domingo, 25 de outubro de 2026

Olivaldo Júnior (Semeando Trovas)

 


1
A mentira mais sincera
sempre peca pelo excesso:
agradar a quem espera
que essa vida é só sucesso.
2
Ante os "beijos do cinema",
o casal enfim se rende;
todos sabem que esse tema
facilita um "happy end".
3
Ao clarão da tarde quente,
te abandono e tenho medo:
quando chove só na gente,
nasce a lágrima em segredo.
4
Ao tentar ser mais feliz,
disse adeus à solidão;
mas nenhum amigo quis
animar-me um violão...
5
Ao tomar de um violão,
tomo o bonde da esperança;
no abandono da estação,
estaciono em mim criança.
6
As palavras caem frouxas
no terreno dos ouvidos;
as imagens são as trouxas
nestes ombros doloridos.
7
Cada história dessa vida,
no arvoredo de uma voz
que se fez de adormecida,
só renova a Elis em nós.
 (Pelo Aniversário de Elis Regina)
8
Cada lágrima guardada
guarda, sim, o coração:
fica sempre represada,
entre a voz e um violão.
9
Calendário da mentira
tem seu próprio movimento,
mas o povo que se vira
vira o jogo e muda o vento.
10
Cansadíssimo de tudo,
dou adeus à Boa Sorte,
calo a boca, fico mudo,
mas te amo até a morte.
11
Canto triste, na ribeira,
denuncia o poetinha
que se dera à cordilheira,
poesia que ele tinha.
12
Carrilhões, barulho santo,
como a música em João
Pernambuco, doce espanto
que nos dói no coração.
13
Castro Alves, bom poeta,
como um grande cantador,
conquistou a nobre meta
de expurgar do negro a dor.
14
Coração de mentiroso
sempre tem um bom motivo 
para achar maravilhoso
ser do próximo o mais "vivo". 
15
Coração de namorado
bate as horas como o sino,
avisando que é chegado
novo amor ao seu destino.
16
Coração que diz “Adeus”
bate fraco e sem barulho;
queira logo, nosso Deus,
eu me livre desse orgulho.
17
“Devagar, se vai ao longe”,
diz o povo em seu adágio;
seu adeus me fez o monge
da “saudade sem pedágio”.
18
Entre campos e cidades,
esta máxima conduz:
as mentiras são verdades
que queriam vir à luz.
19
Entre velhos pergaminhos,
chilreando feito gralhas,
namorados são pombinhos
que dividem as migalhas.
20
Folhas secas são histórias
de um verão inesquecível;
entretanto, até memórias
têm seu tempo previsível.
21
Fora escrava e alforriada,
"Anastácia" em ré menor,
mas, no céu da batucada, 
mulher negra é sol maior.
(Pelo Dia Latinoamericano da Mulher Negra)
22
Hoje, quando sou sincero
e lhe escrevo minha alma,
muito mais me desespero,
dando adeus a toda calma.
23
Inda espero, distraído,
por teu carro à minha porta:
canto triste, dolorido,
esperando quem me importa.
24
Já perdi seu telefone,
só me vale seu e-mail:
hoje vivo só, “alone”,
sem a hora do recreio.
25
Já são trinta e dois verões
sem Elis cantando ao vivo;
tempo passa sem senões,
pois seu canto é redivivo.
(Pelo Aniversário de Elis Regina)
26
Lá do Sul, do comecinho
do pais que tanto amou,
certa Elis fez seu caminho
no país que a consagrou.
 (Pelo Aniversário de Elis Regina)
27
Ladrilhada de brilhante,
ou “sujinha” de poeira,
Poesia é todo instante
que se pega na “peneira”.
28
Meu amigo mais querido,
Baden Powell de ilusão,
fez-se em algo conhecido:
abandono e eterno não.
29
Meu amigo mais querido,
com histórias de aventura,
fez-se logo o preferido
da saudade que perdura.
30
Meu poeta preferido
não escreve, nem recita,
mas dedilha, comovido,
cada nota que visita.
31
Na historinha familiar,
o João chamou Maria,
e Maria, sem pensar,
fez a ele companhia.
32
Namorado sempre esconde
quando chora de saudade,
pois amor, se perde o bonde,
nunca perde a majestade.
33
Na valsinha da memória,
num coreto enfim desperto,
todo mundo vira história
e anoiteço em um deserto.
34
No cantinho, atrás da porta,
meu amor ficou sozinho;
muitas vezes, quem importa
diz adeus devagarzinho.
35
No desenho de um acorde,
no lirismo de uma rima,
eu só quero que concorde:
seu adeus é nosso clima.
36
No divã da inconsciência,
entre Freud e o próprio eu,
peço a Deus a paciência
que o Abandono já comeu.
37
No lirismo do palhaço,
todo feito em poesia,
fantasio e me desfaço
desta falsa alegoria.
38
No serão da fantasia,
entre quarto e o calendário,
violão faz companhia
para um homem solitário.
39
No sertão de minha vida,
vivo feito o Riobaldo:
só "veredas" dão guarida
para o rio do Olivaldo.
40
No seu dia, Poesia,
todo mundo fica atento:
a metáfora, tardia,
busca o pé até do vento!
41
O barquinho, Poesia,
de mil versos carregado,
desemboca n’alegria
do oceano desdobrado.
42
O ninguém se faz de “flor”,
vale bem o quanto pesa;
quando espeta o seu amor,
despetala quem despreza.
43
O Pinóquio poderia,
se ele fosse brasileiro,
ser o dono d'alegria
desse trem eleitoreiro.
44
O segredo do abandono
se revela ao sol mais pleno:
és verão, e sou outono,
neste inverno nada ameno.
45
O verão que amarelece
cai em folhas, coração;
mas você jamais fenece,
faz do outono floração.
46
Para honrar o meu ofício
e “animar” a biografia,
vou pular no precipício
dos amantes da poesia.
47
Poesia bota em cheque
toda a nossa imensidão:
tempo curto de moleque,
breve tempo de ancião.
48
Poesia, forma vaga,
lua fixa a nós defronte,
cada verso é tua baga
neste cacho de horizonte.
49
Por pensar demais em ti,
vivo o carma desta prova:
incorporo um bem-te-vi,
bem te vejo e faço trova.
50
Pra dizer adeus assim,
não precisa piedade:
basta ser um ser a fim
de matar felicidade.
51
Quando a banda toca Chico,
fico alegre e, de repente,
muito mais tristonho eu fico,
porque tu estás ausente.
52
Quando choro com razão
percebendo o que se deu,
dou-me inteiro ao violão,
que me dá o que era meu.
53
 Quando eu era só abismo
no silêncio de meus ais,
tu me deste o “catecismo”
da amizade, luz no cais.
54
Quando vi a nossa foto,
desgastada, na gaveta,
vi nascer um terremoto
neste inóspito poeta.
55
"Romaria" de canções
arrastando a "Madalena",
travessia e comoções:
era Elis roubando a cena.
(Pelo Aniversário de Elis Regina)
56
Se jurei não mais falar
sobre nada do que disse,
é porque sou de trocar
a promessa por crendice.
57
Sem resposta a meus e-mails,
tua ausência é muito forte;
já tentei “milhões” de meios,
mas “deletas” minha sorte.
58
Se o verão lhe der licença
e o caminho for propício,
chegue e faça a diferença,
doce outono, neste início.
59
Solidão e violão
são irmãos e não se largam:
uma amarga o coração,
outro adoça os que se amargam.
60
Todo adeus tem duas beiras,
duas margens de amizade;
numa beira, estão trincheiras,
noutra beira, só saudade.
61
Todo outono faz de mim
o jardim que fora eterno;
mas o "eterno" do jardim
ressuscita findo o inverno.
62
Trabalhando desde cedo,
aprendendo a conquistar,
todo jovem perde o medo
de esboçar o céu no mar.
63
Uma casa de escritores
junto ao "rio guaçuano"
foi a causa dos amores
que cobri de desengano.
64
Um adeus só quer dizer
o que nunca se diria:
diz-se adeus para esquecer
quem jamais esqueceria.
65
Vaga-lumes incendeiam
a plateia de meninos:
são poetas que semeiam
poesia aos pequeninos.
66
Vulnerável coração,
coração dilacerado:
a cantora chora, não,
é soluço marejado.
 (Pelo Aniversário de Elis Regina)
67
Violão deixado ao léu,
tua estante, muitas folhas,
todos vivem sem papel,
no entreato sem escolhas.
68
Violão que vive mudo,
sempre à espera de seu bem,
sonha dedos de veludo
que o dedilhem para alguém.
69
Violão, tens muitas cordas,
mais até que o coração;
entretanto, quando acordas,
só se move a da emoção.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Olivaldo Júnior
O poeta, trovador e escritor OLIVALDO JÚNIOR é uma figura de destaque na cena cultural e literária da região da Baixa Mogiana, no interior do estado de São Paulo. Ele transita com facilidade pelas vertentes da escrita acadêmica, da rádio, da música e da poesia clássica. Nasceu na cidade de Aguaí/SP, mudou-se com a família para a cidade de Mogi Guaçu/SP ainda quando era menino. É nesse município que ele fixou residência, desenvolveu suas profundas raízes artísticas e construiu sua vida comunitária. Sua paixão pela comunicação e pelas artes se reflete em suas escolhas acadêmicas e profissionais.: Graduou-se em Letras (com Licenciatura Plena e Habilitação em Português e Inglês) pelas Faculdades Integradas Maria Imaculada (FIMI). Também possui formação profissionalizante em Radialismo pelo SENAC de São Paulo. Atua como Oficial Administrativo na Fundação Educacional Guaçuana (FEG) e também exerce atividades no campo da docência, locução/radialismo e na música popular, atuando como instrumentista.
Olivaldo Júnior cultiva o gosto pelos livros e discos desde a infância. Sua expressão escrita foca principalmente em poemas, contos, crônicas e letras de música. Ao longo de sua caminhada lírica, tem se inscrito assiduamente em festivais literários e concursos de trovas regionais, colecionando diversas classificações e premiações que validam a sensibilidade de sua escrita. Embora desenvolva seu trabalho de maneira independente ou integrada a coletivos locais, sua produção está associada a plataformas e grêmios de fomento, como o portal Família Literária (https://www.familialiteraria.com.br/escritores/olivaldo-junior/1513688), que cataloga e preserva a voz de escritores atuantes no Brasil. A principal marca das publicações de Olivaldo Júnior é a sua participação em antologias poéticas coletivas e fanzines regionais, dividindo páginas com outros poetas paulistas. Suas produções espalham-se em formato de poesia clássica, com destaque para as suas trovas e minicontos, compartilhados tanto em compilações impressas de concursos quanto em suas mídias sociais voltadas à arte.
A importância de Olivaldo Júnior reside no seu papel como um dinamizador da cultura descentralizada no interior de São Paulo. Ao unir as competências de radialista, professor de línguas e músico popular, ele atua como uma ponte que retira a poesia dos espaços puramente acadêmicos e a devolve para o cotidiano da população de Mogi Guaçu e região. O autor mostra que manifestações clássicas e exigentes (como a métrica das trovas) combinam perfeitamente com a sensibilidade popular e a sonoridade musical moderna, inspirando novas gerações locais a valorizarem a riqueza da Língua Portuguesa.

Arthur Thomaz (A chatice)

É um fenômeno social que nos persegue feito sombra incômoda nas mais variadas circunstâncias. Muitas situações que você vai ler aqui são corriqueiras, portanto, me limitarei a descrevê-las e tecerei alguns comentários a respeito.

Por exemplo: Você sente quando um chato ou uma chata está se aproximando. É como se essa pessoa enviasse uma mensagem de fumaça tóxica avisando que está chegando. Tenho a impressão de que os chatos exalam um hormônio peculiar, a “chatesterona”.

Caso esteja em uma roda de amigos, o chato entrará gritando e o chamando por aquele apelido que você detesta. Em seguida, com aquele sorriso idiota, lhe dará um abraço apertado e prolongado, quase lhe tirando o fôlego. Logo após, monopolizando a atenção, contará histórias indiscretas de sua vida íntima, causando-lhe um mal-estar e uma incontida vontade de deixar o local. Com hálito de bebida, ele ficará sussurrando em seus ouvidos juras de amizade eterna. E, obviamente, nunca percebe a hora de ir embora, prolongando o martírio de ter que suportá-lo.

Outro exemplo também é aquele beijo úmido que o chato dá em seu rosto ou em sua testa! Você se controla para não passar a mão no local e, na primeira oportunidade, corre ao banheiro para desinfetar a região afetada.

Não podemos deixar de falar sobre o perfume, que, além da discutível qualidade e ainda pelo uso abundante, ao encostar em você, o deixa impregnado o resto do dia, e os outros pensarão que é você que está usando o nauseabundo produto.

A seguir, algumas situações que você já deve ter vivenciado: O chato corta seu assunto no meio de um debate com os amigos. Fica na frente do que você está assistindo, principalmente na hora de um gol do seu time, ou nas cenas finais de um filme interessante.

Liga no meio da madrugada, somente porque estava com insônia e lembrou-se que você é um bom amigo e conselheiro. Em uma reunião formal, ele levanta sua camisa, exibindo a todos a sua barriga, com o indelicado e inoportuno comentário de que ela é formada de cerveja com torresmo.

Agora, um exemplo de criança chata: você está em uma festa, leva meia hora fazendo o seu drink preferido e quando vai tomar o primeiro gole do maravilhoso Bloody Mary, aparece uma criança, arranca o copo das suas mãos, joga na pia o precioso conteúdo e grita para que todos na festa ouçam que a mãe dela disse que beber é pecado e faz mal à saúde.

E assim, depois de refletir sobre os vários tipos de chatos que cruzam nosso caminho, é hora de pensar: quem é o chato na sua vida? Ou, melhor ainda, será que você já se pegou sendo o “chato” em alguma situação?

Afinal, reconhecer nossas próprias chatices pode ser o primeiro passo para se livrar delas. Vamos rir juntos dessas experiências e, quem sabe, aprender a evitá-las no futuro.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Arthur Thomaz (1950)
ARTHUR THOMAZ DA SILVA NETO é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada. Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
    Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves Reflexões e Contos ao Léu. Santos/SP: Bueno Editora, 2026. Livro enviado pelo autor. 
Excerto da Biografia produzida pelo Blog 

Estante de Livros (“As Três Marias”, de Rachel de Queiroz)

O romance As Três Marias, publicado em 1939 por Rachel de Queiroz, é uma das obras mais introspectivas e singulares do Modernismo brasileiro (Segunda Geração/Geração de 30). Diferente de seu livro de estreia, O Quinze (1930), que focava no determinismo social e na seca do Nordeste, As Três Marias volta-se para o determinismo social focado no gênero, explorando a psicologia feminina, a busca por identidade e a opressão velada das convenções sociais sobre as mulheres no início do século XX.

1. ENREDO E ESTRUTURA NARRATIVA

O livro é dividido estruturalmente em duas partes principais: o confinamento no colégio de freiras e a vida em liberdade (que se revela outra forma de aprisionamento).

O Internato: A narrativa começa no Colégio da Imaculada Conceição, em Fortaleza. Lá, três jovens — Maria Augusta (Guta), Maria da Glória e Maria José — tornam-se inseparáveis. Elas recebem o apelido de "As Três Marias", uma alusão às três estrelas da constelação de Órion. O colégio funciona como um microcosmo de repressão, onde as individualidades são moldadas para caber nos papéis tradicionais de esposa, mãe ou freira.
O Pós-Internato: Ao saírem do colégio, a união mística do trio se rompe, e cada uma segue um destino que reflete as limitadas opções da mulher na sociedade da época.

2. ANÁLISE DAS PERSONAGENS PRINCIPAIS (AS TRÊS ESTRELAS)

Rachel de Queiroz utiliza as três protagonistas para representar diferentes facetas e respostas à condição feminina:

Maria Augusta (Guta)
A eterna buscadora / Datilógrafa.
Narradora-protagonista. Representa a inquietação, o desejo de emancipação e a inadequação. Recusa o casamento convencional, tenta trabalhar para ser independente, mas sofre com a solidão, o tédio e o vazio existencial.

Maria da Glória
A mãe e esposa / Destino Tradicional
A órfã que busca estabilidade. Seu destino é o mais precoce e tradicional: casa-se e torna-se mãe. Representa a realização biológica e social padrão, mas perde sua individualidade no processo, transformando-se rapidamente em uma matrona absorvida pela domesticidade.

Maria José
A beata / Destino Religioso-Familiar
A jovem mística e reprimida. Transfere suas frustrações e o medo do mundo para a devoção religiosa extrema. Fica solteira, cuidando da mãe e vivendo em um estado de culpa constante e recalque sexual.

3. PRINCIPAIS TEMÁTICAS EXPLORADAS

A Condição Feminina e o Trabalho
O livro é pioneiro ao retratar a inserção da mulher burguesa/classe média no mercado de trabalho urbano (Guta vai trabalhar como datilógrafa). No entanto, Rachel de Queiroz não faz uma apologia romântica desse trabalho; ela mostra que, mesmo trabalhando, a mulher continua submetida a salários baixos, ao assédio velado e ao julgamento social.

Solidão e Desencanto (O "Mal do Século" Modernista)
A tônica do livro é a melancolia. Existe um forte contraste entre os sonhos alimentados no internato e a crueza da vida real. Guta experimenta o amor com o pintor Aluísio e, depois, um romance trágico com o médico casado Raul, mas nenhum relacionamento preenche seu vazio interior. A liberdade que ela tanto almejava se converte em isolamento.

O Espaço do Aprisionamento
Há uma forte crítica às instituições que moldam o indivíduo. Primeiro, o colégio de freiras, com seus muros e regras rígidas. Depois, a família e a sociedade, que funcionam como um novo internato invisível, cobrando comportamentos padronizados.

4. ESTILO, LINGUAGEM E FOCO NARRATIVO

Narrativa em Primeira Pessoa: A escolha de Guta como narradora confere ao livro um tom confessional, íntimo e lírico. O leitor enxerga o mundo através de sua sensibilidade aguçada e de suas crises existenciais.
Linguagem Despojada: Fiel aos preceitos do Modernismo, Rachel de Queiroz utiliza uma prosa limpa, direta, sem excessos ornamentais, mas profundamente poética.
Tempo Psicológico: Embora haja uma cronologia (infância, adolescência, vida adulta), o tempo é ditado pelas memórias, impressões e sentimentos da narradora.

5. CONCLUSÃO E RELEVÂNCIA DA OBRA

As Três Marias é um romance de formação (Bildungsroman) imperfeito, pois, ao final, não há uma conciliação ou um final feliz definitivo. O desfecho mostra Guta grávida (fruto de sua relação com Raul), enfrentando a perda do bebê e decidindo voltar para o Ceará, fechando um ciclo.
O livro permanece atual por ser um estudo psicológico profundo sobre a busca pela autonomia. Rachel de Queiroz conseguiu, com extrema sensibilidade, mostrar que a opressão de gênero nem sempre se dá pela violência física, mas muitas vezes pela sutil e esmagadora poda dos desejos e da liberdade de escolha.

6. SINOPSE

A sinopse de As Três Marias acompanha a transição da juventude para a vida adulta de três amigas que buscam seus espaços em uma sociedade profundamente patriarcal e conservadora na Fortaleza dos anos 1930. Através de uma narrativa íntima e confessional, a obra acompanha o amadurecimento e o subsequente distanciamento de Maria Augusta (Guta), Maria da Glória e Maria José.
O livro é estruturado em duas fases marcantes que delineiam o destino das protagonistas:

Primeira Fase: O Confinamento e o Mito
A história se inicia no Colégio da Imaculada Conceição, um internato de freiras em Fortaleza. Lá, três alunas órfãs ou criadas longe dos pais — Guta, Maria da Glória e Maria José — desenvolvem uma amizade inseparável. Devido à união e ao nome compartilhado, ganham o apelido de "As Três Marias", uma analogia às estrelas da constelação de Órion.
Neste ambiente rigidamente controlado, vigiado por freiras e pautado por severas lições de moral, culpa católica e repressão, as meninas compartilham seus sonhos e projetam o futuro. O colégio funciona como uma estufa voltada para moldar a identidade feminina de acordo com as expectativas da época: preparar a mulher para o casamento, para o claustro ou para a resignação familiar.

Segunda Fase: A Dispersão e a Realidade
A verdadeira jornada começa quando as três Marias concluem os estudos e cruzam os portões do internato. A promessa de liberdade se choca imediatamente com a realidade limitadora do mundo exterior, provocando a fragmentação do trio, onde cada uma assume um papel social arquetípico:
Maria da Glória cumpre o destino tradicional mais rápido. Diante da solidão e da falta de estrutura familiar, ela se casa cedo, engravida e rapidamente se transforma em uma matrona absorta pela rotina doméstica, sacrificando sua individualidade e os dons artísticos que exibia na juventude.
Maria José canaliza suas frustrações, medos e desejos reprimidos para a religiosidade extrema. Ela se torna uma beata solteirona, consumida pela culpa e pelo moralismo, dedicando-se inteiramente a cuidar da mãe idosa e a frequentar a igreja.
Guta (Maria Augusta), a narradora da história, recusa os caminhos pré-estabelecidos. Inquieta e intelectualmente ambiciosa, ela busca a emancipação financeira empregando-se como datilógrafa no comércio local — uma ousadia para a época. No entanto, ela descobre que o mercado de trabalho urbano também é um espaço de opressão, marcado por salários medíocres e assédio velado.

O Desfecho e o Vazio Existencial
Ao longo de sua busca por identidade, Guta vivencia amores imperfeitos e dolorosos: primeiro, um afeto platônico pelo pintor Aluísio; depois, uma paixão avassaladora e trágica por Raul, um médico mais velho e casado. O envolvimento resulta em uma gravidez solitária e na subsequente perda do bebê, levando Guta ao ápice do desespero e do isolamento.
Ao final, após uma breve fuga para o Rio de Janeiro em busca de recomeço, Guta compreende que a liberdade absoluta que tanto almejava traz consigo o peso da solidão. O romance se encerra com o seu retorno ao Ceará, amadurecida pela dor, ciente de que o laço místico com as outras "Marias" se desfez para sempre e que o destino de cada mulher deve ser enfrentado individualmente.

sábado, 24 de outubro de 2026

Cézar Augusto Defilippo (Semeando trovas)

 

1
Ao rir demais, trouxe ao clima
um trompete e um contrabaixo:
risada aguda por cima
e um som mais grave por baixo!
2
Ao ver-te mãe, insegura,
percebo em meio à pobreza
que o teu olhar de ternura
tem muito mais de tristeza.
3
Ausente dos teus abraços,
a dor do adeus se faz tanta, 
que o nó desfeito dos laços 
ficou preso na garganta!...
 4
Canoeiro chora ao marco
da seca, drama do estio,
ao ver carcaças do barco
no leito seco do rio...
5
Calouro alto, parrudo,
veterano era baixote,
junto aos demais, feito o estudo,
preferiram não dar trote!
6
Carícia é o amor surgindo
numa rosa que insinua:
– Pétalas que vão se abrindo
feito mão pedindo a sua…
7
Casulo de inércias fartas,
de indecisões em virose,
a Terra, contém lagartas
que odeiam metamorfose.
8
Circo pobre, elenco escasso,
e o dono, maior artista, 
troca a roupa de palhaço 
e volta, de trapezista.
9
- Com outro!  Venha flagrar
a sua esposa, agarrada! 
E o marido, ao constatar: 
- Ora!  É o mesmo. Que outro nada!
10
Em fila, ao vento, caídas,
dá, num vai e vem, a impressão, 
que folhas secas, unidas, 
dançam balé pelo chão... 
11
Em teu corpo, aventureiro,            
vou desbravando horizontes,
adolescente, pioneiro,
por entre vales e montes…
12
É o povo que sofre o efeito
quando do poder advém 
excesso de desrespeito 
e crise de homens de bem. 
13
Feito a lua, minha amada,
faz de mim seu mar e – atrai
maré alta na chegada,
maré baixa quando vai…
14
Lanço a bomba do meu sonho,
ogiva de paz e amor, 
e o cogumelo medonho 
ganha formato de flor. 
15
Leitura bem decifrada,
ciúme é momento mudo...
Voz e gestos não são nada
quando os olhos dizem tudo!
16
Luar, viola e sertão
nos mostram com harmonia
como a própria solidão
precisa de companhia...
17
Mantenha equilíbrio e calma,
seja forte ante um desgosto.
Quem tem harmonia na alma
tem sempre um riso no rosto.
18
Mostra a vida, discrepância
na demência de meu pai,
- ele, que não teve infância,
hoje da infância não sai…
19
Muita gente sofre e chora
porque trocou sem receio
toda certeza do agora
por um depois que não veio.
20
Na boemia, no abandono,
de tanta dor eu suspeito 
que até saudade sem dono 
faz morada no meu peito. 
21
Na ingratidão que és capaz
tua conduta me diz:
- Não passo de um “tanto faz”
para alguém que eu tanto fiz...
22
Não seja precipitado,
torne o tempo bem vivido,
mais vale um antes pensado
que um depois arrependido...
 23
Na palhoça, o sol sutil,
ante o abandono na rede, 
vai trincando o teu perfil 
no reboco da parede…
24
Na roça, gritando à mãe,
guri, sem ducha ambiente:
- Eu já vô tomá meu bãe,
tráis o barde de água quente!!!
25
Nas crises emocionais
– conquisto em mim – nas batalhas,
reversões que valem mais
do que troféus ou medalhas...
26
Nos meus momentos inquietos
pelos desgastes da lida, 
tenho a doçura dos netos 
tirando o amargo da vida…
27
Ofendo... Tu te magoas,
mas por força da paixão, 
eu bem sei que me perdoas 
sem que eu te peça perdão. 
28
O meu ontem foi mentira...
Falsos sonhos... glória vã...
Mas meu fracasso não tira
a esperança do amanhã.
29
Pão e circo, o povo, um berro
contra o furto e a distinção,
sobram cortinas de ferro, 
nas mesas faltando o pão…
30
Paquerou por hora inteira,
viu na janela, afinal,
que a moça namoradeira
é boneca artesanal!
31
Pesquiso ao sofrer a acédia*,
encontro amparo e saída
em meu pai, enciclopédia
das sapiências da vida…
==========
Acédia é um substantivo feminino que significa uma condição de profundo desânimo, indiferença, abatimento físico e mental, ou tédio em relação aos deveres e à vida
32
Pior que o adeus, na leitura
de seu recado, magoa,
ver a sua assinatura
num texto de outra pessoa.
33
Por força das emoções
eu te abraço de tal jeito 
que sinto os dois corações, 
batendo em nós, num só peito... 
34
– Pra debaixo, vamos nóis!
Pegou malas e pertences;
quando ela disse: - Lençóis,
ele entendeu maranhenses!
35
Raízes... braços em coma
no mangue que já morreu,
buscam no barro o bioma
que o homem não protegeu.
36
Roça... Saudade tem asas...
Lembro a mãe  - que Deus a tenha - 
seu sopro, atiçando as brasas 
do velho fogão à lenha...
37
Sem seu pescador, a amada,
reconhece, após a cheia,
os destroços da jangada
que a maré deixou na areia…
38
Sem teto, à sombra do medo,
menina, a boneca alisa;
– dá carícias ao brinquedo
quem de carícias precisa.
39
Se o tempo – espelho sem aço –
me rouba a imagem e o brilho,
eu me vejo em cada traço
do rosto de cada filho.
40
Serve de exemplo na história
com grandeza habitual,
quem ao fracasso ou vitória
mantém a conduta igual!
 41
Sofre o revés mais que justo
quem da ambição não se esquece 
ao tentar a todo custo 
conquistas que não merece. 
42
Sou bonito, feito artista!
Diz gabando o Serafim. 
E a esposa muito sadista: 
- De cinema, o Rin Tin Tin.
43
Sozinho, meu caminhar,
mostra a razão mais sincera
se vivo sem regressar
é porque ninguém me espera.
44
Tendo a plástica da Estela
pele "daquele lugar",
vira e mexe a cara dela
tem vontade de sentar.
45
Teu corpo é tronco in natura
que meus olhos, dois formões,
ousam talhar na escultura
tua nudez e feições...
46
Teu corpo, tê-lo, sereia,
é sonho por desabar                     
feito escultura de areia
perto das ondas do mar…
47
Teu saber, mestre, em verdade,
tem a missão por igual:
– Nos bancos da faculdade
– Numa escolinha rural.
48
Urologista pôs medo,
matuto diz: - Não se zangue,
pelo tamanho do dedo
prefiro o exame de sangue!
49
Varrer o pé dá azar,
solteira, por precaução, 
sonhando ainda em casar 
só passa pano no chão. 
50
Velho espelho, corroído,
o tempo alterou meu clima
no rosto mal refletido
que já perdeu a autoestima…
51
– Volto já! Ouço calada,
teu amor é meu castigo, 
e eu me apego à madrugada, 
que espera a manhã comigo. 
52
Zigue-zague e me condenas
na BR feita aos cacos?
- Eu não bebo, estou apenas
desviando dos buracos!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *    
Cézar Augusto Defilippo (1955)
CÉZAR AUGUSTO DEFILIPPO (também conhecido pelo pseudônimo e alcunha artística de Zé Gute) é um destacado advogado, jornalista, radialista, gestor cultural e renomado trovador brasileiro. Possui uma trajetória profundamente ligada à preservação e fomento da trova e da cultura regional em Minas Gerais. Nasceu em 1955, na cidade de Astolfo Dutra/MG, filho de Paschoal Defilippo e de Antônia Muros. Trabalhou por 25 anos como bancário, o que o levou a morar nas capitais Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Posteriormente, residiu por 16 anos em Juiz de Fora (MG) antes de retornar e se estabelecer definitivamente em sua terra natal, Astolfo Dutra. Atua solidamente como advogado, jornalista e radialista/apresentador sertanejo. Exerce papel de liderança pública em seu município, tendo atuado como Secretário de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo de Astolfo Dutra, coordenando a aplicação de leis de incentivo à cultura (como a Lei Aldir Blanc) e apoiando diretamente os agentes culturais da região. 
Sua trajetória oficial no mundo das trovas ganhou forte impulso em 1987, quando ingressou durante o período em que residia em Juiz de Fora. É um dos membros mais atuantes do movimento trovadoresco em Minas Gerais, servindo constantemente como coordenador e receptor de inscrições e integrando com frequência as Comissões Julgadoras de grandes concursos nacionais e internacionais de trovas. É detentor de inúmeros prêmios em Jogos Florais por todo o Brasil, destacando-se com o Troféu Revelação em Juiz de Fora e Troféu “Lilinha Fernandes” (2020), concedido em Porto Alegre. Sua produção literária está fortemente registrada em coletâneas, antologias oficiais de Jogos Florais
A importância de Cezar Augusto Defilippo reside na sua dupla função de criador e preservador. Como trovador, ele domina a técnica da trova, ajudando a manter viva essa tradicional e rica herança luso-brasileira. Como gestor cultural e jornalista trabalha nos bastidores para que novos poetas encontrem espaço para publicar, organizando concursos e garantindo o intercâmbio literário entre diferentes gerações de escritores no Brasil. 

Eduardo Martínez (O professor de matemática)

      Não vou conseguir precisar o dia em que aquele rapaz atravessou o portão da propriedade, sorriu confiante, apesar da vestimenta surrada, e foi direto cumprimentar meus pais, que já o aguardavam sentados a uma das mesas ao redor da piscina. Soube naquele momento que aquele jovem, apesar da aparência mais velha, contava apenas 18 anos, enquanto eu, no mês seguinte, completaria 20.
            Meu pai não tardou e se levantou. Foi em direção ao velho José, que já o aguardava, junto a um de nossos automóveis, com a porta de trás aberta. Minha mãe acompanhou com o olhar o marido. Os dois se despediram com beijos soltos no ar. Nessa época, creio que ainda guardavam um resquício do amor, que talvez tiveram algum dia.
            Assim que o Opala partiu, minha mãe pegou a mão do rapaz e veio até mim. Não muito alta, ela carregava o costumeiro cigarro du Maurier acoplado à piteira dourada. Por conta de tal hábito, um câncer a tomaria por completo duas décadas após.
            - Augusto, meu querido, quero lhe apresentar o Olegário. Ele o ajudará nas tarefas de matemática. 
            Olegário me estendeu a mão. Olhei para ele com ar de arrogância, que, na verdade, não passava de pura inveja. Como é que aquele maltrapilho poderia me ensinar algo? Mero bandalho! Devo ter feito cara de poucos amigos, pois a minha mãe lançou-me aquele olhar fulminante. Não tive escolha e aceitei o cumprimento.
            A partir da semana seguinte, comecei a ter aulas com o meu novo professor. Um prodígio em trigonometria e geometria, devo admitir. Relutante a princípio, acabei me encantando por aquela situação. Não pelos números, diga-se de passagem, pois até hoje não encontrei razão para decorar nem mesmo a tabuada. Se me interessei, foi por aquela voz rouca do Olegário, que, ainda por cima, era dono do sorriso mais lindo que, até recentemente, não tive o prazer de ver igual.
            Durante nossas tardes no meu quarto, ele tentava a todo custo me ensinar atalhos para que eu não tomasse bomba no final do ano. Por debaixo da mesa, ele cutucava a minha perna com a sua, com o intuito de me fazer prestar atenção. Isso me causava calafrios por todo o corpo, mas, covarde que ainda sou, mirava o piso para não ser descoberto.
            As provas finais vieram e, não sei como, consegui concluir meus estudos. Na certa, devo ter me esforçado além do esperado, pois não queria decepcionar o meu mestre. Não sei se ele ficou feliz com a minha aprovação, pois nunca mais o vi. Minha mãe, hoje consigo ter maior clareza sobre isso, o dispensou assim que possível para evitar que algo pudesse causar certo constrangimento na família. 
            Passei os anos seguintes envolto em códigos civis, penais e trabalhistas. Formei-me com louvor e, a partir de então, comecei a exercer a advocacia no escritório do meu pai. Foi justamente nessa época em que conheci Glória, brilhante advogada, com quem muito aprendi do ofício.
            Protegida do meu velho, ela passou a frequentar a nossa casa. Entretidos que estávamos com o volume de trabalho, não tínhamos tempo para o amor. Foi como um acordo que nos casamos no ano seguinte, logo após ganharmos uma causa de milhões. Minha mãe pareceu aliviada com o matrimônio.
            Como prêmio, viajamos para Europa por uma semana. A agora minha esposa, com um francês muito melhor do que o meu, pareceu adorar aquelas explicações intermináveis nas idas aos museus. Como bom marido, mantive-me sempre ao seu lado, mas com a cabeça na pilha de processos que me esperava no escritório.
            Assim que o avião pousou no Galeão, senti um grande alívio. Nada mais de passeios infrutíferos por Paris, onde sentamos em todos os cafés possíveis. A companhia era ótima, é verdade, tanto é que na segunda semana de volta ao Brasil, Glória se sentiu indisposta e correu para o banheiro a fim de evitar devolver, sobre a mesa, o salmão com nozes ingerido há pouco.
            No verão seguinte, eis que estávamos na sala de parto. Minha mulher segurava minhas mãos tão fortemente, que imaginei que iria arrancar todos os meus dedos. Devo confessar que aquela era uma situação nova para mim também, porém, muito mais cômoda. Afinal, todas as dores do parto se encontravam com Glória. 
            Às 12h43 do dia 15 de fevereiro de 1989, ouvimos pela primeira vez o choro de Rubens. Minha esposa e eu, talvez não querendo deixar nosso filho chorando sozinho, o acompanhamos. Esse momento mostrou a nós dois que, apesar de ter surgido de um acordo, aquele casamento havia conseguido gerar um fruto do nosso amor. 
            Depois de alguns meses de correria, a nossa vida acabou entrando nos eixos. É verdade que agora tínhamos um filho para criar e, hoje posso afirmar, o tempo é sábio e toma conta de tudo. Ou, caso não cuide tão bem assim, o dinheiro ajuda a superar as dificuldades.
            Nosso menino cresceu cercado de todos os mimos e regalias, é verdade. No entanto, até entre os abastados há certos percalços. Seja como for, lá estávamos para lhe dar o suporte necessário. E foi assim que fizemos, quando, antes de completar 10 anos, ele cismou em ser tenista.
            Compramos os melhores materiais esportivos, contratamos o mais afamado treinador. Até mandamos construir uma quadra de tênis na nossa ampla propriedade. Entretanto, essa febre passou e a raquete, comprada a peso de ouro, foi parar em algum canto.
            Aos 13, Rubens cismou que queria ser músico. Como dinheiro não era problema, compramos vários instrumentos, mas, no final, o nosso rapazinho desistiu de todos. Ainda carregou a gaita no bolso por alguns meses, mas nunca o vi soprando-a nem uma vez sequer.
            Rubens, prestes a concluir o ensino médio, parece ter herdado a minha aversão por números. Por isso, a minha mãe, ainda que adoentada, contratou um professor de matemática para o único neto. Na hora nem me dei conta da situação, até que, sentados a uma das mesas ao redor da piscina, vi passar pelo portão um jovem de lá seus 25. Na verdade, soube logo em seguida, ainda contava 18. Ele parou diante de mim e sorriu um sorriso, que há muito guardo na lembrança, e, então, naturalmente, acabei por me encantar por aquela rouquidão: "Prazer, sou o Olegário!”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Eduardo Martínez (1967)
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
    Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 25.12. 2023
Excerto da Biografia produzida pelo Blog