Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Marie-Louise von Franz (O Problema da Sombra nos Contos de Fada) 2


O primeiro conto de fada que eu gostaria de abordar é alemão, relatado pelos Irmãos Grimm — os primeiros a coletar esse tipo de material, despertando o interesse de outros países de fazerem o mesmo. A estória é a seguinte:

OS DOIS ANDARILHOS

Montanha e vale não se encontram, mas às vezes seres humanos sim — sejam bons ou maus. Assim aconteceu de se encontrarem em suas andanças um alfaiate e um sapateiro. O alfaiate era um camarada pequeno, de boa aparência, divertido e alegre. Ele viu o sapateiro do outro lado da estrada e cumprimentou-o com um gracejo. 0 sapateiro não gostava de gracejos e fez uma cara azeda, parecendo querer brigar com o alfaiate, mas este começou a rir e ofereceu-lhe sua garrafa, dizendo: "Não se ofenda, beba um pouco e engula sua raiva". 0 sapateiro tomou um bom gole e sugeriu que poderiam caminhar juntos. "Muito bem", respondeu o alfaiate, "se você quiser ir até uma cidade onde existe muito trabalho..."

O alfaiate, sempre corado, alegre e bem disposto, não teve nenhum problema em arrumar emprego, nem em conseguir um beijo da filha do patrão por detrás da porta; e sempre que se encontrava com o sapateiro tinha mais dinheiro do que ele. Apesar de o sapateiro mal humorado nunca ter tanta sorte, o alfaiate ria e dividia o que tinha com seu companheiro. Quando já tinham andado um bom tempo na estrada, chegaram a uma enorme floresta onde existia um caminho que ia até a cidade do rei. Mas na verdade eram dois caminhos: um levava sete dias para chegar e o outro apenas dois; eles não sabiam qual era um e qual era outro, e nem a quantidade de pão que poderiam carregar e por isso ficaram discutindo. O sapateiro levava pão suficiente para sete dias, mas o alfaiate estava disposto a aceitar o risco e confiar em Deus. Era uma longa caminhada. No terceiro dia o pão do alfaiate já tinha terminado, mas o sapateiro não teve pena dele. No quinto dia o alfaiate sentiu tanta fome que pediu um pedaço de pão, pois já estava pálido e exausto. O sapateiro concordou, contanto que lhe arrancasse um dos olhos em troca. O infeliz alfaiate, que não queria morrer, só podia aceitar, e o sapateiro sem coração tirou fora seu olho direito. No dia seguinte o alfaiate sentiu fome de novo e no sétimo dia estava tão exausto que não conseguia ficar em pé. O sapateiro disse-lhe que teria piedade e lhe daria mais pão; mas, em troca, queria o outro olho.

Então o alfaiate implorou perdão a Deus pelo modo despreocupado com que tinha vivido até então e disse ao sapateiro que não merecia tal tratamento de sua parte, pois sempre tinha compartilhado tudo com ele e sem os olhos não seria capaz de costurar, só poderia mendigar. Daí o alfaiate lhe pediu que não o deixasse morrer ali, sozinho e cego. Mas o sapateiro, que tinha banido Deus de seu coração, pegou a faca e arrancou o olho esquerdo do alfaiate. Deu-lhe então um pedaço de pão, fez-lhe uma bengala e o conduziu. Quando o sol se pôs eles saíram da floresta e encontraram umas forcas. Lá o sapateiro abandonou o alfaiate cego. Este, extenuado de dor e raiva, caiu sonolento, dormindo a noite inteira. Quando acordou de manhã, não sabia mais onde se encontrava. De duas forcas pendiam dois pobres pecadores e na cabeça de cada um pousava uma gralha. As duas aves começaram a conversar e uma contou à outra que o orvalho da noite, que caíra da forca sobre os corpos, devolveria a visão a quem com ele lavasse os olhos. Quando o alfaiate ouviu isso, tirou o lenço do bolso, encharcando-o no orvalho da grama e, lavando a cavidade dos olhos, voltou a ver com ambos os olhos.

Logo o sol nasceu e na planície em frente se encontrava a cidade do rei, com seus belos portões e centenas de torres. Ele distinguia todas as folhas das árvores, via o vôo dos pássaros e a dança dos mosquitos no ar. Pegou uma agulha e quando percebeu que podia costurar tão bem como sempre, seu coração pulou de alegria e ajoelhando-se agradeceu a Deus. Então pegou sua trouxa e seguiu cantando e assobiando. Logo encontrou um potro marrom correndo pelo campo. Agarrou-o pela crina para montá-lo até a cidade. Mas o potro implorou--lhe a liberdade, dizendo que era muito jovem, que mesmo uma pessoa leve como o alfaiate lhe quebraria as costas, e pediu que o deixasse livre até que fosse bastante forte, e assim, talvez um dia, pudesse retribuir-lhe. Então o alfaiate libertou o potro.

Mas ele não tinha comido desde o dia anterior. Daí viu uma cegonha e prendeu-a por uma das pernas, pensando em cortar-lhe a cabeça para ter o que comer. Mas a cegonha lhe contou que era um pássaro sagrado que nunca prejudicava a ninguém, que era de grande utilidade para a raça humana e lhe implorou para continuar a viver. Disse ao alfaiate que um dia poderia lhe ser útil. Assim, deixou que ela voasse livremente. Depois o alfaiate avistou dois patos numa lagoa. Prendeu um deles, querendo torcer-lhe o pescoço para ter o que comer. Mas uma velha pata saiu nadando de trás de uns arbustos e lhe implorou piedade pelos queridos filhotes. "Pense", disse ela, "o que diria sua mãe se alguém quisesse acabar com você!" Assim o bem humorado alfaiate permitiu que ela ficasse com seus filhotes e colocou os patinhos de volta na água. Quando se voltou viu uma velha árvore oca em que as abelhas enxameavam. "Esta será minha recompensa por minhas boas ações", pensou o alfaiate, mas a abelha rainha aproximou-se e disse: "Se você tocar no meu povo e destruir minha colmeia, nós o picaremos com dez mil agulhas em brasa. Deixe-nos em paz, siga seu caminho e como recompensa lhe prestaremos algum serviço um dia". Assim o alfaiate foi-se embora, chegando esfomeado na cidade. Como era meio-dia entrou numa estalagem para comer; depois foi procurar emprego, achando um muito bom. Como era um ótimo alfaiate, logo tornou-se famoso e todos queriam um casaco confeccionado por ele — até que finalmente foi nomeado alfaiate da corte.

Mas, como acontece na vida, no mesmo dia seu antigo companheiro foi feito sapateiro da corte e quando este o viu com os olhos sãos, sentiu a consciência pesada e planejou destruí-lo antes que ele pudesse contar sua história. Assim, à tarde, tendo terminado seu trabalho foi procurar o rei, contando--lhe que o alfaiate era um camarada insolente que se vangloriara de poder encontrar a coroa de ouro, perdida nos tempos antigos. Na manhã seguinte o rei pediu para chamarem o alfaiate, ordenando-lhe que exibisse a coroa ou deixasse a cidade para sempre. O infeliz alfaiate arrumou sua trouxa e preparou-se para deixar a cidade, mas estava triste por ter que abandonar o lugar onde tudo tinha ido tão bem. Quando chegou à lagoa, onde tinha encontrado os patos, lá estava a velha pata limpando o bico na margem. 0 alfaiate contou o que lhe tinha aconte eido. "Só isso?", perguntou a pata. "A coroa caiu na água e jaz no fundo da lagoa. Deixe apenas um lenço na margem". Então ela mergulhou com seus doze filhotes; passados cinco minutos voltou com a coroa pousada nas asas e os doze patinhos à sua volta seguravam-na com o bico. Então o alfaiate, envolvendo-a com o lenço, levou-a ao rei que lhe deu uma corrente de ouro em recompensa.

Quando o sapateiro viu que a sua trama tinha fracassado, tornou a procurar o rei, dizendo que o alfaiate se vangloriara de poder construir um mo- delo do castelo real em cera, com tudo o que havia dentro. O rei ordenou ao alfaiate que realizasse essa façanha; e se faltasse um alfinete que fosse, ele seria aprisionado debaixo da terra pelo resto de seus dias. O alfaiate achou que as coisas iam de mal a pior, que ninguém poderia suportar isso, e mais uma vez ele se foi. Quando chegou à árvore oca, a abelha rainha voou para fora e lhe perguntou se estava com torcicolo, pois andava cabisbaixo. Aí o alfaiate lhe contou a história. Todas as abelhas começaram a zumbir e a rainha lhe disse que fosse para casa e voltasse no dia seguinte, na mesma hora, mas com um casaco bem grande. Quando voltou no dia seguinte, elas tinham construído um modelo perfeito. O rei ficou encantado e deu-lhe uma linda casa de pedra.

Pela terceira vez, a sapateiro contou ao rei que o alfaiate se vangloriara de poder fazer, no páteo real, um chafariz tão alto quanto um homem e tão claro como o cristal. Veio então a ordem de que o alfaiate teria que fazê-lo sob pena de ser decapitado. Mais uma vez ele se preparou para ir embora, com lágrimas caindo pela face. Mas o potro aproximou-se correndo, dizendo que sabia qual era o problema. Nem bem o alfaiate montou-o ele galopou até o páteo real, deu três voltas como um raio e na terceira jogou-se no chão. Nesse instante, ouviu-se um tremendo estrondo e uma imensa bola de terra voou pelos ares sobre o castelo; imediatamente depois, a água jorrou tão alta quanto um homem montado a cavalo e tão clara como o cristal. Quando o rei viu isso, abraçou o alfaiate na frente de todo mundo.

Porém, mais uma vez a sorte não durou. O rei tinha muitas filhas, cada uma mais bonita que a outra, mas nenhum filho, e o malvado sapateiro disse novamente ao rei que o alfaiate se vangloriara de poder trazer-lhe um filho através do ar. O rei chamou o alfaiate dizendo que se este lhe trouxesse um filho, poderia se casar com sua filha mais velha O alfaiate foi para casa imaginando o que poderia fazer para resolver o problema. Novamente pensando que nada poderia ser feito, arrumou sua trouxa e foi-se embora, dizendo: "Deixarei este lugar porque aqui não consigo viver em paz". Mas, chegando ao campo, encontrou sua velha amiga, a cegonha, que o saudou. Quando lhe contou sua história, a cegonha disse que não esquentasse a cabeça, pois há muito tempo trazia bebés para a cidade e dessa vez poderia tirar um príncipe do fundo de um poço. O alfaiate devia voltar para casa e ficar tranquilo. Dentro de nove dias deveria ir à corte onde também estaria a cegonha. 0 alfaiate foi para casa e, no dia marcado, dirigiu-se ao castelo e logo depois a cegonha chegou, batendo na janela. O alfaiate abriu-a e ela entrou, andando cuidadosamente com suas longas pernas no chão de mármore, carregando no bico uma criança que parecia um anjo. O bebé estendeu as pequeninas mãos para a rainha. A cegonha colocou-o no seu colo, deixando-a extasiada, e o alfaiate casou-se com a filha mais velha do rei.

E o sapateiro teve que fazer os sapatos para o alfaiate dançar na festa do casamento; depois ordenaram-lhe que abandonasse a cidade para sempre. Seu caminho através da floresta conduziu-o até a forca. Exausto de raiva e do calor do dia jogou-se no chão e quando fechou os olhos, querendo dormir, as duas gralhas pousaram e com grande alarido arrancaram-lhe os olhos. O sapateiro saiu vagando como um louco pela floresta e deve ter morrido lá, pois ninguém nunca mais o viu, nem ouviu falar dele.

–––––––––
continua…

Fonte:
Marie-Louise Von Franz. A sombra e o mal nos contos de fada
[tradução Maria Christina Penteado Kujawski]. São Paulo : Paulus, 1985. Disponível em http://groups.google.com/group/digitalsource

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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