segunda-feira, 27 de abril de 2026

Carlos Alberto Teixeira (O pastor e suas ovelhas)


A turma está ficando cansada com os excessos decorrentes da tecnologia. Um deles ?o excesso de zelo com a privacidade. É claro que  é necessário estar alerta às invasões e ao mau uso de nossos dados sigilosos. Mas não precisamos chegar ao extremo de tentar esconder de todos o conjunto completo de nossas informações, mesmo porque jamais conseguiremos ocultar tudo. Muito embora o fenômeno ainda não tenha chegado às mailing lists nacionais, lá fora o pessoal está relaxando cada vez mais, oferecendo livremente informações pessoais em seus perfis públicos de usuário: endereços de casa, telefones, aptidões, preferências, tá tudo lá?

Outra coisa é o excesso de informação. Até o identificador de chamadas lá de casa, vulgo bina, eu já desliguei. De que me interessa saber quem me ligou e não deixou recado na secretária eletrônica? E se alguém ligar e eu não quiser falar, É só usar a velha desculpa de que estou fritando alho e tá quase queimando, depois eu te ligo de volta. Sobre o excesso de emails, este é um caso à parte. Já me convenci de que jamais serei capaz de me manter em dia com a quantidade de mensagens que entram diariamente.

Pra terminar, existe o terrível hábito do excesso de confiança nos gurus. Sim, a mania de confiar exageradamente nos caras de sistemas, os analistas, consultores, programadores e assemelhados. São uma raça sem-vergonha, leitora, acredite em mim. Falo de cadeira porque sou um deles. Pensam que são donos do mundo e que dominam as forças da natureza, os desígnios do destino e os poderes telúricos do planeta. Recentemente uma leitora veio com um papo de endeusar a equipe de tecnologia da empresa em que trabalha. Perguntei a ela se conhecia o tradicional caso do pastor e suas ovelhas. Ela disse que não, então pus-me a lhe contar a história: 

Um pastor está cuidando de suas queridas ovelhas ao longo de uma estrada deserta. Os campos que ladeiam a rodovia são verdejantes e o relevo da região é monótono, com colinas baixas e suaves. O ambiente é de total paz, o visual deslumbrante. Só o que se ouve são alguns balidos e o canto dos pássaros. De repente, o pastor começa a ouvir ao longe o som de um potente motor de automóvel, aparentemente vindo em alta velocidade. Vai o ruído crescendo e logo um Porsche vermelho novinho em folha para abruptamente cantando pneu perto de onde estão o pastor e seu rebanho.

O motorista, sujeito metido e posudo trajando terno Armani, sapatos Cerutti, óculos de sol Ray-Ban, relógio de pulso TAG-Heuer/GPS e gravata Pierre Cardin, sai do automóvel e olha para o céu. Não há nuvens. Isso é bom, pensa ele. Em seguida, dirige-se ao pastor, e pergunta sem rodeios: “Se eu lhe disser quantas ovelhas você tem, você me dá uma delas?” O pastor analisa rapidamente o impetuoso jovem e depois olha para seu numeroso rebanho. Dá de ombros e responde: “OK”.

O rapaz estaciona o carro numa manobra rápida, ruidosa, mas precisa. Tira os óculos escuros e conecta seu laptop de última geração a um fax-modem-celular. Apesar do sol forte, ele demonstra frieza absoluta. Nenhuma gota de suor escorre de sua fronte. Sua destreza no teclado é inacreditável e seus movimentos são exatos e calculados com precisão. Seu próximo passo é entrar num website oculto da Nasa. Ele informa ao sistema as coordenadas geográficas do ponto onde se encontra, com base nos dados informados via radiofrequência pelo seu relógio equipado com Bluetooth. Com isto, aciona um satélite em órbita que, mediante uma senha especial, realiza uma meticulosa varredura no terreno e invoca nos servidores da agência espacial americana uma aplicação de processamento paralelo visando a efetuar a contagem dos animais. O sistema devolve uma matriz de comandos criptografados que, no laptop do mancebo, abre 14 bancos de dados e 60 planilhas cheias de logaritmos neperianos, curvas de Gauss e tabelas-pivô. O pastor permanece observando o cidadão, pasmo, sem sequer ousar imaginar a tempestade tecnológica que se desencadeia naquela maquineta infernal.

Depois disso, em poucos segundos, o sujeito imprime um relatório de 150 páginas em cores com sua mini-impressora de alta tecnologia. Com os papéis em mãos, respira fundo, põe novamente os óculos, vira-se para o pastor e diz, com certa empáfia: “Você tem exatamente 1.586 ovelhas aqui.” O pastor se empolga: “Está certíssimo, pode ficar com sua ovelha.” 

O rapaz se levanta e, com uma ginga de príncipe, faz sua escolha, pondo o animal cuidadosamente no banco de trás de seu Porsche.

O pastor franze a testa, olha para o camarada e pergunta: “Se eu adivinhar sua profissão, você me devolve o animal?” 

O sujeito olha para o relógio, faz uma discreta careta, examina o homem de cima a baixo e responde: “Sim, por que não?” 

O pastor diz então, na lata: “Você é um consultor de informática.” 

“Como é que você sabe?”, indaga o surpreso janota. 

“É simples”, responde o pastor. “Primeiro, você chegou aqui sem ter sido chamado. Segundo, você me cobrou um valor para me dizer algo que eu já sabia, e terceiro, você não entende nada sobre o meu negócio... E agora, poderia fazer o favor de me devolver o meu cachorro?”
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CARLOS ALBERTO TEIXEIRA, famoso C@T. Tem coluna no caderno "INFORMÁTICA etc" do jornal "O Globo". Publica, também, seus trabalhos em revistas diversas, sempre sobre o tema “informática”. 

Fontes:
Caderno Informática etc. RJ: “O Globo’”, 25/11/2002.
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Nilto Maciel (Olho Mágico)


A campainha soou e Inácio assustou-se. O jornal chegou a escorregar de suas mãos. Por que só inventavam torturas? Bem podiam conservar as pancadas com os nós dos dedos, as palmas, os “ôi de casa”. Civilização do terror, era o que era.

A resmungar, deixou o jornal espatifar-se no chão e arrastou-se na direção da porta. Não deu tempo, ao menos, de meter os pés nos chinelos. Melhor, talvez fosse visita indesejável, vendedor de porcarias, cobrador de dívidas. Nem devia atender. Nem sequer levantar-se do sofá. Mas a campainha voltou a berrar e Inácio apressou o passo.

  — Já vai.

Aproximou-se da porta, levou a mão à maçaneta e só então se lembrou do olho mágico. Primeiro precisava saber quem o procurava àquela hora. Seguro morreu de velho. O nariz chegou a doer. Olhou, olhou com atenção. E viu, do outro lado, o homem. Não, não podia ser verdade. A não ser que o olho fosse um espelho. Ou então houvesse um espelho do outro lado da porta. Ora, o homem era a sua imagem e semelhança. Deixou-se a olhá-lo, admirá-lo, investigá-lo. O mesmo rosto, o mesmo jeito, o mesmo corpo. Afinal, devia abrir ou não a porta? E se se tratasse de uma cilada? Um mascarado?

Imaginava mil possibilidades, e o outro postado diante da porta, pensativo, paciente, persistente. Não acionou mais a campainha, porém. Até que Inácio se cansou e voltou ao sofá.

— Ora, não há olho mágico — murmurava, enquanto apanhava do chão o jornal.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
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Patricia Daltro (A última primavera)


Meu filho entra afobado. Nas mãos, cuidadoso, um pequeno pássaro preto que caiu do ninho.

A cena faz a saudade invadir as frestas da memória. As cores, que chegam junto com a criança, iluminam vãos inexistentes de mim mesma.

Por um instante, vejo minha mãe no lugar dele, segurando outro pequeno pássaro caído, Papa-capim-do-peito-branco, ela explicou. E eu passei a tarde cantarolando o nome comprido.

Eu me embriagava na paleta que nos cercava: o muito azul do céu, o amarelo incandescente dos girassóis, o barrento do rio que nos contornava. E sua voz me chegava em sobretons - às vezes gris, às vezes na calmaria dos tons pastéis.

As tardes eram verdes e se enroscavam modorrentas em nossas pernas sobre o galho, enquanto explodíamos jabuticabas no céu da boca.

No dia em que fui embora, havia um azul embotado em seus olhos. Ela me segurou pelas mãos e disse:

- Toma, filha, para ajudar nas despesas.

Dentro delas, duas notas de cem reais. Tudo o que tinha. Tudo o que eu queria, no entanto, era a fortaleza segura do seu abraço.

Murmurei um "obrigada" e entrei no carro. Meus olhos, agrilhoados aos seus, eram cinza opaco.

O mesmo cinza que toma o céu após a tempestade.

Subo na escada e devolvo o passarinho ao ninho. Os olhos do meu filho, tão idênticos aos seus, brilham azul.
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PATRICIA DALTRO é escritora carioca, formada em Letras. Publicou algumas obras como: "A Vida Sem Manual" (2015), "A Versão da Madrasta" (2017), "O Amor é um Terno Azul Turquesa" (2020) e "O Ano que Deixei de Ser Invisível" (2024).

Fonte:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera
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domingo, 26 de abril de 2026

Asas da Poesia * 181 *


Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Ah, belos tempos dourados,
que os sonhos não trazem mais...
Bailavam, corpos colados,
olho no olho, os casais!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Chuva e saudade

Cai a chuva... é triste o dia...
A manhã é cinzenta e baça...
E eu mudo vejo a chuva fria,
A correr de leve na vidraça...

E a chuva cai... cai e não passa...
Nem sequer a chuva estia...
Para que um pouco se desfaça,
A saudade de quem eu tanto queria!...

Qual essa vidraça, está meu rosto...
E meus olhos não querem desanuviar...
É por demais sofrido o meu desgosto...

Aumenta a chuva e com ela a minha dor...
Soluço qual criança perdida, sem cessar,
Na incerteza de ao menos rever-te amor!...
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Soneto de 
GERSON CESAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Confissões

Concede-me o que amo, meu Senhor..
Tarde te amei, tarde te conheci
beleza eterna, suspirei por ti,
ficando inebriado deste amor...

Busquei-te tantas vezes, e não vi
que é em vão te procurar por onde eu for,
pois tu vives no meu interior...
Sem te notar, estavas bem aqui!

Tu me tocaste, e eu quero te provar,
pois a medida do amor é amar
um amor que é um amar sem medida...

A tua luz me fez ver outra vez
e a tua voz desfez minha surdez.,.
Sou folha em branco: escreve a minha vida!
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Poema de
ALBERTO DE SERPA 
(Alberto de Serpa Esteves de Oliveira)
Porto/Portugal, 1906 – 1992

Recreio

Na claridade da manhã primaveril,
Ao lado da brancura lavada da escola,
as crianças confraternizam-se com a alegria das aves....

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
— Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas...

As meninas dançam de roda e cantam
As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,
Acompanhadas de gestos senhoris e graves.

Os rapazes correm sem tino e travam lutas,
Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,
À vida que vai chegando despercebida e breve...

E a jovem mestra olha todos enlevadamente,
Com um sorriso misterioso nos lábios tristes…
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Aldravia de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Cabelos
molhados
gingando
faceiros
ao
vento
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Soneto de
JOÃO DA ILHA
(Ciro Vieira da Cunha)
São Paulo/SP, 1897 — 1976, Rio de Janeiro/RJ

Saudade

Saudade! o teu olhar longo e macio
Derramando doçura em meu olhar...
Um bocado de sol sentindo frio,
Uma estrela vestida de luar...

Saudade! pobre beijo fugidio
Que tanto quis e não cheguei a dar...
A mansidão inédita de um rio
Na volúpia satânica do mar...

Saudade! o nosso amor... o teu afago...
O meu carinho... o teu olhar tão lindo...
Um pedaço de céu dentro de um lago...

Saudade! um lenço branco me acenando...
Uma vontade de chorar sorrindo,
Uma vontade de sorrir chorando...
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Poema de
AFONSO FÉLIX DE SOUZA
Jaraguá/GO, 1925 – 2002, Rio de Janeiro/RJ

Noite sem alma

Noite sem vozes roucas
assombrando o silencio.
Noite nua.

Passos incertos
duro como o asfalto
e pensamentos leves
guiando-me os passos.
Indiferença do luar.
Na rua triste
paradas súbitas.
No olhar o medo ingênuo
da infância que não morre.

Risos de mulher
atrás da janela fechada.
Desejos rápidos
a apressar os passos...
A memória murmura
confidencias,
que o silêncio apaga.

Noite sem véu.
Noite que tem a clara nudez da alma
que sonha no escuro.
Desejos leves de amor a guiar os passos
e essa ânsia incontida de sonhar
que como, a infância
não morre nunca.
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TROVA POPULAR

As rosas é que são belas,
são os espinhos que picam,
mas são as rosas que caem,
são os espinhos que ficam…
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Soneto de
CONSTÂNCIO ALVES
(Antonio Constâncio Alves)
Salvador/BA, 1862 — 1933, Rio de Janeiro/RJ

Soneto mudado

Eras em plena mocidade, quando
Da nossa casa, um dia, te partiste;
E eu, coitado, sem mãe, pequeno e triste,
Fiquei por esta vida caminhando.

Assim — no meu amor teu rosto brando
Do tempo à ação maléfica resiste,
E o meu é, hoje, como nunca o viste,
Tanto o passar da idade o foi mudando.

Tão velho estou, que já me não conheces;
Nem poderias ver no que te chora
Esse a quem ensinaste tantas preces.

E tão moça ainda estás que (se memora
A saudade o teu vulto) — me apareces
Como se fosses minha filha agora.
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Trova de
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA
Bauru/SP

Saudade é um velho barquinho
que  vence o tempo e a distância
e  recolhe, no caminho,
os  pedacinhos da infância ...
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Poema de
PILAR REYNES DA SILVA CASAGRANDE
Rio Claro/SP

Os que vêm de longe

Os que vêm de longe não me encontrarão,
pois eu já terei partido;
talvez apenas achem marcas dos meus passos
ao longo do caminho percorrido.
Os que vêm de longe não me chorarão,
porque não saberão o que pensei,
e as pedras que pisei na caminhada
serão apenas pó do que amei,
como poeira do tempo inexorável
sepultando uma inexistência inenarrável.
Os que vêm de longe não entoarão
um verso de esperança e de alegria;
não mostrarão afeto nem tristeza
e serão pobres párias da poesia,
dessa mesma poesia que me invade
como um gosto de encanto e de saudade…
Os que vêm de longe ficarão sozinhos
eu não posso esperar ninguém,
estarei bem longe, muito longe,
dos que vêm de longe sem me ver…
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Poeta

Nunca lhe falta a sensibilidade,
a sutileza, o dom de transferir
às palavras toda a expressividade
na alegria ou na mágoa de sentir.

O poeta é assim, é versatilidade...
Seja o que for que intente traduzir,
mergulha em vida, em sonho, em realidade,
faz de uma noite a aurora reflorir.

Transcende as dores de um mundo sofrido,
pisa os mistérios do desconhecido,
traz as estrelas para o nosso chão.

E quem o escuta, exclama, fascinado:
“Era assim que eu queria ter cantado,
se soubesse escrever minha canção!”
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Trova de
ANTONIO CABRAL FILHO
Jacarepaguá/RJ

Enquanto o tempo ameaça
com seus bloqueios constantes,
o amor entorna uma taça
no banquete dos amantes.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Mote:
Cabelo é negócio louco... 
há divergências fatais: 
Na cabeça um fio é pouco: 
mas... na sopa... ele é demais!
Elisabete S. Cruz 
(Nova Friburgo/RJ)

Glosa:
Cabelo é negócio louco... 
que deixa as mulheres loucas 
por perucas..., quando é pouco...; 
quando é muito..., fazem toucas! 

Mulheres! No capilar 
há divergências fatais: 
umas não querem cortar 
outras já cortam demais! 

O calvo indaga, em treslouco, 
ao fazer o seu penteado.. 
Na cabeça um fio é pouco: 
- Vou penteá-lo pra qual lado? 

Este cabelo castanho 
no meu prato não me apraz; 
sou "Coiffeur", e não o estranho, 
mas... na sopa... ele é demais!
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Trova de
ELTON CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1994

Angústia é a mágoa escondida
dos que, amargando o sofrer,
vegetam perto da vida
sem ter direito a viver.
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Soneto de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Amo 
 
Amo com toda a força do meu ser. 
Amo a beleza, a arte, uma canção. 
Amo o eterno desejo de vencer. 
Amo os versos que vêm do coração. 
 
Amo as flores, é grande meu querer. 
Amo essa amarga e triste solidão. 
Amo os sonhos que estou sempre a tecer. 
Amo o infinito em sua imensidão. 
 
Amo também a morte, dura e fria. 
Amo na morte, toda a ausência e dor. 
Amo meu mundo em meio à fantasia. 
 
Amo a tristeza, e mais, amo a alegria. 
Amo a vida e esse mundo encantador. 
Amo o amor, amo a paz, amo a poesia.
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Poema de
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Porto/Portugal, 1919 – 2004, Lisboa/Portugal

Retrato de uma Princesa Desconhecida
 
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
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Triverso de
CARLOS VIEGAS 
Brasília/DF

sob o sol de inverno
o gato se espreguiça
ainda no cesto.
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Setilha de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Como é linda a primavera
mostrando os seus esplendores,
os campos ficam mais belos
e as plantas mudam de cores;
e a natureza sagrada,
já desperta embriagada
com o perfume das flores!
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Trova de
DIAMANTINO FERREIRA
Campos dos Goytacazes/RJ

Nunca fui águia altaneira,
como nunca fui condor:
– remédios à cabeceira,
somente um velho... com dor.
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Hino de 
LIMOEIRO DO NORTE/ CE

Limoeiro, Limoeiro
Cantamos em seu louvor!
Tu és bandeira de glória
No mastro do nosso amor
És escola e oficina
De um povo trabalhador

Outrora gigantes bravos
Que no teu seio aportaram
Eram também bandeirantes
Que o Jaguaribe cruzaram!
Sem esmeraldas nos sonhos,
A terra boa encontraram

Limoeiro, Limoeiro...

No palco nobre da vida,
Soprou-te a aura envolvente!
Puseste as mãos em teu campo
Plantaste nele a semente;
Tua cidade floresce
Neste Brasil continente

Limoeiro, Limoeiro...

Tuas planícies nos mostram,
A luta que nos apraz
A busca pelo saber,
Pelo trabalho que faz
Erguer a fronte do povo,
Amar a fonte da paz.

Limoeiro, Limoeiro...

Que belas carnaubeiras
Volteiam tua paisagem!
São vincos que te sustentam,
São elos da tua imagem...
Por si, sós, uma aquarela,
Incentivando coragem.

Limoeiro, Limoeiro...

O Jaguaribe em teu seio,
Sereno, doce, a correr,
Projeta veias profundas
No solo que vai beber
As águas que passam nele,
Impondo o lema - VENCER!
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Um Hino de Orgulho e Trabalho
O 'Hino de Limoeiro do Norte' é uma celebração poética e musical da cidade de Limoeiro do Norte, localizada no estado do Ceará, Brasil. A letra exalta as qualidades e a história da cidade, destacando seu papel como um símbolo de glória e amor para seus habitantes. Desde o início, a música enfatiza o orgulho local, referindo-se a Limoeiro como uma 'bandeira de glória' e uma 'escola e oficina de um povo trabalhador'.

A canção também faz referência aos primeiros desbravadores que cruzaram o rio Jaguaribe e encontraram uma terra fértil, sem esmeraldas, mas rica em potencial. Esses pioneiros são comparados a bandeirantes, figuras históricas que exploraram o interior do Brasil. A letra sugere que, apesar de não encontrarem riquezas materiais, os primeiros habitantes de Limoeiro do Norte descobriram um lugar propício para o desenvolvimento e a prosperidade.

Outro aspecto importante do hino é a valorização do trabalho e do conhecimento. A cidade é descrita como um lugar onde a luta pelo saber e pelo trabalho é constante, elevando a dignidade do povo e promovendo a paz. As carnaubeiras, árvores típicas da região, são mencionadas como símbolos de sustentação e coragem, enquanto o rio Jaguaribe é retratado como uma fonte de vida e vitória, com suas águas serenas e profundas.

O hino, portanto, não é apenas uma homenagem à cidade, mas também uma mensagem de incentivo e esperança para seus habitantes. Ele celebra a história, a cultura e os valores de Limoeiro do Norte, reforçando a identidade e o orgulho local. https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/1160694/significado.html 
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Poetrix de
GOULART GOMES
Salvador/BA

Minha Máxima

a cada nova manhã
ressuscito com a certeza
da minha culpa cristã
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Soneto de
FLORBELA ESPANCA 
(Flor Bela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal, 1894 – 1930, Matosinhos/ Portugal

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita, 
Aquela que diz tudo e tudo sabe, 
Que tem a inspiração pura e perfeita, 
Que reúne num verso a imensidade! 

Sonho que um verso meu tem claridade 
Para encher todo o mundo! E que deleita 
Mesmo aqueles que morrem de saudade! 
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! 

Sonho que sou Alguém cá neste mundo... 
Aquela de saber vasto e profundo, 
Aos pés de quem a Terra anda curvada! 

E quando mais no céu eu vou sonhando, 
E quando mais no alto ando voando, 
Acordo do meu sonho...E não sou nada!...
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O pavão queixando-se a Juno

A Juno o pavão se queixa
Dizendo: «ó deusa celeste,
Com razão de ti murmuro
Pela má voz que me deste.

Sou ave tua, e se quero
Entoar os teus louvores,
Estrujo os campos em torno
Com meus guinchos troadores;

O rouxinol tão mesquinho
Deleita, se a voz levanta,
É honra da primavera,
De ouvi-lo o mundo se encanta!»

Irada lhe torna Juno:
«Cala-te, néscio invejoso!
Porque desejas as vozes
Do rouxinol sonoroso?

De ricas pedras ornada
Não parece a cauda tua?
O listrão do íris brilhante
Em teu colo não flutua?

Ave nenhuma passeia
Que tanto pareça bem;
Em si ninguém reunir pode
Quantos dotes os mais têm.

Repartiu seus dons com todos
A profícua Natureza;
Às águias coragem deu,
Deu aos falcões ligeireza;

Por presságio o corvo grasna,
O mocho nas mortes pia,
A gralha males futuros
Com seu clamor pressagia.

Do que são se aprazem todos;
E se torno a ouvir queixar-te,
Dar-te-ei voz de filomela,
Mas hei de as plumas tirar-te.»

Não quis o invejoso a troca;
Que é nosso instinto invejarmos
Sempre o que os outros possuem,
Sem o que é nosso largarmos.
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Mensagem na Garrafa 177 = O Camelo e a Corcova


AUTOR: RUDYARD KIPLING*

No início dos tempos, quando o mundo era tão novo, e tudo o mais, os animais mal estavam começando a trabalhar para o homem, havia um camelo que vivia no meio de um Deserto dos Lamentos, porque não queria trabalhar; além disso, ele próprio era um lamentável absurdo. Comia galhinhos, espinhos, plantinhas, doído de tão preguiçoso; quando alguém falava com ele, só dizia:

- Uma ova! - Só isso: - Uma ova! - e nada mais.

Uma manhã de segunda-feira, o cavalo chegou para ele, sela às costas e freio na boca, e disse:

- Camelo, ó Camelo, venha aqui trotar conosco.

- Uma ova! - disse o camelo; e o cavalo foi embora e contou para o homem.

Veio o cachorro, com uma vareta na boca e disse:

- Camelo, ó Camelo, venha aqui catar conosco.

- Uma ova! - disse o camelo; e o cachorro foi-se embora e contou para o homem.

Depois veio o Boi, com uma cangalha no pescoço e disse:

- Camelo, ó Camelo, venha aqui arar conosco.

- Uma ova! - disse o camelo; e o boi foi embora e contou para o homem.

No fim do dia, o homem chamou o cavalo, o cachorro e o boi e disse:

- Três, ó Três, lamento muito por vocês (nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais); mas aquela Coisa-ova no Deserto não consegue trabalhar, senão já estaria aqui agora. Por isso, vou deixá-lo sozinho lá e vocês vão ter que trabalhar dobrado para compensar.

Isso deixou os Três furiosos (naquele mundo tão novo-e-tudo-o-mais) e foi um palavrório, uma confusão, um comício escandaloso na beira do deserto. O camelo veio mascando uma mamona, doído de tão preguiçoso e ficou rindo deles. Depois disse:

- Uma ova! - e foi-se de novo.

Veio chegando o Djinn (gênio) que reinava sobre todos os desertos, rolando numa nuvem de poeira (os Djinn sempre viajam assim, porque é magia), e parou para um palavrório e um comício escandaloso com os Três.

- Djinn de Todos os Desertos - disse o Cavalo -, pode alguém ser tão preguiçoso, nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais?

- Certamente que não - disse o Djinn.

- Bem - disse o Cavalo -, tem uma coisa no meio do Deserto dos Lamentos (e ele é o próprio lamentável absurdo) com um pescoço comprido e pernas compridas, que não moveu uma palha de trabalho desde a manhã de segunda-feira. Ele nem trota.

- Puxa! - disse o Djinn, dando um assovio - É o meu Camelo, por todo o ouro da Arábia! O que é que ele diz disso?

- Ele diz uma ova! - disse o Cachorro - E nem pega nem carrega.

- Ele diz alguma outra coisa?

- Só uma ova! e ele nem ara - disse o boi.

- Muito bem - disse o Djinn. - Eu vou ovacioná-lo, se vocês fizerem a gentileza de esperar um minuto.

O Djinn se enrolou no seu casaco de poeira, determinou sua posição no deserto e achou o Camelo doído de preguiça, olhando seu próprio reflexo numa poça d'água.

- Meu amigo comprido e borbulhante, - disse o Djinn - que é que eu ando ouvindo, de você não querer trabalhar, nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais?

- Uma ova! - disse o Camelo.

O Djinn sentou-se, queixo na mão, e começou a pensar uma Grande Magia, enquanto o Camelo continuou olhando seu reflexo na poça d'água.

- Você fez os Três trabalharem dobrado desde manhã de segunda-feira, só porque fica doído de preguiça - disse o Djinn; e continuou pensando magias, com o queixo na mão.

- Uma ova! - disse o Camelo.

- Eu não repetiria isso, se fosse você - disse o Djinn. - Você pode falar demais da conta. Bolas, eu quero que você trabalhe.

E o Camelo disse:

- Uma ova! - de novo.

Mas logo que falou, viu suas costas, das quais tinha tanto orgulho, estufando, estufando, até virar uma enorme corcova.

- Viu só? - disse o Djinn - Foi a sua própria preguiça que você trouxe como um peso às suas costas, por não querer trabalhar. Hoje é quinta-feira e você não trabalhou nada desde segunda, quando começou o trabalho. Agora, você vai trabalhar.

- Como é que eu posso - disse o Camelo -, com essa corcunda nas minhas costas?

- Foi de propósito - disse o Djinn - porque você faltou esses três dias. Agora você vai poder trabalhar três dias sem comer, porque você vive da sua corcunda-uma-ova, que vai ser sua corcova; e nunca diga que nunca fiz nada por você. Saia do deserto e vá com os Três, comporte-se. Corcove-se!

E o Camelo corcoveou-se, corcova e tudo, e foi juntar-se aos Três. E desde aquele dia, o Camelo sempre teve um corcova-uma-ova (a gente chama de corcunda, hoje, para não magoá-lo, lembrando uma ova!); mas ele nunca compensou os três dias que faltou no começo do mundo; e até agora ainda não aprendeu a se comportar.
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* Joseph Rudyard Kipling (1865–1936) foi um renomado autor, poeta e jornalista britânico, imortalizado por obras como O Livro da Selva e o poema Se. Nascido na Índia sob o domínio britânico, ele é considerado um dos maiores inovadores na arte do conto curto e foi, em 1907, o primeiro escritor de língua inglesa e o mais jovem a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Sua produção literária é vasta e abrange diversos gêneros: “O Livro da Selva”: Sua obra mais famosa, que apresenta as aventuras de Mogli, o "menino lobo". “Kim”: Muitas vezes aclamado como seu melhor romance, narra a história de um órfão irlandês na Índia no contexto do "Grande Jogo" político. “Gunga Din”: Poema que descreve o heroísmo de um carregador de água indiano.
Nascido em Bombaim, teve uma infância feliz cercado pela cultura local até ser enviado aos 5 anos para a Inglaterra, onde sofreu maus-tratos em um internato, trauma que influenciou sua escrita. Retornou à Índia aos 16 anos para trabalhar em jornais como o Civil and Military Gazette, onde começou a publicar seus primeiros contos. Casou-se com a americana Caroline Balestier e viveu em Vermont por quatro anos, período em que escreveu O Livro da Selva. Perdeu sua filha primogênita, Josephine, por pneumonia em 1899, e seu filho John na Primeira Guerra Mundial em 1915, eventos que o marcaram profundamente.  Embora celebrado por seu talento narrativo, Kipling é uma figura controversa devido ao seu forte apoio ao imperialismo britânico. Ele acreditava na "missão civilizadora" do Império, conceito imortalizado em seu poema "O Fardo do Homem Branco". Atualmente, sua obra é analisada sob lentes críticas que discutem colonialismo e racismo, embora sua habilidade literária continue atraindo leitores.