sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Newton Sampaio (Irmandade)

O moço de cinzento abriu os olhos. Espiou a folhinha.

No alto, bem negro, um nome.

— Dezembro.

Mais abaixo, em encarnado, um algarismo.

— 4.

Leu. E repetiu baixinho:

— Quatro...

Caminhou na diagonal do aposento. Deteve-se, frente à luxuosa secretária.

Dezembro... Quatro...

Espetou o dedo no ar.

— O que é isto?

(O espelho copiou o gesto, com absoluta fidelidade).

— O que é isto, moço do espelho?

O moço do espelho estava de cinzento também. E tinha o cabelo loiro, encaracolado, bonito.

Fitaram-se longamente.

— Então, nada?

Pôs a mão no bolso. Tirou-a, rápido. O outro repetiu, simultaneamente, ambos os gestos.

— Você é louco?

O do espelho mexeu os lábios.

— Você é louco?

Virou-se sobressaltado. Que voz seria aquela?

Reparou que a janela estava aberta. Por ela entrava o sol medonho do verão.

Contemplou a rua. Algum movimento. Na calçada fronteira, três crianças coradinhas, trêfegas, brincando de roda. Na casa vizinha, a velha de chinelos de couro despachava o vendedor de frutas com dois desaforos. Um gato indolente não quis saborear os desaforos. E foi esfregar o dorso na areia morna.

Alguém parou embaixo da janela. E a velha de chinelos, na porta da frente:

— Glorinha. Pode me dizer que horas são?

— Onze e pouco. Saí da missa neste instante.

— Já? Virgem Maria! Como atrasei o almoço!

Fez menção de se recolher. Arrependeu-se em tempo.

— Sabe? Espero hoje o primo Justino, aquele do norte.

— Ahn!

Arriscou ainda:

— Como vai o mano, Glorinha?

Glorinha levantou os olhos desalentados até a janela.

— Naquilo mesmo.

— Coitado!

A velhota entrou correndo, bradada pelo cheiro ruim de cereal estorricado.

As crianças pararam de rodar, suadas, coradinhas.

O gato ali de perto sentiu a quentura da areia da rua. E rosnou, contente.

A moça, ainda uma vez, subiu a escada, com bandeja tomada inteira por novo almoço. Norberto não percebeu logo a entrada da irmã. Continuou de cócoras, a remexer a comida derramada.

— Vamos almoçar?

Levantou-se, possesso. Num segundo, porém, teve a fisionomia mais serena deste mundo.

— Como não, Glorinha? Deixe-me ajudá-la.

— Sente-se aí. Assim, quietinho.

Serviu-o, com imensa brandura.

— Glorinha...

— Diga.

— Quem foi que sujou o assoalho, ali?

— Não sei. Desde ontem que o assoalho está manchado...

— Ontem? Não estava, não. Eu apalpei... É comida quente.

— Talvez.

E acrescentou, amável:

— A negrinha vem cá limpar, logo mais.

— A negrinha pode vir. O que eu não quero ver dentro do quarto é o Ciro...

— Descanse. O Ciro não virá nunca mais. O Ciro já morreu.

— Porque, se ele vier, rasgo-lhe o pescoço com esta faca. Deste jeito. Veja.

E ensaiou o ato no ar, com os olhos brilhando.

— Sim. Estou vendo.

Glorinha compôs melhor a cama. Cerrou um pouco a janela, por causa do sol.

— O dia hoje está bonito, não?

— Muito.

Tomou um dos pratinhos.

— Quer mais disto?

Norberto não respondeu. Não respondeu, mas perguntou:

— Vamos passear hoje?

— Mais tarde.

— Só nós dois?

— Só nós dois.

— E mais ninguém?

— Mais ninguém.

— E Ciro?

— Ora bobo! O Ciro está viajando.

— Viajando?! Você me disse que ele morreu...

— É a mesma coisa. Morrer. Viajar...

Disse e foi saindo. Desceu a escada, desoladíssima.

Na varanda ensombrada, dona Guiomar acariciava o filho Ciro.

Fonte: Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.

Estante de Livros (3 Livros de Simone de Beauvoir)


As obras de Simone de Beauvoir são fundamentais para a filosofia existencialista e o feminismo moderno. Seu olhar crítico sobre a opressão das mulheres, a busca por identidade e a complexidade das relações humanas oferece uma rica contribuição ao entendimento da condição feminina. Beauvoir não apenas desafia as normas sociais, mas também inspira a busca pela liberdade e pela autenticidade.

1. O Segundo Sexo

"O Segundo Sexo" é uma obra seminal que examina a condição feminina ao longo da história e nas diversas esferas da vida social, cultural e psicológica. Dividido em duas partes, "Fatos e Mitos" e "A Experiência Vivida", o livro aborda como as mulheres foram historicamente definidas em relação aos homens, sendo frequentemente vistas como "o Outro". Beauvoir analisa a construção social do gênero, explorando temas como a biologia, a psicanálise, a literatura e a filosofia.

Ela argumenta que a opressão das mulheres é resultado de uma construção social que perpetua a ideia de que o homem é o sujeito e a mulher é objeto. Beauvoir não apenas critica essas construções, mas também propõe que as mulheres devem se libertar dessas limitações e assumir sua própria identidade. A famosa afirmação "Não se nasce mulher, torna-se mulher" encapsula sua ideia de que a feminilidade é uma construção social.

A obra é um marco do feminismo moderno e um dos textos fundacionais da teoria de gênero. A análise de Beauvoir é abrangente e interdisciplinar, combinando filosofia, sociologia e psicologia para tratar da opressão das mulheres. Seu estilo é ao mesmo tempo acessível e rigoroso, abordando questões complexas com clareza.

Beauvoir não apenas critica a opressão, mas também explora as possibilidades de emancipação. Ela enfatiza a importância da liberdade e da escolha, argumentando que as mulheres devem se autodeterminar em vez de aceitar papéis impostos pela sociedade. Sua obra continua a ser relevante, oferecendo uma perspectiva crítica sobre as desigualdades de gênero e inspirando movimentos feministas contemporâneos.

2. A Convidada

"A Convidada" é um romance que aborda as complexidades das relações amorosas e a dinâmica de poder entre homens e mulheres. A história gira em torno de Françoise, uma jovem mulher que se envolve com o casal Pierre e Xavière. Françoise se sente atraída por Pierre, mas logo se vê em um triângulo amoroso que desafia suas noções de amor, liberdade e possessividade.

Ao longo da narrativa, Françoise luta com suas próprias inseguranças e desejos, enquanto Pierre e Xavière tentam manter um equilíbrio em seu relacionamento aberto. O romance explora temas como ciúmes, liberdade sexual e a busca por identidade em um contexto de normas sociais restritivas.

"A Convidada" reflete as ideias de Beauvoir sobre a liberdade e a complexidade das relações humanas. A obra examina a tensão entre o desejo individual e as expectativas sociais, destacando a luta de Françoise para encontrar sua própria identidade em meio às pressões externas.

A narrativa é rica em simbolismo e revela as nuances das interações entre os personagens. Beauvoir utiliza seus personagens para discutir questões filosóficas sobre a liberdade e a autenticidade, desafiando as convenções do amor romântico. O romance é uma exploração profunda da condição humana, destacando as contradições do desejo e a necessidade de autoconhecimento.

3. Memórias de uma Moça Bem-Comportada

"Memórias de uma Moça Bem-Comportada" é uma autobiografia em que Beauvoir narra sua infância e juventude, refletindo sobre sua formação intelectual e suas experiências pessoais. A obra é marcada por suas observações sobre a sociedade e a educação da época, explorando como essas influências moldaram sua identidade.

Beauvoir descreve sua família, suas amizades, e suas primeiras descobertas sobre sexualidade e amor. A narrativa revela suas lutas internas e externas, destacando a pressão que sentia para se conformar aos padrões de gênero da sociedade. A obra é tanto uma crônica pessoal quanto uma análise crítica da educação e do papel da mulher na sociedade.

As « Memórias de uma moça bem-comportada » oferecem uma visão íntima de sua formação como pensadora e feminista. A obra é rica em reflexões sobre a liberdade, a escolha e a opressão, revelando como a experiência pessoal é entrelaçada com questões socioculturais mais amplas. A narrativa é marcada por uma honestidade brutal, à medida que Beauvoir questiona as normas que moldaram sua vida.

O estilo autobiográfico de Beauvoir permite uma conexão profunda com o leitor, ao mesmo tempo em que ilustra a luta de uma mulher para se afirmar em um mundo dominado por homens. Sua análise crítica das instituições educacionais e da sociedade é atemporal, e suas reflexões continuam a ressoar com as experiências de muitas mulheres contemporâneas.

Fonte: José Feldman (org.). Estante de livros. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Luiz Poeta (Nuvens de Sonhos) 01

 

A. A. de Assis (Relógio de bolso)

Um amigo meu confessou que um dos seus bons sonhos é um dia dispor de tranquilidade para usar um desses mimos no bolso do colete

Nunca me esqueço de uma crônica publicada há mais de meio século na revista “O Cruzeiro” pela célebre jornalista Rachel de Queiroz. Falava de um homem que passou a usar relógio de pulso porque não tinha tempo para ver as horas no relógio de bolso.

Já naquela época as pessoas começavam a tornar-se escravas dos ponteiros. Para dar uma olhada no Omega pataca de bolso você perderia alguns valiosos segundos. No fim do dia, esses segundos, somados, quantos bons minutos dariam? Já pensou?…

O relógio de pulso tem a vantagem de ser funcional. Você pode ver as horas sem interromper o que está fazendo. Por isso ele se adaptou tão bem ao ritmo do homem moderno, aposentando o elegante “colega” outrora carregado na algibeira com direito a correntinha.

Um desses sujeitos superorganizados decidiu medir o tempo que a gente perde durante o dia. Aqueles segundos gastos à espera de que o semáforo nos dê passagem: cada semáforo é um atraso de vida; cada tartaruga, cada quebra-molas… quantos segundinhos desperdiçados nesse stop-start do trânsito urbano…

A espera pelo sinal do telefone, a espera pelo elevador, a espera da vez de falar com o gerente no banco… Espera aqui, espera acolá, espera isso, espera aquilo…

No final da tarde, com o mapa da cronometragem rigorosamente montado, o sujeito chegou à calamitosa conclusão de que um homem de negócios perde, durante o espaço útil de um dia, nada menos que sessenta e cinco minutos e quarenta e dois segundos.

São cerca de quatrocentas horas por ano, gastas em esperas. Transforme essas quatrocentas horas em dinheiro e veja o tamanho do prejuízo… Mas quer saber de uma coisa? Se a gente pega a mania de medir o tempo perdido nisso ou naquilo, acaba enlouquecendo.

Todos estamos hoje esmagados pela necessidade de aproveitar cada minuto em alguma “coisa prática”. De manhã à noite é essa correria maluca. Daí todo mundo fica se queixando de estresse. Mas todo mundo continua na mesma pressa.

Por que? Por causa de uns dinheirinhos a mais? Será que os seus compromissos são assim de tal modo urgentes? Ou é você que não sabe mais parar?

Que saudade do relógio de bolso… Um amigo meu confessou que um dos seus bons sonhos é um dia dispor de tranquilidade para usar um desses mimos no bolso do colete. Quem sabe acerte na mega sena e possa dar-se o luxo de não mais se preocupar com as horas.

Disse que outro dia viu um numa vitrine, igual ao do seu avô. Falou ao dono da relojoaria: “Guarde esse bacanudo aí, que ele ainda vai ser meu…”

O homem olhou meio desconfiado e foi atender outro freguês. Ele também não podia perder de forma alguma o seu precioso tempo. Aliás, nem relógio de pulso usava mais. Via as horas no celular.

(Crônica publicada no Jornal do Povo)

Fonte: Texto enviado pelo autor 

José Feldman (Pafúncio e a Terapia Desastrosa)


Era um dia nebuloso quando Pafúncio, o jornalista da revista “Fuxico & Fofocas”, recebeu um telefonema inesperado de seu editor. 

“Pafúncio, preciso te dizer uma coisa. Você tem se metido em muitas confusões e, talvez, uma terapia possa ajudar.”

Pafúncio, que estava em sua mesa tentando descobrir como fazer uma reportagem sobre o novo café da moda, apenas respondeu: 

“Terapia? Mas eu só preciso de um bom café e um pouco de chocolate!” 

O editor insistiu e, relutante, Pafúncio concordou em se encontrar com a terapeuta.

Ao chegar ao consultório da Dra. Rita Lina, Pafúncio estava nervoso.

“Acho que isso vai dar um toque alegre!” ele pensou sobre sua roupa com desenhos de coelhos, sem imaginar que a psiquiatra tinha um estilo mais sério.

Assim que entrou no consultório, Pafúncio se deparou com o ambiente calmo e organizado, com livros nas prateleiras e poltronas confortáveis. 

A Dra. Rita Lina o recebeu com um sorriso cordial, mas Pafúncio, em seu estilo trapalhão, se sentou em uma poltrona meio desajeitadamente e logo começou a falar sem parar.

“Oi, sou o Pafúncio! Estou aqui porque meu editor acha que eu preciso de terapia. Ele diz que eu sou muito… como posso dizer… desastrado, sabe? Mas acho que ele está exagerando!” Ele riu, mas Dra. Rita apenas levantou uma sobrancelha.

“Vamos nos concentrar, Pafúncio. O que você gostaria de discutir hoje?” perguntou ela, tentando manter a calma.

“Ah, eu tenho tantas histórias! Uma vez, eu entrevistei um gato que pensava que era um cachorro! Foi hilário!” Pafúncio começou, sem esperar pela resposta da psiquiatra. “E outra vez, derrubei um bolo de casamento na cara do noivo! Você deveria ver a expressão dele!”

A Dra. Rita, com um olhar exasperado, tentou redirecionar a conversa. 

“Pafúncio, vamos nos concentrar em você. Como você se sente em relação ao que aconteceu nessas situações?”

“Sinto-me ótimo! Quer dizer, exceto quando as pessoas ficam bravas comigo. Uma vez, um artista me chamou de ‘cabeça de abóbora’ porque eu perguntei se ele pintava com tinta cor de batata! Mas eu só queria saber, sabe? O que tem de tão errado nisso?” Pafúncio continuava, sem perceber que estava desviando do assunto.

A psiquiatra respirou fundo e tentou mais uma vez. 

“Certo, mas como você lida com as críticas que recebe?”

“Ah, eu não lido muito bem! Uma vez, uma crítica me disse que meu estilo era ‘como um furacão em um desfile de moda’! Eu achei isso engraçado!” 

Ele riu, e a Dra. Rita estava começando a perder a paciência.

“Pafúncio, precisamos falar sobre suas reações. Você se sente confortável em expressar seus sentimentos?” perguntou ela, tentando ser paciente.

“Claro! Eu me sinto confortável como um peixe em um aquário! Ou talvez como um pinguim na neve! O que você prefere?” Pafúncio exclamou, fazendo gestos exagerados.

A Dra. Rita decidiu mudar de tática. 

“Vamos tentar uma técnica diferente. Você pode me contar sobre uma situação em que se sentiu realmente triste?”

“Ah, isso é fácil! Uma vez, eu perdi meu cachorro de pelúcia! Foi horrível! Eu procurei por toda parte, mas ele estava escondido atrás do sofá! Uma verdadeira tragédia!” Pafúncio disse, colocando a mão no coração em um gesto dramático.

“Pafúncio, eu me refiro a situações mais sérias. Vamos falar sobre suas emoções em relação ao trabalho e sua vida pessoal,” insistiu Dra. Rita.

“Ah, meu trabalho é uma loucura! Uma vez, escrevi uma matéria sobre ‘Como Ser o Melhor Fuxiqueiro’ e, sem querer, enviei para a revista errada! Eles publicaram com uma foto de um gato vestido de príncipe!” 

Ele explodiu em risadas, enquanto Dra. Rita se perguntava como tinha chegado a este ponto.

“Certo, mas e suas emoções? Como você se sente sobre isso?” a psiquiatra tentou mais uma vez, já sem paciência.

“Me sinto ótimo! Como um superstar! Ou como um astronauta no espaço! Você sabe, flutuando!” 

Pafúncio começou a gesticular novamente, e Dra. Rita sentiu que estava perdendo o controle da sessão.

“Pafúncio, precisamos ser mais sérios! Você não pode simplesmente transformar tudo em uma piada!” gritou ela, exasperada.

“Mas é isso que sou!” 

Pafúncio respondeu, sem perceber que estava ultrapassando os limites.

Dra. Rita, agora completamente irritada, decidiu que já tinha tido o suficiente. 

“Você sabe o que? Eu realmente não posso ajudá-lo. Eu vou pedir que você saia do meu consultório!”

“Mas eu só estou tentando ser divertido!” Pafúncio protestou, enquanto ela se levantava.

“Divertido? Você está me deixando louca! Por favor, saia!” 

Ela apontou para a porta, e Pafúncio, sem entender, começou a gracejar.

“Você está me expulsando? Isso é uma vitória! Meu terapeuta me expulsou! Isso é ótimo para a coluna! Vou escrever sobre isso!” 

Ele estava tão empolgado que não percebeu que estava sendo levado à porta.

A Dra. Rita, já sem paciência, fez um gesto dramático e disse: “Se você não sair agora, eu vou ter que chamar o segurança!”

Pafúncio, percebendo que a situação estava realmente fora de controle, começou a se afastar lentamente. “Eu vou! Mas isso vai ser uma boa história! Vou dizer que a Dra. Rita Lina não consegue lidar com o humor”

E assim, ele saiu do consultório, enquanto a Dra. Rita se sentava, tentando recuperar a sanidade. Do lado de fora, Pafúncio estava radiante, pensando em como aquela sessão de terapia, que deveria ser séria, se transformou em uma aventura.

“Ah, mais uma aventura para a revista!” ele exclamou, enquanto se afastava, sem saber que a verdadeira loucura estava apenas começando. Afinal, no mundo de Pafúncio, a vida era uma comédia, e ele era o protagonista trapalhão de sua própria história.

Fontes: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Silmar Bohrer (Croniquinha) 123

Palavra, manifestação verbal ou escrita formada por fonemas ( sons) com um significado. Desempenha papel fundamental na comunicação, sendo essencial para a expressão e compreensão de ideias. 

Falamos tanto de tanta coisa, mas será que é fácil falar daquilo que a gente usa desde que começou a . . . falar? 

Tem gente que fala tanto sem parar, que você pensa numa frase, e virou uma súplica, e virou sentença, e virou parágrafo, e virou uma crônica, mas seguiu... acabou num verdadeiro conto de um fato ou notícia que tinha a mínima importância, quase zero, do bem falante interlocutor. 

E os falantes são tantos, hoje como dantes, enlevando e levando as pessoas. E tantos deles, e mais tantos, chegam, manipulam, invadem, persuadem e comprar muitas e muitas pessoas. 

Então a gente pensa como Carlos Nejar:  "A palavra é semente que não acaba".

Fonte: Texto enviado pelo autor  

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Erigutemberg Meneses (Cascata de versos) 01

 

José Feldman (O Desafio da Garagem)

Era um sábado de manhã, e o sol brilhava intensamente no céu. Pericárdio e Tipoia estavam determinados a tirar o carro da garagem, que estava preso entre caixas e objetos diversos. 

"Vamos lá, é hoje!", disse Pericárdio, animado. 

"Sim, mas como vamos fazer isso?", perguntou Tipoia, olhando para a montanha de coisas que havia se acumulado. 

"Eu tenho um plano", disse Pericárdio, com um sorriso. 

"Qual é?", perguntou Tipoia, curiosa. 

"Vou empurrar, e você vai guiar", disse Pericárdio. 

"É isso?", perguntou Tipoia, incrédula. 

"Sim, é simples", disse Pericárdio. 

Tipoia suspirou e se posicionou ao volante. 

"Pronto, vamos!", gritou Pericárdio. 

Pericárdio começou a empurrar o carro, mas ele não se moveu. 

"Não está funcionando!", gritou Tipoia

"É porque você não está ajudando!", respondeu Pericárdio. 

"Ajudando? Eu estou dirigindo!", disse Tipoia

"Dirigindo? Você está apenas sentada lá!", disse Pericárdio. 

Tipoia saiu do carro e foi até Pericárdio. 

"Você não entendeu o plano", disse ela. 

"Entendi, sim. Eu empurro, e você guia", disse Pericárdio. 

"Não, não é isso. O plano é nós dois empurrarmos", disse Tipoia

Pericárdio olhou para ela, surpreso. 

"Ah, entendi agora", disse ele. 

Eles começaram a empurrar o carro juntos, mas ele ainda não se moveu. 

"Isso é impossível!", disse Pericárdio. 

"Não é impossível. É apenas difícil", disse Tipoia. 

Eles continuaram a empurrar, suando e gritando. 

"Eu não aguento mais!", disse Pericárdio. 

"Eu também não!", disse Tipoia. 

Mas então, de repente, o carro se moveu. 

"Eu não acredito!", disse Pericárdio. 

"Eu acredito!", disse Tipoia. 

Eles conseguiram tirar o carro da garagem, mas estavam exaustos. 

"Bem, isso foi divertido", disse Pericárdio. 

"Divertido? Você está brincando?", disse Tipoia. 

"Sim, foi divertido. Agora vamos tomar um café merecido", disse Pericárdio. 

Tipoia sorriu. 

"Sim, vamos", disse ela. 

Eles foram para o café, rindo e conversando. 

"Essa foi uma aventura", disse Pericárdio. 

"Sim, foi", disse Tipoia. 

Eles se olharam e sorriram. 

Fontes: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Vereda da Poesia = Luciano Izidoro de Borba (Tombos/MG)



Mensagem na Garrafa = 137 =


ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

CUMPLICIDADE

Pequeno preito de gratidão à lua.

Tu me seduzias com tua inebriante claridade.

E eu, cativo, não resistia aos teus insistentes apelos.

Sob o manto da noite, me guiaste, soberana, quando percorri caminhos improváveis e situações inusitadas.

Me ajudaste em paixões, exibindo tuas companheiras estrelas, para que eu as contasse quando estivesse nos braços de alguém.

Sou-lhe grato também pelas inúmeras vezes, que para conter meus excessos, tu me indicavas estar indo embora, e que a intensa luz do dia não mais encobriria minha conduta.

Tu, recatada, por vezes se escondia atrás das nuvens para não presenciar minha desvairada boemia. Fostes testemunha e cúmplice de minhas aventuras em amores proibidos.

Ocultaste-me em tuas sombras quando eu corria perigo em minhas descuidadas andanças.

Certa vez, talvez para exibir-me perante os companheiros de copo, ousei afirmar que tu não passavas de matéria que se deslocara da Terra após o choque com o planeta Theia.

Ao sair, olhei para o céu, e tu, tristonha, estavas minguante. Voltei então à mesa e desdisse tudo o que antes afirmara de ti. Ao sair novamente, tu estavas crescente a sorrir para mim. 

Foi o sinal para nossa eterna cumplicidade.

Fonte: Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: imponderáveis. Volume 3. Santos/SP: Bueno Editora, 2022. Enviado pelo autor 

Nilto Maciel (O desafio de Facundo)


Vicente ria, porque me via apreensivo, toda vez que o bebedor de coca-cola se aproximava de mim.

“Você está com medo desse doido?”

Eu realmente demonstrava inquietação, bastasse ver o maluco da rua.

Meu interesse em conversar com loucos é puramente literário. Prefiro observá-los de longe, descobrir suas manias a luneta.

Com o bebedor de coca-cola afoitei-me.

“Por que você bebe tanto isso?”

 Sua resposta me deixou tonto, perplexo e, ao mesmo tempo, penalizado dele: “É para me lavar por dentro. Ando sujo, como todo mundo. Não bebo cachaça, com medo de perder o juízo.”

Antes de se embriagar e se tornar triste, revoltado, pessimista, Vicente passava por duas fases: na primeira, parecia alegre, contava seu mais recente passado, o dia findo, a semana, no máximo; na segunda, se achegava ao mais presente do presente e até arriscava prever os próximos minutos.

“Eu quero é cegar da gota-serena se o Helvécio não estiver falando mal de mim. Quer apostar?”

Numa dessas olhadas para o seu redor, quis saber minha opinião a respeito do dono do bar.

“Um tipo quase pitoresco, como aquele doido que bebe coca-cola como se bebesse cerveja.”

Gostou do pitoresco e do resto da frase, mas não podia esperar uma resposta como aquela. Porque existem tipos interessantes em demasia. Eu mesmo podia ser tido como um deles. E se perdeu num labirinto de considerações e descrições, esquecido já do próprio Helvécio.

Não sei se antes ou depois disso, Helvécio denegria alguns de nossos conhecidos, entre eles Vicente.

“Um beberrão ignorante. Fala mal de todo mundo e não repara nem as dívidas que faz.”

Não me pediu opinião. Apenas parou de esbravejar e se pôs a olhar para mim, como se me inquirisse: É ou não é?

“Eu não compro fiado, mas também falo mal do governo.”

Achei por bem não me referir diretamente a Vicente, nem tocar em bebida, apesar de as palavras engolidas terem sido: “Beberrão, não, porque, se for assim, seus filhos são beberrões também.” “Não insulte meus filhos, veja como se expressa.”

“É, mas você não fala à toa, sabe distinguir o certo do errado.”

Aquela minha audaz indagação feita ao doido, arranjei-a e aprimorei-a durante mais de um mês. A primeira versão dizia: você gosta dessa porcaria? Talvez ele não a entendesse e até ficasse calado. Podia imaginar que eu me referisse à sua vida. Ou mesmo à cidade, ao bairro, à rua onde morávamos. Modifiquei-a, a seguir, para: você gosta de beber essa porcaria? Se ele bebia, era porque gostava de coca-cola ou porque gostava de bebê-la. Poderia me responder simplesmente: Gosto. E eu não saberia de que gostava.

Fui reconstruindo a pergunta: por que você gosta de beber essa porcaria? por que você gosta tanto de beber essa porcaria? por que você bebe tanto essa porcaria?

O não mencionar o nome da bebida grudou-se-me feito nódoa na camisa. Bastava ver o pobre doido para me sentir alvo de sua loucura. Poderia me rachar a cabeça com uma garrafada. E Vicente fez a pergunta como se me acusasse de um crime. Não olhava para meus olhos ou minha boca, mas fitava meu peito, como se ali estivesse o segredo, a solução. E ria sempre, como se suas palavras ecoassem: medo medo medo.

Ri também e me controlei. Organizei a resposta: a loucura só dá medo ao sistema.

Tencionava discorrer sobre a relação entre poder e anarquia, ordem legal e desordem social. Um discurso violento e radical. E calaria a boca dele. Nenhuma ordem temia o discurso anárquico de qualquer bebedor de cerveja. O álcool dos rebeldes não incomoda a lucidez dos poderosos.

“Andei mexendo com ele.”

"Tirou coca-cola da boca do coitado?”

“Não sou perverso. Seria o mesmo que tomar mamadeira da boquinha de neném.”

Muito mais tarde, compreendi a vulgaridade dessas duas frases e imaginei um diálogo inteligente, a partir da segunda indagação de Vicente, se houvesse respondido assim: o tratamento dado por um homem rico a um pobre, estudado a um rude, de alta estatura a um de baixa, etc., é comumente maléfico, por mais humildes que sejam os primeiros. Há sempre perversidade nessa relação, por mais humanistas que sejam o burguês, o diplomado, o gigante. Porque analisar, estudar, perquirir, tentar conhecer outrem é, em essência, um ato bárbaro, egoísta, desumano.

“Então, o que você fez?”

Se outro o rumo dado por mim à conversa, qual a importância da especificidade de minha ação? O egoísmo existe na mãe ou na babá que corta ao meio o prazer bucal da criança; no burguês que dá uma esmola; no escritor que se compadece da personagem, sua ou de outro, que nunca bebeu champanha; no homem que alisa os cabelos do menino.

Esperei eras pelo momento de ver no bar do Helvécio o Vicente e o doido. Minha intenção: embriagá-los e fazê-los abraçarem-se, ao som de um baião. O cenário: fotos do Padre Cícero, da Seleção Brasileira e aquele imenso cartaz da Coca-Cola. Não seria apenas a encenação. Eu fotografaria o instante para capa de um romance: O Reino do Verbo.

Ao vê-los, não paguei nenhuma bebida. Desafiei-os para uma partida de bilhar. Eu contra os três.

Fontes: Nilto Maciel. Punhalzinho Cravado de Ódio, contos. Secretaria da Cultura do Ceará, 1986. Enviado pelo autor.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Silmar Bohrer (Gôndola de Versos) 01

 

José Feldman (Um dia na academia)


Era uma manhã nublada quando Epitáfio e Etelvina decidiram que era hora de se inscreverem na academia. Depois de uma longa conversa sobre a importância de manter a saúde, ambos concordaram que os exercícios eram uma boa maneira de combater o sedentarismo.

Ao chegarem à academia, Epitáfio, com seu jeito cômico e exagerado, olhou ao redor com um misto de admiração e pânico. 

"Olha, Etelvina! Esse lugar parece um campo de batalha! Olha aquelas máquinas, parecem armas de tortura!"

Etelvina, que sempre foi a mais prática dos dois, respondeu: "Epitáfio, é só uma esteira! Você não precisa entrar em pânico. Vamos apenas caminhar um pouco."

"Eu não sei... Caminhar em uma esteira que se move? Isso não parece um pouco perigoso?" 

Epitáfio fez uma expressão de dúvida, como se estivesse considerando entrar em um filme de ação.

"Se você não conseguir andar em uma esteira, amor, estamos perdidos", disse Etelvina, tentando conter o riso. "Vamos lá, é só subir e começar a andar!"

Depois de alguma hesitação, Epitáfio finalmente subiu na esteira. Assim que começou a andar, ele logo se distraiu olhando para a televisão na frente. 

"Olha, um programa de culinária! Isso parece muito mais interessante do que andar."

"Foca no exercício, Epitáfio!" Etelvina gritou do lado, já na sua própria esteira. “Se você não se concentrar, vai acabar caindo!”

"Eu não vou cair, calma! Eu sou um atleta nato!"

Ele disse isso enquanto tentava aumentar a velocidade da esteira, mas logo percebeu que havia exagerado.

"Atleta nato? Desde quando? Desde a última vez que você correu para pegar um pedaço de bolo na festa do aniversário da sua mãe?" Etelvina resmungou.

Epitáfio, agora lutando para se manter em pé, respondeu: "Era um bolo de chocolate, Etelvina! É uma questão de sobrevivência!"

Finalmente, ele conseguiu desacelerar a esteira e se equilibrar. 

"Pronto! O que fazemos agora?"

"Agora vamos para a bicicleta!" Etelvina sugeriu, já se dirigindo para a máquina.

"Uma bicicleta? Ah, isso é mais fácil. Eu sei andar de bicicleta!" 

Epitáfio disse, já se sentando na bike. Mas, assim que começou a pedalar, percebeu que a resistência estava mais alta do que esperava. 

"Ei! Isso não é uma bicicleta, isso é uma tortura! Eu vou acabar com as minhas pernas!"

"Você também não precisa exagerar, Epitáfio! É só ajustar a resistência!" Etelvina estava rindo cada vez mais da situação.

Epitáfio, tentando ajustar a máquina, acabou apertando todos os botões ao mesmo tempo. 

"Olha, Etelvina, agora estou em uma corrida contra o tempo! Estou em uma competição para ver quem se cansa primeiro!"

"Você e suas competições! O que você vai ganhar? Um troféu de 'Maior Drama na Academia'?" Etelvina respondeu, rindo.

Depois de um tempo, Epitáfio, já cansado, decidiu que era hora de experimentar algo diferente. 

"Vamos fazer um pouco de musculação? Eu sempre quis parecer com aqueles caras de filme de ação!"

"Você? Parecer com um desses? Você precisa de muito mais do que um dia na academia!"

"Desafio aceito!" Epitáfio disse, enquanto se dirigia para os pesos. Pegou um haltere que parecia maior do que ele. "Olha, Etelvina, sou o Hulk!"

"Mais parece um Hulk de pelúcia!" Etelvina não conseguiu conter o riso. "Cuidado para não quebrar o pé!"

Ele levantou o peso, mas ao tentar impressionar, acabou fazendo uma careta tão engraçada que chamou a atenção de outros frequentadores da academia.

"Se você fizer isso, vai acabar viralizando na internet como o 'Homem que quis ser Hulk e não conseguiu ser nem Hulkzinho bebê'!" Etelvina continuou a zombar, enquanto ele lutava para colocar o peso de volta.

"Você está torcendo contra mim, não está?" Epitáfio perguntou, tentando recuperar a compostura.

"Claro que não! Estou apenas te dando um empurrãozinho para você não se levar tão a sério!", respondeu Etelvina, rindo.

Finalmente, após uma série de exercícios que mais pareciam uma comédia, Epitáfio e Etelvina decidiram que era hora de encerrar o "treinamento". Eles se sentaram em um banco, ofegantes.

"Então, o que você achou da nossa experiência na academia?" Epitáfio perguntou.

"Eu acho que precisamos de mais prática... e talvez de um 'personal trainer' só para você!" Etelvina respondeu, piscando.

"Ou talvez só precisemos de um bom café e um pedaço de bolo para comemorar nosso 'sucesso'!" 

Epitáfio sugeriu, fazendo uma expressão de quem já estava pensando no próximo lanche.

"Essa eu topo! Afinal, a vida é curta demais para não ter um pedaço de bolo depois de um dia de exercícios!" Etelvina concordou, levantando-se.

E assim, enquanto deixavam a academia, Epitáfio e Etelvina continuaram com suas brincadeiras e discussões, prontos para enfrentar a próxima aventura juntos, seja na academia ou na cozinha, onde o verdadeiro 'treinamento' aconteceria.

Fontes: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.
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Vereda da Poesia = Júlia Fernandes Heimann (Jundiaí/SP)


Vânia Figueiredo (Uma aurora)

Aquela foi uma noite de pavor, no pequeno barco em pleno rio Xingu. O céu estava limpo, estrelado, mas sobre a superfície da água começava a soprar uma ventania feroz, era tipo inusitado de tempestade que não vinha dos céus... Ondas furiosas se levantavam e sacudiam o barco que estralejava como à beira de partir-se. "E o banzeiro", - explicou o barqueiro, sem parecer preocupado e ainda acrescentou: "Acontece por aqui, mas vai passar... nóis chega lá." Para ele, natural do povo xinguara, aquilo era apenas algo conhecido. Para mim, sulista e urbana, era a Morte chegando.

"Lá" era meu destino, a cidade de Altamira, no Pará, onde meu trabalho na colonização do INCRA me aguardava. Agarrada ao fundo do barco, eu duvidava que realmente pudéssemos chegar lá, amaldiçoando a tolice de ter querido visitar uma distante vila ribeirinha a título de aventura.

Foi então que as águas começaram a se acalmar, o vento foi perdendo a força, a angústia timidamente se transformando em expectativa. Quando ousei erguer-me para ver o que acontecia, uma flecha de luz dourada atingiu meus olhos. A aurora vinha surgindo, majestosa e solene como uma rainha, vestida de ouro e púrpura, dominando o rio que se aquietava sob sua luz. Pássaros saíam da mata próxima e revoavam saudando a aurora, um e outro boto dançou em sua homenagem.

Eu me senti pequena sob a magia daquela festa da Natureza, diante do sol que surgia pontuando a vida, sabendo que jamais veria uma aurora como aquela.
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A autora é de Campinas/SP

(Este conto obteve a menção honrosa no Concurso de Contos, adulto nacional, do III Concurso Literário “Foed Castro Chamma”, 2020 – Tema: Aurora)

Fontes: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. Livro enviado por Luiza Fillus.
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