quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 33 *


 A vida está numa planta
pintada em cores felizes:
em cima a fronde que canta,
embaixo a dor das raízes.
Anderson Braga
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Sempre que se apresentava,
dizia ser engenheiro;
— é que o pobre trabalhava
num engenho, o dia inteiro...
Antônio de Pádua Pereira
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Quando acaso sinto, crede,
vontade de trabalhar,
deito-me logo na rede,
até a vontade passar...
Augusto Linhares
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Eu venho de longes bandas
e trago em chagas os pés,
mas digas tu com quem andas
que eu te direi quem tu és...
Bernardo Guimarães Filho
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Na penumbra, o berço é um templo...
Ajoelho e em ternura enorme,
entre rendas eu contemplo
meu pequeno deus que dorme!
Carolina Ramos
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Eu sou como a garça triste
que mora à beira do rio.
As orvalhadas da noite
me fazem tremer de frio.
Castro Alves
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Como a idade chega e passa,
e da noite vem a aurora,
a vida passa e repassa
a juventude de outrora.
Cecília Patti Silveira
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Com Deus vão permanecer
as primaveras da vida,
nas quais eu vi florescer
nossa amizade perdida!
Claudia Bergamini
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Meu sonho, em contrapartida,
quando a vida me arruina,
vai, tal qual "mulher da vida"
tentar a vida na esquina...
Divenei Boseli
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A solidão é uma planta
que nos contos aparece.
Só no coração que canta,
solidão jamais floresce,
Elizeu Lacerda
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Vós prometestes, senhora,
voltar um dia; porém,
esperei e, até agora,
inda não veio ninguém...
Emiliano Perneta
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Um epitáfio engraçado
li na tumba de um rapaz:
- Aqui, jazz, contrariado,
quem sempre adorou o "jazz".
Emílio de Mattos Sounis
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Meu sogro é um sacrificado
e, pouco a pouco definha:
não tem sogra, mas, coitado,
de lambuja, atura a minha.
Elton de Carvalho
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Do amor, na infinita gama,
prefiro o suave matiz.
O rubro calor da flama
queima e deixa cicatriz.
Elvira Fontes
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Compreender-me não me queres,
nem me queres perdoar.
Mas só beijo outras mulheres
para melhor te beijar...
Enrique de Resende
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Castigo bem acertado:
se Deus pusesse um letreiro
em todo homem casado
que se passa por solteiro...
Eny do Couto
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Afinal, quem é que canta,
é o galo ou a galinha?...
Se é o galo, cala a boca,
que a razão sempre foi minha!
Eugênio Pereira Cláudio
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Muitas vezes, embebido
em cismas, tenho sonhado
que a vida é um sonho comprido
que a gente sonha acordado!
Ferreira Gullar
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Quando a primeira galinha
o primeiro ovo botou,
certamente a coitadinha
tremendo susto levou!
Fontoura Costa
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É Natal! O amor é pleno!
Deus assume os meus fracassos
e se torna tão pequeno,
que até cabe nos meus braços!
Francisco Assis Menezes
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Nunca digas com firmeza
que a mágoa apenas crucia:
A saudade é uma tristeza
que nos dá tanta alegria!
Gilka Machado
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A saudade rasga o véu
do tempo e traz do passado
minha mãe, que lá do céu
sempre tem me abençoado.
Horácio Ferreira Portella
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Procurei no seu olhar,
encontrei nele uma ponte,
para seus lábios beijar:
o amor vai jorrar da fonte.
Hulda Ramos
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Riem todas, belas flores
quando o Santo Jardineiro
enche de nobres olores
o nosso grande canteiro.
Jerson Brito
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Quanto mais teu corpo enlaço,
mais padeço o meu tormento,
por saber que o meu abraço
não prende o teu pensamento.
Jesy Barbosa
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Leu "Campanha do Agasalho",
quando por ali passou;
o espertalhão ou paspalho
   em vez de deixar, pegou.
Jessé Nascimento
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Erros… brigas… mala feita...
Devolvo as chaves e… adeus!
Dobro a esquina e, já refeita,
volto aos braços que são meus!
Joana D'Arc da Veiga
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Salafrário sem parelha,
esse enfunado do Braz,
quando trota, mexe a orelha
para frente e para trás...
João Rodrigues
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Santo Antônio se benzia,
pensando, sem dizer nada:
– Três filhos já tem Maria!
E ainda não é casada!...
José Coelho de Babo
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E por falar em destino,
seus caminhos desconheço.
Como entender o divino
se nem o humano conheço.
Jota de Jesus
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De bicicleta ou a pé,
quero ganhar teu abraço,
que me ajuda a ter mais fé
nos planos de amor que traço.
Julimar Vieira
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Não basta ter esperança,
nem ciência, nem juízo:
só a inocência da criança
nos conduz ao paraíso.
Juraci Siqueira
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Sonho um mundo de alegria,
cheio de amor e confiança,
onde ninguém perderia
sua inocência de criança!…
Lucília Trindade Decarli
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Num impulso momentâneo,
meio a natureza em flor,
desponta um beijo espontâneo
para selar nosso amor.
Márcia Jaber
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Meu querido piano amigo,
com acordes de veludo…
Quando estou junto contigo
logo me esqueço de tudo!
Marita França
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Quem se despede da vida
sem vontade de partir,
deixa escrito nessa ida,
tarefas para o porvir.
Patrícia Rocco
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Ainda tenho esperança
de ter os carinhos teus,
pois o tempo de bonança
vem sempre após um adeus!
Plácido Amaral
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Nos pedais do coração
e você sempre no pódio,
pedaladas de emoção
vencem a barreira do ódio!…
Regina Rinaldi
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Sem responder pelos atos,
à luz da conveniência,
ainda há muitos Pilatos
crucificando a inocência!
Roberto Resende Vilela
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Não me chames de senhor,
que não sou tão velho assim
e junto a ti, meu amor,
não sou senhor, nem de mim!
Rodrigues Crespo
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cada um por si descobre:
- conheço pobre que é rico;
conheço rico que é pobre!
Rodolfo Coelho Cavalcante
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Enquanto a chuva lá fora
derrama águas no chão
lembranças de amor de outrora
inundam meu coração.
Sara Furquim
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A velhice, quando almeja
um grande amor, é talvez
anoitecer que deseja
fazer-se aurora outra vez.
Sebas Sundfeld
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Se ela sai acompanhada,
falam dela que faz dó!
Se sai sozinha, coitada,
falam por ela andar só!...
Sudra Vana
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Ser pobre não é defeito,
porém a sociedade
demonstra ter muito jeito
para alterar a verdade...
Tassélio de Souza Pereira
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Entre esperas e demoras,
que a solidão descompassa,
já nem sei quantas auroras
vi chegar pela vidraça!…
Vasques Filho
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A mulher apaixonada
é como criança arteira,
que, quanto mais vigiada,
mais gosta da brincadeira...
Venina Jotha
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Passava o mestre, e um brotinho:
— Vês aquele professor?
Dentro da sala é um diabinho,
mas fora dela é um amor!...
Vera Azevedo de Castro
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Blasfema, xinga, pragueja
e fala mal das vizinhas.
Mas à noitinha, na igreja,
canta santas ladainhas...
Vicente de Paula Viotti
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Falam de ti, sempre certos
de que é justo o mau conceito;
mas ficam boquiabertos
vendo o teu corpo bem feito!...
Zedanove Tavares
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Eduardo Martínez (O dom de Joaquim)

Joaquim, que não era bom na escola, que não era o craque nas peladas da rua, que tinha horror só de pensar que talvez um dia terminasse como seu pai, um reles ajudante de pedreiro, desde cedo fora embalado por sonhos grandiosos. De tão grandiosos, seu rosto, nem bonito nem feio, sempre carregava aquele sorriso deveras cativante, que encantava a todos, até mesmo a ranzinza Gertrudes, que resmungava inclusive da própria rabugice. 

  Sem qualquer talento aparente, Joaquim se deparou com aquele que supera todos os outros: a arte de enganar. Dessa forma, passou a aplicar pequenos golpes aqui, outros pouco mais elaborados ali, até que quase foi pego no flagra acolá, quando tentou tirar uma grana justamente da Gertrudes. Não que ela tenha percebido ou, se percebeu, pareceu não se importar, já que Joaquim lhe fazia a vez de benquisto nas noites solitárias. Todavia, Danilo, irmão de sangue da dita cuja, percebeu a intenção do moleque e, certo dia, o chamou para uma conversa no canto.

    Pastor de igreja, Danilo vivia viajando em seu velho Fusca pelas pequenas cidades da região, onde professava a mais santa palavra para as pobres almas perdidas. Entretanto, ao invés de reprimendas, Joaquim só ouviu elogios. Sim, isso mesmo! Efusiva admiração! 

– Você tem um dom, meu filho! E, por isso, você precisa agradecer ao Nosso Senhor Jesus Cristo!

    Joaquim, que a princípio não entendeu aquelas palavras, nem por isso deixou de apreciá-las. Afinal, ele tinha um dom, e esse havia sido um presente do próprio Jesus Cristo! Nada de mexer com tijolos e cimento! Sua vida seria bem diferente daquela sofrida diariamente pelo seu pai, que precisava labutar em eterna humilhação para conseguir o mínimo para não morrer de fome.

    O pastor Danilo passou a dedicar parte do seu tempo a ensinar as artimanhas do ofício a seu novo pupilo, que demonstrou um talento bem acima do esperado. Desse modo, logo nas semanas seguintes, lá estava o Joaquim, agora renomeado Pastor Richard, acompanhando o seu mestre. 

    As viagens prosseguiram, alcançaram cidades mais distantes, os fiéis se multiplicaram. E, logo que principiou o segundo ano de tanta correria, lá estava aquele agora homem feito, que há pouco esquentava os solitários lençóis da Gertrudes, sentado no banco de trás, enquanto o seu motorista particular conduzia aquele luxuoso automóvel pelas estradas. Tudo fruto daquele dom vindo diretamente lá de cima!
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O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

(Blog do Menino Dudu. 30.09.2022)
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/09/o-dom-de-joaquim.html

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 10: Fome e Miséria


O mendigo sob o frio 
grita forte no cansaço, 
com o estômago vazio, 
arrastando o triste passo.
José Feldman – PR

Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. 
Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista 
[Dom Helder Câmara).

A fome aniquila o ser humano, alucina consciências, gera desespero. A fome rouba a honra e a altivez do homem, que sem forças para a luta entrega-se à languidez e assim é acusado de preguiça. Josué de Castro em seu livro Geografia da fome mostra bem este indesejável fenômeno.

A geografia da fome
mostra a distância traçada
entre quem tudo consome
e quem não consome nada.
Gonzaga da Silva - RN

Eu sei de uma negra cruz,
de tão negra não tem nome:
essa que o pobre conduz
pelo calvário da fome.
Sebastião Soares - RN

A tristeza me consome
diante desta crueldade!
A violência da fome
dizimando a humanidade.
Reinaldo Aguiar - RN

A miséria por capricho
sai bem cedo vasculhando...
Mexe mil latas de lixo
volta de mãos abanando.
Minervino Wanderley - RN

É o abuso da riqueza
e o desprezo à educação
que põe sobre a nossa mesa
a fome, em lugar do pão.
Sônia Sobreira da Silva - RJ

Poderosa, ela se ajeita
e entre o bem e o mal permeia
a infame fortuna feita
à custa da fome alheia...
Divenei Boseli - SP

Quando a miséria se ajeita,
na ausência d'água e de pão,
faminta a fome se deita
na esteira que forra o chão!
Prof. Garcia - RN

A miséria devora os seres humanos. A miséria crônica é uma patologia social que poderia e deveria ser evitada. Mas como evitar a fome se os Estados preferem gastar com armamentos? Não podemos deixar de lembrar o título completo do livro de Josué de Castro: Geografia da fome: o dilema brasileiro - pão ou aço. Parece que o mundo prefere mesmo o aço.

A fome que o mundo assola
tem raízes na injustiça:
o pobre vive de esmola
sob o jugo da cobiça!
Angélica Villela Santos - SP

A arma mais poderosa
que o homem já inventou
foi esta fome horrorosa
que a tantos já dizimou.
Gonzaga da Silva - RN

O triste da caminhada,
na longa estrada da vida,
é ver a fome estampada
em tanta gente excluída!
Hermoclydes Siqueira Franco - RJ

Não pode haver raciocínio
quando a miséria, sem nome,
invade qualquer domínio
e o domina pela fome!...
Hermoclydes Siqueira Franco - RJ

Se o teu riso é de grandeza,
vaidade que te consome,
- olha bem para a tristeza
do pranto de quem tem fome.
Fernando Câncio - CE

Sentir fome e não comer
porque não tem condição
pode mesmo comover
quem tem duro coração.
Aracy da Silveira Cavalcante - CE

Mas como se comover se em geral a fome em sua forma mais terrível está longe dos nossos olhos? Nossos amigos não passam fome, nossos vizinhos não passam fome, no meio social que frequentamos não vemos ninguém passando fome... Os meios de comunicação não mostram os bolsões de fome, preferem mostrar o "progresso" das vitrines... É como diz o provérbio: O que os olhos não veem o coração não sente! Só mesmo uma convulsão social drástica para alertar o mundo.

As revoltas não têm fim
e explodem cada vez mais,
que a fome acende o estopim
das convulsões sociais!
João Freire Filho - RJ

Treme o mundo e se consome
ao som de um terrível brado:
- o grito que sai com fome
da boca do ínjustiçado!
A. A. de Assis - PR

Metade da humanidade
infelizmente não come;
e não dorme a outra metade,
temendo os que passam fome,
Geraldo Amâncio - CE

Há mil gritos e protestos
na fila ingente da fome,
onde a migalha dos restos
não chega pra quem não come!
Delcy Canalles - RS

Quando os muros da opressão
enfim forem derrubados,
o mundo terá mais pão
e menos injustiçados.
Gonzaga da Silva - RN
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LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

[Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019.] Enviado pelo trovador.

Nilto Maciel (O Sonho Impossível de Pã)

Doido fauno senil, quebrando as finas 
Lianas que se erguem no cipoal em que erro, 
O ar farejo com sôfregas narinas,
Percebo indícios duma ninfa, e berro...
(Humberto de Campos)

Ela mais parecia saída dos bosques da mitologia, juvenilmente bela como as ninfas, os olhos mais cândidos do mundo. E ele, vendo-a todo dia, nada mais fazia que sonhar. Erguia castelos de areia, fundava cidades, viajava pelo cosmos. Ela se chamava Quésia, ele Arion.

E viveram infelizes para sempre.
                                                 ***

  Um dia, antes da eternidade chegar, Arion se dispôs a contar todos os seus sonhos a Quésia. Queria ser eterno. Ansiava viver eternamente junto a ela. Desejava, ao menos, um minuto dessa eternidade nos braços dela.

Quésia riu. Não acreditava numa só palavra de Arion. Tudo engodo de homem. Pura sedução maliciosa. Quando muito, sonho de poeta.

Além do mais — brincou — não era exatamente mulher, mas uma ninfa. Logo, nenhum homem poderia jamais alcançá-la.

Brincadeira por brincadeira, Arion se disse um fauno. Sim, também não se sentia exatamente um homem. Logo, só o destino o separava dela.

 A conversa fez-se amena e culta. Falaram de mitologia grega. Que nome ela gostaria de ter, se fosse ninfa? Talvez Galatéia, a cavalgar cavalos-marinhos entre as ondas do mar. Quem sabe Aretusa, para rimar com musa. E por que não Climene, a bordar constantemente? E ele, que fauno desejaria ser?

De noite, Arion teve um sonho esquisito. Era Pã, o fauno da Arcádia, pernas e pés de bode, peludo e de chifres, tendo o resto do corpo a forma humana. Um bicho horrível, com certeza. No entanto de coração apaixonado. E o objeto de sua desmedida paixão chamava-se Quésia, a mulher dos olhos mais cândidos da Terra.

Um dia, no meio da eternidade de suas vidas, Pã encontrava Quésia perdida no bosque. Queria ser humano e mortal, contanto que tivesse o prazer de a ter em seus braços. Por um minuto sequer.

A jovem se zangava. O fauno só podia ter enlouquecido. Ora, um fauno jamais poderia amar uma mulher. Fosse procurar suas ninfas. E, mais zangada ainda: buscasse as fêmeas de sua espécie, se existissem.

E desaparecia entre as árvores, deixando o pobre Pã tristonho e só.

Arion acordou assustado, olhou para as pernas e os pés, e levou as mãos à cabeça. Não, não era um fauno. Permanecia tão humano quanto antes. De qualquer forma, o sonho não deixara de ser interessante. Devia até contá-lo a Quésia. Falariam de novo de mitologia grega. Pretexto para revê-la. E telefonou para ela.

Quésia não se encontrava. Fora embora. Para a Índia. E nunca mais voltaria. O motivo? Não suportava mais a presença de um tal Arion. Não queria vê-lo nem em sonho — informou a voz no telefone.

Tudo engodo. Quésia nunca viajou à Índia e naquele dia riu como nunca.

Arion pensou, pensou, e terminou conformado. Ora, ela tinha razão de sobra para agir assim: tão jovem e bela, como poderia querer um homem tão defeituoso? E seu pior defeito era viver sonhando. Não a procurou mais, certo de que só lhe restava erguer castelos de areia, fundar cidades e viajar pelo cosmos. E, dia e noite, continuou a sonhar histórias mitológicas, em que era Pã, o fauno apaixonado por Quésia, a dos olhos cândidos de ninfa.
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O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

[Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.]

Chico Anysio (Camarada Brijinsky)

Na rua, nas arquibancadas, em bares e bilhares, Justino, quando solteiro, foi-não-foi, quebrava o pau. Até entradas na polícia! Quatro, e todas elas por arruaça ou resistência à prisão. Mesmo por desacato à autoridade.

Até que casou.

Foi o reverso da medalha.

A mulher, Dona Jandira, cantava de galo, enquanto Justino punha os ovos.

Justino não era um cabra frouxo, mas ficou. Pelo menos, em casa. Na rua, ainda dava para quebrar o galho. Quando os amigos do escritório faziam uma brincadeira (trabalhava num negócio de importação — ilegal — e exportação — inexistente), Justino tinha sempre pronto um revide em palavras ou atos. Não se demorava para chegar ao desforço físico. Isso, na rua. Em casa, era um Ferdinando manso e pacato. Ainda mais do que o touro que cheirava flores.

— Justino, venha cá — comandava Dona Jandira.

— Espere. Eu estou . . .

— Eu disse venha cá!

E lá vinha ele, humílimo marido de uma insuportável mulher — uma gorda senhora de 57 anos que lhe colocara uma coleira para melhor levá-lo, à corda curta, pelos dias da vida. Dias de 72 horas, porque desse tamanho pareciam ser os dias de Justino, sob o jugo dá ditadura.

Morava em São Cristóvão e torcia pelo Vasco. Aquele torcedor de rádio, porque a mulher jamais lhe dera o direito de ir ao campo. Ao campo, ele ia antes de casar. Do casamento pra cá, adeus Vasco. Ficava ouvindo o Waldir Amaral e lambia os beiços. Estava certo. Numa dessas, Dona Jandira podia irritar-se e gritar um "desliga a droga desse rádio", e aí, nem mel, nem cabaça. Por isso, o rádio era ouvido no menor volume, com o Justino de orelha encostada ao falante, quase precisando adivinhar a descrição do locutor.

Ah, vida sem gosto a do Justino! Via os amigos saindo de casa para o bilhar, e ele na janela sem poder participar daquela santa sinuquinha depois do jantar, prazer que tanto cultivara nos tempos de solteiro quando, fazendo merecida fé no seu taco, ganhara muito dinheirinho no Lamas e no Salão Palácio. E nem o papo na esquina sobre as virtudes e os defeitos do seu time podia contar com a sua participação. Tudo era proibido, mesmo tomar uma cervejinha no bar do Maurício, no domingo de manhã, de paletó de pijama, nas previsões do que aconteceria no jogo de logo mais, jogo que ele iria apenas escutar. Com o menor volume.

Era como se sua vida não fosse sua, mas de Dona Jandira. O que não deixava de ser verdade.

Quando pela vizinhança um marido chegava tarde para jantar ou dormir, a esposa do faltoso usava Justino como exemplo, numa explosão de ira:

— Eu devia te tratar como a Jandira trata o marido. Você merecia que eu fosse igual a ela.

Justino Oliveira dos Prazeres. Oliveira, está certo, mas quais os prazeres que pode sentir na vida um Justino tão frouxo?

De vez em quando, lembrava das brigas. Não as de agora, no escritório, que deviam ser mais colocadas na conta de pequenas revoltas, mas as brigas pra valer do tempo de solteiro, quando não havia cabresto curto nem gorda Jandira.

Ah, meus tempos. Um dia, na Galeria Cruzeiro, saiu na mão com Madame Satã e quase quebraram o Bar Nacional. Tiveram que chamar três carros da RP para segurar os dois. E os tapas que trocou com o crioulo que ofendeu o Vasco, no campo do Bangu? E o chofer de ônibus da Tijuca, com quem rolou pelo asfalto da Conde de Bonfim, deixando-o sem dois dentes e com o braço quebrado? Ah, tempo que não volta mais, sem Jandira e sem coleira!

Uma coisa, nem ele entendia: por que não brigava com a mulher? Ocasião não faltava. No dia do aniversário do "do meio", quando, na frente dos parentes e convidados, ela o fez se pôr de quatro para limpar o guaraná inocentemente derramado, era um ótimo exemplo. Podia haver momento melhor para o revide? Ela falara com ele como se fala a um cão leproso:

— Fez porcaria? Pois fique de quatro e lamba.

Lamber, ele não lambeu, mas à vista de todos, que fizeram silêncio para testemunhar sua obediência, ficou de quatro e limpou. Queria morrer, enquanto limpava. Pedia que o mundo se acabasse, na mesma rapidez com que procurava enxugar a poça com uma página do Jornal dos Sports. Tinha pensado em berrar: "Limpe você, sua vaca gorda!" — mas, e a coragem para falar essa verdade? De vez em quando, num momento de desabafo, enquanto sofria a viagem de volta a casa, com o Pimentel, seu amigo da Praça Argentina, Justino botava suas manguinhas de fora.

— Pimentel, minha mulher é um bicho.

— Por que você não se manda? — sugeria Pimentel, que já não aguentava mais esse papo chato, na volta ao lar.

— Me mandar como? Se eu me mandar, ela me acha.

— Acha nada — dizia Pimentel, já querendo cortar o assunto para ler as estórias em quadrinhos do jornal.

— Acha! Eu posso ir para o inferno, que ela me acha. Aquilo tem gênio de onça e faro de cachorro.

— Sabe de uma coisa, Justino? Você tem que dar duro nela. Minha mulher, vai lá em casa que tu vê. Minha mulher eu trato ali, debaixo de vara.

— Porque não é como a Jandira — esfriava Justino. — A Jandira é uma vaca ditatorial. Taí! — alegrava-se. — Eu agora consegui explicar: vaca, como as vacas, e ditatorial, como os ditadores.

— Dá um cacete nela. Desce-lhe o braço.

— De que jeito? — e ainda segredava. — Ela é que me bate.

— Mentira! — comentava Pimentel bem que acreditando.

— Ela se serve! Você já apanhou de mulher, Pimentel? É humilhante. Eu com as mãos cobrindo a cara, e ela mandando bala. Eu gritando e ela dando. E a vizinhança escuta tudo, Pimentel, porque quando ela bate é de repente, nem dá tempo de fechar a janela.    

— Mas por que você não revida?

— Quanto mais tento, mais ela me cobre. Posso te falar com franqueza? Quando ela não me bate, eu já sinto falta.

"O hábito é uma segunda natureza", já dizia quem inventou essa frase. E sob essa segunda natureza, Justino deixava a vida seguir. Durante as surras torturantes, não era raro um moleque dar calço a outro que subia na janela, pelo lado de fora, especialmente para o gozar.

— Vocês nunca se deram, como é que agora estão brigando?

Só que não era briga: era surra mesmo. Justino apanhando e pedindo, com as mãos a cobrir o rosto:

— Na cara, não, que fica marca. Na cara, não.

Dona Jandira livrava a cara e esquentava o resto. Justino Oliveira dos Prazeres era um personagem do Nelson Rodrigues, como Jandira também o era.

 Um dia, Justino chegou em casa às três da tarde. Dona Jandira estava no tanque, lavando uma combinação, com o rádio ligado. Ela cantava o bolero junto com Ângela Maria. Quando se voltou para pendurar a combinação no varal, deu de cara com Justino na porta da cozinha. Primeiro, o susto e depois, a briga:

— Por que em casa a essas horas? Tá doente? — perguntou num tom que não admitia outra hipótese para aquela volta do trabalho antes da hora (ele só chegava às sete e meia).

Despedido, não podia ser. Ele não era homem para se atrever a ser despedido. Insistiu na pergunta:

— Tá doente, cachorro?

O que Justino falou foi uma declaração de guerra:

— Entrei para o partido. Agora eu sou comunista.

Não caiu por falta de espaço. Balbuciou:

— Comunista?

— Fichado. Fiz ficha, com retrato e tudo. Sou comunista praticante. Tou no partido.

E para zombar mais do pavor que já notava na mulher, ainda gritou: "Viva Prestes!"

Aquele Justino que se encontrava meio sarcástico no portal da cozinha não era o mesmo que saíra de manhã. Claro que não era. De manhã, saíra um pacífico e humilhado Justino, um pobre homem submisso e achincalhado, e o que estava domi­nando a cena era um comunista. Comunistaço. Fichado e praticante — como ele próprio confessara.

Foi água na fervura. Dona Jandira, acostumada desde menina a temer os comunistas, era agora mulher de um. Comunista é fogo, ela sabia. E, sendo casada com um, teria que o suportar. Quis chamar o marido de cachorro novamente, mas o marido não era o mesmo, era um comunista. Ainda trocaram algumas palavras:

— Justino, Justininho.. . Você, comunista?

— Ativo — acrescentou Justino, cuspindo no chão da cozinha, coisa que sonhava fazer há um monte de anos.

— Fichado mesmo?

— Já não disse? Fichado, com retrato. Sabe aquele retrato com data? Tirei um de cinco minutos, e tá lá na ficha. De frente e de perfil.

— Mas Justino, comunista é... é...

— É o quê? — perguntou ele, crescendo na direção da mulher: — Comunista é o quê? Diz, se tu é homem! Sou comuna, e com muito orgulho! Comuna, e acabou a conversa.

Era o que faltava. Ter que dar satisfação à mulher. Mulher de comunista não tem vez. E se tiver, o cara não é comunista.

Foi como se a vida fosse virada pelo avesso.

— Boa noite, Justino.

— Cala a boca. Comunista não cumprimenta ninguém.

— Oh, Justino...

— Justino o escambau. No partido, meu nome é Brijinsky. Eu sou o camarada Brijinsky! — e ainda acrescentava, com voz inflamante pelo prazer: — Secretário de célula. Decora o nome: Brijinsky.

Daí pra frente, cadê autoridade sobre o marido? As amigas davam força para uma reação.

— Não se humilhe, Jandira.

— Pra quê? Pra ele me espancar?

— Não me diga, que ele lhe bate.

— E o meu corpo está todo roxo de quê? Olha, olha...

E exibia marcas arroxeadas nas costas, braços, seios e coxas. Mal aquelas marcas saíam, Brijinsky inventava outro motivo banal para dele fazer qualquer coisa de transcendental:

— Jandira, cadê o Jornal dos Sports?

— Não sei, Justino (tapa) Brijinsky.

— Ah, não sabe, né?

Pronto. Aí estava o motivo para uma surra sem compaixão. Até de cinturão Dona Jandira apanhou. Enquanto batia, Brijinsky falava as coisas todas que pensara falar nos tempos idos de Justino.

— Toma, vaca gorda. Isso é pra aprender a não discutir com Brijinsky. Toma mais esta e mais esta, vaca prenha. Toma, sargento de milícias. Tá pensando que eu sou o quê? Eu sou o Brijinsky, sua baleia encardida. Como é meu nome?

— Brijinsky — murmurava Dona Jandira, agarrada nas pernas do comunista.

— Decorou, bucho? Então, toma mais esta, de parabéns! — e o cinturão descia no lombo da mulher do Brijinsky, que apenas chorava. Uma virtude Dona Jandira tinha: não gritava nunca.

A Rua Bela, em São Cristóvão, teve, durante muito tempo, uma repetição de comentários. Não se falava de outra coisa que as surras de Brijinsky, o comunista. Bateu de cinto, de escova, de sapato, de panela, de frigideira. Bateu como quis e quando entendeu. Comunista é comunista. Houve um tempo em que chegou a dar pena ver aquela senhora gorda e suada lavando os pratos do jantar, com um pé repousado sobre a outra perna — de longe parecia uma siriema criada a vitamina — e Brijinsky, de banho tomado e roupa trocada — parar na porta rescendendo a "Cambridge", acender um "Petit Londrinos" e dizer, nem se gabe se desafiante, provocador ou irônico:

— Vou para a reunião do Partido.

— Vai demorar, Brijinsky? — ousava perguntar a humi­lhada mulher.

— Sei a que horas vou e não sei a que horas volto! — respondia e ainda gritava: — Aliás, nem sei se volto. Se eu for preso, não me procure — que o partido me ajuda a fugir.

Ela consentia sem palavras — e nem precisava o seu consentimento, porque ele ia mesmo.

E lá se ia Brijinsky, batendo a porta com estrondo, tentando demolir a casa.

Seus passos ressoavam como batidas de Estacas Franki pelos paralelepípedos da Rua Bela. Andava pelo meio da rua, que comunista não anda pela calçada. Na Praça Argentina pegava o bonde e ia até Benfica, onde o Pimentel o esperava no "Café Bar e Bilhares Nossa Senhora da Aparecida". Ali, ele colocava um avental, escolhia um taco (que era sempre o mesmo), e disputavam partidas de sinuca até duas, três da manhã. Entre uma partida e outra, enquanto devorava em três goles o copo de cerveja espumante, Justino costumava comentar:

— Pimentel, não há dinheiro que te pague essa ideia de me fingir de comunista.

E jogavam mais uma, sempre com a conta paga pelo Brijinsky. Era um dinheirinho que podia fazer certa falta, mas quanto vale a independência, camarada?
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CHICO ANYSIO foi um dos maiores artistas do Brasil, imortalizado por seu gênio humorístico e por uma vasta e refinada produção literária. FRANCISCO ANYSIO DE OLIVEIRA PAULA FILHO nasceu em Maranguape/CE, em 1931 e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2012. Passou a infância no Ceará e mudou-se aos 7/8 anos para o Rio de Janeiro, cidade onde fixou residência e viveu a maior parte de sua vida. Iniciou no rádio no fim dos anos 1940 como locutor, ator e redator. Estreou na televisão em 1957 e consolidou-se como o maior criador de personagens do país. Deu vida a 209 personagens icônicos, como o Professor Raimundo, Painho, Nazareno e Justo Veríssimo. Atuou como roteirista, diretor, compositor musical, dublador e pintor de telas.
Teve uma prolífica carreira como contista, romancista e cronista. Escrevia diariamente e publicou mais de 20 livros ao longo da vida. Embora consagrado, Chico Anysio não pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Apesar de ter recebido forte campanha e apoio de imortais da época (como o escritor Arnaldo Niskier, ele não chegou a ocupar uma cadeira formal. No entanto, participou ativamente de círculos intelectuais e de academias de artes honorárias e regionais. Não acumulou grandes prêmios voltados estritamente à literatura tradicional, pois sua escrita frequentemente se misturava à dramaturgia e ao humor. Recebeu a Ordem do Mérito Cultural (OMC) do governo brasileiro por sua contribuição à cultura nacional. Conquistou prêmios máximos da crítica como o Troféu APCA por sua atuação e escrita.
Alguns Livros Publicados: Carapau (1978) – Seu primeiro romance, elogiado publicamente por Jorge Amado; O Telefone Amarelo (1979); Negro Léo (1980); Sou Francisco (1992) – Obra autobiográfica sobre sua trajetória pública; Jesuíno, O Profeta (1993) – Crônicas e causos sob a ótica de seu personagem; Como Segurar seu Casamento (2000).
Chico levou a oralidade brasileira e os tipos marginalizados do interior e das periferias urbanas para as páginas impressas. Ele deu continuidade à linhagem de grandes humoristas da literatura nacional, operando no mesmo nível de observação social de Lima Barreto e Stanislaw Ponte Preta. Conseguiu transformar a fala tipicamente nordestina e os sotaques regionais em alta literatura, unindo erudição técnica com apelo popular direto.

Fontes:
Chico Anysio. O enterro do anão. Publicado originalmente em 1973.
Biografia: Wikipedia, Memória Globo, Ebiografia, Educação.uol,  Infoescola, Academia Brasileira de Letras, Folha de São Paulo, etc.