CAROLINA RAMOS
Santos/SP
ROSA DE SANGUE
Dom sublime, a Poesia furta ao solo
as almas simples que Deus prestigia.
E transforma um pigmeu num louro Apolo,
glorificado à luz que não pedia!
Poesia é mãe que o filho abraça e ao colo
recolhe a dor que o peito lhe crucia.
Terno traço de união de polo a polo,
é sol na treva... é luar, em pleno dia!
Poesia é amar a própria angústia! É erguer
a taça da amargura e, sem morrer,
sorve-la, gota a gota, em noite incalma!
É estigma? É carisma? Glória ou cruz?
Poesia é estranha rosa, que seduz:
- Rosa de Sangue... com perfume de Alma!
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Quadra Popular de
AUTOR ANÔNIMO
Lá no céu caiu um cravo
de tão grande desfolhou.
Quem não amou neste mundo
no outro não se salvou.
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Soneto de
VINICIUS DE MORAES
Rio de Janeiro/RJ, 1913 – 1980
SONETO DA DESESPERANÇA
De não poder viver sua esperança
Transformou-a em estátua e deu-lhe um nicho
Secreto, onde ao sabor do seu capricho
Fugisse a vê-la como uma criança.
Tão cauteloso fez-se em seus cuidados
De não mostrá-la ao mundo, que a queria
Que por zelo demais, ficaram um dia
Irremediavelmente separados.
Mas eram tais os seus ciúmes dela
Tão grande a dor de não poder vivê-la,
Que em desespero, resolveu-se: - Mato-a!
E foi assim que triste como um bicho
Uma noite subiu até o nicho
E abriu o coração diante da estátua.
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Poema de
CASTRO ALVES
Freguesia de Muritiba (hoje, Castro Alves)/BA (1847 – 1871) Salvador/BA
BÁRBARA
Erguendo o cálix que o Xerez perfuma.
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes níveos em lábios tão vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;
Um dorso de Valquíria... alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, tão vivos, como espelhos,
Mas como eles também sem chama alguma;
Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e músicas respira...
No lábio - um beijo... no beijar - um hino;
Harpa eólia a esperar que o vento a fira,
- Um pedaço de mármore divino...
- É o retrato de Bárbara - a Hetaira.
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Soneto de
MARTINS FONTES
Santos/SP, 1884 – 1937
Desarmonia
Certas estrelas coloridas,
estrelas duplas são chamadas,
parecem estarem confundidas,
mas resplandecem afastadas.
Assim, na terra, as nossas vidas,
nas horas mais apaixonadas,
dão a ilusão de estar unidas,
e estão, de fato, separadas.
O amor e as forças planetárias,
trocando as luzes e os abraços,
tentam fundi-las e prendê-las.
E eternamente solitárias,
dentro do tempo e dos espaços,
vivem as almas e as estrelas.
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Haicai do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
Nas brisas serenas,
no sopro de um vento brando,
a voz das camenas*!
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* Camenas = musas
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/ Portugal
NÃO DAREI UM SÓ PASSO ONDE ME PRENDA
(Fernandes Valente Sobrinho in "Poemas Escolhidos", p. 101)
Não darei um só passo onde me prenda
O espectro de um amor que já passou
E o resto de um sorriso que raiou
Que fazem com que agora eu me arrependa.
Mas este coração não tem emenda
E sonha com o que ainda não achou
E de todos os gostos que provou
Elege o teu beijar de que faz lenda.
Procuro outros caminhos onde passe
Sem ver em cada rosto a tua face
Trazendo o que a teu lado eu já vivi.
É falsa a tentativa dos meus passos
Que lembrando o calor dos teus abraços
Simplesmente me levam para ti.
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Poema de
MACHADO DE ASSIS
Rio de Janeiro/RJ, 1839 – 1908
ALENCAR
Hão de os anos volver, — não como as neves
De alheios climas, de geladas cores;
Hão de os anos volver, mas como as flores,
Sobre o teu nome, vívidos e leves...
Tu, cearense musa, que os amores
Meigos e tristes, rústicos e breves,
Da indiana escreveste, — ora os escreves
No volume dos pátrios esplendores.
E ao tornar este sol, que te há levado,
Já não acha a tristeza. Extinto é o dia
Da nossa dor, do nosso amargo espanto.
Porque o tempo implacável e pausado,
Que o homem consumiu na terra fria,
Não consumiu o engenho, a flor, o encanto...
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Poemeto de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP
As folhagens agitadas
sentem o frescor
do crepúsculo
que vai de encontro
ao horizonte, enquanto
gaivotas repousam
no pôr do sol.
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Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/ SP
NÃO ME ESQUEÇO…
Não me esqueço dos versos comoventes
que escrevi com perene inspiração,
quando vivi nos chapadões florentes
da minha terra em meio do Sertão.
Depois, parti... Sofri dores pungentes
numa luta sem fim de solidão.
Desolado, vivi dias ingentes
e se caí, jamais fiquei no chão.
Vejo, porém, que os meus cabelos brancos
são apenas troféu para consolo
de quem viveu aos trancos e barrancos...
Desafiei a vida, estou cansado,
só resta agora um pensamento tolo;
sou poeta, sou livre e aposentado.
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Poema de
CÉLIA EVARISTO
Lisboa/ Portugal
NO SILÊNCIO DE UM OLHAR
É na distância de um primeiro olhar
que se dá o primeiro beijo,
tímido,
desajeitado,
por vezes estranho
e outras delicado,
deixando um arrepio na pele,
sem que os lábios
se tenham verdadeiramente tocado.
Palavras ditas no silêncio,
gestos sentidos sem tocar,
um misto de sentimentos
sentidos num simples olhar.
Sem fronteiras,
outras barreiras,
sem obstáculos a transpor.
Apenas um coração aberto,
tão cheio de amor.
Por mais breve que seja um olhar
poderá prender,
cativar,
poderá ser,
estar,
querer,
sonhar.
Olha-me com atenção
e, no pleno silêncio das nossas vozes,
ouve o meu coração.
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Poema de
SILMAR BOHRER
Caçador/SC
OH SORTE!
As rimas andam ausentes
nestas primícias de agosto,
estarão - será - descontentes
ou mesmo com algum desgosto ?
Não consigo os mais saborosos
dos meus versos companheiros,
por isso andam desgostosos
aqueles versinhos brejeiros.
Um versejador de pés-quebrados
não pode querer assim tantos
mais do que uns mal rimados,
Mas oh sorte, a Poesia tem benevolência
me borrifando com seus encantos
algum bálsamo pura essência.
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Poeminha de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR
E agora, vovô?
– Agora,
nas mãos dos netos,
sou que nem ioiô.
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Soneto de
JÉRSON BRITO
Porto Velho/ RO
CORAÇÃO ERRANTE
Reinado de infinitas amarguras
És tu, meu coração débil, sofrido.
Demais amaste e, não correspondido
Como antes não sorris, não mais fulguras.
Lamentas tuas tristes desventuras
No lúgubre jardim já ressequido,
Em vão buscas o aroma outrora haurido,
Nas barras da saudade te enclausuras.
Fizeste das lembranças o universo
Repleto de plangência, enfim, perverso
Onde há daquela luz rasto pequeno.
Entendo que vagueies sem consolo,
Seria assaz injusto se por tolo
Tivesse quem está de amor tão pleno.
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Poetrix de
GOULART GOMES
Salvador/BA
PESSOIX
um terço de mim delira
um terço de mim pondera
outro terço: ah! quem dera!
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Poema de
RITA MOURÃO
Ribeirão Preto/SP
RAÍZES
Sou parte do Grande Sertão de Guimarães Rosa.
A terra me medra,
as árvores me enraízam, os pássaros me gorjeiam.
Caminho pisando folhas que me desfolham.
Sou exercida por savanas e meu cheiro é agreste.
Por isso minha alma canta,
contaminada pela Natureza que me define.
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Soneto de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ
QUEM ME ALIMENTA
Quando alguém se esvai de mim, há alguém que entra,
mas minha alma se transforma em gratidão.
Nunca esqueço quem deu, ao meu, coração,
a afeição por cada irmão que nele adentra.
Quem se alimenta do que eu amo, me alimenta,
não violenta meu amor com desesperos;
o que é sensível não carece dos esmeros
de quem se enfeita com a mais fútil vestimenta.
Coloquial, o meu amor sempre evita
erudições, porque a vil demagogia
é prima-irmã de qualquer vã diplomacia
que faz do amor, a indiferença que o habita
e o transforma num relógio emperrado
sobre o silêncio de um balcão... abandonado.
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Poema de
J. G. DE ARAÚJO JORGE
Tarauacá/AC (1914 – 1987) Rio de Janeiro/RJ
A LUZ
Ela veio...( E a minha alma tinha a porta
aberta, e ela entrou...Casa vazia
e estranha, esta que em plena luz do dia
lembrava a tumba de uma noite morta...)
Que ela havia chegado, eu nem sabia...
Mas, pouco a pouco, e a data não importa,
minha alma, por encanto, se conforta,
e há risos pela casa...E há alegria...
Quem abrira as janelas? Quem levara
o fantasma da dor sempre ao meu lado?
Os antigos retratos, quem rasgara?
E acabei por fazer a descoberta:
- ela espantara as sombras do passado
e a luz entrara pela porta aberta!
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP
A COR DOS OLHOS DELA
O matiz dos olhos dela é uma pintura,
Mais parece um manso lago transparente;
Onde o azul das águas traça a formosura,
Misturado ao verde do meio ambiente.
Em seus olhos, vejo um lago cristalino,
Sem perder o verde, réplica do céu...
Quando chove, lembra o choro repentino
Da saudade que ela tem de mim, ao léu.
Traz, a cor dos olhos dela, tal beleza,
Um requinte de magia sem igual;
Predomina o verde tom da Natureza,
Com o anil do céu a dar toque final.
Este lago azul, matiz verde ao redor,
Normalmente calmo, sofre oscilação.
Vem com seus revoltos que já sei de cor,
Presos aos ditames de seu coração.
Foi, a cor dos olhos dela, o atrativo
Que me pôs sob os grilhões de seu fascínio...
Que em meu peito fez lugar mais que exclusivo;
Coração meu, à mercê de seu domínio!
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Soneto de
EDY SOARES
Vila Velha/ES
ALÉM MAR
Há mesmo quem diga que o mar tem mistérios
jamais desvendados por seus navegantes;
que a Terra, no centro dos seus hemisférios,
além de quaisquer profundezas distantes,
conserva um lugar, o maior dos impérios,
sob a proteção das carrancas gigantes,
que impedem de entrar os krakens deletérios,
e acolhe em seu seio os marujos errantes...
O certo é que as ondas que espraiam, pacatas,
irmãs das tormentas que afundam fragatas,
não trazem notícias do abismo profundo...
E enquanto as procelas sacodem navios
que ainda navegam nos mares bravios
os náufragos dormem no fundo do mundo.
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Poema de
CECÍLIA MEIRELES
Rio de Janeiro RJ, 1901-1964
DESAMPARO
Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito,
porque uma ondulação maternal de onda eterna
te levará na exata direção do mundo humano.
Mas no equilíbrio do silêncio,
no tempo sem cor e sem número,
pergunta a mim mesmo o lábio do meu pensamento:
quem é que me leva a mim,
que peito nutre a duração desta presença,
que música embala a minha música que te embala,
a que oceano se prende e desprende
a onda da minha vida, em que estás como rosa ou barco...?
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