segunda-feira, 18 de maio de 2026

Esclarecimento

 Devido a problemas de saúde não poderei publicar novas postagens, sem tempo determinado para retorno.

Obrigado por navegar em meu blog. São quase 20 mil postagens, desde dezembro de 2007.

Abraços,

José Feldman

domingo, 17 de maio de 2026

Concurso Literário da Estante de Talentos (Prazo: 23 de Junho)


SOBRE O CONCURSO
1ª edição | Narrativas Possíveis
Tema: Histórias que não cabiam em lugar nenhum

Esta antologia reúne histórias que ficaram esquecidas, guardadas em arquivos ou deixadas de lado pelo mercado editorial. Imagine que um arquivista curioso encontra esses textos e percebe que eles não foram ignorados por falta de qualidade, mas porque não seguiam padrões comuns ou não chamavam atenção de forma imediata. São narrativas que escolheram ser fiéis a si mesmas, em vez de buscar aprovação fácil.

Ao longo da leitura, a intenção é que surja uma reflexão importante sobre quem define o que merece ser publicado e valorizado. Quando apenas algumas vozes ganham espaço, muitas outras experiências e visões acabam sendo deixadas de fora.

Os textos funcionam como um reflexo da forma como a sociedade seleciona e descarta, e também como uma abertura para pensamentos mais profundos, cheios de conflitos e questões sem respostas simples. São as mais variadas histórias que encontram aqui a chance de existir, crescer e alcançar o leitor.


EDITAL
Regulamento Geral de Concursos Literários

ATENÇÃO:
Todas as regras precisam ser seguidas à risca, caso contrário, sua participação será cancelada.

Leia o regulamento quantas vezes for necessário.

Nota: Este regulamento é padrão para todos os concursos. As especificidades de cada concurso estarão discriminadas na descrição do mesmo.

1 – Participantes

1.1 – O concurso destina-se a escritores de língua portuguesa, sendo aberto tanto a escritores iniciantes quanto a autores já publicados anteriormente. Os participantes devem ser residentes no Brasil e maiores de 18 (dezoito) anos. Não será admitida a participação de menores de idade, mesmo com autorização dos responsáveis legais. Em caso de descumprimento, o autor será desclassificado no momento da assinatura do contrato.

1.2 – A inscrição é GRATUITA. Nenhum valor será cobrado dos candidatos para participação no concurso, nem para a posterior publicação do livro. 

1.3 – A Estante de Talentos reserva-se o direito de indicar alterações visando à melhoria dos textos selecionados, sempre que julgar necessário. Os textos selecionados somente serão publicados caso estejam dentro dos padrões e diretrizes editoriais da editora.

1.4 – Todos os participantes devem acompanhar os comunicados oficiais do concurso exclusivamente pelo e-mail cadastrado no momento da inscrição. Após a confirmação da inscrição, todas as informações serão enviadas por e-mail, não sendo necessário o envio de contatos adicionais para acompanhamento do andamento do concurso.

2 – Orientações

2.1 – Os textos inscritos devem ser INÉDITOS em sua totalidade, ou seja, não podem ter sido
publicados anteriormente de nenhuma forma — seja em formato digital (blogs, plataformas de leitura, redes sociais, sites pessoais, Wattpad, Amazon ou qualquer outra mídia online) ou em formato impresso (revistas, jornais, livros, fanzines etc.). O texto deve ser original e nunca divulgado publicamente em nenhum meio ou suporte.

2.2 – Editores, organizadores, tradutores ou quaisquer outros colaboradores da editora, bem como autores convidados, poderão participar do concurso enviando seus textos.

2.3 – Os textos deverão ser encaminhados exclusivamente por meio do formulário disponível no site https://estantedetalentos.com.br

2.4 – O arquivo a ser enviado deve seguir obrigatoriamente as seguintes especificações:

• Formato: Word (.docx) — PDF não será aceito;
• Tamanho de página: A4;
• Espaçamento entre linhas: 1,5;
• Fonte: Arial, tamanho 11;
• Margens: superior e esquerda com 3 cm; inferior e direita com 2 cm;
• O nome do arquivo deve conter apenas o título do texto. Ex.: "Nome do texto.docx";
• O texto não poderá conter o nome do autor, pois os trabalhos serão avaliados de forma
anônima;
• O texto deve ter no mínimo 2 (duas) páginas completas e no máximo 3 (três) páginas;
• Evite diálogos e/ou frases em outros idiomas. Caso necessário, inclua tradução em nota de
rodapé;
• O texto não pode conter imagens.

2.5 – Cada autor poderá participar com apenas um texto.

2.6 – O texto deve ser integralmente de autoria do participante e não pode ser versão de texto já criado anteriormente, mesmo que inédito em publicações. Deve ser uma obra original.

2.7 – Não serão aceitos textos que contenham conteúdo pejorativo, discriminatório ou que incitem ódio e preconceito. Salvo indicação prévia na descrição do concurso, também não serão aceitos textos com conteúdo sexual, referências a drogas ou condutas ilícitas. O descumprimento desta norma resultará na desclassificação do texto.

2.8 – Não serão aceitos textos em coautoria.

2.9 – Evite notas desnecessárias. Em hipótese alguma inclua dedicatórias no corpo do texto.

3 – Publicação

3.1 – Caberá exclusivamente à Editora Estante de Talentos definir a arte de capa e o estilo de
diagramação do livro.

3.2 – Será realizado um financiamento coletivo (crowdfunding) para que a obra seja publicada nos formatos impresso e digital.

3.3 – Caso o financiamento coletivo atinja a meta necessária para publicação, o livro estará disponível no catálogo da editora.

3.4 – Os autores não são obrigados a contribuir financeiramente com o crowdfunding, mas é de
grande importância a divulgação da campanha para que a meta seja atingida e a publicação da obra seja viabilizada. Será disponibilizado material de divulgação digital.

3.5 – Será realizado um único registro ISBN contemplando todos os textos do livro.

3.6 – A participação do autor selecionado somente será confirmada após o recebimento dos contratos devidamente assinados.

4 – Direitos Autorais

4.1 – Caso o financiamento coletivo atinja a meta necessária para publicação, cada autor receberá direitos autorais (royalties) sobre as vendas futuras do livro impresso, conforme estipulado em contrato. Os percentuais serão definidos de acordo com cada obra, tendo em vista a quantidade de autores participantes. Situações específicas serão comunicadas na chamada do concurso ou no momento da assinatura do contrato.

4.2 – Todo autor selecionado receberá 10 (dez) exemplares impressos da obra, 1 (um) exemplar digital em formato PDF (eBook) e o Certificado de Registro de Direitos Autorais (CBL), após a publicação bem-sucedida mediante o atingimento da meta do financiamento coletivo.

4.3 – Todo autor, da obra publicada, poderá adquirir exemplares adicionais com desconto (conforme disponibilidade de estoque), arcando com os custos de frete, para comercialização conforme sua conveniência.

4.4 – Os exemplares vendidos aos autores da obra com desconto serão contabilizados na base oficial de vendas da editora; no entanto, por serem comercializados com valor reduzido, não gerarão participação no pagamento de direitos autorais.

5 – Seleção e Resultados

5.1 – O conselho editorial da Estante de Talentos será responsável pela leitura de todos os textos inscritos e pela seleção dos preferíveis para publicação.

5.2 – O resultado será divulgado nas redes sociais da Estante de Talentos, nos siga!

5.3 – Por e-mail, serão disponibilizadas informações sobre o andamento do processo e orientações adicionais para a etapa de publicação.

DISPOSIÇÕES IMPORTANTES

Ao ter seu texto selecionado, o autor cederá à Estante de Talentos o direito de publicar seu texto na obra resultante desta chamada, em formato digital e impresso, com exclusividade pelo prazo de 3 (três) anos, contados a partir da data de assinatura do contrato.

A cessão do direito de publicação se estende a todos os meios e mídias direta ou indiretamente vinculados à Estante de Talentos, para fins exclusivos de divulgação da obra resultante desta chamada.

Durante o prazo de exclusividade de 3 (três) anos, o autor não poderá publicar nem autorizar terceiros a publicar o texto por quaisquer outros meios — incluindo plataformas digitais como Wattpad, Amazon, blogs ou similares —, salvo para fins de divulgação da antologia resultante desta chamada.

A comercialização será exclusiva da Estante de Talentos durante o período de exclusividade. Após esse prazo, pode-se renovar o contrato caso haja interesse de ambas as partes, o autor fica livre para utilizar e reproduzir o texto como desejar, em projetos pessoais ou outras obras.

Ao aceitar participar do concurso, o autor se compromete a integrar o livro final. Caso necessite desistir, que o faça antes da assinatura do contrato, evitando a quebra contratual. O mesmo vale para textos com pendências de direitos. Certifique-se de que o texto está apto antes do envio. A seleção dos textos considera não apenas a qualidade literária, mas também a adequação à linha editorial que a editora deseja para a obra. A não seleção de um texto não implica necessariamente que ele precise ser melhorado — pode simplesmente não se encaixar na proposta do projeto. Não serão enviados pareceres individuais sobre textos não selecionados.

Os textos selecionados passarão por revisão e preparação para adequação às normas gramaticais e editoriais, podendo sofrer alterações sem que seu conteúdo seja modificado. Caso algum trecho precise ser adaptado para estar em conformidade com as diretrizes da editora, o autor será comunicado. A recusa em realizar as adaptações solicitadas poderá resultar na desclassificação do texto, mesmo após a seleção.

Em casos de desclassificação após a divulgação do resultado, novos autores serão convocados conforme a ordem de classificação no concurso, respeitando uma lista de espera previamente definida.

Após o envio do texto, a confirmação de recebimento será exibida na própria página do formulário. 

Não será enviado e-mail de confirmação, e questionamentos individuais sobre o recebimento não serão respondidos.

A editora reserva-se o direito de alterar este regulamento sempre que julgar necessário, para mantê-lo atualizado com suas políticas, diretrizes e as demandas do mercado.

Última atualização: 09/05/2026

Ao submeter seu texto pelo formulário do site, você declara que leu e está de acordo com todos os termos deste regulamento.

Fonte:
Enviado pela Estante de Talentos.

JFeldman ( O Mundo sob as unhas de terra)

Crônica tendo por base a trova de Eduardo A. O. Toledo (Pouso Alegre/MG)
Quem dera se o povo inteiro
num gesto de amor profundo,
fosse apenas jardineiro
plantando rosas no mundo!

A trova que ecoa esse desejo singelo — a humanidade trocando armas e pressas por pás e sementes — carrega uma utopia que não cheira a papel, mas a terra molhada. Se o povo inteiro decidisse, em um levante silencioso, tornar-se jardineiro, a primeira coisa que desmoronaria seria a nossa arrogância.

Ser jardineiro é, antes de tudo, aprender a gramática da paciência. No jardim, nada é para "ontem". O botão da rosa não acelera o passo porque o mundo está em crise; ele exige o tempo justo do sol e a dose exata do cuidado. Se fôssemos todos cuidadores de canteiros, talvez as guerras cessassem por um motivo muito prático: quem tem uma roseira para podar e uma muda para proteger não tem as mãos livres para carregar o ódio.

O gesto de plantar uma rosa no mundo é um ato de rebeldia contra o cinza do asfalto e a frieza dos algoritmos. Imagine o cenário: o político que, antes de discursar, precisasse retirar os matos secos do caminho; o vizinho que, em vez de erguer muros de concreto, plantasse cercas vivas de perfume. A política do jardim é a política da vida. Nela, o sucesso não é medido pelo que se acumula, mas pelo que se faz florescer no espaço que é de todos.

No entanto, ser jardineiro do mundo exige um "amor profundo", como diz o verso. Não é um passatempo de domingo, mas um compromisso de alma. É entender que a rosa que eu planto na minha calçada é o perfume que o vento levará para a sua janela. É a percepção de que o planeta não é um almoxarifado de recursos, mas um solo sagrado que pede cuidado constante sob as nossas unhas.

Se trocássemos o ego pelo adubo, descobriríamos que a beleza é a única riqueza que aumenta quando é dividida. Enquanto esse dia não chega, resta a cada um de nós cuidar do pequeno quadrado de terra que o destino nos deu. Porque, no fundo, todo mundo que sorri para uma flor já começou, sem saber, a sua revolução.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
JFELDMAN (JOSÉ FELDMAN) (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Marechal das Letras, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal).  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
JFeldman. Caleidoscópio da Vida. vol. 2. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por JFeldman com IA Microsoft Bing

Iara Tonidandel (A Melhor Estação)


Os dias frios do inverno acenam lentamente em sinal de despedida, desejando-me: "Cuide-se... até o próximo ano!" Em pensamento, retribuo o gesto, pedindo aos céus que as três próximas estações desacelerem os relógios, retardando o desnudamento das árvores, o branco que reveste as campinas e, principalmente, o retorno de chuvas com ventos avassaladores que fazem com que eu passe dias a observar o mundo pelos vidros embaçados e lacrimejantes das janelas de minha casa.

Ela será a primeira a instalar o período de cores e calor pelos ares que respiro. Sim, a primavera é o portal que, ao abrir-se, levará meu olhar a admirar o jardim que estará a florir em breve. Mas flores em canteiros e pergolados não acontecem ao acaso, certo? Aprendi com minha mãe que há várias questões a serem atendidas até que os perfumes exalados por elas transformem em puro êxtase nossos dias e noites. E esses atendimentos antecedem a chegada dessa estação do ano.

Desenhe um contorno de jardim que fará você dançar ao percorrê-lo e, de acordo com o sentido que seus pés tomarem, o ritmo da música poderá variar. Assim, a monotonia de um cotidiano dificilmente se instalará, tornando seu jardim o palco de uma coleção de melodias a serem bailadas.

Arejar e adubar a terra é essencial, tal como manter e renovar os livros de nossas bibliotecas. Pesquise e descubra manejos, produtos e equipamentos inovadores, mantendo os clássicos cuidados já testados e, comprovadamente, eficientes e eficazes. Assim como alimentar nossas ideias com aprendizados nos conduz à ampliação de conhecimento, remexer a terra cria espaços que serão fertilizados por bactérias, fungos e pelo húmus produzido por minhocas que nela, ao se instalarem, se multiplicam.

Escolher quais as plantas e flores a serem cultivadas é um ponto-chave em qualquer instalação de jardim. Quase tão essencial quanto a definição da lista de convidados de uma festa e a disposição destes nas mesas. Na lista, observe se as plantas e flores selecionadas estão presentes em sua região, considerando os aspectos climáticos. Importante avaliar as tensões existentes entre cada uma delas ao dispô-las no ambiente, promovendo harmonia e equilíbrio entre as diferenças que as caracterizam. Defina o local em que o jardim deverá apresentar maior exuberância, para ali plantar as mais próximas de seu gosto pessoal e de sua essência.

O plantio é um momento de apogeu. Luminoso! Veste-se de roupa de festa, sendo regido por uma orquestra sinfônica que apresenta desde os clássicos até os mais irreverentes ritmos, com acompanhamento de variados trinados e penas coloridas. Toque na terra e sinta a energia que dela emana. Saboreie-a como quem degusta um prato do chef mais famoso do planeta.

No transcorrer dos meses em que as flores brotarem, abrindo suas pétalas e folhas em resposta ao piscar dos olhos solares, enfeitando as noites abrilhantadas pela deusa lunar, lembre-se de, cuidadosamente, retirar o inço que ali aparecer. O inço pode ser comparado com aquele que inveja tudo que é belo e busca, de forma sorrateira ou não, ofuscar o que faz bem aos olhos e ao coração. Retirá-lo é trabalho constante, tipo orar antes do adormecer ou reafirmar seu amor ao ente amado.

Finalmente, no transcorrer do novo inverno, a poda. Podar não é cortar. O corte pode eliminar uma planta. A poda, longe de ser um ato que promove a dor, é ação que brinda à renovação, ao renascer, favorecendo a florescência e o crescimento. É como dar limites às crianças e jovens, sem desrespeitá-los.

Lembrando a voz de minha mãe: um jardim não é um conjunto de plantas e flores, mas sim a soma dos sentimentos e emoções de quem o constrói. Jardim não se olha. Jardim se sente, se admira.

Na primavera, reflito sobre meu jardim e as possibilidades que ele me oportuniza.

Fontes:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera
Imagem criada por JFeldman com IA Microsoft Bing  

Germán Aguirrezabala (O Ciclo das Palavras)

(Tradução do castelhano por JFeldman)

Quando as palavras se tornam cansativas, uma nuvem escura se instala na mente dos seres humanos, e começa a chuva que conduzem às transgressões. Então, o sol surge, e as palavras timidamente abandonam as profundezas de suas cavernas para relatar as coisas que as deixaram mudas. Lágrimas fluem e evaporam, transformando-se nas histórias que acendem as velas da nossa imaginação. No início, as palavras são consideradas diferentes da realidade, oferecendo-lhe um descanso; depois, tornam-se indistinguíveis da verdade... e nos cansam.

Fontes:
UyPress - Agencia Uruguaya de Noticias
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Chafariz de Trovas 2


1
O sorriso é qual se fosse 
uma prece enternecida. 
É o modo mais belo e doce 
de dizer: "Eu amo a vida!”
A. A. DE ASSIS 
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2
Existe alguma verdade
dentro de cada mentira.
Sonho não é realidade
mas na verdade se inspira.
ABÍLIO KAC 
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3
Empina a pipa, garoto,
enquanto o sol não descamba;
pois neste mundo maroto,
estamos na corda bamba.
ADAMO PASQUARELLI
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4
Desde os tempos de Noé
o mundo pôs-se a saber,
que a manga só cai do pé,
porque não sabe descer.
ADEMAR MACEDO
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5
Estendam as mãos, amigos,
mantendo o mundo seguro.
Dos jovens e dos antigos
depende o nosso futuro!
AGOSTINHO RODRIGUES
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6
Vi num jornal estampado
o perigo que há no beijo.
Antes ser contaminado
do que morrer de desejo!
ALYDIO C. DA SILVA 
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7
Seja pedra no caminho
ou corrente que nos prende,
quem avança de mansinho
se liberta e não se rende.
ANTONIO CABRAL FILHO
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8
Eu abri a porta errada
e caí numa arapuca:
em vez da noiva pelada,
vi a sogra sem peruca.
ANTÔNIO FRANCISCO PEREIRA 
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9
Na tristeza que me invade,
de uma paixão extinguida...
Sou montanha de saudade
na cordilheira da vida!
ARMINDO DOS SANTOS TEODÓSIO 
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10
Sofrer, chorar e morrer
eis o dilema ou questão:
sorrir, brincar e viver,
cabe a ti, a decisão.
ARTEMIZA CORREIA 
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11
Pobre louco apaixonado,
ai de mim! que não mais via,
que seu amor, pouco a pouco,
esfriava dia a dia.
AUTOR ANÔNIMO 
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12
De lágrimas encenadas,
teu falso choro, infecundo,
são águas que decantadas,
mostram que há lama no fundo...
CEZAR AUGUSTO DEFILIPPO 
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13
Contra o perigo atual
já não há quem se previna
porque, do gênio do mal,
há um clone em cada esquina!
CLARINDO BATISTA DE ARAÚJO 
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14
Doutor - peço que me ajude
nesta dúvida inclemente:
Se isto é Casa de Saúde,
como pode ter doente?!...
COLBERT RANGEL COELHO 
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15
Já fui comilão outrora!
Hoje, ao lembrar-me, acho graça:
vontade ainda tenho agora,
mas, como vem, logo passa!!!
DALMIR PENA
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16
Quando alguns sonhos perdidos
acharam chegado ao fim,
você, em muitos sentidos,
deu novo sentido a mim.
DODORA GALINARI 
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17
Deslizando em mar suave
ou revolto, em desatino,
não tem âncora que trave
a jangada do destino.
DULCÍDIO DE BARROS M. SOBRINHO 
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18
Manhã... O sol vem nascendo...
E na montanha orvalhada,
vejo os seus raios varrendo
os restos da madrugada!...
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
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19
Sou uma roça enflorada
quando ao sol de teu olhar,
me amanheço em alvorada
com meus sonhos a espigar!
EDNA VALENTE FERRACINI
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20
Metade dos nossos ais
são das decisões que tens!...
Queres voltar quando vais;
queres partir quando vens!…
EDY SOARES 
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21
Às vezes aborrecida 
mas sorrindo a desventura... 
Mulher continua a lida 
com muito amor e ternura !
ELISA ALDERANI
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22
A vida é uma mesa posta
com diversas iguarias;
se de amargores não gosta,
ponha doçura em seus dias.
ELISABETE DO AMARAL AGUIAR
Portugal 
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23
Na verdade, quando se ama,
o amor, transcende a razão
e infinito... acende a chama...
que enclausura um coração.
FABIANO DE CRISTO MAGALHÃES 
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24
Se eu cultivar a alegria 
praticando o bem querer, 
terei no meu dia a dia 
mais coragem de viver!
HENRIETTE EFFENBERGER 
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25
O cansaço… a consumindo…
numa cadeira, ela escora…
Levanta o guri sorrindo:
- Eu guardei para a Senhora!…
JANETE DE AZEVEDO GUERRA
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26
Deus! Que beleza me deste!
- Penso que ela é toda minha -
mas no espaço azul celeste,
sou só uma nuvenzinha.
JANSKE NIEMANN
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27
Se o fracasso tem dois lados,
vale muito a decisão:
chorar os planos frustrados
ou bendizer a lição.
JÉRSON LIMA DE BRITO 
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28
Mãos erguidas, força unida,
no simbolismo que encerra:
a conservação da vida,
na preservação da Terra.
JESSÉ NASCIMENTO
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29
Trova!… Da alma és alimento,
és um sonho de criança,
és a vida em seu alento,
és toda nossa esperança.
JOSÉ FELDMAN
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30
Asqueroso é o avarento
que, de si, nada consome;
à família é rabugento,
por dinheiro, unha de fome.
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
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31
Para exercer liderança,
não basta a capacidade;
é preciso impor confiança
e respeito, sem vaidade!
LEONILDA YVONETTI SPINA 
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32
Este mundo gira, gira!
Gira tanto, tão veloz!
Ele gira ou é mentira?
Pois quem gira, somos nós!
LISETE JOHNSON 
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33
Decisão precipitada
nos traz em algum momento,
glória da sorte lançada
ou grande arrependimento.
LUCÉLIA SANTOS 
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34
Que o sorrir mais se amplifique 
e que haja menos tristeza... 
Bondade se multiplique 
e o pão se divida à mesa!
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI 
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35
Olhando o tempo passar,
no relógio da memória,
eu senti coisa invulgar,
pois revivi nossa história!
LUIZ CARLOS ABRITTA 
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36
Somos dois gritos calados
vivendo um sonho inaudito...
E como seres alados
voando para o infinito.
LUIZ GONZAGA DA SILVA 
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37
Não sei se foi teu sorriso 
e, ainda hoje, eu não sei... 
mas se existe um paraíso 
em teu sorriso o encontrei!
MARIA LÚCIA DALOCE 
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38
A pessoa, quando mente,
age qual rio infecundo
que, à tona, flui transparente
e esconde a lama no fundo...
MARÍLIA OLIVEIRA 
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39
Descobri, pela janela
das horas de minha vida,
que o futuro é uma aquarela
ainda a ser colorida.
MÁRIO A. J. ZAMATARO
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40
No rastro dos desenganos,
registrei bem na memória,
que os erros mudam os planos
mas jamais mudam a história.
MESSIAS DA ROCHA
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41
No oceano da vivência,
sentimentos e emoções,
veem na âncora a prudência
com marolas, turbilhões.
NADJA CRISTINA LENZI GADOTTI 
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42
O rostinho amarelado
encostado ao mostruário
cobiçava o tão sonhado
presente. Triste cenário!
NEMÉSIO PRATA
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43
Num reverso de aprendiz,
eu sigo vivendo em vão.
Nada guardei do que fiz,
esqueci toda a lição.
OLY CESAR WOLF 
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44
Um abraço jamais se esquece
pelo bem que ele nos faz!
Quanto mais forte, mais cresce,
num simbolismo de paz!
PROFESSOR GARCIA
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45
Num impulso de momento,
decisões, no dia a dia, 
são reféns do sentimento,
orquestrando a travessia.
RELVA DO EGYPTO R. SILVEIRA 
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46
Desato o nó da lembrança
e um facho de luz sem fim
me traz de volta a criança
que o tempo levou de mim!
RITA M. MOURÃO
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47
A brisa beija a roseira
e ao compasso das retretas,
a praça se envolve inteira
na festa das borboletas!
SELMA PATTI SPINELLI 
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48
Uma luz aconchegante 
faz na noite moradia 
e nesta paz radiante, 
avulta-se a estrela-guia! 
SOLANGE COLOMBARA 
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49
A montanha neblinada,
quando foge à nossa vista,
é a natureza enciumada
que esconde o quadro do artista.
THARCÍLIO GOMES DE MACEDO
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50
A antiga paixão fenece...
e mesmo juntos e a sós,
eu sinto como se houvesse
uma parede entre nós!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
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Camilo Castelo Branco (Uma paixão bem empregada)


O meu amigo Valadares, em uma tarde formosa, passeando comigo no Penedo da Saudade, sentou-se, acendeu um cigarro com perfeição acadêmica, abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um ano antes, me recitara em Alpedrinha.

— Lembras-te? — disse ele.

— Perfeitamente. Prometeste contar-me então uma história.

— Vou cumprir a promessa.

— E disseste que o teu conto prendia muito com aquela casa.

— Disse, e vais ver porque. Olha que eu não vou fazer estilo. Prepara-te para uma narração simples, e clara. Não pertenço à escola dos nossos lapidários de palavras, que nos dizem em estilo de Corneille as cenas cômicas de Moliere. A minha história, se tal nome lhe cabe, é uma tragédia com muitas cenas de farsa. Ainda que me não vejas rir, tens a liberdade da gargalhada. Ai vai:

“Em 1843 fui a feira do Santo Antônio a Vila-Real. Encontrei ai uma família que mora uma légua distante de minha casa. Compunha-se de uma senhora idosa, que era mãe de um cavalheiro, e este cavalheiro era pai de uma bonita mulher, que teria dezoito anos. Gostei dela, ou antes confirmei a simpatia que ela me tinha presa desde que a vi, pela primeira vez, dois anos antes, numas férias grandes. Não lhe disse quase nada. Eu era rapaz de dezoito anos, e aos dezoito anos, um moço de aldeia tem o coração acanhado, e cora facilmente, quando encontra os olhos de uma mulher, suposto que os veja constantemente em sonhos. A rapariga chamava-se Miquelina; isto não faz ao caso; mas sempre te digo que nunca supus poder pronunciar este nome sem lágrimas... O que é o tempo!…

“Combinamos partir juntos de Vila-Real. Não recordo na minha vida um dia mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade animava-me a dizer algumas palavras daquelas que nunca exprimem senão a sombra do sentimento. Miquelina corava, mas nem por isso sustinha as rédeas do cavalo para esperar a avó e o pai, que vinham alguns passos distantes. Teríamos andado légua e meia, quando o macho em que vinha montada a velha tomou susto de um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos.

“Encontramos-lhe uma fratura profunda na cabeça, e uma perna quebrada. Perguntamos se dali perto haveria uma casa onde nos recolhessemos. Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre onde me encontras-te. O acolhimento que nos deram foi excelente. Encontrei ai o irmão do abade que era meu contemporâneo em Coimbra. Os facultativos disseram que era impossível continuar jornada, e aí ficamos vinte dias.

“Neste espaço de tempo, sonhei a felicidade, por que hoje sei que não existe a realidade desses sonhos. Fui muito feliz, senti-me poeta, idealizei a sombra de Miquelina coisas e pessoas que nunca tiveram senão matéria vilíssima para as aspirações do poeta. Enfim, meu caro, cheguei a recuperar a fé perdida nas coisas da Providência, porque me parecia impossível tanta felicidade sem consentimento especial da Providência.

“Disse a Miquelina tudo que humanamente pode dizer-se. Traduzi-lhe em palavras os êxtases, que as não tinham. Interessei-a na compreensão da minha alma, e arranquei-lhe uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos lábios, como queimada pelo ardor do pejo. Quando ela me disse “amo-o” se não endoideci de contentamento, e porque a disposição do meu cérebro é invulnerável aos golpes da demência. Hoje rio-me disto, e tu, se te não ris, agouro-te que não poderás dizer o mesmo a respeito da tua cabeça, passados alguns anos.”

— Por que? 

— Porque das duas uma: ou doido, ou cínico. Tomar a sério a sociedade e endoidecer. Viver com ela em boa paz e escarnece-la. Ou doido ou cínico. Não enlouqueci; mas depravei-me. Este escárnio, que indistintamente volto a tudo, e a negação da piedade para todas as dores nobres, e a do ódio para todos os prazeres infames. Não me espanta nada. Aperto a mão do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma graça. Recebo todos os desaforos como fatos consumados. Não dou dez réis pela virtude dos missionários do Japão, nem daria cinco de volta se eles me trocassem a sua fé pela minha ilustrada impiedade. Eu e eles somos bons, ou maus: como quiserem. Eu acho que todos somos excelentes filhos de Deus, e Deus, que nos conserva, la sabe a razão porque o faz...

— Tu não sentes o que dizes...

— Estás a brincar comigo!... Pois não sinto o que digo?! Tu não vês o que está dentro deste homem, nem podes ainda ajustar a face do cadáver a máscara que o retrate...

— Mas é possível ser-se o que tu és?!

— Se é!... Se me não tivesses interrompido, já sabias a razão porque o sou... Nada de interrupções... Se começo a divagar, digo diabruras, perco-me em abstrações, que te hão de parecer pretensiosas, e lá vai a história...

— Palavra, que não te interrompo...

— Quando saímos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina eram já suspeitas ao pai, que não se entremetia paternalmente no negócio. Sabes que eu tenho uma sofrível casa, e Miquelina não era muito mais rica. Era possível, e até vantajoso um casamento. Murmurou-se neste assunto em casa do padre, e eu fui consultado por ele.

“Isto arrefeceu-me um pouco. Não queria que me viessem tão cedo direitos ao materialismo. A pequena, porém, não tinha culpa. Eram coisas da velha, que quebrara a perna, mas ficara com a alma inteira para seguir o caminho reto, a lógica implacável do namoro, banhos, casamento, filhos, aborrecimento, barrete de dormir, catarro, cangalhas no nariz, e reumatismo.

“Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do oficioso abade, respondi que me casaria um ano depois, porque não queria dar tal passo sem o consentimento de um tio, que fora receber ao Brasil uma herança, que viria aumentar consideravelmente a minha casa. Ficamos nisto. Três vezes por semana, durante os dois meses de férias, visitei Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixão não era das que fogem quanto mais fáceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de coração, ajuizada de cabeça, fina de espirito, e enquanto a cara, ao corpo, e ao donaire... dir-te-ei que as seduções eram tantas, e tão a propósito que nunca tive ocasião de me sentir de uma ilusão desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi patética. Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao coração com o entusiasmo do primeiro abraço. Recebi da sua mão trêmula, como prenda, o lenço com que enxugara as lágrimas, e retirei-me com o coração partido, mas vaidoso de esperanças, que a saudade me dourava no meu lindo futuro.

“Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram vinte folhas de papel, escritas em todas as estalagens onde pernoitei, e fechadas com uma espécie de hino de lágrimas, em que se me foi tudo o que a minha alma podia dar de superior aquilo que todos os homens sabem dizer numa carta de namoro.

“Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram verdadeiros... pareciam-no... via-se ali a mulher que escreve a primeira carta, o coração tímido que balbucia os sons de uma selvagem inocência, que e a felicidade do homem que primeiro os tira do coração de uma virgem.

“Três meses assim, três meses de uma vida fantástica. Ânsias insaciáveis das suas cartas. Tristezas doces quando me faltavam num correio. Zangas sem ódio, se o coração de tão longe a criminava de ingrata... três meses assim... e no fim de três meses... adivinha o que aconteceu...

— Eu sei cá... morreu?

— Não.

— Veio cá ter contigo?

— Não.

— Abandonou-te?

— Abandonou.

— Isso é incrível!

— Acredita. Agora adivinha por quem eu fui preferido.

— Eu só te conheço na tua terra...

— Imaginas que algum dandi a requestou de modo que a frágil criatura sucumbiu as seduções invencíveis?

— Só assim.

— Ora adeus! Tu não adivinhas, porque não sabes nada de mulheres...

— Foi o pai que a forçou a casar-se com algum brasileiro muito rico?...

— Também não...

— Diz lá isso, que estou impaciente...

— Pois lá vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que corava se o meu hálito lhe roçava nas faces, a minha pudibunda Virginia que recebeu o meu primeiro beijo a tremer, a minha mimosa sensitiva que parecia ressequir-se a míngua dos meus carinhos... sempre queres que te diga?

— Pois então?

— A minha prometida esposa... fugiu com um... digo?

— Acaba, homem!

— Com um lacaio da casa!... Olá! Não fiques assim atordoado! Ri-te, como eu...

— Isto e inconcebível!... E depois?

— Depois... que queres que eu te diga?

— Que fim teve essa mulher?

— Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabuzado sumariamente para não dar que fazer à justiça.

— E ela... vive?

— Creio que sim.

— Na companhia da família?

— Não... Tu não me disseste que virás no Porto... Fiquemos aqui...

— Isso de modo nenhum... Hás de concluir...

— Pois sim... que importa!... Não me disseste que viste no Porto uma meretriz que revelava uma boa educação, e não queria dizer donde era, nem como viera aquela vida?...

— Disse... mas não se chamava Miquelina...

— Isso não faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina, é a mesma... e a minha prometida esposa, e o anjo dos meus primeiros amores, e a pomba alvíssima da inocência que encontrei em Alpedrinha... É ela... Basta... É noite... Vou fazer monte, e depois, se te quiseres embriagar comigo, vamos ao Paço do Conde, e beberemos à saúde da excelentíssima Miquelina Alpoim e Malafaia, vítima de uma paixão pelo infeliz lacaio, que desceu ao túmulo... das ilustres vítimas. Já sabes como se faz um cínico? A esses parvos, que por ai andam a gaguejar um ceticismo que cheira a cueiros, dá-lhe com uma palmatoria.

E não tornou a falar-me nesta mulher.

Fontes:
Camilo Castelo Branco. Cenas contemporâneas. Publicado originalmente em 1862.
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