sábado, 10 de outubro de 2026

Asas da Poesia * 220 *


Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN (1934 – 1996) Rio de Janeiro/RJ

Dia a dia vai se impondo
este conceito batata:
A terra é um mundo redondo
repleto de gente chata…
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Poema de
AMÁLIA PEITIGUARY
(João Francisco Coelho Cavalcanti – “João Barafunda”)
São Luiz do Quitunde/AL (1874 – 1938) Rio de Janeiro/RJ

Árvore antiga

Esta árvore que vês, já desfolhada,
Pobre, batida pelo tempo, outrora
Guardou muitos segredos e adorada
Foi, como aquela que acolá vigora.

E, sem receio, a ela a passarada
Que trina ao longe, que a despreza agora,
Seus ninhos confiou. Árvore, coitada,
És velha triste, ninguém mais te adora!

Meu coração também, outrora cheio
De sonhares gentis, alimentado
Por um constante e amoroso enleio,

Como tu vive triste desprezado,
E nele eu hoje tristemente leio
A mesma sina tua, o mesmo estado.
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Trova de 
AMARYLLIS SCHLOENBACH
São Paulo/SP

Na busca eterna da paz,
a humanidade se enterra;
seus próprios sonhos desfaz
na luta inglória da guerra!
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Poema de 
ROBERT FROST
São Francisco/EUA (1874 – 1963) Boston/EUA

Num cemitério em desuso

Os vivos vêm pisando a grama,
vêm ler no morro as inscrições;
o cemitério ainda os atrai;
os mortos é que não vêm mais.

 Os versos nele se repetem:
“Aqueles que hoje vivos vêm
a ler as pedras e se vão
mortos é que amanhã virão.”

Certas da morte as lousas rimam,
mas não sem deixar de notar
que nenhum morto já não vem.
Do que é que os homens medo têm?

 Seria fácil ser esperto
e lhes dizer: "Eles detestam
a morte, e já não entram nela."
Talvez caíssem na esparrela.
(Tradução: Renato Suttana)
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Trova de
MIFORI
(Maria Inês Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Meu passeio de bom dia
são estradas que ora faço,
combatendo a nostalgia
em cada lugar que passo.
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Poema de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Eu era feliz e não sabia

Nasceu o dia e o sol é tímido nesta hora...
Levantei tarde e vejo ali o velho mar
que se estende distante, universal, afora,
sem me deixar saber onde vai terminar...

Tem seus segredos que nem posso imaginar...
Talvez o pranto da Humanidade que chora
carrega triste e vai levando sem cessar,
como alguém que tem pressa, assim, de ir-se embora...

Mas é meu companheiro em horas de saudade,
quando as recordações preenchem minha existência
e me transportam à ditosa mocidade...

Tudo passou e agora enfrento com paciência,
o que restou, enfim, dessa felicidade
que havia em minhas mãos, de que eu não tinha ciência…
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890 - 1969, São Paulo/SP

Histórias de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
passa sem parar.
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Soneto de
SILVESTRE PÉRICLES DE GÓES MONTEIRO
São Luiz do Quitunde/AL (1896 — 1972) Rio de Janeiro/RJ

Nuvem de amor

Passaste como nuvem cor de rosa
no firmamento azul, em horas mansas.
Da graça, comovida e luminosa,
retrataste a doçura das lembranças.

E conduziste os sonhos meus, formosa,
e a centelha de afeto, em que descansas.
Talvez sejas feliz ou inditosa,
Tu, que levaste as minhas esperanças.

Fico-me só. Sozinho, e suave, e triste...
Mas, neste peito, há vibrações sadias
do que foi, e será, e agora existe...

Cardos e flores, com que o ser se junca,
resultam, pela vida, em harmonias,
se o amor, no coração, não morre nunca.
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Trova de
CAMPOS SALES
Lucélia/SP, 1940 – 2027, São Paulo/SP

“Boteco é a maior desgraça”,
grita o padre em tom agudo;
“Acabem com a cachaça”.
Grita o bebum: “Eu ajudo!”
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Poema de
HELENA KOLODY
Cruz Machado/PR (1912 – 2004) Curitiba/PR

Infância

Aquelas tardes de Três Barras
Plenas de sol e de cigarras!

Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros,
No áspero tronco dos pessegueiros.

A chuva-de-ouro
Era um tesouro,
Quando floria.
De áureas abelhas
Toda zumbia.
Alfombra flava
O chão cobria...

O cão travesso, de nome eslavo,
era um amigo, quase um escravo.

Merenda agreste:
Leite Ciroulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.

Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda acorria
Para cantar, no imenso terreiro:
"Mais bom dia, Vossa Senhoria"...
"Bom barqueiro! Bom barqueiro..."
Soava a canção pelo povoado inteiro
E a própria lua cirandava e ria.

Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair,
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!

No riacho claro, às segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(Ai, ai, que susto! Virgem Maria!)

Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...

Longínqua infância... Três Barras
Plena de sol e cigarras!
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Trova de
DOMITILA BORGES BELTRAME
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP

O nosso amor escondido,
sem promessa de aliança,
tem o sabor proibido
da fruta da vizinhança!…
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Poema de
DAILOR VARELA
São Paulo/SP

Novos poemas de um velho poeta

Persegue-me
Um vazio imóvel
Tenho medo de me dissolver
Em tédio
O sobrenome
Traduz memórias
Que o homem leva pela vida
Inutilmente
Só há no nome:
O próprio homem.
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Haicai de
OLIVALDO JUNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Roseira crestada, 
Sem botões, nem folhas verdes: 
Floreira sem nada. 
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Poema de
AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ

O Coração do Poeta

Todo poeta tem mil corações,
cada um com sua chave e seu segredo
onde acomoda as também mil paixões
que lhe inspiram os versos desde cedo.
Mesmo quando está com a casa cheia
mais um dos seus castelos de areia
constrói num cantinho do seu peito.
Um poeta é insaciável, é seu jeito
porque é preciso, pra fazer poesia,
que arda nele um fogo de paixão,
e dessas chamas sairão poemas
que, mesmo abordando muitos temas,
poucas palavras de amor resumirão.
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Trova de 
OLGA AGULHON
Maringá/PR

Faça chuva ou faça sol,
barro ou poeira na estrada,
se você for meu farol,
continuo a caminhada.
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Mensagem na Garrafa 214 = O Leão e o Ratinho


Autor Anônimo

Alguns ratinhos brincavam de esconder. O menor deles saiu correndo em busca de esconderijo onde ninguém o encontrasse. Viu algumas rochas e ficou muito alegre por encontrar também uma caverna. Só muito tarde percebeu que a rocha era um leão dormindo, e que a caverna era a boca aberta do leão.

O felino ficou muito bravo por ter sido acordado e disse que iria castigar tanto atrevimento. O ratinho pediu desculpas.

- Prometo que isso não vai acontecer nunca mais.

O leão perdoou o ratinho. Alguns dias depois acordou novamente com os guinchos e as correrias, pensou: "Vou dar uma lição nesses ratinhos, e se os pais deles não gostarem, morrerão também."

Acontece que os caçadores esperavam por ele há vários dias. Quando ele passou debaixo de uma árvore, jogaram a rede e o prenderam. Ele fez de tudo para sair mas foi impossível. Os caçadores deixaram o leão na rede e foram avisar seus companheiros. 

O leão lutou muito tempo, e seus rugidos estremeceram a floresta. Depois, cansado, ficou triste. Sabia que os homens iriam matá-lo ou então o levariam para algum zoológico bem longe.

Passado algum tempo, o Leão ouviu uma voz junto de seu ouvido.

Era o Ratinho.

- Leão, vim tirar você dessa armadilha.

Não acreditou. Como um animal tão insignificante poderia ajudá-lo?

- Chame alguém maior e mais forte. Você nunca conseguirá me tirar daqui - rugiu o leão.

- Sou pequeno mas tenho os dentes afiados - disse o ratinho.

O Ratinho roeu então as malhas da rede, uma por uma. Algum tempo depois o buraco ficou grande e o leão pode escapar. 

Quando os caçadores voltaram, a rede estava vazia.

MORAL: 
Algumas vezes o fraco pode ajudar o forte

Silmar Bohrer (Croniquinha) * 173 *

Tantos querem definir felicidade, mas eu penso que é impossível. Ela define-se por si mesma. Mas perguntamos - o que é felicidade?  Como surge?  De onde vem? Tenho cá(qui) comigo que já nascemos absorvendo felicidade. Do bafo da mãe, dos avós e outros achegados. Porque a vida também é feita de bafinhos...  De felicidades. E aí começa tudo.  

Segundo a ciência, a felicidade libera neurotransmissores associados ao bem-estar. Os estudiosos, como Carl Jung, dizem que "mais do que um pico passageiro de euforia, é uma conquista diária que equilibra bem-estar mental e satisfação".       
Esse bem-estar não chega por acaso, é produzido e insuflado por nós mesmos, no dia a dia, na convivência, no trabalho, no divertimento, risos, gargalhadas, produzindo alumbração, deslumbramentos.

Ou alguém acha que sozinhos, longe de tudo, seríamos felizes ?!   
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Silmar Bohrer (1950)
O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Leon Eliachar (Conheça-se a si mesmo)


VOCÊ É NERVOSO?

1 - Você buzina uma fração de segundo após abrir o sinal, porque acha que o carro da frente não quer andar?

2 - Você acha que o sujeito de trás é um imbecil, quando se dá o inverso: isto é, quando você está na frente e ele buzina atrás?

3 - Você tem vontade de sair do carro e massacrar o motorista de cada táxi que lhe dá uma "fechada"?

4 - Você acha realmente que todo pedestre que atravessa na frente de seu carro é um idiota?

5 - Você tem vontade de abandonar o carro pro resto da vida, quando fura um pneu no meio da estrada?

CONCLUSÃO: 
Se respondeu "sim" a todas as perguntas, você não é, absolutamente, um nervoso, mas simplesmente um motorista. Se respondeu "não" a qualquer das perguntas, siga este conselho: por que não compra um carro?

VOCÊ É MEDROSO?

1 - Quando alguém fica batendo com o pé na sua poltrona, num cinema você evita reclamar por que aí mesmo é que o sujeito pode insistir?

2 - Quando o elevador enguiça entre dois andares e a campainha de emergência não funciona, você grita por socorro ou senta calmamente e espera que o porteiro descubra que o elevador enguiçou?

3 - Quando o dono da casa abre a porta pra você entrar, você vai logo perguntando se tem cachorro?

4 - Quando você está acompanhado de uma moça, evita passar no meio de um grupo de rapazes, com receio que deem piadinhas para ela e você tenha de tomar uma atitude?

5 - Quando você vai à praia e vê, no posto, uma bandeirinha vermelha, deixa de cair n'água?

CONCLUSÃO: 
Se você respondeu "sim" a todas estas perguntas, desculpe, mas é muito chato. Se respondeu "não” é mais chato ainda, parque demonstrou que não teve nem coragem pra responder "sim".

VOCÊ TEM COMPLEXO DE INFERIORIDADE?

1 - Quando você vê na praia um atleta, pensa intimamente que, amanhã vai começar a fazer ginástica?

2 - Quando sua calça rasga-se na rua, fica constrangido por que podem pensar que você já saiu com ela assim de casa?

3 - Quando você vê uma mulher muito bonita, pensa logo na sua - que não é tanto - mas fica satisfeito mesmo com a que tem, por que acha que não pode ter melhor?

4 - Quando você se olha no espelho, de manhã, procura se justificar de que a que vale mesmo é a simpatia?

5 - Se você é casado, deixa de confessar isso, num grupo de solteiros, com vergonha que pensem que você é otário, ou se é solteiro, também esconde, com receio que pensem que você não conseguiu casar?

CONCLUSÃO: 
Se você respondeu "não" a todas estas perguntas, não se preocupe, você não tem complexo de inferioridade; se respondeu "sim", pode começar a se preocupar, porque se você não tinha complexos vai começar a ter, agora.

VOCÊ TEM BOA MEMÓRIA?

1 - Você se lembra em que dia da semana conheceu sua mulher?

2 - Você se lembra do número do telefone da sua primeira namorada?

3 - Você se lembra do número de páginas que tinha o primeiro livro que você leu?

4 - Você se lembra com quantos dias de atraso recebeu o seu primeiro ordenado?

5 - Você se lembra de que cor era o vestido de sua tia mais velha, no dia em que você caiu da bicicleta pela primeira vez?

CONCLUSÃO: 
Respondeu-se "sim" a todas as perguntas, esteja certo: você é um fenômeno. Mas se você argumentar que não pôde responder por que nunca leu um livro, sempre recebeu em dia e nunca levou tombo de bicicleta, então esteja mais certo ainda: Você é um fenômeno muito maior.

VOCÊ É DISTRAÍDO?

1 - Você costuma reparar quando sua mulher, noiva ou namorada põe um vestido novo?

3 - Você costuma se lembrar, exatamente, em que pedaço do filme chegou ou tem que ver mais um pedacinho?

5 - Você costuma, todo ano, cair no dia primeira de abril?

2 - Você tem o hábito de atravessar a rua sem olhar para os dois lados?

4 - Você costuma conversar com uma pessoa durante horas, sem prestar atenção, tentando descobrir de onde é mesmo que você a conhece?

CONCLUSÃO: 
Se você respondeu "sim" ou "não" a qualquer destas perguntas, isso não tem a menor importância; mas se você não reparou que a numeração deste último teste está completamente alterada, então, meu caro, você não é um distraído, é mais que isso: é um ceguinho. E daí, vai bater?
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Leon Eliachar (1922 – 1987)
Leonit Eliachar, imortalizado na literatura brasileira simplesmente como Leon Eliachar, foi um dos mais brilhantes escritores, cronistas e jornalistas de humor do Brasil. Autodenominado brincando como um "cairoca", ele marcou época na imprensa nacional com um estilo inovador, visual e repleto de nonsense. Nasceu na cidade do Cairo/ Egito em 1922. Teve um fim trágico e prematuro aos 64 anos. Foi assassinado no Rio de Janeiro em de 1987, vítima de uma emboscada armada por motivos passionais, crime encomendado por um fazendeiro paranaense.
Mudou-se com a família para o Brasil com apenas 10 meses de idade. Fixou residência e viveu praticamente toda a sua vida na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Apesar de ser profundamente brasileiro em sua escrita, consta que ele nunca se naturalizou oficialmente. Leon iniciou na imprensa muito jovem, aos 16 anos. Atuou como jornalista, colunista, crítico de cinema, produtor de rádio e roteirista de televisão. Ele trabalhou nos principais veículos de comunicação de massa do país nas décadas de 1950 a 1980. Escreveu para revistas de grande circulação como O Cruzeiro, Manchete, Fatos & Fotos, Fon-Fon e Pif-Paf. Marcou época no histórico jornal Última Hora, onde assinava a página humorística "Penúltima Hora", que trazia o subtítulo satírico: "um jornal feito na véspera". Foi roteirista e autor de programas humorísticos nas grandes redes nacionais, incluindo as TVs Tupi, Excelsior, Rio, Globo e SBT, além das rádios Tupi e Mayrink Veiga.
Sua trajetória na literatura foi marcada por crônicas rápidas, aforismos, microcontos e, principalmente, pelo humor gráfico. Ele revolucionou o formato de seus livros ao misturar texto com diagramações inusitadas, colagens, fotografias e ilustrações. Devido ao seu perfil voltado ao jornalismo popular, à crônica de humor e ao rádio, não pertenceu às academias tradicionais de letras. Seu verdadeiro reduto intelectual eram as redações cariocas e a boemia literária, ao lado de grandes nomes do humor brasileiro. Atualmente, seu legado acadêmico está preservado no arquivo pessoal doado à Fundação Casa de Rui Barbosa. Recebeu a Palma de Ouro (1956): O maior reconhecimento de sua carreira ocorreu na Europa, onde venceu o primeiro prêmio da IX Exposição Internacional de Humorismo, em Bordighera, Itália. Ele foi premiado por uma genial definição de humor. Publicou cinco volumes autorais marcantes e uma importante antologia em parceria: O Homem ao Quadrado (1960); O Homem ao Cubo (1963); A Mulher em Flagrante (1965); O Homem ao Zero (1967); 10 em Humor (1968): Livro antológico escrito em conjunto com a nata do humor nacional: Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta, Ziraldo, Henfil, Jaguar, Fortuna, etc.; O Homem ao Meio (1979)
A importância de Leon Eliachar reside em seu papel como pioneiro do modernismo gráfico no humor literário brasileiro. Ele antecipou conceitos de design e linguagem visual que hoje são comuns na literatura contemporânea. Eliachar tirou o humor do formato puramente textual da crônica clássica e o transformou em uma experiência visual, brincando com formas geométricas, tipografia e montagens fotográficas irreverentes. Ao lado de gênios como Millôr Fernandes e Stanislaw Ponte Preta, ele usou a sátira inteligente e o nonsense para fazer a sociedade olhar no espelho. Suas piadas rápidas e "sacadas" ácidas expunham as contradições do cotidiano, da política, do sexo e da economia sem a necessidade de discursos longos. Sua obra provou que o humor gráfico e a crônica curta possuem altíssimo valor literário e sociológico.
Fonte:
Leon Eliachar. O homem ao quadrado. Publicado originalmente em 1960.
Biografia = TV Saudades; Wikipedia, Recanto das Letras, Museu da TV, Casa Rui Barbosa, etc.

José Feldman (Chafariz de Versos) * 2 *



13 – Falcão Peregrino

Pela vida caminhando
construindo o meu destino,
tantas sandálias calçando...
Sou um falcão peregrino!
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14 - Caminhada pela vida afora

Caminhando pela senda do destino,  
passos firmes, coração a pulsar,  
cada curva, um novo desatino,  
na trilha da vida vamos sonhar.

Os desafios são pedras no chão,  
nos ensinam a força do viver,  
com coragem seguimos a canção,  
e em cada passo há muito a aprender.

A brisa suave traz ecos de esperança,  
e a luz do sol ilumina com carinho,  
Na jornada, a vida é uma dança,  
cada minuto, um precioso caminho.

Assim seguimos, com fé e amor,  
pela vida afora, em busca sublime da flor.
= = = = = = = = = = = = = =  

15 - Alma Inquieta

Alma inquieta, que busca e não cessa,  
vaga entre sonhos, na sombra e na luz,  
teus anseios como ventos que expressa,  
navegam em mares onde o coração seduz.

A mente aflita em busca do ser,  
questiona o mundo, desafia o céu,  
cada resposta é um novo renascer,  
na dança da vida, o eterno véu.

Em cada suspiro, um eco profundo,  
a inquietude é chama que arde e queima,  
desperta a coragem que move o mundo,  
e a busca incessante se torna uma teima.

Alma inquieta, que nunca se aquieta,  
no amor e na vida, sempre se completa.
= = = = = = = = = = = = = =  

16 - Alma de Criança

Alma de criança, pura e sonhadora,  
teus olhos brilham com a luz da inocência,  
brincadeiras e risos, vida encantadora  
em cada instante, um mundo de essência.

A natureza é teu fiel abrigo,  
cores e sons dançam em tua mente,  
O encanto do amor é sempre amigo,  
E a vida é um sonho doce e latente.

Com coração aberto vais explorar  
os mistérios que a vida tem a oferecer,  
na simplicidade, o saber a brotar  
e na alegria, o amor a florescer.

Alma de criança, eterna e bela,  
teu riso é a luz que sempre se revela.
= = = = = = = = = = = = = =  

17 - Beleza Interior

A beleza interior é luz que não se vê,  
reflete a bondade que há em teu ser,  
Teus gestos sutis como o amanhecer,  
transformam o mundo, ensinam a viver.

Não é a aparência que brilha em ti,  
mas a essência que toca o coração,  
A alma que ama, que sabe e que há em si,  
faz da vida um ato de compaixão.

Em cada sorriso há um eco profundo,  
a verdadeira beleza é a que não cansa,  
que enriquece a vida, que abraça o mundo,  
e traz paz e amor, eterna esperança.

Celebremos a luz que em ti se revela,  
beleza interior, eterna e singela.
= = = = = = = = = = = = = =  

18 - A Luz da Poesia

No compasso do meu anseio,
a poesia dança com fervor,
em cada rima, um doce enleio
de aquecer o meu interior.
Com seu tom, eu me entrego,
encontro paz, me faz sonhar,
é um amor que eu não renego,
um laço forte, um despertar,
na poesia, circunavego,
e a vida volta a brilhar.
= = = = = = = = = = = = = =  
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
José Feldman (1954)
Nascido em São Paulo, capital, JOSÉ FELDMAN é um escritor, poeta, trovador,  professor, enxadrista e gestor cultural radicado no Paraná desde 1999. Sua trajetória literária e profissional foi moldada por influências familiares precoces, orientação de nomes como André Carneiro, Izo Goldman, Eunice Arruda e Artur da Távola, além de uma sólida formação multidisciplinar e atuação de destaque no xadrez e na promoção cultural. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (Excerto Biográfico por Cailin Dragomir)

Artur da Tavola (Conversando com Deus)

Nestes tempos de loucura guerreira, a gente deve buscar refúgio também nas crianças. Elas são sempre a consequência trágica das guerras. Mesmo quando não estão no campo das mesmas. Fui criança em 1940 e hoje, sessenta anos depois ainda me recordo do rádio de meu pai, com notícias da Segunda Guerra Mundial e do meu susto pois não sabia o que queria dizer "lá longe". Acreditava que “longe” era o que ficava além do Túnel Novo.

Mas recebi de um mensageiro da Internet chamado Müller (não deu outras informações acerca de si mesmo) esta deliciosa tradução de algumas frases de crianças. Nada tem a ver com a guerra. É só para vermos como são criativas as crianças e pensarmos nas que morrem por causa dos delírios humanos, o maior dos quais é a guerra e seu estúpido cortejo de destruição.

CARTINHAS PARA DEUS: cartas reais para Deus escritas por crianças
(traduzidas de original em inglês):

1. Querido Deus, Eu não pensava que laranja combinava com roxo até que eu vi o pôr-do-sol que Você fez terça- feira. Foi demais! (Eugene)

2. Querido Deus, Você queria mesmo que a girafa se parecesse assim ou foi um acidente? (Norma)

3. Querido Deus, Em vez de deixar as pessoas morrerem e ter que fazer outras novas, porquê você não mantêm aquelas que você tem agora? (Jane)

4. Querido Deus, Eu fui a um casamento e eles beijaram dentro da igreja. Tem algum problema com isso? (Neil)

5. Querido Deus, Obrigado pelo meu irmãozinho, mas eu orei por um cachorrinho. (Joyce)

6. Querido Deus, Choveu o tempo todo durante as nossas férias e como meu pai ficou zangado! Ele disse algumas coisas sobre você que as pessoas não deveriam dizer, mas eu espero que você não vá machucá-lo. Seu amigo (mas eu não vou dizer quem eu sou)

7. Querido Deus, Por favor, me mande um pônei. Eu nunca te pedi nada antes, Você pode checar. (Bruce)

8. Querido Deus, Eu quero ser igualzinho ao meu pai quando eu crescer, mas não com tanto cabelo no corpo. ( Sam)

9. Querido Deus, Eu penso em Você de vez em quando, mesmo quando não estou orando. (Elliott)

10. Querido Deus, Eu aposto que é muito difícil para você amar a todas as pessoas no mundo. Na nossa família tem só quatro pessoas e eu nunca consigo... (Nan)

11. Querido Deus, Meus irmãos me falaram sobre nascer de novo, mas soa muito estranho. Eles estão só brincando, não é? (Marsha)

12. Querido Deus, Se Você olhar para mim na igreja domingo, eu vou te mostrar meus sapatos novos. (Mickey)

13. Querido Deus, Nós lemos que Thomas Edison fez a luz. Mas na escola dominical nós aprendemos que foi Você. Eu acho mesmo que ele roubou sua ideia. Sinceramente, (Donna)

14. Querido Deus, Eu não acho que alguém poderia ser um Deus melhor que você. Bem, eu só quero que saiba que não estou dizendo isso porque você já é Deus. (Charles)

15. Querido Deus, Talvez Caim e Abel não matassem tanto um ao outro se eles tivessem seu próprio quarto. Isso funciona com meu irmão. (Eddie)

Fonte:
http://intervox.nce.ufrj.br/~jobis/a-conv.html. Acesso em 26.03.2008

Estante de Livros (“Lisbela e o Prisioneiro”, de Osman Lins)

Osman Lins participou da vida literária e cultural do Brasil entre 1955, quando publicou seu primeiro romance, O visitante, até sua morte, a 08 de julho de 1978. Autor de uma obra vasta e variada (contos, romances, novelas, peças de teatro, livros de viagem, poesias, casos especiais para televisão, ensaios e artigos), este pernambucano de Vitória de Santo Antão sempre deixou claro que a menina de seus olhos era a ficção narrativa.

De fato, contos e romances foram objeto de extrema dedicação, imune a concessões que garantiriam a Osman Lins sucesso de público, mas que o desviariam de seu projeto literário, direcionado pela ideia de encontrar uma forma específica para dar conta da visão de mundo a que chegara em sua maturidade. Visão expressa literariamente a partir de Nove, novena (1966).

Além do romance inaugural já mencionado, antecederam este livro composto por nove narrativas, Os gestos (contos, 1957) e O fiel e a pedra (romance, 1961). Todos gravitam em torno da narrativa tradicional e demonstram um feliz domínio de fusão de técnica e estilo, regado por frases com ritmos adequados, por palavras exatas, por acertadas e belas imagens.

Os mesmos tipos de personagens de seus primeiros livros (velhos, doentes, crianças, adolescentes, mulheres em situações prosaicas da vida, em geral, em solo nordestino) se mantêm ao longo de sua obra, num registro lírico de literatura introspectiva, marcada pela solidão, mas também impregnada de problemática de ordem social, às vezes com sutileza, outras, com tintas mais fortes. Nove, novena e os romances Avalovara (1973) e Rainha dos Cárceres da Grécia (1976) diferenciam-se, no entanto, de seus primeiros livros pela quebra da ilusão da realidade com a rarefação e a dispersão do enredo, por novos processos de composição da personagem e por alta dose de reflexão sobre o romance, o que lhes permite representarem um “momento de decisiva modernidade”, na Literatura Brasileira dos anos de 1970. A fidelidade de Osman Lins à busca de uma expressão própria na ficção, decorrente de uma recusa à cômoda retomada do já conquistado e de uma fé inabalável no poder criador da palavra, foi reconhecida e admirada pela crítica brasileira e estrangeira, com raras exceções. No entanto, ele é um autor ainda pouco difundido. Por isso é oportuna esta publicação de Lisbela e o prisioneiro.

O reaparecimento desta obra é especial porque permite ao público entrar em contato com o texto, no registro dramático, de um autor meticuloso no uso da palavra e na arquitetura da peça. Além disso, revela um aspecto decisivo de sua personalidade literária e cultural no sentido de procurar dar o melhor de si, mesmo na esfera que, a rigor, não é a de sua preferência. Consciente e cioso de seu ofício com a palavra, tudo o que dispõe para seus leitores é fruto de um período de preparação.

Para escrever Lisbela e o prisioneiro, Osman Lins não demorou dez anos de exercício constante até atingir a configuração harmoniosa como ocorrera com seu livro de contos Os gestos. Ao contrário, iniciou-a em 25 de julho e a concluiu a 9 de setembro de 1960, tendo se dedicado às modificações que lhe pareceram necessárias nos dias restantes do referido mês, conforme seu depoimento, publicado no programa distribuído por ocasião da primeira temporada de encenação da peça pela Companhia Tonia, Celi, Autran (CTCA) no Teatro Mesbla, no Rio de Janeiro, em 1961.

No entanto, Lisbela e o prisioneiro é fruto de um meticuloso trabalho preparatório, pois Osman Lins já tinha obtido menção honrosa no I Concurso Nacional da Cia. Toni-Celi-Autran, com a peça, O vale sem sol, em 1958. Insatisfeito com sua incursão como dramaturgo, considerando-a deficiente, matricula-se, nesse mesmo ano, no Curso de Dramaturgia da Escola de Belas Artes de Recife, onde vem a ser aluno de Joel Pontes, de Hermilo Borba Filho e de Ariano Suassuna. Numa entrevista, Osman Lins mencionará este último como professor da disciplina de play-writer, que teria exercido uma possível influência sobre ele, no que diz respeito às normas de composição de Lisbela e o prisioneiro.

Ao concluir o curso, em 1959, escreve um drama em três atos, Os animais enjaulados. No ano anterior, solicitado por uma de suas filhas, compusera num só dia um auto de Natal, O cão do segundo livro, em dois atos. Depois deste paciente exercício, assumido com humildade (Osman Lins já tinha publicado dois livros de ficção, reconhecidos e premiados, quando se tornou aluno no Curso de Dramaturgia), o obstinado escritor pernambucano obteve o primeiro lugar de comédia no 2 Concurso Nacional da Cia. Tônia , Celi , Autran.

Outras peças serão ainda escritas por Osman Lins: Guerra do cansa-cavalo (prêmio Anchieta, 1965; encenada em 1971, na inauguração do Teatro Municipal de Santo André); peça infantil, Capa Verde e o Natal (prêmio Narizinho, da Comissão Estadual de Teatro, 1965); Mistério das figuras de barro (dirigida pelo autor e encenada pelos alunos da Faculdade de Marília, em 1974); Santa, automóvel e soldado (coleção de três peças, publicadas em 1975); Romance dos soldados de Herodes (encenada no Rio Grande do Sul e em São Paulo, em 1977).

Lisbela e o prisioneiro foi sua primeira peça a ser encenada, com retumbante sucesso. E com certeza é a que até hoje teve mais alcance de público. Se muito da fama de uma peça deve ser creditado ao trabalho de direção, ao desempenho dos atores, à cenografia, ao figurino, à iluminação, ao som; outro tanto pelo menos também deve ser atribuído ao texto do dramaturgo.

No caso específico desta peça, adensa-se a função do texto porque se inscreve no ideário do teatro tradicional, sob a pena de um autor obsessivo com a arquitetura da estória e com a atenção à palavra. Desse modo, trata-se de uma peça que também pode ser lida com prazer tanto pelo leitor que se contenta apenas com o divertimento como por aquele mais exigente, que busca, além da fruição, incursões em diferentes níveis de significação que a obra lhe oferece.

Lisbela e o prisioneiro é uma comédia de caracteres, embora as ações desenvolvidas na cadeia de Vitória de Santo Antão desempenhem uma função considerável na sua estrutura tradicional, com exposição, desenvolvimento, falso clímax, clímax, desfecho de situações, vivenciadas por personagens nordestinas e muito bem amarradas.

Lisbela, filha do Tenente Guedes, delegado da Cadeia de Santo Antão, forma par amoroso com o funâmbulo Leléu, um Don Juan nordestino. Esse casal anticonvencional assume riscos em nome de sentimentos intensos. Lisbela foge com Leléu, no dia de seu casamento com Dr. Noêmio, advogado vegetariano, por isso mesmo personagem destoante do meio em que se encontra, prestando-se a alvo de muitas tiradas cômicas. Ao marido, doutor, representante do estabelecido e da segurança, a jovem prefere Leléu, o artista de circo preso, com tudo o que este significa de risco e subversão dos valores vigentes em seu meio.

A peça é dominada pela presença de personagens masculinas. Além das já referidas, atuam na cadeia de Vitória de Santo Antão, Jaborandi, soldado e corneteiro, afeiçoado a fitas em série; Testa-Seca e Paraíba, outros presos; Juvenal, outro soldado; Heliodoro, cabo de destacamento, casado, já com uma certa idade, apaixonado por uma jovem, o qual chega a forjar um falso casamento para possui-la; Tãozinho, vendedor ambulante de pássaros, que rouba a mulher de Raimundinho; Frederico, assassino profissional, à procura de Leléu, que deflorou sua irmã Inaura, e que por ele é salvo, sem saber, de um ataque de boi; Lapiau, artista de circo, amigo de Leléu, que participa da farsa de casamento de Heliodoro com a jovem; Citonho, o velho carcereiro, esperto e dinâmico, cúmplice, no final, de Lisbela e de Leléu e mais dois soldados, personagens mudas.

Lisbela, a única filha do tenente Guedes, é também a única mulher que atua em cena; as outras são apenas mencionadas nos diálogos. E atua com força, porque enfrenta a autoridade patriarcal, representada pelo pai e pelo noivo, ao tomar iniciativa para colaborar com a fuga de Leléu da prisão e a se dispor a abandonar o marido no dia de seu casamento para aventurar-se na vida com o equilibrista. Como se não bastasse isso, é ela quem livra Leléu da morte, ao atirar, aparentemente, em Frederico, o assassino profissional, quando este lhe apontava a arma, pouco antes do desfecho da peça. Parece e julga-se tornar-se uma criminosa, colocando o pai numa situação incômoda. Para livrar a própria filha da cadeia, este usará expedientes comprometedores para a lisura de uma autoridade, com o fito de embaralhar ou ocultar a autoria do suposto crime, pois no desfecho da peça revela-se que Frederico morreu de morte natural. Por suas ações, Lisbela não apenas renega os mesquinhos valores, mas também expõe as fraturas da sociedade patriarcal.

O gênero comédia aliado ao perfil anticonvencional da dupla protagonista foi muito bem escolhido por Osman Lins para pôr em cena, no contexto de uma região de valentias, de sentimentos exaltados, de honra e vinganças, um crime inesperado, porque aparentemente cometido pela jovem Lisbela. Inesperado, mas plenamente justificado, se tivesse ocorrido.

Atitudes que causam surpresa também compõem Leléu, que nada tem de prisioneiro em termos dos valores estabelecidos, garantidores de acomodada segurança, mas negadores da “flama da vida”. Volúvel nos amores, experimentador de várias profissões, portador de diferentes identidades, afeiçoado a riscos e deslocamentos, o circence Leléu, que tanto quer e tanto faz para sair das grades da cadeia de Vitória de Santo Antão, não hesita a ela retornar, só para ficar próximo de Lisbela, quando fracassa o plano de fuga dos dois. O paradoxal retorno à prisão é mais um movimento desta personagem para a libertação das amarras de valores que lhe são menores do que os impulsos da vida. Ele vive sempre com fervor seu minuto de aflição ou de alegria, como bem acentuou o próprio Osman Lins, ao apontar para o efeito contaminador de sua ”flama”, no programa da primeira temporada desta comédia: Leléu acende, mesmo na cadeia, as apagadas chamas de Lisbela e desperta em Citonho, o velho carcereiro, o herói escondido.

Aliás, essa personagem é uma daquelas que mais se destacam na peça e atraem a atenção e a conivência do leitor, porque de velho caduco e fraco, propício a gozações dos mais jovens e fortes, ele não tem nada. Com maestria, Osman Lins desvela na personagem octogenária, enfraquecida, em tese, pela faixa etária e pela categoria da função exercida, a mais desqualificada do contexto da peça, sua perspicácia, lucidez, força e coragem. O velho solitário considerado caduco pelo tenente Guedes é o que, de todos os seus submissos, mais o enfrenta: toma partido de Lisbela e de Leléu, em prol do amor libertário, com todos os seus riscos, e age com esperteza para proteger a jovem da suposta autoria de seu crime. Enfim, do velho também emanam vida e movimento.

Essa poética do avesso contribui ainda para relativizar o lado antipático do tenente Guedes, representante da polícia. Apesar de suas atitudes condenáveis, como os desmandos, a prepotência, a conivência com o crime, o delegado mostra-se humano quase todo o tempo. Por causa de sua função, não consegue se desvencilhar do “encarceramento profissional” e se vê obrigado a tomar atitudes contrárias a seu temperamento. Eis um dos motivos pelos quais está sempre a afirmar que “a autoridade é um fardo”. Bordão com efeitos cômicos, de acordo com as situações nas quais é proferida. No fundo, o tenente Guedes é mais prisioneiro de sua profissão que todos seus subalternos.

Dentre estes, merece menção especial o soldado e corneteiro, Jaborandi, que vive fugindo do local de trabalho, para assistir fitas em série no cinematógrafo, interrompendo seus momentos de fantasia, na hora que tem de tocar a corneta. Em meio a idas e vindas, ele vive entre o sonho e a realidade, mas uma realidade na qual sua função, tocar corneta, é desprovida de sentido consequente, a não ser o de acentuar a sua falta de sentido naquele contexto: para quê tocar corneta numa prisão? No mínimo, tais cenas provocam o riso, cumprindo sua função na comédia, e abrem brechas para o próprio Jaborandi e outras personagens estabelecerem ligação entre as estruturas das fitas em série (filmes de bandido e mocinho) e os episódios da comédia, além de interiorizarem na própria peça alusões às relações entre a vida e a fantasia.

Por mais despretensioso que tenha sido Osman Lins na composição simples e direta desta comédia, quando se encontrava ainda na fase da busca de caminhos próprios para sua ficção e para seu teatro, como ele próprio afirmou em entrevista concedida em 1961, o fato é que Lisbela e o prisioneiro é uma peça de um autor seguro, engenhoso e talentoso, que tem muito ainda a dizer em nossos dias, desde o que se refere aos desmandos e à conivência da polícia com o crime até questões de ordem existencial.

O regionalismo de Lisbela e o prisioneiro, fundado no aproveitamento de incidentes testemunhados por amigos, por familiares e por Osman Lins bem como apoiado na transposição de ditados, expressões populares e dísticos encontrados em para-choques de caminhões, é transfigurado sob a pena de seu autor. Matéria e linguagem reelaboradas tecem esta peça, regada por uma equilibrada dosagem de leveza, comicidade e ternura, e assentada em valores libertários em prol da vida, o que lhe abre as portas para outros tempos e outros espaços.

O Filme
Lançado no Brasil em 2003, por Natasha Filmes / Fox Film do Brasil / Globo Filmes / Estúdios Mega. Direção: Guel Arraes. Elenco: Selton Mello (Leléu); Débora Falabella (Lisbela); Virginia Cavendish (Inaura); Bruno Garcia (Douglas); Tadeu Mello (Cabo Citonho); André Mattos (Tenente Guedes); Lívia Falcão (Francisquinha); Marco Nanini (Frederico Evandro)

Premiações
Ganhou 2 prêmios no Grande Prêmio Cinema Brasil, nas seguintes categorias: Melhor Ator (Selton Mello) e Melhor Trilha Sonora. Recebeu ainda outras 10 indicações, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Bruno Garcia e Tadeu Mello), Melhor Atriz Coadjuvante (Virginia Cavendish), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Montagem e Melhor Som.

Curiosidades
- Lisbela e o Prisioneiro é o primeiro longa-metragem do diretor Guel Arraes feito especificamente para o cinema. Seus filmes anteriores, O Auto da Compadecida e Caramuru - A Invenção do Brasil, eram adaptações de miniséries exibidas pela Rede Globo.

- Antes de levar Lisbela e o Prisioneiro aos cinemas, Guel Arraes adaptou o texto de Osman Lins para um especial de 50 minutos exibido pela Rede Globo e ainda uma peça teatral.

- Foi o 7º filme mais visto em 2003 no Brasil, tendo levado 3.146.461 pessoas aos cinemas.

Fontes:
Sandra Nitrini. Planeta, junho de 2003. Acesso em 30.03.2008