quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 150 *


 Poema de
RICARDO REIS
(Fernando Pessoa)
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

34

Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias.

A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nós queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos Deuses.

Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam.
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Eros

À luz da vela titubeante
pasmado pela ciência dos antigos
convoco-te, deus do amor
ao palácio da minha ousadia
em concílio de desesperança

Não mendigo ambrósia e néctar
nem as graças do teu acolhimento
pois sou insignificante mundano
perdido no seio da adversidade

Desfecha tuas setas certeiras
no coração do homem descrente
de deuses de honra e de amor

Penetra no coração empedernido
ferindo de morte a cobiça vil
entorpecida em iludido sono estígio

Que a beleza da lenda
torne da razão a fantasia

Que o puro sentimento peregrino
seja conduzido nos braços
servis do gentil zéfiro
levando o mesquinho rastejar
à imortalidade alada da alma.
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Poema de 
SONIA CARDOSO
Curitiba/PR

Chuva 

A cortina úmida 
Molha a terra que 
Entusiasmada exala 

O cheiro suave, de seu ventre 
A água em livre demanda 
Carrega pelas sarJetas 

As mágoas da natureza,
Do nosso tempo, a alegria 
E a tristeza do viver.
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Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ

Vendaval

O vento frio açoitando meu rosto
Penetra na pele, mas também na alma
Fico parada só  a contra gosto
Querendo muito que a mim tragas calma.

A doença não há de me vencer
Tenho amigos com quem posso contar
Para tanto busco o que  merecer
Busco alívio e meto-me a trabalhar.

Os trovões retumbando ao longe trazem
Insegurança, inquietação e fazem
A angústia, a saudade da pátria aflorar.

Lá fora ruge o vento inquietante
Assustando o coração desta imigrante
Despertando o ensejo de à pátria voltar.
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Poema de
DANIEL RODAS
Campina Grande/PB

Descriação 

às vezes passo dias
procurando a palavra certa
o rumo certo

vasculho dicionários estéreis 
mergulho 
em versos frios e obscuros

mas nada encontro: nenhuma
semente do que queria
dizer

e o que me resta é olhar pela
janela

os bem-te-vis plantando flores
nos seus ninhos.
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Soneto de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Vila dos Andradas

Nasci naquela vilazinha feia, 
sem árvores nem flores nas calçadas.
Rua? Perdão! Errei se assim chamei-a, 
era apenas a Vila dos Andradas.

Saí criança e não voltei. Lembrei-a,
saudosa das cirandas nas calçadas.
Foi lá, que eu aprendi que a lua cheia
era a Mansão dos Sonhos e das Fadas!

Não mais existe a minha velha Vila,
mas, pobre e triste, seu passado atesta
que nela havia luz que ainda cintila

a ultrapassar os sóbrios horizontes:
- Naquela Vila, plácida e modesta,
viveu, rimou o nosso Martins Fontes!
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Noite de inverno 

Decanto teus versos
em suaves nuances,
aquecendo a poesia 

que existe na noite fria.
Sinto os ecos do vento
açoitando no ar, tua ira.
Ouço o silêncio do luar,
sorrio... Ele é meu guia.
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP

Flagelo

Do passado não deixes que a lembrança
te ponha o peito em pranto a flagelar
para a noite da dor não apagar
o antigo sol dos tempos de bonança.

Procura um outro amor pela esperança
de novas alegrias desfrutar,
pois diz velho provérbio popular
que aquele que algo espera sempre alcança.

Limpa da mente aquele antigo rosto
que agora só te traz mágoa e desgosto
e afasta da tua vida esse flagelo!

Varre, pois, da tua alma o sofrimento,
apaga da lembrança esse tormento
e exuma dela esse já morto anelo!
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Poema de
RITA DELAMARI
Curitiba/PR

Luminescência

Noite longa e misteriosa,
e o silêncio me consome...
Apareces por trás das nuvens,
fica a observar-me de longe.

Com teu brilho prateado,
banhas o céu totalmente.
Brincas de esconde-esconde,
que até parece se divertir.

Teimosa, se fazes presente,
e sorri bem sorrateira!
Conversas comigo, não queres partir
Solidão, não é mais companheira.

Consegues enxugar-me o pranto,
preenches todo meu pensamento.
Percebes que a ti tenho encanto!
Sabes como ninguém, seduzir.

Então, sem pedir licença
acalma a minha noite,
domina os meus sonhos...
Derrama sobre mim, sua luz!
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Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

O Andarilho

“Não me fale de amor”, alguém me disse,
“o amor morreu, já não existe mais”.
E eu retruquei que aquilo era tolice,
– será pecado alguém amar demais?

Ficou parado ali, talvez me ouvisse
que o amor perdoa e espera, sem jamais
querer em troca o favo da meiguice
que perpetua a vida entre os casais.

O tempo foi passando e pela rua
eu vi aquele vulto olhando a lua
perambulando como um peregrino.

E percebi, então, que aquele rosto
marcado pela dor, pelo desgosto,
nunca teve um Amor em seu destino!
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Desavisado
Trazia um beijo antigo 
Guardado no peito 
Mas ao te ver com outro
Fiquei tão sem jeito 
Que deixei que o beijo 
Caísse no chão.
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Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Ilha de Sant’Ana

Tua origem, de fato, ninguém sabe,
mas nasceste das cinzas deste pó;
Ilha amada, em teu ventre, tudo cabe,
aos sussurros do velho Seridó!

Que teu nome, no tempo, não desabe,
nem te deixem viver assim tão só;
que o teu canto de amor, nunca se acabe,
ante o olhar de Sant'Ana, nossa avó!

Sob as bênçãos de nossa padroeira,
e os arpejos de cada cachoeira,
que deságua nas terras deste chão...

Quando o rio, de verde se reveste,
tens a imagem mais pura do Nordeste,
e és a Ilha mais linda do sertão!
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Quadra de
IDEL BECKER
Porto Casares/ Argentina (1910 – 1994) São Paulo/SP

Você diz que sabe muito,
há outros que sabem mais;
há outros que tiram pomba
do laço que você faz.
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Hino de 
Matinhos/PR

Ó berço romântico, de ingênuo fulgor.
Ó filha do Atlântico, ó paraíso em flor.
Na calma que anseias, escrínio do mar.
As tuas sereias são joias sem par.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.

Na azul madrugada, tu a cintilar.
És sonho de fada que o sol faz dourar
Nas noites serenas, secreto rumor.
Escuta-se apenas, o mar teu cantor.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.

Doçura sem conta, propício rincão.
Oásis que aponta a vasta amplidão
Teu mar sem fronteiras, excelso e viril.
Em ondas brejeiras, te beija sutil.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.

Seus torvos cuidados, ó praia feliz.
Em ti namorados passeiam tão gentis.
Com rútila vida, mais bela não há.
Matinhos querida, gentil Caiobá.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.
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Triverso de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

fim de tarde -
sutil gota d’água
na folha seca.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O carvalho e a cana

«Teu ser bem pouco à natureza deve!
— Disse o carvalho à cana.—
O pássaro mais leve,
Se pousa sobre ti, logo te abana;
Um ligeiro soprar
Que a face encrespa do regato, apenas,
Faz-te logo vergar
E obriga-te a sofrer bem duras penas;
Enquanto eu ergo a fronte com vaidade,
Do Sol detenho o raio
E afronto a tempestade!
Todo o vento é me um zéfiro de maio,
Para ti todo o vento é vendaval!
Se da minha ramada
Nascesses abrigada,
Não sofrerias um tamanho mal.
O fado foi contigo muito injusto!...
— A tua compaixão,
Lhe respondeu o arbusto,
Abona o teu sensível coração;
Mas tanto não te mates
Chorando as minhas penas:
Melhor que tu, do vento sofro embates;
Não quebro, dobro apenas.
Tens resistido a rígidas nortadas...
Porém atrás do tempo, tempo vem!»
Tais vozes acabadas,
Bóreas em seus furores se despica;
A pobre cana dobra,
Firme o carvalho fica.
Ativa Bóreas a feroz manobra,
Faz tão cruenta guerra,
Que deita enfim por terra
Quem com a fronte nos astros topetava
E no abismo as raízes ocultava!

Não consegue o seu fim na estância térrea
Quem tudo quer levar à virga-férrea;
E é de crer que bem pouco se moleste
O que se abaixa quando a onda investe.

Eduardo Martínez (Família é tudo igual, mas a da Camila é muito pior)


Família é uma espécie de fauna que você não tem controle sobre os espécimes raros que aparecem a cada geração. Todos nós temos um parente ou outro que, temos certeza, já nasceu treinado para constranger os seus. No entanto, no caso da Camila, ela parece ter nascido em uma família premiada, tamanho o capricho do dedo de Deus.

Jaime, um dos tios, era meio resmungão, meio filósofo de botequim, do tipo que quer porque quer encontrar razão até mesmo na quantidade de colheradas de açúcar que você põe ou deixa de colocar no café. 

— Hum! Tá faltando amor na sua vida. Acertei?

— O quê, tio?

— Essa sua ânsia por açúcar. Quem é que coloca quatro colheres cheias de açúcar no café?

— É proibido agora?

— Falta de amor, Camila. Eu sabia!

Carlos, o irmão, era devagar quase parando. Os pais até suspeitaram de anemia falciforme e levaram o rapaz ao médico. Que nada, o rapaz possuía mais hemácias do que a maioria de todos nós. 

— Dona Júlia e seu Osmar, vocês podem ficar despreocupados, que o filho de vocês é normal. Um tiquinho lento, é verdade, mas jabuti também é e vive um montão. Não é verdade?

Os pais até sentiram certo alívio, mas caíram na besteira de comentar sobre o tal episódio em almoço de domingo na casa dos avós da Camila. Pra quê? O avô não era fácil e já saiu com essa:

— Ah, Júlia, que bom!

— Também achei, papai.

— E tem mais, minha filha.

— O quê?

— O Carlos vai arrumar amizade fácil, fácil.

— É?

— É!

— Essa não entendi, papai.

— É que todo mundo vai querer o Carlos por perto numa briga.

— Briga? Papai, o senhor tá louco? E desde quando o Carlos vai se meter em briga?

— Bem, Júlia, se vai se meter em briga por querer, não sei. Mas, que na hora da briga, ele vai ficar pra trás enquanto todos os amigos vão dar pinote, ah, isso vai. 

Como você já deve imaginar, o avô era o engraçadinho da família. Quer dizer, ele tentava, pois a avó era mais talentosa. Mas não pense você que Camila gostasse disso, mesmo porque, não raro, ela deixava a garota de um jeito que a pobre não sabia onde meter a cara. 

Não faz muito tempo, lá estava a Camila com o Mauro, com quem estava dando uns beijos por aí. Pense num sujeito bonito. Aliás, bonito é o Brad Pitt. O Mauro é lindo! E, para ser perfeito, só faltava ter nascido com a voz do Milton Nascimento. Mas...

Pois lá estava o casalzinho em um churrasco na casa dos avós. Era a primeira vez que a moça levava um rapaz para a família conhecer. É óbvio que Camila, até por conta de certa vaidade, não via a hora de mostrar para todos que era capaz de conquistar aquele pedaço de mau caminho.

A parentada toda animada na varanda, eis que os dois pombinhos chegaram de mãos dadas. A avó, assim que viu o namorado da neta, exclamou:

— Camila, que rapagão bem-diagramado que você arrumou!

Você já imaginou como é que a garota se sentiu, né?! Era um misto de orgulho mesclado com falsa timidez. Mas eis que algo inusitado aconteceu. 

— Prazer, sou o Mauro. E a senhora deve ser a dona Martinha. A Camila me fala muito bem da senhora. 

Você se lembra de que, para ser a perfeição em pessoa, bastaria o Mauro ter nascido com a voz do Milton Nascimento? Pois é, não nasceu. E a vovó não perdoou.

— Mas, Camila, como o seu namorado é mal dublado!
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fonte: Blog do Menino Dudu. 31.01.2026
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2026/01/familia-e-tudo-igual-mas-da-camila-e.html

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Renato Benvindo Frata (Meu silêncio)


Tentei analisar o meu silêncio para saber o que tinha nele; afinal, o silêncio, pela importância que tem não poderia ser deixado ao silêncio, abandonado como fazemos com as coisas que nos parecem difíceis. Não, haveria de ter nele algo aproveitável, razão que me levou a procurar decifrá-lo.

Eu queria saber e tentava, mexia, fuçava e não fui feliz nessa empreitada. Sentei-me apoiando a cabeça na parede e percebi que a maneira usada para procurá-lo não era a ideal, por isso deixei a questão dormente, sabendo que as respostas muitas vezes, se escondem também no âmago do próprio. Sim, do silêncio.

Um dia, haveriam de aparecer.

E foi nesse instante que um imenso quadro negro se desenhou em meus olhos. Era como uma lousa de escola, só que mais comprida e mais alta. Tão alta que exigia degraus para alcançar sua parte superior. E que também na sua base havia apenas uma pequena barra de giz branco, ainda intocado, e logo me questionei: só uma? O que farei com uma barra de giz diante dessa imensidão de lousa?

Se da dúvida nasce a luz, aquela pariu incerteza, mas me rendi à ansiedade, pondo-me a escrever na posição incômoda que permitiam os degraus e o manuseio da escada, e foi um sobe-desce nas dificuldades que minhas pernas logo se cansaram, para se amortecerem em câimbras. Porém, não me dei por vencido e fui escrevendo o que alguém ditava em frases curtas aos meus ouvidos. A impaciência era tão grande que nem tentei pôr reparo nos lábios de onde saía a voz, nem se essa boca se fixava num rosto, apenas escrevia sem precisar de retoques, e o interessante é que á medida que as palavras iam sendo registradas o pequeno giz se mantinha ileso, sem arranhão ou desgaste, tal como o pegara, e a lousa foi tomando a forma da lousa de escola em que a professora ao tempo que escreve, ensina. Bem assim.

Minutos passaram. Ou foram horas? Não saberia dizer. 

A velocidade das palavras era tão grande que não tive tempo de perceber, e o fato é que ao chegar ao canto inferior do rodapé direito, a lousa se mexeu abrindo espaço para mais escrita, que foi sendo feita até que dores no braço pediram que parasse e lesse o que a voz ditara; e só aí percebi que não havia voz alguma a cochichar, mas apenas o reflexo da minha consciência despejando pela minha mão as respostas almejadas.

O meu silêncio se escondera por muito tempo em mim próprio, e o que vi ali estampado a giz, era um cipoal de coisas feitas e das deixadas de fazer. Questões não resolvidas ou quase solucionadas, incompletas, e outras satisfeitas, cujo resultado ensejava sorriso, mas que no conjunto pediam meu esforço. Vi pessoas sisudas, olhos tristes, garras afiadas, mãos unidas em oração, corações constritos, gestos cênicos e enganadores, sonhos voláteis, missões desprezadas e o mais interessante: o sossego desassossegado, insatisfeito com essa condição, sinal de que o tempo perdido não fazendo, cobrava-me agora os porquês de não ter feito o que devia.

Mas vi o importante: o silêncio guardado em nós cobra postura quando exposto numa lousa nossa, como a palavra amiga que deixamos de dizer por comodismo, o abraço que não demos, o favor que não fizemos, o gesto de atenção despercebido. É também a reação bruta que não contivemos, o mal que disseminamos, a palavra mal dirigida e que um dia, sem que esperemos, passam por uma moenda a nos lembrar, porque o silêncio não é apenas o estado de quem se cala ou se abstém de falar, nem somente a privação, voluntária ou não, de falar, de publicar, de escrever, de pronunciar qualquer palavra ou som, de manifestar os próprios pensamentos etc., como diz o dicionário. O silêncio é mais que isso, posso dizer: é aquela gaveta que se esconde em nossa alma e que armazena fatos que só nossa consciência pode um dia revelar.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais: contos e crônicas.  Editora EGPACK Embalagens, 2024. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Aparecido Raimundo de Souza (Nem o nosso ouro reluz como em tempos passados)

NA VITRINE gigantesca da loja, o relógio dourado que marca indefinidamente as horas, parece prometer status, elegância e até uma vida mais organizada. Por conta disto, brilha sob a luz artificial, como se tivesse o dom de iluminar o futuro de quem passar ali e comprar um igual. 

Mas basta virar a esquina para ver o mesmo modelo em promoção, pendurado numa banca improvisada, ao lado de um amontoado de óculos escuros que juram ser “originais”. “Nem tudo o que reluz é ouro”. Às vezes esse ouro é apenas um latão polido com a fria cara de um marketing construído a poder de falcatruas, as mais cabeludas.

Na pracinha da matriz em frente à paróquia de São Cabuloso, os doze bancos de madeira brilham como se fossem convites ao descanso. O sol bate forte, refletindo nas superfícies envernizadas, e os moradores se aproximam curiosos e admirando para conferirem o “novo cartão-postal da cidade”. 

As crianças correm e pulam, os idosos comentam sem dar muito crédito e até os pombos parecem mais animados com o cenário reluzente. Porém, sempre há um porém. Basta sentar para perceber que o verniz esconde farpas mal lixadas, estilhaços que se infiltram discretamente nas roupas e na pele. 

O brilho, na verdade, é só fachada: por baixo, a madeira se faz áspera, desconfortável, quase hostil. O que parece aconchego, na verdade, não vai além de uma armadilha para ingleses verem ou manés desconectados da realidade quem se deixa seduzir pela falsa aparência. E não acontece assim só na praça. 

Fora dela também.  A coisa fluí de modo mais chamativo.  Não precisa se sentar para perceber a farsa. É só direcionar o olhar para o carro importado que desliza pela avenida que esconde dívidas sufocantes. O sorriso impecável da moça na porta da ótica, talvez não seja só a maquiagem para uma rotina escondendo o seu rosto cansado. 

A vitrine reluzente da loja de roupas finas promete status, entretanto, por baixo dos panos, entrega um punhado de prestações intermináveis. A vida nossa de cada dia, com a sua ironia habitual, insiste sempre em nos lembrar que a joia verdadeira não precisa de holofotes. 

Ela se revela no gesto mais simples, se condensa na palavra sincera, se firma no silêncio que acolhe. O resto, o que sobra, por mais que brilhe com uma luz com aparência de vir de longe, ou além da imaginação, tudo, em resumo, não passa de latão polido. Nem tudo o que reluz pode ser considerado ouro. 

Nem tudo que é ouro, mostra a sua verdadeira face oculta. Às vezes é só um verniz mal passado, uma tinta sem a magia espetacular da durabilidade, esperando o primeiro toque sutil para revelar a aspereza da mentira escondida. Em dias de hoje, vivemos cercados de brilhos artificiais. São pessoas vazias e desprovidas daquela luminosidade que vem da alma. 

Contudo, se esticarmos ao redor um olhar mais atento, mais profundo, mais contemplativo, aquele olhar de fera enjaulada, que a gente consegue enxergar além da aparência e, então, percebermos que o brilho que ofusca, que cega, que seduz, muitas vezes, é só uma pincelada de verniz sobre a superfície de uma pobre madeira gasta. 

O mundo moderno aprendeu a maquiar as suas contradições. O prédio no começo da avenida, que toca as nuvens, com seus sessenta andares, todo espelhado que se posta bonito e charmoso no início do centro da cidade, certamente agasalha atrás de suas paredes, jornadas exaustivas e salários que mal sustentavam os operários que deram um duro danado para que hoje ele se faça imponente. 

A motocicleta que desfila na avenida principal, de igual forma, pode ser fruto de dívidas sufocantes. O “influenciador”, essa nova modalidade de praga criada pela modernidade, que exibe uma vida perfeita, talvez lute contra o vazio imenso quando a câmera que ele carrega, se apaga. A nossa sociedade confunde aparência com essência. 

E nós, espectadores enganados, ávidos por coisas novas, incendiados pela ganância, aceitamos o espetáculo sem questionar. Afinal, cá entre nós, é mais fácil acreditar no brilho dissimulado, enganoso, adulterado, postiço e fraudulento que encarar de peito aberto as incertezas das sombras. 

Mil vezes mais confortável admirar o ouro falso, a joia de latão, que reconhecer que a verdadeira riqueza não se mede em curtidas, cifras ou etiquetas. O ouro verdadeiro repetindo, não reluz: ele se referenda em gestos discretos, se mostra na honestidade que não precisa de palco, se engrandece na simplicidade que não pede aplausos. 

O resto, uau, as sobras, é apenas um reflexo enganoso. É uma luz que apesar de mostrar que encanta, é cega, é ainda, promessa vã que não se cumpre. Nem tudo o que reluz pode ser considerado ouro. Talvez o maior desafio seja aprendermos a enxergar além do brilho para não confundirmos o espetáculo que a vida realmente nos mostra em toda a sua formosura.

Vivemos em uma época em que a cintilação esplendorosa é fabricada em série. As telas dos celulares se tornaram palcos permanentes, onde cada gesto é editado, cada palavra é filtrada e cada sorriso é calibrado para parecer perfeito. O espetáculo é constante: políticos que prometem mundos e fundos em discursos ensaiados, marcas que vendem felicidade em embalagens coloridas, e mais “influenciadores” que transformam a rotina em “caos fantasia”. 

Tudo reluz. Mas será ouro? Palavras bonitas, slogans inspiradores, campanhas recheadas de imagens cuidadosamente produzidas. No entanto, por trás da nitescência (esplendor) das promessas, muitas vezes se escondem interesses obscuros, acordos silenciosos e uma realidade que não cabe nos cartazes. 

O ouro verdadeiro, o compromisso com o bem comum, raramente aparece nas vitrines. A mídia também aprendeu a reluzir. Manchetes chamativas, escândalos em letras garrafais, notícias embaladas como produtos de consumo rápido e rasteiro. 

O fulgor da informação instantânea seduz, mas quantas vezes nos damos conta de que o conteúdo é raso, enviesado ou manipulado? De novo, o jargão: “Nem tudo o que reluz é ouro”. E o consumo, esse espetáculo diário, talvez seja o maior palco por onde a ilusão se faz de carne e osso. 

A casa palácio, o celular da última geração, a roupa da marca famosa: símbolos que alimentam status, mas que muitas vezes escondem dívidas, exploração de mão de obra e uma busca incessante por reconhecimento. O ouro verdadeiro a dignidade, a simplicidade, o valor humano não precisa de etiquetas. 

A vida contemporânea nos desafia a enxergar além do brilho. A distinguir o ouro da purpurina, a essência da aparência. Devemos ter em mente que o que reluz pode nos encantar, mas também pode nos cegar. Talvez o maior ato de resistência seja aprender a olhar para além da superfície, a espiar reconhecendo que o verdadeiro valor raramente se encontra onde a luz é mais forte. 

“Nem tudo o que reluz é ouro”. Acreditem. É a mais pura verdade. Às vezes é apenas um reflexo passageiro de uma sociedade oca, depauperada, melindrada que prefere o espetáculo lindo e maravilhoso à verdade pobre, simplória e humilde, mas que no fundo, bem lá no âmago, engrandece sobejamente o que a nossa alma tem de mais sublime. 
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fonte: Texto enviado pelo autor. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guirlanda de Versos * 80 *



Cão de Rua

Homenagem ao Cão Orelha, brutalmente assassinado, e a todos os cães que vivem abandonados na rua

Nas ruas frias, sob o céu sombrio,
caminha o cão sem ter onde deitar,
tremendo a alma ante o sopro do rio,
sem uma mão que o venha acalentar.

Onde está o brilho da inteligência,
que o homem diz ser seu maior tesouro?
Se nega ao bicho a mínima clemência,
e ignora o mudo e triste choro.

Olhos que buscam um resto de carinho,
encontram apenas o peso do desdém,
feridos na carne, sozinhos no caminho,
por quem se julga um ser do além.

É este o topo da escala evolutiva?
Causar a dor em quem só sabe amar?
Manter a alma em jaula, reativa,
e o próprio sangue no asfalto derramar.

Tu, que constróis cidades e foguetes,
e te orgulhas de tanta consciência,
por que permites que o mal se complete,
nesta cruel e vil indiferença?

Senhor, acolhe o uivo na calçada,
do cão que apanha sem saber por quê,
pois na jornada dessa vida amarga,
ele é mais nobre do que quem não vê.

Que a luz alcance o peito do humano,
para que aprenda o que é lealdade,
pois não há erro ou pior engano,
que a falta de amor e de piedade.

Mensagem na Garrafa 149 = Amor no Coração


Autor Anônimo
AMOR NO CORAÇÃO

Numa sala de aula havia várias crianças.

Quando umas delas perguntou a professora:

"Professora o que é o Amor?".

A professora sentiu que a criança precisava de uma resposta à altura da pergunta inteligente que fizera. Como já estava quase na hora do recreio, pediu que cada aluno trouxesse o que mais despertasse nela o sentimento do Amor. As crianças saíram apressadas e, ao voltarem, a professora disse:

"Quero que cada um mostre o que trouxe consigo".

A primeira criança disse: "Eu trouxe uma linda flor, não é linda?".

A segunda criança falou: "Eu trouxe este filhote de passarinho. Ele havia caído do ninho junto com outro irmão. Não é uma gracinha?".

E assim as crianças foram se colocando. 

Terminada a exposição, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta o tempo todo. Esta estava vermelha de vergonha, pois não havia trazido. 

A professora se dirigiu a ela e perguntou: "Meu bem, por que não trouxe nada?".

E a criança timidamente respondeu: 

"Desculpe professora. Vi a flor e senti o seu perfume. Pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que o seu perfume durasse mais tempo. Vi também a borboleta, leve, colorida! Ela parecia tão feliz que não tive coragem de aprisioná-la. Vi também o passarinho caído entre as folhas, mas, ao subir na árvore, notei o olhar triste de sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho. Portando trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que sentir nos olhos da mãe do passarinho. Como posso mostrar o que trouxe?".

A professora agradeceu a criança e lhe deu nota máxima, pois ela fora à única que percebera que só podemos trazer o Amor no coração.

Não precisamos destruir algo para perceber que existe coisas boas, basta apreciá-las e valorizá-las para que elas tenham valor na vida!

Fontes: 
Lendas para Reflexão
Imagem criada com Microsoft Bing

Newton Sampaio (Tríptico)


I. Botequim

Era um botequim. Muito triste, muito desajeitado. Perdido lá no fim daquele beco de luzes tímidas. Enfurnado no bairro mais esquecido da cidade.

Era um botequim. Triste, desajeitado, miserável. Bem como o rapaz de azul-escuro que ia entrando. Que ia entrando e pedindo um trago bem forte. O trago mais forte daquele comércio.

O portuga amansou a bigodeira e procurou a garrafa que era branquinha. O trio da mesa do fundo se virou sem discrição. O casal do lado direito se beijocou publicamente. Ele pegou na coxa dela, ela soltou um palavrão, os dois soltaram uma gargalhada enorme que fez eco e mais parecia uma vontade de se amarem ali mesmo, só pra divertir a vizinhança e matar de inveja o marinheiro de blusa encardida. O marinheiro fechou a cara, lembrou-se de quando esfaqueara um parceiro em qualquer porto sem importância do estrangeiro, afogou a raiva no copo de cerveja ordinária. Nem percebeu o agrado que lhe queria fazer um cachorrinho de cor inexplicável. O animal ficou mexendo o rabo, o qual era curto e quase sem pelo. De repente tomou coragem, lambeu-lhe a perna, saltou-lhe ao colo. Foi a conta. O marinheiro descarregou nele o que desejaria jogar sobre o rival. Socos, pontapés, e substantivos obscenos. Como convém a marinheiros solteiros em noite de feriado nacional...

Todos riram. Com exceção do portuga, por nobre prudência comercial. E do moço de azul-escuro, porque este tinha o pensamento muito longe. Tão longe que ia até saindo sem pagar a despesa. No que foi imediatamente impedido pela mesma prudência lusitana. Sentou-se outra vez, como represália à própria distração. E pediu um trago ainda mais carregado. O trago mais forte de todos os comércios.

Pediu, enquanto o casal da direita se entortava todo nos assentos, para que as mãos peludas do homem continuassem a fazer viagens proibidas...

II. Coreto

Era um coreto. Redondo, pequeno. Erguido numa pracinha sem nome glorioso. Na pracinha em que, aos domingos e feriados, as mulatas costumavam brilhar exuberantemente. Sobretudo quando a banda da polícia chega pra executar suas valsinhas enlanguescentes e aqueles trechos tão bonitos de operetas velhíssimas. Há, até, uma valsa em si menor cuja terceira parte consegue nutrir o pessoal de romantismo para todo o resto do mês. Nesse momento, ficam os olhares menos furtivos, e as palavras adquirem intenções mais perigosas, e os fins de noivado parecem infinitamente mais doloridos.

Era um coreto pequeno e redondo. Que sequer possuía bom teto. Porque a chuva atravessa aquela fenda antiga, e está caindo logo em cima do segundo banco. Nesse mesmo lugar que o clarinetista semanalmente ocupa, para a exibição (aliás comentadíssima) do seu grande talento suburbano.

Por causa da chuva, a praça permanece abandonada, sem cabrochas namoradeiras nem trigueiros galãs invencíveis. E o coreto está úmido, sem luz, silencioso. Silencioso, sem personalidade.

Porque a personalidade dos coretos das pracinhas existe em função das valsas em si menor. Dessas valsas e de quaisquer trechos de operetas velhíssimas...

Nos postes solitários, a chuva, que é fininha e impertinente, escorre mansamente e põe, nas bordas das lâmpadas, refrações instantâneas. Ao mesmo tempo, substitui a banda da polícia, executando, na cobertura do coreto, certa música esquisitíssima. A cobertura é de zinco e a água faz, sobre ela, um chiado monótono, desafinado, sem fim, capaz de adormecer todos os homens inquietos da vizinhança.

Então ele chega. Devagar, devagarinho. De mãos enterradas nos bolsos. Com os cabelos empastados na grande cabeça. Com os olhos brilhando em terríveis brilhos ignorados.

Ele chega, ladeia os postes, pisa as poças da pracinha adormecida, sobe ao coreto, senta-se no segundo banco, violando o privilégio do clarinetista. Continua de mãos nos bolsos, deixa que a água chegue pela fenda do teto de zinco e encharque ainda mais seus cabelos, e caminhe mansamente em seu rosto cheio de sombras.

Então, ele fica sendo, na noite quieta do bairro inútil, o homem mais triste, mais úmido, mais abandonado do mundo.

III. Cais

Encostou-se ao cais. Afundou olhos ansiados nas águas tão serenas, nelas procurando a solução para o mistério dos seres. Mas as águas continuaram serenas, não responderam nada.

Era úmido, o frio. Um frio que entrava nas carnes, que punha manchas, que punha discretas manchas arroxeadas no livre rosto do homem triste.

A luz das lâmpadas — das lâmpadas dispostas sem nenhuma regularidade — se refletia, tremelicando. Os reflexos não tinham sentido, mas eram fiéis, não cessavam.

Jogou as pernas no lado do poente. Caminhou até o fim. Até o ponto em que desaparecia o cais, rebatido pela montanha. Olhou-a, de frente. Pareceu-lhe mais inimiga, a montanha, protegida pela noite, dilatada pelas sombras. A lâmpada, que assinalava aquela fronteira, pendia de um poste carcomido, desnivelado, distante dos companheiros.

E a sua luz era fraquinha, agonizante, medrosa do vento de mar alto que chegava de vez em quando.

Debruçou-se no ângulo da terra com as águas. E sentiu ímpetos absurdos. O mistério crescia, crescia a angústia. As dúvidas se repetiam, renovando-se as torturas. A tortura de penetrar a misteriosa fundura dos destinos. De dominar o significado inicial das coisas. De compreender o sentido daquele coração pulsando magnífico, daqueles nervos que tanta sutileza sabiam colher.

O vento cresceu, o mar engrossou, ficou violentando o cais estrepitosamente. As águas perderam a serenidade, mas guardavam – os olhos do homem – o mesmo brilho ansiado. Os olhos então se fixaram na lâmpada da fronteira, na lâmpada distante da grande curva iluminada do cais. A luz era fraquinha, parecia agonizar. Mas o homem não queria que ela morresse. Desejou, com todas as forças, que o poste carcomido adquirisse a segurança dos companheiros, e não tentasse tanto o amparo da montanha dilatada pelas sombras.

Lampadazinha solitária, não se apague, não se apague não! Porque aquele homem está desesperado, só lhe resta essa luzinha da fronteira, todas as outras luzes, todos os outros postes se anularam na tormenta.

A tormenta se declarou como nunca, o mar invadiu o cais, a cerração domina a cidade, todos os seres se recolheram ao abrigo mais próximo. Por isso não se apague, lampadazinha, não se apague não. A montanha já desapareceu, a água também perdeu a compostura, não sabe o que faz, sobe na terra, volta pro mar, gesticula no ar, doidamente. Só a luzinha da fronteira não fugiu aos olhos do homem. O homem não quer que ela se apague, porque então seu desespero não terá remédio. Luzinha, luzinha do poste carcomido! Vá resistindo, vá resistindo sempre, sempre, sempre. Mas, talvez não resista, a luzinha. Talvez acompanhe o coro das trevas, abandone o homem do cais. Agora está piscando. Piscando duas vezes, três vezes, quatro vezes. Ameaça desaparecer, começa a agonizar.

Um grito agudíssimo parte do peito do homem, daquele peito abrigando um coração que pulsava magnífico. O grito se perde, não encontra resposta, não ecoa na montanha nem ecoa no mar.

A luz ainda não morreu de todo, vai diminuindo, devagar.

Mas o homem pede que não o abandonem tanto. Por isso, luzinha do cais, não se apague. Não se apague, não, pelo amor de Deus!
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Newton Sampaio natural de Tomazina/PR, 1913 e falecido na Lapa, em 1938,  foi um médico, ensaísta, escritor e jornalista brasileiro. Newton é considerado um dos mais importantes contistas paranaenses sendo o precursor do conto urbano moderno. Em 1925, saindo da pequena Tomazina foi estudar no Ginásio Paranaense, em Curitiba, e precocemente, passou a lecionar nesta instituição, além de colaborar para alguns jornais da capital paranaense, principalmente o "O Dia". Ao ser admitido na Faculdade Fluminense de Medicina, transferiu-se para a cidade de Niterói. Após formado em Medicina, permanece na capital do país, porém, com a saúde bastante abalada, retornou a Curitiba e em seguida internou-se em um sanatório na cidade da Lapa onde faleceu no dia 12 de julho de 1938. Duas semanas após o seu falecimento, recebeu o Prêmio Contos e Fantasias concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Irmandade. Newton Sampaio pertenceu ao Círculo de Estudos Bandeirantes de Curitiba e como homenagem ao jovem modernista, um dos principais prêmios de contos do Brasil leva o seu nome: Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio. Algumas obras:  Romance “Trapo”: trechos publicados em jornais e revistas; Novela “Remorso”, 1935; “Cria de alugado”, 1935; Contos: “Irmandade”, 1938, “Contos do Sertão Paranaense”, 1939; “Reportagem de Ideias”: contos incompletos, etc.

Fontes:
Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.