segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 212 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Trova de 
ADILSON DE PAULA
Joaquim Távora/PR

Saboreando a lembrança
das artes de um meninote,
me sinto outra vez criança
roubando doces de um pote.
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Soneto de
RACHEL DOS SANTOS DIAS
Campinas/SP

As palavras de um poeta

 As palavras de um poema
levam junto os sentires do poeta...
Não importa qual seja o seu tema
É como se fosse uma carta aberta...

Até nas entrelinhas o poeta conta
Suas mágoas, sua vida, seus amores...
Se recebeu sorrisos ou afronta,
Coisas sem valor ou com valores...

O poeta fica desnudo quando escreve
A verdade nua e crua ou só de leve,
Sem medo de se expor à multidão!

O poeta é doce, real e corajoso,
É a um tempo humilde e vaidoso!
Ele é o que é com todo o coração!
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Caridade

Desfolha-se a rosa
parece até que floresce
o chão cor-de-rosa.
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Poema de 
ADRIANO GAMA
Campinas/SP

A rosa que te dei

Tomas esta rosa
singela e perfumada que feriu
com teus espinhos os tatos
de quem a extraiu

Não aceites como ofensa
visto que o sangue na cor
que contemplas evanesce
para te acolher

Viver este Amor eterno
flor da minha intenção
há mero segredo plantado
aos genes semearão

E se perguntas onde guardei
está na rosa em tuas mãos.
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Trova de 
OCTÁVIO VENTURELLI
Rio de Janeiro/RJ

Um dia a mão branca e forte
de uma mulher decidida
deu às mãos negras a sorte
de serem livres na vida.
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Poema de
FRANCISCO UBALDO VIEIRA
Campinas/SP

A garça

Uma ave graciosa pousou em minha cabeça,
Cor rosa, garça rosada, pés delicados.
Queria meu coração fosse um rio,
cheio de peixes coloridos
que a prendesse para sempre.
Entardecia,
Nossa sombra refletia-se no espelho d’água
de um lago no meio de praça.
As garças sempre voam para outros lagos,
Juntam-se a outros bandos
E não voltam aos antigos corações
Outras garças virão?…
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Trova de
J. CABRAL SOBRINHO
Olinda/PE

Apesar da longa idade,
eu vivo sempre contente,
porque a minha saudade
faz do passado… o presente.
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Poema de
MARINA TSVETAEVA
Moscou/Rússia, 1892 – 1941

Do ciclo , o aluno

Pelos montes - túmidos e úmidos,
Sob o sol - potente e poento,
Com a bota - tímida e humilde -
Atrás do manto - roxo e roto.

Pelas areias - ávidas e ácidas,
Sob o sol - candente e sedento,
Com a bota - tímida e humilde -
Atrás do manto - rasto e rasto.

Pelas ondas - rábidas e rápidas,
Sob o sol - idoso e iroso,
Com a bota - tímida e humilde -
Atrás do manto - que mente e mente…
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Trova de
HÉRON PATRÍCIO
Ouro Fino/MG, 1931 – 2018, Pouso Alegre/MG

A gente vê, de manada,
estrela...lua...e planeta...
Basta uma boa topada
numa quina de sarjeta!
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Soneto de
DIOGO BERNARDES
Ponte da Barca/Portugal, 1520 – 1605

As plantas rindo estão, estão vestidas
De verde variado de mil cores;
Cantam tarde e manhã os seus amores
As aves, que d'Amor andam vencidas.

As neves, já nos montes derretidas,
Regam nos baixos vales novas flores;
Alegram as cantigas dos pastores
As Ninfas pelos bosques escondidas.

O tempo, que nas cousas pode tanto,
A graça, que por ele a terra perde,
Lhe torna com mais graça e formosura.

Só pera mim nem flor nem erva verde,
Nem água clara tem, nem doce canto,
Que tudo falta a quem falta ventura.
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Trova de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Discussão para ele é pouco,
tem fama de arruaceiro;
muitos dizem que ele é louco,
mas nunca rasgou dinheiro...
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Óbito de vida

1
Meu coração
Coitado, veio a óbito
por conta de umas batidas
Mais fortes e eu,
eu não estava preparado...

Assustado, me deparei
com o sorriso da morte.
Contudo, por pura sorte
acordei transformado
foi, de fato, uma grande emoção...

Desse sonho insano
meu morrer,
graças a Deus, foi engano...
no meu lugar levaram o Trajano
e eu voltei pra Terra, ressuscitado

2
Quase ressuscitado
A fumaça do meu
Passado
Ofusca o meu agora
E me faz um ser
atormentado...

Ao meu redor,
Imagens carbonizadas
Destroem  o meu melhor.
Continuo só,
Só e desesperado.

Para meu azar
Minha alma se fez vazia
de lembranças despedaçadas...
Estou preso num  chão de terra fria,
Sem  conseguir  me levantar
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Trova de
FRANCISCO NEVES DE MACEDO
Natal/RN, 1948 – 2012

Bateu na porta da frente
e correu para a de trás.
Desta forma inteligente,
pegou dez “sócios” ou mais!
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Soneto de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Cinzas

Foi pisando nas cinzas do passado
que entre as cinzas dos sonhos tropecei!
Tantas cinzas de sombras ao meu lado,
que aos encantos das cinzas me abracei!

Sobre as cinzas do chão já castigado,
eu nem sei quantas sombras eu beijei;
mas ao ver, de saudade, o chão bordado,
a tristeza da infância, eu disfarcei!

Ante as cinzas do tempo envelhecendo,
meu passado distante foi morrendo
como quem diz adeus, à primavera...

E eu sozinho, naquela solidão,
vi nas cinzas tristonhas do meu chão,
minha infância, nas cinzas da tapera!
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Quadra Popular de
SERRO/MG

Na verdade nunca sonhei
quem tanto assim me quisesse,
mas também nunca encontrei
quem mais trabalho me desse.
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Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

Lágrima de uma mulher 

Por que essa chuva salgada que
Cai do céu dos teus olhos, Mulher?
Não! Assim não pode ser!
Porque, em ti, tudo é ternura sem par,
Símbolo nobre dos sonhos,
Centro cativante do romance real,
Razão maior do caminhar do homem,
Começo, Meio e Fim da vida humana sobre a Terra...
Este cálice transbordante
É motivo de veneração incontida,
Porque , Mulher, és o santuário da criação,
A deusa visível deste contraditório Planeta!
Portanto,
Diante da tua realidade,
Devemos, todos, refletir!…
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Trova de
NEI GARCEZ
Curitiba/PR

Escrever é um simples conto
que não é grande epopeia:
maiúscula, mais o ponto
e, no meio, só a ideia!
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Soneto de
ZALKIND PIATIGÓRSKY
Rio de Janeiro/RJ, 1935 – 1979

Ciclo do amor (IV)

Vieram, com a primavera, as novas flores
e o bando de amistosos passarinhos.
E houve a festa do sol jogando cores
nas sombras preguiçosas dos caminhos.

E a meiga alacridade e os sons vizinhos
das folhas balouçadas nos verdores...
E o riso tagarela e a voz sem dores
talvez de igarapés e ribeirinhos.

O céu tornou-se azul. E de repente,
com ele a natureza e toda gente
tornou-se mais afável, mais cortês.

Tudo cantava. Terminara o inverno.
Somente o coração, num gelo eterno,
chorava ainda por ti mais uma vez.
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Trova de
A. A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Creio na força do amor, 
creio na força do exemplo. 
Um credo com tal teor 
nem necessita de templo. 
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Mensagem na Garrafa 207 = A Teia de Aranha e a Fé

Imagem: IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Uma vez um homem estava sendo perseguido por vários malfeitores que queriam matá-lo.

O homem, correndo, virou em um atalho que saía da estrada e entrava pelo meio do mato e no desespero elevou uma prece a Deus da seguinte maneira:

– Deus Todo Poderoso fazei com que dois anjos venham do céu e tapem a entrada da trilha para que os bandidos não me matem.

Nesse momento escutou que os homens se aproximavam da trilha onde ele se escondia e viu que na entrada da trilha apareceu uma minúscula aranha. A aranha começou a tecer uma teia na entrada da trilha. 

O homem se pôs a fazer outra oração cada vez mais angustiado:

– Senhor, eu vos pedi anjos, não uma aranha. Senhor, por favor, com tua mão poderosa coloca um muro forte na entrada desta trilha, para que os homens não possam entrar e me matar.

Abriu os olhos esperando ver um muro tapando a entrada e viu apenas a aranha tecendo a teia. 

Estavam os malfeitores entrando na trilha, na qual ele se encontrava esperando apenas a morte, quando passaram em frente da trilha o homem escutou:

– Vamos, entremos nesta trilha!

– Não, não está vendo que tem até teia de aranha!? Ninguém deve ter entrado por aqui. Continuemos procurando nas próximas trilhas.
* * *

A fé é crer no que não se vê, é ter esperança diante do impossível. Se pedes a Deus uma árvore Ele te dará em forma de semente.

Miriane Willers (A estimada chinesa)


O amor não domina; ele cultiva
Goethe

Foi o que aconteceu com nós duas. Ela estava aqui, quando cheguei para ocupar a casa – presente do meu pai. Jovem, vistosa, até um pouco estranha e baixinha. Não sabia eu quem ela era, nem conhecia nada dela, nem ninguém parecido. Mas, me cativou de imediato. Acompanhou a reforma da casa, a mudança. Foi conhecendo os novos moradores: meu marido e meu gato – Toni. Mais tarde, minha filha. No primeiro dezembro de convivência mútua, presenteou-me com pequenos frutos vermelhos, semelhante a morangos. Sumo branco, sabor adocicado, diferente... como os novos amores. Quis saber mais sobre ela e descobri que era originária da China e se chama Lichieira. E assim teve início nossa ligação.

A cada ano, venho me afeiçoando a esse ser, que estende ramos e mais ramos ao meu encontro, como abraços. Aprofunda suas raízes na terra e no meu coração e oferece lichias cada vez mais doces, como versos de amor. Nas tardes de verão, me envolve com seu frescor, enquanto descanso na rede apegada no seu tronco. Melhor climatizador não há! Resfria meu corpo e meu pensamento, enquanto descubro o céu entre seus olhos-folhagem que miram o longe. Acalma. Acolhe. A canção da brisa ao tocar suas folhas sussurra paz. Chamo-a de minha árvore! Todos da casa são conhecedores do meu apego à ela, o que a torna intocável, insubstituível, singular. Aparar minimamente seus galhos pode desencadear um conflito mundial nos 370 m² do meu território, no centro da cidade.

Penso que nosso sentimento é recíproco, sensível, nascido da alma humano-natureza. Somos parte uma da outra. Minha sobrevivência depende dela. A sobrevivência da minha espécie depende dela. E vice-versa. Negar essa relação é dor, catástrofe, enchente, tragédia humano-ambiental. Sem as árvores, seres que nos completam, nossa existência está em flagrante risco. A ameaça não é mais à continuidade da vida dos nossos netos e bisnetos. É nossa. É agora. Não admitir essa relação – que precisa ser amorosa, respeitosa e responsável – é desacreditar da Ciência. E desprezar a Ciência é desamar a humanidade.

Contra fatos e números não há argumentos. Árvores são essenciais para evitar o aquecimento global. Evitar que a chuva – que tinha cheiro de vida, aconchego, pipoca, livro bom, canção de ninar – seja preocupação, despedidas, susto, medo, sofrimento. Da mãe natureza têm sido arrancadas, sem dó, milhões de árvores-filha todo ano. E o plantio é pouco e para fins industriais. Só na Amazônia, em 2023, a cada segundo, 21 árvores foram derrubadas. Agredida, a mãe terra chora, chora, chove sem parar. E com fúria, arromba tudo: casas, afetos, pontes, histórias, muros, certezas... e arrasta gente, bicho, concreto, construção, bens (i)materiais... Frutos da ganância.

Preservar a vida humana passa, obrigatoriamente, pelas florestas vivas! Amar e cultivar. É urgente ter árvores de estimação!

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    A escritora e advogada MIRIANE MARIA WILLERS possui uma trajetória ativa no cenário intelectual, jurídico e literário do Sul do Brasil. Tem forte ligação com a região das Missões, no Rio Grande do Sul, residindo e atuando em cidades como Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga. Atua como Advogada Municipal na Procuradoria-Geral do Município de Santo Ângelo. Professora universitária no curso de Direito na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) — Campus de São Luiz Gonzaga, lecionando disciplinas como Direitos Humanos, Direito Administrativo e Tributário. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais, Especialista em Direito Civil e Processual Civil, além de Mestra em Direito pela URI. Integra grupos de pesquisa voltados aos Direitos Humanos, Cidadania e a relação entre Literatura/Cinema e o Direito.
Transita entre a escrita técnica-jurídica, a prosa e a poesia, publicando em jornais, revistas e coletâneas. Aperfeiçoou sua escrita participando do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose Cursos e das dinâmicas da Oficina Santa Sede. Integrou a Associação São-Luizense de Autores (ASAS). Premiada em concursos literários regionais, tendo textos selecionados para coletâneas oficiais. Seus textos literários (contos e crônicas) e artigos acadêmicos foram publicados em diversas obras coletivas: Apesar de Nós (Coletânea de crônicas, 2024); Crônicas de Inverno (E-book de crônicas, 2023); Coletânea do 4º Concurso de Contos de Santo Ângelo (2018); Minicontos Coloridos (2015); Capítulos de livros e artigos jurídicos focados em direitos das mulheres, cidadania e inclusão social (ex: "A mulher no constitucionalismo brasileiro: marcha pelo direito a ter direitos").
A relevância do trabalho de Miriane Willers reside na intersecção humanista entre o Direito e a Literatura. Suas crônicas e contos abordam com sensibilidade as miudezas do cotidiano, memórias, o envelhecimento e o papel social da mulher. Ao usar a literatura como ferramenta de reflexão e denúncia social, ela humaniza o discurso jurídico e enriquece a produção cultural contemporânea do interior do Rio Grande do Sul.

Fontes:
Miriane Willers. Apesar de nós, Santa Sede – Crônicas de Botequim. Publicado originalmente em 2024.
Biografia = Escavador, Editora Ilustração, Site Miriane Willers, Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito.

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 7: Exclusão Social


Sob o frio da calçada,
deita o corpo sem abrigo.
Toda a noite fria e longa,
dorme, infeliz, o mendigo.
José Feldman – PR

A exclusão social é a consequência de todas as atitudes mesquinhas que viemos denunciando. É a síntese da falta de cidadania. Entre os excluídos sociais encontram-se os moradores de rua, os que não têm voz para gritar pelo seu direito de cidadania. São as vítimas da sociedade competitiva, onde os valores foram invertidos. Em que a dignidade humana foi lançada ao fosso do esquecimento. Onde a riqueza do mundo é abocanhada pelas minorias dominantes, sob o olhar indiferente dos que ainda poderiam se rebelar, mas preferem ver as injustiças regulamentadas em vez de abolidas.

Nesta minha caminhada
não me horroriza a violência,
mas a boca que calada
alimenta-lhe a existência.
Ângela Togeiro - MG

Ei-los vestidos de trapos
pedindo roupa e comida:
não são gente, são farrapos
nas reticências da vida!
Dias Monteiro - SP

Nos becos da iniquidade,
os órfãos do ter e ser
são frutos que a sociedade
semeia... e não quer colher!...
João Freire Filho - RJ
 
Bem mais triste que o lamento
de um velho e rouquenho sino
é o de quem dorme ao relento
sobre o leito do destino.
Sebastião Soares - RN

Só se vê naquela esquina
pedintes, gente sofrida,
carregando a triste sina
dos excluídos da vida.
Hélio Pedro Souza - RN

Nas noites frias, um drama
que a miséria perpetua:
alguns chamarem de cama
o que outros chamam... de rua!
Sérgio Ferreira da Silva - SP

Se todos fossem honestos
ninguém veria na praça
mendigos comendo restos
do pão que a miséria amassa.
Clarindo Batista de Araújo - RN

Bandeiras ornam a rua,
foguetões sobem ao céu;
porém a dor continua
de quem sempre vive ao léu,
Rodrigues Neto - RN

Perdoem-me os meus amigos,
nada tenho a festejar,
pois são milhões de mendigos
e ninguém para ajudar!
Juril Carnascíali - PR

Quantos banquetes regados
a vinho, trufa e salmão...
quantos irmãos relegados
sem água, sem luz, sem pão!
Francisco José Pessoa - CE

Denunciando o abandono e a exclusão social alguns trovadores o fazem com imagens tão poéticas que minimizam essa terrível condição.

Dorme o menor na calçada
e a rua se estende ao léu,
feito uma rede amarrada
aos dois extremos do céu!
Antônio de Oliveira - SP

Meu barraco na favela,
onde vou vivendo ao léu,
na moldura da janela
não tem vidraça, tem céu.
José Antônio Jacob - MG
 
Dois moradores de rua,
casados com a desventura,
ao relento, olhavam a lua...
- Olhar de quase ternura...
Gonzaga da Silva - RN
 
Uma família sem teto,
repartia o mesmo pão...
Mas sobrava sempre afeto,
no final da divisão...!
Mara Melinni Garcia - RN

Um casebre na favela...
O espaço ganhou fulgor
quando alguém pôs na janela
um simples vaso de flor!
Vanda Fagundes Queiroz - PR

Muito se tem falado em inclusão social, mas pouco se tem feito de modo eficiente. A lei por si só não garante a inclusão, fica apenas nos discursos ditos "politicamente corretos". O trovador protesta.

O bruxulear de uma chama
de vela, gasta e mortiça,
lembra o excluído que clama
por respeito e por justiça!
Angélica Villela Santos - SP

Tenham todos terra e teto,
sem preconceito ou fronteira
e que haja amor, não decreto,
para a inclusão verdadeira!
Therezinha Dieguez Brisolla - SP

Trabalho, teto, respeito...
Justiça, saúde, escola…
Meu povo quer, por direito,
jamais receber esmola!
Maria Cristina Corrêa - SP

É urgentíssima a inclusão
dos deserdados da vida,
dai-lhe a terra e a certidão,
identidade e guarida.
Francisco Macedo - RN

Mas excluídos não são apenas os moradores de rua. Parcelas significativas da sociedade vivem o processo de exclusão social. Numa tentativa de minimizar o abismo entre os poderosos e os excluídos, a Constituição e as leis procuram explicitar alguns direitos que deveriam livre e naturalmente ser praticados. E cria-se outro abismo, agora entre a intenção da lei e a sua efetividade.

Neste mundo de defeito,
no perpassar destes anos,
vivemos sem ter direito
aos tais "direitos humanos"!
Aloísio Bezerra - CE

Quando a miséria se expressa
em mão tímida que implora,
qualquer pão se faz promessa
que enxuga um oíhar que chora…
Elen de Novais Félix - RJ

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    LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019.
Livro enviado pelo autor.)

Nilto Maciel (As insolentes patas do cão)


Daquela noite lembro quase nada, tudo a se confundir na memória. Chego a pensar que foram muitas as noites, condensadas numa só ao longo do tempo e da angústia crescente. Às vezes ainda me digo: foi um sonho, foram muitos sonhos, misturados a lendas, histórias de trancoso, simples imaginações.

Brincávamos na sala, meus irmãos e eu, de trenzinho de caixas de fósforo, de bois e cavalos imaginários, de artista e bandidos de gibi, qualquer fantasia. E não existiam homens como nosso pai, nem mulheres como nossa mãe, e muito menos cachorros como aquele que nos apareceu de repente, patas à janela, a latir para dentro de nosso mundo.

O medo paralisou-nos e todos os brinquedos sumiram de nossos olhos, como se destruídos pela língua do diabo. Quis correr para os quartos, a cozinha, o quintal, agarrar-me às saias de minha mãe, meter-me entre as brasas do fogão, fugir pelo esgoto, ir bater nas grotas. Não movi um pé, enquanto meu irmão mais velho saltava feito um gato e agarrava as insolentes patas do cão, para empurrá-lo à calçada.

Tudo esforço inútil. Já meio corpo do bicho se debruçava na janela, a grande cabeça agitada, a boca cheia de baba, a latir dentro de casa.

O medo empurrou-me para os brinquedos e, num gesto nunca mais imitado, tomei ao bandido um facão, entreguei-o a meu irmão e ordenei que decapitasse o vira-lata.

Diante da ameaça, primeiro se escondeu a cabeça do outro lado da janela, depois as patas escorregaram, num ganido de covardia.

Corremos à janela e só vimos o pobre do cão, rabo entre as pernas, encolhido, apressado, de vez em quando a olhar para trás, perdido na escuridão da rua.

E por muito tempo nos deixamos debruçados na janela, olhos enfiados nas pedras do calçamento, esquecidos das fantasias espalhadas pela sala.

De mais nada consigo lembrar, se o trenzinho corria, se os bois mugiam, se os cavalos galopavam, se o artista e os bandidos se matavam, se nossos pais dormiam ou já haviam morrido, se o tempo passou, se fui eu que sonhei.

Só ficaram as patas do cão, garras apontadas para meus olhos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

(Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.)

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 5)

curso ministrado por José Feldman

5. AMBIENTES DO CONTO

Construir o ambiente de um conto é crucial para estabelecer a atmosfera e influenciar a narrativa. Aqui estão orientações sobre como criar ambientes adequados para contos de suspense, policiais, críticos, filosóficos e românticos, além de erros comuns a serem evitados.

5.1. CONTOS DE SUSPENSE

5.1.1. Ambiente:

5.1.1.1. Locais Isolados ou Ominosos: 
Como casas abandonadas, florestas densas ou cidades desertas.

5.1.1.2. Clima e Atmosfera: 
Use elementos climáticos (chuva, neblina) para intensificar a tensão.

5.1.2. Erros a Evitar:

5.1.2.1. Ambientes Genéricos: 
Não use descrições vagarosas que não contribuam para a tensão. Cada detalhe deve aumentar a sensação de medo.

5.1.2.2. Incoerência: 
O ambiente deve ser consistente com o tom da história. Um local muito familiar pode diminuir a emoção.

5.2. CONTOS POLICIAIS

5.2.1. Ambiente:

5.2.1.1. Cenários Urbanos: 
Áreas urbanas, como bairros com crime frequente ou locais do crime significativos.

5.2.1.2. Ambientes de Investigação: 
Salas de interrogatório, delegacias ou cenas de crime devem ser descritos detalhadamente.

5.2.2. Erros a Evitar:

5.2.2.1. Ambientes Superficiais: 
Não ignore os detalhes que poderiam enriquecer a investigação, como odores, sons e sentimentos associados ao local.

5.2.2.2. Falta de Variedade: 
Cenários repetitivos podem tornar o enredo maçante. Diferentes locais devem adicionar novas dimensões à trama.

5.3. CONTOS CRÍTICOS

5.3.1. Ambiente:

5.3.1.1. Cenários Sociais ou Culturais: 
Ambientes que refletem a crítica social, como cidades divididas, escolas ou espaços públicos.

5.3.1.2. Contexto Histórico: 
Usar épocas específicas para contextualizar a crítica e suas implicações.

5.3.2. Erros a Evitar:

5.3.2.1. Ambientes Impessoais: 
Não crie cenários que não estejam ligados emocionalmente aos personagens. O ambiente deve refletir suas lutas.

5.3.2.2. Falta de Conexão: 
O ambiente deve contribuir para a mensagem crítica, não ser apenas um fundo estético.

5.4. CONTOS FILOSÓFICOS

5.4.1. Ambiente:

5.4.1.1. Cenários Reflexivos: 
Locais que convidam à introspecção, como cafés, parques ou bibliotecas.

5.4.1.2. Ambientes Simbólicos: 
Espaços que refletem as questões filosóficas abordadas, como um deserto para simbolizar isolamento.

5.4.2. Erros a Evitar:

5.4.2.1. Ambientes Desconectados: 
Não use locais que não tenham relevância para os dilemas e reflexões dos personagens.

5.4.2.2. Superficialidade: 
Evite uma descrição que não crie uma atmosfera reflexiva e introspectiva.

5.5. CONTOS ROMÂNTICOS

5.5.1. Ambiente:

5.5.1.1. Locais Românticos: 
Praias, parques floridos, ou cafés aconchegantes onde os personagens se encontram e se conectam.

5.5.1.2. Cenários que Evoluem: 
O ambiente pode mudar conforme a relação evolui, refletindo o estado emocional dos personagens.

5.5.2. Erros a Evitar:

5.5.2.1. Ambientes Frios ou Hostis: 
Locais que não promovem a conexão emocional podem afastar o leitor.

5.5.2.2. Falta de Detalhes Sensorais: 
Não subestime a importância de criar uma atmosfera sensual ou calorosa que complemente a narrativa romântica.

5.6. CONSIDERAÇÕES

Os ambientes em contos devem ser cuidadosamente construídos para refletir o tom e o tema da narrativa. Ao evitar erros comuns, como descrições superficiais e locais incongruentes, os escritores podem oferecer ao leitor uma experiência imersiva e impactante. A interligação entre ambiente e trama é fundamental para criar uma narrativa envolvente.
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Continua…
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domingo, 9 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 29 *



  Ah, se o amor fosse comprado
tal como se compra um pão,
se eu não fosse afortunado,
seria um grande ladrão!...
A. A. DE PAULA
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Treinando, o punguista Zeca,
enquanto dança uma valsa,
consegue tirar a cueca
sem antes despir a calça!...
APARICIO FERNANDES
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Se há noites frias, escuras,
também há noites formosas;
há riso nas amarguras,
entre espinhos nascem rosas.
AUTA DE SOUZA
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Bem pouca gente procura
aceitar esta verdade:
— antes ser bom sem ventura,
que ser feliz sem bondade.
BATISTA NUNES
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O mérito da questão
foi por demais discutido,
e durante a confusão
o juiz tinha dormido...
BENTO VIEIRA DE MOURA
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Caro doutor, saiba disso:
se esse transplante malogra,
eu pago em dobro o serviço,
pois a velha é minha sogra...
CARLOS GUIMARÃES
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Um anjo veio e deu vida
ao peito de amores nu;
Minha alma agora remida
adora o anjo — que és tu!
CASIMIRO DE ABREU
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Não te deixes deslumbrar
pelo brilho da cidade;
podes ferir teu sonhar,
pois nem tudo é de verdade,..
DINA MARCHETTI ABAD
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É inverno… mas que me importa?
Estou sempre à tua espera…
Quando chegas e abro a porta
entra junto a Primavera!
DÉSPINA ATHANÁSIO PERUSSO
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Dona do maior afeto,
minha amiga doce e terna!
Eu vou baixar um decreto:
- toda mãe vai ser eterna!
DEYSE GOTTARDELLO
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Criança, crescida és,
vives de sonhos, também,
Tu, que tens o mundo aos pés,
serás o mundo de alguém!
DIRCEU AMARAL
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Nosso abismo mais profundo,
que no universo se espalma,
são as tristezas do mundo
nas profundezas da alma.
DILMA SUERO
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Quando a mulher o encontrou
atracado na empregada,
o cara-de-pau berrou:
— Me larga, negra tarada!
ÉLTON CARVALHO
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Jornalista dá notícia
sem fazer dela mistério.
E se é linguagem fictícia
usa seu melhor critério.
EMÍLIO SOARES DA COSTA
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Tem tudo; fortuna imensa,
honras, prestígio, nomeada,
Com o amor… indiferença,
Pobre rico! Não tem nada!…
ESMERALDO SIQUEIRA
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Não tenho televisão,
mas tenho "televizinha"...
E numa programação
que vai a noite inteirinha!
ENÉAS NUNES DE BARROS
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No universo da poesia
desejei veredas novas,
e encontrei o que eu queria,
ao lançar o anzol nas trovas.
ENIVALDO BORGES DA SILVA
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É nas horas do langor,
quando o sonho faz-se extinto,
que se troca um grande amor
por um cálice de absinto!
ÉRICO MAGALHÃES DO AMARAL
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Nesta casa, que é só minha,
onde eu mesmo sou a lei,
obedeço a uma rainha,
muito embora eu seja o rei...
ERNÂNI RUSHEL
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Ajuda aos pobres, amigo,
sem mesquinhez ou ambição.
— O pobre, ao cruzar contigo,
é Deus que te estende a mão!...
GALDINO ANDRADE
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No momento da partida
deixaste por maldição,
uma saudade dorida
dentro do meu coração.
ISAIAS TEVES
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Esquecendo a Lei Divina,
aquele padre — essa é boa! —
Abandonou a batina,
mas... conservou a coroa!
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA
= = = = = = = = = 

A morte é o triste momento
de uma dívida assumida.
É o dia do vencimento
das quatro letras da vida!
LAMARTINE BABO
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Eis que o destino descobre
a sorte que Deus me deu:
- Ninguém na vida é mais pobre
e nem mais feliz que eu!
LATOUR AROEIRA
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Sonhando novas auroras,
no meu viver sem ninguém,
me embala a dança das horas
pelo amanhã que não vem..,
LAVÍNIO GOMES DE ALMEIDA
= = = = = = = = = 

Fim da estrada... hoje tristonho
eu constato e a voz se cala;
a mão que agarrava o sonho,
hoje segura a bengala…
LEDA BECHARA
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Sei que o Inferno é muito grande,
cabe mais um ou mais dois.
— Se por acaso eu for antes,
tu poderás ir depois...
OZIEL PEÇANHA
= = = = = = = = = 

Da morte ninguém escapa,
por isso não tenho medo.
Só peço que ela não venha
me procurar multo cedo...
ROBERTO FERNANDES
= = = = = = = = = 

Seis horas... Vem a Saudade...
Rio antigo... Praça Onze...
Os sinos, pela cidade,
choram lágrimas de bronze...
VASCO DE CASTRO LIMA
= = = = = = = = = 

Na demanda da ternura,
motivo... meus sonhos lassos,
indo de encontro à ventura
na curva dos teus abraços...
VANDA ALVES DA SILVA
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Aprecio o casamento,
mas num plano secundário.
Casou? Deu festa? Eu frequento,
mas fico celibatário...
ZEDANOVE TAVARES
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