Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

E-Books

E-books para Download ou Leitura em seu Monitor, ao pé da página, após a Oração do Cão Abandonado.

Coleção Memória Viva
Paraná Poético
Almanaque Paraná de Trovas
Trova Brasil
Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul

Marcadores

domingo, 27 de julho de 2008

Jorge de Lima (Anjo Daltônico - O Acendedor de Lampiões - Caminhos de Minha Terra - Essa Negra Fulô - Invenção de Orfeu XXIX)

Anjo daltônico

Tempo da infância, cinza de borralho,
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho,
cobre isso tudo em que me denuncio.


Há também essa face que sumiu
e o espelho triste e o rei desse baralho.
Ponho as cartas na mesa. Jogo frio.
Veste esse rei um manto de espantalho.


Era daltônico o anjo que o coseu,
e se era anjo, senhores, não se sabe,
que muita coisa a um anjo se assemelha.


Esses trapos azuis, olhai, sou eu.
Se vós não os vedes, culpa não me cabe
de andar vestido em túnica vermelha.
=================================
O Acendedor de Lampiões

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!
=======================================
Caminhos de Minha Terra

Caminhos inventados por quem não tem pressa de ir-se embora,
Pelos que vão à escola.
Pelos que vão à vila trabalhar.
Pelos que vão ao erto.
Pelos que deixam a terra como eu deixei um...
Pelos que levam quem se despede da vida que é tão bela...
À minha terra ninguém chega: ela é tão pobre...
Dizem que tem bons ares para os tísicos —
mas os tísicos não vão lá: é tão difícil de ir-se lá...
Caminhos de minha terra onde perdi
os olhos e os passos da meditação...
Caminhos em que os ceguinhos e aleijados podem
ir sem os olhos e sem pernas: eles não atropelam
os pobrezinhos.
Alguém quer partir e eles dizem:
uma pitanga, uma ingá e dão tudo,
cajus, pitombas araças a todos os meninos do lugar.
Caminhos que ainda têm orvalhos e sonâmbulos bacuraus,
e tem ninhos suspensos nas ramadas.
Ali perto, na Curva do Encantado
onde mataram de emboscada um cangaceiro,
há uma cruz de pitombeira...
Quem passa joga uma pedra,
reza baixinho: "Padre nosso que estais no céu
santificado seja o vosso nome
venha a nós...
Aquela cruz do cangaceiro é milagrosa
já me curou dum puxado que
eu peguei na escola da professora —
minha tia Bárbara de Olivedo Cunha Lima —
Mundaú ! — soube depois
que quer dizer rio torto.
Quem te inventou Mundaú, das minhas lavadeiras seminuas,
dos meus pescadores de traíras? —
Mundaú! — rio torto — caminho de curvas,
por onde eu vim para a cidade
onde ninguém sabe o que é caminho.
===================================
Essa Negra Fulô
.
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
Essa negrinha Fulô
ficou loco pra mucama,
para vigiar a Sinhá
pra engomar pro Sinhô!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô
Ó Fulô! Ó Fulô !
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!
Essa negra Fulô!
"Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco".
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô?
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"Minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou."
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Fulô? Ó Fulô?
(Era a fala da Sinhá
chamando a negra Fulô.)
Cadê meu frasco de cheiro
que teu Sinhô me mandou?
— Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!
O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa.
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô.)
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô
Ó Fulô ? Ó Fulô?
Cadê meu lenço de rendas
cadê meu cinto, meu broche,
cadê meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou.
Ah! foi você que roubou.
O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dele pulou
nuinha a negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô?
Cadê, cadê teu Sinhô
que nosso Senhor me mandou?
Ah! foi você que roubou,
foi você, negra Fulô?
Essa negra Fulô!
====================================
Invenção de Orfeu XXIX

Não há atividade mais fiel
Que a de pintar em cores a ilha.
Como os efeitos não persistem
Devo chorar muito depressa.
A espátula corre sobre a tela,
Nascem raízes sobre a terra,
Os corpos ficam cor-de-barro,
Vou enterrá-los sem pincel.
Composição desordenada
Fica ao crepúsculo colossal;
E tudo agora se encorpora
Ao horizonte vegetal.
Há todavia luz nas cores
Para que as veja saturadas
Nesse crepúsculo verde-negro.
Musgos nascendo de repente,
Eras passando nesse espaço.
A proporção é desmedida,
Enche as distâncias desoladas
Cobre as estrelas nunca fixas,
Muda a paisagem cada tarde,
A luz informa fósseis vivos,
Vulcões mastigam rochas neutras
Pondo lacunas nas criaturas.
Meu crescimento é sem limites,
Há conseqüências tenebrosas
Mas já não bastam nostalgias
Pois sobem asas assombradas,
Predecessores exilados
Jazem de borco em marés baixas.
Essa maneira é mais contínua,
Mais luxuriante e mais devassa;
Novos rigores instalados,
Climas diversos sublevados,
Outros tetardos massacrados,
Vários "cromagnons" enforcados,
Particularmente danados.
Ó dura legenda incendiada,
Ó palimpsestos humanados!
Esse o imensíssimo poema
Onde os outros se entrelaçaram,
Datas, números, leis dantescas,
Início, início, início, início,
Poema unânime abrange os seres
E quantas pátrias. Quantas vezes.
Poema-Queda jamais finado
Eu seu herói matei um Deus
Genitum non factum Memento.
Não sou a Luz mas fui mandado
Para testemunhar a Luz
Que flui deste poema alheio. Amen.
==================
Fontes:
COUTINHO, Afrânio (org.). Jorge de Lima. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1958, vol. I.
BECKER, Idel (org.). "Humor e Humorismo", Editora Brasiliense - São Paulo, 1961.

http://www.nilc.icmc.usp.br/
http://www.releituras.com

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Trova Brasil especial n.4 - Luiz Carlos Abritta

Leia em seu Monitor ou Baixe para seu Computador

Almanaque Parana n. 12

Trovadora Destaque: Olga Agulhon (Maringá) Leia em seu Monitor ou Baixe para seu Computador

Paraná Poético n.3

Emiliano Perneta Poetisas Paranaenses

Paraná Poético 2

Leia no Monitor ou Baixe para seu Computador Emílio de Menezes Alberto Paco - Janske Schlenker - José Feldman...

Coleção Memória Viva: Trovas

COLEÇÃO MEMÓRIA VIVA: TROVAS

Livretos de aproximadamente 100 páginas cada, com trovas de trovadores vivos ou falecidos, separados por Estados.

Escolha e clique sobre os abaixo para fazer o download:

Paraná Trovadoresco Livreto 1

Paraná Trovadoresco Livreto 2

São Paulo Trovadoresco Livreto 1

Rio Grande do Norte Trovadoresco Livreto 1

Minas Gerais Trovadoresco Livreto 1

Rio de Janeiro Trovadoresco Livreto 1

Hermoclydes S. Franco (Livro de Trovas e Poesias)

Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul


Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul

Almanaque criado por José Feldman, com artigos nos moldes do blog.


Faça o download dos números publicados na íntegra, em pdf.

Escolha o número e clique sobre ele para copiar em seu computador.

NUMERO 1 (74 paginas)
NUMERO 2 (95 paginas)
NUMERO 3 (117 paginas)
NUMERO 4 (177 paginas)
NUMERO 5 (131 paginas)
NUMERO 6 (265 paginas)
NUMERO 7 (163 paginas)
NUMERO 8 (184 paginas)
NUMERO 9 (242 paginas)

Especial do número 9 - Francisco Neves de Macedo

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to