sábado, 13 de agosto de 2016

Paulo Leminski (rosa rilke raimundo correia)


Juan Pablo Villalobos (1973)

“A influência dos espaços na produção literária”, com Juan Pablo Villalobos, dia 16/09, às 19h30, na 3ª FLIM - Festa Literária Internacional de Maringá, no Centro de Convivência Comunitária Renato Celidônio, ao lado da prefeitura.
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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, em 1973.

Casado com uma brasileira, com quem tem dois filhos “meio mexicanos, meio brasileiros”, foi residir em Campinas (SP), onde se dedicou a concluir a trilogia sobre seu país natal. Na Espanha, com uma bolsa de estudos da União Europeia, fez o doutorado em Teoria Literária.

Autor dos romances Fiesta en la madriguera (Anagrama, Espanha), publicado no Brasil como Festa no covil (Companhia das Letras, 2012), traduzido para 15 idiomas, e Si viviéramos en un lugar normal (Anagrama, Espanha), publicado no Brasil como Se vivêssemos em um lugar normal (Companhia das Letras, 2013), traduzido para 8 idiomas. A edição inglesa de Festa no covil, Down the Rabbit Hole (And Other Stories), foi finalista do prêmio First Book Award do jornal londrino The Guardian e selecionada como livro do ano nas listas de The Daily Telegraph e The New Statesman. Festa no covil foi adaptado para o teatro em São Paulo e seus direitos foram vendidos para o cinema. A edição inglesa de Se vivêssemos em um lugar normal, chamada Quesadillas (And Other Stories), recebeu o Pen Club Award e foi selecionada como livro do ano nas listas de The Guardian e Financial Times.

Escreve para diferentes revistas, jornais e blogs do México, Brasil, Espanha, Colômbia, Argentina, Reino Unido e Estados Unidos. É colunista do Blog da Companhia das Letras e do Blog do Pen Club do Reino Unido. Seus livros estão publicados no Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Holanda, Hungria, Turquia, Estados Unidos, Japão, Rússia, Israel, Romênia, Bulgária e Portugual.

Traduziu para o espanhol os romances brasileiros Todos os cachorros são azuis, de Rodrigo de Souza Leão, e O drible, de Sérgio Rodrigues. É bolsista do Sistema Nacional de Creadores de Arte de México.

Fontes:
Facebook
CELPCYRO

Folclore Japonês (Neko-no-Hi: Dia dos Gatos no Japão)

Os gatos são um dos bichos mais estimados na “Terra do Sol Nascente”. Tanto é verdade que existem lugares e lendas que o tem como sagrado. São Santuários, amuletos, mascotes, cafés e até ilhas, isso mesmo, ilhas conhecidas como “Ilha dos Gatos”, onde o bichano é reverenciado. Nestas duas ilhas japonesas, a de Aoshima e Tashirojima, os gatos, rodeados por um pequeno grupo de humanos, é que reinam. O amor por esses pequenos felinos é tamanho que existe até um dia dedicado a homenageá-los, é o dia 22 de fevereiro, conhecido no Japão como “Neko-no-hi”, ou “O dia dos gatos”.

Neko-no-Hi: Origens

A escolha da data tem uma razão, na língua japonesa o número 2 é pronunciado como “ni” e 22 de fevereiro pode ser escrito 22/2, ou seja, “Ni Ni Ni”. Portanto, se repetida três vezes a data, a pronúncia: “Nyan Nyan Nyan” se assemelha ao miado de um gato.

Considerada uma jogada de marketing, a data foi criada em 1987, por uma fabricante de ração para pets, a “Japan Pet Food Association”. Neste dia os donos celebram seus bichanos queridos com presentes, passeios especiais como a ida a um Santuário dedicado ao felino. Acontecem ainda diversos eventos e campanhas no arquipélago, seguida de atividades educativas sobre os gatos.

Inspirados por esse apego dos japoneses ao gato, no Japão existem Santuários Xintoístas destinados exclusivamente a rezar por saúde e vida longa de seus animais de estimação, os “Nekogami Jinja” (Santuário dos Gatos). Localizados em Kagoshima e Kannushi, os Santuários Xintoístas tem uma fonte de água, onde os visitantes jogam moedas e fazem pedidos logo em seu “Toril” (Portal de entrada). Existe até uma lenda que justifica a criação dos Santuários:

Origem do  Santuário dos Gatos

Segundo a lenda, por volta do ano de 1572, Yoshihiro Shimazu, um grande samurai, viajou certa vez de Kyushu para a Coreia, para a “Batalha de Kizakibaru”. Junto com sua comitiva, ele levou sete gatos, porém não como animais de estimação.

Contam que, o samurai conseguia decifrar as horas ao longo do dia através das pupilas dos olhos dos 7 gatos, que mudavam de acordo com a posição do sol, especificamente 6:00 am, 8:00 am, 10:00 am, meio-dia, 2:00 pm, 4:00 pm e 6:00 pm. O que possibilitou Yoshihiro ter uma maior precisão do tempo durante sua longa batalha, permitindo vencer seu inimigo. A vitória contra o clã Ito, é tida com grande contribuição para a unificação de Kyushu.

Sendo um budista devoto, Yoshihiro construiu um monumento para as tropas inimigas durante a “Segunda Guerra dos Sete Anos”. A participação de Yoshihiro foi essencial para o clã Shimazu, tornando-se o 17 º Senhor de Shimadzu.

Por fim, ao final da batalha, apenas dois dos sete gatos sobreviveram e foram levados de volta à Kagoshima. Como forma de gratidão ao serviço e lealdade prestados, em 1602, o senhor Shimadzu construiu um santuário dedicados exclusivamente a eles.

Após a Restauração Meiji (1868), a família mudou-se para a Vila Shimadzu e o Santuário dos Gatos foi transferido para lá, tornando-se um local de devoção a todos os gatos.

Ainda relacionado ao evento, no Santuário foi criado o “Toki no kinenbi” (Dia do Tempo) comemorado no dia 10 de junho.

Nessa data, no Templo, relojoeiros e apreciadores de gatos, prestam homenagem a estes dois gatos sobreviventes da lenda, os “gatos do tempo”. No local também são feitas orações para os gatos que tenham morrido ou que estejam doentes, ou para encontrar seus bichos perdidos. Ou simplesmente, agradecer e celebrar seu animal de estimação, com mensagens escritas em plaquinhas de madeira (emás) que são penduradas nas paredes do Santuário.
A paixão pelos felinos é tamanha, que no Japão existem locais onde, pessoas que não tenham oportunidade de manter esses bichanos em seu lar, possam passar um tempo com seus animais preferidos, os chamados “Cat Cafe”.

Ou, se preferir, pode adquirir um amuleto com o gato da sorte, o “Manekineko” ou um exemplar do mascote do Castelo de Hikone, província de Shiga, muito popular no Japão o “Hikonyan” também chamado de “Gato Samurai”. Ou ainda, a gatinha mais famosa do Japão, a “Hello Kitty”.

Enfim, gatos não faltam na “Terra do Sol Nascente” e são, sem sombra de duvidas, um dos animais mais queridos dos japoneses.

Fonte:
Caçadores de Lendas

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Paulo Leminski (" O poema")


Ana Maria Machado (Era uma Menina do seu Tamanho)

Era uma vez uma menina. Não era uma menina deste tamanhinho. Mas também não era uma menina deste tamanhão. Era uma menina assim mais ou menos do seu tamanho. E muitas vezes ela tinha vontade de saber que tamanho era esse, afinal de contas. Porque tinha dias que a mãe dela dizia assim:

- Helena, você já está muito grande para fazer uma coisa dessas. Onde já se viu uma menina do seu tamanho chegar em casa assim tão suja de ficar brincando na lama? Venha logo se lavar.

Que já era bem grande.

Mas às vezes, também, o pai dizia assim:

- Helena, você é muito pequenina para fazer uma coisa dessas. Onde já se viu uma menina do seu tamanho ficar brincando num galho de árvore tão alto assim? Desça já daí. Se não, você pode cair

Ai Helena achava que era mesmo uma bebezinha que não podia fazer nada sozinha.

E era sempre assim. Na hora de ir ajudar no trabalho da roça, ela era bem grande. Na hora de ir tomar banho no rio e nadar no lugar mais fundo, ela ainda era muito pequena. Na hora que os grandes ficavam de noite conversando no terreiro até tarde, ela era pequena e tinha que ir dormir. Na hora em que espetava o pé com um espinho e queria ficar chorando no colo de alguém, só com dengo e carinho, sempre dizia que já estava muito grande para ficar fazendo manha. Se ela tivesse um espelho mágico, que nem rainha madrasta da Branca de Neve, bem que podia perguntar:

- Espelho meu, espelho meu, que tamanho tenho eu?

Fonte:
Ana Maria Machado. Bem do seu tamanho. RJ: Brasil – América, 1982

Sandra Regina Moura* (O Processo de Investigação de Caco Barcellos como Ato Comunicativo)

*(UFPB/PUC-SP)

Quando pensamos na investigação jornalística de Caco Barcellos com tendência para a comunicação, faz-se necessário ressaltar que estamos lidando com conceitos explorados pela pesquisadora Cecília Almeida Salles, que, a partir da semiótica peirciana, olha para o processo de criação como um ato comunicativo.

Em termos peircianos, todo pensamento é dialógico na forma, seja externamente, ocorrendo entre duas pessoas ou mais, seja internamente, ocorrendo no próprio pensamento de uma pessoa. Cecília Almeida  Salles coloca a questão nos seguintes termos:

Cabe nos relembrar que essa recepção criativa do pensamento não é limitada, para Peirce , à presença de um  interlocutor externo. Pode se tratar de um diálogo que se dá na mente de um mesmo indvíduo — é o diálogo entre diferentes fases do ego de que Peirce fala — o interlocutor  é interno, é o próprio indivíduo.
Em sua fase de gestação, o pensamento do criador mostra ser dialógico. É o seu pensamento dialogando com diferentes fases do ego. É o escritor não como um individual  — seus  pensamentos são o que ele está dizendo a ele mesmo (inesperadamente e intrometidamente ele está, também dizendo aquele que observa seu processo criativo)
”(1990: 77).

A nossa proposta toma como base a ideia de que a investigação de Caco Barcellos surge  como diálogo do jornalista com ele mesmo, com seus pesquisadores, com seus amigos e com suas fontes de informação. Para estudo, tomamos como referência o livro de sua autoria, Rota 66, lançado em 1992.

Rota 66 é resultado de um trabalho investigativo em que o jornalista Caco Barcellos denuncia que a maioria das pessoas assassinadas por policiais militares, no período de abril de 1970 a junho de 1992, durante o patrulhamento no município de São Paulo, constitui-se de inocentes. A obra  desvenda os métodos de extermínio da PM, traça o perfil dos matadores e das vítimas e mostra as circunstâncias em que foram assassinadas. O balanço final revela que  a polícia mata mais jovem, negro ou pardo, migrante, principalmente da região Nordeste, e morador da periferia da cidade.

NO JORNALISMO:

Antes de adentramos no processo de investigação de Caco Barcellos, optamos por apontar a presença do ato comunicativo no processo de produção jornalística, mais especificamente na relação do jornalista com três dos principais processos de captação da informação: entrevista, fonte e pauta.

Nossa opção justifica-se tendo em vista que Caco Barcellos traz para a reportagem em livro, no caso Rota 66, esses três recursos de obtenção da informação jornalística.

Em linhas gerais, podemos dizer que está na própria natureza da entrevista a necessidade de ser compartilhada. Um dos seus objetivos é exatamente o da comunicação humana. Nesse sentido, evidenciamos que a relação do jornalista com as fontes de informação é um ato comunicativo, que se manifesta nas perguntas e respostas ou até mesmo  nas perguntas sem respostas, na busca da confiança recíproca, nas interferências, no gesto, no olhar e na atitude corporal.

Ao apontar a evolução do processo de captação da informação, no jornalismo, Cremilda Medina (1982) sugere que, mais do que extrair informações do entrevistado, o repórter deve estabelecer elos de confiança para que se instaure o diálogo de fato na entrevista. “É justamente neste ponto do processo jornalístico que se define uma situação comunicacional e não apenas, como insistem os teóricos, depois que o produto é veiculado e ocorre ou não a reação de feedback” (1982: 146).

Ao nosso ver, Medina  constata que o processo jornalístico se manifesta com uma tendência para a comunicação. Neste trajeto o jornalista já encontra-se imerso na rede comunicativa. A autora mostra, ainda, que “na feitura da reportagem existe uma situação comunicativa básica: as fontes de informação são parte da própria realidade e a relação do repórter com essa realidade pode se processar de forma dinâmica, interativa, ou estática, unilateral” (1982: 146).

No âmbito das preocupações do processo jornalístico, a pauta mantém relações estreitas com a entrevista e a fonte. Apresenta-se também como espaço de comunicação em que repórter, pauteiro, chefias, editorias e diretorias  se interagem sobre a feitura das edições jornalísticas. Clóvis Rossi (1988) atribuiu à pauta duas funções básicas: a de orientar repórteres para a cobertura jornalística e a de manter chefias e direção a par de tudo que está sendo planejado e executado pela redação.

A pauta concentra em si força determinante no processo comunicativo. Desde o momento em que é planejada, até a sua execução, ela é construída com tendência para a comunicação. A começar pelas chamadas reuniões de pauta, em que editores discutem os prováveis fatos a serem noticiados. Sem falar que ela poderá decorrer também de sugestões do repórter e do leitor.

Ronaldo Henn (1996) observa que, dependendo da estatura de cada redação, uma série de reuniões de menor porte são desenvolvidas nas editorias específicas, que poderão delinear novas pautas em função das pulsões do cotidiano ou mesmo da inadequação do que foi proposto inicialmente. O autor lembra, ainda, que, quando a edição entra em processo final de fechamento, nova reunião de pauta é realizada, com o intuito de se fazer um balanço do que foi apurado no decorrer do dia.

Inserindo o estudo de Ronaldo Henn na nossa discussão, podemos dizer que as observações do autor reforçam a ideia de que a pauta é um processo com tendência comunicativa. Nas rotinas dos periódicos e meios eletrônicos, a pauta funciona como uma espécie de elo entre repórteres, pauteiros, chefias e editores. Ela praticamente obriga os produtores do jornalismo a permanecerem ligados durante todo o dia. Motivados pela pauta, é comum encontrar nas redações editores indagando seus repórteres durante o processo de produção jornalística: “Conseguiu falar com o ministro?”, “Localizou o senador?”. E por aí vai.

A INVESTIGAÇÃO:

As formas de registro do processo investigativo de Caco Barcellos revelam a investigação como um percurso com tendência para a comunicação. Observando o  trajeto de Barcellos, flagramos instantes em que o jornalista dialoga com ele mesmo, com sua equipe de pesquisadores, com suas fontes de informação e com seus amigos.

Essas marcas da comunicação na questão processual, no caso de Caco Barcellos,  se manifestam, por exemplo, em uma das cartas localizada no emaranhado dos documentos que nos foi entregue para estudo. Nesta correspondência, que supomos, pelo teor,  tratar-se de um interlocutor da confiança do jornalista, há uma voz que elogia e comenta o estilo de Barcellos em Revolução das Crianças: sobre a revolução sandinista na Nicarágua, um livro anterior a  Rota 66.

Esta carta é um dos elementos que nos permite flagrar o incentivo que o jornalista recebeu dos amigos para a realização de Rota 66 e também permite revelar momentos de fragilidade do jornalista diante de seu objeto. “Não tenho certeza, mas acho que é Conrad quem diz que o objetivo de um escritor é fazer o leitor enxergar. Acho seu livro um bom exemplo disso. Há uma sinceridade, um compromisso, uma urgência, uma espécie de ‘febre’ humanista”, diz um dos trechos da correspondência referindo-se à Revolução das crianças. Logo a seguir, temos entre parênteses: “Lembrei-me de você falando que, às vezes, ficava desanimado para escrever Rota 66 por achar que isso só interessaria a você e tive vontade de te telefonar, em plena madrugada, para dizer que  você tem o compromisso moral de escrever este livro. Hoje eu tenho certeza que a tarefa do romancista contemporâneo é exatamente esta, colher pedaços de vida e dispôs-los no papel”. É o que diz a carta quando Barcellos ainda esboçava a idéia de escrever o seu segundo livro.

    Seguindo na linha do aspecto comunicativo, observamos que alguns amigos têm um papel fundamental no processo de Caco Barcellos. “Quando escrevi as primeiras linhas de Rota 66, enviei o texto para um amigo meu em Porto Alegre.   Ele leu e devolveu dizendo que gostou do texto”, revela o jornalista em depoimento à autora deste trabalho.

    Essa necessidade de uma  quase que “aprovação” dos seus leitores particulares, quando a obra encontra-se ainda em processo, pode ser apontada em outro momento do trajeto de Barcellos. Na fase de redação, são dadas sugestões pela editora e amiga Eliana Sá, a quem o jornalista confiou a sua obra. “Acabei não cortando nenhum dos textos dos processos. Achei que procedem e que, afinal de contas, um dos capítulos pode ser mais ‘preciso’. Fiz algumas pequenas mudanças e enxuguei algumas outras laudas. Veja o que você acha”. Em outra anotação, a mesma leitora acrescenta: “Caco, devolvendo já lido. Gostei. Veja algumas propostas de mudanças”.

PESQUISADORES:

Além dos amigos, identificamos também diálogos entre Caco Barcellos e seus pesquisadores. Nesse sentido, as fichas, criadas para armazenar informações sobre assassinatos divulgados pelo Notícias Populares, jornal diário de SP, envolvendo civis e policiais militares, desempenham um papel fundamental na investigação. Além de servirem para abrigar o resumo dos principais dados de cada caso, as fichas registram boa parte da comunicação travada pelo jornalista com seus colaboradores.

A ficha, criada  para dar praticidade a anotação dos dados principais de cada caso, traz informações sobre a vítima, como nome, idade, cor da pele, endereço, profissão, local e motivo da morte. Também armazena dados dos matadores, além dos nomes da delegacia da área do tiroteio e do delegado que escreveu o boletim de ocorrência.

No espaço destinado nas fichas às observações do pesquisador, há manifestação do aspecto comunicativo. São idéias registradas em anotações de Barcellos para os seus colaboradores e vice-versa. Nas fichas, do período de 1970 a 1979,  correspondente ao resumo das matérias do Notíciais Populares, em boa parte se localizam as expressões: “Investigar na ficha IML”, “Procurar na ficha IML” ou “Ver  ficha IML”. São termos utilizados por Barcellos para dar continuidade a investigação dos casos noticiados pelo jornal.

Um exemplo dessa comunicação entre Barcellos e seus colaboradores está na ficha datada de 10 de abril de 1979. No resumo dos dados, o pesquisador Sidnei Marques Silva escreve o nome e a idade de dois mortos, a partir das informações colhidas no NP. Na mesma ficha, Caco Barcellos faz a seguinte anotação: “Não consta IML? Checar”.

Os pesquisadores atuam como interlocutores. Sidney Silva mantém com Caco Barcellos o seguinte diálogo: “Hoje faz quatro meses que estou lendo esse jornal. Você já notou que não tem notícia de tiroteio com sobrevivente?”. Em outro momento, o pesquisador sugere: “Tiroteio na Penitenciária. Placar: 31 mortos. PM zero. Nenhum. Isso é um massacre, Caco Barcellos. Tem que ser denunciado”. São observações que oferecem rumo à investigação: “Mais um morto no meu bairro. Sempre negro ou pardo, está percebendo”, diz Sidnei em um outra anotação, chamando a atenção de Caco Barcellos para a hipótese de que a PM mata mais negro ou pardo.

FONTES:

Outro aspecto interessante, do ponto de vista processual, é a comunicação que Caco Barcellos estabelece com as fontes  de informação. Para o trabalho de identificação dos matadores e de suas vítimas, Barcellos tentou, durante anos, obter informações sobre o andamento de processos na Auditoria Militar de São Paulo. Os juízes negavam esses pedidos, alegando dificuldades na localização  dos processos porque o jornalista nem sempre tinha identificação dos envolvidos no crime.

Depois  que conseguiu identificar os principais matadores pelo banco de dados que criou no início da pesquisa, juntamente com sua equipe, Barcellos conseguiu obter no distribuidor criminal da Auditoria os números dos processos que desejava. Na documentação de Rota 66 que tivemos acesso, encontramos vários pedidos, por escrito,  em que Barcellos solicita ao órgão responsável bloco de folhas para requerer certidões no poder judiciário, alegando que o objetivo era a realização de uma longa pesquisa sobre antecedentes criminais para a sua empresa Pena Branca Produções de Vídeo.

No seu percurso, Barcellos se defronta com outros entraves burocráticos. De posse dos números obtidos no distribuidor criminal, o jornalista tentou consultar os processos nos cartórios da Justiça Militar. Em 1987, alguns juízes não permitiram. Cinco anos depois, o jornalista, em  pedido encaminhado ao juiz da primeira Auditoria, Paulo Antônio Prazak, solicita autorização para consultar os processos de sete policiais militares. Desta vez, alega que o objetivo da pesquisa é o levantamento de dados para a produção de futuros trabalhos jornalísticos.

    Entre os documentos submetidos à nossa análise, localizamos esta solicitação,  acompanhada da resposta do juiz, com data de 10.02.92.

“1 — D. O signatário a formular pedidos distintos para  cada qual dos processos aos quais serão juntados apresentando qual: filiação(...),incluindo seu(s) endereço(s)
2 — em conta dos objetivos, o signatário deverá responsabilizar-se, por eventuais lesões causadas, notadamente quanto ao que dispõe o artº 5º, inciso X da Constituição Federal, aliás expressamente referido pelo art. 220, parágrafo 1º da mesma Carta Magna”.

     A relação de Caco Barcellos com as suas fontes vem se revelando a todo momento tratar-se de um ato comunicativo. Deparamo-nos com um documento, datado de 24 de abril de 1992, dirigido ao Diretor do Instituto Médico Legal de São Paulo, em que Barcellos solicita autorização para Sidnei Marques Silva, da sua equipe de pesquisadores, prosseguir no levantamento de dados, junto ao fichário desta Instituição, para o complemento da pesquisa de sua autoria sobre “morte por causa violenta”. E esclarece: “Nesta parte do trabalho sua tarefa será a de conferir dados já obtidos. Portanto, poderá ser realizada num período aproximado de dez dias”.

Esse processo comunicacional entre jornalista-fonte é reforçado por um outro documento localizado no material que nos foi apresentado. Trata-se de um questionário encaminhado por Caco Barcellos a pessoas que perderam parentes, vítimas da violência na cidade de São Paulo. O documento, redigido em uma única folha, divide-se em dois tópicos: o primeiro, com cinco perguntas, refere-se à hipótese de a pessoa não ter recebido indenização pela morte do parente; o segundo, com seis indagações, destina-se aos casos de pessoas que não foram indenizadas.

Na comunicação com suas fontes, Barcellos esclarece o objetivo da sua pesquisa. “Meu interesse nesse trabalho é saber exatamente qual é o tamanho do seu drama. O seu caso já está registrado no nosso Banco de Dados. Mas ainda nos faltam algumas informações, que são fundamentais para conseguirmos melhores resultados nesse trabalho”.

Esse recurso comunicativo permeia todo o processo. Encontramos Caco Barcellos dialogando com ele mesmo. Seu caderno de anotações esboça algumas indicações desse momento dialógico. É o jornalista mergulhado na sua tarefa de conhecer melhor cada caso. “Checar caso Dirley e Hoffman (17 anos) Favela Heliópolis - Liga Martinez”. Em outra anotação: “Ir ao Paulistano”. Ou: “Nomes  PMs averiguar”.

Os trechos das anotações do jornalista, em seu caderno, revelam a preocupação constante de investigar cada vez mais os casos envolvendo crimes de policiais militares. Evidencia a necessidade de checagem das informações, o cuidado com a apuração dos assassinatos, a atenção a detalhes dos casos investigados e a busca por um aprofundamento dos fatos.

Em determinado momento, flagramos Barcellos numa conversa, na qual evidencia essas preocupações: “Fiz pesquisa no distribuidor criminal sobre alguns PMs”. Em outra folha do caderno, temos: “A fazer auditoria. Caso Pixote. Caso Zezinho. Caso Casa de Detenção”. De certo modo, os registros desses instantes vão deixando transparecer o método de investigação do jornalista.

Nas fichas do NP, também identificamos marcas dessa comunicação íntima. Nesse diálogo, Barcellos vai fazendo conexão com outros casos. Na ficha NP, datada de oito de abril de 1979, encontramos essa ligação. “Atenção Diadema - lembrei Lázaro”.

CONSIDERAÇÕES:

A intromissão no processo investigativo de Caco Barcellos permite apontar que a rede comunicativa se instaura no sentido de oferecer pistas à investigação, colaborar na apuração de dados e auxiliar o jornalista em suas decisões.

Com base no que foi analisado, até o momento, percebemos que esses documentos revelam as estratégias criadas por Caco Barcellos para ter acesso à informação. Como vimos, ora o jornalista justifica que os dados servirão para a realização de uma longa pesquisa sobre antecedentes criminais para a sua empresa Pena Branca Produções de Vídeo, ora o levantamento de dados destina-se à produção de futuros trabalhos jornalísticos. Uma terceira possibilidade apresentada é de que a pesquisa é sobre morte por causa violenta.

O mergulho no mundo processual do jornalista vai revelando, a cada documento, a complexidade do processo de investigação dos casos de Rota 66. Cada vez mais, nos deparamos com uma rede comunicativa, que vai revelando uma série de mediações entre o acontecimento e a investigação.

Como vimos, são mediações ancoradas nas fontes, na pauta, nos pesquisadores, nos amigos etc. Uma anotação de uma das pesquisadoras,  Luciana Burlamaqui, para Barcellos, após o cumprimento de uma das pautas preparadas pelo jornalista, exemplifica bem  esse desencadeamento de signos interpretantes que irá redundar em Rota 66. Vejamos o registro: “Procurei reproduzir a entrevista, dando as minhas impressões no que julguei mais importante, para tentar lhe passar qual a postura dele diante do caso 66 e de outros conceitos”. Vale lembrar que Burlamaqui refere-se à entrevista feita por ela com o sargento Antônio Sória, um dos envolvidos nos casos de assassinatos.

Eis outro trecho que registra as impressões de Burlamaqui:

Sobre o caso de Rota 66, ele não disse nada de muito revelador, acho que você sabe tudo. O mais interessante são as suas opiniões, o que pensa da polícia, bandidos e como se coloca no caso com a sua ‘falta de memória’ e o seu medo de falar. Achei o mais importante de tudo o fato dele não se arrepender de nada e que faria tudo novamente”.

         Tal constatação evidencia a complexidade do processo investigativo de Caco Barcellos. No caso citado acima, os acontecimentos (os assassinatos) já passam pela mediação de um signo produzido pela pauta (elaborada por Barcellos), pela fonte (no caso, o militar Antônio Soria), e pela repórter (encarregada de executar a entrevista, transcrevê-la e selecionar o que julga mais importante).

 BIBLIOGRAFIA

BARCELLOS, Caco. Rota 66: a história da polícia que mata. 18ª ed. São Paulo: Globo, 1993.
HENN, Ronaldo. Pauta e Notícia: uma abordagem semiótica. Canoas-RS: Ulbra, 1996.
MEDINA, Cremilda. Profissão jornalista: responsabilidade social. Rio de Janeiro: Forense, 1982.
________________. Entrevista: o diálogo possível. São Paulo: Ática, 1986.
ROSSI, Clóvis. O que é jornalismo. São Paulo: Brasiliense, 1988.
SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: Annablume, 1998.
_____________________.Uma criação em processo, Ignácio de Loyola Brandão e Não Verás País nenhum. Tese de Doutorado apresentada na PUC de São Paulo, 1990.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Paulo Leminski ("Pense depressa")


Lenda Russa (A Cobra D’Água)

Era uma vez uma senhora que tinha uma filha, uma dia a garota desceu à lagoa para tomar banho com outras meninas. Elas se despiram e caíram na água. Então uma cobra surgiu e se escondeu em suas roupas. Depois de um tempo, todas saíram, e começaram a se vestir, bem como a filha da anciã, mas quando ela quis botar as roupas descobriu a cobra deitada sobre elas. Ela tentou se livrar do animal, mas ele agarrou as roupas e não se moveu. Então, a serpente disse: “Se você casar comigo,  devolvo suas roupas.”

Ela não estava nem um pouco inclinada a se casar com ele, mas as outras meninas disseram, “Como se fosse possível você se casar com ele! Diga que vai!”

Então ela disse: “Muito bem, caso.” Então, a serpente largou as roupas e foi direto para a água. A menina vestiu-se e foi para casa. E logo que ela chegou lá, ela disse à sua mãe, “Mãe! Mãe! Aconteceu isso e isso, e então uma serpente pegou minhas roupas e disse: - Case comigo ou não vou deixar você mudar suas roupas! e eu disse: Caso!”

“Que besteira você está dizendo, sua bocó! Como se fosse possível você casar com uma cobra!” E assim tudo voltou ao normal e o assunto foi esquecido.

Uma semana se passou por, e um dia elas viram muitas cobras, como nunca tinham visto antes, uma enorme tropa se arrastando até a casa delas. “Ah, mãezinha! Salve-me! Salve-me!” chorava a menina e sua mãe bateu a porta e barrou a entrada o mais rapidamente possível. As cobras correram até a entrada, mas a porta foi fechada. Elas teriam corrido até a fresta, mas essa foi fechada também. Então, em um momento elas se enrolaram até formar uma bola, se arremessaram contra a janela, que foi feita em pedaços e formaram um só corpo que entrou na sala. A menina chegou junto ao fogão, mas eles a seguiram, se arrastaram para baixo dela, a puxaram para fora da casa, atravessando as portas. Sua mãe correu atrás dela, chorando como louca.

Elas levaram a menina até a lagoa e mergulharam direto na água com ela. E lá se transformaram em homens e mulheres. A mãe permaneceu durante algum tempo sobre o dique, lamentou-se um pouco, e depois foi para casa.

Três anos passaram. A moça vivia lá e tinha dois filhos, um filho e uma filha. Agora ela frequentemente pedia ao seu marido para que deixar ela ir ver a mãe. Então, finalmente, um dia em que ele levou ela até a superfície da água, e a deixou em terra. Mas ela perguntou-lhe antes de sair ele, “O que devo dizer quando quiser que você venha?”

“Diga, Osip, [Joseph] Osip, vem aqui! E eu virei" , ele respondeu.

Então ele mergulhou novamente debaixo de água, e ela foi ver a mãe, carregando a menina no seu braço e levando seu menino pela mão. Logo saiu a mãe para recebê-la. Ela ficou tão feliz por vê-la!

“Bom dia, mãe!” Disse a filha.

“Você está bem, vivendo lá embaixo?” Perguntou a mãe.

“Muito bem, mãe. Minha vida lá é melhor do era aqui.”

Eles sentaram e conversam um pouco. Sua mãe tinha o jantar pronto para ela, e ela jantou. “Qual é o nome do seu marido?” Perguntou a mãe.

“Osip”, ela respondeu.

“E como é que vocês vão voltar para casa?”

“Vou ir à represa, e aí chamo: - Osip, Osip, vem aqui! -  E ele vai vir.”

“Deite um pouco, filha, e descanse”, disse a mãe.

Assim, a filha deitou e dormiu. A mãe imediatamente pegou um machado e o amolou, descendo até a represa com ele. E quando ela chegou, começou a chamar: “Osip, Osip, vem aqui!”

Nem bem Osip mostrou sua cabeça a velha mulher pegou o machado e cortou ela fora. E água do lago ficou escura com o sangue.

A anciã foi para casa. E quando a velha chegou, sua filha acordou. “Ah! Mãe”, diz ela, “Estou ficando cansada de ficar aqui, quero voltar para minha casa.”

“Durma esta noite aqui, filha; talvez você não tenha outra chance de ficar comigo.”

Assim, a filha resolveu passar a noite ali. Pela manhã ela acordou e sua mãe aprontou um pequeno lanche para ela. Ela comeu e em seguida disse adeus para a mãe e foi embora, carregando sua menina em seu braço, enquanto o menino seguiu atrás dela. Ela chegou à represa e gritou: - “Osip, Osip, vem aqui!”

Ela chamou e pediu, mas ele não veio. Então ela olhou para a água e lá viu uma cabeça flutuando. Então ela adivinhou o que tinha acontecido.

"Ai! Minha mãe o matou! ” Ela chorava.

Lá na margem ela chorou e lamentou. E em seguida, para sua filhinha ela gritou “Voe como uma andorinha, agora e para sempre!”

E o seu menino chorava com ela, “Voe como uma cotovia, meu menino, agora e para sempre!”

“Mas eu”, disse ela, “voarei como um cuco, chorando “Cuckoo!” Agora e para sempre!

Fonte:
W. R. S. Ralston, Russian Folk-Tales (London, 1873) . Ralston’s source: A. A. Erlenvein. in https://casadecha.wordpress.com/tag/russia/

Voltaire (O Carregador Zarolho)

Os dois olhos que temos em nada melhoram a nossa condição, serve-nos um para ver os bens, e o outro para ver os males da vida. Muita gente possui o mau hábito de fechar o primeiro, e poucos fecham o segundo, eis por que há tantas pessoas que prefeririam ser cegos a ver, tudo o que veem. Felizes os zarolhos que só são privados desse olho mau que estraga tudo quanto a gente olha! Era o caso de Mesrour.

Seria preciso ser cego para não ver que Mesrour era zarolho. Era-o de nascença, mas era um zarolho tão satisfeito com a sua condição que jamais se lembrara de desejar outro olho. Não eram os dons da fortuna que o consolavam dos malefícios da natureza, pois não passava de um simples carregador e não tinha outro tesouro senão os seus ombros, mas era feliz, e mostrava que mais um olho e menos trabalho pouco contribuem para a felicidade. O dinheiro e o apetite lhe vinham sempre em proporção com o exercício que fazia, trabalhava de manhã, comia e bebia de tarde, dormia de noite, e considerava cada dia como uma vida à parte, de modo que a preocupação do futuro jamais lhe perturbava o gozo do presente. Era (como o vedes) ao mesmo tempo zarolho, carregador e filósofo.

Viu por acaso passar numa suntuosa carruagem uma grande princesa que tinha um olho mais do que ele, o que não o impediu de achá-la muito bela, e, como os zarolhos não diferem dos outros homens senão em que têm um olho de menos, apaixonou-se perdidamente pela princesa. Dirão talvez que, quando se é carregador e zarolho, o melhor é a gente não se apaixonar, principalmente por uma grande princesa e, o que é mais, uma princesa que tem dois olhos; no entanto, como não há amor sem esperança, e como o nosso carregador amava, ousou esperar.

Tendo mais pernas que olhos, e boas pernas, seguiu durante quatro léguas o carro da sua deusa, que seis grandes cavalos brancos puxavam velozmente. Era moda, naqueles tempos, entre as damas, viajar sem lacaios e sem cocheiro, conduzindo elas próprias o carro, queriam os maridos que elas andassem sempre sozinhas, para ficar mais seguros da sua virtude, o que é diametralmente oposto ao parecer dos moralistas, que dizem que não há virtude na solidão.

Mesrour continuava a correr junto às rodas do carro, voltando seu olho bom na direção da dama, espantada de ver um zarolho com tamanha agilidade. Enquanto ele provava assim o quanto se é infatigável quando se ama, um animal selvagem, perseguido por caçadores, atravessou a estrada, espantando os cavalos, que tomaram o freio nos dentes e já arrastavam a bela para um precipício. Seu novo apaixonado, ainda mais assustado do que ela, embora a princesa o estivesse bastante, cortou as correias com maravilhosa habilidade, somente os seis cavalos deram o salto mortal, e a dama, que não estava menos branca do que eles, apenas passou por um grande susto.

— Quem quer que sejas – disse-lhe ela – jamais esquecerei que te devo a vida; pede-me o que quiseres: tudo o que tenho está a teu dispor.

 — Ah! com muito mais razão – respondeu Mesrour – posso eu oferecer-vos outro tanto; mas, assim fazendo, sempre vos oferecerei menos, pois só tenho um olho, e vós tendes dois, mas um olho que vos contempla vale mais que dois olhos que não veem os vossos.

A dama sorriu, pois as galanterias de um zarolho são sempre galanterias, e as galanterias sempre fazem sorrir.

— Eu desejaria dar-te um outro olho – disse ela – mas só a tua mãe podia dar-te esse presente; mas continua a acompanhar-me.

Dizendo essas palavras, desce ela do carro e prossegue o caminho a pé, seu cãozinho também desceu e marchava ao lado da dona, ladrando para a estranha figura do seu escudeiro. Faço mal em lhe dar o título de escudeiro, porque, por mais que ele lhe oferecesse o braço, não quis a dama aceitá-lo, sob o pretexto de que o braço estava muito sujo, e ides ver agora como a princesa foi vítima de seu próprio asseio. Tinha ela uns pequeninos pés, e uns sapatinhos ainda menores, de maneira que não era feita para longas caminhadas, nem estava devidamente calçada para isso.

Lindos pezinhos consolam de ter pernas débeis, quando se passa a vida numa espreguiçadeira, em meio de uma porção de janotas, mas de que servem sapatos bordados e lantejoulados em um caminho pedregoso, onde só podem ser vistos por um carregador e, ainda por cima, por um carregador que só tem um olho?

Melinade (é este o nome da dama, que tive minhas razões para calar até agora, visto que ainda não fora inventado), Melinade avançava como podia, amaldiçoando o seu sapateiro, escorchando os pés, e dando um mau jeito a cada passo. Fazia hora e meia que ela marchava como as grandes damas, isto é, já fizera perto de um quarto de légua, quando tombou de fadiga.

Mesrour, cujos serviços ela recusara enquanto estava de pé, hesitava em lhos oferecer, por medo de a macular com o seu contato, pois bem sabia que não estava limpo (a dama claramente lho dera a entender), e a comparação que fizera em caminho entre a sua pessoa e a da sua amada ainda lho mostrava com maior clareza. Tinha ela um leve vestido cor de prata, semeado de guirlandas, que lhe ressaltava a beleza do talhe; e ele, um blusão pardacento, todo manchado, rasgado e remendado, e de tal maneira que os remendos ficavam ao lado dos buracos e não por baixo, onde estariam mais no seu lugar. Havia comparado as suas mãos musculosas e cobertas de calos com as duas pequenas mãos mais brancas e delicadas do que lírios. Vira enfim os lindos cabelos loiros de Melinade, que se entre mostravam através de um véu de gaze, penteados em tranças e cachos, e ele, para colocar ao lado disso, não tinha mais que umas eriçadas crinas negras, cujo único ornamento era um turbante roto.

No entanto Melinade tenta erguer-se, mas tomba em seguida, e tão desastradamente, que o que ela deixou ver a Mesrour tirou-lhe o pouco de razão que a vista de seu rosto pudera deixar-lhe. Esqueceu que era carregador, que era zarolho, e não mais pensou na distância que a fortuna pusera entre ambos, mal se lembrou que amava, pois faltou à delicadeza que dizem inseparável de um verdadeiro amor, e que às vezes lhe constitui o encanto, e muitas vezes o aborrecimento, serviu-se dos direitos à brutalidade que lhe dava a sua condição de carregador, foi brutal e feliz. A princesa, então, estava, sem dúvida desmaiada, ou lamentava a sua sorte, mas, como tinha um espírito justo, abençoava decerto o destino pelo fato de todo infortúnio trazer consigo o seu próprio consolo.

A noite estendera os véus no horizonte, e ocultava na sua sombra a verdadeira felicidade de Mesrour e a pretensa desgraça de Melinade. Mesrour desfrutava os prazeres dos perfeitos amantes, e desfrutava-os como carregador, quer dizer (para vergonha da humanidade) da maneira mais perfeita, os desmaios de Melinade voltavam-lhe a cada momento, e a cada momento o seu amante recuperava forças.

— Poderoso Maomé – disse ele uma vez, como homem arrebatado, mas como péssimo católico – só o que falta à minha felicidade é ser sentida por aquela que a causa, enquanto estou no teu paraíso, divino profeta, concede-me ainda um favor, o de ser para os olhos de Melinade o que ela seria para os meus olhos, se houvesse luz.

Acabou de rezar e continuou o prazer. A aurora, sempre demasiado diligente para os amantes, surpreendeu a ambos na atitude onde ela própria poderia ter sido surpreendida um momento antes, com Titono. Mas qual não foi o espanto de Melinade quando, abrindo os olhos aos primeiros raios do dia, viu-se num lugar encantado, com um homem de nobre estrutura, cujo rosto se assemelhava ao astro cuja volta a terra aguardava! Tinha faces de rosa, lábios de coral, seus grandes olhos, ao mesmo tempo ternos e vivos, exprimiam e inspiravam volúpia; sua aljava de ouro, ornado de pedrarias, pendia-lhe do ombro e só o prazer fazia ressoar as suas flechas; sua longa cabeleira, presa por um cordão de diamantes, flutuava-lhe livremente sobre os rins, e um tecido transparente, bordado de pérolas lhe servia de veste, sem nada ocultar da beleza do seu corpo.

— Onde estou, e quem és – exclamou Melinade no auge da surpresa.

— Estais – respondeu ele – com o miserável que teve a ventura de vos salvar a vida, e que tão bem cobrou o seu trabalho.

Melinade, tão satisfeita quanto espantada, lamentou que a metamorfose de Mesrour não tivesse começado mais cedo. Aproxima-se de um magnífico palácio que lhe atraíra o olhar e lê esta inscrição na porta: “Afastai-vos, profanos; estas portas só se abrirão para o senhor do anel.” Mesrour aproxima-se por sua vez para ler a mesma inscrição, mas viu outros caracteres e leu estas palavras: “Bate sem receio.” Bateu, e em seguida as portas se abriram por si mesmas com fragor. Os dois amantes entraram, ao som de mil vozes e de mil instrumentos, num vestíbulo de mármore de Paros; dali passaram para uma sala soberba, onde os esperava há mil duzentos e cinquenta anos um festim delicioso, sem que nenhum dos pratos houvesse esfriado: puseram-se à. mesa e foram servidos cada um por mil escravas da maior formosura; a refeição foi entremeada de concertos e danças; e, quando terminou, todos os gênios vieram, na maior ordem, em diferentes grupos, com vestuários tão suntuosos quão singulares, prestar juramento de fidelidade ao senhor do anel, e beijar o dedo sagrado que o carregava.

Ora, havia em Bagdad um muçulmano muito devoto que, não podendo ir lavar-se na mesquita, fazia a água da mesquita vir à sua casa, mediante uma pequena retribuição que pagava ao sacerdote. Acabava ele de fazer a quinta ablução, a fim de se preparar para a quinta prece. E a sua criada, rapariga insensata e muito pouco devota, desembaraçou-se da água santa lançando-a pela janela. A água caiu sobre um infeliz profundamente adormecido junto a um marco que lhe servia de apoio. Acordou-se com o choque. Era o pobre Mesrour que, voltando do seu passeio encantado, perdera na viagem o anel de Salomão. Deixara as soberbas vestes e retomara o seu blusão; sua bela aljava de ouro havia-se transformado num porta fardos de madeira e, para cúmulo da desgraça, tinha deixado um dos olhos no caminho. Lembrou-se então de que bebera na véspera grande quantidade de aguardente, que lhe adormecera os sentidos e aquecera a imaginação. E Mesrour, que até aquele instante amara essa bebida por gosto, começou a amá-la por gratidão, e voltou alegremente ao trabalho, resolvido a empregar o salário daquele dia na aquisição dos meios para tornar a ver a sua querida Melinade. Qualquer outro ficaria desolado de ser um mísero zarolho depois de ter tido dois lindos olhos; de sofrer as recusas das varredoras do palácio depois de haver gozado os favores de uma princesa mais bela do que as amantes do califa; e de estar a serviço de todos os burgueses de Bagdad depois de haver reinado sobre todos os gênios; mas Mesrour não possuía o olho que vê o lado mau das coisas.