segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Semeando Trovas)

 

1
Ao dar tudo o que ela quer,
a evitar que o amor se perca,
o corno cerca a mulher
mas a mulher pula a cerca.
2
Após a noite que embaça
a janela do viver,
ressurge a luz na vidraça
com um novo amanhecer.
3
Aprenda bem a lição, 
desde bem cedo, menino,
pois na vida a Educação
é base do seu destino.
4
Canta o galo de matina
na Cantagalo florida,
saudando o sol que ilumina
duzentos anos de vida.
5
Capiau faz dentadura
sem ter o dente frontal,
pois deste modo assegura
um sorriso natural.
6
Com saudade do gramado,
da função desempenhada,
o gandula aposentado
corre atrás de uma pelada.
7
 Dia das Mães! Não se esqueça
dos presentes de ninguém:
por incrível que pareça,
sua sogra é mãe também!
8
Enquanto a gente descansa
na metade de um caminho,
um outro qualquer alcança
a outra metade sozinho.
9
Ensinando ao aprendiz,
nosso professor Raimundo,
no quadro negro e com giz
sonhava mudar o mundo.
10
Galopando sem receio
um indomável equino,
vou pela vida em rodeio
no cavalo do destino.
11
Há uma lição que sem cola
pelo estudante é sabida:
– na vida a melhor escola
é a grande escola da vida.
12
Luminar Academia,
plena de vitalidade,
a tua luz irradia,
a cultura na cidade.
13

Manassés compositor,
com suas belas canções,
canta a vida, canta o amor,
despertando as emoções.
14
Mostra a vida, mostra a história,
que a prática da coerência,
determina a trajetória
de uma correta existência.
15
Natal! Campos do Jordão,
cidade em que o amor reluz,
faz de cada coração
o berçário de Jesus.
16
O amanhecer se vislumbra
quando o sol em sua ida,
se elevando da penumbra
irradia a luz da vida.
17
O autêntico jornalista,
expressa nos seus relatos,
correto ponto de vista
da realidade dos fatos.
18
O garoto se insinua
perante a namoradinha:
– Minha sombra com a sua
será que fazem sombrinha?
19
O jogador e a torcida
têm que ser disciplinados,
pois toda copa é vencida
dentro e fora dos gramados!
20
O migrante em sua andança
parte do amado rincão.
Leva consigo a esperança
mas deixa o seu coração.
21
O vovô vai à balada
e sem muito lero-lero,
na pista dança lambada
em compasso de bolero.
22
Parece o craque Coalhada
com o galã falastrão:
- não aguenta uma pelada
mas diz que joga um bolão.
23
Peão ardiloso paca,
do seu intento dá cabo:
- usa o cheirinho da vaca
para amansar touro brabo.
24
Pela sua grande crença,
salvou-se, na Arca, Noé:
- não há dilúvio que vença
um homem cheio de fé!
25
Proteja Deus o migrante
que com seu labor fecundo
faz de uma terra distante
a melhor terra do mundo.
26
Quando a vejo na calçada,
de passagem pela rua,
minha sombra inconformada
ainda vai atrás da sua.
27
Quando me sinto estressado,
fugindo da realidade,
vou do presente ao passado
pelo túnel da saudade.
28
Quando toca Manassés
as canções de tempos idos,
tem o público aos seus pés
para os aplausos devidos.
29
Se alastrando lentamente
qual um glaucoma, o rancor,
impede os olhos da gente
de enxergar a luz do amor.
30
Seja de que modo for
e sem qualquer preconceito,
na casa onde mora o amor,
mora também o respeito.
31
Teu corpo ardente, formosa,
caminho da perdição,
é uma rua perigosa
que eu subi na contramão.
32
Toda natureza atesta
que esta vida é uma pintura,
onde Deus se manifesta
sem a Sua assinatura.
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Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (1942)
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO é um renomado engenheiro, gestor público e um dos mais ativos e premiados trovadores contemporâneos do estado de Minas Gerais. Com forte atuação na comunidade lírica nacional, ele se destaca pela precisão métrica e sensibilidade de suas composições. Nascido no Rio de Janeiro, em 1942 e radicado em Juiz de Fora/MG, cidade polo cultural que historicamente abriga uma forte tradição de trovadores. Graduado em Engenharia, atuou profissionalmente no serviço público do município de Juiz de Fora. Exerceu cargos de grande relevância executiva e técnica, tendo sido Superintendente da GETTRAN (Subsecretaria/Gerência de Transporte e Trânsito de Juiz de Fora), liderando o planejamento de mobilidade urbana e trânsito da cidade nos anos 2000.
Dulcídio estruturou sua trajetória literária sob o gênero da Trova É um membro proeminente da UBT - Seção Juiz de Fora. Além de produzir e competir, atua frequentemente como jurado e avaliador técnico em múltiplos certames nacionais de poesia e Jogos Florais. Reconhecido no meio poético como um "premiadíssimo vencedor de Concursos", acumula honrarias em todo o país.
Sua obra é publicada predominantemente em regime de coletâneas especializadas, antologias dos Jogos Florais e compilações de Academias de Letras que reúnem as trovas vencedoras e selecionadas ao redor do Brasil. Na tradição da trova, o registro impresso costuma ocorrer de forma compartilhada nessas antologias e portais dedicados à preservação da memória lírica. 
Dulcídio é fundamental para a manutenção da tradição da trova clássica no Brasil. Sua importância reside em: Manter acesa a chama literária da Zona da Mata mineira, conectando a nova geração à herança deixada por ícones locais como Belmiro Braga; Suas composições transitam com maestria entre o lirismo filosófico, as temáticas cotidianas da fé, as belezas das cidades brasileiras e a sensibilidade social para com os menos favorecidos; Ao atuar ativamente em entidade trovadoresca e em comissões julgadoras, ajuda a garantir o rigor técnico e a vitalidade da trova poética em língua portuguesa.

Walcyr Carrasco (Pinga-pinga de pinguço)

Um passeio nas vans que circulam de bar em bar.

Bares do Itaim, Jardins e Pinheiros andam oferecendo um serviço exclusivo para bebuns. É uma van que os leva até em casa. Trata-se, com o perdão de um trocadilho, de um pinga-pinga de pinguços. As vans circulam de bar em bar. arrebanhando os etílicos, durante a madrugada.

Desde que o novo Código de Trânsito entrou em vigor, a polícia anda rondando perto dos bares, bafômetro a postos, em busca de motoristas infratores. Com as vans, os bares garantem faturamento. Os clientes podem mergulhar nos copos, sem depois arriscar a pele no asfalto. Serviços semelhantes já existem na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Raramente tomo umas e outras. Soube, entretanto. que o clima nas vans é animadérrimo. Imaginem seis bêbados indo para casa. A van estaciona para pegar o sétimo, em novo bar. Descem os seis primeiros.

E aí, que tal a saideira?

Dá-lhe! O inocente que saiu para tomar um ou dois uísques entra na animação. Acorda embaixo do balcão de uma padaria. Também são frequentes os tipos belicosos e as discussões capazes de resolver o problema do futebol brasileiro.

Eu já disse que o Ronaldinho…

Ah, nego vem falar do Ronaldinho! Não vem! Nãããão veeeeem!

O Ronaldinho? O Ronaldínho?

Sóbrio por necessidade profissional. o motorista tenta aplacar os ânimos.

- Ô, pessoal, o Ronaldinho joga um bolão.

Os seis se unem.

– Cala a boca!

O coitado silencia. Abre a janela. É obrigado a dirigir a madrugada toda de vidro abaixado. Até o ar está impregnado. Se respirar mais fundo, fica de fogo.

Mais uma parada, entra um rapaz. Tomou só um ou dois goles.

– Eu sozinho. Lembrei da van. Que negócio é esse de ir para casa tão cedo?

Novo tropel. No veículo. fica só um, desmaiado, lá no fundo. Os outros descem, atrás de nova rodada. A van é ideal para fazer amizades. Há quem chegue até mais longe.

A senhora não está bêbada! – desconfia o motorista.

Ela afina a voz, bambeia as pernas.

– Estou bebinha, sim!

Consegue entrar. Aperta-se entre todos. Examina um por um, com o olhar esperto. Um está bêbado demais. Outro, passado da idade. O terceiro, sim, serve! Tem perfil de executivo. Ela afia as garras. Ele nem desconfia., quando descem no mesmo prédio. Sobem juntos no elevador, aterrissam no mesmo andar. Começa a ficar cabreiro quando, após várias tentativas, consegue botar a chave na porta e percebe que ela o espera. Não há tempo para perguntas. Ela entra depressa, vai até o bar e prepara dois uísques. Ele cai duro no sofá. Consegue erguer uma das pestanas meia hora depois.

Quem é você? – pergunta, trêmulo.

Você me convidou para um uísque! – ela retruca, revoltada.

O executivo vasculha o cérebro. Não consegue lembrar. Mas deve ter convidado. Senão, por que ela estaria em sua sala? Bebe mais uma dose para acordar e desmaia. Na semana seguinte, ela já está falando em casamento. Ele continua não se lembrando de nada.

Também existem alpinistas sociais. Como o sujeito que mora na periferia. Quer chegar em casa de carro. A maior parte dos bares adota limites mínimos de consumo, para dar direito a carona. Ele bebe o mínimo. Depois, exige que o levem para a casa. O motorista quase cai nas barrancas do Tietê para chegar até lá. O falso bebum desce alegremente. Os amigos, admirados.

-Tu tá por cima. hein, malandro? Chegando em casa de chofer!

Sorri, vitorioso. Sai mais barato do que táxi. O bêbado desmemoriado é uma tragédia.

O senhor não se lembra do endereço?

Eu aaaaaaaaaacho que é virando aquela rua…

Toca a vasculhar quarteirões.

Certo tipo de bebum não vai de van. É o imprevidente, que saiu de casa em seu próprio carro. O bar oferece o motorista. que dirige para o cliente. Mas bêbado detesta terminar a noite sozinho.
Soooobe aí. Veeeem tomar uma comigo.

Sinto muito. A van do bar vem me pegar em meia hora, esquiva-se o motorista.

Soooobe só meia hooora.

O chofer acaba mais bêbado do que o cliente. Quando a van chega, está cantando na sarjeta. Há quem possa se espantar com a ideia. É uma medida civilizada. Com este calor, poucos resistem a um chope, ou a dois, a três, quatro… Ficam a salvo pedestres e postes!
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Walcyr Carrasco (1951)
WALCYR RODRIGUES CARRASCO nasceu em Bernardino de Campos (SP), em 1951. Nascido no interior de São Paulo, mudou-se aos 3 anos com a família para Marília (SP), onde passou a infância e a adolescência. Aos 16 anos, mudou-se para a São Paulo, onde fixou residência para estudar e consolidar sua carreira profissional. Inicialmente, ingressou no curso de História na USP, mas mudou de rumo e formou-se em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Trabalhou por anos em grandes redações da imprensa escrita, incluindo O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, Diário Popular e as revistas Veja e IstoÉ. Foi também diretor da icônica Revista Recreio. Na televisão, estreou no fim dos anos 1980 e tornou-se um dos principais e mais disputados autores da TV Globo, escrevendo fenômenos de audiência nos horários das seis, sete e nove horas.
Seu amor pelos livros começou na infância sob a forte influência da obra de Monteiro Lobato. Walcyr iniciou sua trajetória literária escrevendo contos infantis para revistas. Ao longo das décadas, expandiu sua produção para o teatro, escrevendo peças aclamadas como Batom e Êxtase. Paralelamente, tornou-se um autor infantojuvenil de imenso sucesso comercial e pedagógico, além de cronista ativo em publicações semanais. É membro imortal da Academia Paulista de Letras (APL).
Sua versatilidade já lhe rendeu láureas nos mais prestigiados segmentos do país e do exterior, tais como: Prêmio Jabuti de Literatura (2017) na categoria Adaptação, pela obra Romeu e Julieta; Prêmio Shell de Teatro como Melhor Autor pela peça Êxtase; Emmy International (2016) de Melhor Telenovela por Verdades Secretas; Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte); Selo "Altamente Recomendável" da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) pelo livro Em Busca de um Sonho; Prêmio Mérito Causas Imortais da Academia de Letras do Brasil.
Com mais de 60 livros publicados e milhões de exemplares vendidos, sua obra transita entre o público infantil, juvenil e adulto. Destacam-se: Vida de Droga; O Menino Narigudo; Em Busca de um Sonho; A Senhora das Velas (romance adulto); Pequenos Delitos (coletânea de crônicas); Um Anjo de Quatro Patas.
A importância de Walcyr Carrasco reside em sua extraordinária capacidade de formar novos leitores e democratizar o acesso à narrativa escrita. Ao escrever livros infantojuvenis que tratam de temas cotidianos, éticos e sociais com extrema sensibilidade, suas obras tornaram-se leituras obrigatórias em escolas de todo o Brasil, marcando gerações de estudantes. Além disso, Walcyr desempenha um papel fundamental como "ponte" entre a literatura e a cultura de massa. Suas adaptações de clássicos aproximam o público jovem de textos históricos complexos. Na televisão e no teatro, ele utiliza uma estrutura narrativa nitidamente folhetinesca e literária, provando que a arte de contar histórias consegue emocionar de forma legítima tanto as academias de letras quanto as camadas mais populares do país.

Fonte:
Revista VEJA. São Paulo. 11 de março 1998.
Biografia = E-Biografia, Wikipedia, Memória Globo, Folha de São Paulo, Academia Paulista de Letras, Biblioteca sem Limites, etc.

Vicência Jaguaribe (Complô no Reino da Fantasia)

 
Uma palavra para o leitor

Esta história não deve, de maneira alguma, causar-lhe estranheza, leitor, pois o fenômeno não é novo: não é a primeira vez que personagens de ficção saem das páginas dos livros, ganham autonomia e penetram no mundo real. Vou dar só um exemplo: na peça teatral Seis personagens à procura de um autor, do italiano Luigi Pirandello, seis personagens, ao serem rejeitadas por seu criador, entram na vida real e tentam convencer um diretor de teatro a encenar suas histórias. 
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Conta-se — mas eu não assino embaixo — que, certa vez, viu-se, no castelo do Príncipe Rodolfo, herdeiro do reino da Appelândia, uma movimentação desusada: há três dias, cavalariços sonolentos limpavam as cocheiras e reorganizavam as baias para receber mais animais; fornecedores chegavam a todo momento para abastecer as despensas; criados domésticos limpavam e arejavam os aposentos fechados e com cheiro de mofo, trocando a roupa de cama, acendendo lareiras e enchendo as grandes tinas de banho, com uma água que talvez nem fosse usada — dizia-se, em surdina, que a maioria dos príncipes não gostava de banho —; chefes de cozinha de fama internacional começavam a preparar pratos que, só de olhar, despertavam não apenas a fome, mas a vontade de comer.

Sua Alteza Real receberia em seu castelo os príncipes que tinham suas vidas e aventuras registradas e deturpadas nos tradicionais contos de fada. Ele próprio fora atingido no papel que desempenha no conto “Branca de Neve e os sete anões”. Mas isso vamos deixar para depois.

Tudo pronto, o príncipe Rodolfo vestiu sua roupa principesca, com manto de príncipe, sapato de príncipe, chapéu de príncipe e tudo o mais de príncipe, e esperou. Se alguém duvidava ser ele um príncipe de verdade, a dúvida acabava ali, naquele momento. Ser príncipe estava em seu corpo e em sua alma: no jeito de olhar, de falar, de andar, de dar ordens, de amar e de odiar. Dizem que os príncipes fazem tudo isso diferente de nosotros. Não confirmo nem nego essa afirmação porque nunca em minha vida vi um príncipe de verdade.

Os convidados fizeram-se anunciar um a um para imprimir à entrada mais pompa e circunstância: 

Sua Alteza Real o Príncipe Nicolau, do Reino da Hipnolândia e da história “A Bela Adormecida”;

Sua Alteza Real o Príncipe Alexandre, do Reino da Cindelândia e da história “Cinderela”;

Sua Alteza Real o Príncipe Aníbal, do Reino da Ferolândia e da história “A Bela e a Fera”;

Sua Alteza Real o Príncipe Orlando, do Reino da Ursolândia e da história “Branca de Neve e Rosa Vermelha”;

Sua Alteza Real o Príncipe Alberto, do Reino da Bravolândia e da história “O príncipe que não temia coisa alguma”;

Sua Alteza Real o Príncipe Ambrósio, do Reino da Sapolândia e da história “Rei Sapo ou Henrique de Ferro”.

E foram anunciados outros príncipes de terras longínquas, cujas histórias eram pouco conhecidas. O príncipe Rodolfo encaminhou suas altezas a um grande salão decorado de espelhos e de lustres feitos do cristal mais puro. 

Todos entraram e a porta foi fechada. Aquela era uma reunião cuja pauta devia ficar em completo sigilo. Príncipes de reinos mais pobres olhavam aparvalhados para tanta beleza e luxo. Os do Oriente admiravam-se com a diferença do gosto e da noção de beleza. Os dos países mais próximos observavam tudo com uma pontinha, deste tamanho, de inveja.

Quando todos se acomodaram, o Príncipe Rodolfo, sentado na cabeceira da enorme mesa, abriu a reunião, falando o maravilhês, língua usada por todos os que vivem na dimensão da magia e do maravilhoso.

— Meus amigos, dignos Príncipes dos reinos vizinhos e dos reinos longínquos, vocês devem ter ficado curiosos e também preocupados com o meu convite. Deixem-me dizer-lhes o motivo pelo qual eu, presidente da Associação dos Príncipes dos Contos de Fada — APCF —, convoquei-os para esta reunião: rever a posição e a caracterização dos príncipes nos contos de fadas. Relendo, há pouco tempo, algumas obras famosas, tomei consciência de como somos tratados nas histórias. E não gostei do que descobri.

(Vamos dizer a verdade sobre o despertar da consciência crítica do Príncipe Rodolfo. Não foram os livros que ele diz haver lido, mas algo muito mais sério. Um dia, quando admirava aquela sala e seus lustres, acompanhado do pai, o Rei William, ouviu dele a informação do encantamento que envolvia o aposento: se uma pessoa tivesse certeza do que queria, se estivesse disposta a corrigir os erros de uma situação, ao fixar-se em um dos espelhos teria o senso crítico intensificado. Na primeira oportunidade, o Príncipe voltou ao salão e, ao mirar-se em um dos espelhos, enxergou a própria vida e a de muitos dos seus pares, como elas eram retratadas nas histórias. E não gostou do desvelamento feito pelo seu senso crítico agora aguçado.)

— Nossas vidas são exatamente como vou aqui expor. Digo, sem titubeio, que não temos nenhuma importância, nenhum carisma e, principalmente, não temos caráter ou personalidade.

— Vossa Alteza nos chamou aqui para nos falar de nossos defeitos e fraquezas? — Ouviu-se a vozinha fraca do Príncipe Sapo.

— Não. — Retomou a palavra o Príncipe Rodolfo. — Chamei-os para alertá-los sobre a maneira como os escritores nos apresentam em suas histórias. Eles desvalorizam nossas figuras. Esse é um ponto que atinge todos os príncipes dos contos maravilhosos, que só existem neles e por eles. Nesses contos, não temos nem nomes; somos conhecidos pelo nome da protagonista da história, que geralmente está presente no título da narrativa — o príncipe de “Branca de Neve”; o príncipe de “Rapunzel”, e assim por diante. Cada um de nós é simplesmente o Príncipe, como se não fôssemos indivíduos, mas entidades sociais ou pessoas jurídicas. Você, por exemplo, Príncipe Nicolau, seu nome não aparece uma única vez na história da Bela Adormecida. E, o que é mais, grave: amputaram o seu conto. Ele termina no seu casamento com a princesa ex-adormecida. Nada daquele final macabro, que faz até jacaré chorar.

— É verdade que o cortaram nesse ponto?! E o que fizeram com o restante?

— Ora! Amassaram e jogaram no lixo. Não vê que agora, no mundo do reality show, é proibido contar para as crianças certos detalhes das histórias. Também inventaram um tal de politicamente correto, que está levando os novos escritores a deformar as histórias tradicionais.

— Como pode ser isso? — Perguntou o Príncipe Ambrósio.

— Pode, meu amigo, no mundo do reality show, as coisas mais estapafúrdias acontecem. E tudo é muito contraditório. A minha história foi alterada: inventaram que  Branca de Neve acordou com um beijo meu. Imaginem se eu beijaria uma defunta ou uma quase! Os deuses me protejam! A verdade é que, quando a vi deitada no esquife, bela como eu jamais pensara que uma princesa pudesse ser, apaixonei-me. Tentei comprar o esquife, mas os anões negaram-se a vendê-lo. Quando, porém, entenderam que eu ficara profundamente apaixonado pela garota e ouviram minha declaração de amor — Dai-me, então, como um presente, pois não posso viver sem ver Branca de Neve.  —, tiveram piedade de mim e mandaram-me levar o caixão. Os servos que traziam o esquife para o meu castelo tropeçaram. A urna não caiu, mas balançou muito, o que fez a princesa expelir o pedaço da maçã envenenada preso em sua garganta. Imediatamente após o incidente, pedi a princesa em casamento.

E com sua história — “Rei Sapo ou Henrique de Ferro” —, Príncipe Ambrósio, ainda foi pior. Nem príncipe aparece. Em uma das versões modernas da história, o sapo se transforma, vejam só, em um corretor de imóveis, que planeja construir, na bela floresta do reino da Sapolândia, o que eles chamam de shopping- center. Outro detalhe: até o criado tem nome — Henrique. E Vossa Alteza, nada.

— Mas qual a razão de fazerem isso com a minha história?

— Acho que foi para denunciar a destruição das florestas que está acontecendo por lá, pelo mundo da realidade.

— E o que houve com minha história? — A pergunta vinha do príncipe Alexandre.

— A sua história, Alteza, já é ridícula desde que foi inventada — falou o príncipe Rodolfo, com sua franqueza habitual. Quem já viu um príncipe de sangue real ir de casa em casa com um sapato na mão, procurar a dona desse sapato, que poderia até ser uma plebeia, para com ela se casar! E, ainda por cima, Vossa Alteza prepara a festa, dança com a jovem desconhecida e ninguém sabe, nem a jovem, muito menos o leitor da história, que seu nome é Alexandre.

— Suas palavras me ofendem, príncipe Rodolfo. 

— Desculpe-me. É esta minha boca que insiste em ser sincera, por isso exagera na verdade.

— Desculpas aceitas, Príncipe Rodolfo.

— E sabe, Príncipe Alexandre  —, continuou o Príncipe Rodolfo — que os estudiosos descobriram uma versão da sua história muito mais antiga do que a europeia que conhecemos? E, talvez, bem mais interessante. É chinesa e parece ter sido a primeira versão escrita do conto “Cinderela” ou “Branca de Neve”.

— Interessante, muito interessante! Mas humilhante para este Príncipe aqui, que nem original é. — Choramingou o Príncipe Alexandre.

— Bem — retomou a palavra o Príncipe Rodolfo — para encerrar nossa reunião, um detalhe dos mais graves: todos nós, os príncipes, parecemos, nos contos de fada, uns idiotas. Apaixonamo-nos, à primeira vista, pela primeira jovem bonitinha que aparece e, rápido como a queda de um raio, contratamos casamento. E ainda somos apresentados como uns imbecis e preguiçosos, que levam a vida caçando, passeando e tentando encontrar dragão. Não temos nenhum papel no reino, a não ser procurar uma noiva e defendê-la dos dragões e das maldições das bruxas. Isso me deixa desolado. E tem mais: aquele felizes para sempre já está tão fora de moda! Quem é feliz para sempre, principalmente casando com as princesas mofinas dos contos de fada? Princesas que não fazem nada de proveitoso, não conseguem nem vestir-se sozinhas, passam os dias esperando a chegada de seus falsos heróis. São tão sensíveis, mas tão sensíveis mesmo, que sentem o desconforto causado por uma ervilha colocada sob vários colchões. Me dá vontade de falar como falam os príncipes e os não príncipes do mundo real: Minha amiga, me dá um tempo. Que tal se garantir um pouco e esperar menos?  Afinal de contas, o que as pessoas do mundo do reality show pensam que nós, moradores do mundo paralelo da fantasia, somos, para nos representar assim?

— É, a situação é grave e vergonhosa. O que Vossa Alteza sugere que façamos? — Perguntaram os príncipes ao mesmo tempo.

— Sugiro uma crise de ilustrações. Sem ilustrações, nada de livro para criança. Cada um de nós se encarregará de achar alguém com o poder de fazer desaparecerem todas as ilustrações das histórias que foram alteradas. Vamos marcar outra reunião para de hoje a um mês.

Satisfeitos, Suas Altezas dirigiram-se à sala onde serviriam o almoço, que foi digno dos deuses. Depois do almoço, repousaram uma meia hora e foram à caça. O Príncipe Rodolfo, com seu senso crítico hipertrofiado pela permanência na sala mágica, pensou um pensamento tão estranho quanto polêmico: Será que os contadores de histórias não estão certos na caracterização — ou falta de caracterização — dos príncipes? Parece que somos todos iguais: parasitas em busca de aventuras e de um amor instantâneo, feito leite em pó.
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P.S. A partir daquele dia, as editoras que trabalhavam com livros infantis foram processadas e tiveram que pagar boas indenizações aos clientes, por venderem livros cujas ilustrações se apagaram.
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Vicência Jaguaribe (1948) 
VICÊNCIA MARIA FREITAS JAGUARIBE nasceu em 1948, em Jaguaruana (CE), no Vale do Jaguaribe. Embora tenha raízes profundas em sua cidade natal,, também viveu nas cidades vizinhas de Russas e na capital, Fortaleza, locais onde realizou seus estudos. Dedicou toda a sua trajetória ao magistério. Graduou-se em Letras e obteve o título de Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como professora da educação básica (curso médio) e, posteriormente, consolidou sua carreira no ensino superior como Professora Adjunta da Universidade Estadual do Ceará (UECE), onde hoje se encontra aposentada. Suas pesquisas acadêmicas focam em Estilística e Literatura Brasileira.
Leitora voraz desde a infância, desenvolveu uma sólida produção literária voltada especialmente para os gêneros da crônica, do ensaio acadêmico e da poesia. Seus textos frequentemente exploram o cotidiano, temas sociais, o papel da mulher na sociedade e a forte identidade regional ligada ao Vale do Jaguaribe. Ela é uma colaboradora ativa de portais literários digitais, como o Recanto das Letras. É membra fundadora e imortal da Academia Jaguaruanense de Letras, onde atua ativamente na preservação da memória e no incentivo à leitura na região de sua terra natal. Por ter uma carreira fortemente atrelada ao meio acadêmico universitário e à escrita de crônicas regionais, seu reconhecimento se dá principalmente através de homenagens institucionais, deferências na Universidade Estadual do Ceará e o prestígio comunitário no circuito literário do interior cearense, não acumulando grandes prêmios comerciais nacionais de editoras.
Além de dezenas de crônicas, poesias e artigos publicados em jornais, antologias e plataformas literárias como "Fazendo omelete num país patchwork" e "Como se fosse uma visita", destaca-se sua contribuição na organização de coletâneas, ensaios literários em congressos acadêmicos e materiais voltados para o estudo da Língua Portuguesa e Estilística.
A importância de Vicência Jaguaribe reside em seu papel como guardiã da memória cultural do Vale do Jaguaribe e como ponte de conhecimento. Através das salas de aula da UECE, ela formou gerações de novos professores e pesquisadores da literatura cearense. Na escrita criativa, suas crônicas e ensaios dão voz à identidade do interior nordestino com um olhar sofisticado e sensível, provando que a literatura de alto nível no Ceará pulsa com força para além das fronteiras da capital, Fortaleza.

Fonte:
Texto enviado pela autora,  12.08.2012

Gonçalves Crespo (Poemas Escolhidos)

 

QUIMERAS

O mar já me tentou: aspirações fogosas
Fizeram-me idear fantásticas viagens;
Eu sonhava trazer de incógnitas paragens
Notícias imortais às gentes curiosas.

Mais tarde desejei riquezas fabulosas,
Um palácio escondido em múrmuras folhagens,
Onde eu fosse ocultar as cândidas imagens
Das virgens que evoquei por noites silenciosas.

Mas, tudo isso passou: agora só me resta
Das quimeras que tive, uma visão modesta,
Um sonho encantador, de paz e de ventura.

É simples: uma alcova, um berço, um inocente,
E uma esposa adorada, envolta, a negligente!
De um longo penteador na imaculada alvura…
= = = = = = = = = = = = = =  

SONETO DO OCASO

Sara, quando me vês, suave e brando,
Repelir os teus beijos amorosos,
Talvez julgues, mulher, ir declinando
O alegre sol dos dias teus formosos.

Como te enganas, flor! choro pensando
Que foste irmã dos lírios cetinosos,
E que talvez o céu fulgiu brilhando
De teus olhos nos raios luminosos…

Quem te colheu o beijo primitivo?
Que Fausto ou Mefistófeles altivo
Te enodoou as vestes, Margarida?

Escuta: enquanto dormes, impudente,
Talvez nalguma estrela resplendente
Chore tua alma triste e arrependida.
= = = = = = = = = = = = = =  

FERVET AMOR
(ao Dr. Antônio Cândido)

Dá para a cerca a estreita e humilde cela
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Veem-se ao longe os trigos ondulando…
Maio sorri na pradaria bela.

Zumbe o inseto na flor do rosmaninho;
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo;
Zunem besouros e palpita o ninho.

E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.
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NA ALDEIA
(a Cristóvão Aires)
 
Duas horas da tarde. Um sol ardente
Nos colmos dardejando, e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
O grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente
Treme o loureiro nos umbrais pintados;
Zumbem à porta insetos variegados,
Envolvidos do sol na luz tremente.

Fia à soleira uma velhinha: o filho
No céu mal acordou da aurora o brilho
Saiu para os cansaços da lavoura.

A nora lava na ribeira, e os netos
Ao longe correm seminus, inquietos,
No mar ondeante da seara loura.
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MODESTA
(À minha irmã)

Se lembro esse momento
Mais belo d’esta vida!
Voava desprendida
A tua coma ao vento…

O teu olhar, querida,
Desceu ao meu tormento,
E após enternecida
Disseste em brando acento:

“Tua alma sofre e chora,
Quando o porvir se inflora,
Quando a teu lado estou!…”

Doce te olhei tremendo;
A noite ia descendo,
Um beijo se escutou.
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MODESTA (II)

Um beijo se escutou,
E eu via mal seguro
A luz que ele traçou
No azul do meu futuro.

Um beijo se escutou.
Depois… teu lábio puro
Mais brando suspirou
Que a pomba em ermo escuro.

Voz doce e piedosa!
Não fujas, mariposa,
Não tremas, Galatéia!

Gwinplaine, extasiado,
De um ósculo sagrado
Os pés ungia a Déia…
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O CAMARIM

A luz do Sol afaga docemente
As bordadas cortinas de escumilha,
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.

Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a “Norma”, ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.

Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.

Sobre a mesa emurchece um ramalhete,
E entre um leque e umas luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.
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NA ROÇA

Cercada de mestiças no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco a pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro
E vêm das matas os negros colhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.

Atrás das grades, pardas borboletas
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada.
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Gonçalves Crespo (1846 – 1883)
ANTÓNIO CÂNDIDO GONÇALVES CRESPO foi um dos principais poetas luso-brasileiros da segunda metade do século XIX, amplamente reconhecido por introduzir a estética do Parnasianismo em Portugal. Nascido no Brasil, ele viveu e construiu toda a sua aclamada trajetória literária em solo europeu, atuando na transição entre o Romantismo e o Realismo. Nasceu em 1846, no [Rio de Janeiro (RJ), então capital do Império do Brasil. Ele era filho de um comerciante português e de Francisca Rosa da Conceição, uma brasileira de origem mestiça e escrava. Faleceu em 1883 (aos 37 anos), em Lisboa/Portugal, vítima de complicações da tuberculose. Viveu sua infância no Rio de Janeiro. Aos 10 ou 14 anos de idade, mudou-se para Portugal por razões de saúde e para prosseguir com seus estudos. Em solo português, viveu em cidades como Porto e Coimbra (durante seu período universitário) e, por fim, Lisboa onde se fixou e casou com a renomada escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Embora tenha adquirido a nacionalidade portuguesa (requisito legal na época para advogar), atuou pouquíssimo no âmbito jurídico. Dedicou-se intensamente ao jornalismo, trabalhando como redator e colaborador de grandes periódicos, como o Diário das Câmaras, o Jornal do Commercio de Lisboa e a revista de artes O Occidente. Além disso, construiu uma carreira política, sendo eleito deputado às Cortes lusitanas entre 1879 e 1881.
Iniciou suas publicações ainda estudante, na revista poética A Folha (dirigida por João Penha), veículo essencial para a difusão da nova estética antirromântica em Portugal. Juntamente com sua esposa, comandou um dos salões intelectuais e literários mais concorridos de Lisboa, frequentado por gigantes da literatura portuguesa como Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco. Faleceu de forma muito prematura em 1883, décadas antes da fundação oficial da Academia Brasileira de Letras (1897) e da Academia das Ciências de Lisboa abrir uma classe literária nos moldes modernos. Portanto, não pertenceu a academias formais de letras, mas foi figura central de influentes agremiações e tertúlias intelectuais de sua época.
Sua obra poética solo é breve, porém de alto impacto técnico: Miniaturas (1870) – Livro de estreia que marcou o início do movimento parnasiano em Portugal e ecoou fortemente no Brasil; Noturnos (1882) – Coletânea que consolidou sua escrita madura, marcada por melancolia e precisão formal; Contos para os nossos filhos (1886) – Obra de literatura infantil publicada de forma póstuma, escrita em coautoria com sua esposa, Maria Amália Vaz de Carvalho.
A importância de Gonçalves Crespo reside no fato de ele ser o elo de ligação e o pioneiro do Parnasianismo em Portugal. Ao lado de João Penha, ele liderou o rompimento com os excessos sentimentais do Ultra-Romantismo, propondo uma poesia focada no rigor métrico, na perfeição formal, na visualidade e na precisão técnica. Além de sua enorme relevância para o cenário português, ele é uma figura fundamental para a história da literatura afro-brasileira e luso-afro-brasileira. Sendo filho de mãe escravizada, Gonçalves Crespo trouxe para a rigorosa poesia parnasiana traços de recordações íntimas do Brasil, retratando o cotidiano de forma realista e abordando de maneira terna e musical figuras como as mucamas e a vida colonial. Ele provou que o rigor clássico europeu poderia perfeitamente caminhar lado a lado com a sensibilidade e a ancestralidade brasileiras.

Biografia = Universidade Federal de Minas Gerais, Wikipedia, Infopedia, Educação.uol, Escritas.org, Antônio Miranda, Portal da Literatura, etc.

Carlos Leite Ribeiro (Este Nosso Bairro)

Minha boa amiga, como hoje está a chover e não podemos sair, podíamos coscuvilhar aqui mesmo à nossa porta…

Olhe que este nosso bairro precisa de dar uma grande volta! Olha que precisa, precisa, pois antigamente, não se viam coisas como estas que hoje se veem. 

Sabe que no outro dia, a Isaltina (que é uma verdadeira fera para a filha), implicou com ela por causa de um refrigerante que tinha guardado num dos armários da cozinha? 

– Micas, aonde está o refrigerante que estava aqui, ainda ontem?

A moça corou muito, pensou, e como pode respondeu-lhe: 

– Minha mãe, despejei-o hoje… 

Logo a mãe quis saber “aonde”. A Micas já mais confiante, replicou com ela: 

– Tu também queres saber tudo. Olha, despejei-o na sanita.

Coisas chocantes, chocantes, como vês minha boa amiga!
*****

Também a Francelina perguntou à filha: 

– O que aconteceria se tu estivesses grávida?

O que a filha logo lhe respondeu: – 

– Era um grande problema, minha mãe, pois, não sabia quem era o pai.
Isto sem comentários!
*****

Olha, a Emengárdia comentava no outro dia, em altos gritos: 

– O raio do gato comeu o bife que era para o meu marido. O que é que o pobrezinho agora vai comer?

Logo o inocente do seu filho, o Ernestinho, a aconselhou: 

– Agora, o papá terá de comer o gato…

Como vês, minha boa amiga, cá no bairro é tudo tão inocente.
*****

A calhandreira da Rita, comentou com uma vizinha: 

– O meu canário farta-se de cantar quando eu estou calada. Não sei o que lhe hei de fazer? A vizinha ouviu, ouviu, pensou e depois aconselhou-a: 

– Olhe vizinha, fale você para ver se o canário se cala.

O certo é que o canário nunca mais cantou.
*****

Ai, antes que me esqueça: O Bertolino, aquele que anda sempre “vinicamente" bêbado no outro dia entrou em casa em altos berros: – Sou um puro sangue – sou um cavalo de corrida!. 

A Venância, a companheira que está com ele, logo lhe perguntou: 

– Para tu seres um cavalo, o que serei eu? 

O descarado olhou para ela com desdém e, entre os dentes, sarcasticamente, respondeu-lhe: 

-Tu é que sabes, mas é conveniente que sejas uma égua…

Como vês, minha querida amiga, é preciso ter um grande descaramento. Isto só no nosso bairro!
*****

E a Leonilde, que no outro dia entrou no café vestida não sei de quê, e o Roberto, que tem a mania de ser esperto, perguntou-lhe: 

– Olha lá, tu estás mascarada de quê? 

A Leonilde olhou para ele com desprezo e logo lhe respondeu: 

– Estou mascarada de Lady Godiva!

Como o Roberto que não é estúpido de todo, voltou à carga: 

– Para isso tens o cabelo muito curto! 

Ela sorriu e retorquiu-lhe: – 

– É por isso que estou toda vestida.

Enfim, minha querida amiga!
*****

E a Micaela, que começou a andar em volta de um canteiro, em volta de um canteiro, e quando lhe perguntaram o que andava a fazer, respondeu: 

– Ando a ver se encontro o centro da gravidade…

Vê lá tu, minha boa amiga, como ela ainda tivesse o “centro da gravidade”!

Neste mundo ainda existem pessoas muito desavergonhadas, como por exemplo, a Felismina, que na semana passada perguntou à Márcia como estava o marido. Ela, naturalmente, respondeu-lhe que estava bem. Foi então que a desavergonhada lhe atirou com esta: 

– Minha querida amiga, o que é que acontecia, se eu aparecesse toda nua ao pé do teu marido?!

A Márcia, não ficou nada contente com a pergunta. Pensou um pouco e em tom de gozo, retorquiu-lhe:

– Com certeza que o meu marido morreria de susto ao ver uma mulher tão malfeita

A Felismina sorriu desavergonhadamente e, secamente, respondeu-lhe: 

– Mas tu ainda agora mesmo disseste que ele estava vivo…

Ho minha querida e boa amiga, isto só à bofetada, só à pancada!

*****
Mas a melhor é a daquela Isabel, que tem a mania de ser púdica. Comentava noutro dia com a mãe: 

– Não sei aonde ontem meti os collants?

A mãe, tentou lembrar a filha: 

– Olha, minha filha, talvez as tivesses perdido…Como ontem o teu patrão te deu boleia, não te lembras? 

A filha logo concordou: 

– Tens razão mãe – e logo acrescentou: 

– Mas olha que não é o que tu pensas. Eu só tirei os collants… Porque, porque a correia da ventoinha se estragou e eu enrolei-as na poli, compreendes, na poli. – A mãe encolheu o nariz, e continuou: “

– E o que é que aconteceu às calcinhas? 

A filha ficou muito atrapalhada e, como pode, respondeu-lhe: 

– Agora me recordo, tirei-as para limpar o para-brisas, pois estava a chover…

Ai… Isto de mulheres… Os homens que as aturem! 

Nota: com tudo os gostos que as aturamos (pelo menos é a minha opinião.)
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Carlos Leite Ribeiro (1937 – 2018) 
CARLOS LEITE RIBEIRO foi um professor, investigador, ensaísta e produtor cultural português. Embora tenha forte ligação afetiva e residencial com a cidade de Marinha Grande, ele nasceu em Lisboa, em 1937 e faleceu em Marinha Grande, em 2018. Sua trajetória destaca-se principalmente no campo da pesquisa histórico-literária e na promoção da união cultural entre Portugal e o Brasil. Passou a juventude em Lisboa e, desde setembro de 1967, fixou residência na Marinha Grande, concelho do Distrito de Leiria, na região central de Portugal, terra que adotou e onde desenvolveu grande parte de sua vida madura. Construiu uma carreira acadêmica e pedagógica diversificada, atuando como Professor Mestre. Possui o Curso de Educação Física (1962), Curso Geral de História com Mestrado (1976), e Curso Geral de Geografia com Mestrado (1984). Também possuía ampla formação em Radiodifusão, tendo realizado múltiplos cursos na área entre 1986 e 1992.
Começou a escrever precocemente, aos 14 anos de idade, quando trabalhou no Jornal do Comércio (em Lisboa). Sua primeira tarefa regular consistia em redigir a rubrica "Nomes e Figuras que deram seu nome a ruas de Lisboa", o que despertou seu profundo gosto pela pesquisa documental e biográfica. Ele teve como uma de suas grandes influências e referências intelectuais o mestre modernista Almada Negreiros. Seu primeiro grande ensaio investigativo foi focado na vida e obra de Luís de Camões. A produção escrita de Carlos Leite Ribeiro está expressivamente concentrada em ensaios históricos, artigos de divulgação biográfica, pesquisas geográficas e crónicas de época. 
Sua maior obra e legado público é o Portal CEN ("Cá Estamos Nós"), fundado por ele em 15 de julho de 1998. Trata-se de uma das maiores enciclopédias e repositórios digitais independentes de cultura da Língua Portuguesa, onde publicou centenas de monografias e investigações originais sobre grandes vultos literários e eventos históricos (como estudos sobre Fernando Pessoa, António Aleixo, e revoluções locais da Marinha Grande).
A importância de Carlos Leite Ribeiro para a literatura reside na sua dedicação como preservador da memória cultural e ponte viva entre os países lusófonos. Em vez de focar apenas na ficção isolada, ele escolheu o caminho da investigação literária acessível e da democratização da informação. Ao fundar o Portal CEN no final da década de 1990, ele antecipou a importância da internet como espaço de arquivamento cultural. Ele ofereceu uma vitrine internacional para poetas contemporâneos, resgatou biografias esquecidas do interior de Portugal e fortaleceu o intercâmbio de fraternidade intelectual entre autores portugueses e brasileiros.

Fonte:
Enviado pelo autor em 27 de dezembro de 2012
Biografia = Portal CEN,