FÁTIMA VENUTTI
Blumenau/SC
Recado
Entre os corpos,
Entre os astros,
Entre as estrelas...
Sob o mar,
Sob o azul,
Sob o luar...
Então, o amor.
Então, o nascer.
Então, o encontrar.
Eu estarei
eternamente
A te embalar
Em meus fictícios
Versos a voar...
Tua
Nua
A te esperar
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Soneto de
HEGEL PONTES
Juiz de Fora/MG (1932 – 2012)
A alma da pedra
Longa pesquisa. E o mestre hindu descobre
que existe uma fadiga nos metais;
que o descanso renova, do ouro ao cobre,
o reino singular dos minerais.
Eu também sinto que a matéria encobre
estranhas vibrações emocionais.
É que a pedra tem alma, simples, nobre,
sonhando evoluções espirituais.
E a alma da pedra imóvel é a energia
que evolui, na ilusória letargia,
entre seres gigantes e pigmeus.
E sonha, nos milênios que a consomem,
ser um cacto que sonha ser um homem,
ser um homem que sonha ser um Deus.
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Poema de
PEDRO DU BOIS
Passo Fundo/RS, 1947 – 2021, Balneário Camboriú/SC
Palavras
Ásperas
ditas como ordens
assustadas
macias
ditas como esperas
controladas
raivosas
ditas como verdades
escancaradas
melífluas
ditas como mentiras
dissimuladas
rezadas
ditas como saudades
santificadas
cantadas
ditas como músicas
silenciadas
caladas
ditas como lembranças
extremadas.
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Trova Popular
Carvalho que dá bugalho,
porque não dás coisa boa?
Cada um dá o que tem,
conforme a sua pessoa.
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)
A um poeta moço
Desanimado, entregas-te, sem norte,
Sem relutância, à vida; e aceitas dessa
Torrente que te arrasta — a só promessa
De ir lentamente desaguar na morte.
Que pode haver, em suma, que te impeça
De seguir o teu rumo contra a sorte?
Sonha! e a sonhar, e assim armado e forte,
Vida e mágoas, incólume, atravessa.
Ouve: da minha extinta mocidade
Eu, que já vou fitando céus desertos,
Trouxe a consolação, trouxe a saudade,
Trouxe a certeza, enfim, (se há sonhos certos)
De ter vivido em plena claridade
Dos sonhos que sonhei de olhos abertos.
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Poema de
FERNANDO JOSÉ KARL
Joinvile/SC
O jardim suspenso
Atirei pedra no sopro,
que fez da pedra uma ode.
Menos palavras, mais sopros,
porque o invisível é simples amor
coberto de flores na curva do vento.
Palavras são visíveis,
com elas posso ler o que passa
por dentro e por fora do jardim suspenso.
Prefiro palavras a sopros,
porque de sopros o poço é cheio,
e não haveria sopros e poço sem palavras.
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Soneto de
ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO
Ouro Preto/MG, 1870 – 1921, Mariana/MG
Momento
Minha amada tão longe! Com franqueza:
eu penso sempre em me mudar daqui.
Pôr na sacola o pão que está na mesa,
sair vagabundando por aí.
A luz do quarto ficará acesa.
(Foi neste quarto que eu me conheci...)
Deixarei um bilhete sobre a mesa,
dizendo a minha mãe por que parti.
Ah! ir cantando pelo mundo afora,
como um boêmio amigo das cantigas,
alma febril que a música alivia!
Se perguntarem, digam: "Ainda agora
saiu buscando terras mais amigas,
mas é possível que ele volte um dia."
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Poema de
HUGO MUND JUNIOR
Mafra/SC
Um único verso
Um único verso sustenta
o equilíbrio do pássaro,
celebra a queda da folha
ao chão, brilha no coração
ilícito. Um único verso
sangra o papel em branco.
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Soneto de
EMILIANO PERNETA
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR
O brigue
Num porto quase estranho, o mar de um morto aspecto,
Esse brigue veleiro, e de formas bizarras,
Flutua há muito sobre as ondas, inquieto,
À espera, apenas, que lhe afrouxem as amarras...
Na aparência, a apatia amortece-lhe o esforço;
Se uma brisa, porém, ao passar, o embalsama
Ei-lo em sonho, a partir, e, então, empina o dorso,
Bamboleia-se, mais gentil do que uma dama...
Dentro a maruja acorda ao mínimo ruído,
Deita velas ao mar, à gávea sonda, o ouvido
Alerta, o coração batendo, o olhar aceso...
Mas a nau continua oscilando, oscilando...
Ó quando eu poderei, também, partir, ó quando?
Eu que não sou da Terra e que à Terra estou preso?
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Poema de
JUVÊNCIO MARTINS COSTA
Florianópólis/SC (1850 — 1882)
Sonho (II)
Tranquilo o coração adormecera
Na doce languidez de um beijo ardente. . .
Entre sonhos de flor beijara a crença
A perfumar minh' alma incandescente.
E amei a vida, respirei das auras
O tépido frescor, banhando a fronte
Da formosa mulher, por quem meu peito
Estremece de amor, tão puro, insonte.
E amei o sonho desfolhando risos,
Almo* prenúncio d' almo encantamento;
E minh' alma jaze o imersa em gozo,
Numa luta febril com o pensamento.
E a sonhar vi a imagem predileta
Por entre sombras de uma luz fulgente;
Nus os seios tremendo de volúpia,
E no lábio a brincar beijo inocente.
E a voz tremente balbucia um termo, —
Repassado de aromas e ambrósias,
Termo tão doce como sons de harpa
Desprendendo ignotas harmonias.
Esse termo exprimira a majestade
De um profundo sentir, d'alma arrancado:
Amor em cujos elos se enlaçara
O coração do vate apaixonado.
Termo tão doce a revelar carinhos,
Desprendido de lábios sedutores;
Termo a deslumbrar meu lindo sonho,
Ventura a reviver num céu de amores!
Ouvi a frase rebentar dos lábios:
Eu sou o teu amor, amo-te tanto!
Não sei o que senti: em doce arroubo
Contemplei a mulher, celeste encanto!
Era um anjo: sobre a nívea espádua
Vi roçar seu cabelo brandamente. . .
Nos seus olhos o brilho que cintila
Fogo de amor que queima e não se sente!
Ai! Cedo se turvou a crença d'alma,
Breve se transformou o encantamento. . .
Acordei-me do sonho e não vi nada.
E sinto arder em febre o pensamento!
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* almo = santo.
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Hino de
Barra do Piraí/RJ
Em dez de março de noventa,
Um sonho fez-se realidade.
Sem a menor visão sangrenta,
Surgiu a tua liberdade.
E tu, outrora tripartida,
Rompeste em marcha triunfante.
E nesta luta pela vida
Foste um exemplo edificante.
Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!
Entre colinas verdejantes,
Ricas, tão ricas de beleza,
Com teus dois rios coleantes,
És um primor da natureza.
Terra feliz, feliz e calma,
Sob este céu sempre de anil,
Tu és a cidade que tem alma,
Ó meu pedaço do Brasil!
Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!
Ó terra minha, berço amado!
Ó meu torrão bem brasileiro!
Cheio de glória no passado
E de futuro alvissareiro!
À luz da tua própria história,
O teu caminho percorrido
É rumo certo para a glória
Deste Brasil estremecido!
Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!
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Soneto de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
Estrada afora
Ela passou por mim toda de preto,
Pela mão conduzindo uma criança...
E eu cuidei ver ali uma Esperança
E uma saudade em pálido dueto.
Pois, quando a perda de um sagrado afeto
De lastimar esta mulher não cansa,
Numa alegria descuidosa e mansa,
Passa a criança, o beija-flor inquieto.
Também na vida o gozo e a desventura
Caminham sempre unidos, de mãos dadas,
E o berço, às vezes, leva à sepultura...
No coração — um horto de martírios!
Brotam sem fim as ilusões douradas,
Como nas campanhas desabrocham lírios.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França
O lavrador e seus filhos
Um lavrador sentindo vir chegando
O fim da sua vida, e desejando
Que os filhos trabalhassem na cultura,
Chamou-os, e lhes disse: «A sepultura
Por instantes me espera: os bens, que tinha,
Enterrados estão na nossa vinha.»
Morto o pai, e tendo eles suspeitado
Que algum grande tesouro sepultado
Lhes deixava na vinha, aparelharam
Enxadas, e solícitos cavaram.
Não acharam tesouro, é bem verdade;
Mas a vinha deu tanta novidade,
Que se pode dizer que foi tesouro,
Segundo o que rendeu de prata e ouro
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