terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 152 *


Poema de
FÁTIMA VENUTTI
Blumenau/SC

Recado

Entre os corpos,
Entre os astros,
Entre as estrelas...
Sob o mar,
Sob o azul,
Sob o luar...
Então, o amor.
Então, o nascer.
Então, o encontrar.
Eu estarei
eternamente
A te embalar
Em meus fictícios
Versos a voar...
Tua
Nua
A te esperar
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Soneto de
HEGEL PONTES
Juiz de Fora/MG (1932 – 2012)

A alma da pedra
  
Longa pesquisa. E o mestre hindu descobre
que existe uma fadiga nos metais;
que o descanso renova, do ouro ao cobre,
o reino singular dos minerais.

Eu também sinto que a matéria encobre
estranhas vibrações emocionais.
É que a pedra tem alma, simples, nobre,
sonhando evoluções espirituais.

E a alma da pedra imóvel é a energia
que evolui, na ilusória letargia,
entre seres gigantes e pigmeus.

E sonha, nos milênios que a consomem,
ser um cacto que sonha ser um homem,
ser um homem que sonha ser um Deus.
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Poema de
PEDRO DU BOIS
Passo Fundo/RS, 1947 – 2021, Balneário Camboriú/SC

Palavras

Ásperas
ditas como ordens
assustadas
macias
ditas como esperas
controladas
raivosas
ditas como verdades
escancaradas
melífluas
ditas como mentiras
dissimuladas
rezadas
ditas como saudades
santificadas
cantadas
ditas como músicas
silenciadas
caladas
ditas como lembranças
extremadas.
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Trova Popular

Carvalho que dá bugalho,
porque não dás coisa boa?
Cada um dá o que tem,
conforme a sua pessoa.
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)

A um poeta moço

Desanimado, entregas-te, sem norte,
Sem relutância, à vida; e aceitas dessa
Torrente que te arrasta — a só promessa
De ir lentamente desaguar na morte.

Que pode haver, em suma, que te impeça
De seguir o teu rumo contra a sorte?
Sonha! e a sonhar, e assim armado e forte,
Vida e mágoas, incólume, atravessa.

Ouve: da minha extinta mocidade
Eu, que já vou fitando céus desertos,
Trouxe a consolação, trouxe a saudade,

Trouxe a certeza, enfim, (se há sonhos certos)
De ter vivido em plena claridade
Dos sonhos que sonhei de olhos abertos.
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Poema de
FERNANDO JOSÉ KARL
Joinvile/SC

O jardim suspenso

 Atirei pedra no sopro,
que fez da pedra uma ode.

Menos palavras, mais sopros,
porque o invisível é simples amor
coberto de flores na curva do vento.

Palavras são visíveis,
com elas posso ler o que passa
por dentro e por fora do jardim suspenso.

 Prefiro palavras a sopros,
porque de sopros o poço é cheio,
e não haveria sopros e poço sem palavras.
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Soneto de
ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO
Ouro Preto/MG, 1870 – 1921, Mariana/MG

Momento

Minha amada tão longe! Com franqueza:
eu penso sempre em me mudar daqui.
Pôr na sacola o pão que está na mesa,
sair vagabundando por aí.

A luz do quarto ficará acesa.
(Foi neste quarto que eu me conheci...)
Deixarei um bilhete sobre a mesa,
dizendo a minha mãe por que parti.

Ah! ir cantando pelo mundo afora,
como um boêmio amigo das cantigas,
alma febril que a música alivia!

Se perguntarem, digam: "Ainda agora
saiu buscando terras mais amigas,
mas é possível que ele volte um dia."
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Poema de
HUGO MUND JUNIOR
Mafra/SC

Um único verso

Um único verso sustenta
o equilíbrio do pássaro,
celebra a queda da folha
ao chão, brilha no coração
ilícito. Um único verso
sangra o papel em branco.
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Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

O brigue

Num porto quase estranho, o mar de um morto aspecto,
Esse brigue veleiro, e de formas bizarras,
Flutua há muito sobre as ondas, inquieto,
À espera, apenas, que lhe afrouxem as amarras...

Na aparência, a apatia amortece-lhe o esforço;
Se uma brisa, porém, ao passar, o embalsama
Ei-lo em sonho, a partir, e, então, empina o dorso,
Bamboleia-se, mais gentil do que uma dama...

Dentro a maruja acorda ao mínimo ruído,
Deita velas ao mar, à gávea sonda, o ouvido
Alerta, o coração batendo, o olhar aceso...

Mas a nau continua oscilando, oscilando...
Ó quando eu poderei, também, partir, ó quando?
Eu que não sou da Terra e que à Terra estou preso?
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Poema de
JUVÊNCIO MARTINS COSTA 
Florianópólis/SC (1850 — 1882)

Sonho (II)

 Tranquilo o coração adormecera
Na doce languidez de um beijo ardente. . .
Entre sonhos de flor beijara a crença
A perfumar minh' alma incandescente.

 E amei a vida, respirei das auras
O tépido frescor, banhando a fronte
Da formosa mulher, por quem meu peito
Estremece de amor, tão puro, insonte.

 E amei o sonho desfolhando risos,
Almo* prenúncio d' almo encantamento;
E minh' alma jaze o imersa em gozo,
Numa luta febril com o pensamento.

 E a sonhar vi a imagem predileta
Por entre sombras de uma luz fulgente;
Nus os seios tremendo de volúpia,
E no lábio a brincar beijo inocente.

 E a voz tremente balbucia um termo, —
Repassado de aromas e ambrósias,
Termo tão doce como sons de harpa
Desprendendo ignotas harmonias.

 Esse termo exprimira a majestade
De um profundo sentir, d'alma arrancado:
Amor em cujos elos se enlaçara
O coração do vate apaixonado.

 Termo tão doce a revelar carinhos,
Desprendido de lábios sedutores;
Termo a deslumbrar meu lindo sonho,
Ventura a reviver num céu de amores!

 Ouvi a frase rebentar dos lábios:
Eu sou o teu amor, amo-te tanto!
Não sei o que senti: em doce arroubo
Contemplei a mulher, celeste encanto!

 Era um anjo: sobre a nívea espádua
Vi roçar seu cabelo brandamente. . .
Nos seus olhos o brilho que cintila
Fogo de amor que queima e não se sente!

 Ai! Cedo se turvou a crença d'alma,
Breve se transformou o encantamento. . .
Acordei-me do sonho e não vi nada.
E sinto arder em febre o pensamento!
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* almo = santo.
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Hino de 
Barra do Piraí/RJ

Em dez de março de noventa,
Um sonho fez-se realidade.
Sem a menor visão sangrenta,
Surgiu a tua liberdade.

E tu, outrora tripartida,
Rompeste em marcha triunfante.
E nesta luta pela vida
Foste um exemplo edificante.

Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!

Entre colinas verdejantes,
Ricas, tão ricas de beleza,
Com teus dois rios coleantes,
És um primor da natureza.

Terra feliz, feliz e calma,
Sob este céu sempre de anil,
Tu és a cidade que tem alma,
Ó meu pedaço do Brasil!

Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!

Ó terra minha, berço amado!
Ó meu torrão bem brasileiro!
Cheio de glória no passado
E de futuro alvissareiro!

À luz da tua própria história,
O teu caminho percorrido
É rumo certo para a glória
Deste Brasil estremecido!

Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!
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Soneto de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

Estrada afora

Ela passou por mim toda de preto,
Pela mão conduzindo uma criança...
E eu cuidei ver ali uma Esperança
E uma saudade em pálido dueto.

Pois, quando a perda de um sagrado afeto
De lastimar esta mulher não cansa,
Numa alegria descuidosa e mansa,
Passa a criança, o beija-flor inquieto.

Também na vida o gozo e a desventura
Caminham sempre unidos, de mãos dadas,
E o berço, às vezes, leva à sepultura...

No coração — um horto de martírios!
Brotam sem fim as ilusões douradas,
Como nas campanhas desabrocham lírios.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O lavrador e seus filhos

Um lavrador sentindo vir chegando
O fim da sua vida, e desejando
Que os filhos trabalhassem na cultura,
Chamou-os, e lhes disse: «A sepultura
Por instantes me espera: os bens, que tinha,
Enterrados estão na nossa vinha.»

Morto o pai, e tendo eles suspeitado
Que algum grande tesouro sepultado
Lhes deixava na vinha, aparelharam
Enxadas, e solícitos cavaram.
Não acharam tesouro, é bem verdade;
Mas a vinha deu tanta novidade,

Que se pode dizer que foi tesouro,
Segundo o que rendeu de prata e ouro
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 151


Escrito nas estrelas que a comunicação é uma forma de transmitir conhecimentos. E não é à toa que o século vinte e um é chamado de Era da Comunicação - estendida para Era do Conhecimento.

A explosão das redes sociais nos dá a chance de buscar e armazenar conhecimentos e o saber de toda espécie.  Não tenho notícia de outras civilizações que tenham tido a democratização de conhecimentos como a nossa.

Mas como temos as tecnologias a serviço da informação e do conhecimento, muita gente também usa os meios tradicionais de buscar e disseminar cultura.

Sou desta casta que usa os correios quase incessantemente, encaminhando livros e versos e prosas - meus pássaros perdidos - , assim como escrevo e recebo cartas há décadas, algumas, sazonais, outras, semanais, como é o caso de dois missivistas com quem troco envelopes há quase trinta anos.

E quem não gosta de receber o agente do correio, entregando algo inesperado, e também o não esperado?  Este até parece mais gostoso, aguça a expectativa...

E quem não fica contente quando chega um pacote amarrado com barbante, sabendo que chega um livro, ou dois, ou mais? Comunicação chegando, cultura pertinho, o saber tocando a campainha.

Alvíssaras sempre!  Delícias perenes!
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada com Microsoft Bing, e desenho do autor. por por Jfeldman 

Washington Daniel Gorosito Pérez* (Luis García Montero: “A escrita poética não tem muito sucesso comercial.”)

(tradução do espanhol por José Feldman)
O escritor espanhol Luis García Montero (Granada, Espanha, 1958) falou sobre seu livro mais recente, "Antologia Pessoal", uma coletânea de poemas na qual reúne três temas que considera fundamentais, apresentando suas reflexões sobre linguagem, idade e amor.

Vale lembrar que, ao receber o Prêmio Literário Carlos Fuentes, ele declarou: "Sou poeta. Na Granada pós-Franco, me senti herdeiro de Federico García Lorca, porque me senti testemunha do mundo que o assassinou."

O diretor do Instituto Cervantes também afirmou que "a poesia não tem muito sucesso comercial, ao contrário dos romances, que às vezes são escritos até como entretenimento grosseiro, desprovidos de valor cultural", uma observação crítica do poeta espanhol, cuja "Antologia Pessoal" reúne quatro décadas de sua obra poética.

Para García Montero, a poesia é mais um gênero que mantém uma relação próxima com a solidão e a meditação humana, como ele compartilhou em entrevista ao jornal mexicano Excélsior.

Por exemplo, quando uma pessoa chega em casa sozinha, olha-se no espelho e se pergunta como se sente, como foi o seu dia. Esse ato de solidão tem uma conexão com a poesia. “É por isso que, mesmo que a poesia não seja um sucesso de massa, anos depois podemos nos encontrar lendo Garcilaso de la Vega, São João da Cruz ou Sor Juana Inés de la Cruz, identificando-nos com seus sentimentos, sua solidão e suas dúvidas”, afirma García Montero.

Isso implica que a poesia não é concebida instantaneamente. “O poema diz o que o poeta sente, mas para evitar cair no fanatismo do papagaio, que repete verdades já ditas, o poeta deve garantir que o poema, mais do que um desabafo pessoal, se torne uma meditação sobre a condição humana que resista ao teste do tempo”, afirmou o poeta.

Lembremos que, quando García Montero recebeu o Prêmio Internacional de Criação Literária em Língua Espanhola de 2024, declarou: “Se alguém se dedica à poesia, não é o mesmo escrever 'Eu te amo' quando existe uma relação de igualdade, respeito e liberdade, como quando existe uma relação de subjugação”.

Para García Montero, a poesia “tem sido uma forma de defender a dignidade e a liberdade humanas, com suas nuances. O perigo não é apenas o ditador que se encontra; o perigo também está em defender uma boa causa e esses sonhos se corromperem, terminando em desrespeito e ignomínia”.

O escritor espanhol acredita que as humanidades são outro fator determinante na concepção de um poema e expressou: “Para mim, é necessário resgatar valores, porque os tempos passam a passos largos e vivemos em momentos em que o tempo se tornou um grande conceito cultural e uma mercadoria descartável”.

No entanto, o poeta espanhol afirma que: “As humanidades servem para refletir sobre a condição humana e pensar o tempo não como uma mercadoria descartável, mas como uma experiência compartilhada a partir do presente”.

Ele declarou: “Os poetas que mais respeito são herdeiros do passado. Devo reconhecer que aprendi muito com poetas como José Emilio Pacheco e Rubén Bonifaz Nuño, pessoas que se sentiam herdeiros de uma tradição poética que remontava ao mundo indígena pré-hispânico”.

Ao ser questionado se um único leitor é suficiente para a existência da poesia, García Montero reflete: “Acredito que um leitor é essencial para a existência da poesia. Se você escreve e o texto permanece apenas uma reflexão pessoal, o poema está lá, mas não o ato poético. O poeta catalão Joan Margarit expressou isso muito bem, afirmando que um leitor é necessário para que o ato poético funcione. Acredito que o diálogo entre o autor, o texto e o leitor é fundamental, mas também acredito que, se o poema atinge apenas um leitor… sua recepção é limitada.”

O escritor García Montero considera que um dos perigos que a poesia enfrenta está relacionado à linguagem. “Penso no perigo de acreditar que se é um gênio. Por exemplo, o poeta que se imagina muito talentoso porque escreve poesia tão difícil que apenas outros poetas a entendem, e assim transforma a linguagem poética em um dialeto entre poetas”, e afirmou: “Acredito que seja perigoso escrever poemas acreditando que são de alta qualidade quando não são facilmente compreendidos.”

Abaixo compartilho o poema: “Oração” que faz parte do livro “Antologia Pessoal” e que o escritor hispano-mexicano Paco Ignacio Taibo II, amigo de García Montero e atual diretor do Fondo de Cultura Económica do México, adotou como lema pessoal:

Oração

A vós,
que cortastes a maçã da morte,
com o anonimato da guerra,
imploro caridade.

Por um Deus
em quem nunca acreditei.

Por uma justiça
na qual desconfio.

Pela ordem de um mundo
que não respeito.

Para que renuncieis à vossa guerra,
eu renuncio às minhas dúvidas,
que me são tão intrínsecas
como a luz amarga
é intrínseca ao outono.

E escrevo a Deus, Justiça, Mundo,
e imploro caridade
e vos suplico.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = === 

* Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991, tendo obtido a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. Professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias.

Fonte:
Sumar Literomania nr. 394 (2026). 01.02.2026

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 5 *

 

José Feldman  (Floresta/ PR)

LENDA DAS CATARATAS DO IGUAÇU

Nas margens do Rio Iguaçu,
vivia o povo Caingangue,
sob o céu de intenso azul,
longe de guerra ou de sangue.

Mboi, serpente temida,
exigia adoração,
uma jovem era escolhida,
em santa consagração.

Naipi, de rara beleza,
foi a ele prometida,
mas contra a vil correnteza,
pelo amor foi conduzida.

Tarobá, jovem guerreiro,
por ela se apaixonou,
num plano firme e certeiro,
na canoa a resgatou.

Fugiram pelo remanso,
sob o brilho do luar,
buscando um porto de descanso,
onde pudessem se amar.

Mboi, em fúria profunda,
o chão da mata fendeu,
numa queda que inunda,
onde o rio se perdeu.

As águas logo caíram,
num abismo de pavor,
os amantes não fugiram
do destino e do seu rigor.

Tarobá virou palmeira,
à beira do precipício,
observando a ribeira,
em eterno sacrifício.

Naipi, em rocha mudada,
pelas águas é banhada,
sendo para sempre castigada,
pela serpente odiada.

Diz a lenda que o arco-íris,
que une a árvore e a pedra,
é o amor que, entre eles,
ainda vive e se medra.

Laé de Souza (Dai-nos paciência)


Homens e mulheres, mesmo que casados, precisam viver seus espaços dentro de determinado limite. Essa delimitação deve ser imposta por si próprio e não por coação do parceiro, sob pena de trazer barreiras intransponíveis ao relacionamento. Claro que o homem gosta de se reunir com os amigos e, entre uma cerveja e outra, falar de carro, de futebol, corrida, de quando era... vangloriar-se de sua maior pescaria etc. A mulher, no seu chá ou até tomando uma dose de campari, fala de família, de moda, de sentimentos, poesia, beleza etc. Devemos, portanto, cada um permitir que o companheiro tenha os seus momentos de prazer. Confesso que não foram fáceis os últimos dias vividos com minha segunda ex-mulher, no que se refere às minhas necessidades de troca de ideias com amigos.

Ao chegar em casa às 3 horas da manhã, no maior silêncio, em respeito ao seu direito de dormir (afinal, depois das 22 horas a lei do silêncio deve ser respeitada), deparei-me com ela sentada no sofá à minha espera. Pela cara, uma fera. Dei um beijinho, ela inerte como uma múmia. Tomei banho e, quando me preparava para deitar, ela rompeu o silêncio:

- Precisamos falar sobre o João (nosso filho).

- Não pode falar amanhã? - perguntei com voz mansa de sono.

– É sempre assim. Quando surge algum problema, especialmente com nossos filhos, você não quer assumir. Eu tenho de ver tudo sozinha. Já estou cansada... - disse ela.

E foi por aí afora, falando, falando, até que, não obtendo respostas, parou. De falar sobre esse assunto, claro. Começou a fazer limpeza no quarto. Na verdade, ela nunca foi dada a arrumação, mas quando tinha uma briguinha, baixava o espírito de limpeza e começava a faxina. E era aquele acende luz, bate janela, porta, gaveta, abre e fecha guarda-roupa, passa pano, aqueles papos todos. Dei uma pequena resmungada, de leve. Aí, ela veio com tudo:

- Tá achando ruim, é? Então, vem ajudar que acaba logo! Pensa que minha vida é fácil?

Percebi que a coisa poderia complicar mais para mim. Peguei meu travesseiro, um lençol e fui para a sala deitar-me no sofá. Mas, nem bem comecei a cochilar, ela deu início ao serviço de faxina naquele ambiente. Imagino que devia ser para me irritar, porque ela é de uma moleza infernal para fazer as coisas e o normal é que ainda estivesse limpando o quarto. Fui para a cama. Mas, ela ficou naquele entra e sai, pega uma coisa, outra etc. Não teve jeito. Saí do quarto, pus na vitrola um disco de Waldick Soriano, no copo uma dose de uísque e fiquei o resto da madrugada ouvindo, entre um cochilo e outro. Claro que ela, a toda hora, lembrava: - São 4 horas da manhã e os vizinhos têm direito de dormir.

Não liguei. Fui curtindo o som até às 7 horas, quando saí para trabalhar.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. 

Fontes:
Laé de Souza. Acontece… . 44a. edição. SP: Ecoarte, 2018.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Rodica Grigore* (Nepoata [A Neta], de Bernhard Schlink)

(tradução do romeno por José Feldman)

Claramente trazido à atenção do público leitor mundial após a publicação do romance "O Leitor" (1995), e especialmente após sua adaptação cinematográfica com Kate Winslet no papel principal, Bernhard Schlink ofereceu, por meio desse texto, um dos grandes modelos literários da prosa contemporânea, abordando uma série de aspectos espinhosos do Holocausto a partir de uma perspectiva original. "O Leitor", como sabemos, é a história de um jovem na Alemanha do pós-guerra, apaixonado por uma mulher mais velha, que ele descobrirá ter trabalhado em um campo de concentração nazista. Schlink publicou posteriormente duas coletâneas de contos e vários romances (alguns policiais), nos quais, como em "O Leitor", explorou as dificuldades enfrentadas por aqueles que tentam esconder seu passado. "A Neta", o romance mais recente do autor, retoma os temas da memória, do trauma e da impossibilidade de reconciliação, só que agora o assunto aborda o delicado tema da reunificação alemã, bem como as atitudes de alguns cidadãos da antiga República Democrática Alemã.

Tudo começa quando Kaspar, um livreiro idoso que vive na Berlim contemporânea, encontra sua esposa, Birgit, morta na banheira. Não se trata de um suicídio, mas Kaspar tem consciência do papel prejudicial que o consumo de álcool desempenhou em sua vida e casamento. Repleto de sentimentos complexos, especialmente uma raiva cansada e impressionante que parece consumi-lo, ele percebe que Birgit sempre guardou segredos e conseguiu, ao longo dos anos, manter antigos pensamentos, sentimentos e medos para si mesma. E, vasculhando (e procurando febrilmente) os e-mails e cadernos da esposa, Kaspar relembra o passado, todo o passado deles. 

Assim, chegamos a 1964, em Berlim Oriental, a um festival organizado pelas autoridades comunistas da época para promover a troca de ideias entre jovens que viviam em ambos os lados do Muro. Foi ali que Kaspar e Birgit, ambos estudantes na época, se conheceram e se apaixonaram. E embora o jovem estivesse disposto a ficar na antiga RDA pela mulher que amava, ela se recusou, optando por arquitetar um plano para fugir para o Ocidente com documentos falsos. E o que Kaspar descobre com imensa surpresa, somente após a morte de Birgit, ao ler seu diário e o romance inacabado (autobiográfico), é que sua esposa havia deixado uma filha recém-nascida, sobre cuja existência ela não lhe contara nada por tantos anos. Assim, ele partirá novamente para o Oriente, para reconstruir os detalhes secretos da vida da mulher que amou e com quem viveu – mas que, agora ele está convencido, nunca conheceu de verdade.

Logo após sua publicação, em 2021, o jornal "Le Figaro" chamou "A Neta" de "o grande romance da reunificação alemã", e o livro rapidamente recebeu inúmeros prêmios literários nacionais e internacionais. Schlink escreve muito bem, conseguindo capturar (e manter) a atenção do leitor, mesmo que alguns exegetas tenham criticado o texto pelo tom quase gótico (e um tanto carregado) com que narra as sequências relacionadas ao terror praticado pelos serviços secretos da Alemanha Oriental, ou pela adesão excessivamente rigorosa a modelos estabelecidos na descrição das relações entre alemães ocidentais e orientais, ou ainda pela existência monótona dos habitantes do antigo campo comunista. No entanto, Schlink consegue, em grande parte, superar a estrutura de uma narrativa teológica e examinar o impacto e as consequências da ascensão da extrema-direita na Alemanha, especialmente nas últimas décadas. 

A leitura é marcada pelo ritmo lento, por vezes solene, de uma prosa refinada, mas também pela habilidade do autor em variar a intensidade da narrativa e introduzir reviravoltas dramáticas – a primeira das quais representada, naturalmente, pela descoberta da morte de Birgit. Além disso, ao partir sozinho em busca dos segredos do passado da esposa, Kaspar percebe por que ela não quis retornar ao Leste, mesmo após a unificação da Alemanha, evitando até mesmo os laços com a família que lá permaneceu e falando muito raramente sobre assuntos relacionados ao mundo que deixara para trás. 

As complexas experiências de Birgit são expressas apenas por escrito, de modo que seu marido só as conhecerá postumamente, surpreso ao constatar que compartilha algumas ideias com ela, mesmo que nunca as tenham discutido: A RDA entristecia Birgit, nunca sendo a pátria idealizada pelos jovens de algumas décadas atrás, nem o país que se pudesse desfrutar plenamente. Além disso, aqueles que partiram não podem retornar, pois seu exílio, como o de tantos migrantes contemporâneos, jamais termina. Daí o profundo sentimento de perda, ausência e vazio. A pátria e o belo sonho de um futuro brilhante se perderam irremediavelmente. 

De alguma forma, como o mítico Orfeu, Kaspar sabia que, uma vez rompida a ligação com o Leste, jamais deveria olhar para trás. E Birgit também não. Mas o que fazer com as lembranças, os pensamentos, o remorso?... Só depois da morte da esposa é que o velho livreiro começa a compreendê-la e a entender seus medos secretos, sua fuga constante, inclusive a fuga de si mesma. As páginas escritas por Birgit representam a amarga constatação, feita pela protagonista praticamente ausente deste livro, de que ela não era uma pessoa capaz de procurar, muito menos encontrar, a filha que deixou para trás. E anos depois, Kaspar decide que deve ao menos tentar embarcar nessa jornada (uma verdadeira busca moderna) que Birgit nunca conseguiu iniciar.

As confissões de Birgit ocupam uma parte significativa do romance (talvez um pouco longa...), tornando-se, imperceptivelmente, uma espécie de testemunho direto da história alemã e das consequências das escolhas pessoais, tudo narrado de dentro para fora. Bernhard Schlink transforma, dessa forma, o que poderia ter sido apenas mais uma história de amor entre duas pessoas do Leste e do Oeste em uma história de vida cativante e impressionante. Pois, à medida que Kaspar se recupera dos primeiros momentos de raiva, culpa e frustração causados ​​pelos segredos de Birgit (será que toda a vida deles foi uma mentira?), ele decide encontrar a filha dela. Depois, a neta. E agora o ritmo da narrativa acelera, deixando o leitor praticamente grudado neste romance cujo final o deixará diante de muitas questões difíceis.

Naturalmente, o encontro com sua neta/enteada, Sigrun, é o ponto central do texto. E aqui todas as expectativas iniciais são subvertidas e quaisquer preconceitos são postos à prova. Kaspar, um espírito liberal e intelectual racional, trava uma verdadeira batalha de inteligência com sua neta (apenas meia neta, é claro) – uma adolescente racista e violenta, que nega veementemente o Holocausto (ele não existiu, Hitler amava a Alemanha e o “Diário” de Anne Frank, por exemplo, é uma falsificação grosseira!) e que cresceu em uma comunidade rural neonazista na antiga RDA. Não há vencedores nem perdedores neste romance; o autor evita oferecer qualquer receita perfeita sobre como a Alemanha deveria lidar com seu passado, mas há muitas coisas sobre as quais o leitor deve meditar lucidamente. 

"A Neta" torna-se, assim, também a história da jornada de Kaspar, refletindo, ainda que indiretamente, as tentativas de Bernhard Schlink de compreender plenamente seu país natal. Ao longo do romance, acompanhamos, portanto, não apenas as ações de Kaspar, mas também suas reações a desafios inesperados, como sua perspectiva se transforma e como ele passa a enxergar a própria vida. Não é coincidência que, em certo momento, ele confesse não ter nenhum orgulho da Alemanha, mas que não consegue se imaginar sendo outra coisa senão alemão…

Curiosamente, embora na segunda parte do romance o ritmo seja acelerado e a atenção do leitor seja praticamente cativada por essa narrativa envolvente com alguns toques de investigação policial, as personagens permanecem, mais de uma vez, um tanto esquemáticas, até mesmo bidimensionais, enquanto o autor tenta "vesti-las" com ideias da melhor maneira possível, de acordo com a tese e as premissas do texto, em detrimento de um retrato completo. Daí surgem certas notas didáticas ou ligeiramente romantizadas, típicas da literatura de consumo. 

Por exemplo, Kaspar convence os pais de sua “neta” a deixá-la visitá-lo em Berlim, e durante essas breves visitas, a menina tem algumas aulas de piano, tornando-se uma espécie de gênio musical, executando rapidamente peças de Bach e Schumann (embora o próprio autor pareça ter dificuldade em diferenciar com precisão os dois compositores!). Naturalmente, Kaspar, totalmente imerso no papel de bom avô, não apenas de bom alemão, mas também de cidadão honesto e participativo, um homem culto, afasta a adolescente problemática das ideias perigosas de seus pais. Ela, porém, os abandona apenas para se juntar a outro grupo de extrema-direita em Berlim, tornando-se cúmplice no assassinato de um ativista de esquerda. Em seguida, com a ajuda de Kaspar, ela parte para a Austrália (após pegar o dinheiro e o cartão de crédito do avô!), com a intenção declarada de frequentar uma academia de música e se tornar pianista profissional.

É interessante notar também que, enquanto Kaspar tenta "salvar" Sigrun, ele se vê obrigado a confrontar seus próprios preconceitos, bem como a espinhosa questão da responsabilidade coletiva, os traumas históricos e todas as contradições e tensões que se seguiram à reunificação da Alemanha. Como acontece nessas situações, muitos alemães se consideravam vencedores. Mas o que aconteceu com aqueles que perderam, com aqueles que não conseguiram se adaptar completamente aos novos ritmos culturais e sociais? Birgit e outros como ela, fugitivos do Oriente, lutaram a vida inteira com a sensação de que deveriam ser eternamente gratos por tudo o que o Ocidente lhes oferecia – bem-estar social, democracia, estabilidade, prosperidade. Mas será que era mesmo assim? Será que tudo lhes era oferecido de bandeja no novo mundo em que chegaram?… Aparentemente, sim. Mas, claro, a realidade é sempre muito mais complexa, como o próprio Kaspar compreenderá, embora apenas após a morte da esposa.

Claro, lido numa perspectiva mais ampla, este romance é sem dúvida também uma declaração política e cultural por parte do autor, de modo que, uma vez que Schlink expôs suas ideias, restou o problema de identificar o final mais apropriado para toda a história. Talvez seja precisamente por isso que o escritor parece um pouco apressado e menos atento aos detalhes significativos do que em suas obras anteriores. É claro que é bom acreditarmos que sempre, aconteça o que acontecer, assim como nos contos de fadas, o bem vence o mal. No entanto, às vezes, na Alemanha ou em qualquer outro lugar, especialmente nos tempos em que vivemos, essa conclusão pode parecer (será?), após uma leitura atenta, um tanto superficial…

Bernhard Schlink, "Napoata", tradução e notas de Mariana Bărbulescu, Polirom Publishing House, Iași, 2024
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* Rodica Grigore, professora associada (literatura comparada) na Faculdade de Letras e Artes da Universidade "Lucian Blaga" de Sibiu; Doutora em Filologia desde 2004. Publicou os seguintes volumes: "Sobre Livros e Outros Demônios" (2002), "A Retórica das Máscaras na Prosa Romena do Período Entreguerras" (2005), "Leituras no Labirinto" (2007), "Máscaras, Caligrafia, Literatura" (2011), "No Espelho da Literatura" (2011, Prêmio "Livro do Ano", concedido pela Seção de Sibiu da União de Escritores da Romênia), "Os Meridianos da Prosa" (2013), "Os Pretextos do Texto. Estudos e Ensaios" (2014), "Realismo Mágico na Prosa Latino-Americana do Século XX". “Reconfigurações formais e de conteúdo” (2015, Prêmio da Associação de Literatura Geral e Comparada da Romênia, Prêmio G. Ibrăileanu de Crítica Literária da revista “Viața Românească”, Prêmio “Livro do Ano”, concedido pela filial de Sibiu da URSS), “Viagens na Biblioteca. Ensaios” (2016), “Livros, Sonhos e Identidades em Movimento. Ensaios sobre Literatura Contemporânea” (2018, “Prêmio Șerban Cioculescu”, concedido pela revista “Scrisul Românesc”), “Entre a Leitura e a Interpretação. Ensaios, Estudos, Resenhas” (2020). 
Ela coordenou e produziu a antologia de textos para o Festival Internacional de Teatro Siblu, entre 2005 e 2012. Publicou inúmeros artigos na imprensa literária, em revistas como "Euphorion", "Observator Cultural", "Saeculum", "Scrisul Românesc", "Viața Românească", "Vatra", etc. Colabora com estudos, ensaios e traduções para publicações culturais na Espanha, México, Peru e Estados Unidos. Faz parte da equipe editorial da revista "Theory in Action. The Journal of Transformative Studies Institute", em Nova York.

Fonte:
Sumar Literomania nr. 392 (2026). 13.01.2026
Disponível em https://www.litero-mania.com/calatorie-in-est/

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A. A. de Assis (Que bom se fosse)


Pelo bem que o bem contém,
pela paz que ele nos traz,
todo bem faz muito bem,
sobretudo a quem o faz.

Cada qual com seu talento faz o quanto pode e sabe. Francisco produz a uva, Gustavo produz o trigo, Margarida faz o vinho, Genoveva faz o pão. Cada qual fazendo um pouco, terão todos seu quinhão.

Era assim que Deus queria ver girar a economia. Não somente entre as pessoas, não somente entre as famílias, não somente entre as empresas, mas também entre as nações e os continentes também. E que bom se fosse assim... Mas que pena que não é.

Por egoísmo ou tolice, por ambição ou maldade, inaugurou-se a injustiça no seio da humanidade. Esqueceu-se o Deus do Amor. E ao trono subiram juntos os maus deuses das ruindades. E a vida virou uma guerra. E a Terra em armas se pôs.   

De Caim versus Abel a Esaú versus Jacó. Dos gregos versus troianos a Roma versus Cartago. Do Leste versus Oeste aos azuis versus vermelhos.

Na ONU sentam-se os chefes, discursos de toda sorte, enquanto os mísseis se cruzam voando e espalhando a morte.

Em outros tantos assentos, rediscutindo tarifas, rediscutindo barganhas, sentam-se os donos de tudo: do petróleo ao grão de soja, dos rebanhos aos brinquedos, das fábricas de bolacha às montadoras de carros, dos bancos e dos navios aos times de futebol.

Roda, roda, gira a roda do mundo globalizado. Os donos ora se abraçam, ora brigam: euros, dólares, commodities. Quem pode mais, come mais, quem não pode se sacode. E enquanto o pequeno geme, a pança do grande explode.

Num país sobra vacina, noutro falta esparadrapo. Uns poucos no extremo luxo, milhões na miséria extrema.  

Zero em solidariedade, zero em cooperação, zero em sincera amizade, zero em leal parceria. Negócio, amigo, é negócio, e é tudo mercadoria. Pois tudo afinal se vende: o pão e o vinho se vendem, cultura e arte se vendem, as consciências se vendem, até o sorriso se vende, e às vezes a própria fé. 

Porém, como Saulo, um dia... um dia esse mundo louco, essa louca economia, injusta, cruel, selvagem, podem crer, cai do cavalo, e por milagre se muda em geral fraternidade.

Seria isso utopia? Ou esperança seria? 

Ao poeta é dado ainda o direito de sonhar. Sonhemos, irmãos, sonhemos, sonhemos um mundo bom, onde a paz seja possível e possível seja amar.

Possível será decerto destronar os deuses maus e ao trono levar o Deus da grande alegria, o Deus da geral ternura, o bom Deus da comunhão, que ensina a partir o pão.

Quem dera, irmãos, que esse dia um dia possamos ver. 
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 01.5.2025) 
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A. A. DE ASSIS (Antonio Augusto de Assis), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada com Microsoft Bing e desenho do autor