Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Maria Thereza Cavalheiro (O Bom Trovar : Como contar as sílabas poéticas - Escansão)

Vimos que cada verso da trova deve ter sete sílabas poéticas, que não são contadas da mesma forma que as gramaticais. As poéticas contam-se pela emissão de voz (fusão ou junção de sons), agrupando-se as sílabas, geralmente quando há o encontro de duas ou mais vogais fracas, ou, pelo menos, quando apenas uma delas é forte.

As sílabas poéticas de cada verso são contadas até a última sílaba forte, também chamada tônica, aguda ou longa. Convém ler os versos em voz alta, contá-los nos dedos e seguir o ouvido. Quando houver dúvida, fazer a escansão do verso para ver se não está de pé quebrado (nota do CDV: pé quebrado é quando o verso tem menos de 7 sílabas). Escandir um verso é dividi-lo em seus elementos métricos. Na contagem das sílabas, procede-se como se não houvesse pontuação.

Vamos escandir uma trova como exemplo, colocando barra entre as sílabas poéticas (cada uma com uma emissão de voz), e pondo duas barras após a última sílaba tônica:

Felicidade, surpresa
que a vida às vezes nos faz…
Não tem base nem firmeza,
e, como é linda, é fugaz.
COLOMBINA

Fe/li/ci/da/de/ sur/pre//sa
quea/ vi/dás/ve/zes/ nos/ faz//
Não/ tem/ ba/se/ nem/ fir/me//za
e/co/moé/ lin/ dé/ fu/gaz//

Observe-se que as sílabas de cada verso são contadas até a última tônica (pre, faz, me, gaz) e cada verso tem sete sílabas poéticas, contadas pela emissão de voz. No 1o e 3o verso do exemplo não se conta a última sílaba gramatical de cada uma (sa, za), que vem depois das duas barras por ser fraca. A sílaba fraca, aquela que não tem acento tônico, é também chamada átona, grave ou breve.

Assim, o 1o e 3o verso são versos graves, enquanto o 2o e o 4o são versos agudos. Os agudos são os que terminam por sílaba tônica, acentuada. Do ponto de vista gramatical, as últimas palavras do 1o e 3o verso são paroxítanas; no 2o e no 4o, oxítonas. Em trova, são muito pouco usados os versos esdrúxulos, que é quando o acento tônico cai na antepenúltima sílaba, caso das palavras proparoxítonas,e, aí, desprezam-se as duas últimas sílabas gramaticais, como no no 1o e no 3o verso da trova a seguir:

É todo prazer do vândalo
destruir o que é sagrado:
“o machado fere o sândalo
para ficar perfumado”.
RODOLFO C. CAVALCANTE


 Fonte: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Trovas para refletir. SP: Edição do Autor, 2009.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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