sábado, 2 de maio de 2026

Asas da Poesia * 184 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

Terra Prometida

O sol caiu em minha mão,
uma profecia sinistra
alimentando o fogo eterno
da vida.

As rosas despertam,
o vento carrega seu perfume.

Um trem se perde na distância
da imperfeita geografia.

Os migrantes
nos tetos dos vagões
como uma procissão de alebrijes*,
passageiros de palavras fugazes
domando seus monstros interiores.

Rumo à terra prometida,
onde a dor, a pobreza e
a tristeza são esquecidas.

Onde eles amassarão o pão
com suas lágrimas.
(tradução do espanhol por JFeldman)
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* Alebrijes = são esculturas artesanais mexicanas, vibrantes e surreais, que combinam partes de diferentes animais (reais ou imaginários) em uma única criatura. Criados por Pedro Linares representam a fusão entre o mundo real e o espiritual, servindo como guias espirituais ou protetores, especialmente populares no Dia dos Mortos.
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Trova Humorística de
DOMITILLA BORGES BELTRAME
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP

O marido agonizante,
insistindo quer saber:
– Fui traído? – e ela, hesitante:
– E se você não morrer?…
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Poema de
TERESINKA PEREIRA
Ohio/EUA

Carta

Uma folha de papel
faz milagres de emoções!
Uma letra, que como voz,
vem de longe com segredos,
confessando o seu pensar...
A carta se abre
como flor da tarde
na palma da minha mão.
A lembrança de quem escreveu
se faz estrela-guia
e vem com o carinho
da querida pessoa amiga
que na carta mandou
o melhor de seus sonhos.
Viva a amizade de quem
ainda sabe escrever cartas!
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Aldravia de
GORETH DE FREITAS
Ipatinga/MG

O
trem
leva
e
traz
poesia
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Soneto de
JOÃO JUSTINIANO DA FONSECA
Rodelas/BA

A beleza da vida

A beleza da vida está na própria vida,
nas flores do jardim, no fruto do pomar.
No amanhecer do dia, o sol vindo do mar,
ou da várzea, da serra – eterno na subida.

A beleza da vida está no conjugar
os rios, a floresta, e a comprida avenida…
Pista e velocidade, os pneus a rolar!
Ou, no espinho e na rosa? Ou na idade vivida?

A beleza da vida – o homem no trabalho,
no campo ou na cidade. A enxada. A pena. O malho.
Mover de sonho e fé, de luz, de cabedais.

A beleza da vida – o todo na impulsão
de tudo que se move. O amor, o coração…
O destino da paz, a paz. A íntima paz!
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Poema de
FÁTIMA MALDONADO
Santo Amaro Sousel/Portugal

Um Fado

Quem viu barcos
ir ao fundo
tem nos olhos a certeza
aposta firme na boca
rude descrença na reza

Quem viu barcos trazer escravos
munições e artifícios
figueira brava na costa
açoite preso no riso

Quem viu barcos
magoá-lo,
ferros, lavas e palmeiras
descrê santos e novenas,
nega laços, destrói cercos,
toma ventos por lareiras. 
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TROVA POPULAR

Esta noite dormi fora,
na porta do meu amor;
deu vento na roseira
me cobriu todo de flor.
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Sol

Hoje estás escondido. Olhando para fora,
em meio à névoa densa, em vão eu te procuro.
Que falta fazes quando, ao se esboçar a aurora,
vejo o céu carrancudo e tão cinzento e escuro!

És tu que trazes vida, a ausência eu te censuro.
Sem ti sofre a semente a emergir para a flora,
falta a luz dos teus raios ao trigo maduro,
esmaecem os tons quando te vais embora.

De repente, através de uma nesga apareces…
Com que força vital a alma da gente aqueces
e afastas tão depressa as nuvens de tristeza!

És dono do universo, a nada te comparas;
e ao sentir teu calor reconfortando as searas,
feliz volta a sorrir, de novo, a Natureza!
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Poema de
PAULO LEMINSKI 
Curitiba/PR, 1944 - 1989

O Que Passou, Passou

Antigamente, se morria
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a crônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
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Haicai de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Mais além, a mata 
e um azulão na gaiola, 
cabisbaixo, mudo…
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Soneto de
MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Soneto sonhado

    Meu tudo, minha amada e minha amiga,
    Eis, compendiada toda num soneto,
    A minha profissão de fé e afeto,
    Que à confissão, posto aos teus pés, me obriga.

    O que n'alma guardei de muita antiga
    Experiência foi pena e ansiar inquieto.
    Gosto pouco do amor ideal objeto
    Só, e do amor só carnal não gosto miga.

    O que há melhor no amor é a iluminância.
    Mas, ai de nós! não vem de nós. Viria
    De onde? Dos céus?... Dos longes da distância?...

    Não te prometo os estos*, a alegria,
    A assunção... Mas em toda circunstância
    Ser-te-ei sincero como a luz do dia.
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* Estos = ardores, paixões
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Trova de
OEFE SOUZA
(Othoniel Fabelino de Souza)
Ribeirão Preto/SP

Eu tenho muita saudade
do tempo em que eras só minha.
Mas, é que sofro em verdade,
por te ver, também sozinha…
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Glosa de
GILSON FAUSTINO MAIA
Petrópolis/RJ

Chuva

MOTE:
Desde os tempos de Noé
O mundo pôs-se a saber
Que a manga só cai do pé
Porque não sabe descer.
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN

GLOSA:
Desde os tempos de Noé
que, de medo, morre o mundo.
Talvez por falta de fé,
esse pavor é profundo.

Hoje existe a previsão,
o mundo pôs-se a saber,
com grande antecipação,
o dia em que vai chover.

Como filhos de Javé,
devemos acreditar
que a manga só cai do pé
quando Ele determinar.

Veja: o vapor ao subir
faz a chuva acontecer,
liquefaz-se pra cair,
porque não sabe descer.
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Trova de
MESSIAS DA ROCHA
Juiz de Fora/MG

No rastro dos desenganos,
registrei bem na memória,
que os erros mudam os planos
mas jamais mudam a história.
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Soneto de
ADELMAR TAVARES
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

Soneto

No teu palácio de vitrais preciosos,
espelhos altos, e tapeçarias,
tu, milionário, entre cortesanias,
vives os teus momentos caprichosos.

Braços vendidos e mentidos gozos,
de amores fáceis, enches os teus dias.
Mas, passada a delícia das orgias,
vês, protestos e beijos, mentirosos.

E ah! quantas vezes, solteirão, cansado,
invejarás o "guardador de gado"
que pelo escurecer, sem falsos brilhos,

volta para a cabana, e alegre janta,
cachimba um pouco, afina a viola, e canta
para o amor da mulher, e o amor dos filhos...
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Trova de
JACY PACHECO 
Duas Barras/RJ, 1910 – 1989, Niterói/RJ

Quando te vejo, Teresa,
tão bonita e jovial,
eu considero a tristeza
mais um pecado mortal!
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Parolagem da vida 

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
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Triverso de
CARLOS SEABRA
São Paulo/SP

ave calada — 
ninho em silêncio 
na madrugada 
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Trova de
ADILSON DE PAULA 
Joaquim Távora/PR

Pôr do sol, campos desertos,
e o pinheiro então parece
estar de braços abertos
a sussurrar uma prece ...
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Hino de 
ITARARÉ/ SP

Itararé das campinas
e mil recantos amados 
das verdejantes colinas  
e dos vales ondulados...

Das araucárias e pinus,
envolvidos na fragrância, 
os ventos te cantam hinos, 
ó terra de nossa infância!

Do Rio Verde e Caiçara, 
da Gruta das Andorinhas, 
quem dera eu te alcançara 
nessa trilha que caminhas!

Das araucárias e pinus 
envolvidos na fragrância, 
os ventos te cantam hinos 
ó terra de nossa infância!

De tua gente expansiva  
brilhantes realizações 
 te fazem sempre mais viva 
 junto aos nossos corações!

Das araucárias e pinus 
envolvidos na fragrância,
os ventos te cantam hinos, 
ó terra de nossa infância!
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Itararé: Uma Ode à Terra Natal
O 'Hino de Itararé - SP' é uma celebração poética da cidade de Itararé, localizada no estado de São Paulo. A letra exalta as belezas naturais e a riqueza cultural da região, destacando elementos como as campinas, colinas, vales, araucárias e pinus. Esses elementos são apresentados de forma a evocar um sentimento de nostalgia e pertencimento, especialmente para aqueles que cresceram na cidade.

A música também faz referência ao rio Verde e à gruta das Andorinhas, locais emblemáticos que contribuem para a identidade local. A menção a esses pontos geográficos não é apenas descritiva, mas também simbólica, representando a conexão profunda entre os habitantes e sua terra natal. A repetição da frase 'terra de nossa infância' reforça essa ligação emocional, sugerindo que as memórias e experiências vividas em Itararé são fundamentais para a formação da identidade de seus moradores.

Além das belezas naturais, o hino destaca as realizações da 'gente expansiva' de Itararé, sugerindo um povo trabalhador e orgulhoso de suas conquistas. A letra transmite um sentimento de orgulho e amor pela cidade, celebrando tanto o passado quanto o presente. A música, portanto, serve como um lembrete constante da importância de valorizar e preservar a cultura e as tradições locais, mantendo viva a memória coletiva da comunidade.
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Poetrix de
GOULART GOMES
Salvador/BA

Horroris Causa

engenheiro de obras prontas 
advogado de causas perdidas 
doutor em letras vencidas
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Soneto de
ABADE DE JAZENTE
(Paulino António Cabral)
Quinta do Reguengo/Amarante/Portugal, 1719 – 1789, Jazente/Portugal

Amor é um arder que se não sente

Amor é um arder que se não sente;
É ferida que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágua, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Ao notar a Lua cheia, 
surpreso o Sol resmungou: 
– Se um mês atrás eras meia, 
quem foi que te engravidou?... 
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Júpiter e o fazendeiro

Jove*, outrora, arrendou certas fazendas.
Deitou Mercúrio o bando: acodem gentes:
Uns dão tanto; outros põem-se ali à escuta.
Não faltou regateio.

Punha-lhe um defeito, que era de ruim lavra
A terra; outro senão lhe punha ess’outro.
Enquanto assim os lanços bandeavam,
Vem um mais abelhudo,
Não de mais siso — e os lanços todos cobre;
Contanto que lhe Júpiter prometa
Dar-lhe o governo do ar, e as sazões dar-lhe
A seu sabor e alvitre.
Dar-lhe calma quando ele a desejasse,
Dar frio, dar bom tempo, dar norteas,
Chuvas, secura. — A tudo anui  Jove.
Passa em forma o contrato.
Eis o biltre chapado rei dos ares,
Que venta, chove, e que se engenha um clima,
De que algum dos vizinhos mais não prova
Que os que moram na América.
Nem por isso pior se acharam: foi-lhes
Esse ano de ampla ceifa, ampla vindima,
E mui fraca a colheita do abelhudo.
Assim, no ano seguinte,
Muda o teor dos céus. Mas melhor fruto
Lhe não dá a terra; a dos vizinhos rende,
Frutifica. — Então é, que ele confessa
Quanto imprudente obrara.
Como brando senhor, se há Jove com ele.
Que convém que infiramos deste conto?
Que, melhor do que nós, a Providência
Sabe o que nos compete
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Jove é um dos nomes dados ao deus romano Júpiter
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Mensagem na Garrafa 180 = A linda arte do sonhar


Autor: RICARDO ALBINO*

Certa vez, perguntaram a um cego : Como é que você sonha ?

Ele respondeu:

“Sonho como todo mundo, só não vejo.”

Como uma pessoa com deficiência física e visual acho importante contar uma coisa que muitos não sabem.

Existe uma diferença entre o cego e deficiente visual. O primeiro não enxerga nada e o segundo tem baixa visão, também conhecida como visão subnormal, o meu time na vida.

E o que impede o cego e eu de sonhar? Nada, graças a Deus! Até o momento, sonhar é de graça, não se paga imposto e faz cada dia ter mais graça de viver. Sonhar é um exemplo de patrimônio imaterial da humanidade mais democrático, acessível e inclusivo que eu conheço. Não tem barreiras arquitetônicas que impeça um cego de enxergar até a cores, um deficiente físico de andar sozinho sem aparelho ou bengala nem um cadeirante de voar longas distâncias sem cair.

Sabem como isso é possível?

Dando asas a imaginação. É assim que todo ser humano do mundo renova amor no coração e acorda com fé que o sonho bem sonhado, ainda que demore um tempo — no tempo certo do bem — será objetivo realizado.

O sonho não tem preconceito, não faz pouco caso, não faz fila preferencial nem exige laudo ou credencial para estacionar do lado esquerdo do peito de alguém. Cabe apenas aos passageiros da esperança, seguir nos trilhos do maquinista Divino que guia o trem da história ao ponto final da missão abençoada que todo sonhador de corpo e alma sabe que tem.
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*Ricardo Flávio Mendlovitz Albino (47) nasceu em Belo Horizonte, cadeirante, jornalista formado em 2006 em BH, contador de histórias formado pelo Instituto Cultural Aletria, em 2015, criador da página Ricontar Histórias, em 2017, e do canal de mesmo nome no You Tube, em 2021. Idealizou no canal o podcast Ricontar para unir histórias, seu amor pelo rádio, acessibilidade e inclusão.
Fonte: Enviado por Leandro Bertoldo

José Feldman (Ecos do Deserto) 11– Lobo em pele de carneiro


"Salam Aleikum"
(Que a paz esteja convosco), meus ouvintes de olhos travessos! Ah, vejo que o frio da noite pede uma história com o tempero da audácia e o perfume da aventura. Eu, Mustafá, o peregrino, já vi muitos homens usarem a espada para conquistar o que desejam, mas este jovem de quem lhes falo usou algo muito mais perigoso: a astúcia.

"Bismillah" (Em nome de Deus), entremos nos pátios proibidos.

Havia em Samarcanda um jovem mercador de perfumes chamado Rashid. Ele era belo, de traços finos e voz suave como o correr de um riacho. Um dia, ao passar pelas grades de um palácio, seus olhos encontraram os de Zahra, a favorita de um poderoso e ciumento Paxá. Foi um golpe no coração. 

"Ya habibi" (meu amor), suspirou ele, sabendo que entrar naquele harém era mais difícil do que fazer chover no deserto.

Rashid não era homem de desistir. Com a ajuda de uma velha ama que conhecia os segredos das sedas, ele raspou a barba, pintou os olhos com "kohl" (delineador escuro) e vestiu-se com os túnicas mais finas, cobrindo o rosto com um véu de mistério. Apresentou-se nos portões como 'Layla', uma tecelã vinda de terras distantes com bordados que fariam as fadas chorar de inveja.

"Ahlan wa Sahlan" (Bem-vinda), disseram os guardas, enganados pela fragrância de rosas que ele exalava e pelo balanço de seus quadris. Rashid entrou no harém. 

Por sete dias e sete noites, ele viveu entre as mulheres, ouvindo seus risos e suas mágoas, sempre mantendo o véu e a modéstia. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pensava ele, "o amor me deu o disfarce perfeito".

Zahra, porém, tinha olhos de águia. Ao observar a 'tecelã', percebeu que aquelas mãos não tinham calos de agulha, e que o brilho naqueles olhos não era de uma irmã, mas de um leão disfarçado de gazela. Numa noite de lua cheia, sob o aroma do sândalo, ela o confrontou no jardim. Rashid revelou sua face e seu propósito. 

"Maktub" (Está escrito), disse ela, "meu coração já pertencia à sua coragem antes mesmo de conhecer seu nome."

O plano de fuga foi traçado com a precisão de um astrônomo. No festival de "Eid" (Celebração), quando a guarda estava distraída com música e vinho, Rashid e Zahra, ambos vestidos como humildes servas, atravessaram os portões carregando cestos de frutas. 

Quando os cavalos que Rashid havia escondido relincharam na escuridão, ele soltou um grito de triunfo: – "Ya Allah" (Ó Deus), a liberdade é nossa!

O Paxá só descobriu o engano ao amanhecer, quando encontrou apenas um véu de seda e um frasco do melhor perfume de Rashid deixado no travesseiro. Os amantes já cruzavam as fronteiras, rindo do destino. 

"Shukran" (Obrigado), dizia Rashid, pois aprendera que para ganhar o que é proibido, às vezes é preciso perder a própria identidade.

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês), meus amigos. Que a vossa astúcia seja sempre usada em nome do amor.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Patologista clínico Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados.  Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Arthur Thomaz (Domingo)


Acordou bem cedinho e foi tomar sol no estacionamento do condomínio. Logo em seguida apareceram as famílias vestindo bermudas, chinelos e camisetas sem mangas, dirigindo-se à padaria mais próxima para o tradicional café da manhã dominical. Os mais simpáticos dirigiram-se a ele:

– Bom dia, senhor, deseja que eu traga um pãozinho com manteiga?

Respondeu educadamente:

– Não precisa, mas muito obrigado.

Ao responder pela décima vez que não precisava de pãozinho às várias famílias que passavam, ele resolveu entrar para enfim tomar o seu café, com a estranha sensação de aparentar estar muito magro para lhe oferecerem tanto pãozinho.

Algum tempo depois, foi até a janela e viu aquelas famílias retornando, e em seguida quase todos ligaram seus aparelhos de som. Ouviu-se pelo condomínio uma infinidade de músicas de discutível qualidade, e parecendo disputar uma competição para ver quem coloca o som mais alto.

Olhou novamente pela janela e observou as famílias, agora vestindo roupas de festa, dirigindo-se aos cultos ou missas. Os mais simpáticos novamente perguntaram:

– O senhor quer que rezemos pela sua saúde?

Ateu convicto que era, respondeu ironicamente:

– Sim, sempre é bom um apoio divino.

Saiu mais uma vez para completar os minutos de exposição aos raios solares para sintetizar a vitamina D. Logo em seguida, depois do retorno das famílias, já abençoadas, viu e ouviu um frenético movimento de motoboys entregando refeições nas residências.

Também pôde sentir o aroma de churrasco vindo das casas das pessoas mais abastadas, já que, com o preço da carne atualmente, somente o pessoal com melhores condições financeiras pode dar-se ao luxo de fazê-lo.

Simultaneamente, ouviu-se o tilintar dos talheres chocando com o fundo dos pratos.

Entrou para almoçar e logo em seguida ouviu o alarido das crianças brincando no estacionamento, porque o pai queria assistir sossegadamente o tradicional jogo de futebol do domingo à tarde.

Durante 90 minutos, escutou-se os gritos de gol e os palavrões emitidos respectivamente pelos torcedores do time ganhador e do perdedor do jogo.

Por não ser fã de futebol, resolveu ir até o estacionamento e ficar no frescor da sombra de uma árvore. Algumas crianças, gentilmente, em uma brincadeira, disputaram quem conseguiria levar a sua cadeira de rodas mais rápido e mais longe.

Momentos de apreensão, até que elas cansaram da brincadeira e o abandonaram bem distante, fazendo-o voltar com muito esforço até sua casa.

Ao término do jogo, ouviram-se os gritos das mães chamando as crianças para tomar banho, jantar e preparar-se para dormir. Em seguida, recomeçaram os estrondosos barulhos das motos dos entregadores de pizza e lanches.

Depois de colocarem as crianças na cama, alguns moradores saíram para conversar em altas vozes nos bancos do jardim. Na ocasião, abordaram assuntos interessantes, como novelas, fofocas de artistas ou receitas de bolo.

Novamente, ele saiu para tomar um ar fresco, e elas vieram conversar:

– O senhor está bem?

– Como vai de saúde?

– Passou bem o domingo?

– O senhor tem escrito muitos livros?

Vendo-se cercado e sem saída, educadamente respondeu:

– Eu estou bem, obrigado, e vocês?

Elas imediatamente tabularam uma conversa que parecia não ter fim. Sempre uma delas, sabendo que um dia ele foi mé- dico, indagou:

– O senhor que foi doutor, pode dizer o que a tia da amiga da minha irmã, que está com tosse há mais de 15 dias, tem? E o que o senhor receitaria para ela?

Pacientemente, escutou e deu uma resposta evasiva, correspondente ao nível idiota da pergunta. Tentou inutilmente despedir-se, pois elas queriam contar as fofocas do dia.

Então, ele desligou-se um pouco da conversa, acenando com a cabeça concordando ou discordando, mesmo sem saber o que estavam falando.

Em determinado momento, elas insistiram para que respondesse algo que não ouvira. Desinteressado e distraído, ele concordou com o que falaram, deixando-as contentes; imediatamente despediram-se dele e foram para as suas casas.

Ficou durante alguns minutos respirando ar noturno para recuperar-se daquela conversa inútil. Apareceu uma senhora acompanhada de seu marido, um sujeito enorme, com uma “cara de poucos amigos”.

Ela o interpelou, dizendo:

– Quem o senhor pensa que é para dizer que eu estou errada? Fique sabendo que eu sou uma mulher honesta e nunca fiz o que o senhor disse que está errado.

Virou-se para o marido e continuou:

– Não é, meu bem?

O troglodita do marido respondeu algo que pareceu um rugido de leão. Tentando não aparentar medo, ele respondeu:

– Quem sou eu para dizer algo desse tipo? Eu nem a conheço, como poderia falar sobre a sua vida? Com certeza, deve ter sido outra pessoa.

O marido, nessa hora, diz a ela:

– Meu bem, ele tem razão, se não a conhece, não poderia emitir opiniões a seu respeito.

Ela, muito a contragosto, querendo continuar o “barraco”, sentiu que precisava ir embora, já que tinha perdido o apoio do marido.

Aliviado por ter escapado de uma possível agressão, entrou rapidamente em casa pensando que a agonia do domingo tinha terminado. Ledo engano, ouviu a sua campainha tocar e outra mulher, moradora do condomínio, entrou já perguntando o que ele poderia fazer, porque o filho da tia da faxineira dela estava com febre há três dias.

Delicadamente, disse a ela que levasse o bebê até o pronto-socorro.

Ela insistiu:

– Mas o senhor não vai receitar nada?

Pacientemente, ele repetiu que seria melhor, já que não conhecia o caso, que levasse a criança a um pediatra.

Com cara de quem não gostou, ela resmungou:

– Não se faz mais médicos como antigamente.

Deu um seco boa noite e foi embora. Com certeza vai dizer às amigas que ele é um velho decrépito e que nem servia para receitar.

Telefonou a um amigo relatando os infortúnios do domingo no condomínio. O amigo respondeu que nem todos os domingos poderiam ser tão desafortunados assim.

Ele respondeu:

– Tem razão, meu amigo, nem todos os domingos são iguais. O que diferencia um do outro são os times de futebol no jogo da televisão.

Escapando ileso, foi dormir ao som dos inúmeros cães existentes no condomínio.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, publicou os livros: Coleção Leves Contos ao Léu: I- Mirabolantes; II– Imponderáveis, III– Inimagináveis, IV– Insondáveis; Trovas: “Rimando Sonhos”, “Rimando Ilusões”, “Rimando Devaneios”. Romances: “Pedro Centauro”; “O Mistério da Princesa dos Rios”, “Vila Esperança” e outros.

Fonte:
Texto e imagem: Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.