estão conosco desde que nascemos. São cuidadosas mãos as primeiras coisas que encontramos ao chegarmos neste mundo pós-uterino, nos segurando e protegendo. Mãos de pulso firme batem com bondade em nossa corpórea fragilidade nos fazendo chorar, respirar, viver, e em outras vezes, mãos covardes espancam com maldade o nosso corpo, nos fazendo gritar, engasgar, morrer.

As mãos falam através de sinais mudos. É a mão que encontrando outras mãos, expressa sua amizade e confiança através da força e firmeza que imprime neste encontro. Os amantes pedem a mão desejada em casamento. As mãos benevolentes estão sempre abertas para auxiliar a quem precisa, mas existem mãos rancorosas que se fecham pelo ódio e cólera que a tantos intimidam.

A mão que acolhe com bondade é a mesma que empurra com brutalidade. A mão que puxa para aproximar é a mesma que solta sem demonstrar se importar. São as mãos que nos socorrem nos momentos em que a escuridão nos envolve e, sem qualquer aviso, cega o nosso olhar. Mãos que nos fazem ver, muitas vezes, aquilo que não queremos enxergar.

A mesma mão que aponta acusando é aquela que se une com outras em prece pedindo perdão. Uma mão caridosa lava a outra, lhe ajuda, protege e ampara, fazendo o que estiver ao seu alcance na hora de prestar auxilio. Mas a mão impregnada de egoísmo também lava a própria culpa de si mesma, quando quer se omitir de ajudar quem precisa.

A mão suja representa o trabalho, mas a sujeira nas mãos também é o símbolo da corrupção. As mãos vazias de riquezas, sem nada, representam a pobreza, bem como as frágeis mãos ainda tão pequenas, desamparadas e pedintes. Cruel realidade das crianças mendicantes nas sinaleiras.

São as mãos que batem continência em sinal de respeito e disciplina militar em nome de uma pátria nem sempre amada. Mas também foram elas que ficaram erguidas, o braço direito estendido para frente, simbolizando a loucura nazista que marcou uma era malograda.

São mãos amigas que amparam quando as palavras falham, nos envolvendo na comunhão de um abraço. É uma mão cheia de ternura que dá adeus quando alguém parte, e enxuga a vertente de lágrimas que escorre pela face de nosso semblante sofrido.

São as mãos que batem na porta para anunciar a chegada. Mãos cheias de energia aplaudem aqueles que admiram, e se juntam ampliando o som das vozes quando querem vaiar. As mãos unidas podem até derrubar governos...

São as mãos que acariciam vários instrumentos de corda fazendo-os tocar, espalhando os sons dos anjos pelo ar. A mão que nos alimenta é também aquela que nos auxilia a aprender a contar, brincar, trabalhar, amar.

São as mãos que abrem a carta com as notícias tão desesperadamente esperadas. E através de um simples toque de seus dedos, um clique é dado sobre o mouse, abrindo o e-mail desejado.

É a mão que aperta o gatilho da arma. É a mão que tapa a boca da vítima impedindo-a de gritar. São mãos frias que puxam a alavanca do cadafalso cumprindo a ordem de matar.

A mesma mão que escreve as verdades também rasga os direitos em sinal de intolerância, jogando pedras em corpos vivos e livros ao fogo, que ardem em nome do preconceito.

São elas que fecham nossas têmporas quando enfim rumamos para imensidão.

Foi por causa dessas mãos, dessas tantas mãos: fortes e frágeis, grandes e pequenas, jovens e velhas, negras, brancas, orientais, universais, que me pus pacientemente a dedilhar o teclado, dando vida a este pretenso texto com ares de poesia. Enfim, as mãos unidas pelo amor são a essência de nossa humanidade. Agora peço que você releia todo texto novamente, trocando as expressões que representam as “mãos” por “pessoas”... Feliz 2012.

Fonte:
Texto enviado pelo autor

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas de Ano Novo n. 436)


Uma Trova Nacional

Rogo ao ano que inicia,
Paz, Luz, Amor, como embalo,
ao raiar do novo dia
ao som do cantar do galo.
–VANDA ALVES/PR–

Uma Trova Potiguar


Ano Novo, nova vida
e muita poesia nova,
desejo a elite que lida
na lapidação da Trova!
–CLARINDO BATISTA/RN–

Uma Trova de Ademar


Neste Ano Novo, eu queria
entre nós, mais união;
e que o amor pela poesia
cresça em nosso coração!
–ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram


Que o Ano Novo nos dê,
à maneira que puder,
o Bem que eu quero a você
e o Bem que você me quer!
–ALCY RIBEIRO S. MAIOR/MG–

Simplesmente Poesia

A Vida Continua

–GILSON F. MAIA/RJ–

Não é o fim, meu amigo,
a jornada continua!
Terá sequência domingo
o passeio em outra rua.
Que seja alegre a viagem!
Que seja linda a paisagem!
Ame o sol, namore a lua!

Estrofe do Dia

Que o ano que se despede
Leve com ele as tristezas,
As dúvidas e incertezas
E que todo mal se arrede,
Tudo quanto nos impede
Tome outras diretrizes,
Corte os males nas raízes
Trazendo um total renovo
Para que nesse ano novo
Possamos ser mais felizes!
–CARLOS AIRES/PE–

Soneto do Dia

No Ano Novo
–THALMA TAVARES/SP–


Ano que vem quero esquecer as dores,
quero vestir a roupa colorida,
a que me faz sorrir dos dissabores,
para enfrentar com mais humor a vida.

Eu quero repensar os meus valores,
se os tenho respeitado na medida
em que suporto a dor dos sofredores
pungindo mais minha alma dolorida.

Eu quero abrir meu peito à humanidade,
mudar meu egoísmo em caridade
e transformar-me assim no Homem Novo.

E espero que o bom Deus, nosso Senhor,
transforme este meu sonho em Paz e Amor,
em trabalho e mais pão para o meu povo.

Fonte:
Textos e imagem enviados pelo Autor

Adélia Prado (Os Componentes da Banda)


O menino da vizinha dos fundos, trepado no muro como ele vive, deve ter investigado bem o meu quintal, porque hoje me gritou: "do-o-na, do-o-na, a mãe falou se a senhora quer vender umas panelas pra ela."

Me desgostou muito a forma de pedir, o pedido em si. Com tanto vizinho, porque Dona Alvina foi enxergar logo as minhas panelas? A distância entre a casa dela e a minha é a mesma entre a casa dela e a do Osmar Rico. É claro que percebeu minha fraqueza. Não posso esconder, está na minha cara a atração que exercem sobre mim. São como diamantes no cascalho. Pobres, eu os farejo, pressinto, me ofereço a eles como manjar. As panelas, se estavam no barracão é porque estavam mesmo sobrando. O que não me falta é panela. Por que então não fui capaz de pegar a melhor delas e dar para Dona Alvina com o coração exultante de poder ajudar? De jeito nenhum. Primeiro disse ao menino, contrariada: as panelas não são de vender não. Fiquei com raiva dela falar em comprar, já sabendo que eu não ia vender.

Logo me arrependi, chamei o menino de volta e peguei a melhor panela, mas não pense que mandei a tampa junto. Achei-a boa demais, servia pra tampar o caldeirão onde gosto de cozinhar batatas. Dei a panela pura. Foi uma bondade boba, pela metade, sem nenhum valor. Não descansei enquanto não inventei um meio de visitar Dona Alvina. Com um mês só na casa velha, toda escorada, que o
dono do curtume deu para ela morar, já fez horta, jardim, os cacarecos são limpíssimos. A menina pequetita, paninho na cabeça, brinquinho de ouro na orelha desensebada. Fui com desculpa de comprar cebolinha e fiquei sabendo: ela faz faxina nas casas, o marido trabalha fora e só vem fim de semana, eles não são daqui não.

Muito bem, pois saí sem ter coragem de dizer a ela a única coisa que meu coração pedia que dissesse: olha, Dona Alvina, somos vizinhas e a senhora pode contar comigo no que precisar, estou à sua disposição. Isto falei toda emproada pra Dona Leonor, pra Dona Ester, porque no fundo sabia, são destas vizinhas que pedindo um dente de alho pagam logo com uma réstia de cebolas, enfim, me serviriam quando eu precisasse sem me dar amolação. Dona Alvina é diferente, porque é precisada mesmo. Se me pedir cinquenta cruzeiros vai demorar um ano pra pagar. Qual é o dinheiro que entra lá que seus quatro crioulinhos não consomem num átimo? E ela deve pensar assim: "Dona Violeta é rica, pode muito bem esperar." Posso mesmo. Por que então, meu Deus, não sei ajudar a Alvina? Empresto o dinheiro, passam nem duas semanas fico dizendo: ao menos satisfação eu merecia; não é por causa do dinheiro. E outras bobagens mais que todo mundo fala nestas situações. O fato é que estou chateada com a mudança deles pra cá. Antes era Dona Terezinha que, bem ou mal, eu vivia acudindo. Passou mais de ano sem morador na casa, um verdadeiro descanso. Agora envém Dona Alvina que, sem saber, é um ferrão na mão de Deus. Não chupo mais uma bala sem pagar um dízimo de tristeza. Claro que está tudo errado, qualquer sacristão bobo sabe disso, menos eu que não atino com a forma de gozar dos frutos da terra, criados por Deus para todos comerem em perfeita alegria, eu inclusive.

Demoraram um dia só para descobrir minha mangueira de cinqüenta metros: "do-o-na, a mãe falou se pode emprestar a mangueira pra nós aguar a horta?" Este batido durou um mês. Pedro até botou um trapo no muro pra não esfolar a borracha. Depois foi ficando chato. Queria lavar o carro, aguar nossa horta mais cedo, a mangueira com Dona Alvina. Bibia falava: "mãe, que povo folgado, vai ser descansado assim! Acho a senhora e o pai muito bobos." Não podia aplaudir a menina, mas por seguro matutamos: a voz das crianças é a voz de Deus.

De noite Pedro bateu na casa da Alvina para bispar a situação. Se pudesse, falou o marido, mandava ligar a água, mas onde vou arranjar dinheiro? Pedro foi na Companhia, pagou a taxa, acabou a questão da mangueira. Nem assim sosseguei: será que foi correto? Não teria sido mais edificante emprestar a mangueira com paciência até eles arranjarem modo de pagar a taxa? Vejo o marido da Alvina passar aos sábados com umas mexericas que ele arranjou pra vender e penso: nem pra dar uma satisfação, um sinal. Pedro nem se lembra mais. É diferente de mim, nunca dá meia panela. Por isso a alegria dele é inteira.

Fonte:
Adélia Prado. Os componentes da banda. Editora Rocco, 1988

Maria Zilda da Cruz (Gemido Verde)


Frondosa, a majestosa árvore oferecia mais um verde à natureza. Sua cor pertencia ao matizado de tantos outros verdes, existentes nas grandes árvores, nos pequenos arbustos nas humildes hortaliças e nas plantas quase rasteiras. Não importa o tamanho. A diversidade do verde se espalha ao infinito!

As árvores, juntas, formam o bosque quando muitas engrandecem a terra com uma floresta. A Amazônia enriquece o território brasileiro.

Mas eis que o homem, empobrecido de pensamento, sem coração, mata o verde, tira a nobre mata e deixa pobre o solo. Forma-se um vazio na terra, despida de sua maternidade de tantas dadivosas árvores.

Em cidades hospitaleiras do verde, elas crescem orgulhosas de suas sombras. Ofertam a beleza de flores, às vezes de frutos e sempre acolhem os pássaros e outros bichinhos.

Assim era aquela gigantesca árvore; um dia fora pequenina, plantada por mãos carinhosas. Hoje, ostentava a imponência herdada de séculos de ascendência. Crescia cada vez mais: na altura, desafiando chegar próxima ao céu; na largura, ara aumentar a sombra, em proteção ao sol quente, de algum verão exagerado. Até ajudava a agasalhar a desprevenida pessoa, sem guarda-chuva, de alguma chuva passageira. Em seus galhos fortes, sustentava meninos travessos, brincalhões, sentindo-se heróis em imaginárias cavalgadas, corridas velozes sem sair do lugar, confundidos na exuberante ramagem.

Aquela árvore era a presença duradoura para mais de uma geração. Enfeitava a avenida que, com muitos alargamentos, acabara por deixá-la isolada num canteiro central. Só, ela se destacava ainda mais. Os pássaros sentiam um refúgio seguro para construir seus ninhos. Até faziam o par do amor para depois, surgirem redondos ovinhos. Então, passado o tempo da natureza, novas gerações de aves cantavam a sonoridade da vida.

Olhando ao redor, a árvore se preocupava com tantas mudanças urbanas. Não entendia muito os planos de modificações do lugar. Nem sempre deixavam o local mais bonito: o cimento, o asfalto comia a terra dos canteiros e muito verde desaparecia. Então, ela escutava um nome esquisito, progresso, que lhe causava arrepios.

Um dia, o temor se transformou em medo. Homens com grossas luvas seguravam uma serra bem forte. Com decisão e audácia contra a vida, a mortífera máquina começou a trabalhar. No vai e vem dos dentes impiedosos, a serra logo sentiu o crime de seu ato. A árvore estremecia. Os pássaros voavam pedindo socorro pelos seus ninhos, pelos ovinhos, pelos filhotes indefesos. Os galhos aos poucos caiam! Dezenas de anos, lentamente florescidos, sentiam a morte decretada. Uma imensidão de verde cobria o negro asfalto da nova avenida.

Molhada pela seiva da vida perdida, que escorria em abundância, a serra tremia um pedido de desculpas pelo que fazia. Já pressentia a avalanche de futuros remorsos, fantasmas de um crime sem culpa. Somente uma criança, parada na calçada, sentia a agonia da frondosa árvore e ouvia o gemido de dor de um verde vencido.
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Maria Zilda da Cruz é Mestra e Doutora em Psicologia pela USP. Presidente da Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos e Membro da Diretoria da Academia Santista de Letras.

Fonte:
Texto e imagem obtidas em:
Cláudio de Cápua (editor). Revista Santos: arte e cultura. Ano V, vol. 27. Maio de 2011.

Flávio Paiva (Os Guerreiros de Nilto Maciel)

Quem passa desavisado por Baturité nem imagina que aquela cidade do maciço poderia nem existir, caso no tempo em que, na ficção do escritor Nilto Maciel, 66, ela ainda era vila, tivesse sido destruída pela revolução nativista sonhada pelo anti-herói protagonista do livro "Os guerreiros de Monte-mor" (Armazém da Cultura, 2011), que será lançado hoje, às 19 horas, na Livraria Cultura, em Fortaleza. A primeira edição dessa novela alegórica cearense foi publicada em 1988, pela editora Contexto, de São Paulo.

Enlouquecido pelos efeitos da matança colonial ocorrida por estas bandas, o personagem João Cardoso decide libertar os povos nativos do Ceará, derrubando o poder da província e o império português instalado no Brasil. Com um bode de apoio e combate, que carrega nas costas uma infantaria de morcegos engaiolados e presos a caçuás, ele parte para o enfrentamento irreversível de uma derrota histórica.

O remanescente dos Jenipapo carrega em sua caricatura um coração tapuio, a pulular por Baturité, Canindé e Barbalha até encontrar-se no desvario dos sem-memória que, indignados com o destino, passam a zanzar pela geografia, pelo linguajar e pela etno-história cearense. Neste sentido, o livro de Nilto Maciel renova uma tradição iniciada por José de Alencar (1829 - 1887), em sua característica da novela psicológica, indianista, regional e histórica.

Fico contente quando encontro a nossa literatura explorando com inteligência as identificações da cearensidade. "Os guerreiros do Monte-Mor" é alegoria quixotesca saída da gema de ovo de galinha pé duro. João e seus poucos companheiros de destemida louquidão oferecem ao leitor percursos políticos e estéticos comparáveis à exaltação utópica de Antonio Conselheiro (1893 - 1897) e de seus muitos seguidores na trágica experiência de Canudos.

Em suas desesperadas tentativas para reversão do domínio colonial, os personagens transitam pelas veredas do tempo e se relacionam com figuras da nossa historiografia, como o Naturalista Feijó (1760 - 1824) e Tristão Gonçalves (1789 - 1824). Os guerreiros de Nilto Maciel fazem o papel de si mesmos em uma narrativa que floresce na sequidão do passado esquecido de um Ceará enfatizado pela sátira romanesca da sua formação, enquanto entidade política, etnológica e literária.

As batalhas dos defensores da Revolução Nativista se dão contra o abandono, contra a falsa identificação e em favor de uma rejeição que quer participar. O autor parece fazer questão de firmar, afirmar e confirmar a marginalidade histórica e cultural do Ceará profundo. Sente-se em seu texto uma preocupação quase metodológica para que isso aconteça. Embora denso nessa suposta deliberação, o livro não perde a naturalidade, nem se inclina para simplificações ou linearidade imitativa.

O intransponível está sempre presente página por página porque a saga é inglória em sua gênese e impraticável como fator de conversão. Não há como escapar daquela sina, traçada em determinismos do passado dos exterminados, com todas as vertentes históricas e culturais e seus diversos enredos seculares. Os esforços dos guerreiros do Monte-Mor, no impetuoso enfrentamento das falsas consciências impostas pelas circunstâncias, recaem em justiça estética da maioria que se tornou minoria e que desapareceu na história oficial, ressurgindo na recriação literária como uma ideia de sociedade.

Da geografia humana cearense Nilto Maciel extrai especificidades em lembranças que até achamos que temos, mesmo que seja simplesmente convergência de ilusões. O livro se desenrola nesse vácuo, evidenciando passos e compassos perdidos de um Ceará que conhece pouco o Siará e por isso acha que do seu litoral para dentro tudo é desolação e do seu interior para fora sobeja insolação.

A novela, aparentemente sem eira nem beira de Nilto Maciel, presencia o que não existe e acaba pintando cenários de um tempo em perspectiva curva, como em um cinema 180 graus, fazendo circular inquietações esquecidas. A luta febril dos guerreiros ingênuos por uma liberdade qualquer, reescreve o que não foi sequer escrito e dá contornos abstratos ao que foi desfigurado por toda sorte de ignorância.

Em face da compreensão alterada e tosca da realidade, por parte de seu protagonista, o livro se desenrola onde tudo acontece e nada se passa; onde quase ninguém lembra e todos são profusamente convidados a ficar para trás. Essa diversão alienante é uma das curiosidades do livro "Os guerreiros do Monte-Mor". São trabalhos literários assim que contribuem para um lugar voltar a si mesmo, desatando aspectos inconscientes de uma guerra silenciosa contra algo que nem sabemos que somos.

Rubem Alves me contou por e-mail, no sábado passado que o escritor franco-marroquino Daniel Pennac diz que a literatura nos "aliena" para, em seguida, nos trazer de volta. Ao ler "Os guerreiros de Monte-Mor" fiquei com essa sensação. Óbvio que por conta disso não quero cobrar de uma ficção o preenchimento de lacunas historiográficas, mas bem que a leitura do livro de Nilto Maciel me levou a recordar de algumas expressões e cacoetes culturais da cearensidade que gostei de reencontrar: no lugar de "triste" ele coloca "capiongo"; onde seria "desajeitado", ele escreve "marmotoso"; e se alguém está montado a cavalo, ele diz que vai "escanchado".

A despeito de o livro ter um glossário, o ritmo de leitura pode ser lento para quem não conhece os códigos do palavreado e do jeito atoleimado de se expressar dos guerreiros e do autor. Sabe-se que as histórias que ouvimos quando criança praticamente determinam a imagem que fazemos de nós e do mundo. Isso, de certo modo, torna-se um desafio aos que chegam ao Monte-Mor sem saber muito bem como aproveitar o papel não historiográfico das metáforas.

Quem guarda consigo conteúdos da cearensidade pode beber sorvendo essa narrativa bem humorada, mas quem não estiver familiarizado com isso precisa estar com sede para ingeri-la. Ler trabalhos como o dos guerreiros de Nilto Maciel requer o esforço de quem cava cacimba em leito de rio seco, com a paciência de esperar a revência pingar a água infiltrada nas raízes, pela paisagem subterrânea dessa literatura com cheiro de Lunário Perpétuo. O bom é que nela, não há subentendidos, tudo pode ser desperdiçado, que a prosa não vai embora, fica com o leitor pela força monogênica do texto.

Os revolucionários João, José e Xocó estão mais vivos do que nunca. Na tentativa de fazer uma primavera tapuia, eles podem ser associados às transformações que estão sendo processadas na atualidade pelo conflito entre as crenças no darwinianismo cultural e o realce das diferenças. Na condição de agitadores marginais, poderão até sair vitoriosos fora do livro, se a inclinação dos desfechos das lutas cidadãs tenderem para a perda da hegemonia das narrativas colocadas a serviço da replicação das estruturas sociais, ideologias e doutrinações dominantes.

A literatura tem a liberdade de dizer que nem tudo o que está posto sempre foi ou será desse ou daquele jeito. Em "Os guerreiros de Monte-Mor", Nilto Maciel captura do passado um espírito impetuoso plural e aberto ao discurso crítico, reflexivo, cômico e divertido. É uma guerra que se dá no âmbito da inquietação delirante, mas seus guerreiros, mesmo não conseguindo o que talvez quisessem, conquistaram o direito de procurar por um poder, qualquer que seja, desde que melhor do que o desencanto e o abandono.

Fonte:
caderno3@diariodonordeste.com.br Diário do Nordeste, Fortaleza, 1º/dez/2011. Disponível em http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2011/12/os-guerreiros-de-nilto-maciel-flavio.html

Nilto Maciel (Os Guerreiros de Monte-Mor: Construtor de Igrejas)

João levava muito a sério a questão da raça, apesar de em suas veias correr sangue português. Sua mãe havia nascido de uma relação entre o sesmeiro Domingos Carneiro e uma índia jenipapo. Compreendia, no entanto, a impossibilidade de uma nova guerra, como desde menino ouvia seu pai pregar, e cedo se apaixonou pelos ideais dos inconfidentes mineiros, sentimento que lhe valeu bordoadas da guarda imperial.

Mal curou‑se dos ferimentos, desceu a serra e, sem dar um pio, foi direto à matriz, onde orou, ajoelhado diante da imagem de Nossa Senhora da Palma, durante um dia inteiro. Ao retirar‑se, o povo, doido para ver de perto o filho de Antônio Cardoso, enchia a praça, tal como no dia da inauguração da vila.

Antes mesmo da viração da tarde, já uma pequena multidão se postava à frente da igreja, curiosa, bisbilhoteira, zombadora.

– É o inconfidente.

Pelo pender do sol, havia subido a serra o primeiro pregoeiro a anunciar novidades em Monte‑Mor: João da Silva Cardoso, o contador de lorotas, preparava‑se para subir aos céus. Com pouco, a praça virava feira: o cruzeiro enchia‑se de pencas de banana; no obelisco, penduradas em paus, cacarejavam dezenas de galinhas.

Finda a prolongada reza, João escapuliu pela sacristia e, tomando o rumo do mato, apressado e tonto, deixou a multidão apalermada.

– Ele voou para o céu.

Os mais incrédulos acreditavam ter ele se escondido dentro do sacrário. Mas, antes de o sol se pôr, dava João boas‑noites ao pai de Maria do Amparo. Mal recebido de início, pouco a pouco aman­sou o velho. Ia se dedicar a trabalho rendoso – o de construtor. Quis blasonar, mordeu a língua, cutucado pela voz do pai dentro das oiças.

Conversa vai, conversa vem, entraram no assunto principal – a mão da donzela. O dono da casa fez promessas, João dizia sim senhor. Não tocaram no caso da surra, nem em negócios de metal. Só no finzinho do entendimento, o rapaz fez resumo de um romance que falava da conversão de um príncipe à Santa Madre Igreja. E se despediram como velhos compadres.

Daí em diante, João virou frequentador de igrejas e da casa do futuro sogro. Não dizia para ninguém, mas conduzia sempre um terço pendurado ao pescoço e, quando não conversava lorotas, rezava feito um penitente. Jurava a si mesmo que ia ser santo e ter altar só seu na matriz.

Virou e mexeu, noivou. Deixou os romances de lado e vivia ora na casa do sogro, ora aos pés dos santos.

Na primeira conversa mantida com o padre, falou da necessidade de mais igrejas e capelas na vila. O apóstolo concordou com suas opiniões e aproveitou‑se delas para relatar o estado de pobreza da freguesia. A matriz precisava de reformas, vinho e hóstia. Aparecessem pedreiros e pintores, bem que Deus agradecia.

Ao beijar a mão do padre, João reafirmou sua fé e boa vontade. Podia o outro arranjar os trabalhadores e o material, e deixasse o resto com ele.

– Vou mostrar como se remodela uma igreja pai‑d’égua como essa.

O reverendo levou o crucifixo aos lábios e olhou para o céu, sem palavras.

Fonte:
Nilto Maciel. Os Guerreiros de Monte-Mor. 2.ed. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2011.