terça-feira, 27 de outubro de 2026

Nei Garcez (Semeando Trovas)

 

1
A justiça nos ensina
o equilíbrio que nos deu:
o teu direito termina,
bem onde começa o meu!
2
A maior sabedoria
de quem sabe o seu saber,
é saber que a cada dia
sempre tem o que aprender.
3
Amizades que são boas
e, atitudes tão singelas,
é gostarmos das pessoas
bem assim como são elas.
4
A nossa fisionomia,
que se expressa no facial,
de tristeza, ou de alegria,
é um idioma universal.
5
Aprecie a natureza
aprendendo o que ela ensina;
é uma mestra de grandeza,
e a primeira disciplina.
6
As pessoas nunca morrem,
simplesmente elas encantam,
vivem sempre e nos socorrem
com as obras que aqui plantam!
7
A virtude que enalteço,
num discurso coloquial,
é fazer com que o começo
fique perto do final.
8
Com a trova se diz tudo
em fração de oito segundos
e, seus temas, sobretudo,
são precisos e fecundos.
9
Com dois cães dentro de mim,
um que é manso, cem por cento
e, um feroz, mas tão ruim...
Vence o que mais alimento!
10
Com sua Universidade,
centenária, mais antiga,
Paraná é a realidade
da docência que hoje abriga.
11
Conhecendo-se a ciência
que, ilumina uma verdade,
toda crença, sem coerência,
é um atraso à humanidade.
12
Construtor de propriedade,
João-de-Barro, arquiteto,
sem cursar a faculdade
cria e monta o seu projeto.
13
Da poesia, ou da cantiga,
a Trova, em repercussão,
é, na história, a mais antiga
e de lírica expressão!
14
Desde os nossos ancestrais,
daquela Roma de outrora,
que os nossos Jogos Florais
saúdam a Deusa Flora!
15
Deus criou toda a ciência
para que a investigação,
através da inteligência
nos conduza à evolução.
16
Deus fez tudo o que quisera,
fez o céu e fez as flores,
fez mais linda a primavera
e depois, os trovadores!
17
Enfim, que é o partir
da pessoa querida de cá,
senão, o chegar, o vir,
visto do lado de lá!
18
Entendei com bons ouvidos
o conselho e, contemplai-vos:
crescei, em todos sentidos,
e depois, multiplicai-vos!
19
Escrever é um simples conto
que não é grande epopeia:
maiúscula, mais o ponto
e, no meio, só a ideia!
20
Evitando o próprio enfarte,
o amor é o único bem
que, quanto mais se reparte
bem maior fica também.
21
Foi no embalo, tão silente,
de teu ventre, aquecido,
que ganhei maior presente
só por ter de ti nascido.
22
Há emoções que a gente sente
e, que encantam tanto, tanto,
que, se expressas, verbalmente,
perdem parte deste encanto.
23
José Feldman, todo dia, 
informando ao bom leitor, 
é o arauto da Poesia 
e, da Prosa, o difusor.
24
Nos poemas que energiza, 
Júlia da Costa nos dá 
a primeira Poetisa 
do Estado do Paraná...
25
Nunca ligue o celular
dirigindo ao seu volante,
mas se acaso ele tocar,
não atenda, siga adiante.
26
O alfabeto discutia 
onde a letra é mais formosa: 
que seria da Poesia 
se não fosse a própria Prosa?
27
O altruísmo da amizade,
quando em nossa vida ocorre,
tem a mesma intensidade
de um amor que nunca morre.
28
O astronauta, que flutua, 
muito tem a lamentar... 
Quanto mais perto da Lua, 
mais distante do luar!
29
O Brasil é a pátria amada
cantada em linda canção,
que tem a terra adorada,
e é mãe gentil da nação.
30
O Paraná cresceu tanto
com os povos que acolheu
e, hoje, agradece o encanto
que cada etnia lhe deu.
31
Por mais que estudemos tudo 
sobre Deus, inquestionável, 
esse estudo, sobretudo, 
será, sempre, inesgotável!
32
Por ser Lei do Criador, 
como quis o próprio Esteta, 
para ser um Trovador 
necessário é ser Poeta!
33
Quando a lua ao céu levita,
toda cheia, e faz luar,
forma a imagem mais bonita
que só Deus nos pode dar.
34
Quase preso como um réu,
muitas vezes sem ninguém,
todo cão vai para o céu...
e algumas pessoas também!
35
Quem pratica a temperança
e cultiva o dom do amor,
tem, na imagem, semelhança
com seu próprio Criador.
36
Quem recebe a caridade
repassando-a para frente,
faz um bem à humanidade
ao formar esta corrente.
37
Revendo os porta-retratos
que o tempo guarda, sem fim,
eu vejo, em tempos exatos,
cada pedaço de mim! 
38
Sempre ao ver que a bola rola
guie o carro em segurança
porque, sempre atrás da bola,
vem correndo uma criança.
39
Sem saber de quando em quando,
face aos fatos imprecisos,
vive, o homem, oscilando
entre lágrimas e risos.
40
Se podemos dizer tudo
em apenas quatro versos,
o porquê de um conteúdo
com dizeres tão dispersos?
41
Tão pequena na estrutura,
muito esbelta na linguagem,
a Trova, em nossa cultura,
tem grandeza na mensagem.
42
Toda trova que, bem feita,
respeitando-se a elisão,
haverá de ser eleita
em qualquer competição.
43
Toda trova tem, na rima,
e na métrica, a riqueza,
tendo ainda, assim por cima,
na elisão, a sutileza.
44
Toda trova tem, por meta,
eloquente descrição,
numa síntese completa,
dando, ao tema, a compreensão.

A TROVA EM SALA DE AULA

Trago a trova estruturada,
que apresento hoje a vocês,
para ser utilizada
nas lições de português.

Quem consegue imaginar
nosso mundo sem a escrita,
sem podermos registrar
o que a nossa mente dita?

Nesta conta aqui, confira,
qual resultado que indica:
quem de vinte cinco tira,
me respondam, quanto fica?

Trova é pequena oração
com valor gramatical
igual, por comparação,
à prosa convencional.

Trova é rima de versos
que, com métrica, bem feita,
entre os temas mais diversos,
forma a estrofe assim perfeita.

O segredo de uma trova
está sempre na elisão,
pois é esta que comprova
sua grande precisão.

Toda trova se pratica
como andar de bicicleta:
se no início o tombo fica,
logo mais se torna atleta.

Pra fazer trova bem feita,
com melhor vocabulário,
eu vou dar minha receita:
usem sempre o dicionário.

Uma coisa desastrada,
e que muito compromete,
é escrever de forma errada
como ocorre na internet.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Nei Garcez (1944)
NEI GARCEZ é um renomado poeta e trovador brasileiro, amplamente reconhecido como uma das principais referências da trova no Paraná. Com uma trajetória dedicada à preservação, ao ensino e à difusão da poesia metrificada, ele desempenha um papel fundamental na manutenção da identidade lírica do estado. Nasceu na cidade de Curitiba/PR, em 1944. Possui formação superior, sendo graduado em Direito. Ao longo de sua carreira jurídica, atuou profissionalmente no estado do Paraná. Paralelamente ao exercício de sua profissão técnica, sempre manteve as portas abertas para a atuação cultural, sendo visto também como um mentor literário. 
Sua vida literária confunde-se com a própria história da trova contemporânea na capital paranaense. Conhecido generosamente por seus pares como o "Trovador das Araucárias", Garcez destaca-se pela produção de trovas. Devido ao seu prestígio e vasta produção, integra instituições culturais como Academia Paranaense da Poesia; Centro de Letras do Paraná. É detentor de inúmeras premiações e classificações de destaque em diversos Jogos Florais realizados de norte a sul do Brasil. Possui coletâneas e antologias de suas composições líricas, com destaque para trovas. 
A relevância de Nei Garcez para a literatura reside em preservação da memória regional, Suas trovas com frequência homenageiam os símbolos, a fauna e a flora do sul do país — como nos célebres versos que escreveu sobre a gralha azul e o pinheiro paranaense Garcez é um grande entusiasta e pioneiro no desenvolvimento de projetos voltados para introduzir a trova no ambiente escolar. Ele defende que a facilidade de memorização e o ritmo da trova funcionam como ferramentas pedagógicas perfeitas para despertar o gosto pela leitura e pela escrita em crianças e jovens.

José Feldman (Livro da Saudade)

No meu livro de lembrança,
ainda sem conclusão,
saudade é aquela esperança
que compôs a introdução…
Vanda Fagundes Queiroz 
(Curitiba/PR)

Escrever a própria história é um exercício de paciência arqueológica. O tempo passa e nós nos tornamos os autores de uma obra que só se encerra com o último suspiro. Olhar para trás e folhear as páginas internas é deparar-se com o verso preciso da poetisa: “a vida como um livro de lembrança, ainda sem conclusão”. Estamos sempre no gerúndio, rascunhando capítulos, corrigindo parágrafos e rasgando páginas inteiras de arrependimento.

Contudo, o nó cego da nossa existência reside na primeira página. A trova nos oferece um diagnóstico cirúrgico da alma ao inverter a cronologia dos afetos: “saudade é aquela esperança que compôs a introdução”.

Geralmente, pensamos na saudade como um olhar voltado para trás. Julgamos que ela é o resíduo do que passou, a poeira que fica na sala depois que a visita vai embora. Mas a filosofia do tempo nos ensina que a saudade morde mais fundo por outro motivo: ela não é a falta do passado, mas a falta do futuro que havíamos projetado. Quando recordamos com dor ou melancolia um amor que acabou, uma infância distante ou um porto que deixamos, não choramos apenas pelo que foi. Choramos pela esperança que tínhamos naquela época.

A introdução do nosso livro de lembrança é sempre escrita com a tinta fresca da expectativa. Quando somos jovens, ou quando iniciamos um novo ciclo, cada passo é dado em direção a um horizonte luminoso. Vestimos o mundo com os nossos melhores desejos. Essa esperança inicial é o prefácio de tudo o que virá.

Com o avançar dos capítulos, a realidade impõe sua revisão textual. O tempo, esse editor implacável, corta nossos excessos, cancela personagens que amávamos e muda o rumo da narrativa sem nos pedir licença. É aí que a esperança original, aquela que abriu o livro, muda de nome. Ela não morre; ela se transmuta. O desejo pelo que poderia ser torna-se a falta daquilo que poderia ter sido. A esperança, quando envelhece, vira saudade.

Portanto, haver saudade na nossa introdução significa que fomos corajosos o suficiente para começar a história com entusiasmo. Um livro que não guarda saudades na abertura é um livro que nasceu frio, escrito por quem nunca ousou esperar nada da vida. A saudade que carregamos não é um sinal de derrota diante do tempo, mas a prova biográfica de que nossa introdução foi rica em promessas.

O livro continua sem conclusão. Novas páginas estão em branco, prontas para o dia de amanhã. O bom autor da própria vida sabe que não pode apagar a introdução, nem deve passar o resto dos dias relendo o mesmo início. A sabedoria consiste em aceitar que a saudade é o lastro poético da nossa caminhada. Olhamos para ela com respeito, fechamos aquele primeiro capítulo com um sorriso melancólico e voltamos a segurar a caneta. Afinal, a história ainda está sendo escrita, e cada novo parágrafo é uma chance de reinventar o que a esperança começou.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
José Feldman (1954) 
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. 
        Com 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (excerto biográfico por Cailin Dragomir)
    Defensor ferrenho da causa animal: “Para mim, os cães e gatos não são apenas animais de estimação; eles são, genuinamente, irmãos. Esse tratamento reflete a profundidade de um amor incondicional e uma dedicação incansável à causa animal. Sob a minha ótica, a barreira entre as espécies se dissolve diante do respeito mútuo, da lealdade e da pureza que esses seres de quatro patas oferecem. Defender a vida, a dignidade e os direitos desses "irmãos" é uma missão de vida, merecedores de todo o cuidado, proteção e carinho. A presença e a proteção desses animais vão muito além do ambiente doméstico, desempenhando papéis fundamentais na sociedade humana: Eles atuam como verdadeiros terapeutas, reduzindo os níveis de estresse, ansiedade e solidão em pessoas de todas as idades. Como cães-guia e de assistência médica, garantem autonomia, segurança e mobilidade para pessoas com deficiências ou condições crônicas. O convívio e o respeito pelos animais ensinam às novas gerações valores cruciais como responsabilidade, compaixão, cuidado com o próximo e altruísmo. Graças aos seus sentidos aguçados, muitos trabalham ao lado de forças de segurança em missões de resgate, farejamento e salvamento de vidas humanas. Resgatei da rua cães e gatos abandonados.”

Estante de Livros (“Til”, de José de Alencar)

Til, romance publicado por José de Alencar em 1871, é uma das obras mais expressivas do seu ciclo de romances regionalistas. Ambientado no interior de São Paulo (na região de Campinas) durante o século XIX, o livro utiliza uma trama folhetinesca e cheia de mistérios para retratar a vida rural, os costumes da época, o sistema patriarcal e a cruel realidade da escravidão.

1. RESUMO DA ESTRUTURA DA TRAMA

A história gira em torno de Berta, uma jovem órfã, alegre e caridosa, apelidada carinhosamente de "Til" (por ser pequena e ativa como o sinal gráfico). Ela vive sob a proteção de Nhá Santana e é adorada por quase todos na região, especialmente por dois rapazes: Miguel (seu irmão de criação) e Afonso (filho do poderoso fazendeiro Luís Galvão).
Paralelamente, conhecemos Jão Fera, um temido jagunço e assassino que, secretamente, protege Berta com a própria vida. O nó dramático desata-se quando segredos do passado vêm à tona: descobre-se que Berta é, na verdade, filha bastarda de Luís Galvão com Besita (uma antiga paixão). Besita foi assassinada por ciúmes pelo próprio marido, Ribeiro, que agora retorna sob a identidade de um misterioso ermitão para se vingar de Luís Galvão. Jão Fera, que era apaixonado por Besita, jurou proteger a filha dela (Berta) a qualquer custo.

2. ANÁLISE DOS PERSONAGENS PRINCIPAIS

Berta (Til): 
É a personificação da virtude, da pureza e do altruísmo. Berta funciona como o "anjo tutelar" da narrativa; ela cura doentes, amansa feras (como o próprio Jão Fera) e tenta trazer luz para a vida de todos. Diferente de outras heroínas românticas, ela abre mão do próprio casamento com Afonso para garantir a felicidade alheia e cuidar dos necessitados.

Jão Fera: 
Um dos personagens mais complexos e fascinantes de Alencar. É o "bom selvagem" ou o herói marginalizado. Embora seja um matador cruel para a sociedade, sua brutalidade é fruto de um meio injusto. Ele é totalmente regenerado pelo amor platônico que sentia por Besita e pelo instinto paternal de proteção a Berta.

Luís Galvão: 
Representa o patriarca da época. Homem respeitado, dono da fazenda das Palmas, mas carimbado por erros e covardias do passado (o adultério e o abandono de sua filha biológica, Berta).

Brás: 
Um rapaz com deficiência mental crônica que é ridicularizado por quase todos, exceto por Berta. Ela dedica tempo para ensiná-lo, alfabetizá-lo e integrá-lo, mostrando a faceta de assistencialismo e caridade da protagonista.

3. TEMÁTICAS CENTRAIS

O Regionalismo e a Crítica Social
Embora o Romantismo tenda a idealizar a realidade, Alencar insere em Til fortes elementos de denúncia social que antecipam o Realismo:

A Escravidão: 
Ao contrário de outras obras onde o tema é suavizado, em Til a violência da escravidão é explícita. O autor retrata castigos físicos, o terror dos escravizados fugidos e a desumanização do sistema. A figura do feitor e a descrição do cativeiro demonstram o peso dessa engrenagem na riqueza das fazendas de café.

O Patriarcalismo: 
A autoridade incontestável dos senhores de terras e a submissão das mulheres e agregados são expostas na dinâmica da Fazenda das Palmas.

O Determinismo e o Espaço
O cenário (a fazenda, a mata, o rio, o quilombo) não é apenas um pano de fundo, mas um agente ativo na história. Há um contraste claro entre o espaço civilizado (a casa grande da fazenda) e o espaço selvagem (a floresta onde Jão Fera habita). A natureza molda o caráter e o destino das personagens.

O Sacrifício Romântico
O desfecho da obra quebra a expectativa tradicional do "final feliz" com casamento. Berta escolhe a santidade e o dever moral em vez do amor romântico. Ela decide permanecer solteira para continuar exercendo seu papel de protetora dos desamparados (especialmente cuidando de sua mãe adotiva e de Brás).

4. ESTILO E LINGUAGEM

José de Alencar utiliza uma linguagem rica em metáforas, descrições detalhadas da fauna e flora paulistas e termos típicos do falar caipira da época. A narrativa adota o formato de folhetim: capítulos curtos, ganchos de suspense ao final de cada seção, revelações bombásticas de parentesco e forte apelo emocional.

5. IMPORTÂNCIA DA OBRA

Consolidou o projeto literário de Alencar de mapear a identidade brasileira através de suas regiões. Enquanto O Gaúcho explorou o Sul e O Sertanejo o Nordeste, Til imortalizou o interior do Sudeste cafeeiro, servindo como um valioso documento literário sobre as contradições éticas, sociais e humanas do Brasil imperial.

6. SINOPSE

O Cenário e a Protagonista
A trama se passa na década de 1820, no interior da província de São Paulo, na região de Campinas. O centro do universo narrativo é a Fazenda das Palmas, propriedade do respeitado e poderoso patriarca Luís Galvão. Próximo dali, vive Berta, uma jovem órfã de beleza singular, inocente e de espírito altruísta, apelidada de Til. Berta é uma espécie de "anjo tutelar" da região: ela espalha alegria, cuida dos necessitados e consegue amansar as figuras mais brutas e marginalizadas daquele ambiente rural, como o jovem Brás — um rapaz com severa deficiência mental a quem ela tenta alfabetizar.

O Triângulo Amoroso e as Tensões Sociais
Berta cresceu ao lado de Miguel, seu irmão de criação, que nutre por ela uma paixão reprimida. No entanto, ela também desperta o amor de Afonso, o filho herdeiro de Luís Galvão. Enquanto os jovens vivem os dilemas típicos do amor romântico, o pano de fundo da fazenda revela as feridas abertas do Brasil colonial: a brutalidade da escravidão, o medo dos negros fugidos e a opressão do sistema patriarcal.

Os Segredos do Passado e as Revelações
A calmaria da vida rural é estraçalhada quando mistérios soterrados há mais de dezesseis anos começam a vir à tona. Descobre-se que Berta não é uma simples órfã, mas sim filha bastarda do próprio Luís Galvão com uma antiga paixão, Besita. No passado, ao descobrir a traição, o marido de Besita, Ribeiro, assassinou a esposa a facadas em um ataque de ciúmes e desapareceu.
No presente da narrativa, Ribeiro retorna sob a alcunha de um misterioso Ermitão, movido por um desejo cego de vingança contra Luís Galvão. Para executar seus planos de sangue, ele tenta contratar o temido jagunço e matador de aluguel Jão Fera.
O que o Ermitão não sabe é que Jão Fera — o homem mais perigoso da mata — era secretamente apaixonado pela falecida Besita. Ao descobrir que Berta (Til) é a filha da mulher que ele amou, Jão Fera se regenera pelo afeto platônico e jura, com a própria vida, proteger a jovem de qualquer perigo, inclusive do próprio pai vingativo e das ambições dos fazendeiros.

O Desfecho Sacrificado
A narrativa se transforma em um emocionante jogo de perseguição, emboscadas na floresta, revelações de parentesco e resgates heroicos. No clímax da história, a verdade é exposta a todos, forçando os personagens a encarar os erros do passado. Rompendo com o tradicional final feliz dos folhetins, Berta decide abrir mão do casamento e do amor de Afonso para se dedicar inteiramente à caridade, assumindo o papel de protetora dos desamparados daquela comunidade, enquanto aqueles que a cercavam colhem as consequências de suas escolhas.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Filemon F. Martins (Semeando Trovas)

  

1
A brisa passa e sussurra
uma canção de bonança,
e a praia, envolta em ternura,
lembra um lençol de esperança.
2
A distância é que nos mata
pois logo vem a saudade;
saudade – presença ingrata
da antiga felicidade.
3
A felicidade é um sonho,
- por que deixar pra depois?
O amor é sempre risonho
na vida vivida a dois.
 4 
Aquele beijo de Judas
no cenário da traição,
revela que as trevas mudas
podem trair nosso irmão.
5
Cai a chuva na vidraça
e eu fico triste, porque
não há beleza nem graça
nesta casa sem você.
6
Céu azul, todo estrelado,
sorrindo, ao clarão da lua,
e o meu peito, apaixonado,
a chorar a ausência tua.
7
Ciúme é cuidado e zelo
que temos do nosso bem,
pois não queremos perdê-lo
para os olhos de outro alguém.
8
Como é bom viver à toa
e sempre fazer o bem,
que a Natureza abençoa
quem vive em Itanhaém.
9
Criança és flor, és bonança
espargindo luz e amor,
porque trazes a esperança
de um futuro promissor.
10
Criança, teu riso é tudo,
traz um brilhante porvir,
se amparada com estudo,
o mundo volta a sorrir.
11
“Das coisas belas da vida”
que colhi, em profusão,
eis a mais nobre e querida:
em cada TROVA um irmão!
12
Da vida não quero a glória
que tanto engana e seduz.
Prefiro não ter história
a renunciar minha cruz.
13
De manhã, sinto o perfume
das flores no meu jardim,
e um beija-flor – que ciúme,
chegou bem antes de mim.
14
Do fruto vem a esperança,
depois da bonita flor.
Assim também a criança,
depois de um florido amor.
15
É Natal! Nossa Esperança
de ser bom, fazer o bem,
nasce com aquela criança
na manjedoura em Belém.
16
Entre flores, no meu sonho
estavas nos braços meus.
Mas de repente, tristonho,
acordei ouvindo “adeus”.
17
Este cigarro, este fumo
que você traga com gosto,
será depois, em resumo,
o seu mais forte desgosto.
18
Eu sinto nos braços teus,
um carinho, um aconchego,
e me torno um semideus
vivendo em paz, no sossego.
19
Falando de amor, Maria,
que saudades sinto agora
daquela doce alegria
que em teus olhos vi outrora.
20
Gaivotas passam voando
o céu azul é um lençol;
casais na praia se amando
sob os olhares do sol.
21
Gosto da vida pacata,
homens simples dos sertões,
pois vejo usando gravata
por aqui muitos ladrões.
22
Levanto cedo, não nego,
ando pescando a poesia,
na minha rede carrego
todo o mar de fantasia.
23
Meu peito canta, sorrindo,
ao ver o clarão do dia,
enquanto a noite fugindo
deixa rastros de alegria.
24
Minha mãe – como eu quisera
do meu amor dar-te prova,
e o meu carinho – pudera
enviar-te numa TROVA.
25
Na minha vida pacata
que levo desde menino,
tenho sido um acrobata
no circo do meu destino.
26
“Não há vaga”. Está escrito
naquele enorme portão,
e o trabalhador, aflito,
em casa não tem feijão.
27
Não julgue pela aparência,
não condene sem saber;
às vezes com paciência
algo bom temos de ver.
28
Não me fascina o sucesso,
nada tenho para dar.
Quero apenas – eu confesso
o amor no mundo espalhar.
29
Não me queixo desta vida,
apesar da minha idade.
Queixo, sim, da despedida
que me trouxe esta saudade.
30
Nenhum poema é mais belo
e inspira tanta esperança
do que um sorriso singelo
no rosto de uma criança.
31
Nesta manhã reluzente
de sol aquecendo a terra,
vejo a beleza presente
no teu olhar cor de serra.
32
No livro da natureza
as lições são sem iguais.
Tenho, por isto, certeza
que é onde se aprende mais.
33
No meu balaio carrego
sonhos de amor e venturas,
mas muitos sonhos, não nego,
se tornaram desventuras.
34
No Sertão ninguém contesta,
o povo celebra e canta.
A chuva promove a festa,
fartura para quem planta.
35
No teu sorriso, criança,
vejo o mais belo perfil,
porque tu és a esperança
do futuro do Brasil.
36
O céu, hoje, de repente
escureceu e chorou.
O sertanejo, contente,
sorriu, pulou e cantou.
37
O tempo – é santo remédio,
cura os males da paixão:
- cicatriza a mágoa e o tédio
e dá paz ao coração.
38
Ouço o barulho das águas
que se batem nos rochedos,
vão levando minhas mágoas,
vão sepultando segredos!
39
Quando a amargura me assalta
e a tristeza o peito invade,
eu sinto que a tua falta
vai me matar de saudade.
40
Quantas noites, meu amor,
olhando, no céu, a lua,
eu me sinto um trovador
pensando na imagem tua.
41
Que fomos feitos de barro,
não há, aqui, discussão.
Mas quando em você esbarro,
esse barro é de emoção.
42
Quem conversa sem saber,
querendo ser sabichão,
cuide, que vai receber
severa repreensão.
43
Que o teu futuro, criança,
seja de luz e esplendor,
vislumbre de confiança
no mundo do desamor.
44
Segue uma estrada florida
quem, na verdade, tiver
a glória de ter, na vida,
um coração de MULHER!
45
Sinto um perfume na rua
fazendo a gente feliz,
enquanto a noite flutua
nas flores de bogaris.
46
“Sorriria de feliz”
e o mundo teria paz,
se o coração que maldiz
soubesse perdoar mais.
47
Sou aprendiz nesta Escola
de amores, lições e sonhos,
- meu verso voa e decola
buscando dias risonhos.
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Tenho certeza que a trova
– poema feito de amor -
é um sonho que se renova
na vida de um trovador.
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Vivendo ao sabor do vento
neste vaivém de emoção.
Sou, no mundo, um cata-vento
buscando o teu coração.
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Filemon F. Martins (1950)
FILEMON FRANCISCO MARTINS é um renomado escritor, poeta e trovador brasileiro, reconhecido como um dos nomes expressivos da poesia lírica e do trovadorismo nacional. Nasceu EM 1950, na cidade de Ipupiara/BA (região da Chapada Diamantina). Passou a infância e juventude na Bahia (em Ipupiara e Morpará). Posteriormente, mudou-se para São Paulo (SP), onde fixou residência por longos anos para estudar e trabalhar. Cursou Administração de Empresas na Faculdade de Administração e Ciências Econômicas "Santana", em São Paulo. Prestou serviços para grandes corporações e órgãos públicos, incluindo a Empresa Folha da Manhã S.A. e a Prefeitura Municipal de São Paulo. Desenvolveu sólida carreira no Judiciário Federal, atuando e aposentando-se na Subsecretaria de Feitos da Presidência (UFEP). Foi também filiado ao Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo (SINTRAJUD).
Filemon possui uma produção diversificada em artigos, crônicas, sonetos e trovas, sendo membro de várias entidades literárias e culturais de destaque. Sua trajetória é marcada por reconhecimentos em trovas e antologias poéticas pelo país. Membro da Academia Anapolina de Filosofia, Ciências e Letras, Anápolis/GO; The International Academy of Letters of England, (London, England); Academia de Letras de Ipaussu/SP; Clube Baiano de Trova, Salvador/BA; Instituto Cultural do Vale Caririense, em Juazeiro do Norte/CE; Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo (SINTRAJUD), Confraria Brasileira de Letras (PR).
Sua bibliografia abrange obras poéticas e pesquisas genealógicas: “Flores do meu jardim” (Poemas, 1997), “Anseios do coração” (Poemas, sonetos e trovas, 2011); “Dicionário genealógico da família Ribeiro Martins” em coautoria com Mário Ribeiro Martins (2007); “Fagulhas” (Miscelânea, 2013); “Sonetos & Trovas” (2014); “Histórias que só agora eu conto” (2018) e – “Caminhos do Jordão da Bahia” (2022).
A relevância do autor reside na preservação das formas clássicas da poesia e na contribuição para o resgate histórico e cultural brasileiro.

Biografia = Scortecci, Unicamp, Página 3, Anseios do Coração, Confraria Brasileira de Letras, etc.

Hans Christian Andersen (O fundão do sino)

Ding- Ding! Ding-dong!

O som sobe do "Fundão do Sino". no ribeiro de Odense. Não há criança na velha cidade de Odense, na ilha de Fiônia, que não conheça aquele riacho, que rega os jardins que rodeiam a cidade. Corre da represa ao moinho, passando por baixo das pontes de madeira. Florescem nas suas águas os lírios amarelos, que o povo chama botões do ribeiro; e crescem também ali o juncos de penacho castanho; e tifas escuras e aveludadas, de grande porte. Junto do Campo do Monge, e da Lavanderia, os salgueiros velhos, já de tronco fendido, mas ainda tesos e direitos, debruçaram-se por cima das águas; mas em frente deles veem-se jardins que se sucedem, todos diferentes, uns cheios de flores e ostentando caramanchões, graciosos e elegantes como uma cidadezinha de bonecas, outros onde  vicejam apenas repolhos e outras hortaliças. Noutros pontos não se avistam os jardins, porque sabugueiros viçosos estendem os galhos por cima das águas. Estas são, nalguns pontos, tão fundas, que o remo não lhes alcançava o leito. O ponto mais fundo fica defronte do convento das freiras: o "Fundão do Sino". 

É lá que mora o velho gênio das águas, o "Homem do Riacho". Dorme durante o dia, enquanto o sol cintila na água, e aparece nas noites estreladas, e à luz do luar. É muito, muito velho. A avó diz que a sua avó contava histórias dele: que vivia uma vida solitária, sem falar com ninguém, a não ser com o enorme e velho sino da igreja. Dantes o sino se balançava na torre da igreja; mas agora já não se vê sinal algum nem da torre nem da igreja, que tinha a invocação de Santo Albano.

Ding-dong! Ding-dong!

Era a voz do sino, quando ainda estava pendurado no alto da torre; mas uma tarde, quando o sol já ia descendo no horizonte, e o sino estava no auge da agitação, despencou-se lá de cima e veio voando pelos ares; e o metal polido reluzia como se fossem brasas, aos raios vermelhos do sol.

- Ding-dong! Ding-dong! - Cantava o sino- Ding-dong! Agora vou descansar!

E voou para o riacho de Odense, e lançou-se no lugar mais fundo. Por isso se chama hoje aquele ponto o "Fundão do Sino".

Mas o sino não achou naquele lugar nem sono, nem sossego. Lá embaixo, na morada do Homem do Riacho, repica e canta tanto, que às vezes o som repercute na água. Há quem diga que esse som indica que alguém vai morrer. Isso não é verdade, não: o sino canta e conversa com o Homem do Riacho, que já não vive agora sozinho.

E que é que lhe conta o sino? Já vimos que é muito, muito velho. Existia antes que a avó da vovó tivesse nascido; pois mesmo assim, com toda essa idade, é uma criança, comparado com o Homem do Riacho, que é um velho  taciturno, um esquisitão. Veste calças de pele de enguia com botões amarelos - os botões do riacho - e traz à cabeça uma coroa de juncos. A barba é toda cheia de lentilhas dos rios. Pois com toda essa esquisitice, é um velho de aspecto agradável.

Seriam precisos dias e anos, para repetir tudo quando o sino conta. Ano após ano, conta ele sempre as mesmas histórias antigas, mas renovadas: ora abreviadas, ora desenvolvidas, conforme a disposição do momento. Conta coisas dos tempos antigos, dos sombrios tempos antigos:

- Na igreja de Santo Albano, o monge subia à torre. Era jovem e belo, mas tão taciturno... Olhava pela claraboia, olhava para o ribeiro de Odense, naquele tempo em que tinha ainda o leito largo, e o Campo do Monge era ainda um lago. Seus olhos vagavam sobre o dique verde, e o Cerco das Freiras, e lembrava-se dela; e o coração batia-lhe com mais vigor:

Ding-dong! Ding-dong! Ding-dong!...

Sim, era isso o que o sino contava.

- O estúpido criado do bispo subia também à torre, quando eu, o sino fundido de metal, me agitava e cantava, com a minha voz dura e poderosa. Eu poderia esmagar-lhe o cérebro. Ele se acomodava em debaixo do lugar onde eu estava suspenso, agitando duas varetas, como se fosse um instrumento de corda, e cantava:

"Agora posso cantar, posso cantar em voz alta, as coisas que noutra a hora nem sequer posso cochichar... Posso cantar tudo quanto eles mentem escondido, encerrado, fechado...Lá reina o frio e a umidade. Os ratos nos comem vivos... Ninguém sabe disso, ninguém ouve dizer estas coisas, ninguém ouve... Nem agora ouvirão, pois o sino repica e canta:

"Ding-dong! Ding-dong!

"Havia naquele tempo um rei, chamado Kanut, que respeitava os bispos e os monges. Mas ele ofendeu os camponeses com palavras duras, e impôs-lhes pesados impostos, e eles pegaram em armas e paus, e perseguiram-no, como  a uma fera. O rei Kanut foi refugiar-se na igreja, e fechou a porta; e a turba enfurecida acampou diante da igreja. Eu ouvi contar essa história. Os corvos e as gralhas, espantados com os gritos e vociferações que retumbavam ali, voavam, entrando na torre, e dela saindo, olhavam para a multidão reunida lá embaixo , espiavam pelas janelas da igreja, e contavam em altos gritos o que viam: o rei Kanut estava rezando, prostrado, diante do altar, enquanto seus irmãos Érico e Benedito ficavam de guarda à porta, de espada desembainhada. Mas o criado  do rei, o desleal Blake traiu o amo. A multidão reunida diante da igreja ficou sabendo onde poderia acertar um tiro no rei, e um deles atirou uma pedra pelo vitral. E agora o rei jazia ali, morto. os gritos da turba feroz e das aves assustadas retiniam e faziam o ar estremecer. Também eu juntei meu canto ao deles:

" Ding-dong! Ding-dong! Ding-dong!

" O sino da igreja está suspenso lá no alto, e olha para longe, e avista as aves, e entende-lhes a fala. O vento entra, uivando, na sua morada, pelas claraboias e sineiras; entra por todas as fendas. E o vento sabe de tudo: ele fica sabendo de tudo quanto se passa pelo ar, que cerca tudo quanto existe, e se introduz nos pulmões dos homens; sabe tudo quanto se manifesta por meio de sons e ruídos, ouve cada palavra, cada suspiro... O ar fica sabendo de tudo, e conta tudo ao vento; o sino da igreja entende-lhe a linguagem, e , repicando, comunica tudo ao mundo:

" Ding-dong!... Ding-odng!...

"Mas afinal cansei-me de ouvir e de saber tantas coisas. Já não podia anunciá-las, repicando e cantando. Fiquei tão fatigado, senti-me tão pesado, que afinal o campanário desmoronou, e eu voei pelo ar luminoso, e desci para o lugar mais fundo do rio, onde mora o Homem do Riacho, solitário, sozinho. E aqui conto agora todos os dias o que ouvi e o que sei. Ding-dong! Ding-dong!..."

Assim soa  e se lamenta o sino, no riacho de Odense. Foi a avó quem o contou.

Mas o mestre, na escola, diz que sino nenhum pode repicar lé embaixo, na água, não há nenhum Homem do Riacho, porque não há mesmo. E quando todos os outros sinos da outras igrejas ressoam tão maravilhosamente, diz ele que o que soa não é o sino, mas o ar; e que é o ar que produz aqueles repiques. E avó conta também que o sino mesmo já tinha dito isso.

Nesse ponto ambos estão de acordo, o que já não é pouco. Ambos diziam:

"Sê prudente, sê prudente, e tem cuidado!"

O ar sabe tudo, paira em volta de nós, está dentro de nós, fala dos nossos pensamentos e das nossas ações - e fala mais lentamente do que o sino do Fundão do Riacho de Odense, onde mora o Homem do Riacho.

O ar faz os nossos pensamentos ressoarem para fora, até o imenso fundo do Céu, muito longe, e sempre, sempre... até que os sinos do Céu repiquem:

Ding-dong!...Ding-dong!…
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Hans Christian Andersen (1805 - 1865)
    HANS CHRISTIAN ANDERSEN foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. 
    Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.