segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 5 *

 

José Feldman  (Floresta/ PR)

LENDA DAS CATARATAS DO IGUAÇU

Nas margens do Rio Iguaçu,
vivia o povo Caingangue,
sob o céu de intenso azul,
longe de guerra ou de sangue.

Mboi, serpente temida,
exigia adoração,
uma jovem era escolhida,
em santa consagração.

Naipi, de rara beleza,
foi a ele prometida,
mas contra a vil correnteza,
pelo amor foi conduzida.

Tarobá, jovem guerreiro,
por ela se apaixonou,
num plano firme e certeiro,
na canoa a resgatou.

Fugiram pelo remanso,
sob o brilho do luar,
buscando um porto de descanso,
onde pudessem se amar.

Mboi, em fúria profunda,
o chão da mata fendeu,
numa queda que inunda,
onde o rio se perdeu.

As águas logo caíram,
num abismo de pavor,
os amantes não fugiram
do destino e do seu rigor.

Tarobá virou palmeira,
à beira do precipício,
observando a ribeira,
em eterno sacrifício.

Naipi, em rocha mudada,
pelas águas é banhada,
sendo para sempre castigada,
pela serpente odiada.

Diz a lenda que o arco-íris,
que une a árvore e a pedra,
é o amor que, entre eles,
ainda vive e se medra.

Laé de Souza (Dai-nos paciência)


Homens e mulheres, mesmo que casados, precisam viver seus espaços dentro de determinado limite. Essa delimitação deve ser imposta por si próprio e não por coação do parceiro, sob pena de trazer barreiras intransponíveis ao relacionamento. Claro que o homem gosta de se reunir com os amigos e, entre uma cerveja e outra, falar de carro, de futebol, corrida, de quando era... vangloriar-se de sua maior pescaria etc. A mulher, no seu chá ou até tomando uma dose de campari, fala de família, de moda, de sentimentos, poesia, beleza etc. Devemos, portanto, cada um permitir que o companheiro tenha os seus momentos de prazer. Confesso que não foram fáceis os últimos dias vividos com minha segunda ex-mulher, no que se refere às minhas necessidades de troca de ideias com amigos.

Ao chegar em casa às 3 horas da manhã, no maior silêncio, em respeito ao seu direito de dormir (afinal, depois das 22 horas a lei do silêncio deve ser respeitada), deparei-me com ela sentada no sofá à minha espera. Pela cara, uma fera. Dei um beijinho, ela inerte como uma múmia. Tomei banho e, quando me preparava para deitar, ela rompeu o silêncio:

- Precisamos falar sobre o João (nosso filho).

- Não pode falar amanhã? - perguntei com voz mansa de sono.

– É sempre assim. Quando surge algum problema, especialmente com nossos filhos, você não quer assumir. Eu tenho de ver tudo sozinha. Já estou cansada... - disse ela.

E foi por aí afora, falando, falando, até que, não obtendo respostas, parou. De falar sobre esse assunto, claro. Começou a fazer limpeza no quarto. Na verdade, ela nunca foi dada a arrumação, mas quando tinha uma briguinha, baixava o espírito de limpeza e começava a faxina. E era aquele acende luz, bate janela, porta, gaveta, abre e fecha guarda-roupa, passa pano, aqueles papos todos. Dei uma pequena resmungada, de leve. Aí, ela veio com tudo:

- Tá achando ruim, é? Então, vem ajudar que acaba logo! Pensa que minha vida é fácil?

Percebi que a coisa poderia complicar mais para mim. Peguei meu travesseiro, um lençol e fui para a sala deitar-me no sofá. Mas, nem bem comecei a cochilar, ela deu início ao serviço de faxina naquele ambiente. Imagino que devia ser para me irritar, porque ela é de uma moleza infernal para fazer as coisas e o normal é que ainda estivesse limpando o quarto. Fui para a cama. Mas, ela ficou naquele entra e sai, pega uma coisa, outra etc. Não teve jeito. Saí do quarto, pus na vitrola um disco de Waldick Soriano, no copo uma dose de uísque e fiquei o resto da madrugada ouvindo, entre um cochilo e outro. Claro que ela, a toda hora, lembrava: - São 4 horas da manhã e os vizinhos têm direito de dormir.

Não liguei. Fui curtindo o som até às 7 horas, quando saí para trabalhar.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. 

Fontes:
Laé de Souza. Acontece… . 44a. edição. SP: Ecoarte, 2018.
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Rodica Grigore* (Nepoata [A Neta], de Bernhard Schlink)

(tradução do romeno por José Feldman)

Claramente trazido à atenção do público leitor mundial após a publicação do romance "O Leitor" (1995), e especialmente após sua adaptação cinematográfica com Kate Winslet no papel principal, Bernhard Schlink ofereceu, por meio desse texto, um dos grandes modelos literários da prosa contemporânea, abordando uma série de aspectos espinhosos do Holocausto a partir de uma perspectiva original. "O Leitor", como sabemos, é a história de um jovem na Alemanha do pós-guerra, apaixonado por uma mulher mais velha, que ele descobrirá ter trabalhado em um campo de concentração nazista. Schlink publicou posteriormente duas coletâneas de contos e vários romances (alguns policiais), nos quais, como em "O Leitor", explorou as dificuldades enfrentadas por aqueles que tentam esconder seu passado. "A Neta", o romance mais recente do autor, retoma os temas da memória, do trauma e da impossibilidade de reconciliação, só que agora o assunto aborda o delicado tema da reunificação alemã, bem como as atitudes de alguns cidadãos da antiga República Democrática Alemã.

Tudo começa quando Kaspar, um livreiro idoso que vive na Berlim contemporânea, encontra sua esposa, Birgit, morta na banheira. Não se trata de um suicídio, mas Kaspar tem consciência do papel prejudicial que o consumo de álcool desempenhou em sua vida e casamento. Repleto de sentimentos complexos, especialmente uma raiva cansada e impressionante que parece consumi-lo, ele percebe que Birgit sempre guardou segredos e conseguiu, ao longo dos anos, manter antigos pensamentos, sentimentos e medos para si mesma. E, vasculhando (e procurando febrilmente) os e-mails e cadernos da esposa, Kaspar relembra o passado, todo o passado deles. 

Assim, chegamos a 1964, em Berlim Oriental, a um festival organizado pelas autoridades comunistas da época para promover a troca de ideias entre jovens que viviam em ambos os lados do Muro. Foi ali que Kaspar e Birgit, ambos estudantes na época, se conheceram e se apaixonaram. E embora o jovem estivesse disposto a ficar na antiga RDA pela mulher que amava, ela se recusou, optando por arquitetar um plano para fugir para o Ocidente com documentos falsos. E o que Kaspar descobre com imensa surpresa, somente após a morte de Birgit, ao ler seu diário e o romance inacabado (autobiográfico), é que sua esposa havia deixado uma filha recém-nascida, sobre cuja existência ela não lhe contara nada por tantos anos. Assim, ele partirá novamente para o Oriente, para reconstruir os detalhes secretos da vida da mulher que amou e com quem viveu – mas que, agora ele está convencido, nunca conheceu de verdade.

Logo após sua publicação, em 2021, o jornal "Le Figaro" chamou "A Neta" de "o grande romance da reunificação alemã", e o livro rapidamente recebeu inúmeros prêmios literários nacionais e internacionais. Schlink escreve muito bem, conseguindo capturar (e manter) a atenção do leitor, mesmo que alguns exegetas tenham criticado o texto pelo tom quase gótico (e um tanto carregado) com que narra as sequências relacionadas ao terror praticado pelos serviços secretos da Alemanha Oriental, ou pela adesão excessivamente rigorosa a modelos estabelecidos na descrição das relações entre alemães ocidentais e orientais, ou ainda pela existência monótona dos habitantes do antigo campo comunista. No entanto, Schlink consegue, em grande parte, superar a estrutura de uma narrativa teológica e examinar o impacto e as consequências da ascensão da extrema-direita na Alemanha, especialmente nas últimas décadas. 

A leitura é marcada pelo ritmo lento, por vezes solene, de uma prosa refinada, mas também pela habilidade do autor em variar a intensidade da narrativa e introduzir reviravoltas dramáticas – a primeira das quais representada, naturalmente, pela descoberta da morte de Birgit. Além disso, ao partir sozinho em busca dos segredos do passado da esposa, Kaspar percebe por que ela não quis retornar ao Leste, mesmo após a unificação da Alemanha, evitando até mesmo os laços com a família que lá permaneceu e falando muito raramente sobre assuntos relacionados ao mundo que deixara para trás. 

As complexas experiências de Birgit são expressas apenas por escrito, de modo que seu marido só as conhecerá postumamente, surpreso ao constatar que compartilha algumas ideias com ela, mesmo que nunca as tenham discutido: A RDA entristecia Birgit, nunca sendo a pátria idealizada pelos jovens de algumas décadas atrás, nem o país que se pudesse desfrutar plenamente. Além disso, aqueles que partiram não podem retornar, pois seu exílio, como o de tantos migrantes contemporâneos, jamais termina. Daí o profundo sentimento de perda, ausência e vazio. A pátria e o belo sonho de um futuro brilhante se perderam irremediavelmente. 

De alguma forma, como o mítico Orfeu, Kaspar sabia que, uma vez rompida a ligação com o Leste, jamais deveria olhar para trás. E Birgit também não. Mas o que fazer com as lembranças, os pensamentos, o remorso?... Só depois da morte da esposa é que o velho livreiro começa a compreendê-la e a entender seus medos secretos, sua fuga constante, inclusive a fuga de si mesma. As páginas escritas por Birgit representam a amarga constatação, feita pela protagonista praticamente ausente deste livro, de que ela não era uma pessoa capaz de procurar, muito menos encontrar, a filha que deixou para trás. E anos depois, Kaspar decide que deve ao menos tentar embarcar nessa jornada (uma verdadeira busca moderna) que Birgit nunca conseguiu iniciar.

As confissões de Birgit ocupam uma parte significativa do romance (talvez um pouco longa...), tornando-se, imperceptivelmente, uma espécie de testemunho direto da história alemã e das consequências das escolhas pessoais, tudo narrado de dentro para fora. Bernhard Schlink transforma, dessa forma, o que poderia ter sido apenas mais uma história de amor entre duas pessoas do Leste e do Oeste em uma história de vida cativante e impressionante. Pois, à medida que Kaspar se recupera dos primeiros momentos de raiva, culpa e frustração causados ​​pelos segredos de Birgit (será que toda a vida deles foi uma mentira?), ele decide encontrar a filha dela. Depois, a neta. E agora o ritmo da narrativa acelera, deixando o leitor praticamente grudado neste romance cujo final o deixará diante de muitas questões difíceis.

Naturalmente, o encontro com sua neta/enteada, Sigrun, é o ponto central do texto. E aqui todas as expectativas iniciais são subvertidas e quaisquer preconceitos são postos à prova. Kaspar, um espírito liberal e intelectual racional, trava uma verdadeira batalha de inteligência com sua neta (apenas meia neta, é claro) – uma adolescente racista e violenta, que nega veementemente o Holocausto (ele não existiu, Hitler amava a Alemanha e o “Diário” de Anne Frank, por exemplo, é uma falsificação grosseira!) e que cresceu em uma comunidade rural neonazista na antiga RDA. Não há vencedores nem perdedores neste romance; o autor evita oferecer qualquer receita perfeita sobre como a Alemanha deveria lidar com seu passado, mas há muitas coisas sobre as quais o leitor deve meditar lucidamente. 

"A Neta" torna-se, assim, também a história da jornada de Kaspar, refletindo, ainda que indiretamente, as tentativas de Bernhard Schlink de compreender plenamente seu país natal. Ao longo do romance, acompanhamos, portanto, não apenas as ações de Kaspar, mas também suas reações a desafios inesperados, como sua perspectiva se transforma e como ele passa a enxergar a própria vida. Não é coincidência que, em certo momento, ele confesse não ter nenhum orgulho da Alemanha, mas que não consegue se imaginar sendo outra coisa senão alemão…

Curiosamente, embora na segunda parte do romance o ritmo seja acelerado e a atenção do leitor seja praticamente cativada por essa narrativa envolvente com alguns toques de investigação policial, as personagens permanecem, mais de uma vez, um tanto esquemáticas, até mesmo bidimensionais, enquanto o autor tenta "vesti-las" com ideias da melhor maneira possível, de acordo com a tese e as premissas do texto, em detrimento de um retrato completo. Daí surgem certas notas didáticas ou ligeiramente romantizadas, típicas da literatura de consumo. 

Por exemplo, Kaspar convence os pais de sua “neta” a deixá-la visitá-lo em Berlim, e durante essas breves visitas, a menina tem algumas aulas de piano, tornando-se uma espécie de gênio musical, executando rapidamente peças de Bach e Schumann (embora o próprio autor pareça ter dificuldade em diferenciar com precisão os dois compositores!). Naturalmente, Kaspar, totalmente imerso no papel de bom avô, não apenas de bom alemão, mas também de cidadão honesto e participativo, um homem culto, afasta a adolescente problemática das ideias perigosas de seus pais. Ela, porém, os abandona apenas para se juntar a outro grupo de extrema-direita em Berlim, tornando-se cúmplice no assassinato de um ativista de esquerda. Em seguida, com a ajuda de Kaspar, ela parte para a Austrália (após pegar o dinheiro e o cartão de crédito do avô!), com a intenção declarada de frequentar uma academia de música e se tornar pianista profissional.

É interessante notar também que, enquanto Kaspar tenta "salvar" Sigrun, ele se vê obrigado a confrontar seus próprios preconceitos, bem como a espinhosa questão da responsabilidade coletiva, os traumas históricos e todas as contradições e tensões que se seguiram à reunificação da Alemanha. Como acontece nessas situações, muitos alemães se consideravam vencedores. Mas o que aconteceu com aqueles que perderam, com aqueles que não conseguiram se adaptar completamente aos novos ritmos culturais e sociais? Birgit e outros como ela, fugitivos do Oriente, lutaram a vida inteira com a sensação de que deveriam ser eternamente gratos por tudo o que o Ocidente lhes oferecia – bem-estar social, democracia, estabilidade, prosperidade. Mas será que era mesmo assim? Será que tudo lhes era oferecido de bandeja no novo mundo em que chegaram?… Aparentemente, sim. Mas, claro, a realidade é sempre muito mais complexa, como o próprio Kaspar compreenderá, embora apenas após a morte da esposa.

Claro, lido numa perspectiva mais ampla, este romance é sem dúvida também uma declaração política e cultural por parte do autor, de modo que, uma vez que Schlink expôs suas ideias, restou o problema de identificar o final mais apropriado para toda a história. Talvez seja precisamente por isso que o escritor parece um pouco apressado e menos atento aos detalhes significativos do que em suas obras anteriores. É claro que é bom acreditarmos que sempre, aconteça o que acontecer, assim como nos contos de fadas, o bem vence o mal. No entanto, às vezes, na Alemanha ou em qualquer outro lugar, especialmente nos tempos em que vivemos, essa conclusão pode parecer (será?), após uma leitura atenta, um tanto superficial…

Bernhard Schlink, "Napoata", tradução e notas de Mariana Bărbulescu, Polirom Publishing House, Iași, 2024
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* Rodica Grigore, professora associada (literatura comparada) na Faculdade de Letras e Artes da Universidade "Lucian Blaga" de Sibiu; Doutora em Filologia desde 2004. Publicou os seguintes volumes: "Sobre Livros e Outros Demônios" (2002), "A Retórica das Máscaras na Prosa Romena do Período Entreguerras" (2005), "Leituras no Labirinto" (2007), "Máscaras, Caligrafia, Literatura" (2011), "No Espelho da Literatura" (2011, Prêmio "Livro do Ano", concedido pela Seção de Sibiu da União de Escritores da Romênia), "Os Meridianos da Prosa" (2013), "Os Pretextos do Texto. Estudos e Ensaios" (2014), "Realismo Mágico na Prosa Latino-Americana do Século XX". “Reconfigurações formais e de conteúdo” (2015, Prêmio da Associação de Literatura Geral e Comparada da Romênia, Prêmio G. Ibrăileanu de Crítica Literária da revista “Viața Românească”, Prêmio “Livro do Ano”, concedido pela filial de Sibiu da URSS), “Viagens na Biblioteca. Ensaios” (2016), “Livros, Sonhos e Identidades em Movimento. Ensaios sobre Literatura Contemporânea” (2018, “Prêmio Șerban Cioculescu”, concedido pela revista “Scrisul Românesc”), “Entre a Leitura e a Interpretação. Ensaios, Estudos, Resenhas” (2020). 
Ela coordenou e produziu a antologia de textos para o Festival Internacional de Teatro Siblu, entre 2005 e 2012. Publicou inúmeros artigos na imprensa literária, em revistas como "Euphorion", "Observator Cultural", "Saeculum", "Scrisul Românesc", "Viața Românească", "Vatra", etc. Colabora com estudos, ensaios e traduções para publicações culturais na Espanha, México, Peru e Estados Unidos. Faz parte da equipe editorial da revista "Theory in Action. The Journal of Transformative Studies Institute", em Nova York.

Fonte:
Sumar Literomania nr. 392 (2026). 13.01.2026
Disponível em https://www.litero-mania.com/calatorie-in-est/

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A. A. de Assis (Que bom se fosse)


Pelo bem que o bem contém,
pela paz que ele nos traz,
todo bem faz muito bem,
sobretudo a quem o faz.

Cada qual com seu talento faz o quanto pode e sabe. Francisco produz a uva, Gustavo produz o trigo, Margarida faz o vinho, Genoveva faz o pão. Cada qual fazendo um pouco, terão todos seu quinhão.

Era assim que Deus queria ver girar a economia. Não somente entre as pessoas, não somente entre as famílias, não somente entre as empresas, mas também entre as nações e os continentes também. E que bom se fosse assim... Mas que pena que não é.

Por egoísmo ou tolice, por ambição ou maldade, inaugurou-se a injustiça no seio da humanidade. Esqueceu-se o Deus do Amor. E ao trono subiram juntos os maus deuses das ruindades. E a vida virou uma guerra. E a Terra em armas se pôs.   

De Caim versus Abel a Esaú versus Jacó. Dos gregos versus troianos a Roma versus Cartago. Do Leste versus Oeste aos azuis versus vermelhos.

Na ONU sentam-se os chefes, discursos de toda sorte, enquanto os mísseis se cruzam voando e espalhando a morte.

Em outros tantos assentos, rediscutindo tarifas, rediscutindo barganhas, sentam-se os donos de tudo: do petróleo ao grão de soja, dos rebanhos aos brinquedos, das fábricas de bolacha às montadoras de carros, dos bancos e dos navios aos times de futebol.

Roda, roda, gira a roda do mundo globalizado. Os donos ora se abraçam, ora brigam: euros, dólares, commodities. Quem pode mais, come mais, quem não pode se sacode. E enquanto o pequeno geme, a pança do grande explode.

Num país sobra vacina, noutro falta esparadrapo. Uns poucos no extremo luxo, milhões na miséria extrema.  

Zero em solidariedade, zero em cooperação, zero em sincera amizade, zero em leal parceria. Negócio, amigo, é negócio, e é tudo mercadoria. Pois tudo afinal se vende: o pão e o vinho se vendem, cultura e arte se vendem, as consciências se vendem, até o sorriso se vende, e às vezes a própria fé. 

Porém, como Saulo, um dia... um dia esse mundo louco, essa louca economia, injusta, cruel, selvagem, podem crer, cai do cavalo, e por milagre se muda em geral fraternidade.

Seria isso utopia? Ou esperança seria? 

Ao poeta é dado ainda o direito de sonhar. Sonhemos, irmãos, sonhemos, sonhemos um mundo bom, onde a paz seja possível e possível seja amar.

Possível será decerto destronar os deuses maus e ao trono levar o Deus da grande alegria, o Deus da geral ternura, o bom Deus da comunhão, que ensina a partir o pão.

Quem dera, irmãos, que esse dia um dia possamos ver. 
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 01.5.2025) 
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A. A. DE ASSIS (Antonio Augusto de Assis), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada com Microsoft Bing e desenho do autor

Washington Daniel Gorosito Pérez* (Gonzalo Celorio obtém o Prêmio Cervantes 2025)

(tradução do espanhol por José Feldman)

Gonzalo Celorio (Cidade do México, 25 de março de 1948), escritor mexicano e diretor da Academia Mexicana da Língua Espanhola, foi agraciado com o Prêmio Cervantes de Literatura de 2025, a mais prestigiosa premiação da literatura hispânica.

A decisão foi anunciada pelo Ministro da Cultura da Espanha, Ernest Urtasun. O júri concedeu o prêmio ao escritor mexicano por “sua excepcional obra literária e contribuições intelectuais, que enriqueceram profunda e consistentemente a língua e a cultura hispânicas”.

Além disso, o júri enfatizou que “por mais de cinco décadas, Gonzalo Celorio cultivou uma voz literária de notável elegância e profunda reflexão, combinando lucidez crítica com uma sensibilidade narrativa que explora as nuances da identidade, do desenvolvimento emocional e da perda. Sua obra é simultaneamente um registro do México moderno e um espelho da condição humana”.

Eles enfatizam que “seus livros ressoam com ironia, ternura e erudição, traçando um mapa emocional e cultural que influenciou gerações de leitores e escritores”.

“Celorio personifica a figura do escritor completo: criador, professor e leitor apaixonado. Ele é o construtor de um legado inestimável que honra a língua espanhola e a mantém viva em sua forma mais elevada: a da palavra que pensa, sente e perdura.”

Gonzalo Celorio é romancista, ensaísta, cronista e uma das figuras mais proeminentes da literatura mexicana contemporânea. É doutor em Línguas e Literaturas Hispânicas, com especialização em Literatura Latino-Americana, pela Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM, 1998-2000); também é Diretor de Literatura do Instituto Nacional de Belas Artes. Coordenador de Divulgação Cultural da UNAM (1989-1998) e Diretor Geral do Fondo de Cultura Económica (2000-2002).

Atualmente, é professor de Literatura Latino-Americana na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), onde ocupa a cátedra extraordinária "Mestres do Exílio Espanhol". É membro titular da Academia Mexicana da Língua, da qual também é diretor, e membro correspondente da Real Academia Espanhola e da Academia Cubana da Língua.

Entre suas obras mais aclamadas estão os romances "Amor-próprio", "A Viagem Sedentária" e "Que a Terra Trema em Seus Centros"; "Metal e Escória" e "Fofocas da Memória", bem como os ensaios "Os Sublinhados São Meus" e "Cânones Subversivos".

Sua carreira foi marcada por inúmeros prêmios, incluindo o Prêmio de Jornalismo Cultural do Instituto Nacional de Belas Artes (1986) por “Los subrayados son míos” (Os Sublinhados São Meus); o Prix des Deux Océans (1997 – Festival de Biarritz) por “El viaje sedentario” (A Viagem Sedentária); o Prêmio Nacional de Romance IMPAC-CONARTE-ITESM (1999) e o Prêmio Universitário Nacional na área de Criação Artística e Extensão Cultural (2008) por “Retiemble en sus centros la tierra” (Que a Terra Trema em Seus Centros); o Prêmio Nacional de Ciências e Artes em Linguística e Literatura (2010); o Prêmio de Literatura de Mazatlán (2015) por “El metal y la escoria” (O Metal e a Escória); e o Prêmio Xavier Villaurrutia para Escritores (2023) por “Mentideros de la memoria” (As Fofocas da Memória). Também recebeu a Ordem Nacional da Cultura, concedida pelo Ministério da Cultura de Cuba em 1996.

Sua obra, caracterizada por erudição, rigor estilístico e reflexão sobre memória, identidade e a tradição literária hispano-americana, o coloca entre os mais importantes autores da literatura mexicana contemporânea. O Prêmio Miguel de Cervantes de Literatura em Língua Espanhola, concedido anualmente desde 1976, presta homenagem pública a um escritor cuja obra enriqueceu o legado literário hispânico. O prêmio inclui uma quantia em dinheiro de 125.000 euros.

Mas o que pensa o ganhador do Prêmio Cervantes sobre a escrita?

Em uma homenagem a ele por ocasião de seu 70º aniversário no Palácio de Belas Artes, Celorio falou sobre o significado da escrita para ele:

“Devo confessar que não gosto de escrever. Isso me afeta, me estressa, me enlouquece; é uma tarefa tão abominável que exige um esforço enorme e não serve para nada. Por que escrever se é um exercício tão odioso que também parece não ter utilidade alguma? Embora possa parecer romântico, a verdade é que escrever não é uma escolha, mas um destino”, disse Gonzalo Celorio.

Celorio continuou: “Sem escrever, eu não entenderia nada. A vida seria uma mera sucessão de atos que o esquecimento pulveriza, e assim como nada me parece mais árduo e difícil do que escrever, nada me dá mais prazer do que ter escrito.”
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* Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991, tendo obtido a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. Professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias.

Fonte:
Revista Cultural Tántalo - número 103 – año 31 - Otoño - Invierno 2025/26, p.47. Disponível em 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 151 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

Letras de fogo

"A palavra não passa de um grão,
mas em chamas."
(OCTAVIO PAZ)

Fim das lágrimas
em uma mesa de café
um caderno de versos.

Poesia, refúgio.

A frase como uma estrela cadente
fantasmas interiores vivos
mergulham nas profundezas.

Cuidado com as palavras!

Elas não têm compostura,
as letras se desfazem
metamorfoseando-se
em uma adaga de fogo. 
(tradução de José Feldman)
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Poema de
RICARDO REIS
(Fernando Pessoa)
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
no mínimo que fazes. 
Assim em cada lago a lua toda 
brilha, porque alta vive.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Prisioneiro

Você me seduz à liberdade.
A liberdade
é o remédio da alma,
a felicidade
que acalma...
Cada momento
é um querer novo,
um sentir diferente,
um eterno
encantamento.
Estar com você
é rodopiar
no carrossel da vida,
fugindo do presente
em desabalada
corrida.

Você me seduz
à saudade.
A saudade
é o bálsamo
do coração,
o remédio
que cura
a solidão...
Por isso,
estar com você
é como despencar
de uma montanha russa,
em extremo gesto
de loucura
e incontrolável sensação.

Você me seduz
ao amor...
O amor é
o bem mais perfeito
que o Criador concebeu
e colocou
aqui no meu peito...
Assim,
estar com você
é como se jogar
de um prédio alto,
sem medo,
sem amarras,
num voo cego:
a verdadeira
viagem sem fim...
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Soneto de
MÁRIO ZAMATARO
Curitiba/PR

Depois de tudo

Depois do verso, o reverso.
Depois do amor, essa dor.
Depois do imerso, o disperso.
Mas tenho a flor de compor!

E do reverso, outro verso.
E dessa dor, meu amor.
Disperso o resto onde imerso
usei compor desta flor.

Reviravoltas em série
hão de cumprir o destino;
hão de espalhar desatino,
em pleno sol de intempérie.

E só depois disso tudo
hei de saber se me iludo.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira do Mato Dentro/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Aula de Português

A linguagem
na ponta da língua
tão fácil de falar
e de entender. A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, equipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
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Trova Popular

Triste durmo, triste acordo,
triste torno a amanhecer.
Pra mim tudo é tristeza,
serei triste até morrer.
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Soneto de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Olhos infantis

Quando o olhar de uma criança denuncia 
O abandono, a solidão e o sofrimento, 
Torna-se inútil transformar esse momento
Num sentimento que alguém chame de poesia.

Quando o amor passa a ser só filosofia, 
À revelia do que sinta um coração,
Por ironia, há quem nem dê muita atenção
A esse olhar que tem a dor por moradia.

Mas no instante em que eu me torno esse menino
Há nos meus olhos, esse olhar tão pequenino,
Que apesar da dor, conserva a esperança

De que o mundo tenha olhos infantis
E que se alguém pensa em tornar alguém feliz,
Veja o que diz o coração de uma criança.
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Poema de
CLEVANE PESSOA
Belo Horizonte/MG

Fogo e serragem

Às vezes, sinto-me sem vontade
de tudo e de nada.
Amorfa,
moldo-me aos moldes
dos desejos alheios.
A dor, camuflada.
Os gemidos, sufocados.
Agonizo, molhada:
serragem
Às vezes,
embaixo de cinzas,
crepito, aqueço-me,
e em labaredas, refaço a luz
antiga,
subitamente.
Ardo,
em cadeia,
acendo tudo mais
que há por perto.
Incendeio, fogo em jogo
lúdico, atroz... 
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Soneto de
MANUEL BANDEIRA
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Voz de fora

    Como da copa verde uma folha caída
    Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
    Deixa-te assim também derivar pela vida,
    Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...

    Até que te surpreenda a carne dolorida
    Aquela sensação final de eterno frio,
    Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
    E enche-te de canções, ó coração vazio!

    A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
    Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
    O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.

    Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
    Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
    E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas... 
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Poema de
PAULO WALBACH PRESTES
Curitiba/PR, 1945 – 2021

A Ampulheta 

O hoje é o agora presente no tempo... 
Que escorre fatal entre os dedos da vida.
É sutil como a alma, fugaz como o vento,
E veloz e lento como a triste partida...

O amanhã; esperança e futuro do tempo,
que demora ou apressa a sua chegada;
Transparente ou difuso no encadeamento,
Auspicioso ou negro, tal a luz apagada...

O sino que toca, afugenta o dia...
Levando-o do ontem à posteridade
Pela noite que invade na pura magia,
deixando pra gente a doída saudade...

Funde-se tudo na eternidade,
e não apenas na onírica poesia...
A fina areia silenciosa invade
Na cápsula inversa: eterna liturgia.
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Dobradinha Poética (trova e soneto) de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Se nada ganhas...

Não deves desanimar
ante uma escura jornada,
pois poderás vislumbrar
uma luz no fim da estrada!…

Se a trajetória é feita só de espera,
se recusaste a dor da despedida,
se o despontar do inverno te exaspera,
se a primavera não é mais florida...

Se o vendaval, cortante, ainda impera,
se a tempestade insiste, intrometida,
se sob teus pés abriu-se uma cratera,
se a solidão marcou a tua vida...

Se o céu, acima, está sempre nublado,
se a terra, em volta, é o caos indesejado,
se o sofrimento veio a ti, desnudo...

Caminha firme, sem desesperança,
vai renovando em ti calma e confiança.
— Se o ganho é nada, teu querer é tudo!...
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

A voz do vento

Nesta solidão, pude enfim perceber
Que a distância alimenta meu pensamento.
Sei também que é ela que dá voz ao vento
Quando ele vem forte em meu rosto bater.
Eu sei que é tua voz que o vento conduz,
Traz teu perfume e, de teus olhos, a luz;
Eólica injeção de amor pro meu ser.

Esta brisa sonora que tem teu cheiro,
Toque afrodisíaco, que revigora;
Teu calor chega e a meu tato se incorpora,
Eu sinto ao vento teu corpo por inteiro...
Quando o sopro soa forte em meus ouvidos,
Mais o amor por ti desperta em meus sentidos,
Num quadro de excitação já rotineiro.

Um amor aerívoro, de abstinência,
Em que procuro teus olhos mas não vejo,
Não posso te abraçar no auge do desejo,
Preciso de uma reversão de emergência...
Apesar do vento que me liga a ti,
Pede meu coração tua presença aqui...
E que seja para sempre, com urgência!
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

Tudo o que sou é como se nada fosse
(Maria da Glória Oliveira Cardoso in "O Meu Vestido Cor de Rosa", p. 68)

“Tudo o que sou é como se nada fosse”
Neste eterno correr de tantos anos
E com ritos banais, de tão profanos
Cremos fazer da vida um limão doce.

Uma vontade louca é que nos trouxe
Fome de sermos mais do que uns humanos
Mas por serem mortais e tão mundanos
A glória desses sonhos acabou-se.

Mergulho na insondável vacuidade
Que me esvai como atroz enfermidade
E eu sofro-a, venenosa como cobra.

É tão pequeno e pobre o meu viver
Que no dia final, quando eu morrer
Tudo de mim se acaba e nada sobra.
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Hino de 
Campina Grande/PB

Venturosa Campina querida,
Ó cidade que amo e venero!
O teu povo o progresso expande,
És na terra o bem que mais quero!
O teu céu sempre azul cor de anil,
Tuas serras de verde vestidas
Salpicadas com o ouro do sol,
Ou com a hóstia dos brancos luares!

Eterno poema
De amor à beleza,
Ó recanto abençoado do Brasil!
Onde o Cruzeiro do Sul resplandece.
Capital do trabalho e da paz!

Oficina de ilustres varões,
Canaã de leais forasteiros,
És memória de índios valentes.
E singelos e alegres tropeiros!
Tua glória revive, Campina,
Na imagem dos homens audazes,
Aguerridos heróis de legendas
Que marcaram as tuas fronteiras!

Eterno poema
De amor à beleza,
Ó recanto abençoado do Brasil!
Onde o Cruzeiro do Sul resplandece,
Capital do trabalho e da paz!
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Poema de
SONIA CARDOSO
Curitiba/PR

Retinografia 

A névoa é densa 
Bastões longos e finos 
- Fixe o xis 
Laranjas e citrinos sobem 
E descem vertiginosos 
Aumentando a náusea 
Repentinamente a sensação 
Cessa dando lugar ao 
Caleidoscópio multicor 
Alabares delgados entopem 
As narinas em prata e rubi 
E as estrelas vem ao meu encontro.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O Sol e as rãs

Do rei dos astros proteção, socorros
Tinham do lodo as filhas.
Nem guerras, nem pobreza,
Nem mil outros desastres
Perto nem longe à tal nação chegavam;
Nação, que em mil lameiros,
Seus poderes blasona*.
As rainhas dos charcos... (Das rãs falo;
Que custa às coisas dar honroso nome?)
Contra o seu benfeitor conluios tramam,
Fazem-se insuportáveis.
A imprudência, com o orgulho, e o esquecimento
Dos benefícios — filhos da aura próspera —
Impeliram os brados
Desse bando importuno.
Ninguém dormia em paz. Se dessem crédito
Ao que elas murmuravam, já teriam
Aos grandes, aos pequenos rebelado,
Com os seus gritos, contra o olho do universo.
O Sol, ao que diziam,
Ia dar cabo de tudo;
«Importa armar-se, e presto
Levantar grosso exército.»
Mal dava um passo o Sol, já despediam
Grasnantes embaixadas.
A crê-las, todo o mundo
E a máquina redonda
Rodam sobre interesses
De quatro pífios charcos.
Dura ainda hoje essa queixa temerária.
Calar-se as rãs, não murmurarem tanto,
Contudo, lhes cumpria:
Que lhe fará sentir o Sol, se ele se agasta:
E mui bem poderia arrepender-se
A aquática república.
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* blasona = ostenta.
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