segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cláudio de Cápua (Tertúlia da Saudade)

  

 A derrota não me importa,
cumpro com o meu dever.
Do destino forço a porta,
sempre luto pra valer.
- - - - - -
Ah! Se eu tivesse saber,
se fosse poeta, escritor...
do poente ao alvorecer,
terias versos de amor...
- - - - - -
Ah! Você não vem! Não volta...
Eu, na saudade tropeço,
em noite que me revolta,
esperando o seu regresso.
- - - - - –
A métrica pondo à prova,
quatro versos eu componho
ao fazer mais uma trova
com tinta, papel e sonho!
- - - - - –
Ante a hora da partida,
nossa tensão se agiganta
e a despedida é contida
na voz presa na garganta.
- - - - - –
Ante ao talento me ajoelho…
E o teu talento invulgar,
tanto me serve de espelho
como me serve de altar.
(uma homenagem a Carolina Ramos)
- - - - - –
Ao ensinar Filosofia,
Sócrates, de vida sã,
ao fundar a Academia
fundou um novo amanhã.
- - - - - -
Ao faltar sua presença,
por amar muito você
a saudade cresce intensa
e dói, como não sei quê!
- - - - - –
Avisto do alto da serra
a pujança do sertão
e sinto orgulho da terra
que mora em meu coração!
- - - - - –
Busco a mulher, a beleza,
em meus delírios risonhos
trovador da natureza,
vou navegando em meus sonhos.
- - - - - -
Camafeu, nobreza pura,
seu retrato de perfil
tem no adorno da moldura,
clássico tom juvenil.
- - - - - -
Certo bispo ouve uma “história”
de um padre chamado Hilário
e grava, assim, na memória
um bom “Conto do Vigário”
- - - - - –
Chora a dor dos pinheirais,
no céu a estrela cadente,
são lágrimas siderais,
ante o machado inclemente.
- - - - - –
Com mensagem sempre nova,
transpondo mágoas e dor,
pelos caminhos da trova
planto sementes de amor.
- - - - - -
Da luz quero a beleza,
da lagoa quero o encanto,
das aves delicadeza,
de você, o acalanto.
- - - - - -
De “mau jeito” o Zé Baleia,
pescador de sorte estranha,
noivou com uma sereia,
casou com uma piranha..
- - - - - –
De união a nos dar prova,
cultivando novas flores,
cada dia cresce a trova
no canto dos trovadores!
- - - - - -
Do seu lar fazendo um templo,
menino, velho ou rapaz,
faz da vida um belo exemplo
quem trabalha pela paz!
- - - - - –
Em noite alta... madrugada,
contemplo a lua contrito
- Barca de prata aportada
nos segredos do infinito.
- - - - - -
É neste “Canto que eu Canto”
belezas que a vida tem
que ao meu mundo dão encanto
e tanto me fazem bem!
- - - - - –
Essa vida se resume
para o poeta, trovador
em essência de perfume
quando faz versos de amor.
- - - - - -
És meu aroma, ventura...
E nem sei bem mais o quê!
Só esse perfume em mim dura,
é porque o extrato é você.
- - - - - -
Esta foto é mais um fato,
que nos traz para o presente,
através deste retrato,
lembranças de antigamente.
- - - - - –
Êta... que coisa mais louca,
quero ter explicação:
Por que boca na boca
acelera o coração?!
- - - - - –
Eu cansei de minha andança,
fui banhar meus pés no mar
e voltei a ser criança,
Santos agora é meu lar...
- - - - - –
Eu faço uma descoberta,
sempre que vejo você,
é meu peito porta aberta
eu nem sei bem o porquê.
- - - - - –
Eu fico muito feliz,
quando escrevo a letra V
escrita, a lápis ou a giz,
pois o V... lembra você!
- - - - - -
Eu que te dei muitos beijos,
te fiz até suspirar,
agora sinto desejos
dos beijos que faltou dar!
- - - - - –
Há muitos dias de dor
e bem poucos de alegria:
se a vida não tem amor,
pode ser noite o meu dia.
- - - - - –
Imensidões veneráveis,
que me fazem navegar,
céu e mar, inseparáveis,
na linha do meu olhar.
- - - - - –
Jovem... tenha fé na terra,
seja valente e viril,
suba monte, desça serra,
não desista do Brasil!
- - - - - –
Lembrando minha lembrança,
vou escrevendo meus versos,
buscando alguma esperança
dentro dos meus Universos.
- - - - - -
Maldosa como ninguém,
boa figura na igreja,
acrescenta sempre "Amém"
quando aos outros mal deseja…
- - - - - –
Na angústia das mais estranhas,
estão chorando as cascatas:
são murmúrios das montanhas
refletindo a dor das matas.
- - - - - –
Na lágrima do meu verso,
nesta madrugada calma,
ao contemplar o universo
a brisa me embala a alma.
- - - - - -
Não te sintas ultrajada,
quando te olho tanto... o intuito
é provar que és muito amada
e que eu te desejo muito!
- - - - - -
Naquela ponta de galho,
com luz pura e fulgurante,
uma gotinha de orvalho,
brilha mais que um diamante!
- - - - - –
Nasci em dia abençoado
no charmoso oito de março
da mulher enamorado
meu orgulho não disfarço.
- - - - - -
Natal! E nessa Babel,
em que ninguém mais se entende,
onde está Papai Noel,
se brinquedo só se vende?!
- - - - - -
Nesta ilha tão formosa,
prisioneiro de ti vivo.
E que vida venturosa...
vivo em teus braços cativo!
- - - - - -
Nesta noite prateada
minha sombra, junto à tua,
vai trilhando a mesma estrada,
tendo por cúmplice a lua.
- - - - - –
Nestas trovas nosso aceno,
ao leitor desta revista,
e um ano bem mais sereno,
e muito mais otimista.
- - - - - -
No céu, estrelas e brumas,
alvo luar envolvente.
No mar...reprises de espumas
a embalar sonhos da gente...
- - - - - -
No dia a dia... na lida,
eu sustento a minha fé
na caminhada da vida,
mantenho o ideal de pé.
- - - - - -
Num momento...num segundo...
sob a luz... desse sorriso,
vivo bem longe do mundo,
bem perto do paraíso.
- - - - - -
O delegado Pereira…
Êta Pereira bacana,
- É de pouca brincadeira,
não dá pêra, só da “cana”!…
- - - - - –
O garçom ganha gorjeta,
o político propina.
Nesta terra de mutreta,
só tem ave de rapina.
- - - - - -
O joão-de-barro é um exemplo.
pode não saber gorjear,
Com tão pouco faz um templo,
ao erguer seu próprio lar.
- - - - - –
Olha! A noite é uma criança,
diz o refrão popular -
que sacode e balança
presa às tranças do luar.
- - - - - –
Palhaços de profissão?
Ah, Como é bom, fazem bem.
O triste é ter coração
e ser palhaço de alguém!
- - - - - –
Poeta de sonhos diversos,
vivo momentos tristonhos,
mas, ao escrever meus versos,
entro no mundo dos sonhos.
- - - - - –
Quando cantava o sertão,
nossa Inezita Barroso
encantava o coração
cantando num tom gostoso.
- - - - - -
Quando o amor se tem por lema,
numa trova que se lê,
mais belo fica esse tema,
se a trovadora é você.
- - - - - -
Quando o rei sol estorrica,
tortura, com seu clarão,
mais forte é aquele que fica
e dá valor ao seu chão!
- - - - - –
Quando tão bela, ela passa,
elegante, indiferente,
sua graça é uma desgraça,
tira a paz de muita gente.
- - - - - –
Querendo muito ganhá-la,
vivo para bem-quere-la...
No seu desejo de amá-la
sentindo o prazer de vê-la.
- - - - - -
Reflexo do nosso mundo
meus olhos, de tons instáveis,
guardam amor lá no fundo
de momentos memoráveis.
- - - - - –
República portuguesa,
ao ler a história descubro:
foi grande a tua proeza!
E viva "Cinco de Outubro!”
- - - - - -
Sempre alerta mocidade,
em permanente vigília,
defenda a brasilidade,
ame a Deus, Pátria e Família.
- - - - - –
Sempre feliz, a pulsar,
meu coração é um celeiro,
tem muito amor para doar,
nele cabe o mundo inteiro.
- - - - - –
Servidor da tributária,
bem “Severo”, sem igual,
ergue a saia à secretária,
por ser, de “rendas”, fiscal.
- - - - - –
Sobrevoando terras... mares...
Vinte e três de outubro - França!
Santos Dumont vence os ares
e une povos em aliança.
- - - - - -
Só por descuido é que a Helena
acabou por se casar…
Pois, pensou que Cibalena
fosse a pílula… Que azar!
- - - - - –
Só tem sorte, verdadeira,
o que vence frustrações,
e rompe a própria fronteira
em busca de soluções.
- - - - - –
Sou poeta e trovador,
a inspiração me transporta
às nuvens e, com amor,
nas nuvens minha alma aporta.
- - - - - –
Surpresa está na investida
de cada dobra de esquina,
na caminhada da vida
o destino nos ensina.
- - - - - –
Unindo a seresta ao verso
quero compor na amplidão.
Sou menestrel do universo,
em tardes de solidão.
- - - - - –
Voando entre nuvem...montanha...
sou Poeta e Aviador!
Minha ambição é tamanha,
navego em busca do amor!
- - - - - -
Você, mulher escolhida,
da rosa tem o perfume
e, no palco desta vida,
é minha musa, meu lume.
- - - - - –
Vou plantar, da frente ao fundo,
um belo quintal em flor,
o maior jardim do mundo,
pra perfumar nosso amor.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Cláudio de Capua (1945 – 2021)
CLÁUDIO DE CÁPUA foi um dos mais expressivos nomes do movimento trovadoresco no estado de São Paulo. Conhecido pelo lirismo impecável, humor refinado e grande espírito associativo, ele marcou época tanto nos meios de comunicação de massa quanto nas instituições literárias dedicadas à trova clássica. Nasceu em 1945, na cidade de São Paulo/SP,  e faleceu em 2021, na cidade de Santos/SP, aos 76 anos, vítima de um aneurisma. Viveu temporariamente em Araraquara (SP) no início dos anos 1960. Décadas mais tarde, radicou-se definitivamente em Santos, no litoral paulista, onde viveu com sua esposa, a também célebre poetisa e trovadora Carolina Ramos. Teve uma sólida carreira na comunicação brasileira. Na década de 1970, começou na TV Tupi, integrando o grupo responsável por adaptar grandes obras literárias para o formato de telenovelas. Entre 1978 e 1980, atuou como produtor e diretor de jornalismo focado em arte, cultura e lazer na TV Gazeta. Ao longo da vida, também colaborou com a imprensa escrita em periódicos como o semanário A Cidade e editou a prestigiada revista cultural Santos Arte e Cultura.
Embora tenha atuado como biógrafo, prosador e poeta de versos livres, deixou-se cativar pela trova. Mesmo definindo-se como um concorrente bissexto nos certames, acumulou diversas premiações de prestígio em concursos nacionais. Entre suas trovas vitoriosas, destacam-se o prêmio conquistado nos tradicionais Jogos Florais de Taubaté (SP) em 2008, e outras honrarias em certames do Rio Grande do Sul e de Maranguape (CE) no mesmo ano. Sua produção encontra-se amplamente espalhada em antologias nacionais da UBT e coletâneas temáticas de Jogos Florais. Livros publicados: Revolução na Paulicéia (Semana da arte moderna); Santos Dumont, domador do espaço; Era uma vez… (coletânea de contos); Retalhos da Imprensa; Retrovisor.
Ajudou a estruturar e a popularizar as bases do Movimento Trovadoresco Nacional no estado de São Paulo, dando palco e infraestrutura para que centenas de novos poetas surgissem. Ele demonstrou maestria tanto no lirismo romântico tradicional quanto nas chamadas "trovas humorísticas/humor", mostrando que as regras rígidas de métrica da língua portuguesa poderiam caminhar juntas com a leveza e a crônica do cotidiano brasileiro. Seu legado é tão respeitado que, após seu falecimento, foi instituído em sua homenagem o concurso poético nacional Memorial Cláudio de Cápua.

Fontes:
Revista Santos Arte e Cultura
Cláudio de Cápua. Retalhos de Imprensa. São Paulo: EditorAção, 2020.
http://www.de-capua.com/publicacoes.html (desativado)
Carolina Ramos (coord. e redação) A Trova: Raízes e florescimento - UBT. Santos: 3D Estúdio Editoração Gráfica, 2013.

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet) 

Cantinho do Frata (A primeira professora)

   Depois de tempos, visitei a escola que me ajudou a crescer. Seus muros altos, o portão soberbo e a fachada precisando de tinta nova, deram-me vontade de começar tudo de novo. 
  Parado na esquina sob uma sombra, por momentos ouvi gritos, algazarras, enquanto um nó apertava-me a gravata. 
Era domingo e foi somente impressão. Não dei às pessoas que estavam comigo qualquer razão para se importarem, mas meus olhos se umedeceram. A saudade que entrava neles e ficava ali a mexer para em seguida, caminhar em gotas até o nariz e a garganta. Sabia que a saudade se veste de lágrima?
Nada que um pigarrear e uma passada de lenço não resolvesse. E resolveu. Para mim, contudo, transformou-se numa vontade enorme de voltar ao pátio, invadir os corredores com passos curtos, rever as salas, apagar a lousa e de falar — muito — com a primeira professora, pedindo-lhe a bênção. 
Desculpas pelas diabruras, birras, garranchos, malquereres e palavrões e, mais que isso, por sua dedicação não só a mim, mas por igual aos meus colegas. E, feito isso, pedir-lhe desculpas por ter crescido e a abandonado sem lhe ter dito ao menos uma vez, obrigado! Pela preocupação com nossos piolhos catados à unha, os bichos-de-pé retirados com agulhas fininhas. 
Então, mesmo tardio, obrigado, mestra, por tudo o que fez ao pegar em minha mão para ajustar as letras nas linhas, e com elas me dar um Norte. Obrigado especialmente por ter sempre no semblante um rosto de mãe, enquanto alicerçava meu amanhã.
Algo em mim, porém, naquele momento que assim pensava, fez-me distanciar do grupo a fim de me compenetrar, e nessa conversa rápida com o íntimo, a consciência fez um ato de contrição. 
O tempo de reconhecer erros chegara e agora, que eu cumprisse o que o coração pedia. 
Então perguntei por ela, mas ganhei olhares furtivos e interrogativos. Os mais novos não a conheciam e os mais velhos, preocupados com as próprias vidas, não se lembravam, até que um deles, botando o dedo na testa a apontar para a lembrança, expressou entusiasmo: 
"Sim, me lembro, claro. Também foi minha professora. Aposentou-se, enviuvou e foi morar com o filho.”
A emoção não se desfez, nem o sentimento de débito eternizado enquanto não puder substituí-lo por uma conversa franca e um abraço de agradecimento. 
Mas, enquanto isso não acontece, registro a boa lembrança que ela deixou em mim ao me ensinar o B-A-BÁ. 
É como uma placa de ouro que não derrete e nem se perde diante da alegria e da tristeza que a vida produz.
A todas as professoras, o sincero e reconhecido respeito.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Estante de Livros (“São Bernardo”, de Graciliano Ramos)

1. CONTEXTO DA OBRA

Publicado em 1934, São Bernardo é o segundo romance de Graciliano Ramos e insere-se na segunda fase do Modernismo brasileiro, período marcado por forte engajamento social e preocupação com a realidade nacional. O contexto histórico coincide com a Revolução de 1930, a ascensão de Getúlio Vargas e a transição do poder coronelista para formas capitalistas de dominação no campo. A obra reflete as tensões da modernização que chegava ao sertão nordestino, misturando progresso econômico com velhas estruturas de poder e violência.

2. ESTRUTURA E NARRATIVA

Narrador-protagonista em primeira pessoa: 
Paulo Honório conta a própria história, o que cria uma ironia dramática poderosa: ele tenta justificar-se, mas é o próprio relato que revela sua falência moral.

Estrutura fragmentada: 
A narrativa não segue ordem cronológica rígida; avança em blocos de memória, com interrupções, correções e comentários sobre o próprio ato de escrever — o que aprofunda o caráter introspectivo e revela as contradições do personagem.

Metalinguagem: 
No início, Paulo Honório planeja a escrita como uma empresa, dividindo tarefas entre especialistas (Padre Silvestre, João Nogueira, Gondim…), mas acaba escrevendo sozinho — metáfora de que a vida não pode ser administrada racionalmente como um negócio.

Estilo: 
Seco, conciso, sem adornos. A linguagem espelha a mentalidade utilitária do narrador; a economia verbal contrasta com a intensidade do que é silenciado — afeto, dúvida, solidão.

3. ENREDO E PERSONAGENS PRINCIPAIS

Paulo Honório
Órfão e pobre, trabalhou na fazenda São Bernardo quando criança. Preso por homicídio, aprendeu a ler e escrever na cadeia. Ao sair, enriquece como comerciante e agiota, endivida e arruína Luís Padilha, o dono da fazenda, e adquire as terras. Casa-se com Madalena, mulher mais jovem e culta. Torna-se um fazendeiro próspero, mas destrói a própria felicidade por ciúme, autoritarismo e incapacidade de amar. Madalena suicida-se; ele fica rico, poderoso e profundamente solitário.

Madalena
Esposa de Paulo Honório. Representa a liberdade, a consciência e a alteridade — aquilo que o marido não consegue compreender nem controlar. Culta, questionadora, não se submete ao papel de posse. É alvo de ciúmes infundados; sua independência é interpretada como ameaça e traição. O suicídio é a resposta final à impossibilidade de conviver com um sistema que tudo reduz a propriedade.

Luís Padilha
Antigo dono da fazenda, símbolo da decadência do poder tradicional, vítima da astúcia de Paulo Honório.

Casimiro Lopes
Capataz fiel, cumpre ordens sem questionar — extensão da violência do patrão.

Padre Silvestre, Gondim
Intelectuais locais que participam do projeto de escrita, representando diferentes visões sobre mundo e linguagem.

4. TEMAS CENTRAIS

Ascensão e falência do capitalismo no campo
Paulo Honório é o novo homem do sertão: não herda poder, compra-o. É eficiente, transforma a terra, mas humanamente empobrece. A prosperidade de São Bernardo sustenta-se na exploração de trabalhadores e na destruição de quem está ao redor. A obra mostra que a modernização capitalista não apaga a violência do coronelismo — renova-a com outras ferramentas.

Poder, posse e autoritarismo
Para Paulo Honório, tudo é propriedade: terras, gado, pessoas, inclusive a esposa. Madalena é “sua” e, portanto, deve obedecer. Quando demonstra ter vontade própria, ele sente-se roubado. A relação conjugal espelha a relação de dominação na sociedade: o patriarca manda em casa e no campo; diferença de pensamento é vista como rebelião.

Incapacidade de afeto e solidão
O núcleo trágico do livro: Paulo Honório consegue tudo o que quer — menos o que realmente precisa. Dinheiro e terras não preenchem o vazio. Quanto mais controla, mais afasta Madalena; ao final, vence todas as disputas e perde a única pessoa que poderia salvá-lo. A narrativa tardia, escrita depois da tragédia, é tentativa de compreender o que aconteceu — e de reconhecer, ainda que parcialmente, a própria culpa.

Linguagem e consciência
Paulo Honório começa acreditando que as palavras servem apenas para ordenar e mandar. Ao escrever, descobre que a linguagem também revela o que se tenta esconder. A forma como narra expõe suas contradições: a máscara de vencedor vai rachando a cada página. Madalena é quem fala diferente, questiona — e é por isso que incomoda: traz a palavra que não se deixa dominar.

Gênero e subordinação
O confronto entre Paulo Honório e Madalena é também choque de mundos: ele vive a lógica patriarcal de propriedade; ela reivindica autonomia e pensamento próprio. A obra denuncia a assimetria de poder entre homens e mulheres, estruturante da sociedade rural e da cultura brasileira em geral.

5. VISÃO CRÍTICA E SIGNIFICADO

“São Bernardo não é apenas um romance regional: é uma investigação sobre a natureza do poder em todas as suas formas — econômica, política, conjugal, psicológica.”

- Antonio Candido apontou que a obra funde análise social e profundidade psicológica: o destino de Paulo Honório é o destino de uma sociedade que mede tudo por aquisição.
- A figura de Paulo Honório transcende o Nordeste, é o empreendedor que devora o meio em que vive, o indivíduo que confunde sucesso com dominação. Sua tragédia é coletiva: mostra que o progresso construído sobre a exploração traz ruína para todos.
- Madalena não é apenas vítima, é a consciência crítica dentro do sistema — quem vê as falhas e recua. Sua morte não é derrota pessoal; é acusação silenciosa contra um mundo que não consegue conviver com a liberdade.
- A obra permanece atual: o mito do “homem que faz a si mesmo”, a crença de que dinheiro resolve tudo, a dificuldade de ouvir quem pensa diferente — questões que São Bernardo expõe com crueldade e clareza implacáveis.

6. CONCLUSÃO

São Bernardo é um romance sobre ilusão e despertar tardio. Paulo Honório passa a vida a conquistar, sem perceber que o preço de cada aquisição é uma parte de si mesmo. No fim, a fazenda é próspera, o nome é temido — mas a casa está vazia e o silêncio pesa mais que todas as palavras que escreveu. Graciliano Ramos constrói uma obra de rara economia e força: cada frase pesa; cada silêncio grita. É uma leitura essencial para compreender o Brasil — suas estruturas de poder, suas contradições morais e o preço que se paga quando se confunde ter com ser.

7. RESUMO

O romance é narrado em primeira pessoa por Paulo Honório, que decide escrever a própria história após a morte da esposa, Madalena. Inicialmente, planeja dividir a tarefa com pessoas letradas (Padre Silvestre, Gondim, João Nogueira), mas acaba escrevendo sozinho. A narrativa não segue ordem cronológica rígida: avança por blocos de memória, com correções e interrupções, revelando as contradições do protagonista.

Origem e Ascensão
Paulo Honório é órfão, criado na miséria. Trabalhou na fazenda São Bernardo quando menino e desde então desejou possuí-la. Jovem, esfaqueia um homem e fica preso quase quatro anos; na cadeia, aprende a ler e escrever. Ao sair, trabalha de tudo, empresta dinheiro a juros e usa meios ásperos para enriquecer. Fingindo amizade e dando maus conselhos, endivida e arruína Luís Padilha, o herdeiro da fazenda, até conseguir comprar São Bernardo. Torna-se fazendeiro próspero e influente, recorrendo a violência e corrupção para consolidar poder.

Casamento e Conflito
Para ter um herdeiro, casa-se com Madalena, professora culta e de hábitos urbanos. Inicialmente, a aproximação acontece por ele instalar uma escola na propriedade. O casamento traz um filho, mas a convivência desmorona: Paulo Honório trata tudo e todos como propriedade, inclusive a esposa. Madalena não aceita ser dominada, pensa por si mesma e tenta humanizar as relações na fazenda — o que ele interpreta como ameaça e traição. Os ciúmes doentios crescem, especialmente em relação a Luís Padilha, agora professor na escola local. Ele cerceia os movimentos de Madalena, vigia, acusa e sufoca qualquer autonomia.

Desfecho
Após suportar humilhação e isolamento, Madalena suicida-se. Paulo Honório fica com tudo: terras, riqueza, prestígio e o filho — mas perde a única pessoa que poderia preencher seu vazio. A fazenda prospera, mas ele vive imerso na solidão e na dúvida. Escrever a história é tentativa tardia de compreender o que aconteceu e reconhecer, ainda que parcialmente, a própria culpa. No fim, percebe que conquistou o mundo exterior, mas perdeu a capacidade de amar e ser amado.

Mensagem:
A obra mostra que o sucesso baseado apenas em aquisição e dominação traz ruína interior. Paulo Honório confunde ter com ser, poder com felicidade. A tragédia é pessoal e coletiva: revela as estruturas de poder e violência que marcam o campo brasileiro, renovadas sob lógica capitalista.

domingo, 18 de outubro de 2026

Asas da Poesia * 221 *


Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Cigarra

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
OLAVO BILAC
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Justiça

Chega à casa, chorando, o Oscar. Abraça
Em prantos a Mamãe.

“Que foi, meu filho?”

—“Sucedeu-me, Mamãe, uma desgraça!
Outros, no meu colégio, com mais brilho,
Tiveram prêmios, livros e medalhas...
Só eu não tive nada!”

—“Mas porque não trabalhas?

Porque é que, a uma existência dedicada
Ao trabalho e ao estudo,
Preferes os passeios ociosos?
Os outros, filho, mais estudiosos,
Pelas suas lições desprezam tudo...
Pois querias então que, vadiando,
Os outros humilhasses,
E que, os melhores prêmios conquistando,
Mais que os outros brilhasses?
Para outra vez, ao teu prazer prefere
O estudo! e o prêmio alcançarás sem custo:
E aprende: mesmo quando isso te fere,
É preciso ser justo!”
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ROZA DE OLIVEIRA 
Santo Antônio de Pádua/RJ,  1942 – 2026, Curitiba/PR

Minhas trovas são abraços,
mil braços vou abraçar,
nos mil infinitos laços
que a trova sabe engendrar.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
FRANCISCO MIGUEL DE MOURA
Jenipapeiro/PI

Paisagem por dentro

 Abro os braços
para a paisagem
descortinada janela a fora,
aos olhos que se arregalam.

 E o coração:
- a vida é bela bebida aos poucos.

 O verde enverdece o sol,
o amarelo traz fruta – esperança,
a saudade em chuva e orvalho
cai (dos tempos de criança).
Bate-me por dentro, nas laterais:
- as narinas sentem
e os ouvidos ouvem
o vento
e seus mistérios e eflúvios,
arrepiando a pele como tentáculos.

 A alma que voava
me pousou
na beira do sonho.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

Se este mundo tão bisonho
te nega paz e guarida,
usa o refúgio do sonho,
onde o amor sustenta a vida!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
São Fidélis/RJ

Chuva

Lá fora cai a chuva docemente...
dos meus olhos uma chuva de saudade,
no peito bate um coração ardente
e na alma um quê de felicidade.

Que esta chuva caindo sobre a terra,
transforme em vida todas as sementes,
fertilizando de forma tão materna
ternura que brotou dentro da gente.

Estamos sós, a vida quis assim...
não adianta isso lamentar,
estar longe não quer dizer o fim.

E amanhã quando despontar a aurora,
vou-me lembrar da chuva que caiu,
sentir sozinho, o que sinto agora!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Miguel Couto/RJ

Não julgues a sorte ingrata,
pois Deus, que tudo divisa,
bem sabe a medida exata
da ajuda de quem precisa…
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Soneto de
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Porções de mim

E em cada frase que escrevo
Lá estou eu toda derramada
Inspiração em mim é enlevo
E a poesia se faz tão sagrada.

Um verbo fala muito de mim
E posso estar em um adjetivo
Quem sabe o reverso sem fim
E na entrelinha: meu objetivo.

Escrever é junção de pedaços
O amontoado de livres letras
 Dos meus cacos em abraços.

Escrevo , escrevi e escreverei
Vinculo com a escrita meu ser
Caso parta; inda assim ficarei.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
DOROTHY JANSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Ora eloquente, ora mudo,
teu olhar é uma charada:
promessa sutil de tudo,
no fútil revés… do nada!
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Poema de
JÚLIO CESAR BRIDON DOS SANTOS
Gaspar/SC

O poeta e a vida

As lágrimas vertidas
De um poeta sonhador
Traduzem suas virtudes
No trilhar sereno da saudade.

Apagaram-se as mágoas,
Caiu a máscara das verdades
E o poeta, maus uma vez,
Transformou seu sonho em realidade.

Navegou por mares sem fim,
Elevou-se ao infinito dos céus,
Tocou de leve as estrelas
E pousou seus olhos no luar prateado.

De sonhador a criador
Transpôs sua própria visão
E deu um gigantesco salto
Na direção de seus anseios.

Agora, o poeta não mais sonhava
Com algo inacabado
Pois, finalmente, seus desejos
Tinham sido conquistados.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Não sei se todos ponderam
a troca que o livro traz…
Grandes homens o fizeram,
grandes homens ele faz!
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Poema de
RITA VELOSA
(Rita Bernadete Sampaio Velosa)
Araraquara/SP

Faroleiros de Almas

Assim somos nós, faroleiros de almas:
Iluminando os penhascos,
Clareando os abismos,
Perscrutando  segredos,
Fincados em meio ao nada,
Presos no mar revolto
Girando, girando, girando...
Focando os perigos,
Alertando os incautos,
Orientando os perdidos;
Uma luz de esperança no mundo,
Faroleiros de almas!

Mas quem acenderá uma luz  para nós?
Nossa dor é grande:
Vemos demais, sentimos demais
E nada podemos fazer por nós mesmos.
Solitários  em alto mar,
Brilhando e consumindo-nos loucamente,
No desespero da lucidez,
Em chama interna,
Luz eterna,
No calor da esperança,
Girando, girando, girando...
Perscrutando desesperadamente!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Felicidade?… É a que eu tenho
quando na vida ajo assim:
– Quero alguém feliz… me empenho…
e esqueço um pouco de mim!
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Soneto de
JOSÉ A. JACOB
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Crença

Quando firmava o azul e o sol abria
Ao dia a sua bem-aventurança,
O homem bom repartia à vizinhança
Toda espécie de estima que sentia.

E amanhecia cheio de esperança
De vir o dia, após um novo dia,
Para lhe dar apreço e cortesia
Conforme a sua ingênua confiança.

Depois curvava a fé que lhe convinha
À soleira da porta, e de tardinha
Fiava as horas, crédulo a sorrir.

E a noite o recolhia nesse afã
De estar sempre esperando esse Amanhã
E sempre esse Amanhã tardando a vir...
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Trova de
MARIA CALIL ZAMBON
Novo Horizonte/SP (1935 – 2012) Bandeirantes/PR

Em toda Mulher se vê:
o charme, o encanto, a alegria
e em todas elas há um quê
da doçura de Maria!
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Poema de
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964)

Encomenda
 
Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
 
Como tenho a testa sombria, 
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
 
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta, 
ponha uma cadeira vazia.
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Trova de
MARIA MADALENA FERREIRA
Magé/RJ

Felicidade! – Eu te estudo
e não decifro a “charada”:
– Uns – infelizes com tudo…
– Outros – felizes sem nada!!!
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Anton Tchékhov (A Obra de Arte)

Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.

— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!

— Mas... por que diz isso?

— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...

— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...

— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.

— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?

— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.

As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” ·

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” ·

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...

— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.

— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...

— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.

A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..

— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho...

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.
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Anton Tchekhov (1860 - 1904)
ANTON PAVLOVITCH TCHEKHOV foi um dos maiores contistas e dramaturgos de todos os tempos. Médico por profissão e escritor por vocação, ele revolucionou a literatura ocidental ao focar no cotidiano, eliminando a necessidade de enredos mirabolantes para expor a complexidade da alma humana. Nasceu em 1860, em Taganrog, uma cidade portuária no sul da Rússia, e morreu em 1904 (aos 44 anos), em Badenweiler, na Alemanha. Ele faleceu devido ao agravamento da tuberculose e seus momentos finais ficaram famosos por ele ter bebido uma taça de champanhe antes de partir. Cresceu em Taganrog, mas mudou-se para Moscou para estudar medicina. Teve uma educação familiar rigorosa e foi estimulado a estudar, trabalhar e frequentar a igreja. Com o sucesso literário, comprou uma propriedade rural em Melikhovo (perto de Moscou), onde prestava atendimento médico gratuito aos camponeses. Nos últimos anos de vida, devido à saúde frágil, mudou-se para uma casa em Ialta, na Crimeia (região de clima mais ameno).
Tchekhov formou-se em Medicina pela Universidade de Moscou em 1884. Ele exerceu a profissão intensamente durante toda a vida, tratando os pobres e combatendo epidemias de cólera. Ele dizia sua famosa frase: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". Em 1890, fez uma célebre jornada até a remota Ilha de Sacalina, uma colônia penal russa, para fazer um censo médico e denunciar as condições desumanas dos presos. Começou a escrever pequenos contos satíricos e humorescos sob pseudônimos (como Antosha Chekhonte) ainda na faculdade para sustentar sua família falida. Aos poucos, seu estilo amadureceu para o Realismo, ganhando profundidade psicológica. Na maturidade, uniu-se ao diretor Konstantin Stanislavski e ao Teatro de Arte de Moscou, onde suas grandes peças revolucionaram a história do teatro mundial. O autor tinha o sonho de morar no campo e, em 1892, mudou-se com parte da família em Melichovo, a 60 km de Moscou. Dentre as visitas que recebia na propriedade, estava Lidia Mizinova, com quem manteve uma relação afetiva e que inspirou suas obras. A partir de 1895, passou a comprar livros para doar à biblioteca de Taganrog, além de financiar a construção de escolas em algumas aldeias. Em 1897, o escritor recebeu o diagnóstico de tuberculose. Na tentativa de se curar, morou em Nice, Paris e, em 1898, em Ialta. Três anos depois, em 1901, casou-se com a atriz Olga Knipper (1868–1959). Devido à carreira, Olga ficava em Moscou, enquanto ele vivia em Ialta. O casal se correspondia com cartas e telegramas. Em 1904, Tchekhov foi fazer um tratamento em Badenweiler (Alemanha). Infelizmente, lá, seu estado se complicou, e o autor faleceu.
Recebeu a maior honraria literária da Rússia [Prêmio Púchkin (1888)], concedida pela Academia de Ciências da Rússia, por sua coletânea de contos No Crepúsculo. Prêmio Griboedov concedido pela Sociedade de Dramaturgos por sua aclamada peça As Três Irmãs. Em 1899, foi eleito Membro Honorário da Academia de Ciências da Rússia (Seção de Belas Letras). Contudo, em 1902, Tchekhov renunciou ao título de acadêmico em solidariedade ao seu amigo Maxim Gorky, cuja nomeação havia sido anulada pelo Czar Nicolau II por motivos políticos. Recebeu a condecoração oficial do império Ordem de São Estanislau (1899), por seus esforços em prol da educação pública e fundação de escolas rurais.
Tchekhov não escrevia romances longos; sua produção consistia em centenas de contos, novelas e peças teatrais. 
Contos e Novelas Célebres: A Estepe (1888); A Ala nº 6 (1892); O Duelo (1891); A Dama do Cachorrinho (1899); A Ilha de Sacalina (1895 - relato social/médico).
Teatro: A Gaivota (1896); Tio Vânia (1897); As Três Irmãs (1901); O Jardim das Cerejeiras (1904)
A relevância de Tchekhov reside na modernização do conto e do drama. Antes dele, as histórias dependiam de grandes clímax e finais moralistas. Tchekhov introduziu o conceito de "ação indireta" e o corte psicológico do cotidiano: suas histórias focam no que acontece nos subtextos, nos silêncios e no tédio da vida real. Ele criou o princípio dramático conhecido como "Arma de Tchekhov" (se você colocar uma arma carregada no primeiro ato, ela precisa disparar no terceiro), defendendo que nenhum elemento em uma história deve ser supérfluo. Influenciou gigantes da literatura mundial como Ernest Hemingway, Raymond Carver, Katherine Mansfield e James Joyce.

Fontes:
Anton Tchékhov. Histórias Variadas. Publicado originalmente em 1891. Disponível em Domínio Público.  
Biografia = Wikipedia; Livrista; Portal da Literatura; Mundo Educação; Brasil Escola; LPM; Revista Cult, Jornal Opção, Plug Literário, etc.