quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Izo Goldman (Trovas Humorísticas)

 

A cozinha da maloca
é tão baixinha e apertada,
que, na panela, a pipoca,
não pula... fica sentada!!!
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A mini saia amarela
da professora, eu bendigo...
pois, em frente à mesa dela
é que eu fiquei de castigo!...
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A mulher do carvoeiro
diz que o marido é uma... "graça".
pois faz fogo o dia inteiro
mas, de noite, é só fumaça…
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A noiva esconde a... "cintura"...
com as dobras do vestido;
e, na igreja, alguém murmura:
– Casório... pré concebido...
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A noiva, por ironia,
na mala só vai levar
a camisola-do-dia,
que à noite... nem vai usar...
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Ao galo meio inibido,
diz a pata sem recato:
–  Não tenha medo, querido,
meu marido é mesmo um... pato!!!
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Ao ver um vulto suspeito,
o ciumento não poupa:
dá dois tiros bem no peito
do espelho do guarda-roupa…
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Cara cheia... Perna bamba,
ele mesmo se conforta,
olha a rua e diz: – "Caramba!"
Nunca vi rua mais torta!..."
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"Casamento... – alguém já disse –
é chegar à encruzilhada
onde acaba a criancice
e começa a criançada..."
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"Causa mortis" de um otário:
alergia ou resfriado.
Espirrou dentro do armário,
e o marido estava armado!
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Da vaidade ela se exime,
é gorda mas não se importa.
Em vez de fazer regime,
mandou aumentar a porta!
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Diz a vaga-lume ordeira
ao vaga-lume estouvado:
– Não me sentes na cadeira
que me queimas o estofado!...
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Diz ela, sem esperança:
– Toda noite eu armo o... "bote",
mas, quando tento a... "cobrança",
meu marido... dá o calote!
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Diz o Zezinho, zangado,
do zero que recebeu:
– Não acho que escreva errado,
se escrevo, o "pobrema" é meu!...
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É tão magro que de frente,
parece que está de lado,
e de lado, simplesmente,
nem pode ser avistado...
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Explicava, minha amiga,
os muitos filhos que tem:
– "De dia o marido briga,
de noite... fica de bem..."
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Ficou rico o Zé Maria
na seca do Juazeiro,
vendendo "fotografia
de chuva"... por "dois cruzeiro"…
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Foi bem no peito a pedrada!!!
E o Manoel não gostou!!!
Vira pra trás, voz zangada,
e pergunta: "Quem jogou?...”
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Grita o ajudante "fiel"
ao pintor, lá na calçada:
– Se segura no pincel
que eu vou precisar da escada!
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Minha sogra está doente,
e o diabo apavorado!
Se ela morre de repente,
ele está desempregado!...
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Na briga que o meu cabelo
e a careca estão travando,
lamento ter dizê-lo,
a careca está ganhando...
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Não melindre os portugueses!
Conte as piadas assim:
– Era uma vez dois chineses...
Manoel e Joaquim...
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No paraquedas, fechado,
uma etiqueta dizia:
– "Se falhar ao ser usado,
reclame. Tem garantia..."
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No seu discurso que cansa,
o candidato ao Congresso
me lembra que "a inguinorança"
é que "astravanca o pogresso"...
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O genro, com voz macia,
chama a sogra de... "Charada..."
Pensando: – Quem sabe um dia,
alguém "mata" a desgraçada!…
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O pai da moça, que é mau,
chega em casa e acaba o "baile"...
É que o Zé, "cara-de-pau",
tava namorando em... "braile"!!!
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O parafuso anda cheio,
pois tem o corpo enrolado,
cabeça partida ao meio
e vive sendo apertado...
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Pergunta o padre ao noivinho:
– "É de espontânea vontade?"
e ele respondeu baixinho:
– "Não senhor... necessidade!..."
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Pergunta o pai bigodudo,
com a voz meio engasgada:
– Quem foi que pôs cola-tudo
no pote da marmelada?…
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"Pratos rápidos", dizia,
lá no boteco o cartaz;
e quando o prato saía,
o freguês corria atrás!!!
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Pulando do nono andar,
o otimista diz a alguém
que, no quarto, o vê passar:
– Até agora... tudo bem!!!
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Quando abraço mulher feia
que não seja minha amiga,
ou estou de "cara cheia"
ou separa... porque é briga…
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Quando pergunta o burrinho,
diz a mula, envergonhada:
– "Tu nasceste, meu filhinho,
por causa de uma... burrada!..."
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Sai do museu, braço dado
com sua sogra, o Sinfrônio;
e o guarda grita, alarmado:
"Tão roubando o patrimônio!"
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Se a gente fosse dar crédito
ao que diz a maioria,
só de “autor de livro inédito"
tinha uns mil na Academia!...
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Se ao telefone um amigo
me pede "algum" emprestado,
eu disfarço a voz e digo:
– Senhorrr ligarrr enganado!...
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Se a saudade fosse pão,
eu simplesmente poria
na porta do coração
esta placa:  "Padaria"!
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Tenho medo de mulher
com marido, e mesmo sem...       
– da solteira, porque quer...
– da casada, porque tem...
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Todo "barbeiro" sustenta
que a batida foi assim:
– Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!...
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Tomou Viagra... Fracasso...
Foi cobrar de quem vendeu:
– E agora, como é que eu faço???
– Enterra! Que já morreu!!!
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Vai bem o namoro, até
que o pai dela chega, e então,       
o garotão dá no pé
e a moça fica... na mão…
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Vai haver muito freguês
no dia em que alguém disser:
– ”Pague duas, leve três!!!”
e, o “produto”, for... mulher...
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"Vem aí um furacão!!!,
avisa a rádio, – Cuidado!!!"
E o genro, por precaução,
põe a sogra... no telhado!!!
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Vendo alguém varrer o chão,
ele deita de comprido
e dá logo a explicação:
"Quero ser... doido varrido..."
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Vida de pobre é engraçada,     
ou é dura e divertida:
enquanto dança lambada,
leva “lambadas” da vida...
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Izo Goldman (1932 – 2013)
IZO GOLDMAN foi um dos mais expressivos e emblemáticos nomes do movimento trovadoresco no Brasil. Considerado um verdadeiro ícone da União Brasileira de Trovadores (UBT), ele dedicou décadas de sua vida à defesa, produção e difusão da trova (poema de quatro versos heptassílabos com rimas). Nasceu em 1932, na cidade de Porto Alegre/RS, faleceu aos 80 anos, em 2013, na cidade de São Paulo/SP. Além de sua terra natal, viveu no estado do Rio de Janeiro (em [Niterói], onde descobriu a trova e, a partir de 1976, fixou residência definitiva na capital de São Paulo. Fora do meio literário, atuou por muitos anos na área corporativa e de recursos humanos, trabalhando como instrutor de dinâmicas de grupo e relações humanas. Foi justamente em um bilhete enviado a uma de suas alunas durante um desses cursos que ele compôs sua primeira trova, sem saber. 
Conheceu oficialmente a trova literária em 1972, por intermédio da trovadora Magdalena Léa, em Niterói. Ingressou na União Brasileira de Trovadores (UBT) em 1974. Ao mudar-se para a capital paulista em 1976, assumiu o desafio de reativar a Seção da UBT em São Paulo, da qual foi presidente estadual por muito tempo. Também ocupou o prestigiado cargo de Secretário da UBT Nacional. Criou o tradicional "Boletim Informativo" da UBT/SP, um periódico que editou por mais de 30 anos e que se tornou vital para conectar trovadores de todo o país.
Izo Goldman foi um dos competidores mais vitoriosos em concursos literários de trovas do país. Ao longo de sua carreira, acumulou entre cerca de 900 premiações em diversos Jogos Florais nacionais. Entre os seus títulos honoríficos de maior prestígio destacam-se: Título de "Magnífico Trovador" concedido pela UBT de Nova Friburgo (RJ); Título de "Notável Trovador" concedido pela UBT de Pouso Alegre (MG); Recebeu por duas vezes o cobiçado Prêmio "Lilinha Fernandes" concedido pela UBT de Porto Alegre.
Embora sua produção estivesse espalhada por centenas de antologias de Jogos Florais, ele organizou e publicou a sua principal obra em vida: Trovas de quem ama a Trova (Lançado originalmente entre 2007 e 2008) — Obra que sintetiza seu estilo poético lírico, filosófico e, por vezes, espirituoso. Escreveu também o Jogral em Trovas, uma composição performática que chegou a ser utilizada como aula inaugural no Curso Superior de Literatura de Bragança Paulista.
A relevância de Izo Goldman reside no fato de ter sido um dos principais batalhadores e guardiões do movimento trovadoresco brasileiro moderno. Sua contribuição vai além dos próprios versos premiados: Ao reerguer a UBT em São Paulo e fundar o informativo impresso, manteve viva a chama da poesia popular no maior centro urbano do país. Ficou conhecido por defender rigidamente a pureza técnica da trova (metrificação, rima e ritmo) com uma personalidade contundente e apaixonada. Apoiou iniciativas de renovação e inclusão da juventude na poesia, ajudando a garantir que a tradição literária das trovas continuasse viva para as próximas gerações.

Fonte:
Izo Goldman. Trovas de quem ama a trova.
Biografia = Folha de São Paulo, Recanto das Letras, Kakinet, Oceano de Letras, etc.

Silmar Bohrer (Croniquinha) * 171 *


Palavra, conjunto de letras ou sons de uma língua, nos veio do latim "parabola" com a função de representar pedaços ou partes do pensamento, sendo considerada linguagem humana. 

Na verdade nem sempre podemos delimitar uma palavra, pois podem acontecer "palavras dentro de palavras", como pé-de-moleque, por exemplo. 

Chamamos vocábulo quando denominamos o aspecto externo ou representação material da palavra. Denominamos termo quando a referência é ao aspecto interno ou representação material da palavra.  

Falando especificamente do português, temos uma língua rima em variações linguísticas, a ponto de dizerem que nossa língua é das mais difíceis do mundo. 

O assunto é tão vasto quanto variado.  E abundante. Dentre os meus devaneios e divagares no trato com o português, busco constantemente excrescências linguísticas como as a baixo. 

"De onde veio o vento, o vento dos ventos uivantes, será que veio de Abrantes, em redemoinhos ele veio?"  

Num português simplificado ou menos rebuscado, podemos bem perguntar: "Será que veio de Abrantes aquele vento uivando em redemoinhos?" 

Dir-se-ia, não sei se Dirce disse, mas o filósofo decretou que os dizeres dissipam em debandada. 

Numa bela escrita, quase filosófica, a frase acima se resume assim : "As palavras vão, os escritos ficam". 

Delícias, dadivosas digressões! 
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Silmar Bohrer (1950)
O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Eduardo Martínez (Santana, o moralista)

  Lá estava o Santana, ostentando a arma na cintura, se achando o maior combatente do crime. Isso apesar de não ter certeza nem mesmo se teria ingerido duas, três ou meia dúzia de latinhas de cerveja, já que havia inúmeras outras no chão, tão próximas aos seus pés, que, provavelmente, iriam contribuir ainda mais para aumentar a pança, que tanto dificultava vestir as próprias calças. Ao seu lado, ligeiramente mais sóbrio, se encontrava o Limeira, seu companheiro de tantas primaveras na polícia.
          Não muito longe do palco, os dois canas escutavam aquela música cheia de agudos. Até ensaiavam uns passos, mas nem a música animada conseguia fazer com que aqueles corpos disformes fossem além de alguns estalares de dedos. Todavia, se o Limeira estava mais a fim de curtir a noite, o Santana, sempre atento a tudo, apesar de quase nem sempre conseguir enxergar um palmo à frente da própria fuça, não gostou do beijo mais caloroso do casal logo ali. Foi dar uma de moralista em pleno show de rock.
          — Que droga é essa? 
          Os dois pombinhos nem notaram a interrupção do paquiderme armado. Isso, aliás, provocou uma reação ainda mais severa do Santana, que deu um empurrão no rapaz. Este, por sua vez, olhou espantado para aquele homem barrigudo.
          — Tá olhando o quê, moleque? - Santana, enfurecido, desafiou o jovem, que não devia ter mais do que 20 anos.
          — Você é muito macho porque está armado!
          Pra quê? O Santana, num movimento até rápido para alguém tão gordo e embriagado, pegou a pistola em sua cintura e a jogou no meio da plateia.
          — Agora vem, moleque!
          Coitado do Santana! Tomou um soco no meio do nariz e caiu sentado no asfalto. O rapaz tomou a mão da amada, agora ainda mais apaixonada, e sumiu na multidão. Já o Santana, além de perder a contenda, nunca mais conseguiu encontrar a sua arma. Quanto à autoestima, não tinha o que fazer, pois,  há muito, ela o abandonara.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Eduardo Martínez (1967)
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
    Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Blogo do menino Dudu. 12 de abril de 2022
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Daniel Maurício (Mosaico de Sentimentos) 2


ABSINTO DA PAIXÃO

Ana Raquel
esquadrinhadora de almas
deixe, mesmo que por alguns instantes,
que o véu, máscara ou couraça
adquiridas com o passar do tempo
escorregue macio como uma camisola de seda
e deixe a mostra o seu verdadeiro eu.
Que as asas da liberdade brotem
agitando suas águas
desprendendo sua nau do velho cais.
Deixe que o absinto da paixão,
licor poderoso,
entorpeça as suas veias
e a torne viciada pelo meu amor.
Deixe que o id, o ego e o superego
trabalhem afinados pelo mesmo diapasão.
Viva o hoje com toda a sua força
sem se importar com quem é escravo ou senhor.
Deixe que a mulher encolhida dentro de si,
embora linda e risonha,
ressurja esplendorosa e disposta
a sorver gota por gota
do cálice dourado da paixão.
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AGOSTO

Agosto
mês do desgosto
seria apenas uma rima
ou mera superstição?
Agosto
mais do que nome de um mês
é um estado de espírito.
Hoje, amanheci agosto!!
Amargo na língua
olhos tristes
coração doído
mal iluminado, frio.
E uma coisa estranha
encalacrada na alma
feito saudade de quem já se foi
e de quem ainda nem se conhece.
Agosto
mês do cachorro louco!!
Louco estou eu
de amor por uma leonina
nascida em agosto.
A gosto do destino
vou seguindo
vou me entregando sem resistência
feito animal no cio.
= = = = = = = = = = = = = =  

A VERDADE

Entre o céu e a terra
a verdade passeia
de forma transparente
a disposição de quem queira
enxergar.
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DESAMOR

As lágrimas
às vezes rompem
pra lavar a alma.
Já o coração, este coitado,
sempre sangra calado
sem que ninguém perceba
quando o amor não é correspondido.
Desamor!! Eita prego enferrujado
que incha o peito e
infecciona a alma,
que em dor lancinante
esquece a razão.
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DRAGÃO

Hoje
eu quero colo
quero abrigo
quero uma canção,
quero um afago
quero um amigo.
Preciso acalmar o velho
e terrível dragão
que insiste a queimar meu peito
sempre pelo mesmo motivo:
o amor.
= = = = = = = = = = = = = =  

ESTRELAS DE FOGO

No meio da noite
um besouro metálico
sobrevoava a cidade
ão.... ão.... ão....
pisca-pisca o avião.
As estrelas trêmulas e distantes
assistiam a tudo indiferentes.
Da janela para baixo
as luzes da cidade
pareciam estrelas de fogo
incrustadas na escuridão.
= = = = = = = = = = = = = =

FLOR DE AMEIXEIRA

Enida.
Combinação perfeita de extremos
sem entrar em contradição
lascas de uma personalidade forte
coroada com gestos delicados
de quem age com a emoção.
Flor de ameixeira
de sementes vindas de terras longínquas
que frutificaram na Pátria Mãe Gentil.
Flor de ameixeira
forte, destemida, resistente
não se abala com as geleiras
aos pés do Monte Fuji,
embriaga os olhos e perfuma a alma
pelo êxtase da contemplação.
= = = = = = = = = = = = = =  

MACELA

Mês de março
os campos amarelam
com as flores da macela
cheiro gostoso, travesseiro macio
feito o colo da mamãe
na infância longínqua.
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MENINAGEM

Raios de sol
rios do sul
meninos nadando nus,
nas tarde de verão
no interior do meu Brasil.
= = = = = = = = = = = = = =  

SONHO ESTRANHO

Sonhei
com imagens antigas,
empoeiradas,
misturadas
a personagens de ficção.
Meio homem, meio animais,
deuses inventados
pra saciar o vazio.
A língua em câimbra
não conseguia reproduzir
as frases soltas, desconexas
ecoando no espaço
em um idioma desconhecido.
De repente um trovão
sacudiu meus ossos
e num limiar de luz e escuridão 
entre a dormência e o despertar 
vi a sombra da imagem de Deus. 
Foi então que despertei a ideia
que somos o reflexo de uma mesma matriz.
= = = = = = = = = = = = = =  
Daniel Maurício (1968) 
DANIEL MAURICIO é um premiado e reconhecido poeta paranaense, célebre na cena cultural de Curitiba por seus poemas curtos, de forte apelo lírico e grande impacto emocional. Nasceu em 1968, na cidade de Jaguariaíva/PR, filho de Francisco Mauricio e Olinda Brisola Mauricio. Embora nascido nos Campos Gerais, construiu sua vida pública e literária radicado em Curitiba, onde reside atualmente. Possui uma sólida e diversa bagagem educacional. É graduado em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Administração de Empresas pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP) e em Direito pelas Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba (FARESC). Além disso, carrega diversas pós-graduações em áreas como Gestão Pública, Tributária e de Pessoas. Foi Professor da Rede Municipal de Ensino em Curitiba, Contabilista da Prefeitura Municipal de Curitiba. Monitor na área de Linguística na Universidade Federal do Paraná; integrante do Projeto VARSUL – Variação Linguística da Região Sul desenvolvido pelas Universidades Federais do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Atua profissionalmente como Auditor de Tributos Municipais na Secretaria Municipal de Finanças da Prefeitura de Curitiba.
Notabilizou-se pela produção de micropoemas e poesias de tom intimista, focando em reflexões existenciais e miudezas do cotidiano, muitas vezes compartilhadas ativamente em suas redes sociais. Integra várias agremiações culturais e literárias de relevância nacional e internacional, incluindo: Centro de Letras do Paraná (CLP) (onde atua também na Comissão de Serviços ao Associado); Academia Poética Brasileira (APB); Academia Brasileira de Letras e Artes Virtuais (ABLAV); Confraria Brasileira de Letras (CBL); Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil (ACILBRAS); Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía, etc.
Ao longo de sua caminhada poética, o autor recebeu condecorações de prestígio no cenário paranaense, destacando-se: Ganhador do Concurso Poemas Curtos (2014) da Prefeitura Municipal de Curitiba; Prêmio Marilda Confortin (2015); Prêmio Alice Ruiz (2016). Possui uma extensa bibliografia, tendo inclusive realizado lançamentos coletivos impressionantes devido ao seu grande volume de manuscritos guardados. Entre as suas principais obras individuais estão: Mosaico de Sentimentos; Cacos e Retalhos; Origamis de Palavras; (Des)importâncias; Superprodução Lírica (Kit de 10 Livros lançados simultaneamente): Amar é, Poesias da Madrugada, Miudezas do Coração, Olhares, Alma Lírica, Gotas Poéticas, Leve-me, Poemininos e Palavras de Cheiro.
Daniel Mauricio representa a continuidade da forte tradição de poesia concisa e visceral do Paraná, carregando influências e homenageando ícones locais (como o seu patrono acadêmico, Paulo Leminski). Ele desempenha um papel crucial na oxigenação da literatura contemporânea paranaense por meio do uso das mídias digitais para democratizar a leitura e aproximar os leitores da poesia diária. Embora sua atuação principal seja na palavra escrita, a sua poesia possui uma forte carga de musicalidade intrínseca, ritmo e cadência melódica rápida, características típicas da linhagem poética curitibana contemporânea, o que torna seus escritos facilmente adaptáveis para a sonoridade falada e saraus líricos.

Fontes:
Daniel Maurício. Mosaico de sentimentos. Curitiba: Ed. do Autor, 2021. Enviado pelo poeta.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

A. A. de Assis (Conversa de gente grande)

Penso no calafrio que teria ouvindo uma troca de figurinhas entre Sócrates e Platão. Ou entre Arquimedes e Pitágoras.

Quanto você pagaria para ter o direito de escutar durante uma hora uma conversa entre pessoas pelas quais tenha grande admiração? Pois é: pelo andar dos algoritmos, daqui a uns cinco anos (ou menos) isso será perfeitamente possível. Ligaremos uma coisa parecida com televisor e programaremos a conversa que desejarmos testemunhar. A tal ferramenta, abastecida por alguma IA, nos possibilitará presenciar diálogos entre celebridades de grande projeção num determinado período da história.

Quem preferir poderá, por exemplo, começar xeretando um papo entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Ou entre Shakira e Beyoncé.

Da minha parte, gostaria de começar lá na Antiguidade. Penso no calafrio que teria ouvindo uma troca de figurinhas entre Sócrates e Platão. Ou entre Arquimedes e Pitágoras. Ou entre Virgílio e Cícero. Ou entre os apóstolos Pedro e Paulo. Ou entre Júlio César e Cleópatra. 

Depois viria avançando no tempo: Copérnico e Galileu, São Francisco de Assis e Santo Antônio, Dante e Petrarca, Cervantes e Camões, Shakespeare e John Donne, Mozart e Chopin, Voltaire e Pascal, Chardin e Darwin, Freud e Proust…

Aí começaria a ouvir gente mais próxima de nós: Churchill e De Gaulle, Gandhi e Luther King, Chaplin e Disney, Humphrey Bogart e Cary Grant, Ingrid Bergman e Audrey Hepburn, Sofia Loren e Brigitte Bardot, Pavarotti e Frank Sinatra, Elvis Presley e John Lennon, Edith Piaf e Maria Callas, João Paulo II e Madre Teresa de Calcutá, Ângela Merkel e Margaret Tathcher…

Na sequência chegaria ao Brasil: Castro Alves e Gonçalves Dias, Machado de Assis e José de Alencar, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, Drummond e Bandeira, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, Getúlio Vargas e Carlos Lacerda, Ulisses e Tancredo,  Dom Paulo Evaristo e Dom Aloísio Lorscheider, Dona Zilda Arns e Irmã Dulce, Pelé e Garrincha, Rivelino e Zico, Senna e Piquet, Noel Rosa e Pixinguinha, Nelson Gonçalves e Dalva de Oliveira, Bibi Ferreira e Tônia Carrero, Oscarito e Grande Otelo, Tonico e Tinoco, Chitãozinho e Xororó, Jobim e Vinícius, Roberto Carlos e Caetano, Chico e Milton Nascimento, Jair Rodrigues e Elis Regina, Cecília Meireles e Clarice Lispector, Ruben Braga e Fernando Sabino, Quintana e Manoel de Barros…

Vai chegar esse dia sim. Está chegando.  Que coisa sensacional será ver ali na tela, à nossa frente, um par de gênios discutindo futebol, politica, religião, filosofia, poesia, música…
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A. A. de Assis (1933)
ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Fontes:
Portal do Rigon. 20.08.2026
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Aparecido Raimundo de Souza (Talvez, lá no distante da curva...)

 
BERREDO MACIEL estava sentado na mesa de número 15, numa cadeira de plástico, num canto escondido da padaria, observando o movimento da avenida movimentada como quem tenta decifrar um código secreto, tipo do de Dan Brown. O barulho das xícaras batendo, o chiado da máquina de café e, ao fundo, o som distante de um ônibus atrasado que nunca chegava no horário. Na cabeça de Berredo Maciel, uma frase martelava impiedosa: “Eu só queria morrer em paz”. Não era um grito de desespero incontido, mas um suspiro cansado, desgostoso, como quem amargurado e descontente com a vida que levava, pedia silêncio em meio a um barulho ensurdecedor que não dava um minuto de trégua.

 A seu lado, uma garota de uns quinze anos lembrava a Liesel Meminger*, aquela órfã que roubava livros e havia chegado de bicicleta fazendo um pequeno barulho ao cruzar por ele, como se a sua passagem espalhasse folhas secas pelo chão ladrilhado. O vento ameno que vinha da porta de entrada onde ficava o forno trouxe o cheiro de pão recém saído, e por um instante, em vista do pequeno barulho, ele fechou os olhos e deixou o aroma penetrar seu nariz, pensando que talvez a paz não fosse um destino final, mas um ponto de parada inesperado entre um suspiro e outro. Lembrou que não precisava de um funeral pomposo tipo o de Elvis Presley, ou mais recentemente do Renner, da dupla com Rick. Bastava um momento calmo de silêncio acolhedor, um copo grande de café com leite e açúcar e a certeza de que ainda havia algo que cheirava à vida.

  Quando a porta do “vai e vem” se abriu, (voltando, de novo a mocinha parecida com a Liesel Meminger) dando acesso ao interior do estabelecimento, recordou momentaneamente que com ela entrou uma réstia tênue de luz clara vinda, tipo assim, de uma tarde que insistia em ser quente mesmo no inverno que cobria a cidade. Ele se levantou, passou no caixa, pagou o café e saiu. Foi sem saber se a frase ainda ecoava dentro de seu “eu”, ou se fazia pulsante com aquela sensação de que, talvez, só talvez, a paz fosse simplesmente caminhar ao lado dele, devagar, de modo que pudesse andar despreocupado, sem pressa de chegar à lugar nenhum. Nesse cenário, Berredo Maciel, entre o barulho da avenida e o cheiro de pão, numa espécie de estalo vindo de algum lugar desconhecido, aprendeu, ou melhor se deu conta de que “morrer em paz” poderia ser só um jeito de viver um pouco mais... um pouco mais livre, leve e solto.

 Coisa de vinte minutos depois, Berredo Maciel deixou definitivamente o lugar onde estava e com os passos ainda meio arraigados, o coração batendo em um ritmo menos pesado. Logo adiante, na mesma calçada, uma multidão se estranhos se movia como um rio que nunca parava, e ele, por uns segundos permitiu ser apenas mais uma gota (ou algo parecido) naquele fluxo intermitente. Ao virar a esquina, avistou a velha biblioteca municipal, colada ao prédio da prefeitura, aquela que ainda tinha o cheiro inebriante de papel velho misturado ao perfume de rosas que a bibliotecária, dona Maria Celeste, sempre deixava no hall de entrada. Ele ingressou, e o silêncio pesado e ao mesmo tempo mavioso, no interior, lhe fez pensar num abraço que ele não sabia que naquele instante precisava.

 Sem ser convidado, passou a mão num livro e se sentou numa das mesas. Escolheu um do Mário Quintana e se acomodou numa pequena mesa com duas cadeiras de madeira. Ao se acomodar, o assento rangeu. Só então ele abriu o livro ao acaso e leu: “A paz não é a ausência de ruídos, mas a capacidade de encontrar melodias no que conhecemos como caos.” Essa frase ficou assim, ecoando na sua cabeça, remexendo em seu cérebro como um sussurro que não conseguia apagar. Enquanto lia, a luz forte que entrava por uma janela de fundo, desenhava sombras que pareciam dançar ao aconchego de um velho samba de Adoniram Barbosa que vinha possivelmente do barzinho do Nicanor, do outro lado da rua frente à prefeitura. Cada nota parecia dizer que a vida, mesmo nos seus dias mais cinzentos, ainda tinha ritmo e conservava um resto de felicidade. Ele fechou o livro, se levantou e caminhou vagarosamente até a janela.

 Lá fora, um garoto descalço vendia balões coloridos. Um deles lhe escapou das mãos e subiu, subiu... foi assim, até desaparecer no céu de fim de tarde. O balão, leve como um pensamento, fez Berredo Maciel sorrir. Pensou que talvez a paz fosse exatamente isso: deixar que as coisas que não podia segurar subisse e aceitar que, enquanto houvesse alguém para observar, ainda haveria espaço para a esperança. Saltitante e tentando despistar o choro, voltou para a rua, agora com o sol da tarde se pondo em tons de esperança. Uma esperança envolvente e indescritível.  Percebeu que o barulho da pequena cidade já não era mais um grito. Se assemelhava a uma canção envolvente de fundo enternecedor. Cada passo que dava, emanava a um verso que ele ainda não sabia que estava escrevendo.

 E, ao chegar na sua rua e ao se encontrar em casa, ao fechar a porta da sala, vagarosamente, sussurrou para si mesmo:

— Talvez eu não precise morrer em paz. Quem sabe, eu só careça avivar um pouco mais o silêncio terno dentro de mim.

 Seguiu até seu quarto, deitou a cabeça no travesseiro, respirou fundo, e, pela primeira vez naquele fim de dia, sentiu o peso da frase “Eu só queria morrer em paz”. Por pura magia, ou algo parecido, seu resto de dia se transformou em algo mais leve: “Eu só queria viver e morrer em paz”. Naquele simples ato de respirar, incrivelmente extasiado, Berredo Maciel encontrou a tranquilidade que tanto buscava.

 Envolto nela, ficou ali deitado coberto pela penumbra do quarto, enquanto a frase que havia carregado por tanto tempo ainda ecoava nos cantos e recantos de sua mente: “Morrer pedindo perdão às minhas ex-esposas, às minhas filhas e filhos que abandonei…”.

 O peso das palavras parecia apertar o peito, mas, ao mesmo tempo, lhe trazia uma estranha clareza de espírito. A mesma que certo dia invadiu a mente sonhadora do francês Júlio Verne e fazer seus sonhos imorredouros se tornarem reais na pele do doutor Samuel Ferguson. Pensou nos rostos que ainda habitavam seus devaneios, reviu as imagens das mulheres que partiram, (ou melhor dito, das que ele não soube dar uma vida mais decente e expressiva) avivou os sorrisos tímidos das filhas que não sabiam como chama-lo de “pai”.

 Reacendeu a ausência do único filho homem, que desde garoto cresceu e aprendeu a andar sem ele. Cada lembrança fazia um ponto de luz que furava a escuridão tênue do quarto, mas também trazia um lembrete doloroso do tempo que se esvaía cada vez mais escasso.

 Então levantou-se devagar, acendeu a luz de um abajur, sentou na beira da cama e, com a mão trêmula, pegou o velho caderno que mantinha guardado num criado-mudo. Começou a escrever, grafar sem pretensão de arte, apenas para colocar para fora o que ainda não tinha dito:

“Perdão, se ainda houver alguém que me escute. Não há desculpas que justifiquem o que fiz, mas nesse momento preciso confessar que ainda me questiono se um dia poderei ser mais do que a sombra negra que deixei estrada à fora”.

 Fez uma breve pausa e continuou: “A vocês, a todos vocês que carregam o peso da minha ausência, e a escassez grandiosa de uma ausência sem explicação, eu humildemente ofereço o que resta de mim: e o que é? A promessa de tentar, mesmo que inexplicavelmente tarde, ser alguém um bocadinho melhor.”

 Enquanto a tinta da caneta esferográfica se fazia viva, ouviu o canto distante de um galo anunciando um novo amanhecer. Ele adormeceu e nem sentiu o peso do sono. O som, simples e puro, trouxe uma sensação de recomeço. Não seria fácil, nem instantâneo, mas ali, naquelas folhas de caderno, ele se deparou com as primeiras linhas de um pedido sincero de socorro. Berredo Maciel sonolento, pegou o caderno que havia caído no chão ao lado da cama.

 Respirou fundo e, pela primeira vez, em muito tempo, sentiu dentro de si que talvez a paz não fosse um destino final, mas uma senda infinda e ainda não usada que poderia trilhar, tipo um passo de cada vez, suportando o remorso enorme e pesado do arrependimento, mas também, igualmente, com a esperança imorredoura à flor da pele, de encontrar lá no distante da curva desse carreiro, ainda com vida e pulsante, os pedaços espalhados de seu coração.
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* Liesael Meminger = protagonista do livro "A menina que roubava livros", do escritor australiano Markus Zusak.
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
(Texto enviado pelo autor.) 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet)