quinta-feira, 16 de julho de 2026

Asas da Poesia * 202 *


Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

PREMATURO

Daquele ontem sem vida
restou a saudade;
uma saudade fria, incoerente, sofrida...
e essa mesma saudade
por puro azar, o meu peito invadiu.
O coração, coitado! Não resistiu,
parou de bater, cansou de sofrer,
tamanha se fez a adversidade. 
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Trova Humorística de
ANTÔNIO COLAVITE FILHO
Santos/SP

O meu cabelo, em verdade,
veja o estado que ele está:
- na banda de lá, metade;
 - metade em banda de cá ...
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Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Conversa Calada

Com tanto sentimento solitário,
meu existir interno é tão intenso,
que para reparti-lo às vezes penso
num interlocutor imaginário.

E sinto, então, falar de modo vário
minha alma com seu repertório imenso,
tão vasto que nem sei como é que venço,
sozinha, o turbilhão do meu fadário.

Embora eu tenha apenas uma vida,
termino por fazer-me bipartida,
se eu mesma falo e escuto a minha voz.

Na minha eterna e ardente introversão,
de tanto argumentar com a solidão,
eu vivo sempre dialogando... a sós.
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Aldravia de
ANNA RIBEIRO
Itajaí/SC

dor
em
gotas
sobre
púrpura
ilusão
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Soneto de
HEGEL PONTES
Juiz de Fora/MG (1932 – 2012)

Soneto verde

“O Paraibuna, rio singular 
Que vai passando mas não vai embora 
É testemunha mais que milenar 
Da mata do Krambeck em Juiz de Fora 

E diz que a mata é dona do lugar, 
Porque usucapiu a fauna e a flora 
E tudo que devemos preservar 
Desde ontem, hoje e séculos afora 

A mata é o grito verde permanente 
Da natureza em prol do meio-ambiente, 
O bem maior que a humanidade tem.

A mata é vida e em nome da harmonia 
A poetisa Clevane já dizia: 
Quem mata a mata morrerá também.” 
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Trova Premiada de
HELDER MARTINEZ DAL COL 
Campo Mourão/PR

Cada experiência nova:
fortuna, alegria ou dor,
acaba virando trova.
Destino de Trovador!
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Olhar de poeta

Olhar de poeta capta diferente...
Em vez de empecilhos, vê a beleza!
É o poeta que sempre passa pra gente,
Dos  puros sentimentos, a sutileza.

Da adversidade ele tira poesia,
Nas densas trevas, o poeta põe luz;
Sabe transformar tristeza em alegria,
No vulto de Judas, projeta Jesus.

O poeta olha com a percepção
De quem sabe pôr encanto em sua rima.
O olhar do poeta deixa a sensação
De um ser altaneiro que enxerga por cima.

A Pátria, sob o olhar de um poeta,
Reconhecida é em seu esplendor.
Uma atitude de postura correta,
De quem em seus versos lhe dedica amor.

No olhar do poeta há a magia
Que a tudo transforma em inspiração.
Para os versos de amor ou de rebeldia,
Seu olhar é antena do coração.
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Quadra Popular

Triste daquele a quem falta,  
na vida, que se evapora,          
uma criança que salta,  
que canta, que ri e chora!
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Soneto de
CESÍDIO AMBROGI
Natividade da Serra/SP, 1893 — 1974, Taubaté/SP

Manhã gloriosa

Cintila em ouro o sol pelos caminhos,
no esplendor da manhã que vem raiando;
ouve-se, além, o murmurar dos ninhos
e cruzam-se no espaço asas, noivando.

De em torno a um velho cocho, atropelando
inocentes e mansos cordeirinhos,
anda um poldro, a saltar. Passam riscando
o céu — flechas de neve — dois pombinhos.

E toda a terra que de luz se banha,
despe-se, enfim, das pérolas do orvalho,
para a luta da vida, intensa e estranha.

Obscuro e cruento o embate principia,
e tudo vibra à orquestra do trabalho,
na conquista do pão de cada dia...
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Trova de
RENATO MATTOSINHOS
Juiz de Fora/MG

Na noite fria, esquecido,
eu vejo dramas bisonhos,
sou um boêmio perdido,
sem a mulher dos meus sonhos.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira do Mato Dentro/MG, 1902 – 1987, Rio de Janeiro/RJ

Imortalidade

Morre-se de mil motivos
e sem motivo se morre
de saudade,
morreu o poeta
sem morrer à eternidade
ele que fez de uma pedra
louvor para sua cidade
gauche, grande destro
sem querer celebridade
pelos mil que era
num só se fez único
ficando no seu primeiro
caráter de bom mineiro
jamais morrerá
e sempre será.
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Haicai de
CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO
Itapecerica/MG

O verde se pinta
mostrando serenas tramas
recriando a tinta.
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Sextilha de
LEANDRO GOMES DE BARROS
Pombal/PB

Meus versos inda são do tempo
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.
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Trova de
NILTON MANOEL
(Nilton Manoel de Andrade Teixeira)
Ribeirão Preto/SP 1945 – 2024

Canta o galo, nasce o dia!
do chão da praça o sem nome,
põe num canto a moradia,
para lutar contra a fome.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE:
Caminhei por esta rua
procurando o teu calor,
ontem, eu quis dar-te a lua:
hoje, dou-te o meu amor!
José Feldman 
(Floresta/PR)

GLOSA:
Caminhei por esta rua,
deserta, sem um vivente,
carregando a minha crua
dor, por estares ausente!

A cada esquina espreitava
procurando o teu calor,
porém não o encontrava;
só um frio ameaçador!

Um pensamento insinua
quão louco fui... sonhador;
ontem, eu quis dar-te a lua:
loucura... de um trovador!

Agora, quero falar-te;
ouve bem o meu clamor:
se a lua não pude dar-te,
hoje, dou-te o meu amor!
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Aldravia de
ZÉLIA DENDENA SAMPAIO
Porto Alegre/RS

casa
de
palha
sono
que
gralha
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Soneto de
ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO
(Afonso Henriques de Guimarães Filho)
Mariana/MG, 1918 – 2008, Rio de Janeiro/RJ

Onde estás...

Onde estás já não sei. Senti bem perto
teu corpo desejado e sempre esquivo.
O amor é um sonho tanto mais incerto
quanto se faça latejante e vivo.

Procuro em mim a estrela e nada vejo.
Quando foi que a perdi? Não me lamento.
Mas o desejo, a febre do desejo,
uiva no vento e se desfaz no vento...

Tudo é saudade em mim. Se estendo os braços,
não colho o teu silêncio. E estás distante...
Mas como em mim não sonhas, como insistes

em superar insônias e cansaços
e colocar no coração amante
coisas da infância, muito embora tristes!
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Trova Premiada de
LUÍZA FILLUS 
(Luíza Nelma Fillus)
Irati/PR

Mistérios são tênues linhas
que abrem possibilidades
de vislumbrar entrelinhas,
no mar das diversidades.
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Poema de
ANASTÁCIO LUÍS DO BONSUCESSO
Rio de Janeiro/RJ (1836 – 1899)

Os Ossos

Os ossos de um nobre se encontraram
Com os ossos de um peão. Estando a sós,
Nas tristes solidões de um cemitério,
Pergunta o nobre ao outro: “Os teus avós?…

Por entre essas ossadas que embranquecem
Da lua ao clarão mostrai-me os vossos.”
Responde-lhe o plebeu: “Não os distinguo;
São do nobre e plebeu iguais os ossos.”

Nas pedras sepulcrais ainda brilham
Dos homens a vaidade e a impostura!
Levantai-as, leitor, lede nos ossos…
Somos todos iguais na sepultura!
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Triverso de de
CAMILA JABUR
São Paulo/SP

vento nas cortinas,
fico atenta
ao que a manhã ensina.
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Setilha de
PROFESSOR GARCIA 
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN

No sertão, cada filho é uma flor, 
que perfuma e inebria um lar feliz, 
quanto mais nasce gente em cada casa, 
mais o dono da casa pede bis; 
mamãe tinha um menino todo ano, 
papai pobre não quis mudar de plano 
criou onze do jeito que Deus quis.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

A história, através dos anos, 
ensina a grande lição: 
– o destino dos tiranos 
será sempre a solidão!
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Muralhas da razão

Nas lágrimas derramadas,
transbordantes de emoção,
essas águas são chamadas
torrentes do coração!…

Às vezes nem sabemos como nasce
tamanha angústia vinda, de repente,
e ao deslizarem lágrimas na face,
nos surpreende a súbita vertente.

Encurralados diante deste impasse:
— ver descoberto o nosso ser carente!...
Dentro de nós, talvez, algo ultrapasse
o escrúpulo insalubre e prepotente.

Lágrimas brotam, soltas, sem disfarce,
e o coração consegue apoderar-se
de um sentimento sufocado em vão.

Mas quando o pranto silencia um grito
pronto a lançar seu eco no infinito,
não derrubou muralhas... da razão!
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Poetrix de
ÂNGELA BRETAS
(Ângela Bretas Gomes dos Santos)
Flórida/USA 

Menino de Rua

Na miséria das ruas
Teu sorriso vem fácil
E a morte também…
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Soneto de
FRANCISCO MIGUEL DE MOURA
Jenipapeiro/PI

O Tempo Existe

Existe um tempo que sequer sentimos,
existe um tempo que sequer pensou-se,
existe um tempo que o tempo não trouxe,
existe um tempo que sequer medimos.

Existe mais: um tempo em que sorrimos,
diferente do tempo em que chorou-se,
e um tempo neutro: nem amaro ou doce.
Tempos alheios, nem sequer são primos!

Existe um tempo pior do que ruim
e um tempo amado e um tempo de canção,
existe um tempo de pensar que é o fim.

Tempo é o que bate em nosso coração:
um tempo acumulado em tempo-sim,
e um tempo esvaziado em tempo-não.
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Trova de
DÉCIO RODRIGUES LOPES
Mogi das Cruzes/SP

Na minha "Melhor Idade",
sendo  velho, sou criança.  
Vivendo a felicidade...
No carrossel  "Esperança"!
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Poema de
ADOLFO CASAIS MONTEIRO
(Adolfo Vítor Casais Monteiro)
Porto/Portugal, 1908 – 1972, São Paulo/SP

Permanência

Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
         não sabe nada de geografia celestial.
         Anda aos encontrões da realidade
         sem acertar o tempo com o espaço.
         Os relógios e as fronteiras não tem
         tradução na sua língua. Falta-lhe
         o amor da convenção em que nas outras
         as palavras fingem de certezas.
         O poeta lê apenas os sinais
         da terra. Seus passos cobrem
         apenas distâncias de amor e
         de presença. Sabe
         apenas inúteis palavras de consolo
         e mágoa pelo inútil. Conhece
         apenas do tempo o já perdido; do amor
         a câmara escura sem revelações; do espaço
         o silêncio de um voo pairando
         em toda a parte.
         Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
         — morto redivivo.

          Tudo é simples para quem
         adia sempre o momento
         de olhar de frente a ameaça
         de quanto não tem resposta.
         Tudo é nada para quem
         descreu de si e do mundo
         e de olhos cegos vai dizendo:
         Não há o que não entendo.
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Mensagem na Garrafa 196 = Os tordos e a coruja

LEONARDO DA VINCI
Itália, 1452 – 1519, França

Estamos livres! Estamos livres! - gritaram os tordos certo dia, vendo que um homem apanhara a coruja - agora a coruja não vai mais nos assustar. Agora dormiremos em paz.

De fato, a coruja caíra numa armadilha e o homem a colocara dentro de uma gaiola.

- Vamos ver a coruja na prisão! - disseram os tordos, voando e cantando em volta da gaiola de sua inimiga.

Porém o homem capturara a coruja com outra finalidade, a de apanhar os tordos. A coruja aliou-se imediatamente a seu captor, que prendeu-a pelo pé e colocava-a diariamente em cima de uma estaca, bem à vista. A fim de poderem ver a coruja, os tordos voaram para as árvores próximas, nas quais o homem escondera gravetos cobertos de visgo. E assim como a coruja, os tordos também perderam a liberdade.

Moral da Estória:
Esta fábula é dirigida a todos os que se alegram quando um opressor perde a liberdade. Pois o conquistado logo se torna aliado ou instrumento do conquistador, enquanto que todos aqueles que nele confiam sucumbem a outro senhor, perdem a liberdade, e frequentemente também suas vidas.
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LEONARDO DE SER PIERO DA VINCI nasceu em Anchiano, em 1452 na Itália e morreu em Clous Lucé, em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual.

Guirlanda de Versos * 88 *



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JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título de mérito das Letras, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente.

Antonio Brás Constante (Automóveis - Veículos, Armas ou brinquedos?)


O automóvel. Possante. Veloz. Confortável. Símbolo ultrapassado de status social (o atual símbolo é o helicóptero, em alguns casos um avião presidencial). Esta máquina sobre rodas é o sonho de onze entre dez adolescentes. Paixão de muitos amantes por carros. Moradia para outros tantos. Transporte para vários. Motel para uns mais afoitos e meio de vida para outros que dele dependem para ganhar o pão de cada dia (com manteiga e umas fatias de mortadela).

Esta grande invenção é mesmo uma maravilha. Quanto tempo se ganhou com ela. Quanto conforto se adquiriu com os belíssimos carros que andam em nossa volta. Quantas vidas foram salvas por chegarem a tempo nos hospitais. Tantas barreiras de distâncias foram quebradas com a ajuda desses veículos incríveis, que estão sobre nosso inteiro domínio. Agindo conforme o comando de nossos braços e pernas.

Somos os senhores absolutos dos automóveis, guiando-os pelas estradas, ruas e avenidas. Eles são como uma vestimenta. Uma armadura em forma de frágil couraça. Nos remetendo aos tempos da idade média. Talvez por isso, muitos ajam como se fossem cavaleiros medievais em busca de sangue.

Jovens cheios de alegria, velhos de aparência bondosa, mulheres, homens, pais de família, pessoas religiosas, entre tantas outras que ao se verem em frente a um volante se transformam em psicopatas. Desafiando quem cruze o seu caminho, agindo como loucos. Descontrolados. Verdadeiros demônios das ruas.

O carro como arma. O carro como instrumento de execução. De impunidade. Ceifando vidas. Matando futuros. Atropelando pessoas de forma irracional. Destituindo seus condutores da alcunha de seres humanos. Passando-os para algozes de outras vidas.

Um homem, um carro e uma garrafa de álcool. Misture os três e terá em seu caminho um arauto da morte. Um ser inconseqüente, regido por uma mente encharcada de bebida e sem nenhuma consciência para com seu semelhante.

Automóveis: veículos, armas ou brinquedos? Está nas mãos de cada motorista a decisão de como usá-los.
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ANTÔNIO BRÁS CONSTANTE é um escritor, cronista e contista brasileiro contemporâneo, amplamente reconhecido no ambiente digital por suas produções literárias marcadas pelo humor satírico e pela ironia cotidiana. Embora não haja um registro público detalhado de sua data de nascimento ou de uma biografia institucional tradicionalizada pelas grandes academias nacionais, suas publicações fornecem informações precisas sobre sua trajetória literária. É um autor gaúcho, residindo e desenvolvendo grande parte de suas atividades e inspirações na cidade de Canoas/RS. Ele costuma se definir publicamente de forma bem-humorada como um "eterno aprendiz de escritor, amigo e amante da musa inspiração". Teve forte atuação na chamada "literatura de internet" durante as décadas de 2000 e 2010. Ganhou notoriedade ao publicar textos, crônicas e contos em plataformas e blogs como o Recanto das Letras, Overmundo e WebArtigos. Sua marca registrada é o uso do humor azedo, da sátira social e de reflexões irônicas sobre a modernidade (como o vício em redes sociais e e-mails) e as reviravoltas da vida cotidiana. Seu foco de atuação sempre esteve voltado à produção independente e à democratização da leitura via internet. Embora não possua grandes prêmios institucionais listados, o autor já integrou seleções de destaque popular. Sua obra alcançou o ranking dos 100 Livros de Crônicas Mais Lidos e dos 50 Melhor Avaliados na plataforma literária Skoob, uma das maiores comunidades de leitores do Brasil. Livros e Textos Publicados: Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE: Livro físico de crônicas e contos de humor. É autor de crônicas e contos populares na internet. 
A importância de Antônio Brás Constante reside na sua capacidade de desmistificar a literatura e aproximá-la do público geral através do humor cotidiano. Ao utilizar a internet como seu principal vetor de distribuição, ele se tornou um exemplo de escritor que rompeu as barreiras editoriais tradicionais. Seus textos conseguem atingir diferentes camadas sociais, servindo tanto para o entretenimento leve de leitores assíduos quanto como ferramenta de mediação de leitura e debates socioeducativos para jovens em salas de aula e projetos de reinserção social.

Fontes:
Recanto das Letras. 15.05.2006
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/156838
Biografia – sites consultados: Rubem..wordpress; Overmundo; Recanto das Letras; Olhar Direto; Web Artigos; etc.

James Joyce (Arábia)

A obscura rua de North Richmond era bastante sossegada a qualquer hora, exceto quando a meninada saía do Chistian Brother’s School. Num dos extremos, ficava uma casa desabitada de dois andares; os outros prédios, conscientes das vidas respeitáveis que neles decorriam, defrontavam-se com ar imperturbável.

O primeiro inquilino que a nossa casa teve foi um padre que morreu numa sala dos fundos. O ambiente, em todos os quartos, estava impregnado de um odor bolorento por terem permanecido fechados durante muito tempo. O de guardados, ao lado da cozinha, achava-se literalmente cheio de papéis velhos, de jornais e livros. Entre estes, encontrei alguns de páginas dobradas e úmidas: “O Abade”, de Walter Scott [1], “O Comungante Piedoso” e as “Memórias” de Vidocq [2] . Gostava mais deste último pelo fato de ter ele folhas amareladas. O quintal, inculto, que havia atrás da casa, tinha uma macieira no centro e alguns arbustos plantados ao acaso. Debaixo de um deles foi que achei a bomba que pertencera à bicicleta do inquilino anterior — sacerdote deveras benemérito que deixara em testamento, a instituições de caridade, todo dinheiro que possuía e, à irmã, a mobília de seu uso.

Nos dias curtos de inverno, a noite descia antes que tivéssemos jantado. Quando nos encontramos, depois, na rua, notávamos que os prédios estavam perdidos nas trevas. O espaço do céu, que se descobria por cima de nossas cabeças, era de uma cor violácea e, para ele, subiam os débeis reflexos dos lampiões. O ar frio espicaçava-nos, e íamos brincando até aquecer o corpo. A nossa gritaria ecoava na rua silenciosa. Atravessando, nessas brincadeiras desenfreadas, os campos escuros e lamacentos que ficavam atrás das casas (onde desafiávamos a molecada do subúrbio), íamos até as portas dos quintais sombrios e gotejantes dos quais emanava o cheiro do lixo, ou até as cavalariças diferentemente odorosas, onde algum cocheiro escovava e penteava as crinas de um cavalo, fazendo tilintar os metais dos arreios. Quando voltávamos, a luz, que saía das janelas da cozinha, iluminava a rua. Se meu tio fosse visto dobrando a esquina, escondíamo-nos num canto até que ele se recolhesse à casa. Ou, se a irmã de Mangan viesse à soleira da porta chamar por ele para ir tomar chá, nós ficávamos espiando-a para ver o que acontecia. Caso ela se conservasse à espera, dávamos por vencidos e voltávamos com passos resignados. Ela, em geral, não arredava o pé, e o seu vulto se destacava na claridade da porta entreaberta. O irmão zombava sempre dela antes de obedecê-la, e eu detinha-me a observá-los por entre as grades. O vestido da moça movia com o seu corpo e a trança solta balançava de um lado para o outro.

Todas as manhãs, eu me punha a espreitar a casa dela. O estore, corrido até quase o parapeito da janela, ocultava a minha presença. Quando ela aparecia no limiar da porta, o meu coração se alvoroçava. Corria para o vestíbulo, agarrava nos livros e a seguia. Aquela imagem estava sempre diante dos meus olhos. Quando chegava à altura dos nossos caminhos divergirem, eu apressava o passo e cruzava na sua frente. Isso sucedia, como disse, todas as manhãs: nunca lhe dirigia a palavra, a não ser por casualidade, mas bastava ouvir o seu nome para sentir ferver o meu sangue.

Evocava-lhe a imagem até nas circunstâncias mais prosaicas. Nos sábados à noite, quando minha tia ia fazer compras, levava-me na sua companhia para eu carregar os embrulhos. Caminhávamos através de ruas bem iluminadas, esbarrando em bêbados e mulheres impertinentes, ouvindo pragas de lavradores ou pregões esganiçados de caixeiros, e, às vezes, a voz fanhosa de cantores ambulantes que entoavam coisas acerca de O’Donavan Rossa, ou baladas a propósito de acontecimentos locais. Todos esses ruídos resumiam-se para mim numa simples sensação: a de conduzir-me a salvo através de uma coorte de adversários. O nome dela vinha-me aos lábios nesses momentos em estranhos louvores e orações que nem eu mesmo entendia. Tinha, muitas vezes, os olhos repletos de lágrimas (não sabia dizer por quê) e, em outras, parecia-me que, do coração, manava uma corrente que se me alastrava no peito. Pensava pouco no futuro. Não tinha a certeza de lhe poder falar mas, caso o fizesse, não sabia como lhe revelar a minha febril adoração. O meu corpo, porém, era como uma harpa, e as suas palavras, do mesmo modo que os seus gestos, assemelhavam-se a dedos que faziam vibrar as cordas sonoras.

Uma noite, fui à sala onde o padre havia morrido. Estava escuro, chovia lá fora e na casa o silêncio era completo. Através de uma vidraça quebrada, eu ouvia a chuva crivando intensamente de agulhadas a terra encharcada dos canteiros. A mim chegava a luz de um candeeiro distante, vinda da janela de outro prédio, e eu me regozijava por não ver mais nada. Os meus sentidos pareciam querer esconder-se, como se soubessem que eu fugia deles. Apertava as mãos uma contra a outra até que as palmas ardessem. “Amor! Amor!”, murmurava então.

Por fim, ela falou-me. Quando me dirigiu as primeiras palavras, fiquei tão perturbado que não soube o que fazer. Perguntou-me se eu ia ao “Arábia”, mas não me lembro se disse sim ou não. Tratava-se de uma magnífica quermesse e ela estava desejosa de ir lá.

—Por que não vai? — preguntei.

Enquanto me falava, fazia girar em volta do pulso o seu bracelete de prata. Não ia, explicou-me, porque naquela semana tinha um retiro espiritual no convento. O irmão e mais dois rapazinhos estavam brigando por causa de seus bonés, e eu fui sozinho até a grade. Ela fez força numa das barras e enfiou a cabeça na minha direção. A luz do lampião fronteiro à nossa porta alcançava-lhe a curva clara do pescoço, iluminava-lhe parte do cabelo, descia pela mão que pousava na grade e atingia ainda um pedaço do vestido — guarnição do saiote, apenas visível quando ela se movia.

—Você iria gostar — disse-me ela.

—Se eu for —respondi-lhe —, trago-lhe uma lembrança.

Quantas loucuras não desenvolvi depois daquela noite nos meus pensamentos, enquanto passeava, e o nos meus sonhos, quando dormia! Meu maior desejo era suprimir os dias que faltavam — tão cheios de tédio! Aquecia- me no silêncio da minha alma curiosa e envolvia-me num encanto de magias orientais. Pedi que me deixassem ir à quermesse no sábado seguinte. Minha tia ficou surpresa e disse que esperava não se tratar de nenhuma complicação. Na aula, respondi a poucas perguntas e notei que o rosto do professor passava da expressão de afabilidade para a de ar carrancudo. Ele desconfiava que eu estivesse me tornando peralta. Quanto a mim, era-me difícil conciliar todas as ideias que me povoavam o cérebro. Mal tinha paciência para as coisas sérias da vida. Postos entre mim e o meu desejo, os divertimentos infantis pareciam brincadeiras monótonas.

Na manhã de sábado, lembrei a meu tio que queria ir à quermesse naquela mesma noite. No momento, ele estava procurando no bengaleiro a escova de chapéus e respondeu-me laconicamente:

—Sim, rapaz, já sei.

Como ele se encontrava no vestíbulo, não pude ir à sala de visitas e permaneci na janela. O ambiente da casa me pareceu desagradável e fui andando
lentamente para a escola. O tempo continuava enevoado e o meu coração crescia de desânimo.

Quando voltei para jantar, meu tio ainda não havia regressado. Era cedo, aliás. Fiquei durante algum tempo a contemplar o relógio, mas seu ruído acabou por irritar-me, e eu saí da sala, subindo a escada e indo vagar pelos quartos do andar superior (sombrios e desconfortáveis), cantarolando para me distrair. De uma das janelas que davam para a rua, vi meus companheiros brincando. Os gritos que soltavam chegavam a mim enfraquecidos e indistintos. Encostando a testa à vidraça fria, olhei para o prédio escuro onde ela morava. Devia ter ficado ali durante cerca de uma hora, sem nada ver a não ser a figura vestida de castanho que se me representava na imaginação — aureolada pela luz do candeeiro que lhe punha em relevo ora a curva do pescoço, ora a guarnição do saiote. Desci ao rés do chão e encontrei a Sra. Mercer sentada junto à lareira.

Era uma velha faladora, viúva de um penhorista, que colecionava selos usados para fins de caridade. Tive de aturar a conversa, enquanto tomavam chá. Isto prolongou-se por mais de uma hora, e meu tio não chegava! A Sra. Mercer levantou-se para sair, lamentando não poder demorar-se mais tempo, mas já eram oito e meia e não gostava de andar na rua a horas tardias, porque o ar da noite lhe fazia mal. Depois que ela foi embora, comecei a passear na sala, de punhos cerrados. Minha tia observou:

—Acho que você tem de desistir de ir à quermesse esta noite.

Às nove horas, ouvi meu tio destrancar a porta, depois como que o senti a conversar comigo, e por fim adivinhei o ruído do cabide ao receber o peso de seu sobretudo. Todos estes sinais me eram familiares. A certa altura do jantar, pedi- lhe que me desse dinheiro para ir ao “Arábia”. Ele tinha-se esquecido!

—A estas horas já estão todos dormindo — respondeu-me.

Não achei graça na resposta. Minha tia interveio em tom enérgico:

—Dê-lhe o dinheiro e deixe-o ir. Não o atrase mais.

Meu tio declarou ter muita pena de se haver esquecido. Quis saber outra vez aonde eu ia. Informei-o de novo e ele indagou se eu conhecia o “Adeus do árabe ao cavalo”. Quando saí da cozinha, deixei-o recitando os primeiros versos da composição.

Ao descer Buckingham Street, direto à estação, levava um florim bem apertado entre os dedos. À vista das ruas cheias de compradores e cintilantes de gás, reconsiderei no objetivo de minha jornada. Tomei lugar na terceira classe de um trem quase vazio. Depois de intolerável demora, pôs-se este em marcha, mas muito devagar: arrastou-se entre casebres arruinados e passou sobre o rio cujas águas brilhavam. Na West Row Station, a multidão invadiu os vagões, mas os empregados recambiaram esses passageiros, alegando que o trem se destinava especialmente à quermesse. Continuei só no vagão deserto. Dentro em pouco, parávamos diante de uma plataforma de madeira improvisada. Desembarquei e vi, no mostrador luminoso de um relógio, que faltavam dez para dez. À minha frente erguia-se um edifício enorme, onde se exibia aquele nome de mágica.

Com medo de que a quermesse já estivesse para fechar, passei muito rapidamente pela “borboleta”, apresentando um xelim ao porteiro, um homem macambúzio. Depois, achei-me num átrio imenso cingido até meia altura por uma galeria. Quase todas as barracas estavam fechadas e grande parte da sala conservava-se às escuras. Havia ali um silêncio semelhante ao das igrejas depois de terminada as cerimônias do culto. Caminhei timidamente até o meio da quermesse. Poucas pessoas paravam junto aos balcões que ainda estavam funcionando. Por trás de um reposteiro, sobre o qual se liam em letras resplandecentes as palavras “Café Chanant”, dois homens contavam dinheiro numa bandeja. Ouvia-se o tinir das moedas.

Lembrando-me do motivo que me trouxera à quermesse, fui a uma mesa das barracas e examinei as jarras de porcelana e os serviços de chá com florinhas. À porta, uma moça conversava e ria com dois rapazes. Notei-lhe a pronúncia inglesa e ouvi por alto o que diziam:

—Qual, nunca proferi semelhante coisa!

—Ora essa!

—Sim, senhora!

—Acham que é verdade?

—Acho. Eu ouvi.

—Pois é mentira!

Notando a minha presença, a moça avançou para mim e perguntou se eu desejava comprar alguma coisa. O tom não foi muito próprio para incutir coragem. Pareceu-me que ela falava por mera obrigação. Olhei humildemente para os jarrões que, de cada lado da entrada da barraca, se assemelhavam a guardas do Oriente, e respondi:

—Não... Muito obrigado.

Ela mudou de posição alguns objetos e voltou a conversar com os rapazes. O assunto continuou a ser o mesmo. E ela ainda uma vez me olhou por cima dos ombros.

Dei mais alguns passos defronte da barraca (embora soubesse que a minha permanência ali seria inútil) para tornar mais visível meu interesse pela mercadoria. Depois, lentamente, voltei as costas e fui ao centro da quermesse. Ouvi, então, alguém gritar, do extremo da galeria, que iam apagar as luzes. A parte superior do átrio já estava, por completo, às escuras.

Levantando os olhos para essa escuridão, vi a mim próprio como pessoa conduzida pela vaidade. E os olhos arderam-me de desespero e raiva.
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[1] Walter Scott (1771 – 1832), escritor escocês de expressão inglesa, é o célebre autor do romance histórico “Ivanhoe”(1820).

[2]  Eugène-François Vidocq (1775 – 1857) é considerado o pai da criminologia. Foi um criminoso que veio a se tornar o fundador e primeiro diretor da Segurança Nacional francesa, polícia especializada em investigações criminais.
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JAMES AUGUSTINE ALOYSIUS JOYCE foi um dos escritores mais revolucionários e influentes do século XX, apontado como um dos pilares do modernismo literário mundial. Nasceu em 1882, em Dublin/Irlanda e faleceu em 1941 (aos 58 anos), em Zurique/Suíça, devido a complicações de uma úlcera duodenal perfurada. Apesar de sua literatura ser profundamente enraizada em Dublin, Joyce viveu a maior parte da sua vida adulta como um expatriado na Europa continental. Ele mudou-se em 1904 com sua companheira, Nora Barnacle. Suas principais residências foram: Dublin, Irlanda (Infância e juventude); Trieste, Itália (Onde viveu por muitos anos e deu aulas); Paris, França (O centro de sua consagração literária nas décadas de 1920 e 1930); Zurique, Suíça (Onde se refugiou durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, e onde veio a falecer). Veio de uma família católica que faliu financeiramente durante sua juventude. Formou-se em línguas modernas no University College Dublin. Para sustentar sua família e financiar sua escrita no exterior, ele exerceu diversas profissões fora do mercado editorial. Lecionou inglês na escola Berlitz, em Pola e na cidade de Trieste. Trabalhou brevemente em um banco na cidade de Roma. Deu palestras e aulas sobre literatura inglesa.
Joyce tinha um espírito rebelde e rejeitava instituições oficiais. Ele não pertenceu a nenhuma academia literária tradicional. Ele recusou propostas formais e preferiu manter-se isolado de círculos acadêmicos institucionais. Nunca recebeu grandes prêmios literários em vida (como o Prêmio Nobel). Sua obra era considerada "obscena", controversa ou complexa demais pelos comitês da época. Seu reconhecimento veio por meio de intelectuais de vanguarda e patronos literários independentes.
Os livros publicados de Joyce são relativamente curto em extensão: Música de Câmara (1907) – Coletânea de poemas líricos; Dublinenses (1914) – Coletânea de 15 contos realistas sobre a paralisia social de sua cidade natal; Retrato do Artista Quando Jovem (1916) – Romance de formação semiautobiográfico; Exilados (1918) – Sua única peça de teatro de destaque; Ulisses (1922) – Sua obra-prima. Reconstrói a Odisseia de Homero ao narrar um único dia (16 de junho de 1904) na vida de Leopold Bloom em Dublin; Poemas, cada um por um tostão (1927) – Caderno de poesias; Finnegans Wake (1939) – Seu último e mais radical romance, escrito em uma linguagem experimental e onírica quase incompreensível.
James Joyce mudou permanentemente a forma como o romance moderno é escrito. Sua importância reside em três pontos fundamentais: 1. Aperfeiçoamento do Fluxo de Consciência: levou a técnica do monólogo interior ao seu limite. Ele conseguiu registrar no papel os pensamentos humanos exatamente como eles ocorrem: de forma caótica, fragmentada e cheia de associações livres; 2. Revolução Linguística: O autor transformou o idioma em uma matéria maleável. Misturou dezenas de línguas, criou neologismos, trocadilhos multilíngues e estruturas rítmicas inovadoras; 3. O Cotidiano Elevado ao Mito: Em Ulisses, ele provou que a rotina comum de um homem comum ao longo de apenas um dia é vasta e complexa o suficiente para se equiparar aos maiores mitos épicos da história da humanidade.

Fontes:
James Joyce. Dublinenses. Publicado originalmente em 1914, 
Biografia – sites consultados: Wkipedia; Enciclopedia Britânica; Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Escola;  James Joyce; Joyce Foundation; Revista Rascunho, etc.