domingo, 14 de junho de 2026

Asas da Poesia * 192 *


Trova Humorística de
MARINA BRUNA
Franca/SP, 1935 – 2013, São Paulo/SP

"Dez filhos do mesmo leito?!"
pergunta o padre e ela fala:
"Acho que não, pois suspeito
que um é da rede da sala..."
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Poema de
CARLOS EDMUNDO DE ORY 
Cádiz/ Espanha, 1923 - 2010, Thézy-Glimont/ França

Poema

Amo aquilo que arde
o que voa e se abre
o que enlouquece e cresce
o que salta e se move
aquilo que bebe os ventos
e é música e contato
o que é vasto e é casto
o que é milagre e perigo
e se espreguiça e respira
e viaja por capricho.
Amo viajar descalço.
(Tradução: Herberto Helder)
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Aldravia de
ANGELA TOGEIRO
Belo Horizonte/MG

mente
jovem,
corpo
envelhecendo:
ninguém
merece!
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Soneto de
JOÃO COSTA
Saquarema/RJ

Viajante do Tempo

Venho de longe, nos ombros trazendo
peso de vidas outrora vividas.
Venho de longe, venho de outras vidas,
tempo afora vivendo e revivendo.

De tempos idos, priscas eras idas
venho volvendo tempo-espaço, sendo
em cada ciclo (vivendo e aprendendo)
preparado para futuras vidas.

E sigo nesta contínua viagem
pelo que chamam tempo. Na bagagem
vou transportando infinitas memórias.

Venho de longe e vou rumo ao futuro
– destino infinito. Sigo seguro
de que ainda viverei muitas histórias.
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Trova de
ABÍLIO KAC 
Rio de Janeiro/RJ

Num dos rodeios da vida
conquistei o meu espaço...
Não pela prova vencida,
mas por vencer meu fracasso!
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Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS

A Torre Azul

É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto-mar perdida.

É preciso construir uma torre…
É preciso construir um túnel…
É preciso morrer de puro,
puro amor!…
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QUADRA POPULAR

Que cigarro tão cheiroso!
Me dê uma fumacinha.
Com a desculpa do cigarro,
sua mão pega na minha.
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Soneto de
FERNANDO FORTES
Carlos Fernando Fortes de Almeida
Rio de Janeiro/RJ, 1936 – 2016

X

Tu finges que és feliz e em ti persiste
A miséria de todos os humanos
Se os anos da existência foram tristes
Não há por que ocultar teus próprios danos.

Fizeste pela vida tantos planos
E nenhum de teus planos construíste
Tudo aquilo que um dia possuíste
Foi poeira na estrada de teus anos.

A velha eternidade te carrega
No seu colo triunfal de fantasia
Mas foge o tempo e a morte ainda não chega.

Buscas a Deus e o mesmo Deus te nega
O coração do céu que se anuncia:
Pois Deus existe mas jamais se entrega.
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Trova de
VANDA ALVES DA SILVA
Curitiba/PR

Na vida vivo tentando
tornar meu mundo risonho,
pois a tristeza vem quando
existe ausência de um sonho.
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Poema de
ROGÉRIO SALGADO
Belo Horizonte/MG

Conceito
para Otávio de Campos

Sou o que representa
a febre, a dor
a expressão exata
a corda que desata
todos os nós acorrentados
aos conceitos do que
querem que a poesia seja.

Canto a canção ferida
daquilo que é doído

tenho olhos de vidros partidos
e a imensidão de compor.

Não me estabeleço
amanheço, entardeço, anoiteço
na forma mais concreta.
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Haicai de
GIL NUNESMAIA
Ilhéus/BA

Vi a lua cheia
entre fios telegráficos:
uma semibreve!
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Setilha de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Mesmo com tanta maldade
eu alimento a esperança,
de ver um mundo feliz
sabendo que não se alcança;
mas esta fé que me guia,
vem da força da poesia
que trago desde criança.
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Trova de
OLYMPIO COUTINHO
Belo Horizonte/MG

Nada recebe quem nega
 dar amor ou coisa assim...
 Só colhe flores quem rega
 dia e noite o seu jardim.
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Entrar no céu sonhando

MOTE:
Sei que, deste mundo lindo,
vou sair, só não sei quando,
mas quero morrer dormindo
para entrar no céu sonhando.
JOSÉ LUCAS DE BARROS 
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

GLOSA:
Sei que, deste mundo lindo,
o meu tempo está escasso,
mas continuo sorrindo...
Sou feliz, por onde passo.

Tenho sim, plena certeza,
vou sair, só não sei quando,
vou deixar esta beleza:
o mundo, que estou amando!

Dias e noites, vão indo,
e a morte ronda por perto...
Mas quero morrer dormindo,
morrerei feliz, por certo!

Vou dormir, tal qual criança,
mil sonhos acalentando,
não perderei a esperança...
Para entrar no céu sonhando.
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Aldravia de
MIRIAM STELLA BLONSKI
São Gonçalo do Rio Abaixo/MG

olhos
vazios
de
sonhos:
face
perdida
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Soneto de
MARIA JOSÉ GIGLIO
São Paulo/SP

[4]

Não se deve gritar ao surdo vento
a canção destinada a ser ouvida
na glória silenciosa de um momento
no efêmero momento de uma vida.

Não se deve pedir ao isolamento
a comunhão ao gênio oferecida,
na face opaca do deslumbramento
espelha-se a maldade enlanguecida.

Não bastam para a vida os temas puros,
não dês à morte falsos esconjuros
que vida e morte se rirão de ti.

Ama, inda que esse amor semelhe um crime
pois só o amor de teu amor redime
a dispersão das almas que perdi.
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Trova Premiada  de
MILTON SOUZA 
Porto Alegre/RS, 1945 – 2018, Cachoeirinha/RS

Madrugada… No infinito,
estrelas a cintilar…
Mas meu céu é mais bonito:
ele brilha em teu olhar!
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Poema de
OSWALD DE ANDRADE
São Paulo/SP, 1890 – 1954

Escapulário

No Pão de Açúcar 
de cada dia 
Dai-nos Senhor 
a Poesia 
de cada dia. 
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Triverso de
GRACIANE DOS SANTOS SILVA
São Paulo/SP

Vento forte na janela
a menina se assusta -
Trovoada.
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Ramalhete de Trovas de
NEMÉSIO PRATA 
Fortaleza/CE

Olhando com bem clareza
pras marcas do seu herdeiro,
já não tem tanta certeza
de ser o pai verdadeiro!

Olho azul, branco e lourinho
o filho do "Zé Negão"
lembrava mais o vizinho;
coitado, tinha razão!

Mas o popular ditado
diz que Pai é o que cria,
sem olhar se foi botado,
ou se feito à revelia!
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Trova de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Quando o sol se faz mais forte
e a chuva responde...não!
a silhueta da morte
se espraia pelo sertão. 
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES 

Memórias de um verão

O sol brilhava forte no céu.
e o mar cintilava como diamantes.
Nós corríamos pela praia,
rindo, brincando, sem preocupações;
apenas dois jovens amantes

As noites eram quentes e longas
e as estrelas brilhavam como fogos de artifício.
Nós dançávamos ao som do vento
e o mundo parecia um lugar mágico
sem mágoas ou sofrimento

Mas o verão passou...
e as memórias ficaram
guardadas no coração;
como um tesouro precioso
Repleto da mais pura emoção

Agora, quando penso naquele tempo,
Sinto uma saudade doce...
E embora o verão tenha ido embora;
as memórias permanecem, vivas e quentes
pairando, contudo, num silêncio estranho lá fora 
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Hino de 
JUIZ DE FORA/MG

Viva a Princesa de Minas,
Viva a bela Juiz de Fora,
Que caminha na vanguarda
Do progresso estrada a fora! 

Os seu filho operosos
Asseguram-lhe o porvir,
Para vê-la grandiosa 
Nunca têm mãos a medir...

Das cidades brasileiras
Sendo a mais industrial,
Na cultura e no trabalho
Não receia outra rival.

Das cidades brasileiras
Sendo a mais industrial,
Na cultura e no trabalho
Não receia outra rival.

Demos palmas, demos flores
Aos encantos da Princesa!
Ela é rica de primores
Da poesia e da beleza.

É a cidade aclamada,
Do trabalho e da instrução,
É do Cristo abençoada
Sob o sol da religião.

Das cidades brasileiras
Sendo a mais industrial,
Na cultura e no trabalho
Não receia outra rival.

Das cidades brasileiras
Sendo a mais industrial,
Na cultura e no trabalho
Não receia outra rival.
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Poetrix de
CARLOS ALBERTO FIORE
Limeira/SP

Pico

Sons, buzinas, neuroses.
Pressa predadora, desumana.
A rua enfrenta o dia.
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Poema de
HERBERTO HELDER
Funchal/Ilha da Madeira/Portugal, 1930 – 2015, Cascais/Portugal

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Se vejo o mundo às escuras,
embarco em meu sonho...e assim,
subo a escada e, nas alturas,
acendo um sol para mim!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Ossos do ofício

Uma vez uma besta do tesouro
Uma besta fiscal,
Ia de volta para a capital
Carregada de cobre, prata e ouro,
E no caminho
Encontra-se com outra carregada
De cevada
Que ia para o moinho.

Passa-lhe logo adiante
Largo espaço,
Coleando arrogante
E a cada passo
Repicando a choquilha,
Que se ouvia distante.

Mas salta uma quadrilha
De ladrões,
Como leões,
E qual mais presto
Se lhe agarra ao cabresto.
Ela reguinga e dá uma sacada,
Já cuidando
Que dispersava o bando;

Mas, coitada!
Foi tanta a bordoada,
Que exclamava enfim
A besta oficial:
«Nunca imaginei tal!
Tratada assim...
Uma besta real!
Mas aquela, que vinha atrás de mim,
Porque a não tratais mal?!

— Minha amiga! cá vou no meu sossego:
Tu tens um belo emprego;
Tu sustentas-te a fava, e eu a troços;
Tu lá serves El-Rei, e eu um moleiro;
Eu acarreto grão, e tu dinheiro:
Ossos do ofício... que não há sem ossos!»
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Colaborações: gralha1954@gmail.com

Mensagem na Garrafa 187 = A Verdadeira Felicidade


AUTOR: JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)

Alan desligou a tela do computador. O relógio no canto do monitor marcava duas da manhã. Ele olhou ao redor do seu apartamento no 24º andar, no centro de Niterói: móveis de design assinados, a última versão do videogame na estante e roupas de grife no closet. Tudo o que a sociedade apontava como a fórmula do sucesso estava ali. Mesmo assim, ele sentia um eco persistente no peito, um vazio que nenhuma promoção ou compra conseguia preencher.

"A vida não pode ser só isso", pensou. Convencido de que o estilo de vida urbano e a rotina corporativa eram os culpados por sua apatia, Alan pediu demissão, vendeu o apartamento e colocou uma mochila nas costas. Ele iria buscar a felicidade no mundo.

Sua primeira parada foi em Ibiza. Durante meses, Alan mergulhou em festas exclusivas, open bars na praia e noites que emendavam em amanheceres dourados. No calor da pista de dança, cercado de música e pessoas eufóricas, ele sentia uma descarga intensa de adrenalina. "É isso!", celebrava. 

Mas, ao acordar no hotel ao meio-dia, com a ressaca e o silêncio do quarto, o vazio retornava idêntico. A euforia da noite anterior parecia uma miragem.

Frustrado com a superficialidade das festas, Alan buscou o oposto. Viajou para um vilarejo isolado nos Alpes Suíços. Alugando um chalé de madeira, cortava a própria lenha e passava os dias caminhando por paisagens cobertas de neve que pareciam pinturas. 

Nos primeiros dias, a paz do isolamento trouxe um alívio enorme. Porém, em três semanas, o silêncio da montanha transformou-se em solidão. A beleza externa já não anestesiava a inquietação que ele carregava na mente. O cenário mudara, mas o observador continuava o mesmo.

Ele seguiu viagem. Buscou a felicidade no voluntariado no Sudeste Asiático, no misticismo na Índia e no luxo de Dubai. Cada nova experiência operava sob o mesmo ciclo: um pico inicial de novidade e entusiasmo, seguido por uma queda rápida de volta ao tédio e à insatisfação. 

Alan percebeu que estava colecionando carimbos no passaporte da mesma forma que antes colecionava objetos, usando estímulos externos para tentar curar uma angústia interna.

Cinco anos depois, com as economias no fim e o corpo cansado de aeroportos, Alan voltou ao Brasil. Sem dinheiro para o centro da cidade, alugou uma casa pequena com um pequeno quintal em um bairro calmo.

No primeiro domingo na casa nova, Alan preparou um café e sentou-se na varanda. O sol da manhã aquecia a grama, e um vento suave balançava as folhas de uma árvore vizinha. Pela primeira vez em meia década, ele não tinha um voo para pegar, um ponto turístico para fotografar ou uma meta para cumprir.

Olhando para trás, Alan revisitou mentalmente as praias de Ibiza, as montanhas suíças e os templos indianos. Percebeu que passara anos correndo atrás de flashes de alegria, momentos fugazes que dependiam exclusivamente de fatores externos para existir. Toda vez que o estímulo sumia, a felicidade desmoronava.

Ali na varanda, sem nenhum luxo ou paisagem extraordinária, Alan sentiu uma paz profunda e inédita se espalhar pelo corpo. Ele percebeu que a felicidade duradoura nunca esteve em um destino geográfico ou em uma experiência específica. Ela dependia unicamente da lente através da qual ele decidia enxergar a própria rotina. A vida boa não era a que tinha os melhores cenários, mas a que era vivida com presença, aceitação e gratidão pelo agora.

Moral: 
As alegrias externas são como fogos de artifício: intensas, mas passageiras. A verdadeira felicidade é uma construção interna e duradoura, gerada pela forma como escolhemos acolher e valorizar a nossa própria existência diária.

Fonte: José Feldman. Alquimia do Tempo.

Paulo Roberto Oliveira Caruso (No lugar errado)


Apavorada, a girafa se vê encurralada por três famintas onças pintadas. Até mesmo um jacaré, feito uma bailarina no gelo, desliza levemente sobre as verdejantes águas do rio Parimé aguardando a futura carcaça que será deixada após o banquete do trio. 

Sim, uma girafa foi parar no extremo norte do Brasil! O animal nem sabe como chegou ali, mas não foi somente devido a suas ultralargas passadas... Num piscar de olhos o herbívoro não está mais na savana, mas num local que definitivamente não é o seu lar. Mal teve tempo de experimentar uns frondejantes galhos de árvores nativas e já está sendo cercada por frios predadores em meio à evapotranspiração amazônica! 

A vista do alto animal africano é privilegiada, o que lhe permite ver não somente os felinos citados como também os fulgurantes olhos do jacaré sobre as águas fluviais, revoadas de jaburus e um denso cardume de piranhas debruçadas à margem direita do aludido rio. Todos esperando o desfecho da situação desfavorável à criatura pernuda...

De repente, para horror da pernuda, os felinos saltam salivando com suas afiadas presas e garras contra ela quando o inesperado novamente ocorre: a girafa desaparece no nada, fazendo o trio cair confuso atrás de uma moita. Todos os carnívoros se põem perplexos ante o que havia e o que não há mais em plena aurora! 

- Júnior, já não te falei para não desenhar nos rascunhos do papai? Ao menos fez a lápis a linda (só que não...) girafona no meio do meu conto amazônico... 

- Dicupa, papá... - balbucia o filhinho, ainda pequenino.

- Desculpo sim, meu anjo. Venha cá pro meu colinho. 

- Olha o cavalinho! Olha o cavalinho! - diz o pai, autor da estória, enquanto, com o guri sentadinho em seu colo, simula os trotes do equino, para gargalhadas do pequenino.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *     
PAULO ROBERTO DE OLIVEIRA CARUSO (1975) é um prolífico escritor, poeta contemporâneo e jurista fluminense, amplamente conhecido nos círculos de literatura independente e academias de letras virtuais e regionais pelo seu impressionante volume de produção textual. Natural do Rio de Janeiro, continua ativo em sua produção intelectual. Conciliando a literatura com uma sólida carreira técnica e jurídica, ele atua em diferentes frentes. Trabalha como servidor público atuando na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É advogado e administrador formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), além de possuir especialização voltada ao Direito do Trabalho e Processo do Trabalho.

A trajetória literária de Paulo Roberto de Oliveira Caruso é marcada por números colossais e forte presença no ambiente digital e acadêmico. Começou a escrever de forma amadora ainda na infância, mas passou a encarar a literatura com foco profissional a partir de 2008. É um dos autores mais prolíficos da internet brasileira, tendo redigido dezenas de milhares de textos ao longo de sua jornada (ultrapassando a marca de 26 mil poemas em suas contagens de catálogo). Embora escreva crônicas, contos e prosas, sua grande especialidade é a poesia estruturada. Ele domina formatos clássicos e complexos como o soneto, a trova, o haicai (ao estilo oriental), o indrisos, a glosa, além de transitar pela poesia livre. É membro e correspondente de uma vasta lista de academias de letras. Já participou de mais de 50 antologias impressas e virtuais.

Seus textos são vistos como uma forte resistência em prol da "verdadeira valorização da literatura", preservando o rigor técnico das rimas e das métricas fixas que muitas vezes se perdem na modernidade. Por publicar massivamente em blogs, sites e espalhar cartazes físicos em universidades como a UERJ e a UFF, sua escrita é vista como democrática, alcançando o leitor comum diretamente no cotidiano. A qualidade técnica de suas construções poéticas rendeu ao autor diversas medalhas, troféus, menções honrosas e títulos de comendador por associações culturais.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia: Recanto das Letras, Portal CEN, Enciclopedia Itaú Cultural, Confraria Brasileira de Letras, etc.

Érico Veríssimo (As mãos de meu filho)


Todos aqueles homens e mulheres ali na plateia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros.
Beethoven. 

Há momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana. O artista está pálido à luz de cálcio. Parece um cadáver. Mas mesmo assim é uma fonte de vida, de melodias, de sugestões — a origem dum mundo misterioso e rico. Fora do círculo luminoso pesa um silêncio grave e parado.

Beethoven lamenta-se. É feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A música parece escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lançou das mais altas regiões da felicidade ao mais profundo abismo da desolação e da dor. Não serei, pois, para ti e para os demais, senão um músico? Será então preciso que busque em mim mesmo o necessário ponto de apoio, porque fora de mim não encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espécie não serviram senão para deixar malferido o meu coração. Pois que assim seja, então! Para ti, pobre Beethoven, não há felicidade no exterior; tudo terás que buscar dentro de ti mesmo. Tão-somente no mundo ideal é que poderás achar a alegria.

Adágio.

O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve parece participar daquela mágoa profunda.

Num dado momento as mãos do artista se imobilizam. Depois caem como duas asas cansadas. Mas de súbito, ágeis e fúteis, começam a brincar no teclado. Um scherzo. A vida é alegre. Vamos sair para o campo, dar a mão às raparigas em flor e dançar com elas ao sol… A melodia, no entanto, é uma superfície leve, que não consegue esconder o desespero que tumultua nas profundezas. Não obstante, o claro jogo continua. A música saltitante se esforça por ser despreocupada e ter alma leve. É uma dança pueril em cima duma sepultura. Mas de repente, as águas represadas rompem todas as barreiras, levam por diante a cortina vaporosa e ilusória, e num estrondo se espraiam numa melodia agitada de desespero. O pianista se transfigura. As suas mãos galopam agitadamente sobre o teclado como brancos cavalos selvagens. Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e para cada uma daquelas pessoas do submundo eles têm uma significação especial, contam uma história diferente.

Quando o artista arranca o último acorde, as luzes se acendem. Por alguns rápidos segundos há como que um hiato, e dir-se-ia que os corações param de bater. Silêncio. Os sub-homens sobem à tona da vida. Desapareceu o mundo mágico e circular formado pela luz do refletor. O pianista está agora voltado para a plateia, sorrindo lividamente, como um ressuscitado. O fantasma de Beethoven foi exorcizado. Rompem os aplausos.

Dentro de alguns momentos torna a apagar-se a luz. Brota de novo o círculo mágico.

Suggestion Diabolique.

D. Margarida tira os sapatos que lhe apertam os pés, machucando os calos.
– Não faz mal. Estou no camarote. Ninguém vê.

Mexe os dedos do pé com delícia. Agora sim, pode ouvir melhor o que ele está tocando, ele, o seu Gilberto. Parece um sonho… Um teatro deste tamanho. Centenas de pessoas finas, bem vestidas, perfumadas, os homens de preto, as mulheres com vestidos decotados — todos parados, mal respirando, dominados pelo seu filho, pelo Betinho!

D. Margarida olha com o rabo dos olhos para o marido. Ali está ele a seu lado, pequeno, encurvado, a calva a reluzir foscamente na sombra, a boca entreaberta, o ar pateta. Como fica ridículo nesse smoking! O pescoço descarnado, dançando dentro do colarinho alto e duro, lembra um palhaço de circo.

D. Margarida esquece o marido e torna a olhar para o filho. Admira-lhe as mãos, aquelas mãos brancas, esguias e ágeis. E como a música que o seu Gilberto toca é difícil demais para ela compreender, sua atenção borboleteia, pousa no teto do teatro, nos camarotes, na cabeça duma senhora lá embaixo (aquele diadema será de brilhantes legítimos?) e depois torna a deter-se no filho. E nos seus pensamentos as mãos compridas do rapaz diminuem, encolhem, e de novo Betinho é um bebê de quatro meses que acaba de fazer uma descoberta maravilhosa: as suas mãos… Deitado no berço, com os dedinhos meio murchos diante dos olhos parados, ele contempla aquela coisa misteriosa, solta gluglus de espanto, mexe os dedos dos pés, com os olhos sempre fitos nas mãos…

De novo D. Margarida volta ao triste passado. Lembra-se daquele horrível quarto que ocupavam no inverno de 1915. Foi naquele ano que o Inocêncio começou a beber. O frio foi a desculpa. Depois, o coitado estava desempregado… Tinha perdido o lugar na fábrica. Andava caminhando à toa o dia inteiro. Más companhias. “Ó Inocêncio, vamos tomar um traguinho?” Lá se iam, entravam no primeiro boteco. E vá cachaça! Ele voltava para casa fazendo um esforço desesperado para não cambalear. Mas mal abria a boca, a gente sentia logo o cheiro de caninha. “Com efeito, Inocêncio! Você andou bebendo outra vez!” Ah, mas ela não se abatia. Tratava o marido como se ele tivesse dez anos e não trinta. Metia-o na cama. Dava-lhe café bem forte sem açúcar, voltava apara a Singer, e ficava pedalando horas e horas. Os galos já estavam cantando quando ela ia deitar, com os rins doloridos, os olhos ardendo. Um dia…

De súbito os sons do piano morrem. A luz se acende. Aplausos. D. Margarida volta ao presente. Ao seu lado Inocêncio bate palmas, sempre de boca aberta, os olhos cheios de lágrimas, pescoço vermelho e pregueado, o ar humilde… Gilberto faz curvaturas para o público, sorri, alisa os cabelos. (“Que lindos cabelos tem o meu filho, queria que a senhora visse, comadre, crespinhos, vai ser um rapagão bonito.)

A escuridão torna a submergir a plateia. A luz fantástica envolve pianista e piano. Algumas notas saltam, como projéteis sonoros.

Navarra.

Embalada pela música (esta sim, a gente entende um pouco), D. Margarida volta ao passado.

Como foram longos e duros aqueles anos de luta! Inocêncio sempre no mau caminho. Gilberto crescendo. E ela pedalando, pedalando, cansando os olhos; a dor nas costas aumentando, Inocêncio arranjava empreguinhos de ordenado pequeno. Mas não tinha constância, não tomava interesse. O diabo do homem era mesmo preguiçoso. O que queria era andar na calaçaria, conversando pelos cafés, contando histórias, mentindo…

— Inocêncio, quando é que tu crias juízo?

O pior era que ela não sabia fazer cenas. Achava até graça naquele homenzinho encurvado, magro, desanimado, que tinha crescido sem jamais deixar de ser criança. No fundo o que ela tinha era pena do marido. Aceitava a sua sina. Trabalhava para sustentar a casa, pensando sempre no futuro de Gilberto. Era por isso que a Singer funcionava dia e noite. Graças a Deus nunca lhe faltava trabalho.
Um dia Inocêncio fez uma proposta:

— Escuta aqui, Margarida. Eu podia te ajudar nas costuras…

— Minha Nossa! Será que tu queres fazer casas ou pregar botões?

— Olha, mulher. (Como ele estava engraçado, com sua cara de fuinha, procurando falar a sério!) Eu podia cobrar as contas e fazer a tua escrita.

Ela desatou a rir. Mas a verdade é que Inocêncio passou a ser o seu cobrador. No primeiro mês a cobrança saiu direitinho. No segundo mês o homem relaxou… No terceiro, bebeu o dinheiro da única conta que conseguira cobrar.

Mas D. Margarida esquece o passado. Tão bonita a música que Gilberto está tocando agora… E como ele se entusiasma! O cabelo lhe cai sobre a testa, os ombros dançam, as mãos dançam… Quem diria que aquele moço ali, pianista famoso, que recebe os aplausos de toda esta gente, doutores, oficiais, capitalistas, políticos… o diabo! — é o mesmo menino da rua da Olaria que andava descalço brincando na água da sarjeta, correndo atrás da banda de música da Brigada Militar…

De novo a luz. As palmas. Gilberto levanta os olhos para o camarote da mãe e lhe faz um sinal breve com a mão, ao passo que seu sorriso se alarga, ganhando um brilho particular. D. Margarida sente-se sufocada de felicidade. Mexe alvoroçadamente com os dedos do pé, puro contentamento. Tem ímpetos de erguer-se no camarote e gritar para o povo: “Vejam, é o meu filho! O Gilberto. O Betinho! Fui eu que lhe dei de mamar! Fui eu que trabalhei na Singer para sustentar a casa, pagar o colégio para ele! Com estas mãos, minha gente. Vejam! Vejam!”

A luz se apaga. E Gilberto passa a contar em terna surdina as mágoas de Chopin.

No fundo do camarote Inocêncio medita. O filho sorriu para a mãe. Só para a mãe. Ele viu… Mas não tem direito de se queixar… O rapaz não lhe deve nada. Como pai ele nada fez. Quando o público aplaude Gilberto, sem saber está aplaudindo também Margarida. Cinquenta por cento das palmas devem vir para ela. Cinquenta ou sessenta? Talvez sessenta. Se não fosse ela, era possível que o rapaz não desse para nada. Foi o pulso de Margarida, a energia de Margarida, a fé de Margarida que fizeram dele um grande pianista.

Na sombra do camarote, Inocêncio sente que ele não pode, não deve participar daquela glória. Foi um mau marido. Um péssimo pai. Viveu na vagabundagem, enquanto a mulher se matava no trabalho. Ah! Mas como ele queria bem ao rapaz, como ele respeitava a mulher! Às vezes, quando voltava para casa, via o filho dormindo. Tinha um ar tão confiado, tão tranquilo, tão puro, que lhe vinha vontade de chorar. Jurava que nunca mais tornaria a beber, prometia a si mesmo emendar-se. Mas qual! Lá vinha um outro dia e ele começava a sentir aquela sede danada, aquela espécie de cócegas na garganta. Ficava com a impressão de que se não tomasse um traguinho era capaz de estourar. E depois havia também os maus companheiros. O Maneca. O José Pinto. O Bebe-Fogo. Convidavam, insistiam… No fim de contas ele não era nenhum santo.

Inocêncio contempla o filho. Gilberto não puxou por ele. A cara do rapaz é bonita, franca, aberta. Puxou pela Margarida. Graças a Deus. Que belas coisas lhe reservará o futuro? Daqui para diante é só subir. A porta da fama é tão difícil, mas uma vez que a gente consegue abri-la… adeus! Amanhã decerto o rapaz vai aos Estados Unidos… É capaz até de ficar por lá… esquecer os pais. Não. Gilberto nunca esquecerá a mãe. O pai, sim… E é bem-feito. O pai nunca teve vergonha. Foi um patife. Um vadio. Um bêbedo.

Lágrimas brotam nos olhos de Inocêncio. Diabo de música triste! O Betinho devia escolher um repertório mais alegre.

No atarantamento da comoção, Inocêncio sente necessidade de dizer alguma coisa. Inclina o corpo para a frente e murmura:

— Margarida…

A mulher volta para ele uma cara séria, de testa enrugada.

— Chit!

Inocêncio recua para a sua sombra. Volta aos seus pensamentos amargos. E torna a chorar de vergonha, lembrando-se do dia em que, já mocinho Gilberto lhe disse aquilo. Ele quer esquecer aquelas palavras, quer afugenta-las, mas elas lhe soam na memória, queimando como fogo, fazendo suas faces e suas orelhas arderem.

Ele tinha chegado bêbedo em casa. Gilberto olhou-o bem nos olhos e disse sem nenhuma piedade:

— Tenho vergonha de ser filho dum bêbedo!

Aquilo lhe doeu. Foi como uma facada, dessas que não só cortam as carnes como também rasgam a alma. Desde esse dia ele nunca mais bebeu.

No saguão do teatro, terminado o concerto, Gilberto recebe cumprimentos dos admiradores. Algumas moças o contemplam deslumbradas. Um senhor gordo e alto, muito bem vestido, diz-lhe com voz profunda:

— Estou impressionado, impressionadíssimo. Sim senhor! Gilberto enlaça a cintura da mãe:

— Reparto com minha mãe os aplausos que eu recebi esta noite… Tudo que sou, devo a ela.

— Não diga isso, Betinho!

D. Margarida cora. Há no grupo um silêncio comovido. Depois rompe de novo a conversa. Novos admiradores chegam.

Inocêncio, de longe, olha as pessoas que cercam o filho e a mulher. Um sentimento aniquilador de inferioridade o esmaga, toma-lhe conta do corpo e do espírito, dando-lhe uma vergonha tão grande como a que sentiria se estivesse nu, completamente nu ali no saguão.

Afasta-se na direção da porta, num desejo de fuga. Sai. Olha a noite, as estrelas, as luzes da praça, a grande estátua, as árvores paradas… Sente uma enorme tristeza. A tristeza desalentada de não poder voltar ao passado… Voltar para se corrigir, para passar a vida a limpo, evitando todos os erros, todas as misérias…

O porteiro do teatro, um mulato de uniforme cáqui, caminha dum lado para outro, sob a marquise.

— Linda noite! — diz Inocêncio, procurando puxar conversa. O outro olha o céu e sacode a cabeça, concordando.

— Linda mesmo.

Pausa curta.

— Não vê que sou o pai do moço do concerto…

— Pai? Do pianista?

O porteiro para, contempla Inocêncio com um ar incrédulo e diz:

— O menino tem os pulsos no lugar. É um bicharedo.

Inocêncio sorri. Sua sensação de inferioridade vai-se evaporando aos poucos.

— Pois imagine como são as coisas — diz ele. — Não sei se o senhor sabe que nós fomos muito pobres… Pois é. Fomos. Roemos um osso duro. A vida tem coisas engraçadas. Um dia… o Betinho tinha seis meses… umas mãozinhas assim deste tamanho… nós botamos ele na nossa cama. Minha mulher dum lado, eu do outro, ele no meio. Fazia um frio de rachar. Pois o senhor sabe o que aconteceu? Eu senti nas minhas costas as mãozinhas do menino e passei a noite impressionado, com medo de quebrar aqueles dedinhos, de esmagar aquelas carninhas. O senhor sabe, quando a gente está nesse dorme-não-dorme, fica o mesmo que tonto, não pensa direito. Eu podia me levantar e ir dormir no sofá. Mas não. Fiquei ali no duro, de olho mal e mal aberto, preocupado com o menino. Passei a noite inteira em claro, com a metade do corpo para fora da cama. Amanheci todo dolorido, cansado, com a cabeça pesada. Veja como são as coisas… Se eu tivesse esmagado as mãos do Betinho hoje ele não estava aí tocando essas músicas difíceis… Não podia ser o artista que é.

Cala-se. Sente agora que pode reclamar para si uma partícula da glória do seu Gilberto. Satisfeito consigo mesmo e com o mundo, começa a assobiar baixinho. O porteiro contempla-o em silêncio. Arrebatado de repente por uma onda de ternura, Inocêncio tira do bolso das calças uma nota amarrotada de cinquenta mil-réis e mete-a na mão do mulato.

— Para tomar um traguinho — cochicha.

E fica, todo excitado, a olhar para as estrelas.
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ÉRICO VERÍSSIMO foi um dos escritores mais importantes e populares da literatura brasileira do século XX, integrando a Segunda Fase do Modernismo (Geração de 30). Ele é amplamente reconhecido por construir a identidade mítica e histórica do Rio Grande do Sul por meio de seus romances. Nasceu em 1905, na cidade de Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul.  Faleceu em 1975, aos 69 anos, em Porto Alegre, vítima de um infarto do miocárdio. Antes de se consolidar como escritor em tempo integral, Érico trabalhou em diversas áreas devido à falência financeira de sua família:  Atuou como balconista de comércio, funcionário de uma seguradora e escriturário no Banco Nacional do Comércio. Foi sócio-gerente de uma farmácia em sua terra natal, negócio que acabou falindo em 1930. Mudou-se para Porto Alegre e trabalhou como tradutor, ilustrador, redator e diretor da Revista do Globo, além de conselheiro da Editora Globo.  Morou nos Estados Unidos na década de 1940 para lecionar literatura brasileira na Universidade de Berkeley. Mais tarde, entre 1953 e 1956, assumiu o cargo de diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana em Washington. A produção literária de Érico Veríssimo é vasta e costuma ser dividida em três fases principais:
– Ciclo de Porto Alegre (Romances Urbanos): Centrado na vida de personagens de classe média na capital gaúcha, focando em dilemas morais, crises familiares e na psicologia humana. O livro Olhai os Lírios do Campo (1938) foi o seu primeiro estrondoso sucesso de vendas nacional.
– Ciclo Histórico (Épico Gaúcho): O ponto mais alto de sua carreira, consagrado pela monumental trilogia O Tempo e o Vento (dividida em O Continente, O Retrato e O Arquipélago). A obra reconta duzentos anos da história do Rio Grande do Sul através das gerações da família Terra Cambará.
– Ciclo Político e Crítica Social: Romances da maturidade, onde o autor tece duras críticas a ditaduras, corrupção e manipulação política. Destaca-se o satírico Incidente em Antares (1971), que usa elementos de realismo mágico para denunciar os abusos do regime militar.

Como suas obras são vistas: 
– Linguagem Acessível e Fluida: O estilo de Érico é elogiado por ser transparente, dinâmico e focado no diálogo, o que garantiu uma conexão profunda com o público e alta vendagem.
– Profundidade Psicológica: A crítica destaca sua imensa capacidade de construir personagens humanizados, complexos e com dilemas éticos marcantes.
– Regionalismo Universal: Érico partia das gírias, costumes e cenários do Rio Grande do Sul para debater temas universais como a guerra, o amor, a ganância e a dignidade humana.
– Grandiosidade Narrativa: É considerado um dos maiores arquitetos da ficção nacional, capaz de orquestrar narrativas longas e repletas de subtramas sem perder o fôlego.
– Legado Familiar: Sua veia literária teve continuidade dentro de casa, sendo ele o pai do também aclamado cronista e escritor Luis Fernando Veríssimo.

Fontes:
Érico Veríssimo. Contos. RJ: Editora Globo, 1983.
Biografia: Wikipedia, Infoescola, etc.