sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 4 *

  

JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)

LENDA DO PINHEIRO E A PALMEIRA

Nas terras do sul, o destino,
traçou um encontro de luz,
um amor puro e divino,
que ao horizonte conduz.

Havia um jovem guerreiro,
valente e de forte presença,
andava no mato certeiro,
com alma de fé e de crença.

A moça de graça infinita,
era a índia mais faceira,
a joia da mata, a mais dita,
bela na vida inteira.

Amavam-se contra o vento,
em tribos de guerra e rancor,
guardavam o seu sentimento,
num mundo sem paz e sem cor.

O ódio de velhos caciques,
barrava o sagrado querer,
erguendo cruéis tabiques,
proibindo o amor de crescer.

Fugiram na noite calada,
buscando o refúgio do chão,
a alma por Tupã abraçada,
num só e fiel coração.

Mas antes que o dia surgisse,
o destino os veio buscar,
para que o tempo os unisse,
tiveram que se transformar.

Ele virou um gigante,
o Pinheiro de copa pro céu,
com espinhos no corpo, constante,
combatendo o vento e o véu.

A moça virou a Palmeira fagueira,
crescendo ao lado de seu grande amor.
Vivem abraçados na mata inteira,
vencendo o tempo, o medo e a dor.

O. Henry (Efêmeros Visitantes da Arcádia)


Há um hotel na Broadway que ainda não foi descoberto pelos promotores de excursões de veraneio. É fundo, e amplo, e fresco. Seus quartos têm painéis de carvalho escuro e temperatura agradável. Brisas domésticas e folhagens verde-escuras dão-lhes as delícias, sem os inconvenientes dos Adirondacks. Subindo suas largas escadas ou ascendendo sonhadoramente em seus elevadores etéreos, guiados por cabineiros com botões de bronze nos dólmãs, sente-se uma alegria serena que os alpinistas jamais experimentaram. Na cozinha, há um mestre-cuca que sabe preparar uma truta de riacho melhor do que as servidas nas Montanhas Brancas, peixes e mariscos capazes de causar inveja aos melhores hotéis praianos, ou caça do Maine diante da qual até mesmo o coração oficial de um guarda-caça se renderia.

Alguns afortunados descobriram esse oásis no deserto julino de Manhattan. Durante esse mês, os poucos hóspedes do hotel podem ser vistos confortavelmente dispersos aqui e ali na meia-luz do fresco e alto salão de jantar, a se examinarem uns aos outros, congratulando-se consigo mesmos silenciosamente, através da branca vastidão das mesas desocupadas.

Garçons de sobra, movendo-se solícitos como que pneumaticamente, circulam sem bulha, atentos a qualquer necessidade dos hóspedes mesmo antes de ela se fazer sentir. A temperatura é a de um perpétuo abril. Os afrescos do teto, a imitarem um céu estival, exibem nuvens delicadas que não desaparecem como, infelizmente, as da Natureza.

O tumulto distante e agradável da Broadway transforma-se, na imaginação dos felizes hóspedes, no murmúrio de uma queda d’água enchendo os bosques com seu som repousante. Os hóspedes ouvem com ansiedade qualquer passo estranho, receosos de que seu retiro seja descoberto e invadido pelos incansáveis veranistas que, em busca de prazeres, estão sempre violando a natureza, mesmo em seus mais recônditos refúgios.

Assim, o pequeno grupo de conoisseurs esconde-se ciumentamente durante a estação quente, no caravançarai (estalagem gratuita para pousada das caravanas nos desertos) despovoado, aproveitando integralmente as delícias de montanhas e praia que engenho e arte lograram reunir e servir-lhes.

Nesse julho, chegou ao hotel uma .senhora que entregou na portaria, para registro, um cartão com os dizeres: ”Mme Héloise D'ArQ' Beaumont".  

Madame Beaumont era uma hóspede muito do agrado do Hotel Lótus. Tinha o ar refinado da elite, temperado e suavizado por uma graça natural que escravizava os empregados do hotel. Os meninos de recado disputavam a honra de atender-lhe ao chamado; os empregados, não fosse por uma questão de propriedade, ter-lhe-iam transferido a posse do hotel e de seu conteúdo; os demais hóspedes a consideravam como o toque final de exclusivismo e beleza femininos indispensável a tornar o ambiente perfeito.

Essa hóspede excepcional raramente deixava o hotel. Seus hábitos casavam-se perfeitamente com os costumes dos exigentes proprietários do Hotel Lótus. Para bem aproveitar aquela hospedagem deleitosa, era necessário considerar a cidade como se estivesse situada a léguas de distância. À noite, uma ligeira visita aos clubes da vizinhança era tolerável; mas durante o dia tórrido, era de rigor que os hóspedes se deixassem ficar nas vastidões umbrosas do Lótus, como uma truta permanece imóvel no límpido santuário de seu lago favorito.

Embora sozinha no Hotel Lótus, Madame Beaumont mantinha a classe de uma rainha cuja solidão é apenas de posição. Tomava o desjejum às dez — ser delicado, fresco e despreocupado a reluzir suavemente na penumbra, qual um jasmim ao crepúsculo. No jantar, porém, a glória de Madame atingia o pináculo. Trajava ela um vestido tão lindo e imaterial como a névoa de uma catarata oculta num desvão de montanha. A descrição desse vestido fica além da imaginação do escriba. Nas rendas que lhe guarneciam a frente, viam-se invariavelmente pálidas rosas vermelhas. O maitre encarava esse vestido com respeito e ia receber sua dona à porta do salão. Quem o visse lembraria Paris, e talvez condessas misteriosas, e sem dúvida Versalhes, e aventureiros, e Mrs. Fiske, e rouge-et-noir (vermelho e preto).

Corriam no hotel boatos de origem desconhecida, de que Madame era uma cosmopolita que puxava com suas delicadas e alvas mãozinhas certos cordéis entre as nações em favor da Rússia. Sendo uma cidadã do mundo, cujos melhores caminhos conhecia, não era de admirar que houvesse logo descoberto, nas refinadas salas do Hotel Lótus, o melhor local da América para uma estada repousante durante o calor do verão.

Madame Beaumont já estava há três dias no hotel, quando ali apareceu um rapaz que se registrou como hóspede. Falando por ordem das suas qualidades; vestia-se discretamente na moda; seus traços eram regulares e simpáticos; sua expressão, a de um homem do mundo sereno e refinado. Informou ao empregado da portaria que iria ali demorar-se dois ou três dias, indagou de datas de saída de vapores para a Europa, e mergulhou na inatividade abençoada do inigualável hotel, com o ar satisfeito de um viajante em sua estalagem predileta.

O rapaz — sem pôr em dúvida a autenticidade do registro — era Harold Farrington. Integrou-se no teor de vida exclusivista e calmo do Lótus, com tanto tato e quietude, que não perturbou em nada os que, como ele, ali procuravam descanso. Farrington tomava refeições no Lótus e, alimentando-se da flor homônima, deixava-se embalar pela paz abençoada, a exemplo dos outros afortunados hóspedes. Num só dia, conquistou sua mesa, seu garçom, e o temor de que caçadores esbaforidos, que, em busca de repouso, esquentavam a Broadway, invadissem e destruíssem aquele céu tão próximo, mas tão oculto.

Depois do jantar, no dia seguinte ao da chegada de Harold Farrington, Madame Beaumont, ao levantar-se, deixou cair seu lenço. Mr. Farrington o apanhou e devolveu à dona, sem a efusão de quem procura fazer relações. 

Talvez existisse uma maçonaria mística entre os exigentes hóspedes do Lótus. Quem sabe a felicidade comum de terem descoberto, na própria Broadway, o protótipo dos hotéis de veraneio os aproximasse uns dos outros. Madame e Farrington trocaram palavras delicadas e corteses, numa tentativa de quebrar a formalidade do encontro. E, como se estivessem na atmosfera adequada de um verdadeiro hotel de veraneio, travaram relações que floresceram e frutificaram imediatamente, qual a planta mística do mago. Por alguns momentos permaneceram no balcão em que terminava o corredor, entretidos com as amenidades de uma conversação. 

— A gente se cansa dos velhos hotéis – disse Mme Beaumont com um leve e doce sorriso. — De que adianta correr para a montanha ou para a praia com o fito de fugir ao barulho e à poeira, quando as próprias pessoas que os produzem nos acompanham até lá?

— Mesmo no oceano os filisteus nos perseguem - observou Farrington, tristemente. — Os navios mais exclusivos já não passam de simples barcas. Que os céus nos ajudem quando os veranistas descobrirem que o Lótus está mais distante da Broadway do que as Mil Ilhas ou o Mackinac.

— Espero que pelo menos ainda por uma semana esteja o nosso segredo bem guardado – retorquiu Madame com um suspiro e um sorriso. 

— Não sei para onde iria se eles invadissem o querido Lótus. Só conheço um lugar igualmente delicioso no verão: o castelo do Conde Polinski, nas Montanhas Urais. 

— Ouvi dizer que Baden-Baden e Cannes estão quase desertos nesta estação — continuou Farrington. — Ano a ano, os velhos lugares vão decaindo. Talvez muita gente, como nós, procure os recantos tranquilos que a maioria despreza.

— Concedi a mim mesma mais três dias deste delicioso repouso — disse Madame Beaumont. — O Cedric zarpa segunda-feira.

Os olhos de Harold Farrington se entristeceram. 

— Também preciso partir segunda — informou —, mas não vou para o exterior.

Madame Beaumont deu de ombros, num gesto indiferente.

— Não se pode ficar aqui escondida para sempre, embora o lugar seja encantador. Há mais de um mês que o castelo está em preparativos para receber-me. Que aborrecimento essas recepções a que somos obrigados! Contudo, jamais esquecerei esta semana no Hotel Lótus.

— Nem eu — declarou Farrington em voz baixa e jamais perdoarei ao Cedric.

Na noite de domingo, três dias depois, os dois sentavam-se a uma pequena mesa no mesmo balcão. Um garçom discreto trouxe sorvetes e copinhos de bebida aromatizada.

Madame Beaumont trazia o mesmo vestido maravilhoso que usava todas as noites ao jantar. Parecia pensativa. Perto de sua mão, na mesa, estava um estojo de toalete. Depois de tomar o sorvete, abriu o estojo e dele retirou uma nota de um dólar.

— Mr. Farrington — disse, com o sorriso que conquistara o Hotel todo quero lhe confessar algo. Tenho de partir antes do café da manhã porque devo voltar ao meu emprego. Trabalho no balcão de artigos de malharia, na Super Loja Casey. Minhas férias terminam amanhã às oito horas. Esta nota é o último dinheiro que terei em mãos até receber meu salário semanal de oito dólares no próximo sábado. O senhor é mesmo um cavalheiro e mostrou-se bondoso comigo; por isso, quis-lhe contar esta história antes de me despedir.

"Há um ano estou economizando parte do que ganho especialmente para estas férias. Sempre desejei passar uma semana como uma grande dama, ainda que fosse a única em toda a minha vida. Queria levantar-me quando me apetecesse, em vez de ter de pular da cama às sete horas todos os dias. Queria viver em grande estilo e ser atendida ao tocar a campainha, assim como os ricos. Agora já fiz o que queria: foi a temporada mais feliz que jamais esperei ter na vida. Volto ao trabalho e ao meu pequeno apartamento, satisfeita por outro ano. Queria contar-lhe tudo, Mr. Farrington, porque... pensei que gostasse um pouquinho de mim... eu... eu gostei do senhor. Lastimo tê-lo enganado até agora, mas tudo para mim era como num conto de fadas. Eis por que lhe falei da Europa e de coisas que li sobre outros países, e fi-lo crer que eu fosse uma grande dama.

"Este vestido... é o único que tenho em condições. Comprei-o a prestações. Custou-me setenta e cinco dólares em 0'Dowd & Levinsky e foi feito sob medida. Paguei 10 dólares de entrada e continuarei a pagar um dólar por semana até liquidar o débito. É tudo quanto tenho a dizer, Mr. Farrington. Meu nome é Mamie Siviter e. não Madame Beaumont. Agradeço-lhe todas as atenções. Com este dólar, pagarei amanhã a prestação do vestido. Vou agora para o meu quarto.”

Harold Farrington escutou com expressão impassível o relato da mais linda hóspede do Lótus. Quando ela terminou, o rapaz retirou do bolso do colete um caderninho semelhante a um livro de cheques. Com um toco de lápis escreveu qualquer coisa numa das folhas em branco, que arrancou e entregou à companheira, tomando-lhe a nota de um dólar.

— Também preciso ir trabalhar amanhã de manhã — confessou — e é melhor começar agora. Eis o recibo da prestação. Sou cobrador de 0'Dowd & Levinsky há três anos. Curioso, não, os dois termos tido a mesma ideia sobre as férias? Sempre desejei hospedar-me num hotel de categoria e para isso fui guardando parte dos meus vinte dólares semanais. Diga-me uma coisa, Mamie, que tal uma volta de bote em Coney Island, sábado à noite?

O rosto da pseudo Madame Héloise D'Arcy Beaumont abriu-se num sorriso.

— Irei sem falta, Mr. Farrington, Aos sábados, a loja fecha ao meio-dia. Aposto que gostaremos de Coney, mesmo depois de termos passado uma semana entre os granfas.

Abaixo do balcão, a cidade apinhada rumorejava na noite de julho. Dentro do Hotel Lótus imperavam sombras frescas e temperadas; um garçom solícito estava junto às janelas baixas, pronto a acorrer ao chamada de Madame ou de seu acompanhante.

À porta do elevador, Farrington despediu-se e Madame Beaumont fez a sua última subida. Antes, porém, de chegarem ao silencioso ascensor, disse o rapaz;

— Esqueça-se de Harold Farrington, sim? Meu nome é Mc Manus, James Mc Manus. Algumas pessoas me chamam Jimmy.

— Boa noite, Jimmy — disse Madame.
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O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter, nasceu em 11 de setembro de 1862, em Greensboro, Carolina do Norte/EUA. Ele teve uma infância marcada por várias mudanças, já que seu pai era um médico e sua mãe morreu quando ele era jovem. Em sua juventude, trabalhou em diversas funções, incluindo como balconista e farmacêutico. Em 1896, após ser acusado de desvio de fundos em seu trabalho como caixa em um banco, ele se mudou para a América do Sul, onde começou a escrever. Ao retornar aos Estados Unidos, ele adotou o pseudônimo O. Henry e começou a publicar contos em revistas, ganhando fama por suas narrativas envolventes e reviravoltas surpreendentes. O. Henry teve uma vida pessoal tumultuada, marcada por problemas financeiros e saúde. Ele faleceu em 5 de junho de 1910, em Nova York, mas deixou um legado duradouro na literatura com suas histórias que capturam a essência da vida urbana e a natureza humana. O. Henry é lembrado por seu estilo ágil e por suas histórias que frequentemente apresentam finais inesperados, tornando-o um dos mestres do conto curto na literatura americana.

Fonte: O. Henry. Caminhos do Destino. Contos. Publicado originalmente em 1909. 
Disponível em Domínio Público. 

Leonardo da Vinci (As chamas)


As chamas brilhavam há mais de um mês na fornalha do soprador de vidro, onde eram feitos vidros e garrafas.

Um dia viram aproximar-se uma vela colocada num castiçal fino e brilhante. Imediatamente, com um desejo ardente, as chamas tentaram aproximar-se da linda vela.

Uma delas, saltando da brasa que a alimentava, virou-se de costas para a fornalha e, passando através de uma pequenina fresta, atirou-se para cima da vela, devorando-a sofregamente.

Porém a ávida chama logo consumiu a pobre vela e, não desejando morrer com ela, tentou voltar para a fornalha de onde havia fugido.

Porém não conseguiu desgrudar-se da cera amolecida e, em vão, gritou para as outras chamas, pedindo socorro.

A chama rebelde transformou-se numa sufocante fumaça, e deixou todas suas irmãs resplandecentes, com a perspectiva de uma vida longa e brilhante.
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Leonardo de Ser Piero da Vinci nasceu em 1452 na Itália e morreu em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual..

Fontes:
Blog Era uma vez…  – 03.02.2015
Biografia = Coisinha Literária. 14.08.2020

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 150 *


 Poema de
RICARDO REIS
(Fernando Pessoa)
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

34

Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias.

A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nós queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos Deuses.

Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam.
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Eros

À luz da vela titubeante
pasmado pela ciência dos antigos
convoco-te, deus do amor
ao palácio da minha ousadia
em concílio de desesperança

Não mendigo ambrósia e néctar
nem as graças do teu acolhimento
pois sou insignificante mundano
perdido no seio da adversidade

Desfecha tuas setas certeiras
no coração do homem descrente
de deuses de honra e de amor

Penetra no coração empedernido
ferindo de morte a cobiça vil
entorpecida em iludido sono estígio

Que a beleza da lenda
torne da razão a fantasia

Que o puro sentimento peregrino
seja conduzido nos braços
servis do gentil zéfiro
levando o mesquinho rastejar
à imortalidade alada da alma.
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Poema de 
SONIA CARDOSO
Curitiba/PR

Chuva 

A cortina úmida 
Molha a terra que 
Entusiasmada exala 

O cheiro suave, de seu ventre 
A água em livre demanda 
Carrega pelas sarJetas 

As mágoas da natureza,
Do nosso tempo, a alegria 
E a tristeza do viver.
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Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ

Vendaval

O vento frio açoitando meu rosto
Penetra na pele, mas também na alma
Fico parada só  a contra gosto
Querendo muito que a mim tragas calma.

A doença não há de me vencer
Tenho amigos com quem posso contar
Para tanto busco o que  merecer
Busco alívio e meto-me a trabalhar.

Os trovões retumbando ao longe trazem
Insegurança, inquietação e fazem
A angústia, a saudade da pátria aflorar.

Lá fora ruge o vento inquietante
Assustando o coração desta imigrante
Despertando o ensejo de à pátria voltar.
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Poema de
DANIEL RODAS
Campina Grande/PB

Descriação 

às vezes passo dias
procurando a palavra certa
o rumo certo

vasculho dicionários estéreis 
mergulho 
em versos frios e obscuros

mas nada encontro: nenhuma
semente do que queria
dizer

e o que me resta é olhar pela
janela

os bem-te-vis plantando flores
nos seus ninhos.
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Soneto de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Vila dos Andradas

Nasci naquela vilazinha feia, 
sem árvores nem flores nas calçadas.
Rua? Perdão! Errei se assim chamei-a, 
era apenas a Vila dos Andradas.

Saí criança e não voltei. Lembrei-a,
saudosa das cirandas nas calçadas.
Foi lá, que eu aprendi que a lua cheia
era a Mansão dos Sonhos e das Fadas!

Não mais existe a minha velha Vila,
mas, pobre e triste, seu passado atesta
que nela havia luz que ainda cintila

a ultrapassar os sóbrios horizontes:
- Naquela Vila, plácida e modesta,
viveu, rimou o nosso Martins Fontes!
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Noite de inverno 

Decanto teus versos
em suaves nuances,
aquecendo a poesia 

que existe na noite fria.
Sinto os ecos do vento
açoitando no ar, tua ira.
Ouço o silêncio do luar,
sorrio... Ele é meu guia.
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP

Flagelo

Do passado não deixes que a lembrança
te ponha o peito em pranto a flagelar
para a noite da dor não apagar
o antigo sol dos tempos de bonança.

Procura um outro amor pela esperança
de novas alegrias desfrutar,
pois diz velho provérbio popular
que aquele que algo espera sempre alcança.

Limpa da mente aquele antigo rosto
que agora só te traz mágoa e desgosto
e afasta da tua vida esse flagelo!

Varre, pois, da tua alma o sofrimento,
apaga da lembrança esse tormento
e exuma dela esse já morto anelo!
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Poema de
RITA DELAMARI
Curitiba/PR

Luminescência

Noite longa e misteriosa,
e o silêncio me consome...
Apareces por trás das nuvens,
fica a observar-me de longe.

Com teu brilho prateado,
banhas o céu totalmente.
Brincas de esconde-esconde,
que até parece se divertir.

Teimosa, se fazes presente,
e sorri bem sorrateira!
Conversas comigo, não queres partir
Solidão, não é mais companheira.

Consegues enxugar-me o pranto,
preenches todo meu pensamento.
Percebes que a ti tenho encanto!
Sabes como ninguém, seduzir.

Então, sem pedir licença
acalma a minha noite,
domina os meus sonhos...
Derrama sobre mim, sua luz!
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Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

O Andarilho

“Não me fale de amor”, alguém me disse,
“o amor morreu, já não existe mais”.
E eu retruquei que aquilo era tolice,
– será pecado alguém amar demais?

Ficou parado ali, talvez me ouvisse
que o amor perdoa e espera, sem jamais
querer em troca o favo da meiguice
que perpetua a vida entre os casais.

O tempo foi passando e pela rua
eu vi aquele vulto olhando a lua
perambulando como um peregrino.

E percebi, então, que aquele rosto
marcado pela dor, pelo desgosto,
nunca teve um Amor em seu destino!
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Desavisado
Trazia um beijo antigo 
Guardado no peito 
Mas ao te ver com outro
Fiquei tão sem jeito 
Que deixei que o beijo 
Caísse no chão.
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Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Ilha de Sant’Ana

Tua origem, de fato, ninguém sabe,
mas nasceste das cinzas deste pó;
Ilha amada, em teu ventre, tudo cabe,
aos sussurros do velho Seridó!

Que teu nome, no tempo, não desabe,
nem te deixem viver assim tão só;
que o teu canto de amor, nunca se acabe,
ante o olhar de Sant'Ana, nossa avó!

Sob as bênçãos de nossa padroeira,
e os arpejos de cada cachoeira,
que deságua nas terras deste chão...

Quando o rio, de verde se reveste,
tens a imagem mais pura do Nordeste,
e és a Ilha mais linda do sertão!
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Quadra de
IDEL BECKER
Porto Casares/ Argentina (1910 – 1994) São Paulo/SP

Você diz que sabe muito,
há outros que sabem mais;
há outros que tiram pomba
do laço que você faz.
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Hino de 
Matinhos/PR

Ó berço romântico, de ingênuo fulgor.
Ó filha do Atlântico, ó paraíso em flor.
Na calma que anseias, escrínio do mar.
As tuas sereias são joias sem par.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.

Na azul madrugada, tu a cintilar.
És sonho de fada que o sol faz dourar
Nas noites serenas, secreto rumor.
Escuta-se apenas, o mar teu cantor.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.

Doçura sem conta, propício rincão.
Oásis que aponta a vasta amplidão
Teu mar sem fronteiras, excelso e viril.
Em ondas brejeiras, te beija sutil.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.

Seus torvos cuidados, ó praia feliz.
Em ti namorados passeiam tão gentis.
Com rútila vida, mais bela não há.
Matinhos querida, gentil Caiobá.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.
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Triverso de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

fim de tarde -
sutil gota d’água
na folha seca.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O carvalho e a cana

«Teu ser bem pouco à natureza deve!
— Disse o carvalho à cana.—
O pássaro mais leve,
Se pousa sobre ti, logo te abana;
Um ligeiro soprar
Que a face encrespa do regato, apenas,
Faz-te logo vergar
E obriga-te a sofrer bem duras penas;
Enquanto eu ergo a fronte com vaidade,
Do Sol detenho o raio
E afronto a tempestade!
Todo o vento é me um zéfiro de maio,
Para ti todo o vento é vendaval!
Se da minha ramada
Nascesses abrigada,
Não sofrerias um tamanho mal.
O fado foi contigo muito injusto!...
— A tua compaixão,
Lhe respondeu o arbusto,
Abona o teu sensível coração;
Mas tanto não te mates
Chorando as minhas penas:
Melhor que tu, do vento sofro embates;
Não quebro, dobro apenas.
Tens resistido a rígidas nortadas...
Porém atrás do tempo, tempo vem!»
Tais vozes acabadas,
Bóreas em seus furores se despica;
A pobre cana dobra,
Firme o carvalho fica.
Ativa Bóreas a feroz manobra,
Faz tão cruenta guerra,
Que deita enfim por terra
Quem com a fronte nos astros topetava
E no abismo as raízes ocultava!

Não consegue o seu fim na estância térrea
Quem tudo quer levar à virga-férrea;
E é de crer que bem pouco se moleste
O que se abaixa quando a onda investe.

Eduardo Martínez (Família é tudo igual, mas a da Camila é muito pior)


Família é uma espécie de fauna que você não tem controle sobre os espécimes raros que aparecem a cada geração. Todos nós temos um parente ou outro que, temos certeza, já nasceu treinado para constranger os seus. No entanto, no caso da Camila, ela parece ter nascido em uma família premiada, tamanho o capricho do dedo de Deus.

Jaime, um dos tios, era meio resmungão, meio filósofo de botequim, do tipo que quer porque quer encontrar razão até mesmo na quantidade de colheradas de açúcar que você põe ou deixa de colocar no café. 

— Hum! Tá faltando amor na sua vida. Acertei?

— O quê, tio?

— Essa sua ânsia por açúcar. Quem é que coloca quatro colheres cheias de açúcar no café?

— É proibido agora?

— Falta de amor, Camila. Eu sabia!

Carlos, o irmão, era devagar quase parando. Os pais até suspeitaram de anemia falciforme e levaram o rapaz ao médico. Que nada, o rapaz possuía mais hemácias do que a maioria de todos nós. 

— Dona Júlia e seu Osmar, vocês podem ficar despreocupados, que o filho de vocês é normal. Um tiquinho lento, é verdade, mas jabuti também é e vive um montão. Não é verdade?

Os pais até sentiram certo alívio, mas caíram na besteira de comentar sobre o tal episódio em almoço de domingo na casa dos avós da Camila. Pra quê? O avô não era fácil e já saiu com essa:

— Ah, Júlia, que bom!

— Também achei, papai.

— E tem mais, minha filha.

— O quê?

— O Carlos vai arrumar amizade fácil, fácil.

— É?

— É!

— Essa não entendi, papai.

— É que todo mundo vai querer o Carlos por perto numa briga.

— Briga? Papai, o senhor tá louco? E desde quando o Carlos vai se meter em briga?

— Bem, Júlia, se vai se meter em briga por querer, não sei. Mas, que na hora da briga, ele vai ficar pra trás enquanto todos os amigos vão dar pinote, ah, isso vai. 

Como você já deve imaginar, o avô era o engraçadinho da família. Quer dizer, ele tentava, pois a avó era mais talentosa. Mas não pense você que Camila gostasse disso, mesmo porque, não raro, ela deixava a garota de um jeito que a pobre não sabia onde meter a cara. 

Não faz muito tempo, lá estava a Camila com o Mauro, com quem estava dando uns beijos por aí. Pense num sujeito bonito. Aliás, bonito é o Brad Pitt. O Mauro é lindo! E, para ser perfeito, só faltava ter nascido com a voz do Milton Nascimento. Mas...

Pois lá estava o casalzinho em um churrasco na casa dos avós. Era a primeira vez que a moça levava um rapaz para a família conhecer. É óbvio que Camila, até por conta de certa vaidade, não via a hora de mostrar para todos que era capaz de conquistar aquele pedaço de mau caminho.

A parentada toda animada na varanda, eis que os dois pombinhos chegaram de mãos dadas. A avó, assim que viu o namorado da neta, exclamou:

— Camila, que rapagão bem-diagramado que você arrumou!

Você já imaginou como é que a garota se sentiu, né?! Era um misto de orgulho mesclado com falsa timidez. Mas eis que algo inusitado aconteceu. 

— Prazer, sou o Mauro. E a senhora deve ser a dona Martinha. A Camila me fala muito bem da senhora. 

Você se lembra de que, para ser a perfeição em pessoa, bastaria o Mauro ter nascido com a voz do Milton Nascimento? Pois é, não nasceu. E a vovó não perdoou.

— Mas, Camila, como o seu namorado é mal dublado!
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fonte: Blog do Menino Dudu. 31.01.2026
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2026/01/familia-e-tudo-igual-mas-da-camila-e.html