Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 25 de março de 2019

Raul Poli (1946 - 2004)


A coragem é virtude

que enobrece o coração,

e mais atinge amplitude,

ao defender-se um irmão.



A façanha mais bonita

que alguém pode realizar,

é alegrar-se na desdita,

e sem pedir, ofertar.



Ancião, por que tens no olhar

dor profunda, sem igual?

- Só estou saudoso a lembrar

dos meus tempos de Natal…



A vida que nós amamos,

não passa de uma ilusão,

pois nela nos encontramos,

envoltos na escuridão.



A vida sempre a passar

arrasta todos com ela,

despeja prata o luar,

banha o beiral da janela.



Era pequeno e custava

pôr-me de pé a caminhar,

só percebi quando estava

aos pés da cruz a rezar...



Escritor sem dicionário

não atinge a perfeição.

Qual caneta é necessário,

igual os dedos da mão.



Estrela rica e brilhante

explode, dentro de mim,

como se fosse um diamante

com mescla de carmesim.



Eu sinto a vida enfadada

e tão inúteis meus dias...

– Não precisas fazer nada,

basta apenas que sorrias...



Eu tenho a chave da vida

que fecha a porta da dor.

Cura males e a ferida,

a excelsa chave do amor.



Fulge a lua prateada,

é pura voz da razão,

ouvir-se a boca fechada,

é o cantar do coração.



Lá nas paragens do Além,

no renascer verdadeiro,

a flauta doce do Bem,

há de soar por inteiro.



Lutava tanto por fama

que veio a tê-la de fato.

Por sossego agora clama,

busca refúgio no mato.



Na clara noite estrelada,

só valem letras escritas,

na campina ensolarada,

pedras também são bonitas.



Não preciso e não careço

ir ao encontro de um jardim

pois o mais belo adereço

se encontra dentro de mim.



Nesse mundo degradante

o decente perde espaço.

Rotulado a todo instante

com o timbre de palhaço...



No plano em que nós vivemos,

estamos mortos, ao certo,

por isso é que apenas vemos

dores e angústias por perto.



No rico pampa gaúcho

sento num toco no chão

mas sou um monarca de luxo

quando eu sorvo o chimarrão.



Olho pro céu, me parece

a cor de lá esmorecer,

talvez estrelas em prece

pela ventura de ver.



O que chamamos de morte,

e tanto nos faz chorar,

na verdade é a grande sorte,

glorioso retorno ao Lar.



Os rudes nossos avós

que eram sábios também,

legaram ditos pra nós

vermos das brumas além.



Quando o trabalho me cansa

ao chegar o fim do dia,

a minh’alma então descansa

nos acordes da poesia.



Quem não puder entender,

não se importe co’a demora.

O mais prudente é saber:

pra tudo há tempo e hora...



Quero-quero, sentinela,

no meio da noite grita,

espalhando que é por ela

que minha alma anda proscrita...



Sala nobre e iluminada,

partiu-se a mais fina taça,

tradição longa quebrada,

resta diamante com jaça.



Se me persegue um ladrão,

busco do guarda a perícia.

Agora, pergunto, então:

– Quem me salva da polícia?



Tangem, solenes, os sinos,

um monge canta, distante.

Na sinfonia dos dois hinos,

faço uma prece, exultante.



Todo mundo arruma um jeito

de eleger sua mãe, rainha.

Mas no reino do meu peito,

tenho um trono só pra minha.



Tudo tem igual valor,

no meu tranco de solteiro:

– Caso com o último amor,

mas lembrando do primeiro...



Um brilho fraco e distante,

do mais suave fulgor,

me acena muito lá adiante

pois era a estrela do amor.



Vamos fazer o correto,

de nossa vida um resumo:

tu serás meu objeto,

eu serei o teu consumo...



Vida, suprema magia,

hino de canto e louvor,

é luz que vibra e irradia

a plenitude do amor.
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Raul Poli nasceu no município de Coronel Pilar/RS, no ano de 1946. Coronel Pilar se tornou independente em 2001, e os coronelpilarenses se orgulham e veem em Raul Poli, mais que um filho, um expoente literário.

Deixou sua terra, ainda jovem, transferindo-se para Caxias do Sul,  onde ingressou na UCS, Universidade de Caxias do Sul, no curso de Bacharelado em Direito.

Além de sua profícua atuação profissional, de forma incondicional, contribuiu na difusão e elevação da Trova Literária, em todos os segmentos sociais.

Ainda que meteórica, também deixou suas marcas inscritas nas páginas da Academia Caxiense de Letras-RS, aonde ocupou a cadeira 23, cuja antecessora fora, coincidentemente, a primeira presidente da UBT, seção local, Eloy Maria de Oliveira Fardo.

Raul Poli faleceu no dia 21 de dezembro de 2004, numa terça-feira, no Pio Sodalício Damas de Caridade, Hospital Pompeia, de Caxias do Sul e o sepultamento ocorreu na sua própria cidade natal.

Procuramos resgatar dos anais trovadorescos, parte de um vasto legado do homenageado, num átimo de júbilo e reconhecimento do seu notório talento linguístico e poético a ressoar no universo literário, pelos séculos sem fim.

Raul Poli é autor das obras literárias, Cristal Cósmico, editada em 1997, Alquimia da Vida, editada em 2000, e Dança dos Girassóis, editada em 2003, formando assim uma trilogia, todas através da Gráfica da Universidade de Caxias do Sul.

O insigne autor também foi condecorado com várias premiações em diversos concursos literários, além de integrar inúmeras antologias, como o foi em “A Trova Literária em Caxias do Sul – II”, e tantas outras.

Raul Poli se caracterizou por sua disponibilidade em atuar, incentivando a arte literária, ainda que por vezes, não teve seu trabalho devidamente valorizado.

Muito estudioso e pesquisador, possuía dois trabalhos literários em vias de conclusão. Num deles abordava, em detalhes, o tradicional Chimarrão. Desde o plantio da erva-mate, até o desfolhamento e transformação em pó para o consumo. Além da secagem, moagem e envasamento, as regras básicas que norteiam o preparo do chimarrão, bebida tipicamente gaúcha.

A outra obra versava sobre Pedras Preciosas (ou semipreciosas). Da sua extração na natureza, sua constituição, sua coloração e suas formas até a sua prospecção no solo , a classificação e lapidação. Conforme o autor, uma verdadeira obra didática, de inquestionável valor.

Infelizmente, o próprio autor, quiçá por mera insatisfação, ausência de apoio ou de estímulo a editá-las, simplesmente destruiu-as. Não pactuava com a mediocridade humana. Quanto mais rente à perfeição mais preenchia as lacunas deixadas pelo decurso da história. Seu pensamento percorria os mais diversos meandros do comportamento humano.

Num estilo próprio e peculiar, suas descrições literárias refletiam a realidade de forma sutil e descomplicada. Acessível na abordagem e profundo em suas essências. Percorria com fluidez as veredas cósmicas e sem alunissar redarguia com altivez aos questionamentos antropológicos, ecleticamente destronados à luz de estereótipos hodiernos. Sondava o infinito dos entes, na amplitude da perenidade, sem se distanciar da finitude da peregrina humanidade. Raul Poli fez da Alquimia da Vida, à sombra do cotidiano, num exuberante palco de valores humanos, um vasto canteiro florido a aspergir suas essências em forma de aromas na dialética existencial.

Mas, foi na Dança dos Girassóis e à cítara do congraçamento, que lapidara, com afinco e determinação em suas noites enluaradas, o mais excelso Cristal Cósmico, baluarte indeclinável dos anseios, projetos e aspirações.


Fonte:
União Brasileira de Trovadores Porto Alegre - RS. Trovas. Luiz Damo e Raul Poli. Coleção Terra e Céu vol. XXXV. Cachoeirinha/RS: Texto Certo, 2016.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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