"Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria." (Jorge Luis Borges 1899 - 1986)

Goulart Gomes (Vide Bula)

sem contra-indicação:
poesia, a melhor receita
para os males do coração

Academicos da Academia de Letras do Brasil ALB/Paraná

sábado, 14 de novembro de 2009

Jean-Pierre Bayard (História das Lendas) Parte VII



CAPÍTULO II

D. JUAN

Possuir pelo espírito ou possuir pelo corpo são os dois desejos insaciáveis e eternos do homem. Fausto luta com os problemas do conhecimento. D. Juan procura enlaçar a beleza e se inebria no furor sensual. Mas esse “benfeitor inesgotável de todas as mulheres”, como é denominado por A. Saurès, persegue um ideal inacessível; luta com Deus e submete-se finalmente à sua lei comungando no Amor supremo.

D. Juan representa nossa tentação, nosso desejo repudiado; herói da força de sedução, essa criatura audaciosa, nobre e cavalheiresca, cínica é odiada mas secretamente admirada. É que sob os andrajos D. Juan permanece um grande Senhor; não é um espadachim e sua paixão, que poderia ter sido vil, o aureola.

Seu instinto de revolta faz com que entre em conflito com instituições existentes. D. Juan nasceu num clima quente e sensual, no estrondear das frutas maduras e odorantes, mas sob o controle da inquisição aos dogmas rigorosos que proscreviam a liberdade do amor:

L’oeuvre de la chair ne désireras
Qu’en mariage seulement.(2)

Apesar de Bernard Shaw ser de opinião que D. Juan continua “um crente fervoroso num inferno último e de que se arrisca à excomunhão, é que o inferno lhe parece tão distante que o arrependimento pode ser diferido até o momento em que se tiver saciado de prazeres” (Man and superman) o povo não pode admitir a excomunhão desse homem excepcional. D. Juan reconcilia-se com Deus; e depois da lenda de D. Juan Tenório — que morre excomungado — aparece D. Juan Mañara.

1. — Os dois D. Juan

Depois de haver sido o símbolo da força maligna anti-social; o individualista D. Juan Tenório transforma-se na figura idealista de D. Juan Mañara, vítima das realidades físicas de nossa sociedade. Escravo do nosso mundo, verá seus erros perdoados por saber arrepender-se; é o símbolo do sofrimento e da luta.

Prosper Mérimée mostrou em Les âmes du Purgatoire (As almas do Purgatório) que as duas lendas eram contadas da mesma forma; entretanto, Tenório foi levado pela estátua de pedra enquanto que o Mañara salvou-se. A Igreja manda um epílogo moralista e quanto mais perverso é o personagem, mais a conversão será retumbante. Bemard Shaw denomina-a “moral monástica”. Albert Camus admite que esse refúgio em Deus “é o confinamento de uma vida totalmente penetrada de absurdidade”; “o prazer termina aqui em ascese”,

No decorrer de sua longa existência D. Juan se purificou.

Romântico, persegue a imagem de uma beleza feminina, é um amante místico que vai do desencantamento ao desespero. É um Werther que, pelas suas preocupações intelectuais, liga-se a Fausto.

2. — D. Juan e Fausto

D. Juan e Fausto são dois revoltados que se insurgem contra os princípios da sociedade e da Igreja. Esses orgulhosos — serão excomungados — porque ultrapassam os limites impostos por Deus. A aproximação desses dois peregrinos, de um absoluto inacessível, foi materializada por Nicolas Vogt no seu poema Les ruines des-bords du Rhin (As ruínas das margens do Reno). O paralelo foi admiravelmente tratado por Micheline Sauvage em Le cas Don Juan (Le Seuil, 1953), onde “Fausto é a inteligência de Don Juan, Don Juan o erotismo de Fausto”; Albert Camus: Le mythe de Sisyphe (O mito de Sisifo) é de opinião que Fausto não sabia alegrar a sua alma enquanto que a vida cumulava D. Juan, que sabia organizar sua saciedade.

3. — Os personagens históricos

Essa criação imortal começa com D. Juan Tenório. Tirso de Molina, que foi o primeiro a divulgar o tipo em, aproximadamente, 1627, deve ter conhecido obras literárias anteriores. Uma crônica de Sevilha fixa Tenório matando o Comendador cuja filha havia raptado e a armadilha dos frades franciscanos; este teria sido mandado por uma estátua subitamente animada. Fez-se de Tenório o filho do almirante Alonso Jofre Tenório, contemporâneo de Pedro, o Cruel.

Conhecemos melhor D. Miguel Mañara. Nascido em Sevilha no dia 3 de março de 1627, casou-se no dia 31 de agosto de 1648, após uma juventude dissipada; ao falecer sua esposa, em 1662, ingressou na confraria “la Hermandad de la Caridad”; no cargo de irmão maior, faleceu em 1679 em odor de santidade; quiseram beatificá-lo.

Barres: Du sang, de la volupté et de la mort (Do sangue, da volúpia e da morte), Théophile Goutier (Voyage en Espagne, XIV), t’Serstevens (Le nouvel itinéraire espagnol, Segep, 1951), nos descrevem a última morada desse personagem lendário. A partir do quadro de Valdês Leal, Montherlant (revista N. R. F. de janeiro de 1953) vê na vida de D. Juan uma contínua blasfêmia; o que contrariaria os propósitos do Padre jesuíta Jean de Cardenas, amigo de D. Juan Mañara. Lorenzi de Bradi estabeleceu a origem corsa desse erradio do amor, cujo tio habitava ainda em Calvi, em 1643; foi dessa forma que pelos Cinarca, Napoleão foi parente dos D. Miguel.

4. — Origem literária

Se Georges Gendarme de Bévotte escreveu um livro notável, La Légende de Don Juan (Hachette, 1906 e 1910), Lorenzi de Bradi (Don Juan - 1930), pensa no sedutor com Zeus, “esse deus devasso, incestuoso, adúltero”, Plutão o raptor de almas e de corpos ou Prometeu.

A silhueta do personagem não é nova: aparece no Amadis de Gaula (1492), nas comédias de Calderón e principalmente nas de Lope de Vega, aproximadamente em 1598.

Tirso de Molina (1627), porém, extrai desse contemporâneo do Cid e de D. Quixote o máximo de força. Seu herói vindicativo tem respostas breves; sua atitude é digna e de uma calma intrépida diante da estátua animada; essa grandeza o reabilita. O aspecto singelo desse drama dá-lhe um sabor extraordinário. No Le truand béatifié (O truão beatificado), de Cervantes, Cristobal de Lugo morre em odor de santidade; com Mira de Amescua: L’esclave du démon (O escravo do demônio), D. Gil vende sua alma ao diabo a fim de possuir uma freira: enlaça apenas um esqueleto e seu pavor o reconduz a Deus.

5. — Os outros temas do assunto

Esse drama religioso, no qual a doutrina de Lutero e da predestinação suscita a dúvida, comporta também o tema do convite de um morto à mesa de um vivo. O assunto se encontra em peças escritas nos colégios de jesuítas alemães nos séculos XVII e XVIII: um libertino, o conde Leôncio, esbarrando com uma cabeça de morto, convida-a para jantar; o misterioso hóspede aceita o convite e leva o anfitrião para o inferno. Bévotte observa que a lenda teria nascido na Itália, o que é confirmado por Simone Brouwer. As estátuas animadas são freqüentemente usadas: Aristóteles nota o assassínio de Mitis pela estátua da vitória (Poética, XI, 6), Crisóstomo e Pausânias (Voyage en Grèce, 6, XI - Viagem à Grécia) observam que um invejoso é esmagado pela estátua erguida ao atleta Teógenes de Tasos; o escultor Pigmalião enamora-se de sua estátua que será animada por Vênus.

Eckhardt (Corpus historiarum, Leipzig, 1723) menciona o texto de um cronista do século X referido por Gauthier de Coinsi em sua Chronique rimée des miracles de la Vierge (Crônica animada dos milagres da Virgem): “Du Clerc qui mis l’anel au doi Nostre Dame”. Notemos ainda Cicognini com La statue de l’honneur (A estátua do homem). Shakespeare e o Conte d’hiver (Conto de inverno) e a Vênus d’Ille de Prosper Mérimée.

6. — De Tirso de Molina a Molière

Depois da obra humana de Tirso de Molina, a peça espanhola é traduzida conforme o gosto italiano, por Cicognini, Giliberto; cenas burlescas e até vulgares foram acrescentadas por Biancolelli. Dorimon interpreta Le festin de Pierre, em Lião (1658), Villiers no palácio de Borgonha, em 1659. Ao título Le convié de Pierre, preferiu-se algumas vezes Le festin de Pierre, sendo Pedro o prenome do Comendador que deu origem ao contra-senso atual. Molière imagina, no Palais Royal, em 15 de fevereiro de 1665, essa notável peça que só será impressa em 1682. Seu ateísmo revolta os bons costumes e a peça é condenada. Com dois novos personagens, Sganarelle — mordomo jovial e de bom senso — e dona Elvira — vítima inocente — D. Juan é um cético de idéias engenhosas. Calculista, perversa, hipócrita e facciosa, essa peça é na realidade uma pintura dos costumes da época.

7. — Superabundância literária

Cada autor retomaria esse tema, a fim de nele se introduzir, em folhetos impressos. Depois de Rosimond (1669), La Fontaine trata do personagem ao escrever Joconde ou l’infidélité des femmes (Joconda ou a infidelidade das mulheres). D. Juan passa para o teatro de fantoches, nas feiras de Saint-Laurent e Saint-Germain e o Almanach forain de 1777, organiza uma lista.

Cokain introduz D. Juan na Inglaterra e Shadwell transforma-o em um monstro: La libertine. (1676) (A libertina). Byron escreve um longo poema inacabado no qual o herói se deixa conduzir pelo destino. Em Clarisse Harlowe, de Richardson (1751), Lovelace é uma criatura complicada que tem o gênio do mal. Choderlos de Laclos aproveita essa mesma segurança diabólica no prazer da corrupção: Les liaisons dangereuses (Ligações perigosas - 1782), mas nessa luz cruel onde todos os recursos da astúcia são orquestrados, Valmont aparece mais perverso do que D. Juan.

O abade italiano Lorenzo da Ponte introduz episódios da sua vida em Don Giovanni; Mozart aproveita esse texto, enquanto que Balzac cria L’elixir de longue vie (O elixir da longa vida).

Do personagem humano de Puchkin (1830), Musset faz apenas um ente quimérico (Les marrons du feu, 1829, Namouna, 1832; Une matinée de Don Juan). Em 1833, Lélia, de George Sand, ataca D. Juan que é por ela reabilitado em 1839. Mérimée (Les âmes du Purgatoire, 1834 - As almas do Purgatório), Blaze (Le souper chez de commander - 1834), inspiram-se em Mañara, enquanto que La chute d’un ange (A queda de um anjo), de Alexandre Dumas, é um drama desconcertante. D. Juan continua demoníaco em Albertus, (1831), Comédie de la mort, (1838) de Th. Gautier.

Se a maioria dos dramas é pueril, Baudelaire compõe um poema surpreendente, Don Juan aux enfers (D. Juan nos infernos), que evoca talvez Delacroix (1846, Les fleurs du mal - As flores do mal). Depois dessa síntese vigorosa, D. Juan é novamente desiludido com Lenau (1851), Tolstói (1860). Flaubert lembrou-se dele numa peça inacabada (Une nuit de Don Juan), enquanto que Barbey d’Aurevilly, fê-lo contar “seu mais belo amor” nos Diaboliques (Diabólicos); Henri Bataille também evocou esse personagem na velhice (L’homme à la rose - O homem da rosa). Richepin obriga o sedutor entediado a amar apenas mulheres bonitas: Mille et quatre, inconnue (Mil e quatro, desconhecida). H. de Régnier, Ed. Rostand trazem poucas inovações. Bemard Shaw produz uma obra de fé sobre esse motivo: Man and superman (1901-1903) (Homem e super-homem); Miguel Mañara de O. V. de Milosz é humano e comovente; foi escrito depois de Les sept solitudes (As sete solitudes) Scenes pour Don Juan et l’amoureuse initiation (Cenas para D. Juan e a amorosa iniciação). L’homme de cendres (1949) (0 homem feito de cinza) de André Obey é também Le fruit de Don Juan (1934) (O fruto de D. Juan) e do Trompeur de Séville (1937) (O impostor de Sevilha); mas após esse homem da negação, eis o “assassínio do amor” por Delteil (Grasset, 1930); é um fraco vencido pela mulher. Depois deste estilo imperioso e colorido, Claude-André Puget propõe-se dois fins em Echec à Don Juan (1941 e 1953), (Malogro de D. Juan), obra brilhante e cavalheiresca. Para t’Serstevens, La légende de Don Juan (1924 e 1946) (A lenda de D. Juan), ele é o judeu errante do amor. Esta vibração da carne encerra-se com êxtase, enquanto que para Fernand Fleuret: Les derniers plaisirs, (1924) (Os últimos prazeres), Mañara morre como um libertino.

8. — Os representantes de D. Juan

Além dos personagens históricos de Tenório — e Mañara, muitos outros sedutores tornaram-se representantes desse herói. Ocorre-nos imediatamente a lembrança de Alexandre com o seu harém de trezentas e sessenta e cinco mulheres, renovado todos os anos ou a de Júlio César, o sedutor inescrupuloso. Mencionemos ainda Henrique II de Montmorency, Nero, Francisco I, Luís XIV, Henrique IV (Le Vert Galant). Temos ainda Lauzun, o duque de Richelieu e a vida galante da Regência. Depois de Lázaro vêm as vidas tumultuosas de Santo Inácio de Loiola, de Calderón ou do terrível espadachim Lope de Vega. Sade, por sua obscenidade doentia, sua perversão sexual dificilmente se assemelha a esse voluptuoso que não pagava as mulheres como o fazia Casanova; D. Juan não teria admitido as astúcias de Charpillon que se assemelham às da Conchita imaginadas por Louys: La femme et le pantin (A mulher e o títere). Nicolas Rétif La Bretonne também se assemelha mais a Casanova do que a D. Juan.

9. — Conclusão

D. Juan encarna a paixão humana, pertence a todos os países, a todas as épocas. Está na base de nossa literatura: é o René de Chateaubriand, o Steerforth de David Copperfield, L’egoiste (O egoísta) de Meredith, o Woodstock de W. Scott; aparece ainda na obra de Montherlant, Stendhal, Maupassant. Esse sedento de ideais integra-se na concepção de cada autor; é uma criação viva.

À satisfação física quer acrescentar a do espírito. Esse carrasco de corações, cortês e cavalheiresco, buscando a posse suprema, o amor absoluto, tende à santidade. Mas não deixou de ser essa criatura inconstante, cujos desejos insaciáveis e inesgotável curiosidade, permitiram-lhe mil e três aventuras, verdadeiras conquistas e não simples mercancias. Iluminado, peregrino do êxtase, judeu errante da volúpia, aventureiro que sonda corações e entranhas, traz no seu vício uma elegância nativa para transformar-se nesse frade arrependido.

Ao seu lado a estátua é altiva e marcial; o mordomo conselheiro, tímido, hesitante entre seus escrúpulos e seu interesse; Dona Enviar — ou Dona Ana — é pura.

O drama de D. Juan com seu espírito revoltado denuncia uma crise literária e religiosa. Mito de riqueza incomparável, é um universo com a condição do homem, sua dualidade, seu drama da carne e do espírito. Ainda por muito tempo nos encantará.
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continua...
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Fonte:
BAYARD, Jean-Pierre. História das Lendas. (Tradução: Jeanne Marillier). Ed. Ridendo Castigat Mores

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Trova LXIX (Neide Rocha Portugal - Bandeirantes/PR)

Fonte:
Montagem do quadro e da trova sobre as imagens obtidas nos blogs http://aventurasdavidacomum.blogspot.com/ e http://vidadebebado.blogspot.com/

J. Carino (Eu, a Crônica)



Sou a Crônica. Consideram-me difícil de fazer, mas elegem-me charmosa e sedutora de ler.

Não faço concessões à Senhora Prolixidade. Somos, mesmo, absolutamente incompatíveis.

Meu amigão, o Romance, é um boa-praça. Sorri quando lhe dizem que eu, tão miudinha, posso, às vezes, conter um enredo de romance dentro de mim. Eu, embora modesta, sei que é verdade.

Intrigam-me com meu Amigo ensaio, dizendo que há ensaios tão curtos e densos, que parecem uma crônica. Eu até concordo com isso.

Já com meu primo, o Conto, a coisa é mais complicada. Gostamo-nos muito, talvez por nosso estreito parentesco. Embora geralmente nossa diferença de tamanho apareça, confundimo-nos bastante, chegando até a ser chamados por nossos nomes, trocados, por muita gente.

Tenho uma irmã muito amada: a Poesia. Há quem diga até que somos gêmeas, e nisso creio. Muitos creem – e eu também – que somos a mesma coisa. Eu tenho a certeza de que muitas crônicas são simplesmente prosa poética, assim como há poemas que são crônicas magistrais.

Meu detratores esmeram-se em seus ataques. Chamam-me fútil, como se eu só tratasse de temas superficiais. Ou dizem-me “datada”, acusando-me de só me interessar pelo cotidiano, o que me torna também facilmente perecível.

Rio muito quando me tratam assim, sabendo que tais detratores jamais conseguiram captar o espírito da verdadeira crônica. E posso lhe mostrar, caro leitor, centenas de crônicas que, embora tenham tomado como tema as coisas do dia a dia, ultrapassaram de muito o momento, fatos, coisas ou pessoas que lhes serviram de tema. Ao invés de perecer, essas crônicas, ao contrário, conseguiram, com sua beleza, precisão e profundidade escondida no sintético, perenizar aquilo que abordaram. E, com isso, ficaram para sempre como obras de arte, como grandes momentos da literatura, embora ocupando pouco espaço no papel.

Sou difícil mesmo, reconheço. O escritor que deseja me criar precisa se dar muito bem com a Senhora Concisão. Precisa ser capaz de abordar, desenvolver e concluir o tratamento de um tema em apenas uma ou duas laudas.

Uma boa crônica exige rapidez, no captar o tema, e ligeireza em transformá-lo na palavra escrita. E todos os que escrevem sabem o quanto é difícil combinar ligeireza com densidade, ou em transformar o local em universal – tudo isso em tão pouco espaço!

Reconheço que muitas crônicas nascem para pouco durarem. Estas, confessadamente, não têm aspirações de longevidade; talvez se sacrifiquem para isso mesmo: como uma flor, nascem, encantam e perfumam durante poucas horas, depois fenecem. Há muitas crônicas de jornal que são assim: nasceram para ser lidas no sacolejo dos ônibus ou do metrô, no trajeto do táxi. Com seu mergulho fatal no poço sem fundo do cotidiano, do imediato, acabam esquecidas e jogadas fora como o próprio jornal.

Mas mesmo crônicas assim, tão marcadas pelo momento presente, relidas, muitas vezes se revelam obra-primas que transcendem aqueles breves momentos de leitura para o qual talvez tenham sido exclusivamente escritas.

Você já deve ter percebido, meu caro leitor, que eu, a Crônica, não padeço de falsa modéstia. Ao contrário, fico até com pena dos que me rotulam de “gênero menor”. Pobres coitados, esses. Eles não são capazes de fruir minha mensagem, pequena em extensão, mas imensa em profundidade; não têm a paciência de me reler com vagar, reparando que minhas palavras e frases foram cuidadosamente buriladas para impressionar em tão poucas linhas, para dar conta do assunto, oferecer beleza, sutileza, poesia e precisão, num texto tão curto.

Eu, a Crônica, sou enganosa, confesso. Apresento-me, sobretudo aos que pretendem virar escritores, como fácil. Um novel escritor pode ser atraído por minha aparente simplicidade, pequena extensão e amplitude infinita de temas. Ledo engano. O novo escrevinhador pode acabar enredado na minha trama curta, nos fios emaranhados de minha concisão.

Eu, a Crônica, termino aqui, prezado leitor, satisfeita por ter prendido sua atenção, seduzido você, por alguns momentos, falando somente… de mim!
Agora que já viu como sou, amigo leitor, queira-me bem assim como sou, e como pretendo continuar sendo. É apenas o que desejo.
* * *
Livro: EU, A CRÔNICA

Este livro é resultado de uma seleção feita por Lúcia, minha mulher, de trinta textos escolhidos dentre as mais de cem crônicas escritas nos últimos dois anos. Considero-a uma seleção felicíssima, e sei que eu mesmo não faria melhor. A variedade de temas mostra a abrangência do que me motiva a escrever – quase tudo, sempre tendo como ponto de partida o cotidiano, que é, aliás, a única dimensão que geralmente chamamos “real”.

Mas os objetos, as coisas, as situações, as sensações estão aí não somente para compor nosso dia-a-dia utilitário; também se oferecem para a reinvenção, para a conversão na “irrealidade” do sonho, para a transformação em objetos de beleza, para, enfim, servirem como matéria-prima poética. Claro que não consigo atingir esse ideal de realizar o que, para mim, é a natureza essencial da crônica: transformar-se numa poesia em prosa. Peço, no entanto, que meu esforço seja levado em conta como homenagem a esse gênero e aos geniais cronistas que o elevaram ao patamar da melhor literatura.

Ah, na verdade são trinta e um textos! Temos de levar em conta o primeiro, que abre o livro e dá título a ele, em que a própria Crônica, quase à minha revelia, fala se si.
J. Carino
Niterói, setembro de 2009
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Sobre o Autor
J. Carino (1945), carioca da gema nascido no bairro de Cordovil, é professor universitário aposentado de filosofia. Ao longo de toda a vida, em meio ao cotidiano de aulas, coordenações de cursos, orientações de alunos e à faina das pesquisas, sempre encontrou tempo para escrever. Seus textos precisos e ao mesmo tempo poéticos, combinam a racionalidade filosófica com a magia da criação literária, transfigurando tudo em observação minuciosa, inventividade e lirismo. É autor do livro de crônicas sobre o Rio de Janeiro intitulado “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, com apresentação de Ruy Castro.

Fontes:
http://www.releituras.com/
http://www.almacarioca.net/eu-a-cronica-j-carino

Antonio Brás Constante (Como Nasce Uma Nova Crônica?)



Como nasce uma nova crônica? Muitas vezes, é necessária apenas uma conversa casual com um colega de serviço, durante uma breve subida de elevador. Claro que isso dependeria primeiramente do tipo de assunto discutido, pois teria que ser algo interessante. Outro fator determinante é o de que ao menos um dos presentes precisará ser algum tipo de aprendiz de escritor, ou coisa parecida (Guima: valeu pela idéia e pelo papo).

Essas conversas tendem a ser rápidas, e para virarem um texto têm que ter em seu conteúdo frases mais profundas do que os costumeiros: “bom dia”, “será que chove hoje?”, ou “o sexto-andar para mim, por favor”. Nestes encontros pode-se falar de qualquer assunto (geralmente corriqueiro), como por exemplo: os jogos de futebol, as musas que encantam nossos olhos, as mudanças de estação, quedas em geral (de cabelos, de aviões, de crianças, etc), ou diálogos feitos por ministros de grandes estatais de petróleo, quando estes resolvem tecer comentários “informais”, falando sobre possíveis descobertas de gigantescas jazidas do chamado “ouro negro” em território nacional, enaltecendo que tal fato tornaria seu país um dos primeiros produtores de petróleo do mundo.

Podemos imaginar que não faltarão aqueles que perceberiam comentários liberados desta forma, sobre descobertas de mega-jazidas, como não sendo informações inocentes e sem propósito, frutos de uma exacerbada empolgação pela possibilidade de ter sido encontrado algo que traria benefícios a toda nação, gerando divisas, movimentando a economia, etc. Mas quem poderá garantir que eles estão errados em suas suspeitas?

Se levarmos em conta a teoria da conspiração, inerente a todo ser humano que sobe em elevadores ou não, e que resolve não falar de futebol ou de belas musas, mas sim de comentários sobre descobertas mirabolantes, as idéias começam a voar mais longe do que padres atados a balões, atravessando as paredes dessas gaiolas de aço, presas por cabos cheios de graxa, passando a criar suposições fantásticas, onde tais atitudes poderiam ter um cunho mais financeiro do que patriota, já que o resultado imediato de pronunciamentos assim, seria a valorização de determinadas ações no mercado financeiro.

A imaginação é realmente algo incrível, pois consegue transformar lampejos que viajam por conexões neurais em cenários hipotéticos, onde homens engravatados e cheios de dinheiro reúnem-se para beber uísque importado, falar sobre futebol e musas inspiradoras, mas também aproveitam o encontro para planejar formas de manipular positivamente o preço de suas ações. Tudo feito com muita discrição, sorrisos e tapinhas nas costas.

Enfim, o que são meras suposições passageiras baseadas em vagas teorias, se não apenas fictícios universos paralelos, distantes deste nosso incrível e belo mundo perfeito, cujo máximo de realidade advindo destas elocubrações, não passa de um punhado de frases soltas em um pedaço de log ou de papel, moldadas pelas mãos de um pretenso escritor, que não bebe uísque, mas anda de elevador.

Fontes:
http://www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc
Imagem = http://formulados.com.br

Martins Pena (O Juiz de Paz na Roça)


O Juiz de Paz na Roça (1838) é uma peça teatral de Martins Pena (1815-1848). Trata-se de uma comédia em um ato de 23 cenas, primeira obra de Martins Pena a ser representada, em 4 de outubro de 1838, no Teatro de São Pedro, pela companhia teatral de João Caetano (1808-1863).

Enredo

A peça passa-se na roça e aborda com humor o jeito particular de ser da gente roceira do Brasil do século XIX, focando as cenas em torno de uma família da roça e do cotidiano de um juiz de paz neste ambiente e explorando uma série de situações em que transbordam a simplicidade e inocência daquelas pessoas.

Na comédia, o juiz de paz é um pequeno corrupto que usa a autoridade e inteligência para lidar com (e suportar) a absurda inocência dos roceiros, que lhe trazem os mais cômicos casos. O escrivão aparece como servo mais próximo do juiz e viabiliza suas ordens; no entanto, não é intencionalmente corrupto e chega a surpreender-se com algumas decisões de seu superior. A família de Manoel João (incluindo o negro Agostinho) mais José da Fonseca formam o núcleo mais importante da peça. Os outros personagens são roceiros que servem para apresentar ao juiz de paz as esdrúxulas situações que ele deve resolver.

Análise da obra

O Juiz de Paz da Roça (1833), obra de Martins Pena, é considerada a primeira comédia de costumes do teatro brasileiro. Influenciada pelo teatro picaresco espanhol, possui, além da crítica social e do diálogo coloquial, características posteriormente encontradas na chanchada, no teatro de revista e outros gêneros populares, como a piada de duplo sentido e a utilização de danças e canções. Além disso, traz também, sob a influência dos franceses – o que o faz ser chamado de Molière brasileiro –, o teatro que, por meio do riso (outro ponto de contato gilvicentino), a descrição e a crítica aos costumes do Rio de Janeiro de meados do século XIX. E tudo de forma simples, natural, espontânea, ágil.

Espaço / Tempo

Rio de Janeiro - casa de Manuel João e casa do Juiz de paz. A peça é de 1837. O momento histórico da ação é o mesmo da Revolução Farroupilha, acontecida no Rio Grande do Sul, em 1834: é da convocação militar que José, noivo de Aninha, vem fugindo. 0 casamento seria justificativa legal para seu não recrutamento. Coincidentemente, é Manuel João o encarregado de conduzir o recruta ao serviço militar - o que não acaba acontecendo, naturalmente

Temática

Criticar as convenções sociais, o casamento, a família, o governo e satirizar figuras como padres, juízes, políticos inescrupulosos e novos ricos.

Estrutura da peça

Ato único com 23 cenas (incluindo a Cena Última)

Personagens

As personagens de Martins Pena são pessoas comuns em situações do dia-a-dia, como casamentos, festas, envolvidas em pequenas intrigas domésticas etc: juiz de Paz; escrivão do Juiz de Paz; Manuel João; Maria Rosa; Aninha; José da Fonseca; lavradores.

Enredo

O enredo é simples: trata-se de uma sátira à aplicação da justiça nas províncias remotas do Segundo Império, denunciando a corrupção e o abuso das autoridades. Sem dúvida foi esse o motivo do estrondoso sucesso da sua primeira encenação, em 1848. Faz menção à Guerra dos Farroupilhas, ao contrabando de escravos e outras mazelas sociais.

Peça de um ato, o texto é considerado o nosso Monólogo do Vaqueiro, já que é o inaugurador, literariamente, de nosso teatro. Como seu título indica, a trama dedica-se a descrever os costumes da zona rural, o que era a preocupação das primeiras obras do autor. Depois de infeliz passagem para a tragédia, o dramaturgo voltaria às comédias, mas ambientadas na Corte. No entanto, como se verá, o foco de sua crítica não mudou.

Assim como nas peças de Gil Vicente, somos jogados de chofre no meio da história. Essa técnica recebe o nome de “in media res”. Assim, por meio do diálogo de mãe (Maria Rosa) e filha (Aninha) sobre a labuta do pai (Manuel João), tomamos conhecimento de todo o sofrido universo de valores, costumes e tarefas da roça, como a necessidade de mais mão-de-obra escrava, atrapalhada por dificuldades econômicas. É interessante como essas preocupações por demais pragmáticas são apresentadas diante de um público romântico e com tendência à evasão e à idealização. Até que ponto estaria ocorrendo um desvio aos padrões estéticos burgueses?

Aninha, ciente da iminente chegada do pai, cansado do trabalho, lembra a mãe que este iria gostar de jacuba (um tipo de refresco). A senhora sai de cena, para a preparação da bebida. Tratava-se de um expediente da menina para que ficasse sozinha e recebesse seu namorado. Esses estratagemas são muito comuns no tipo de teatro que Martins Pena estava inaugurando. Dão mais agilidade à trama.

Aumentando a velocidade do texto, as cenas são curtas, tendo apenas a extensão necessária para o desenrolar dos fatos. Tudo é essencial, econômico, importante, inclusive as rubricas (marcações da cena), que são precisas e significativas até no vestuário. O autor demonstra aqui a consciência de que o teatro é encenação, é para ser visto principalmente. Isso explica a importância de se lembrar que o namorado de Aninha, José (note a simplicidade dos nomes) veste roupas brancas. Em plena roça, esses trajes reforçariam uma tendência, disseminada em outros momentos, da personagem a não enxergar que seu papel é trabalhar e não pensar em prazeres da vida apenas, como se fosse um bon vivant.

Nesta segunda cena ocorre o encontro amoroso entre José e Aninha. Nela se manifesta uma característica comum do autor, que é a utilização do exagero caricaturesco, percebido no instante em que Aninha recusa o abraço de seu amado. Só depois do casamento é que pode! E ainda alfineta dizendo que esse “abuso” fora causado pelos maus costumes adquiridos na Corte.

Há também nesta cena, por meio do diálogo dos namorados, um elemento que é crucial na obra do autor: o contraste entre a roça e a Corte. O rapaz, após a estranha explicação de que não sobrara vintém do bananal que recebera de herança – revelador, no mínimo, da imaturidade da personagem –, diz como pretende se arranjar com sua amada: vão-se casar às escondidas e se mudarão para a Corte. Para seduzir Aninha, faz uma descrição completamente distorcida da Capital, apegado apenas ao aspecto exótico, como se a vida lá fosse prazer, diversão. Isso é percebido no diálogo abaixo transcrito:

JOSÉ – Vamos para a Corte, que você verá o que é bom.

ANINHA – Mas então o que é que há lá tão bonito?

JOSÉ – Eu te digo. Há três teatros, e um deles maior que o engenho do capitão-mor.

ANINHA – Oh, como é grande!

JOSÉ – Representa-se todas as noites. Pois uma mágica... Oh, isto é cousa grande!

ANINHA – O que é mágica?

JOSÉ – Mágica é uma peça de muito maquinismo.

ANINHA – Maquinismo?

JOSÉ – Sim, maquinismo. Eu te explico. Uma árvore se vira em uma barraca; paus viram-se em cobras, e um homem vira-se em macaco.

ANINHA – Em macaco! Coitado do homem!

JOSÉ – Mas não é de verdade.

ANINHA – Ah, como deve ser bonito! E tem rabo?

JOSÉ – Tem rabo, tem. Essa visão distorcida provoca riso na platéia, composta de burgueses da Corte. No entanto, fica subentendida uma crítica de Martins Pena à mania desse grupo em tentar se equiparar à Europa, não se tocando de que é tão provinciana – trata-se de uma nação recente – quanto a roça. A maneira como Aninha imagina a Corte (em que acaba até comicamente misturando tudo o que José descreveu) deve ser a mesma maneira como enxergávamos e ainda enxergamos o Primeiro Mundo.

Enfim, o encontro é abreviado por causa da iminência da chegada de Manuel João. Assim, combinam o casamento para o dia seguinte, de manhã.

A chegada do pai serve para que mais uma vez entremos no cotidiano simples da classe baixa rural. Ficamos sabendo das lamentações por uma vida trabalhosa, das tarefas feitas e a serem realizadas e até da janta (carne seca, feijão e laranjas). Não se poupa nem mesmo a menção ao fato de já ter acabado carne seca. Lembra o esforço, muitas vezes fracassado, que algumas novelas globais tentam de retratar o dia-a-dia.

Ao bater da porta, mais uma vez o ridículo será utilizado, dessa vez por aspectos visuais (um procedimento também comum em Martins Pena, que remonta à tradição circense e que deu origem ao pastelão): Manuel João trata de esconder a comida e ainda – beiramos o grotesco – lambe os dedos. É pobreza extrema misturada a mesquinharia e sovinice.

Quem entra em cena é o Escrivão, que traz uma intimação do Juiz de Paz: Manuel João tem de levar até a cidade um prisioneiro como recruta para a revolta que estava havendo no Rio Grande do Sul. João não entende por que justo ele tem de realizar tal tarefa, o que representaria a perda de um dia de trabalho. As preocupações imediatas, ligadas à sobrevivência, entram mais uma vez em foco. O Escrivão informa que ninguém a aceitava. João mais uma vez protesta, dizendo que ele não tinha culpa nenhuma dos problemas arranjados pelo governo. Nem mesmo dá atenção ao argumento ligado a patriotismo. No entanto, cede, diante da ameaça de prisão.

Observe-se que há críticas fortes aqui que chegam a se chocar com o conjunto de valores burgueses. Seu efeito só não é de imediato fulminante porque tudo se dilui em meio ao humor e principalmente por estar na boca de uma personagem que age de forma tão estabanada.

A partida de Manuel João é feita em meio a inúmeras recomendações sobre as tarefas a serem feitas de ambos os lados, tanto para os que ficam, quanto para o que vai. Mais uma vez o cotidiano simples retratado de forma viva, natural e colorida. Destaque seja feito ao pedido que Aninha faz ao pai: já que vai à cidade, que lhe trouxesse sapatos franceses. Outra crítica que se dirige não à roça, mas à Corte e ao seu apego à ostentação das superficialidades do universo europeu.

A próxima cena é já na casa do Juiz de Paz, funcionário que tem a função de conciliador dos conflitos de sua jurisdição. É provavelmente o melhor momento da obra, por causa principalmente dos jogos de palavra que se estabelecem.

Em primeiro, ficamos sabendo de um presente recebido pela autoridade:

“Tomo a liberdade de mandar a V. Sª um caicho de bananas maçãs para V. Sª comer com a sua boca e dar também a comer à V. Sª Juíza e aos Srs. Juizinhos. V. Sª há de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmo Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sª fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas.” É saborosa a maneira com que o autor enfoca a simplicidade do povo, por meio, primeiro, de pleonasmos (“comer com a boca”) e por expressões inadequadas, mas cômicas (“V. Sª Juíza”, no lugar de “esposa do Juiz”, e “Srs. Juizinhos”, no lugar de “filhos do Juiz”). Há também a confusão que se faz entre o tom cerimonioso, adequado à situação, e o familiar, íntimo, inadequado. Mas há ainda uma crítica à corrupção do magistrado, pois Manuel André, a personagem que presenteia o juiz, participará, como se verá, de uma ação litigiosa. Além disso, olha a visão distorcida (será?) que se tem sobre os efeitos da Nova Constituição.

O primeiro caso a ser resolvido envolve Gregório, Inácio José e sua esposa Josefa Joaquina. A transcrição de um trecho apresenta elementos suficientes para análise:

JUIZ – É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma embigada na senhora?

GREGÓRIO – É mentira, Sr. Juiz de paz, eu não dou embigadas em bruxas.

JOSEFA JOAQUINA – Bruxa é a marafona de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar.

JUIZ – Nada, nada, não é preciso; eu o creio. Martins Pena manipula com eficiência e colorido os elementos dramáticos, reproduzindo com fidelidade não só a linguagem coloquial, mas também a psicologia das personagens. Prova disso é que Gregório e Joaquina desviam-se da resolução de sua contenda em meio a ofensas. Fica nítido, por exemplo, que o aspecto infantil do raciocínio de Joaquina, que, ao invés de apresentar argumentos na discussão, devolve ofensa, atacando a mãe do oponente.

O mais incrível é a decisão do Juiz, que, além de paternalista, é contraditória. Se por um lado dispensa Inácio e Joaquina, sob a alegação de que umbigada não constitui crime em nenhuma lei, por outro ameaça Gregório de aplicar a lei “às costas” se este continuar a praticar umbigadas. E arbitrariamente encerra o caso com um “Estão conciliados”, o seu bordão.

Em seguida é lido um outro requerimento de Manuel André. E mais uma vez o suborno: na introdução do requerimento, antes de anunciado o assunto, avisa-se, meio que en passant, que um cacho de bananas será enviado ao Juiz. E novamente a mistura cômica do tom familiar com o solene.

Tratava-se de uma questão de divisa de terra. O Juiz delega ao suplente a decisão. O problema é que ambos estavam atarefados com seus próprios roçados. Note-se que o suborno não foi eficiente. Note-se também o descaso e incompetência no exercício das funções jurídicas.

Manuel André protesta. O Juiz ameaça com cadeia. O pleiteante faz lembrar a Constituição, fortemente desprezada pelo magistrado. Confusão é formada – mais um elemento de gosto popular no corpo da peça – e Manuel André acaba fugindo.

O outro caso é entre João de Sampaio e Tomás. O primeiro é dono de um leitão, que invadiu as terras do segundo. Estabelece-se uma briga até física – mais uma cena à pastelão, com os dois reclamos puxando, um de cada lado, o objeto de disputa. O problema é resolvido com a determinação do Juiz – um tanto egoísta – de ficar com o bicho. Ainda manda que seja trazida ervilha para a complementação de um prato que imaginara. E, pior, folgadamente determina que um dos contendores coloque o suíno no chiqueiro. Exibe-se a aplicação torta da lei, apenas para atingir interesses pessoais. No fim, o bordão: “estão conciliados”.

Como um adendo, Sampaio quer que tudo seja citado na Assembléia Provincial. O Juiz não autoriza, achando o assunto irrelevante. Tomás convence-o do contrário, lembrando os votos que o magistrado havia-lhe pedido para os integrantes da tal instituição legislativa. Corrupção, troca de favores, compra de votos... Problemas de longa data!

O próximo caso é de Francisco Antônio, Rosa de Jesus e José da Silva. A transcrição abaixo do requerimento dá mais detalhes:

“Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. ‘Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava tem um filho que é meu, peço a V. Sª mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher’”. Observe-se como a manipulação da linguagem abre no texto uma ambigüidade saborosa, apesar de rasteira.

A decisão do Juiz seguiu o caminho que parecia mais lógico: em favor de Francisco e Rosa de Jesus. José da Silva protesta, diz que vai recorrer, mas o magistrado faz pouco caso – tem procedimentos jurídicos para invalidar os questionamentos. Há mais reclamações, sufocados quando o magistrado manda prender José da Silva e fazê-lo recruta. Diante do pior, o protestante abre mão das queixas.

Nesse momento, chega Manuel João para receber o preso. E, preocupado com coisas imediatas, obtém autorização para deixar em sua casa o prisioneiro, pois que já estava chegando a noite.

Na chegada à casa de Manuel João ocorre outro expediente típico da dramaturgia popular: a surpresa causada pela descoberta da identidade de uma personagem. Causa curiosidade o espanto de Aninha ao se deparar com o prisioneiro. Depois que pai e mãe saem, a filha solta o recruta e fica-se sabendo tratar-se de seu namorado, José. Havia sido preso, alega, de forma extremamente arbitrária: “Assim que botei os pés fora desta porta, encontrei com o juiz, que me mandou agarrar.” Há um potencial de crítica aqui, que, diluído, não é aproveitado.

O casal foge para se casar. Quando os pais descobrem o que ocorreu, surge alvoroço, revolta e decepção, mas engraçadamente há espaço para um certo alívio de Manuel João, que estava livre da tarefa de levar o prisioneiro no dia seguinte. No fim, toda a culpa recai, comicamente, sobre a guerra que se processava no Rio Grande do Sul. A culpa é do Governo (como dizia uma antiga personagem humorística da televisão). Talvez por isso Manuel João resolva dar parte ao Juiz.

No entanto, é interrompido com a chegada do casal fugitivo, já casado. Tudo acaba em abraços. É essa explosão de felicidade (estamos indo na direção do desfecho da obra) que retira da obra um fôlego mais forte para se dedicar a uma ferrenha crítica social, no estilo do Realismo.

Resolvem, então, dar outra parte ao Juiz, agora de tom mais positivo.

A próxima cena é na casa do magistrado, que comunica ao escrivão a necessidade de consultar um letrado – deixa claro que não entende muito de leis. Antigamente, toda vez que surgia um problema cuja solução não conhecia, simplesmente usava um “Não tem lugar.” e o empurrava. Deixou de utilizar esse expediente porque uma vez quase tinha sido suspenso. Esses são mais ingredientes para que possamos denegrir a imagem desse funcionário. O escrivão até pergunta se tudo isso não era motivo de vergonha. Resposta:

“Envergonhar-me de quê? O senhor ainda está muito de cor. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, quantos juízes há por estas comarcas que não sabem aonde têm sua mão direita, quanto mais juízes de paz...” Suas reflexões são interrompidas com a chegada de Manuel João, Maria Rosa, Aninha e José, que lhe comunicam o casamento. Dessa forma, livra-se a personagem da obrigatoriedade de se tornar recruta.

A primeira reação do Juiz é desmoralizar José, chamando-o de biltre. Mas depois pede para perdoar a ofensa. O magistrado é de fato uma personagem rica em suas contradições, tornando-se extremamente humana, tanto que decide comemorar o matrimônio em sua casa, caindo todos na dança e na cantoria, conforme atesta o trecho final abaixo transcrito:

TOCADOR, cantando – Em cima daquele morro

Há um pé de ananás;

Não há homem neste mundo

Como o nosso juiz de paz.

TODOS – Se me dás que comê,

Se me dás que bebê,

Se me pagas as casas,

Vou morar com você.

JUIZ – Aferventa, aferventa!... Tudo termina bem, em festança, em folguedo, afugentando todo e qualquer elemento (e os há na obra em grande quantidade) que pudesse desagradar os padrões do público burguês romântico.

Fonte:
http://www.passeiweb.com/

Martins Pena (1815 – 1848)



Martins Pena (Luís Carlos M. P.), teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de novembro de 1815, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 7 de dezembro de 1848. É o patrono da Cadeira n. 29, DA Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador Artur Azevedo.

Era filho de João Martins Pena e Francisca de Paula Julieta Pena. Órfão de pai com um ano de idade e de mãe aos dez, foi destinado pelos tutores à vida comercial. Completou o curso do comércio em 1835. Cedendo à vocação, passou a freqüentar a Academia de Belas Artes, onde estudou arquitetura, estatuária, desenho e música; simultaneamente estudava línguas, história, literatura e teatro. Em 1838, entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde exerceu cargos, até chegar ao posto de adido à Legação do Brasil em Londres. Doente de tuberculose, e fugindo ao frio de Londres, veio a falecer em Lisboa, em trânsito para o Brasil.

De 1846 a 1847, fez crítica teatral como folhetinista do Jornal do Commercio. Seus textos foram reunidos em Folhetins. A semana lírica. Mas foi como teatrólogo a sua maior contribuição à literatura brasileira, em cuja história figura como o fundador da comédia de costumes. Desde O juiz de paz da roça, comédia em um ato, representada pela primeira vez, em 4 de outubro de 1838, no Teatro de São Pedro, até A barriga de meu tio, comédia burlesca em três atos, representada no mesmo teatro em 17 de dezembro de 1846, escreveu aproximadamente 30 peças, quase tantas obras quantos anos de idade, pois o autor tinha apenas 33 anos quando faleceu. O caráter geral de todas as suas peças é o da comédia de costumes. Dotado de singular veia cômica, escreveu comédias e farsas que encontraram, na metade do século XIX, um ambiente receptivo que favoreceu a sua popularidade. Envolvem sobretudo a gente da roça e do povo comum das cidades. Sua galeria de tipos, constituindo um retrato realista do Brasil na época, compreende: funcionários, meirinhos, juízes, malandros, matutos, estrangeiros, falsos cultos, profissionais da intriga social, em torno de casos de família, casamentos, heranças, dotes, dívidas, festas da roça e das cidades. Foi, assim, Martins Pena, quem imprimiu ao teatro brasileiro o cunho nacional, apontando os rumos e a tradição a serem explorados pelos teatrólogos que se seguiriam. A sua arte cênica ainda hoje é representada com êxito.

Algumas obras:
O juiz de paz da roça, comédia em 1 ato (representada em 1838);
A família e a festa na roça, comédia em 1 ato (representada em 1840);
O Judas em sábado de aleluia, comédia em 1 ato (representada em 1844);
O namorador ou A noite de São João, comédia em 1 ato (1845);
O noviço, comédia em 3 atos (1845);
O caixeiro da taverna, comédia em 1 ato (1845);
Quem casa quer casa, provérbio em 1 ato (1845); e diversas outras comédias e dramas.

SOBRE SUAS OBRAS

Embora tivesse escrito alguns dramas (todos de péssima qualidade), Martins Pena destacou-se por suas comédias, através das quais fundou o teatro nacional. A origem destas obras resulta de uma curiosa característica da época: normalmente após a apresentação de um drama, os espectadores assistiam a uma breve farsa, provinda da dramaturgia portuguesa, e cuja função era desopilar as emoções excessivas causadas pela peça principal. Favorecido pelo interesse de João Caetano, o mais famoso ator e encenador do período, Martins Pena percebeu que podia dar ao gênero um caráter brasileiro, introduzindo tipos, situações e costumes facilmente identificáveis pelo público do Rio de Janeiro.

Na verdade, a comédia de costumes (em geral, de um ato apenas) era a única espécie teatral que se adaptava às circunstâncias históricas do Brasil, na primeira metade do século XIX. A exemplo de Manuel Antônio de Almeida, uma espécie de seu discípulo no romance, Martins Pena intuiu que nem o drama, nem a tragédia se ajustariam ao universo que propunha retratar. Porque as elites imperiais, fossem as urbanas ou as do campo, careciam de maior complexidade social e humana, não permitindo a criação de textos psicológicos mais densos. Também as classes médias eram pobres em caracteres e dimensão histórica. Restavam apenas os escravos, estes sim participantes de um drama real e pungente. Só que quando apareciam representados nos palcos o eram unicamente como moleques de recados, amas de leite, etc. Ou seja, não havia outro caminho para o jovem teatrólogo senão a utilização do riso para registrar a sua época.

No conjunto, as comédias são superficiais e ingênuas, os tipos humanos são esboçados de forma primária e as tramas pecam, às vezes, pela falta de coerência e verossimilhança. Mesmo assim, estas peças apresentam tal vivacidade nas situações e no registro dos costumes e tamanha espontaneidade nos diálogos que ainda hoje ainda podem ser lidas ou assistidas com prazer.

TEMAS E SITUAÇÕES PRINCIPAIS

Algumas comédias são sátiras aos costumes rurais, revelando os hábitos curiosos, a fala simples e a extrema candura que delimitam os seres da roça. Estes são criaturas broncas e rústicas, ainda mais quando comparadas aos homens da capital, requintados e espertos. Porém os caipiras têm, com freqüência, melhor índole que os tipos da Corte. Até os pequenos corruptos, como o juiz de O juiz de paz na roça, não deixam de possuir uma certa inocência simpática.

Já as peças que focalizam a vida urbana efetivam, como observou Amália Costa, uma “leitura” irônica dos problemas da época: o casamento por interesse, a carestia, a exploração do sentimento religioso, a desonestidade dos comerciantes, a corrupção das autoridades públicas, o contrabando de escravos, a exploração do país por estrangeiros e o autoritarismo patriarcal, manifesto tanto na escolha de marido para as filhas quanto de profissão para os filhos.

Um tema dominante tanto nas comédias da roça quanto nas urbanas é o do amor contrariado. A maior parte das tramas cômicas gira em torno de jovens cujos desígnios amorosos ainda não se cumpriram. Como bem analisou Sábato Magaldi, tudo se origina do fato de os pais preferirem pretendentes velhos e ricos para seus filhos. Estes, ao contrário, crêem no amor sincero e desinteressado. Contudo, jamais um sopro trágico percorre tais paixões irrealizadas porque todas elas serão resolvidas positivamente, em clima da mais completa farsa, no final das peças. As situações são muitas parecidas (amor impossível pela má-fé de vilões – desmascaramento cômico dos empecilhos – final feliz). Pode-se afirmar que o casamento(ou pelo menos o namoro sério) constitui o epílogo mais comum destas comédias.

Martins Pena não teve seguidores diretos, exceção talvez a Artur Azevedo. Contudo, o teatro de costumes, um teatro semipopular, sem grandes pretensões estéticas, continuou existindo como única veia autêntica do palco nacional, no século passado.

O NOVIÇO

Uma das poucas peças de Martins Pena em três atos, O noviço gira em torno da pérfida ação de Ambrósio que se casa por interesse com Florência, rica viúva, mãe da jovem Emília, do menino Juca e tutora do sobrinho Carlos, este o personagem principal da peça O vilão Ambrósio já havia convencido a mulher a colocar Carlos (o noviço) em um seminário. Agora quer também internar Emília em um convento, pois ela se encontra em idade de casar e teria de receber um dote significativo da mãe. Igual destino aguarda o menino que deve se tornar frade. Assim, Ambrósio ficaria com toda a fortuna de Florência.

Carlos, no entanto, foge do convento e esconde-se na casa da tia, já que quer fazer carreira militar e, sobretudo, desposar a prima Emília, por quem está apaixonado. O acaso o ajuda na luta contra Ambrósio: vinda do Ceará, surge Rosa, a primeira mulher do vilão e da qual ele não se separara oficialmente. Rosa conta a Carlos que o seu marido desaparecera com todo o dinheiro que ela possuía.

O problema imediato de Carlos, porém, é livrar-se do Mestre dos Noviços que está atrás dele para reconduzi-lo ao convento. Em cena hilariante, aproveita-se da ingenuidade da mulher e troca de roupa com ela. Esta, em seguida, é encontrada pela autoridade religiosa com a batina do rapaz. Confundida com o noviço fugido, é remetida imediatamente ao seminário. Enquanto isso, Carlos, vestido de mulher, começa a ameaçar Ambrósio com a história de sua bigamia. Após inúmeras peripécias, o vilão é desmascarado diante da própria Florência, e os jovens Carlos e Emília ficam livres para o mútuo envolvimento amoroso.

OS DOIS OU O INGLÊS MAQUINISTA

Mariquinha e seu primo Felício se amam, mas como este é pobre não há possibilidade de casamento. A moça é cortejada por outros dois homens: Negreiro, um traficante de escravos, e Gainer, um inglês espertalhão. A crítica operada contra os dois personagens – ambos desejosos de obter a fortuna pessoal da jovem mediante o casamento – parece transcender à banalidade das tramas de Martins Pena. Funciona como metáfora da própria realidade nacional, dominada no plano econômico pelos traficantes e pelo capital inglês. À chegada do pai de Mariquinha, a quem todos julgavam morto, soma-se o conflito entre o inglês e o traficante (outra metáfora da história do Brasil da época?), permitindo a revelação dos caracteres degradados dos dois pretendentes. Assim, Mariquinha e o primo Felício podem efetivar a relação amorosa, como se o brasileiro simbolicamente tomasse posse da riqueza da nação.

Fontes:
http://www.biblio.com.br/
http://educaterra.terra.com.br/

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Sinclair Pozza Casemiro (Peregrinação)

Expedição pelo Caminho de Peabiru
Peregrinação no Caminho de Peabiru

Vejo a pedra que rola
Querendo ganhar o mundo
Sendo que foi feita pra ficar.
Vejo o barro que se prende nas rodas de um móvel,
Nos pés calçados ou não do caminhante, traindo seu destino de ficar.
Não sei se sabem que estão buscando além do que podem
E do que lhes foi destinado.
Mas sei que a pedra acaba indo longe
Nas construções, nas estradas asfaltadas…
O barro se espalha e se vai…
Sou peregrina que anda
Nos quilômetros deste chão de tantas cores,
De tantas formas, cheiros e marcas,
E estou presa na sua extensão, passo a passo.
Mas, como as pedras e o barro,
Meus sonhos se vão
Construindo e edificando longe…
Se espalhando feito pó na imensidão do possível.
=========================

TROVAS

Busca-se ainda o Caminho,
vive-se a doce ilusão
de um mundo feito carinho,
que ao fraco não negue o pão.

Pediram-me lá uma trova
Preciso, pois, de emoção,
Mas vive tão só e sem novas
Meu pobre e infeliz coração!
=====================

Sinclair Pozza Casemiro

Possui graduação em Letras Anglo Portuguesa pela Universidade Estadual de Maringá (1976), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1995) e doutorado em Área de Filologia e Lingüistica Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2001).

Vice-presidente da Fundação Educere de Campo Mourão, professora da União de Faculdades Metropolitana de Maringá e presidente - Núcleo de Estudos e Pesquisas da COMCAM sobre os Caminhos de Peabiru.

Foi reitora e vice-reitora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, FECILCAM, Brasil.

Professora da Comunidade dos Municípios de Campo Mourão, COMCAM

Professora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Paranavaí, FAFIPA

Professora visitante da Universidade Paranaense, UNIPAR, Brasil.

Prêmios e títulos

2004 Certificado, Secretaria de Estado da Ciência,Tecnologia e Ensino Superior do Paraná.
2003 Honra ao Mérito, FECILCAM.
2003 Certificado, FECILCAM - Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão.
2003 CERTIFICADO DE HONRA AO MÉRITO, CONSELHO DEPARTAMENTAL DA FECILCAM -Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão.
2003 Certificado, COORDENAÇÃO DO CURSO DE LETRAS,UNIVERSIDADE PARANAENSE - UNIPAR.
2003 Certificado, Universidade Estadual de Londrina.
2003 Palmas para Elas - Mulher Especial, Fundação Cultural de Campo Mourão.
2002 Menção Honrosa - Mulheres Destaque 2002, Secretaria Especial de Cultura do Município de Campo Mourão.
1998 Cidadã Benemérita de Campo mourão, Prefeitura Municipal de Campo Mourão.
1994 Certificado, Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras de Assis.
1994 Certificado, Auditório da Fecilcam e Fundacam.
1992 Certificado, Departamento de Letras do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes.
1991 Certificado, UNIFRAN.
1991 Certificado, Departamento de Letras da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Guarapuava..

– Cadeira n.14 da Academia Mourãoense de Letras.
– Delegada municipal da União Brasileira dos Trovadores/PR
– Coordenadora do Necapecam - Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre o Caminho de Peabiru na região de Campo Mourão (Comcam), sua equipe realiza um trabalho de resgate da história do trilho dos índios Tupis Guaranis com mais de três mil quilômetros, ligando o Oceano Atlântico ao Pacífico (São Vicente ao Peru), em uma rota que pode ter iniciada há quatro mil anos, caracterizando uma obra pré-incaica, conforme hipóteses de historiadores.

Produção bibliográfica

Artigos publicados em periódicos

– Estudos sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM. Compêndio sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM, Campo Mourão, v. 2, p. 10-25, 2005.
– Estudos Literários de Campo Mourão. Compêndio da Academia Mouraoense de Letras, Campo Mourão, v. 1500, p. 147-160, 2004.
– A lingua portuguesa como disciplina. X CELLIP, Londrina, 2003.
– Linguagem-lingua-fala-discurso-letras. III SIC- Semana de Iniciação Científica, Campo Mourão, v. III, p. 109-118, 2002.

Livros publicados/organizados

– (Organizadora). 2º Compêndio da Academia Mourãoense de Letras Vida & Liberdade - O Caminho De Peabiru A Terra Sem Mal E Os Guaranis. 1. ed. Campo Mourão: UNESPAR/FECILCAM, 2006. v. 1. 172 p.
– Pequeno Vocabulário comentado de usos lingüísticos no Projeto Caminhos de Peabiru da COMCAM. 1ª. ed. Campo Mourão: UNESPAR/FECILCAM - Campo Mourão, 2005. v. 500. 30 p.
– (Organizadora). Compêndio do Simpósio Caminho de Peabiru. 1. ed. CAmpo Mourão: UNESPAR/FECILCAM, 2005. v. 500. 272 p.
– Pequeno Vocabulário comentado de usos lingüísticos no Projeto Caminho de Peabiru da COMCAM. 2ª. ed. Campo Mourão: UNESPAR/FECILCAM - Campo Mourão, 2005. v. 500. 45 p.
– (Organizadora) . Caminho de Peabiru projeto de resgate -Compêndio sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM Micro-Região 12 do Paraná.O Silêncio E As Vozes Sobre O Caminho De Peabiru Nos Discursos Da História Da Comcam- Micro Região 12. 1. ed. Campo Mourão: NECAPECAM, 2005. v. 1. 209 p.
– Enquanto conto, encanto o conto - lendas, contos e rumores de Campo Mourão. 1ª. ed. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2004. v. 5000. 100 p.
– (Organizadora). Compêndio da Academia Mourãoense de Letras. 1ª. ed. Campo Mourão: UNESPAR/FECILCAM, 2004. v. 1. 182 p.
– (Organizadora). IV Semana de Iniciação Científica. 1. ed. Campo Mourão: FECILCAM-Campo Mourão, 2003. v. 1. 540 p.
– Caminhos In versos. 3ª. ed. Curitiba: Francisco Pinheiro, 2002. v. 1000. 110 p.
– Um olhar sobre a língua...Portuguesa? A formação do Professor como desafio. 1ª. ed. Campo Mourão: Unespar, 2001. v. 800. 101 p.
–.Novos Conteúdos Para O Curso De Letras Na Terminalidade De Formação Do Professor De Língua Materna.. 1. ed. Assis: UNESP, 2001. v. 1. 281 p.
–. Amigos da Poesia. 1ª. ed. Campo Mourão: Kromoset, 2000. v. 600. 80 p.
– Caminhos In versos. 1ª. ed. Curitiba: Francisco Pinheiro, 1997. v. 1000. 110 p.
– Emprego Dos Verbos Ter E Haver. 1. ed. Assis: Universidade Estadual Paulista/Assis-SP, 1991. v. 1. 84 p.
– A Informática E A Estatística Na Língüística. 1. ed. Assis: Universidade Estadual Paulista"Julio De Mesquita Filho", 1991. v. 1. 34 p.

Diversos textos em jornais de notícias/revistas

Fontes:
Currículo Lattes
SARTORI, Rubens Luiz. Compêndio da Academia Mourãense de Letras.2004.

O Caminho de Peabiru

A pintura representa Sumé (Pai Tumé ou
São Tomé) descerrando mata adentro o
Caminho de Peabiru.

São milenárias a Rota do Estanho (Ilhas Britânicas - Cassitérides, talvez as atuais Scilly - do primeiro milênio de nossa era; a Rota da Seda, que tornou esse produto conhecido pelos gregos no III século antes de Cristo, indo ao Pamir, até a Torre de Pedra, onde se realizavam os mercados fornecidos pelos negociantes chineses; a Rota do Lapis-Lazuli, do terceiro milênio; a Rota da Prata, pela qual os Tírios iam procurar na Espanha a prata e outros metais com os "navios de Tarsis", de que fala a Bíblia, e tantas outras.

As civilizações se fizeram pelas rotas. Por elas se aculturaram povos, se enriqueceram nações, se conquistaram mundos. Nem todas as rotas, porém, permanecem vivas. Algumas, sim, permanecem, pelo menos na memória de suas gentes. Outras, resgatadas, continuam guiando seus povos a caminho de novos sonhos, novas riquezas, adaptadas aos novos tempos.

O Caminho de Peabiru era uma “estrada” milenar, transcontinental que ligava o oceano Atlântico ao Pacífico, atravessando a América do Sul, unindo quatro países. No Brasil, passava por Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e depois seguia para Paraguai, Bolívia e Peru, cortando mata, rios, cataratas, pântanos e cordilheiras.

O caminho, no Brasil, começava em São Vicente ou Cananéia, no litoral paulista, cruzava o Estado do Paraná de Leste a Oeste, penetrava no chaco paraguaio, atravessava a Bolívia, ultrapassava a Cordilheira dos Andes e alcançava, finalmente, o sul do Peru e a costa do Pacífico. Este era o chamado tronco principal, mas havia vários ramais. Um deles cruzava o rio Paranapanema, na divisa entre São Paulo e Paraná, onde segundo a historiadora Rosana Bond, baixava o sul quase em linha reta, passando pelas atuais cidades paranaenses de Peabiru e Campo Mourão. Outro ramal dava no litoral de Santa Catarina e outro, ainda, provavelmente, no Rio Grande do Sul; ao todo tinha aproximadamente 3 mil km de extensão, possuía oito palmos de largura (cerca de 1,40 metros) e aproximadamente 0,40 centímetros de profundidade. Para evitar o efeito erosivo da chuva, a trilha era forrada com vários tipos de grama, que também impediam que a via fosse tomada por ervas daninhas. O professor Moysés Bertoni, pesquisador da cultura dos índios guaranis, afirma que a grama foi plantada apenas em alguns trechos, mas as sementes que grudavam nos pés e nas pernas dos viajantes acabaram estendendo o revestimento aos demais trechos.

Segundo o professor Moysés Bertoni, o Peabiru é algo fantástico por seu tamanho, sua função e suas características, diz; ainda que até hoje a civilização moderna não conseguiu construir nenhuma rodovia ou ferrovia ligando os dois oceanos de ponta a ponta.

A verdadeira história do Peabiru, segundo estudiosos ainda é um mistério, uma das teorias mais aceitas é que o caminho é a menor e melhor rota entre os oceanos Atlântico e Pacífico, tendo um importante papel no intercâmbio cultural e na troca de produtos entres as nações indígenas. Dizem ainda que foi aberto pelos guaranis em busca constante de uma mitológica "Terra sem Mal", aconselhados pelos seus deuses - base da religião guarani. Esse território mágico seria a morada dos ancestrais, descrito como o lugar onde as roças cresciam sem serem plantadas e onde a morte era desconhecida. Segundo o professor Samuel Guimarães da Costa, o Paraná seria esse "Nirvana" indígena e o Peabiru uma espécie de caminho santo que percorria o paraíso perdido, (para os índios, o Paraná se chamava Guairá, que em tupi-guarani quer dizer "terra da eterna juventude)”.

Existem mais duas hipóteses para a criação do Peabiru: a de São Tomé e/ou Pay Sumé, apóstolo de Cristo, e a da civilização Inca.

Uma das mais importantes heranças indígenas encontradas pelos colonizadores ao chegar ao Brasil foi, sem dúvida, o Peabirú, uma estrada de mais de 2.500 quilômetros - e com inúmeras rotas secundárias - que ligava o alto dos Andes até o litoral sul brasileiro.

O Peabirú era uma valeta de 1,40 metro de largura e 40 centímetros de profundidade, forrado por uma gramínea que impedia erosões. Os primeiros relatos sobre o caminho datam de 1516 e são envoltos em mistérios e lendas.

Entre eles, a de que o Peabirú fazia parte da Estrada do Sol, construída durante o Império Inca. O seu formato mais largo em relação às outras trilhas existentes em território brasileiro na época reforça a tese dos defensores dessa teoria.

Já os jesuítas acreditavam que ele havia sido construído por São Tomé. Especulações à parte, o fato é que o caminho, ladeado por muitas aldeias de índios guaranis, foi amplamente usado por diversos conquistadores, em diferentes períodos da colonização.

O trecho inicial do Peabirú, chamado de trilha dos tupiniquins, era o único meio conhecido na época de cruzar a Serra do Mar. Passou a ser muito utilizado também pelos jesuítas, principalmente por José de Anchieta, quando estes colocaram em prática o trabalho de catequização dos índios. Por isso, a trilha foi rebatizada como "Caminho do Padre José".

Importância Histórica

Segundo a escritora Rosana Bond, autora do livro “O Caminho de Peabiru” o caminho possui grande importância histórica, pois entre outras coisas serviu para as andanças e até grandes migrações de povos indígenas e, mais tarde, para a descoberta de riquezas, criação de missões religiosas, comércio, fundação de povoados e cidades.

Segundo as crônicas coloniais, os relatos do Padre Montoya e os historiadores Sérgio Buarque de Hollanda, Jaime Cortesão e Eduardo Bueno, o Peabiru é o principal caminho para a penetração da região sul do Brasil e do Paraguai.

Pelo Peabiru transitaram além dos indígenas, São Tomé e/ou Pay Sumé, Incas, ou seja, os possíveis criadores da trilha, também outros desbravadores ainda que considerado somente o período pós-Cabralino: soldados sacerdotes, aventureiros, os artifícies de nossa América, pessoas que construíram a história da região sul do Brasil.

Aleixo Garcia um português que utilizou o Peabiru, foi o primeiro europeu a fazer contato com os Incas, e a penetrar o interior do Brasil e do Paraguai em busca de um acesso às riquezas desse povo, no ano de 1524, a partir do litoral de Santa Catarina e, rumando para oeste, seguindo o caminho traçado pelos índios, chegou à região de Assunção, no Paraguai. Depois de diversas peripécias e confrontos com inúmeras tribos uma pequena parte de sua expedição retornou com peças de ouro e prata tomadas dos Incas.

Segundo o historiador Eduardo Bueno, depois da jornada de Aleixo Garcia, o Peabiru se tornou um caminho bastante conhecido e muito percorrido. Por ele seguiria, em 1531, a malfadada expedição de Pero Lobo, um dos capitães de Martim Afonso de Sousa.

Também pelo Peabiru passaram Alvar Nuñes Cabeza de Vaca em 1541 e Ulrich Schmidel em 1553, jesuítas como Pedro Lozano e Ruiz de Montoya também o percorreram em suas missões de catequese aos guaranis. Um século mais tarde, seria também pela via do Peabiru que Raposo Tavares e outros bandeirantes paulistas seguiriam para realizar seus devastadores ataques às missões do Guairá, no atual estado do Paraná.

Segundo Jaime Cortesão, foi pelo Peabiru que a civilização européia adentrou a oeste e subiu aos Andes. E para expressar a velocidade da penetração, basta assinalar que o gado, introduzido em 1502 em Cananéia, aparecia já em 1513 na Corte Incaica. Esta rapidez na disseminação de um elemento cultural prova quanto eram rápidas e ativas as comunicações através do continente.

Ainda no século XVI, o Peabiru foi o caminho usado para a fundação de Assunção, no Paraguai, para a criação de três ou quatro cidades espanholas no atual Estado do Paraná, para a implantação de 15 reduções jesuítas e até para a descoberta da maior mina de prata do mundo em Potosi, Bolívia.

Cortesão relata que, se julgamos tal caminho merecedor de tantas referências, é porque não somente foi o mais importante da face atlântica da América Latina, mas também o maior varadouro cultural e civilizador .

Depois de 1630, quando os bandeirantes entraram no Paraná e destruíram as cidades espanholas e as missões dos jesuítas, o Peabiru foi praticamente abandonado. O caminho ainda conseguiu retomar vida no século XIX, quando serviu, mais uma vez, para entrada de uma nova leva de homens brancos, os colonizadores pioneiros do interior do Paraná.

É notória a importância que o Caminho de Peabiru possui seja pelo traçado que cortava o continente, seja pelas personagens que por ele transitavam, pois é através dele que a verdadeira história e cultura de nossos antepassados são transmitidas nos dias de hoje, apesar da colonização européia que, utilizando do Peabiru adentrou na nossa região a fim de explorar o povo e a grandiosa riqueza natural aqui encontrada. O Peabiru é um caminho de importância inquestionável e deve ser resgatado para que as raízes do nosso povo sejam mantidas vivas entre o maior número de cidadãos e não apenas na memória de poucos estudiosos.

Fontes:
http://www.caminhodepeabiru.com.br/
http://zuboski.blogspot.com/

Paulo Vieira Pinheiro (Devaneios Poéticos)




No futuro bem próximo me vejo leve,
assim como quem passou,
assim como quem se foi.
Livre de laços.
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Tanto tempo que nem sei

Parei pela dor.
Constato que poderia, sim, mas não deu.
Juntando tudo que lembro fui, mas não fiz.
Voltando tudo sei que poderia ter sido mais, mas não fui.
Nesse rascunho escrevo o que quero
e em pouca vez isto fiz.
Um sucesso é tudo.
Que horas são?
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Momentos de insensatez

Bom dia minha querida!
Como você dormiu? bem?
O dia se faz largo.
O sol se enfeitou e todos os pássaros que cantam cantam para você.
Antes que o café esfrie venha ver uma coisa.
Sim... deixa pra depois.
Dormes como um bichinho.
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Veneta

Quando te comecei pensava no que darias.
Não sabia ao certo qual rumo tomarias.
Rubra tinta multicores sentidos desfia e
assim sendo das veias minhas tinto destino és.

Do novelo arranco um fio que cria
Aponto ao longo do vão contido da página
Digo a que vim e a que viria
Se não me barro a passagem de meu dia

Pensei em cantar uns versos antigos
Daqueles que a memória se esforça em vão
Dizer alegres cantares que contam
Histórias e glórias da alma em canção
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Xadrez

Minha alegria não se dá por solucionar problemas.
Hoje estou de malas prontas.
Vou para o paraíso dos sonhos.
Dentro em breve estarei encontrando o ar que quero.
Daqui há pouquinho pisarei miudinho em alvas sombras.
Reverei minhas matas e sentirei o seu cheiro.
Odor tão intenso que me vem à boca.
Um amor que na serra me espera abraçarei.
Contaremos inúmeras estrelas, sem medos.
Curiangos valentes se lançarão em vôos abruptos.
Cintilantes estrelas por testemunhas.
Para quê mais?
Os nossos exageros que brotaram e o peso do sei não nos abateu.
O som do coração, em êxtase sóbrio, nos convida a aquietar.
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Universo das Palavras
Exercício 21042008-1.

Para ir aprendi a falar,
para ficar aprendi a escrever.
Bem idas e benvindas, estadas imperfeitas.

Degraus de palavras ascendem em mim.

O primeiro me diz quem sou.
O segundo me diz onde estou.
O terceiro me diz com quem,
certamente com alguém ou ninguém.

Outros, porem, há.
Aquele de raro barro.
Uns de pedra firme.
Aqueloutro etéreo tropeço.

Em pouca página,
muitas palavras.
Uma poesia que corrói,
uma construção de idéias.

Construir degraus,
por mais caros que sejam,
encerra penares benfazejos.
Traços de alegrias que chegam.

Fazer em um segundo
um pensar tão fecundo...
momento que não voltará...
instante único em vida tanta.

Um brusco mudar.
O intenso me ensinou a calar e
calando tive tempo de aprender.
Sofro essa sede tanta.
Minha boca seca seca imagens tantas.
Calar se tornou o normal.
Escrever se tornou letal.
Sentenças de vida e de morte em grupos de letras
fazem de mim o deus que sou.
Tontas vidas, vidas... vidas?
Embrulho de gentes.
Rejeitos nascentes.
Fluxos escorrem nos meio-fios de aço.
A chuva corre e o lixo escorre...
Todos os meus sentidos fendidos, torcidos, meio vivos, meio mortos.
Onde estou agora? Onde estarei nessa hora?
De certo não nasci para só vir ver, tenho ânsia de ser.
Preso neste mundo de quatro paredes, com céus sem sóis,
aspiro mais escrever do que ser lido.
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Esperanças
Exercício 21042008-3

Há braços
Há maços
Há traços
De amor
De mora
De hora
Corola de honor.

Que trazes
Mais ases
Mais ares
De cor
De fora
Agora
Seja o que for
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Cintilar
Estudo 080608-1

Noite sem lua clara de estrelas
Faz viajar em mil pensamentos.
Calo agora a te contemplar
Esperança de alma noturna

A beleza certa e tamanha
Cresce a cada vislumbre ao céu
Sou eu quem a admiro silente
Ou ela quem se expõe a meu olhar

Cintilam olhos feito estrelas
As olho com elas a me fitar
Visões de um espaço imenso

Contido num instante tão breve
Que encanta em nosso descobrir
Nos procuramos e nos achamos
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Fonte:
O Autor
Imagem obtida na internet.

Lygia Fagundes Telles (A Estrutura da Bolha de Sabão)


Na obra A Estrutura da Bolha de Sabão, publicado em 1978, Lygia Fagundes Telles aborda temas como a rejeição e a formação da identidade do ser, mas em cada um deles esses elementos estão aliados a outros e são encarados de formas diferentes pelas personagens. A autora aborda sobretudo o universo feminino e suas diversas facetas: percepções e desejos próprios da mulher. Este livro pode ser considerado uma coletânea de contos marcado para repensar a realidade da mulher e a busca da emancipação feminina. Mas não se trata de um livro inteiramente feminista. A figura do homem também é trabalhada a fundo, marcando sobretudo o aspecto da fragilidade e das carências masculinas.

No conto "A confissão de Leontina", a protagonista, é sempre prejudicada por não ambicionar nada da vida e por estar no lugar errado, na hora errada, com pessoas erradas. “Tudo bem, não tem problema”, foi o que aprendeu a dizer a vida toda.

Uma releitura do conto "Missa do galo", de Machado de Assis também está aqui: "Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema". É o olhar feminino de Lygia sobre a mesma situação do conto de Machado.

As narrativas, se lidas na seqüência, nos dá a perceber uma lógica. Por exemplo, o conto que dá nome ao livro tinha que vir no final. É como se os personagens de todos os contos resolvessem fazer uso dessa frágil existência e, com a crueldade pulsante, ao final de tantos desejos inquietos, estourassem finalmente a bolha, representação de amor, ódio, sensibilidade, candura, crueldade e sutileza.

Na literatura de Lygia, memória e invenção se confundem, se misturam. Ela se protege com a “idéia”. Boa parte dos seus contos está em primeira pessoa e nota-se neles sua autobiografia, é como se lêssemos sobre ela. Lygia Fagundes Telles gosta de mergulhar nos detalhes e incógnitas, enigmas, charadas, como no primeiro conto da obra , “A medalha” (que a protagonista amarra no gato).

Com óbvias influências de Clarice Lispector e Hilda Hilst, ela traz o cósmico e o erótico equilibrado em textos como "A confissão de Leontina" e "A fuga". Freqüentemente se vêem as reflexões sobre fidelidade, Deus, a morte e o sonho. Lygia Fagundes Telles poderia então estar enquadrada na Geração 45, pela esquisa lingüística e inquietações temáticas.

A educação castradora, presenta no conto "O Espartilho", o mau ambiente familiar ou relacionamento insatisfatório, presente no conto "A Estrutura da bolha de sabão", produzem o ser humano mutilado e infeliz, pessoas / personagens conflituosas, desencontradas de si ou do mundo, como Leontina. Nem as crianças são poupadas: Luzia, irmã de Leontina sofre lesão cerebral e morre afogada por causa do primo Pedro, que também arruína a vida da protagonista deste conto. São personagens que buscam respostas que dêem sentido à vida. Como interagir da melhor forma com o mundo externo (como Clarice Lispector buscava), buscando interagir, querendo reconhecimento nos outros, presas ao passado dentro do presente, prisioneiras de um tempo esgarçado.

Seu enfoque é urbano e intimista, psicológico. Cheiros, lugares, objetos, roupas, sensações importam apenas como acesso ao mundo interior. Trafega bem na burguesia, mas vai até os menos favorecidos como Leontina.

É um panorama da nossa sociedade: desestruturação do grupo familiar, dissolução dos costumes, conflito de pais e filhos, luta pela maturidade, desajuste social, miséria, desamparo, prostituição. Resumindo: é o relacionamento personagem / mundo. São narrativas de personagens e tem ação lenta. Sugerem mais que descrevem. Constantemente lançam mão do discurso indireto livre. O que os personagens dizem não corresponde a uma forma convencional de ver o mundo e sim com seu estado psicológico, isso sem usar palavras difíceis nem frases que soem artificiais, pelo contrário: um texto que busca a oralidade. Quando é narrador em primera pessoa, ele se interrompe e faz perguntas, sugerem ao leitor sem gestos e expressões, amalgamando forma e conteúdo.

Os contos do livro A Estrutura Da Bolha De Sabão:

A Medalha - Narrado em terceira pessoa, é uma rama insólita em torno de uma jovem na época da revolução sexual, anos 60/70. Racismo: há um negro com quem a protagonista deve se casar, ele é tolo, e um branco, com quem ela acabou de fazer sexo. Por trás da banalidade,. Lygia Fagundes Telles sonda a alma humana.

Adriana, a protagonista, chega da farra de manhã. A mãe, burguesa, chama-a de “cadela”. Tem cabelos oxigenados de louro. Diz que é branca, mas tem “sangue podre” e assusta a mãe dizendo que os netos vão nascer morenos. A mãe diz que a filha puxou ao pai: cara de anão, pescoço curto, jeito mole, balofo. Adriana não se importa, vai se casar com quem for conveniente e vai levar a vida como quiser. A mãe ainda tenta ser tradicional e dá à filha uma medalha que estava na família há três gerações. Adriana pega. Vai para o quarto. Amarra a medalha no pescoço de um gato e o empurra porta a dentro do quarto da mãe. São apenas duas personagens, os outros são apenas citados.

A Testemunha - Neste conto vemos dois amigos passeiando pela cidade em um dia de inverno. Rolf e o “esquecido” do Miguel, com cerca de 50 anos, que quer a todo custo fazer o outro lembrar do que aconteceu: “preciso saber até que ponto eu cheguei”. Ao que Rolf responde: “Somos todos normalmente loucos”. Este conto também só tem duas personagens, além de um guarda no final. Eles parecem duas metades de um só homem em busca de si, ou querendo se esquecer. Há aqui a sombra da mãe.

Vão por uma rua escura, “quase deserta, no fim da rua, a ponte, curvo traço de união entre as margens do rio. A névoa subia densa”. Rolf é a ponte que liga Miguel ao ontem, ele não se lembra bem do que aconteceu. Miguel perdeu seu cão, o Rex. Miguel pede o último cigarro e subitamente joga o amigo da ponte: “as águas se abriram e se fecharam sobre o grito afogado, se engasgando” (Rolf não sabia nadar). Miguel amassa o pacote do cigarro e joga-o no rio. Aparece um policial e reclama: “É proibido atirar coisas no rio (...) é a lei”. Miguel se desculpa e some no nevoeiro. Livrou-se de parte do seu passado.Mas e de si mesmo?

O Espartilho - Neste conto parece que toda a estrutura familiar é posta em xeque. Narrativa em primeira pessoa. Ana Luíza, é órfã de um clã conservador, sua mãe era judia, o que sua avó, mãe do seu pai, faz questão de mostrar como herança genética maldita. Tricô, bíblia, álbum, chaves, cheiro de altar, seda, tesourinha, rendas, eis o campo semântico para lances abruptos: a “tia Ofélia tomou veneno um mês depois do casamento”, a família que tinha “olhos verde-água". Ana Luíza é reprimida e vê sensualidade na empregada negra que foge com um homem. Percebe a hipocrisia do jogo social burguês. Conhece Rodrigo e faz sexo com ele, tudo parece acontecer nos anos 40, a guerra, Hitler (a avó até que o admira); a avó dá um cheque e Rodrigo troca a neta por uma viagem. O espartilho é metáfora da contenção emocional e do preconceito burguês. Ana fica só no final e a velha, com o espartilho, vai dormir: “os mortos já haviam sido devorados, agora era a vez dos retratos”. Aquela família estava cheia de “podres”: tio Maximiliano engravidou uma negra e foi mandado às pressas para a Europa. “Por que eu que começara tão bem, tinha que me transformar naquela mosca morta?”, pergunta-se a protagonista. Na noite de natal, os parentes se amavam e se detestavam com igual intensidade: “Sentei-me para comer sossegada minha fatia de peru”, narra. “Você parece com sua avó”, disse Rodrigo, “Uma burguesinha empoeirada”. O que perdi em ilusão, ganhei em segurança, reflete a narradora Ana Luíza.

Quer que eu tire seu espartilho?, perguntei quando meus dedos tocaram a rigidez das barbatanas.
– Não minha filha. Eu me sentiria pior sem ele. Já estou bem, vá, querida. Vá dormir.
Antes de sair, abri a janela. A Via-Láctea palpitava de estrelas. Respirei o hálito da noite: logo iríamos amanhecer”.

Fuga - Parece o mais estranho: narrado em terceira pessoa, o foco narrativo nos exibe o inseguro Rafael, que passou da idade e ainda mora com os pais, dependendo economicamente e psicologicamente deles. Sofre de uma doença que não ousa nem dizer o nome. Não, ele resfolega, não é asma. Está envolvido por uma misteriosa “névoa” que o absorve no meio de um parque, árvores que querem agarrá-lo. Ele quer dar de presente argolinhas de ouro para uma italiana virgem que tem joelhos que parecem “anjinhos barrocos”. Lygia aqui, usa o discurso indireto livre e joga com metáforas inusitadas, símbolos. O filho preso na teia familiar não consegue fugir: “Você sabe que não pode correr”. O conto finda com o rapaz retornando a casa e encontrando seu próprio caixão: ele estava lá dentro.

A Confissão de Leontina - Quinto conto do livro: a narradora é uma mulher pobre e de pouco verniz cultural, que reclama por não confiar em ninguém da cidade grande. Nasceu na pequena cidade Olhos D’Água e mal sabe ler e escrever, além de não ter ninguém por ela no mundo. Lembra do primo Pedro que, ao derrubar a pequena Luzia, irmã da narradora, atingiu o cérebro da menina, criada desde ali como um vegetal.

A mãe de Luzia e dela, Leontina, era uma lavadeira que criara o filho da irmã, Pedro. Os poucos centavos, a melhor comida, a escola, tudo só dava a ele, em quem depositava falsas esperanças. Quando ela morreu, Leontina foi ser lavadeira. E também na formatura de Pedro, Luzia afogou-se. Pedro não a quisera no colégio, mal podia aturar a miséria da nossa narradora. Forma-se, pega o que pode e vai para São Paulo estudar medicina e fazer o possível para vencer e esquecer Leontina e todo aquele horrível passado de pobre. Obrigou-a a vender tudo que tinha e entregou-a aos cuidados de um padre que a empregou na casa de uma perversa mulher, mãe de um filho que quis abusar de Leontina.

Nossa heroína vai à luta na cidade grande fugindo do interior. Dançarina de aluguel, prostituta e... assassina? Com tantos elementos assim, Lygia entrega ao leitor sua visão confortável de todo o nosso desconforto. É como perguntaria Machado de Assis sobre Dona Plácida, de Memórias Póstumas de Brás Cubas: para que existir deste modo?

A narradora dirige-se a alguém que mal conseguimos distinguir. Há um tom de tragicômico, desespero. A morte da mãe e da cachorra Titã no mesmo parágrafo revela que o mundo é dos fortes: Pedro venceu, mesmo quando nega conhecer Leo como sua prima. O primeiro “amor” da vida dela, já dançarina de aluguel: um marinheiro; seu primeiro vestido: aquele que vestiria na mãe para enterrá-la e que lhe foi deixado como herança.

Minha mãe vivia lavando roupa na beira da lagoa (...) nunca vi minha mãe se queixar. Era miudinha e tão magra que até hoje fico pensando onde ia buscar forças para trabalhar tanto não parava (...) Pedro precisava estudar para ser médico. Prometera a irmã e todos passavam necessidades em nome dele. E ele as renegava.

Não podemos aqui falar em felicidade. Leontina é uma Macabéia (de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, 1977) que foi à luta e acabou na prisão. Lygia vai tecendo a trama desta pequena novela. Onde está a narradora? O que aconteceu com ela para estar assim? Com quem fala?

A ruptura com o tempo cronológico faz o leitor viajar na mente tortuosa e ao mesmo tempo simplista da personagem. '“Essa daí não é a tua irmã?", um menino perguntou. Mas Pedro fez que não e foi saindo. Fiquei sozinha no palco com um sentimento muito grande”, diz diante da primeira negativa de Pedro.

“Não conheci meu pai. Morreu antes de você nascer, respondia minha mãe sempre que eu perguntava”. A narrativa é fragmentada e trabalha o discurso indireto livre imprimindo ao texto um ritmo ágil: “Meu pai feito um Deus desaparecendo atrás da montanha com sua capa de nuvem num carro de ouro”. É um pai mítico e a menina o cria com elementos do seu universo particular: as nuvens, quando se deitava na beira da lagoa e escolhia a cara que o pai devia ter.

A velha Gertrude (e o filho João Carlos), sua primeira “patroa”, a tratara como um animal: “Nem pra ir ao banheiro eu tinha sossego que ela ficava rodando a porta e resmungando que eu devia estar cagando prego pra demorar tanto assim”.

Na fuga de trem, ela vê uma “estrelinha verde brilhando lá longe” que a acalma e também nos transmite o grau poético da cena.

Rogério era o nome do marinheiro com quem ela “se perdeu”. Um quartinho de hotel / pensão barato. Ele a chamara de Joana e não de Leontina: “Seu cabelo encacheado é igual ao de São João do carneirinho”. Segunda referência à Bíblia, Pedro faz a primeira: “Conte só com você que todo mundo já está até as orelhas de tanto problema e não quer nem ouvir falar do problema do outro”, sentencia Rogério ao prometer levá-la para conhecer o mar, comer uma peixada em Santos: “Aprendi a tomar banho com Rogério. Você tem que tomar banho todo dia e lavar as partes (...) em casa a gente só tomava banho de bacia em dia de festa, mas outras vezes só lavava o pé. E na casa da patroa ela não gostava que eu me lavasse pra não gastar água quente”.

Às vezes o verde da tal estrelinha ou do sabonete do marinheiro esbarram com nossa frieza de leitor: “Não sei por que pensei no meu pai quando Rogério passou o braço por baixo da minha cabeça e me chamou, Vem Joana”. Depois da vírgula o “v” maiúsculo do “vem”. Uma felicidade clandestina e efêmera de fazer amor e fumar. Dava tristeza “fazer amor” com Rogério: ia “com cara de boi indo pro matadouro”. "Ele dizia que minhas sobrancelhas eram como as asas das gaivotas.”

Ele se foi. Ela decai e numa pensão, cheia de artistas de circo, conhece Rubi, quem levou Leontina para lá foi o Milani, colega de Rogério. Personagem secundário mas Lygia os tece com carinho de mãe.

Leontina trabalha em inferninhos rodeada da escória típica destes locais: “Nunca dizia não pro freguês”.

A segunda vez que encontra Pedro, e ele fingiu não conhecê-la, foi na enfermaria da Santa Casa. Aqui a narradora faz a inevitável comparação com Jesus. Leontina é tentada.

Ao apreciar um vestido marrom com rosa de vidrilho vermelho no ombro, ela é assediada por um velho rico dono de jornais “e mais isso e mais aquilo”: “Amaldiçoada para que enveredei por aquela rua e parei naquela vitrina. O vestido estava numa boneca e tinha o meu corpo”.

O duplo está estabelecido: o jogo completamente armado. O ritual do sacrifício se encaminha para um desfecho dramático: ela deixa na loja o vestido branco. O velho a proíbe de voltar. Ele lhe comprara o vestido que ela queria. A estrada, o repúdio, o carrão, a estrada: “Era rico e feio com aquele jeito de peru do bico mole molhado de cuspe (...) boca inchada e roxa como se tivesse levado um murro”.

“O bofetão veio nessa hora e foi tão forte que me fez cair no banco (...) o punho do velho desceu fechado na minha cara. Foi como uma bomba (...) achei uma coisa pura e fria no chão. Era o ferro...”.

Depois de tudo ela volta à loja para buscar o vestido branco a polícia está lá. A vendedora dera a reconhecer.

Missa do Galo - Neste conto, Lygia disseca a intertextualidade com o conto de Machado de Assis, no qual nos é apresentada uma mulher da segunda metade do século XIX: Conceição, casada, vítima de um marido adúltero, que a deixa praticamente só numa noite de Natal. Esta senhora mantém um insinuante diálogo com um hóspede adolescente, o Nogueira (que é leitor, tal qual a senhora, de romances românticos, como Os três mosqueteiros, ou os do senhor Joaquim Manuel de Macedo). Ele faz hora esperando um amigo para juntos irem à tal missa do galo.

Ela “deixou travesseiro e quarto numa disponibilidade sem espartilho, livre o corpo” e Lygia cria um narrador que vai invadindo o espaço do não dito, nas entrelinhas, de Machado, coloca até na alcova do adúltero com uma certa “mulata”.

A relação do jovem Nogueira com Conceição também é, digamos assim, intensificada nesta recriação. Lygia apimenta-a, vasculha-a como um psicanalista provocador.

O insólito é observado: “Durante o dia Conceição parece tão objetiva, eficiente. E agora esta inconsistência”. Seu narrador observa pelas vidraças da casa, ele está na rua da “noite antiguíssima”. Sente desejo de entrar e vive um tempo anacrônico como a interferência de uma lembrança de algo escrito em um caminhão (!): “Matérias perecíveis”. Mas “aquela casa”, o narrador contrapõe, é “imperecível”, no ”bojo de tempo”. A obra de Machado.

Conceição: “bruxa” ou “belíssima”? Quer gritar, é hora de calar: “Vocês sabem que dentro de alguns minutos será nunca mais?”, pergunta-nos. O menino de 17 anos estará na igreja e ela no quarto.

Parece Clarice Lispector, amiga de Lygia: “Faça alguma coisa”, pede o narrador insistentemente com o coração pesado diante desses dois indefesos no tempo.

Metalinguagem e intertextualidade aqui se confundem quando o amigo do rapaz chega, ele vai para a missa, Conceição volta para o quarto e o narrador conclui:

Quando volta ao quarto, pisa na tábua do corredor, aquela que range. Rangeu, paciência! Agora está desinteressada da mãe e da tábua.
No canapé, a almofadinha das guirlandas um pouco amassada.
Apago o lampião.

Gaby - Penúltimo do livro, onde somos apresentados ao protagonista de apelido Andrógino, na verdade o mesmo do arcanjo, Gabriel. Ele está no bar com o garçom, Fredi, chegam clientes. Espelhos, mármore (balcão), ventiladores, calor. É pintor de “natureza morta”. Na infância a mãe o protegia. Tem uma amante velha pela qual sente repulsa, mas precisa do dinheiro dela. Ama uma jovem que não o suporta mais (Mariana). Vive com tédio a situação-limite em que chegou sua vida. É um indefinido a contemplar a vida. O pai doente está se acabando numa pensão pobre, sozinho. O garçom também é um insatisfeito.

Mariana tinha um primo deputado da oposição: “subversivo”. Esse conto fica datado nos anos 60/70. “Gabriel por que você não acaba o que começa?”. O pai dizia que o apelido “Gaby” era afeminado, nome de esmalte, creme, de mulher”.

Há uma “mosca” ao redor de Gaby durante quase todo o conto. A lembrança da velha com bochechas murchas, pintadas, com a peruca meio ridícula. A lembrança de ter denunciado ao pai que a mãe, que tanto o protegia, tinha um amante com um carro vermelho. Gaby fora reprovado duas vezes na escola. Na segunda parte do conto, Gaby recebe a carta de despedida de Mariana. Chora. Amadureceria um dia? Querer fugir dos beijos da velha, da dentadura dela. É um gigolô com problemas psicológicos, meio cafajeste inocente (?), traumatizado. A mãe desaparecera, “Como milhares desaparecem”. Está pintando uma maçã. Tudo é o vazio que se abate sobre tanta gente. Pensa de novo em matar a velha, que, ao perceber que ele estava um pouco febril, prepara-lhe um chá. Ele morde a maçã.

A estrutura da bolha de sabão - Neste conto, que dá título à obra, Lygia cria um narrador em primeira pessoa: uma mulher que encontra o ex-marido com a atual esposa num bar. Sente ciúme e testa a incomunicabilidade entre os seres, a aprendizagem dos sentimentos: uma delicada teia de relacionamentos. Ele é físico e estuda a estrutura da bolha de sabão (sólida / líquida / gasosa): híbrida. Ele, ela percebe aos poucos, está com uma doença terminal. Ela pensa na própria infância, revê sua vida em labirinto: “No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo”. Lygia é dona de uma sintaxe especial, particular. Pratica o intimismo com maestria. Sua poesia narrativa é uma espécie de ritual sem sangue, sem grito: “Amor de transparência e lembranças condenado à ruptura”.

Em relação à outra mulher, a narradora mostra-se superior: “Como ele podia amar uma mulher assim?”. São frases insólitas como: “Me refugiei nos cubos de gelo amontoados no fundo do copo”. Ela tem ciúmes e ao saber da doença do ex-marido vai à casa dele. É recebida pela fulana que agora ocupa o “seu” lugar. Quando a “outra” sai, ela se aproxima do homem que já foi seu. Ela não tem nome no conto. Ela flui. Ele usa um roupão verde, mãos “branquíssimas”, está quase lívido. Ela começa a sentir uma falta e não sabia do que era. Descobre: “Ô! Deus – agora eu sabia que ele ia morrer”.

Este final vago e brusco nos conduz ao amor interrompido, petrificado em narrativa de prosa lírica, urbana, metafísica.

Fonte:
Moisés Neto - Pós-graduado em Literatura, escritor, membro da diretoria do SATED (Sindicato dos artistas e técnicos em espetáculos de diversão em Pernambuco). In http://www.passeiweb.com/

Erros Mais Comuns da Lingua Portuguesa (Parte V)



81 – A tese “onde”… Onde só pode ser usado para lugar: A casa onde ele mora. / Veja o jardim onde as crianças brincam. Nos demais casos, use em que: A tese em que ele defende essa idéia. / O livro em que… / A faixa em que ele canta… / Na entrevista em que…

82 – Já “foi comunicado” da decisão. Uma decisão é comunicada, mas ninguém “é comunicado” de alguma coisa. Assim: Já foi informado (cientificado, avisado) da decisão. Outra forma errada: A diretoria “comunicou” os empregados da decisão. Opções corretas: A diretoria comunicou a decisão aos empregados. / A decisão foi comunicada aos empregados.

83 – Venha “por” a roupa. Pôr, verbo, tem acento diferencial: Venha pôr a roupa. O mesmo ocorre com pôde (passado): Não pôde vir. Veja outros: fôrma, pêlo e pêlos (cabelo, cabelos), pára (verbo parar), péla (bola ou verbo pelar), pélo (verbo pelar), pólo e pólos. Perderam o sinal, no entanto: Ele, toda, ovo, selo, almoço, etc.

84 – “Inflingiu” o regulamento. Infringir é que significa transgredir: Infringiu o regulamento. Infligir (e não “inflingir”) significa impor: Infligiu séria punição ao réu.

85 – A modelo “pousou” o dia todo. Modelo posa (de pose). Quem pousa é ave, avião, viajante, etc. Não confunda também iminente (prestes a acontecer) com eminente (ilustre). Nem tráfico (contrabando) com tráfego (trânsito).

86 – Espero que “viagem” hoje. Viagem, com g, é o substantivo: Minha viagem. A forma verbal é viajem (de viajar): Espero que viajem hoje. Evite também “comprimentar” alguém: de cumprimento (saudação), só pode resultar cumprimentar. Comprimento é extensão. Igualmente: Comprido (extenso) e cumprido (concretizado).

87 – O pai “sequer” foi avisado. Sequer deve ser usado com negativa: O pai nem sequer foi avisado. / Não disse sequer o que pretendia. / Partiu sem sequer nos avisar.

88 – Comprou uma TV “a cores”. Veja o correto: Comprou uma TV em cores (não se diz TV “a” preto e branco). Da mesma forma: Transmissão em cores, desenho em cores.

89 – “Causou-me” estranheza as palavras. Use o certo: Causaram-me estranheza as palavras. Cuidado, pois é comum o erro de concordância quando o verbo está antes do sujeito. Veja outro exemplo: Foram iniciadas esta noite as obras (e não “foi iniciado” esta noite as obras).

90 – A realidade das pessoas “podem” mudar. Cuidado: palavra próxima ao verbo não deve influir na concordância. Por isso : A realidade das pessoas pode mudar. / A troca de agressões entre os funcionários foi punida (e não “foram punidas”).

91 – O fato passou “desapercebido”. Na verdade, o fato passou despercebido, não foi notado. Desapercebido significa desprevenido.

92 – “Haja visto” seu empenho… A expressão é haja vista e não varia: Haja vista seu empenho. / Haja vista seus esforços. / Haja vista suas críticas.

93 – A moça “que ele gosta”. Como se gosta de, o certo é: A moça de que ele gosta. Igualmente: O dinheiro de que dispõe, o filme a que assistiu (e não que assistiu), a prova de que participou, o amigo a que se referiu, etc.

94 – É hora “dele” chegar. Não se deve fazer a contração da preposição com artigo ou pronome, nos casos seguidos de infinitivo: É hora de ele chegar. / Apesar de o amigo tê-lo convidado… / Depois de esses fatos terem ocorrido…

95 – Vou “consigo”. Consigo só tem valor reflexivo (pensou consigo mesmo) e não pode substituir com você, com o senhor. Portanto: Vou com você, vou com o senhor. Igualmente: Isto é para o senhor (e não “para si”).

96 – Já “é” 8 horas. Horas e as demais palavras que definem tempo variam: Já são 8 horas. / Já é (e não “são”) 1 hora, já é meio-dia, já é meia-noite.

97 – A festa começa às 8 “hrs.”. As abreviaturas do sistema métrico decimal não têm plural nem ponto. Assim: 8 h, 2 km (e não “kms.”), 5 m, 10 kg.

98 – “Dado” os índices das pesquisas… A concordância é normal: Dados os índices das pesquisas… / Dado o resultado… / Dadas as suas idéias…

99 – Ficou “sobre” a mira do assaltante. Sob é que significa debaixo de: Ficou sob a mira do assaltante. / Escondeu-se sob a cama. Sobre equivale a em cima de ou a respeito de: Estava sobre o telhado. / Falou sobre a inflação. E lembre-se: O animal ou o piano têm cauda e o doce, calda. Da mesma forma, alguém traz alguma coisa e alguém vai para trás.

100 – “Ao meu ver”. Não existe artigo nessas expressões: A meu ver, a seu ver, a nosso ver.

Fonte:
http://www.culturatura.com.br/

Seminário Cultura e Educação, em Piracicaba



Fonte:
Branca Tirollo, presidente da ALB/Piracicaba.

Jean-Pierre Bayard (História das Lendas) Parte VI



SEGUNDA PARTE

ESTUDO DAS LENDAS

CAPÍTULO I

FAUSTO ou o homem que vende sua alma aos poderes do mal

Esse personagem imortal de Goethe — às vezes de Marlowe — soube, depois de velho, reconquistar a juventude, acumular bens, governar seu espírito com uma compreensão, quase divina.

O homem contrai desta forma uma aliança sobrenatural a fim de se alçar a um nível superior e, abandonando seu arcabouço original, projeta-se num outro ente espiritual.

Este conhecimento é tributário da dualidade da alma humana; e Mefistófeles endossa nossa dívida e nossos defeitos. Satanás se incumbe de nossos crimes e de nossas baixezas; é a válvula que permite ao homem, se libertar. Mas, depois de haver vendido seu bem mais precioso, o homem tenta zombar do Espírito do mal e almeja finalmente o espírito supremo da Bondade.

1. — A presença do diabo

Desde a criação do Mundo o diabo tenta nos corromper; ele é a origem da maldição celeste; evoca o assassínio de Abel, provoca o dilúvio e a destruição de Sodoma. Se quer tentar Jesus incita tempestades e violenta as virgens.

As concepções demonológicas encontram-se entre os povos mais diversos: árabes, babilônios, assírios, bem como no pensamento hebraico, na religião persa, na doutrina cristã, na filosofia grega. Tiveram lugar dominante na vida e nos escritos.

Mas o cristianismo, com o fito de despertar a atenção do público cansado de dissertações filosóficas de mistérios, criou o personagem literário do diabo. Não é mais uma divindade inatingível mas apenas um ser ridicularizado, válvula indispensável para o rigor do catolicismo e da justiça divina. É assim que aparece em Le jeu des Vierges sages et des Vierges folles (O jogo das virgens ajuizadas e das virgens loucas) em La premiere joie de Marie (A primeira alegria de Maria) etc. Cohen busca esse rasto maravilhoso no seu Théâtre français au Moyen Age (O teatro francês na Idade Média).

2. — As duas formas de lenda

Fausto reflete a geração em que evolui; a conclusão difere conforme o gosto do autor ou o interesse da religião. Esse homem que vendeu sua alma morre amaldiçoado, abandonado pelo céu: é o drama de Marlowe e dos protestantes. Em compensação, esse homem orgulhoso que se perverteu para satisfazer sua curiosidade natural e que logo em seguida se revoltou contra Satanás receberá o perdão. Surge então o drama cristão de Goethe.

3. — Origem da lenda

A primeira forma da lenda parece ser oriunda da Ásia, com La légende de Théophile (A lenda de Teófilo), de que Eutiquiano, sacristão da igreja de Adana, teria sido testemunha ocular.

Teófilo, vidama — administrador — muito estimado, é injustamente destituído de seu cargo. A fim de reencontrar seu posto, pediu auxílio a um mágico. Satanás concluiu o pacto. Apesar do êxito, Teófilo, arrependido, reza durante quarenta dias e quarenta noites implorando à Virgem Maria a restituição do ato satânico. Teófilo confessa publicamente o seu ato e morre. Essa lenda foi muito apreciada na Idade Média: Saint-Bernard, Voragine, Rutebeuf utilizaram-na. No tímpano do portal norte da Igreja de Notre-Dame de Paris acha-se representado esse milagre; na mesma ocasião, Viollet-le-Duc põe em cena o artista Biscornet assinando um pacto com o demônio a fim de completar sua obra (Serralheria das portas de Notre-Dame de Paris).

4. — Outras formas da lenda

Em 1220, Cesário d’Heisterbach escreveu Histoire de Militarius (História de Militarius) que, depois de uma vida de deboche, vende-se ao diabo e, finalmente, obtém o perdão da Virgem. Com a Légende du chevalier qui donna sa femme au diable (Lenda do cavaleiro que deu a mulher ao diabo) de origem picarda (século XIV), a virgem, tomando o lugar da mulher caluniada, põe em fuga Satanás.

Mais próximo de La légende de Théophile está o texto brabantês La légende du chevalier voué au démon et sauvé par sainte Gertrude (1612) (Lenda do cavaleiro ao demônio e salvo por Santa Gertrude) (G. de Rébreviett) e La farse de Munyer (A farsa de Munyer).

Dessa forma, nessa espécie de imaginaria popular — assaz rica em textos semelhantes — a Virgem intercede em favor de homens orgulhosos, perdulários e jogadores.

5. — A lenda de Cipriano

Santa Justina, virgem de Antioquia, é atormentada por Cipriano que se dá à magia; mas Cipriano constata que “o crucificado é maior do que todos os diabos” converte-se e torna-se bispo. Voragine acentua dessa forma o poder esotérico do sinal da cruz. Calderón recolhe a lenda para seu Magicien predigieux (1637) (O mágico prodigioso). O pacto foi também suprimido em São Cristóvão ou Santa Teodora.

Em Saint Basile, évêque (São Basilio, bispo), Voragine confunde o amor com o desejo de se elevar; Urádio, um jovem escravo, que se vende ao demônio para poder esposar a filha do seu patrão, São Basilio conseguirá recuperar a célula demoníaca. Achille Jubinal, depois de Jehan de Saint-Quentin, narra em seus Contes, dits et fabliaux, várias lendas semelhantes (Le dit du chevalier et de l’escuier - Os ditos do cavaleiro e do escudeiro), Le dit du pauvre chevalier (O dito do pobre cavaleiro), Le dit des II chevaliers (O dito dos II cavaleiros). Mira de Amescua: L’esclave du démon (Escravo do demônio) associa D. Juan e Fausto. O eremita D. Gil sucumbe à tentação; dá sua alma a Satanás para poder abraçar uma freira que não passa de um esqueleto. O pavor restitui seu pensamento a Deus e São Miguel triunfará sobre Satanás.

Moreto: Tomber pour se relever (Cair para se reerguer), Calderón: Joseph des Femmes (José das Mulheres), Molina: Le damné pour manque de confiance (O maldito por falta de confiança), pensam ainda na doutrina luterana. Thomas Mann, no Doutor Fausto narra vários contos semelhantes (capítulo XIII).

6. — O ensinamento da lenda

Assim sendo, para atingir um fim ardentemente desejado um infeliz vende sua alma ao diabo, seja por intermédio de um judeu, seja por evocação direta graças a fórmulas mágicas. O pacto é escrito com sangue, marca indelével que o torna indissolúvel por um período de sete anos. A vítima arrependida é arrancada a Satanás por meio de uma intervenção celeste. Esta luta é de quarenta dias — prazo da redenção. Substitui-se a Virgem pela santa da região para que a autenticidade seja incontestável. Teófilo busca a dignidade e as honrarias; os cavaleiros se ocupam de riquezas; Urádio pensa no amor; e Fausto, na juventude e no gênio.

A Igreja reformada serve-se da lenda de Fausto para combater o ensinamento do catolicismo.

O inferno triunfa nas literaturas alemã, inglesa, escandinava e holandesa.

7. — O pacto satânico e a crendice popular

Fortemente instrumentada, a crença popular é de que toda inteligência superior é alimentada por um trato desonesto. Procura-se solapar o poder da Igreja católica. O poder temporal do Papa Silvestre II é oriundo da colaboração do diabo que fez com que um pastor de Auvergne fosse elevado às mais altas dignidades: é o “homem dos três R” por ter assumido postos em Reims, Ravenne e Roma. Abelardo, precursor do racionalismo moderno, tem a exigência de Fausto; esse herói da crítica e da independência é derrotado por São Bernardo, conservador da ordem. Apolônio de Tiano, Sião, o Mágico e os papas desde João XIII até Paulo II período ativo da Reforma — são assim caluniados por espíritos invejosos do seu poder. Alfred Neumann, ao escrever O diabo, sob o nome de Necker, servidor de Luís XI, mostra claramente a opinião do povo que pretende ver no êxito de um homem surpreendente um poder oculto.

8. — O personagem histórico

Fausto, nascido nos últimos anos do século XV, talvez em Kundling, perto de Bretten, teria morrido em 1543 ou, conforme o médico Bégardi, em 1539. E. Faligan na sua Histoire de la légende de Faust (História da lenda de Fausto) cita escritos históricos que provam a sua existência; Fausto, em 1507, era professor, em 1509, bacharel em teologia e recebido na Faculdade de Heidelberg. Esse indivíduo preguiçoso, ladrão e dado à embriaguez, discípulo de Lutero, tem uma vida movimentada. Toma como cunhado o próprio Diabo e chama o seu cão de Prestigiar. Prematuramente envelhecido pelos excessos, sua morte impressiona a imaginação popular. Sua vida estranha e sua morte cruel — talvez crapulosa — deram origem a uma lenda.

9. — Nascimento da lenda

Em 4 de setembro de 1587, Johan Spies publica em Francforte L’histoire du docteur Faust (História do doutor Fausto) (autor anônimo). Depois da evolução psicológica dessa alma transviada, as suas aventuras extraordinárias são relegadas, desordenadamente, para o fim do livro.

A edição de Widmann em 1599, acentua o caráter teológico: é a contribuição protestante. L’histoire de Wagner (A história de Wagner) é a repetição da de Fausto. Fredericus Scotus Tolet publica em 1593 uma vida de Fausto na qual ele viaja como sendo Cristóvão Colombo. Marlowe escreve uma farsa trágica, violenta e sem igual, a Tragique histoire du docteur Faust (A trágica história do doutor Fausto) (Londres, 1604). É uma obra profundamente humana na qual o autor conclui que o inferno está em nós mesmos. Com o teatro de fantoches — os “puppenspiele” — Fausto perde seu conteúdo ideológico para tornar-se o impostor; o elemento trágico passa a residir apenas no destino do herói, ficando a parte cômica com Hanswurst ou Kasperle, Polichinelo alemão.

Essas numerosas representações inspiram Dreher e Schütz e depois, Geisselbrecht.

10. — O drama de Goethe

Em 1773 Goethe inspira-se no teatro de fantoches. Devolve a essa lenda protestante sua nobreza primitiva: Fausto tornar-se-á um Abelardo alemão. Símbolo da vida humana, esse drama é o do saber, o da paixão. Mas Fausto aspira a uma verdade superior: será salvo apesar de seus erros. Mefistófeles é a antítese das boas qualidades do sábio. Esse desdobramento de personalidade é mais notável em L’étrange cas du docteur Jeckyll (O estranho caso do doutor Jeckyll) com Stevenson que identificou o vício e a virtude. Essa cumplicidade demoníaca reteve a atenção de Goethe, e o mal — força consciente — seria o reativo do bem. Satanás torna-se então o servidor de Deus. “O diabo é um companheiro que, provocando o homem, fá-lo também agir.” Aliás, o prólogo de Fausto assemelha-se à conversação entre Deus e Satanás (Job, I, 6; II, 3) que é encontrada no ensaio de Abraão (Job, 17, 1812).

Não será esse o licor da imortalidade que foi apresentado pelo médico dos Deuses ao Vichnu por ocasião de um dos seus avatares?

Além do valor esotérico desse drama, eis que aparece a heroína Margarida, uma das mais belas almas humanas. Mas nessa luta de amor pueril, sem escrúpulos e sem remorsos, a lei da fatalidade esmaga a inocência. Se Fausto não houvesse soçobrado na desvairada noite de Walpurgis, teria representado o amor imortal.

Goethe, entre setenta e seis e oitenta e dois anos escreveu o segundo Fausto, soma de saber e conhecimento. Nesse poema metafísico, de simbolismo muitas vezes obscuro, Fausto — a ciência — casa-se com Helena, mulher perfeita, de beleza antiga e plástica, símbolo da iniciação. Euforion é a alma no último grau da encarnação, libertada de suas correntes materiais.

Dois grandes filmes foram inspirados nesses temas equivalentes, um de Marcel Carné, Les visiteurs du soir (Os visitantes da noite) e o outro de René Clair, La Beauté du diable (A beleza do diabo).

11. Sucessão literária

Fausto enamorado, faz lembrar D. Juan, e Grabbe desenvolve essa comparação analisada por Micheline Sauvage: Le cas de Don Juan (O caso de D. Juan) (Le Seuil, 1953). Mas Fausto, romântico. como Chamisso e Lenau, suicida-se. Intelectual puro para Lessing, é um orgulhoso revoltado para Lenz, Muller, Klinger. O Fausto de Heine desapareceu; sua ação é muito confusa conforme Soden, Klingemann e Stolte.

Herói de todas as dúvidas e de todos os conflitos humanos, o Fausto de Turguenief é alvo do amor culpável. Mac Orlan o faz viver entre rufiões e raparigas e uma prostituta endossa essa terrível dívida (Margarida da noite). Em compensação, Mon Faust (Meu Fausto) de Paul Valéry, é uma criatura que esgotou tudo o que a vida pode dar. Mefistófeles é desviado pelas transformações do mundo moderno. Essa fresca sensualidade aparece na comédia satírica, Lust; depois de La demoiselle de Cristal (A jovem de Cristal), vem Le Solitaire (O solitário) que é o drama da negação de nossa civilização; sonho intelectual de M. Teste ou de Leonardo da Vinci, cada homem integrou-se de uma parcela diabólica. As duas peças estão inacabadas; se Lust deixa supor o triunfo do amor, observamos o pensamento trágico já assinalado por Rhumbs (Rumbas), Variétés (Variedades), Analectas (Analetos).

Thomas Mann escreveu a tragédia de um músico obcecado: O doutor Fausto. Livro de uma extraordinária densidade e anotações perturbadoras, o Diabo aparece durante a Idade Média. Lembramo-nos de Paganini cuja virtude era classificada entre a dos personagens diabólicos e que não pode ser enterrado religiosamente (as tribulações de seu cadáver duraram cinquenta e sete anos). Ferchault observa, porém, os músicos inspirados por esse tema. São eles, Schumann, Berlioz, Gounod, Liszt, Wagner e outros. Stravinsky orquestrou L’histoire du soldat (A história do soldado) de Ramuz — na qual um desertor vende a sua alma — num verdadeiro milagre de realização instrumental sonora. Bellaigue se filia aos pintores: Étude artistique et littéraire sur Faust (1883) (Estudo artístico e literário sobre Fausto). Depois de Ary Scheffer haver pintado Margaridas, as melodias de Berlioz transpareceram em Delacroix.

Não poderíamos deixar passar em silêncio La merveilleuse histoire de Pierre Schlemihl (A maravilhosa história de Pierre Schlemihl) na qual Chamisso aponta um pacto particular; um homem vende a sua sombra pela bolsa de Fortunato. A tentação é feita em dois estágios; o diabo, humilde como nos tempos medievais, compra apenas a sombra na esperança de recuperar a alma quando a desgraça se consumar. As sombras aparecem também na obra de Mac Orlan (Père Barbançon) na qual a sombra de Encolpe instiga uma luta sorrateira; se bem que o pacto não apareça, a atmosfera diabólica é a mesma.

12. — Conclusão

Esta lenda de origem satânica nasceu com L’histoire de Théophile. Pelo poder da prece, o homem foge ao jugo do mal. O protestantismo consagra o triunfo do inferno. Fausto denuncia uma crise literária e moral, é um universo resumido. O drama de Fausto continua a ser, assim, o drama humano por excelência.
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continua...
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Fonte:
BAYARD, Jean-Pierre. História das Lendas. (Tradução: Jeanne Marillier). Ed. Ridendo Castigat Mores

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Trova LXVIII (Nei Garcez - Curitiba/PR)


Trova obteve Menção Especial no Âmbito Estadual (Paraná) nos XIV Jogos Florais de Curitiba - tema: Vassoura
Fotomontagem da trova sobre imagem de http://parafernaias.blogspot.com

O Mundo Curioso da Literatura



Alcides Maya (1878-1944) foi o primeiro gaúcho a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1914.

Em 1963, com quarenta anos, Celso Luft casou-se com Lya Fett, com vinte e um anos, e que viria a tornar-se a escritora Lya Luft. Eles se conheceram durante uma prova de vestibular e, posteriormente, ela foi sua aluna. Celso, então conhecido como Irmão Arnulfo, abandonou a batina para casar. Eles tiveram três filhos: Suzana (1965), André (1966) e Eduardo (1969). Celso faleceu em 1995.

O escritor porto-alegrense Flávio Moreira da Costa (1942-) foi um dos escritores brasileiros mais premiados na década de 90. Ele foi também indicado pela Unesco para viver como escritor-residente no CAMAC, comunidade artística internacional em Marnay-sur-Seine, a 110km de Paris, onde escreveu o romance O país dos ponteiros desencontrados, lançado pela Editora Agir em novembro de 2004.

A gaúcha Luciana de Abreu (1847-1880) foi a primeira mulher, no Brasil, a ser aceita em uma sociedade literária (o Partenon literário, criado em 1868).

O fato de não ter ocupado uma vaga na Academia Brasileira de Letras só fez o poeta Mário Quintana ( 1906-1994) aguçar seu conhecido humor e sarcasmo. Perdida a terceira indicação para aquele sodalício, compôs o conhecido “Poeminha do Contra”, onde mostra que acreditava que enquanto os imortais da Academia serão esquecidos, seus versos são simplesmente livres...
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Em 17 de fevereiro de 1927, o combativo e popular jornalista e escritor Crispim Mira foi assassinado na redação do jornal que trabalhava, em Florianópolis. Ele não tolerava os abusos do poder público e fazia questão de denunciar em seus jornais as irregularidades vigentes. Pouco antes de morrer escreveu artigos em que questionava, por exemplo, a lentidão com que a Comissão de Melhoramentos dos Portos, vinculada ao Ministério da Viação, tratava do aumento do calado do porto de Florianópolis – que, por ser limitado, obrigava as embarcações a atracarem na ilha de Ratones, na Baía Norte. Quem atirou em Crispim Mira foi Aécio Lopes, 26 anos, filho de Tito Lopes - diretor da Companhia de Melhoramentos dos Portos da Capital e duramente criticado nos editorias de Folha Nova, onde Mira trabalhava. Aécio e seus comparsas foram absolvidos, no entanto. (O poder $empre falou muito alto).

A catarinense Edla Van Steen (1936-) é uma das únicas autoras do sul do país a ter 4 livros publicados (e muito elogiados) nos Estados Unidos. São eles: A bag of stories, 1991 (EUA) Scent of love, 1991 (EUA) Village of the ghost bells, 1991 (EUA) Early mourning, 1991 (EUA).

Em 1885, o catarinense Luiz Defino (1834 - 1910), em concurso nacional da revista A Semana, foi eleito o maior poeta do Brasil.

Harry Laus (1922-1992) publicou seu primeiro livro depois dos 50 anos de idade, após aposentar-se na carreira militar. O escritor e crítico de arte catarinense é hoje mais conhecido na França que no Brasil.

Guido Wilmar Sassi (1922-2003) não terminou o curso ginasial, mas aos doze anos de idade, já costumava ler tudo quanto lhe caía à mãos, inclusive Cervantes no original espanhol, histórias de fadas e ficção científica (Júlio Verne), romances policiais (Edgar Wallace e Conan Doyle), os contos de Hoffmann, Machado de Assis e Monteiro Lobato, peças de teatro e dicionários. (algo raro para um menino de hoje de 12 - ou até bem mais - anos de idade).

Dalton Trevisan, além de não dar entrevistas e não aceitar ser fotografado (a menos que seja por um descuido, como nesta foto), não recebe visitas nem aceita nenhuma espécie de fama. Já recebeu o apelido de "Vampiro de Curitiba", por viver enclausurado em casa.

O escritor paranaense José Colombo de Souza (1920-?), como se informa em nota por ocasião do lançamento do livro Fuga, foi demitido de uma academia de letras por converter-se à poesia moderna. Sobre Fuga, afirmava-se que era obra hesitante como toda a poesia moderna.

O poeta Emiliano Perneta (1866-1921) foi quem divulgou As Flores do Mal, do francês Baudelaire aos poetas curitibanos, fazendo da capital do Paraná, um dos centros de formação de poetas simbolistas. Em vida, os curitibanos lhe prestaram uma homenagem, dando-lhe o título de “Príncipe dos Poetas Paranaenses”. A poética de Emiliano Pernet tem versos bem trabalhados à parnasiana e tematiza a metalinguagem, o satanismo, o elogio à natureza e o misticismo cristão.

Falando em poesia, com suas poesias curtas, sucintas e sábias, Paulo Leminski (1944-1989) anda sendo chamado o precursor (inteligente) do Twitter (inteligente). Por sinal, ele foi homenageado recentemente no Jornal da Globo, na ótima coluna de Nelson Motta.

Outra curiosidade interessante sobre Leminski, é que ele se casou ainda menor de idade, aos 17 anos, com Neiva Maria de Sousa. O casamento durou apenas 6 anos, e eles não tiveram filhos. No mesmo ano em que se separou, começou a namorar Alice Ruiz, poetisa com quem viveu vinte anos e incentivou a escrever. Os dois, inclusive, moraram um ano com a ex-esposa de Leminski e o namorado dela. Tiveram três filhos: Miguel Ângelo, Áurea e Estrela. Separaram-se em 1987.

Emílio de Meneses (1866 – 1918), jornalista e poeta curitibano ao ser convidado para a Academia Brasileira de Letras compôs um discurso de posse, em que revelava nada compreender de Salvador de Medonça, nem na expressão da atuação política e diplomática, nem na superioridade de sua realização intelectual de poeta, ficcionista e crítico. A Mesa não permitiu a leitura do discurso e o sujeitou a algumas emendas. Emílio protelou o quanto pôde aceitar essas emendas, e quando faleceu, quatro anos depois de ter sido eleito, ainda não havia tomado posse de sua cadeira.

O escritor Wolfgang Von Goethe escrevia em pé. Ele mantinha em sua casa uma escrivaninha alta.

O escritor Pedro Nava parafusava os móveis de sua casa a fim que ninguém o tirasse do lugar.
Gilberto Freyre nunca manuseou aparelhos eletrônicos. Não sabia ligar sequer uma televisão. Todas as obras foram escritas a bico-de-pena, como o mais extenso de seus livros, Ordem e Progresso, de 703 páginas.

Euclides da Cunha, Superintendente de Obras Públicas de São Paulo, foi engenheiro responsável pela construção de uma ponte em São José do Rio Pardo (SP). A obra demorou três anos para ficar pronta e, alguns meses depois de inaugurada, a ponte simplesmente ruiu. Ele não se deu por vencido e a reconstruiu. Mas, por via das dúvidas, abandonou a carreira de engenheiro.

Machado de Assis, nosso grande escritor, ultrapassou tanto as barreiras sociais bem como físicas. Machado teve uma infância sofrida pela pobreza e ainda era miope, gago e sofria de epilepsia. Enquanto escrevia Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado foi acometido por uma de suas piores crises intestinais, com complicações para sua frágil visão. Os médicos recomendaram três meses de descanso em Petrópolis. Sem poder ler nem redigir, ditou grande parte do romance para a esposa, Carolina.

Graciliano Ramos era ateu convicto, mas tinha uma Bíblia na cabeceira só para apreciar os ensinamentos e os elementos de retórica. Por insistência da sogra, casou na igreja com Maria Augusta, católica fervorosa, mas exigiu que a cerimônia ficasse restrita aos pais do casal. No segundo casamento, com Heloísa, evitou transtornos: casou logo no religioso.
Aluísio de Azevedo tinha o hábito de, antes de escrever seus romances, desenhar e pintar, sobre papelão, as personagens principais mantendo-as em sua mesa de trabalho, enquanto escrevia.

José Lins do Rego era fanático por futebol. Foi diretor do Flamengo, do Rio, e chegou a chefiar a delegação brasileira no Campeonato Sul-Americano, em 1953.

Aos dezessete anos, Carlos Drummond de Andrade foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), depois de um desentendimento com o professor de português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos. "Se não fizer isso, saio matando gente pela rua". Estraçalhou uma camisa nova em folha do neto. "Experimentei, ficou apertada, achei que tinha comprado o número errado. Mas não se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha."

Numa das viagens a Portugal, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o "furo": Fernando Pessoa tinha lido seu horóspoco pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.

Érico Veríssimo era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.

Clarice Lispector era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas pertubadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.

Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura. "Para ele, era licor", diverte-se Joyce, a neta do escritor. Também tinha mania de consertar tudo. "Mas para arrumar uma coisa, sempre quebrava outra."

Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: "O senhor gosta de Camões?" Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos.

Fernando Sabino foi escoteiro dos nove aos treze anos. Nadador do Minas Tênis Clube, ganhou o título de campeão mineiro em 1939, no estilo costas.

Guimarães Rosa, médico recém-formado, trabalhou em lugarejos que não constavam no mapa. Cavalgava a noite inteira para atender a pacientes que viviam em longínquas fazendas. As consultas eram pagas com bolo, pudim, galinha e ovos. Sentia-se culpado quando os pacientes morriam. Acabou abandonando a profissão. "Não tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue", conta Agnes, a filha mais nova.

Mário de Andrade provocava ciúmes no antropólogo Lévi-Strauss porque era muito amigo da mulher dele, Dina. Só depois da morte de Mário, o francês descobriu que se preocupava em vão. O escritor era homossexual.

Vinicius de Moraes, casado com Lila Bosco, no início dos anos 50, morava num minúsculo apartamento em Copacabana. Não tinha geladeira. Para aguentar o calor, chupava uma bala de hortelã e, em seguida, bebia um copo de água para ter sensação refrescante na boca.

José Lins do Rego foi o primeiro a quebrar as regras na Academia Brasileira de Letras, em 1955. Em vez de elogiar o antecessor, como de costume, disse que Ataulfo de Paiva não poderia ter ocupado a cadeira por faltar-lhe vocação.

Castro Alves morreu com apenas 24 anos, nasceu em 1847 vindo a falecer em 1871.

J.K Roling (Escritora de Harry Potter) começou a escrever seu primeiro livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, em guardanapos em um bar que frequentava, e ao terminar o livro ficou com uma terrível dúvida: escolher se comprar leite para sua filha ou mandava seu livro pra editora, hoje ela é milionaria !

Jorge Amado para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. "Por quê?", perguntavam os jornalistas, Jorge respondeu: "O motivo é simples: nós somos amantes." Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal disse: "Muito prazer, encantado." Era piada. Os dois nem se conheciam até então.

Fontes:
http://www.escritoresdosul.com.br/
Academia Brasileira de Letras.
http://moyseswesley.blogspot.com
Imagem = montagem sobre desenho do blog de Moyses Wesley.

Antonio Brás Constante (Deu a Louca nas Fabulosas Fábulas)


Se as fábulas infantis de outrora fossem escritas hoje em dia, tudo seria diferente, o Lobo Mau estaria mal, muito mal, combalido na cama da vovozinha, que teria saído de casa para passar trotes em algum telefone público (se na cidade de Canoas isso acontece, porque não poderia ocorrer em fábulas?). O lobo teria sido vítima dos três porquinhos, que lhe contaminaram com a gripe suína. Nesta história ao invés dele ter soprado neles, foram eles que assoaram o nariz perto dele.

Os porquinhos por sinal, não seriam apenas três, mas sim, milhares, que atirariam lixo pelas janelas dos carros, ou em terrenos baldios, ou ainda despejando detritos industriais em rios, sem preocupação nenhuma com reciclagem ou meio ambiente, e teriam a alcunha de sociedade.

Se não bastasse a gripe, o lobo ainda seria acusado de atentado violento ao pudor e canibalismo contra uma tal Chapeuzinho Vermelho, uma das lideres do comando vermelho, e conhecida no bosque encantado como a maior traficante de “docinhos” alucinógenos da região.

No caso de João e o pé de feijão, seria João que passaria o conto do vigário nas negociações, trocando vacas loucas por sacas de feijão, que ficariam armazenados em gigantescos silos subsidiados pelo governo, que ainda pagaria a João para guardá-los, mantendo assim o preço de mercado.

João também aprontaria das dele com sua irmã Maria, existindo inclusive boatos de que juntos eles teriam saqueado uma pobre velhinha, vandalizando sua casa e ainda chamando a coitada de bruxa. Tudo isso em decorrência do vício de ambos por “docinhos”, onde faziam de tudo para consegui-los. Seriam considerados como dois exemplos de jovens perdidos no bosque encantado.

A Cinderela da atualidade passaria o rodo na casa da madrasta, deixando-a sem nada, e fugiria com um tal de príncipe, marginal conhecido, que não engolia sapos de ninguém. Já a
Branca de neve ganharia este apelido em decorrência do pó que forneceria aos seus convidados em suas festinhas privativas para políticos entre outras personalidades influentes, utilizando anões nas suas operações, que em áureos tempos também já foram conhecidos como anões do orçamento, em terras brasilis.

Nos dias de hoje Pinóquio não seria literalmente um cara de pau, mas ainda assim seria um baita mentiroso, provavelmente entraria na política, mas ao invés de crescer o nariz, o que cresceria absurdamente seria sua conta bancária.

Estamos vivendo em um mundo onde os contos de fadas foram trocados pelos games, os príncipes e princesas por uma tentadora carreira (entenda-se isso em todos os sentidos) e a infância cada vez mais vem deixando de acontecer em meio a uma antiga bolha de fantasias, onde era a cegonha que trazia os ovos de páscoa e Papai Noel era pregado na cruz. As novas fontes de utopia são uma mescla entre o real e o digital. Um mundo em que pequenos e inquietos “pré-adultos” se formam antes mesmo de serem adolescentes.

Enfim, um mundo onde muitos adultos sentem-se tão obsoletos quanto seus saudosos contos de fadas de antigamente, sem conseguirem assimilar o que estas mudanças causarão as futuras gerações, que já há um bom tempo vem atropelando estas recordações com uma carruagem envenenada de abóboras transgênicas.

Fontes:
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/abrasc
Imagem = http://www.contaoutra.com.br

Academia Paranaense da Poesia Convida

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Trova LXVII (Neoly de Oliveira Vargas - RS)


Trova vencedora no Âmbito Estadual (Rio Grande do Sul) nos Jogos Florais de Porto Alegre - 2007 - Tema: Marujo

Jogos Florais de Nova Friburgo de 1960 a 2008 (Vencedores)


1960 - AMOR
Não me chames de senhor
que eu não sou tão velho assim,
e ao teu lado, meu amor,
não sou senhor...nem de mim!
Rodriges Crespo (Belo Horizonte)

1961 - SAUDADE
Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia
Dentro da casa: a saudade!
e na saudade: Maria!
Anis Murad (Rio de Janeiro)

1962 - CIÚME
Quanto mais teu corpo enlaço
mais padeço o meu tormento,
por saber que o meu abraço
Não prende o teu pensamento
Jesy Barbosa (Petrópolis)

1963 - VIDA
Esta engrenagem, que é a vida
esmaga a todos, sem dó
e a gente, aos poucos moída,
de novo volta a ser pó.
Paulo Emílio Pinto

1964 - BEIJO
Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu...
Durval Mendonça (Rio de Janeiro)

1965 - MULHER
No dia em que tu quiseres
ser meu senhor e meu rei,
serei todas as mulheres
na mulher que te darei.
Nydia Iaggi Martins (Nova Friburgo/RJ)

1966 - DESPEDIDA
Meu lenço, na despedida,
tu não viste em movimento:
- Lenço molhado, querida,
Não pode agitar-se ao vento.
Carlos Guimarães (Nova Friburgo/RJ)

1967 - NOITE
Noites feitas de saudade,
de lembranças, de meiguice...
-Tão curtas na mocidade
E tão longas na velhice!
Alfredo de Castro (Pouso Alegre/MG)

1968 - NOVA FRIBURGO
Amanhece. A névoa fina
vai aos poucos se extinguindo...
E o Sol, varrendo a neblina,
mostra Friburgo...sorrindo!
Daniel de Carvalho

1969 - ABANDONO
Sozinho...o tempo passando,
um dia vai, outro vem...
Meu Deus! Maria chegando,
abro meus olhos...ninguém!
Rubens de Castro

1970 - PRESENÇA
Aérea, fluída, de gase...
corpo volátil de essência...
sua presença era quase,
como se fosse uma ausência...
João Rangel Coelho (Rio de Janeiro/RJ)

1971 - ANGÚSTIA
Na minha angústia, calado,
eu vi no espelho outro dia,
um rosto amargo e cansado
- Meu Deus do céu, quem seria?...
Walter Sanches

1972 - SILÊNCIO
Nessas angústias que oprimem,
que trazem o medo e o pranto,
há gritos que nada exprimem,
silêncios que dizem tanto...
Luiz Otávio (Rio de Janeiro/RJ)

1973 - RETICÊNCIAS
Mãos tristes temendo ausências
se despedem com revolta...
Nosso adeus tem reticências
que acenam dizendo...Volta!
Carolina Ramos (Santos/SP)

1974 - FIBRA
Cabelos brancos ao vento,
-Saudade feita de neve - !
Mil fibras de sentimento
dizendo a tudo: Até breve!...
Helvécio Barros (Bauru/SP)

1975 - ENCONTRO
Eu e tu , duas metades
Que a vida vai separando...
Eu e tu, duas saudades
Na saudade se encontrando
Izo Goldman (São Paulo/SP)

1976 - CULPA
Ante as sandálias furadas
que entre cascalhos gastei,
não culpo o chão das estradas,
culpo os maus passos que dei.
José Maria Machado de Araújo (Rio de Janeiro)

1977 - CONFLITO
No conflito de um desgosto,
por saber que não me queres,
vivo em busca do teu rosto
no rosto de outras mulheres...
Octávio Venturelli (Nova Friburgo/RJ)

1978 - OCASO
Na paixão em que me abraso
tanto sol tem minha estrada,
que eu não troco o meu ocaso
pela mais linda alvorada!
Alcy R. Souto Maior (Rio de Janeiro/RJ)

1979 - AUSÊNCIA
Não diga adeus nem brincando,
o adeus é irmão da saudade,
e alguma ausência, escutando,
pode pensar que é verdade...
Octávio Venturelli (Nova Friburgo/RJ)

1980 - RUMO
Fim do meu rumo. Eu grisalho
dos netos entre os carinhos,
pareço um velho espantalho
cercado de passarinhos.
Romeu Gonçalves da Silva

1981 - VIDRAÇA
Entre esperas e demoras,
que a solidão descompassa,
já nem sei quantas auroras
vi chegar pela vidraça!...
Vasques Filho (Fortaleza/CE)

1982 - FUGA
Em passos e contrapassos,
ao som de acordes tristonhos
sempre foges dos meus braços
no bailado dos meus sonhos...
Vasques Filho (Fortaleza/CE)

1983 - QUASE
São quase uma eternidade
minhas noites de abandono,
porque em meu quarto a saudade
se deita, mas não tem sono...
João Freire Filho (Rio de Janeiro)

1984 - AMOR
Nós tanto nos pertencemos,
nosso amor vai tão além...
Que nós dois já nem sabemos,
qual de nós é mais de quem!
Almerinda Liporage (Rio de Janeiro)

1985 - BRINQUEDO
Infância é um brinquedo usado
que um dia a vida resolve
tomar um pouco emprestado
e nunca mais nos devolve!
Arlindo Tadeu Hagen (Juiz de Fora/MG)

1986- CANTIGA
Cantiga, que me transporta
da angústia, ao sono de paz;
é o som da chave na porta
e teus passos, logo atrás...
Almerinda Liporage (Rio de Janeiro)

1987 - ACENO
Partiste sem um aceno
multiplicando os meus ais:
não quis teu mundo pequeno
meu sonho grande demais!
Eugênia Maria Rodrigues (Rio Novo/MG)

1988 - PROCURA
Jurei não te procurar...
Jurei, mas quebrei a jura...
Quem ama pode jurar
não procurar, mas...procura.
Luna Fernandes (Rio de Janeiro/RJ)

1989 - TEIMOSIA
Espero-a...A noite está fria,
mas não desisto...Ouço passos...
E o prêmio da teimosia
vem se acolher em meus braços
José Tavares de Lima (Juiz de Fora/MG)

1990 - LEMBRANÇA
Teu retrato até rasguei
para fugir da verdade...
“ Sem lembranças””, eu pensei,
mas ninguém rasga a saudade!...
Thereza Costa Val (Belo Horizonte/MG)

1991 - ESPAÇO
Mãe, por mais que eu me concentre
na importância do que faço
não esqueço que teu ventre
foi o meu primeiro espaço!
Almerinda Liporage (Rio de Janeiro)

1992 - EMOÇÃO
Resisto...mas, distraída,
minha razão nem percebe
quando a emoção atrevida
abre a porta...e te recebe!
Marilúcia Resende (São Paulo/SP)

1993 - RETRATO
Teu retrato, enraivecida,
eu rasguei, sem embaraços...
mas a saudade atrevida
juntou de novo os pedaços!...
Marilúcia Resende (São Paulo/SP)

1994 - DESPREZO
Não desprezei meu Nordeste,
desprezo, eu juro, foi não...
Foi a dureza do agreste
que me afastou do setão!
Alfredo de Castro (Pouso Alegre/MG)

1995 - POETA
Quando esta lua indiscreta,
me traz lembranças sem fim
eu choro o velho poeta
que morreu dentro de mim.
Rita Marciano Mourão (Ribeirão Preto/SP)

1996 - MAGIA
Lavrador,por tuas mãos,
que Deus dotou de magia,
faz-se o milagre dos grãos
dando o pão de cada dia!
Maria Lucia Daloce Castanho (Bandeirantes/PR)

1997 - TRISTEZA
Eu me recuso, tristeza,
a conviver com teu mundo:
-Vida que tem correnteza
não cria lodo no fundo!
Héron Patrício (São Paulo/SP)

1998 – JANELA
Meu orgulho se rebela
mas o amor faz perdoar,
porque a saudade é janela
que eu nunca aprendo a fechar.
Almerinda Liporage (Rio de Janeiro)

1999 - BILHETE
Velho bilhete...lembrança
de um amor que não foi meu...
Um pedido de esperança
que a vida não respondeu...
Marina Bruna (São Paulo/SP)

2000 - INSTANTE
A saudade se embaraça
e a paixão se intensifica...
- Não pelo instante que passa,
mas pelo instante que fica
Eduardo Toledo (Pouso Alegre/MG)

2001 - DETALHE
Meu perdão foi um tributo
A uma lágrima suspensa:
- um detalhe diminuto
Mas,que fez a diferença...
Darly Barros (São Paulo/SP)

2002 - CERTEZA
Se te vais, por gentileza,
deixa a porta sem trancar!
não me roubes a certeza,
de que logo irás voltar!
Adélia Victória Ferreira (São Paulo)

2003 - ESPERA
Eu te quero às escondidas
e, se esta espera durar,
te esperarei quantas vidas
for necessário esperar!
Eugênia Maria Rodrigues (Rio Novo/MG)

2004 - REFÚGIO
Baú velho, tampo torto,
cartas e fotos mofando...
- Refúgio de um sonho morto
Que eu vivo ressuscitando
José Ouverney (Pindamonhangaba/SP)

2005 - MOTIVO
Sei que os motivos são poucos,
sei que as razões também são,
mas este amor nos faz loucos
e os loucos não têm razão!!!
Gerson César de Souza (Porto Alegre/RS)

2006 - FRONTEIRA
Amai- vos, e as derradeiras
muralhas hão de cair.
- Havendo amor, as fronteiras
não têm razão de existir!
Antonio Augusto de Assis (Maringá/PR)

2007 - MENSAGEM
Sem precisar das imagens
ou linguagem que os ensinem,
os olhos trocam mensagens
que as palavras não definem.
Campos Sales (São Paulo/SP)

2008 - ESCOLHA
Duas culpas, um pecado
e um remorso a nos doer:
você- que escolheu errado;
eu- que nem pude escolher...
José Ouverney (Pindamonhangaba/SP)
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Theo Padilha (Júlia, Jarbas e o Amor)



“Que dias há que na alma me tem posto um não-sei-quê, que nasce não sei onde, chega não sei como e dói não sei porque?”

Era uma vez uma menina muito bonita, morena, cheia de charme, de belos seios, um lindo rosto, cabelos lisos, lábios grossos e vermelhos, dentes perfeitos, uma verdadeira pintura em forma de mulher, com treze anos de idade, chamada Júlia.

Corria os meados do ano de 1955, quando seus pais resolvem mudar para um pequeno patrimônio no norte do Paraná. Naquele pequenino fim de mundo, ela causou muitos comentários junto ao povo que ali residia. Com aquela garota na vila, as meninas ficaram temerosas pelos seus namorados e até as mulheres pelos seus maridos. Julia, criada num centro maior, sabia encantar a todos. Para poder ir aos bailes, a menina tinha que fugir de seus pais. E a cada baile que ia sempre havia uma briga pela disputa daquela bela prenda. E ali era na bala e no facão. A família de Julia morava num sobrado, bem em frente a praça. Da janela do sobrado ela ouvia muitos elogios. Ficava toda cheia quando ouvia:

- Nossa! Ela parece uma boneca!

Apesar de gostar dos assédios, ela não se achava tão bacana assim. Dizia que os homens dali é que não conheciam nada, pela rudeza de seus modos. Pela simplicidade daquele lugar.

Num desses bailes, ela foi tirada para dançar por um caboclo educado, charmoso, cheiroso. Ela sai para a dança, mas quando olha nos pés do cidadão, este estava de botas e calçava esporas.

- O moço vai dançar ou vai amansar cavalo? – disse a moça, em tom de brincadeira.
- Por que a moça pergunta? – disse o vaqueiro.
- De esporas, nem pense! – e largou do rapaz no meio do salão.

Enquanto o homem tirava as esporas, Julia já estava com outro rodopiando pelo salão. Nisso deram um tiro certeiro no lampião que clareava o baile. Na confusão, a pobre moça foi jogada pela janela e correu para a sua casa, perdendo o salto do sapato.

E o moço das esporas começou a freqüentar o bar que os pais de Julia tinham. Seu padrasto estava muito doente e ela ajudava a mãe nos afazeres, juntamente com uma empregada. Certo dia aquele moço aparece no bar e confessa:

- Aquele tiro no lampião foi porque outro homem tirou minha prenda! – disse o moço chamado Jarbas. Comigo não tem disso não!
- O povo desse lugar parece índio! – respondeu Julia.

E assim ficaram amigos. E em outro baile lá estavam juntinhos dançando.

- Como é bonita essa música, Jarbas!
- Eu gosto muito dessa “Saudades do Matão”, tem muito a ver comigo criado no mato. – responde Jarbas.

E no calor daquele idílio, Jarbas aproveita para pedir a Julia para passear com ele em Jacarezinho.

- Não, meu bem, não posso ir. Não conheço ninguém por lá! – reclama a moça.

Jarbas era muito persistente. Não demorou muito para que fizesse a cabeça da pequena Julia. E então, logo fizeram muitas viagens pela região. Tudo que Julia queria, não tinha preço e era comprado na hora para sua satisfação.

Os dias passam, os meses correm e os dois viviam um para o outro. O interessante é que eles saiam juntos, posavam fora, mas não mantinham relações sexuais. Aquilo deixava Jarbas mais apaixonado. Um dia ele prometeu:

- Meu amor, te amo, te adoro, te dava a Lua se pudesse, mas agora chega! Não agüento mais!

Diante dessas palavras, Julia que também desejava esse momento, marcou um encontro para o dia 6 de agosto de 1956. Ela agora, estava com 14 anos e dez meses de idade. Jarbas tinha 33 anos. E aconteceu de tudo, naquela primeira noite do casal, que agora estavam mais apaixonados. Ficaram dormindo juntos e saindo até o dia que a mãe de Júlia descobriu:

- Olha aqui Jarbas, estou sabendo de tudo. Você assume ou vou mandá-lo para a cadeia!

Jarbas não titubeou, chamou sua namorada e foram juntos comprar a mobília da casa. Julia, então começa uma vida de atropelos. Ele era ciumento, possessivo, mas muito amoroso. Ela sempre fiel. Nunca tinha dado motivos. Mas o ciumento sempre encontra seus motivos.

Jarbas tinha um sítio perto daquele patrimônio. Ele acordava às cinco horas da manhã para tirar leite. Júlia ficava na casa dos pais. Eles tinham um código. Quando Jarbas chegava em determinada curva antes do sítio, ele dava um tiro. Ela tinha que no outro dia falar a hora que ouvira o estampido. Quando ele estava bravo dava mais tiros.

Jarbas começou a cuidar dos costumes de Júlia. As amizades eram por ele escolhidas. Decote. Modo de sentar. Tudo tinha que ser de uma primeira dama. Jarbas tinha um revólver 38 niquilado que servia de espelho para Júlia retocar o batom. Ele jamais levantou a mão contra ela. Havia ali um respeito mútuo, necessário a toda relação. E aquele castelo de areia começou a desabar. Algumas brigas botaram um ponto final naquela união. Só o que restou dessa relação foi o filho, que agora Julia tinha que cuidar.

Durante a separação ela pleiteou na Justiça a guarda do filho Leandro e ganhou. Eles tinham toda a assistência médica, farmácia, empório. Eles estavam muito bem de saúde, mas para não deixar fechar a conta da farmácia, tomaram muito Biotônico Fontoura. E para aproveitar o dinheiro do aluguel que Jarbas tinha que dar, foram morar na casa da avó.

Certa vez Jarbas prometeu:

-- Se você arrumar outro homem eu te mato!

Júlia muito corajosa, casou-se com outro só para enfrentar o bicho. Casou-se com um amigo de infância, Pedro. No dia 8 de abril de 1976. Foi só uma fuga. Nunca houve amor entre ambos. Júlia preparou toda a festa de casamento na conta de Jarbas. O bolo era lindo.

A SEGUNDA LUA DE MEL

Quando o baile do casamento terminou, Pedro já se havia recolhido. Júlia vestindo um lindo penhoar sobre uma camisola, entra no quarto e Pedro estava empacotado no meio das cobertas. Nem viu sua beleza.

-- “Se fosse o Jarbas, estaria me carregando no colo, como sempre fazia.” – pensou Júlia.
Pedro estava tremendo, embaraçado e nada aconteceu. Júlia prometeu consertar o bode. Mas não teve concerto.

Júlia agora era vendedora e viajava muito. Era desembaraçada, sorridente, carinhosa. Pedro era o oposto disso tudo.Com o casamento Julia dispensou todo o auxílio de Jarbas. Pedro não aceitava a ajuda do outro. Certa noite aparece Jarbas, todo valente. Batendo na porta com o cabo do revólver. Júlia viu o pobre Pedro amarelar. Correu para a porta da cozinha. Enquanto Jarbas esbravejava na porta da sala. Júlia achou aquilo hilário. Um batendo aqui e o outro correndo qual um canguru pulandinho pelos fundos. E aquela união depois de quatro anos foi por água a baixo. Separaram-se.

Júlia só pensava no Jarbas. Um belo dia ele aparece.

-- Soube que você se separou vim ver o que você precisa! – disse Jarbas. Júlia levou um susto.
-- Tanto posso vir aqui com tirar você daqui! O que resolve? – perguntou o rapaz.
-- Aqui, não! – respondeu a moça.

Então mudaram-se de cidade. Toda sexta feira Jarbas a trazia para a casa da mãe. Andavam por ruas sem movimento, às escondidas.

-- Não matei ninguém. Não roubei. A mulher é minha. O filho é meu. Hoje vou mostrar para este povo que sou bem macho! – disse Jarbas bem alto.

E passeou com Julia de carro por toda a cidade. Ele adorava exibir sua Julia. Era um verdadeiro troféu para ele.

Nasce Ana, Jarbas já estava muito doente. E a doença já o deixava mais ciumento. Julia resolve deixá-lo definitivamente. Mesmo assim ele vinha trazer doces e guloseimas para a nova filhinha. Eles já não mais se viam. Jarbas morreu no dia 9 de janeiro de l985. Julia até hoje não vê ninguém que tenha o jeito tão especial que teve Jarbas, e mesmo tendo outros casos ele a amava verdadeiramente.

Joaquim Távora, 4 de abril de 2009

Fonte:
Academia Poçoense de Letras e Artes “Apolo”
http://www.apoloacademiadeletras.com.br/
Fotomontagem sobre imagem de http://bymk.com.br

Rodrigo Capella (Poesias Escolhidas)


CONFERIDA

Fogo no corredor,
morte,
ardente e cruel,
não sei se vou viver,
pra ver o que é seu.

A vida traz lembranças,
ás vezes cansa,
cabeça, adoeceu?
liberdade plebeu.

Identidade conferida, mudança de ares.
troco sons e mares.
Ignoro a idade,
vida em vão,
sem paternidade,
dor no coração.
==================

CHUVA, CHUVA, FUJA!

Raio de brilho omisso,
terra, de mim desgastada,
entre ofícios e ócios,
vida apagada.

Tempo de ternura e agonia,
vento com chuva carregada,
prefiro momento controlado,
vida, tempo confiscado.

Quadro sem luz,
caminho tortuoso de moral.
Ternura, agonia, fuja,
enquanto é carnaval.
========================

ATITUDE

Rimar faz mal,
coitado do poeta,
que por qualquer razão,
quer ligar, rimar, juntar.

Prefiro versos soltos,
pequenos e grandes,
cheios de gentes,
cantantes, falantes, antes.

Porra! O que eu faço?
versos e rimas,
narro fatos.

Reflito o momento,
comento, assuntos assim,
não vejo essência,
em fazer versos pra mim.
===================

AGORA

Fúnebre momento hilário,
Percorre toques de olhar,
Calafrio, imensidão,
O contrário digo não.

Veias da imaginação,
Suar entre gestos,
Sublime a minha volta,
Corda, a toda hora.

Ventos que sopram calados,
Amaldiçoados, coitados,
Tempo, vago atado,
Correr, sangue intenso.

Eu mesmo perdido,
Tardio é meu vão,
Coração triste e oco,
Nem pensar em perdão.
Caramba, senso não há,
Palavras perdidas,
O que cita ação,
Intensa, revolta, agora.
----------

Machado de Assis (A Idéia do Ezequiel Maia)


A idéia do Ezequiel Maia era achar um mecanismo que lhe permitisse rasgar o véu ou revestimento ilusório que dá o aspecto material às coisas. Ezequiel era idealista. Negava abertamente a existência dos corpos. Corpo era uma ilusão do espírito, necessária aos fins práticos da vida, mas despida da menor parcela de realidade. Em vão os amigos lhe ofereciam finas viandas, mulheres deleitosas, e lhe pediam que negasse, se podia, a realidade de tão excelentes coisas. Ele lastimava, comendo, a ilusão da comida; lastimava-se a si mesmo, quando tinha ante si os braços magníficos de uma senhora.

Tudo concepção do espírito; nada era nada. Esse mesmo nome de Maia não o tomou ele, senão como um símbolo. Primitivamente, chamava-se Nóbrega; mas achou que os hindus celebram uma deusa, mãe das ilusões, a que dão o nome de Maia, e tanto bastou para que trocasse por ele o apelido de família.

A opinião dos amigos e parentes era que este homem tinha o juízo a juros naquele banco invisível, que nunca paga os juros, e, quando pode, guarda o capital. Parece que sim; parece também que ele não tocou de um salto o fundo do abismo, mas escorregando, indo de uma restauração da cabala para outra da astrologia, da astrologia à quiromancia, da quiromancia à charada, da charada ao espiritismo, do espiritismo ao niilismo idealista. Era inteligente e lido; formara-se em matemáticas, e os professores desta ciência diziam que ele a conhecia como gente.

Depois de largo cogitar, achou Ezequiel um meio: abstrair-se pelo nariz. Consistia em fincar os olhos na extremidade do nariz, à maneira do faquir, embotando a sensibilidade ao ponto de perder toda a consciência do mundo exterior. Cairia então o véu ilusório das coisas; entrar-se-ia no mundo exclusivo dos espíritos. Dito e feito. Ezequiel metia-se em casa, sentava-se na poltrona, com as mãos espalmadas nos joelhos, e os olhos na ponta do nariz. Pela afirmação dele, a abstração operava-se em vinte minutos, e poderia fazer-se mais cedo, se ele não tivesse o nariz tão extenso. A inconveniência de um nariz comprido é que o olhar, desde que transpusesse uma certa linha, exercia mais facilmente a miserável função ilusória. Vinte minutos, porém, era o prazo razoável de uma boa abstração. O Ezequiel ficava horas e horas, e às vezes dias e dias, sentado, sem se mexer, sem ver nem ouvir; e a família (um irmão e duas sobrinhas) preferia deixá-lo assim, a acordá-lo; não se cansaria, ao menos, na perpétua agitação do costume.

— Uma vez abstrato, dizia ele aos parentes e familiares, liberto-me da ilusão dos sentidos. A aparência da realidade extingue-se, como se não fosse mais do que um fumo sutil, evaporado pela substância das coisas. Não há então corpos; entesto com os espíritos, penetro-os, revolvo-os, congrego-me, transfundo-me neles. Não sonhaste a noite passada comigo, Micota?

— Sonhei, titio, mentia a sobrinha.

— Não era sonho; era eu mesmo que estava contigo; por sinal que me pedias as festas, e eu prometi-te um chapéu, um bonito chapéu enfeitado de plumas...

— Isso é verdade, acudia a sobrinha.

— Tudo verdade, Micota; mas a verdade única e verdadeira. Não há outra; não pode haver verdade contra verdade, assim como não há sol contra sol.

As experiências do Ezequiel repetiram-se durante seis meses. Nos dois primeiros meses, eram simples viagens universais; percorria o globo e os planetas dentro de poucos minutos, aniquilava os séculos, abrangia tudo, absorvia tudo, difundia-se em tudo. Saciou assim a primeira sede da abstração. No terceiro mês, começou uma série de excursões analíticas. Visitou primeiramente o espírito do padeiro da esquina, de um barbeiro, de um coronel, de um magistrado, vizinhos da mesma rua; passou depois ao resto da paróquia, do distrito e da capital, e recolheu quantidade de observações interessantes. No quarto mês empreendeu um estudo que lhe comeu cinqüenta e seis dias: achar a filiação das idéias, e remontar à primeira idéia do homem. Escreveu sobre este assunto uma extensa memória, em que provou a todas as luzes que a primeira idéia do homem foi o círculo, não sendo o homem simbolicamente outra coisa: — um círculo lógico, se o considerarmos na pura condição espiritual; e se o tomarmos com o invólucro material, um círculo vicioso. E exemplificava. As crianças brincam com arcos, fazem rodas umas com as outras; os legisladores parlamentares sentam-se geralmente em círculo, e as constantes alterações do poder, que tanta gente condena, não são mais do que uma necessidade fisiológica e política de fazer circular os homens. Que são a infância e a decrepitude, senão as duas pontas ligadas deste círculo da vida? Tudo isso lardeado de trechos latinos, gregos e hebraicos, verdadeiro pesadelo, fruto indigesto de uma inteligência pervertida. No sexto mês...

— Ah! meus amigos, o sexto mês é que me trouxe um achado sublime, uma solução ao problema do senso moral. Para os não cansar; restrinjo-me ao exame comparativo que fiz em dois indivíduos da nossa rua, o Neves do nº 25, e o Delgado. Sabem que eles ainda são parentes.

E aí começou o Ezequiel uma narração tão extraordinária, que os amigos não puderam ouvir sem algum interesse. Os dous vizinhos eram da mesma idade, mais ou menos, quarenta e tantos anos, casados, com filhos, sendo que o Neves liquidara o negócio desde algum tempo, e vivia das rendas, ao passo que o Delgado continuara o negócio, e justamente falira três semanas antes.

— Vocês lembram-se ter visto o Delgado entrar aqui em casa um dia muito triste?

Ninguém se lembrava, mas todos disseram que sim.

— Desconfiei do negócio, continuou o Ezequiel, abstraí-me, e fui direito a ele. Achei-lhe a consciência agitada, gemendo, contorcendo-se; perguntei-lhe o que era, se tinha praticado alguma morte, e respondeu-me que não; não praticara morte nem roubo, mas espancara a mulher, metera-lhe as mãos na cara, sem motivo, por um assomo de cólera. Cólera passageira, disse-lhe, e uma vez que façam as pazes... — Estão feitas, acudiu ele; Zeferina perdoou-me tudo, chorando; ah! doutor, é uma santa mulher! — E então? — Mas não posso esquecer que lhe dei, não me perdoo isto; sei que foi na cegueira da raiva, mas não posso perdoar-me, não posso. E a consciência tornou a doer-lhe, como a princípio, inquieta, convulsa. Dá cá aquele livro, Micota.

Micota trouxe-lhe o livro, um livro manuscrito, in folio, capa de couro escuro e lavrado. O Ezequiel abriu-o na página 140, onde o nome do Delgado estava escrito com esta nota: — "Este homem possui o senso moral". Escrevera a nota, logo depois daquele episódio; e todas as experiências futuras não vieram senão confirmar-lhe a primeira observação.

— Sim, ele tem o senso moral, continuou o Ezequiel. Vocês vão ver se me enganei. Dias depois, tendo-me abstraído, fui logo a ele, e achei-o na maior agitação. — Adivinho, disse-lhe; houve outra expansão muscular, outra correção... Não me respondeu nada; a consciência mordia-se toda, presa de um furor extraordinário. Como se apaziguasse de quando em quando, aproveitei os intervalos para teimar com ele. Disse-me então que jurara falso para salvar um amigo, ato de covardia e de impiedade. Para atenuá-lo, lembrava-se dos tormentos da véspera, da luta que sustentara antes de jazer a promessa de ir jurar falso; recordava também a amizade antiga ao interessado, os favores recebidos, uns de recomendação, outros de amparo, alguns de dinheiro; advertia na obrigação de retribuir os benefícios, na ridicularia de uma gratidão teórica, sentimental, e nada mais. Quando ele amontoava essas razões de justificação ou desculpa, é que a consciência parecia tranqüila; mas, de repente, todo o castelo voava a um piparote desta palavra: "Não devias ter jurado falso". E a consciência revolvia-se, frenética, desvairada, até que a própria fadiga lhe trazia algum descanso.

Ezequiel referiu ainda outros casos. Contou que o Delgado, por sugestões de momento, faltara algumas vezes à verdade, e que, a cada mentira, a consciência raivosa dava sopapos em si mesma. Enfim, teve o desastre comercial, e faliu. O sócio, para abrandar a inclemência dos fados, propôs-lhe um arranjo de escrituração. Delgado recusou a pés juntos; era roubar os credores, não devia fazê-lo. Debalde o sócio lhe demonstrava que não era roubar os credores, mas resguardar a família, coisa diferente. Delgado abanou a cabeça. Não e não; preferia ficar pobre, miserável, mas honrado; onde houvesse um recanto de cortiço e um pedaço de carne-seca, podia viver. Demais, tinha braços. Vieram as lágrimas da mulher, que lhe não pediu nada mas trouxe as lágrimas e os filhos. Nem ao menos as crianças vieram chorando; não, senhor; vieram alegres, rindo, pulando muito, sublinhando assim a crueldade da fortuna. E o sócio, ardilosamente ao ouvido: — Ora vamos; veja você se é lícito trair a confiança destes inocentes. Veja se... Delgado afrouxou e cedeu.

— Não, nunca me há de esquecer o que então se passou naquela consciência, continuou o Ezequiel; era um tumulto, um clamor, uma convulsão diabólica, um ranger de dentes, uma coisa única. O Delgado não ficava quieto três minutos; ia de um lado para outro, atônito, fugindo a si mesmo. Não dormiu nada a primeira noite. De manhã saiu para andar à toa; pensou em matar-se; chegou a entrar em uma casa de armas, à Rua dos Ourives, para comprar um revólver, mas advertiu que não tinha dinheiro, e retirou-se. Quis deixar-se esmagar por um carro. Quis enforcar-se com o lenço. Não pensava no código; por mais que o revolvesse, não achava lá a idéia da cadeia. Era o próprio delito que o atormentava. Ouvia vozes misteriosas que lhe davam o nome de falsário, de ladrão; e a consciência dizia-lhe que sim, que ele era um ladrão e um falsário. Às vezes pensava em comprar um bilhete de Espanha, tirar a sorte grande, convocar os credores, confessar tudo, e pagar-lhes integralmente, com juro, um juro alto, muito alto, para puni-lo do crime... Mas a consciência replicava logo que era um sofisma, que os credores seriam pagos, é verdade, mas só os credores. O ato ficava intacto. Queimasse ele os livros e dispersasse as cinzas ao vento, era a mesma coisa; o crime subsistia. Assim passou três noites, três noites cruéis, até que no quarto dia, de manhã, resolveu ir ter com o Neves e revelar-lhe tudo.

— Descanse, titio, disse-lhe uma das sobrinhas, assustada com o fulgor dos olhos do Ezequiel.

Mas o Ezequiel respondeu que não estava cansado, e contaria o resto.
O resto era estupendo. O Neves lia os jornais no terraço, quando o Delgado lhe apareceu. A fisionomia daquele era tão bondosa, a palavra com que o saudou —
"Anda cá, Juca!" vinha tão impregnada da velha familiaridade, que o Delgado esmoreceu. Sentou-se ao pé dele, acanhado, sem força para lhe dizer nem lhe pedir nada, um conselho, ou, quando menos, uma consolação. Em que língua narraria o delito a um homem cuja vida era um modelo, cujo nome era um exemplo? Viveram juntos; sabia que a alma do Neves era como um céu imaculado, que só interrompia o azul para cravejá-lo de estrelas. Estas eram as boas palavras que ele costumava dizer aos amigos. Nenhuma ação que o desdourasse. Não espancara a mulher, não jurara falso, não emendara a escrituração, não mentiu, não enganou ninguém.

— Que tem você? perguntou o Neves.

— Vou contar-lhe uma coisa grave, explodiu o Delgado; peço-lhe desde já que me perdoe.

Contou-lhe tudo. O Neves, que a princípio o ouvira com algum medo, por ele lhe ter pedido perdão, depressa respirou; mas não deixou de reprovar a imprudência do Delgado. Realmente, onde tinha ele a cabeça para brincar assim com a cadeia? Era negócio grave; urgia abafá-lo, e, em todo caso, estar alerta. E recordava-lhe o conceito em que sempre teve o tal sócio. — "Você defendia-o então; e aí tem a bela prenda. Um maluco!" O Delgado, que trazia consigo o remorso, sentiu incutir-se-lhe o terror; e, em vez de um remédio, levou duas doenças.

"Justos céus! exclamou consigo o Ezequiel, dar-se-á que este Neves não tenha o senso moral?"

Não o deixou mais. Esquadrinhou-lhe a vida; talvez alguma ação do passado, alguma coisa... Nada; não achou nada. As reminiscências do Neves eram todas de uma vida regular, metódica, sem catástrofes, mas sem infrações. O Ezequiel estava atônito. Não podia conciliar tanta limpeza de costumes com a absoluta ausência de senso moral. A verdade, porém, é que o contraste existia. Ezequiel ainda advertiu na sutileza do fenômeno e na conveniência de verificá-lo bem. Dispôs-se a uma longa análise. Entrou a acompanhar o Neves a toda a parte, em casa, na rua, no teatro, acordado ou dormindo, de dia ou de noite.

O resultado era sempre o mesmo. A notícia de uma atrocidade deixava-o interiormente impassível; a de uma indignidade também. Se assinava qualquer petição (e nunca recusou nenhuma) contra um ato impuro ou cruel, era por uma razão de conveniência pública, a mesma que o levava a pagar para a Escola Politécnica, embora não soubesse matemáticas. Gostava de ler romances e de ir ao teatro; mas não entendia certos lances e expressões, certos movimentos de indignação, que atribuía a excessos de estilo. Ezequiel não lhe perdia os sonhos, que eram, às vezes, extraordinários. Este, por exemplo: sonhou que herdara as riquezas de um nababo, forjando ele mesmo o testamento e matando o testador. De manhã, ainda na cama, recordou todas as peripécias do sonho, com os olhos no teto, e soltou um suspiro.

Um dia, um fâmulo do Neves, andando na rua, viu cair uma carteira do bolso de um homem, que caminhava adiante dele, apanhou-a e guardou-a. De noite, porém, surgiu-lhe este caso de consciência: — se um caído era o mesmo que um achado. Referiu o negócio ao Neves, que lhe perguntou, antes de tudo, se o homem vira cair a carteira; sabendo que não, levantou os ombros. Mas, conquanto o fâmulo fosse grande amigo dele, o Neves arrependeu-se do gesto, e, no dia seguinte, comendou-lhe a entrega da carteira; eis as circunstâncias do caso. Indo de bond, o condutor esqueceu-se de lhe pedir a passagem; Neves, que sabia o valor do dinheiro, saboreou mentalmente esses duzentos réis caídos; mas advertiu que algum passageiro poderia ter notado a falta, e, ostensivamente, por cima da cabeça de outros, deu a moeda ao condutor. Uma idéia traz outra; Neves lembrou-se que alguém podia ter visto cair a carteira e apanhá-la o fâmulo; foi a este, e compeliu-o a anunciar o achado. "A consideração pública, Bernardo, disse ele, é a carteira que nunca se deve perder."

Ezequiel notou que este adágio popular — ladrão que furta a ladrão tem cem anos de perdão — estava incrustado na consciência do Neves, e parecia até inventado por ele. Foi o único sentimento de horror ao crime, que lhe achou; mas, analisando-o, descobriu que não era senão um sentimento de desforra contra o segundo roubado, o aplauso do logro, uma consolação no prejuízo, um antegosto do castigo que deve receber todo aquele que mete a mão na algibeira dos outros.

Realmente, um tal contraste era de ensandecer ao homem mais ajuizado do universo. O Ezequiel fez essa mesma reflexão aos amigos e parentes; acrescentou que jurara aos seus deuses achar a razão do contraste, ou suicidar-se. Sim, ou morreria, ou daria ao mundo civilizado a explicação de um fenômeno tão estupendo como a contradição da consciência do Neves com as suas ações exteriores... Enquanto ele falava assim, os olhos chamejavam muito. Micota, a um sinal do pai, foi buscar à janela uma das quartinhas d’água, que ali estavam ao fresco, e trouxe-a a Ezequiel. Profundo Ezequiel! tudo entendeu, mas aceitou a água, bebeu dois ou três goles, e sorriu para a sobrinha. E continuou dizendo que sim, senhor, que acharia a razão, que a formularia em um livro de trezentas páginas...

— Trezentas páginas, estão ouvindo? Um livro grosso assim...

E estendia três dedos. Depois descreveu o livro. Trezentas páginas, com estampas, uma fotografia da consciência do Neves e outra das suas ações. Jurava que ia mandar o livro a todas as academias do universo, com esta conclusão em forma de epígrafe: "Há virtualmente um pequeno número de gatunos, que nunca furtaram um par de sapatos". — Coitado! diziam os amigos descendo as escadas. Um homem de tanto talento!

Fontes:
ASSIS, Machado de. Contos esparsos. RJ: Ediouro. Coleção Prestígio.
Imagem = http://conspiraremos.blogspot.com/

Rodrigo Capella (Estante de Livros)

Enigmas e Passaportes
(Capella, Rodrigo)
(Forever Editora - 1997)

Comentário

Ao iniciar a leitura desta obra, temos que levar em conta que o autor é um jovem de 16 anos, extremamente criativo e declaradamente brincalhão. Por ser criativo, armou cenários diferentes, misturou-os sem grandes preocupações, não deixando até de demonstrar um certo nível de erudição.

Como escritor brincalhão, fez peripécias que exigirão de todos muita atenção, para ninguém se perder no caso policial que Rodrigo armou e costurou com cuidado. O resultado disso tudo é um produto final diferenciado, curioso e até, de certa forma, instigante.

Como jovem, vingou-se de nós, adultos, criando uma história densa, bem arquitetada, que, certamente, desafiará nossa astúcia. "Enigmas e Passaportes" fica, pois, em suas mãos. Curiosamente, em se tratando de um livro policial, não há um mordomo para facilitar as coisas. E agora? (Hélio Casatle, editor da obra).

Resumo

Kall, um detetive altamente qualificado, foi contratado para desvendar um caso. E é com ele que o leitor vai conviver, ao longo de mais de uma centena de páginas, nas quais pistas, falsas e verdadeiras, desafiarão a astúcia de cada um.

A presente obra, assinada por um jovem de 16 anos, representa, assim, um convite silencioso que tenderá a levar o leitor ao cerne de um quebra-cabeças singular, que, para complicar, mistura épocas, privilegiando uma louca e divertida confusão. (Hélio Casatle, editor da obra).
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Transroca, o navio proibido
(Capella, Rodrigo)
(Editora Zouk - 2005)

Comentário

Kall, um detetive engraçado e inteligente, viaja em lua-de-mel com sua mulher. Não demora muito para o navio ser palco de um misterioso assassinato e para Kall comandar as investigações. Seja um dos passageiros do Transroca e embarque nessa divertida aventura!

Prefácio

Amanda e Kall, também se amam. Um dia se encontraram e sentiram um pelo outro o sentido do amor que os uniu. O truque que rege esse mundo de coisas – é mais honesto falar em truque que em método – consiste em trocar o olhar histórico sobre o passado por um olhar político. “Abri-vos, túmulos; mortos das pinacotecas, mortos adormecidos atrás de portas secretas, nos palácios, nos castelos e nos mosteiros, eis o porta-chaves feérico, que tendo às mãos um molho com as chaves de todas as épocas, e sabendo manejar as fechaduras maus astuciosas, convida-vos a entrar no mundo de hoje...” é o que esse jovem escritor brasileiro Rodrigo Capella nos faz embarcar, segurando nas mãos uma chave (A chave da imaginação)...

Amanda, uma doce mulher, como tantas. Kall, um homem típico, aparentemente com várias facetas, mas um detetive apenas, trás a tona o ar dos grandes e imortais mestres da investigação de todos os tempos. Kall é um profissional da investigação bem elaborado e preparado para desvendar tudo, ou melhor: todos os crimes.

Poderia ser em Londres, em Paris, Nova York ou simplesmente São Paulo. Mas a história de Amanda e Kall, se passa em Perúsia Pequena e Perúsia Grande e em seguida do jardim da casa do casal para a tão sonhada viagem de lua-de mel rumo a um lugar ambicionado por dezenas de pessoas, Parja, simplesmente Parja!

O autor em sua narrativa, nos embarca, num cruzeiro rumo a Parja, na mesma viagem de lua-de-mel que é só do casal, mas para nós o delírio de embarcar mesmo assim como degustadores de aventuras e emoção, o sentido maior dessa vida tem seu preço.

No auge da viagem, todos os passageiros são surpreendidos por um assassinato numa cabine do navio. O clima de mistério, de intrigas e de suspeitos multifacetados é contagiante até as últimas frases quando então surpreendentemente Kall, revela o criminoso. Porque apunhalar um biólogo, renomado, famoso e que desperta em todos os passageiros fascínio? A resposta tão bem construída pelo autor, revela-nos o mundo de homens que matam por interesses, amor, futilidades, ciúmes e medos. O fato é que a viagem rumo a Parja continua e o segredo da felicidade encontramos na coragem de viver com emoção qualquer coisa que nos faz embarcar numa viagem apenas: pelo mar, pelo ar, pela imaginação…
Ricardo Zimmer (cineasta e roteirista)
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Como mimar seu cão
(Capella, Rodrigo)
(Editora Zouk - 2005)

Comentário

O cão é o único que te dá amor incondicional! Não pede mesada, não exige presentes caros e gosta de distribuir carinho. Não esta na hora de você fazer o mesmo por ele?

Como mimar o seu cão apresenta 50 dicas importantes para transformar seu amigo num grande companheiro.

Prefácio

Foi por causa de uma fotografia da Brida, a adorável "Bichon Bolonhês" que divide a cama comigo e a minha mulher, dormindo sempre em baixo dos meus pés, que o autor do livro sugeriu meu nome para esta orelha.

Minha cumplicidade canina começou logo cedo, dos três aos nove anos de idade, compartilhando uma amizade mais que fraterna com Taro, um velho boxer adorável e babão, dissimuladamente carrancudo. Taro não só me defendia das agressões habituais dos "amiguinhos" mais afoitos e valentes como ainda tomava as minhas dores e culpas pelas travessuras cotidianas. Quando eu não queria comer o bife de fígado ou o creme de espinafre que minha mãe insistia em incluir no meu cardápio semanal, era Taro quem "limpava o prato" às escondidas. Flatulências naturais, advindas da ingestão de batata doce e repolho azedo, também eram assumidas pelo gentil Taro, já que o glutão e obeso boxer era, por seu lado, perito em tal prática. Até as minhas cuecas sujas eram "culpa" de Taro. Que amigo fabuloso este! Quando ele morreu, descobri que eu poderia morrer também e tenho certeza que neste dia o mundo perdeu a inocência...
Carlos Reichenbach
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Poesia não vende
(Capella, Rodrigo)
Caminho das Idéias - 2007

Veja os números de "Poesia não vende", de Rodrigo Capella:

- 136 matérias publicadas nos principais jornais brasileiros, de Norte a Sul;
- 16 matérias publicadas em revistas literárias e de sociedade;
- 13 entrevistas em rádio;
- 11 entrevistas em televisão;
- 59 matérias publicadas em sites e revistas virtuais.
Totalizando, até o momento: 235 matérias e entrevistas
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Rir ou chorar
(Capella, Rodrigo)
Imprensa Oficial - 2007

O livro, que faz parte da prestigiada Coleção Aplauso, revela histórias curiosas e engraçadas sobre o cinema brasileiro e é também uma biografia sobre o premiado cineasta Ricardo Pinto e Silva, que já trabalhou ao lado de Vera Fischer, Paulo Betti, Guilherme de Almeida Prado, Paulo Gorgulho e Carlos Reichenbach, entre outros.

Para o crítico Rubens Ewald Filho, o livro "Rir ou chorar", de Rodrigo Capella, traz histórias, casos e curiosidades dos bastidores que ajudam a torná-lo uma verdadeira aula de cinema.
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Loucuras de um escritor
(Capella, Rodrigo)
Clube de Autores – 2009

“Loucuras de um escritor”, definido por Rodrigo Capella como uma salada de contos, crônicas e poemas, traz ao longo de suas páginas histórias curiosas e engraçadas sobre a viagem do autor a Europa, além de reportagens e contos especiais. Uma leitura despretensiosa para quem quer conhecer a verdadeira alma dos escritores.
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Dicas para escrever, publicar e vender um livro
(Capella, Rodrigo)
Clube de Autores – 2009

Em “Dicas para escrever, publicar e vender um livro”, o escritor, que recebe por dia mais de 30 e-mails com dúvidas de escritores iniciantes, apresenta os bastidores do processo de publicação de livros. “Essa é uma obra sobre as curiosidades do mundo editorial, desvendando passo a passo o que ocorre nesse mundo, muitas vezes obscuro e injusto. Não se limita apenas em dar dicas para as pessoas publicarem; ele oferece também elementos para quem quer saber exatamente onde está se metendo”, diz Capella.
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@ntologia online
(Capella, Rodrigo)
Clube de Autores – 2009

“@ntologia Online” é a primeira antologia da comunidade do Orkut “Dicas para publicar um livro”, criada por Rodrigo Capella. A obra reúne crônicas, poemas e textos de estilos diversos, de escritores das várias Regiões do Brasil, de Norte a Sul. “Criei a comunidade em 2009 e rapidamente ela foi invadida – no bom sentido – por curiosos e escritores. O resultado foi espetacular. Até hoje temos uma média de 10 novos membros por dia. E a comunidade, que nasceu com a ideia de ter um número limitado de membros – apenas 100 – já conta com mais de 600. Diante desses números e da excelente qualidade dos textos postados diariamente na comunidade, eu e os moderadores criamos a “@ntologia online” para publicar os melhores textos dos melhores autores participantes”, explica Capella.
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Assessor de Imprensa – fonte qualificada para uma boa notícia
(Capella, Rodrigo)
Clube de Autores – 2009

O assessor de imprensa ideal deve funcionar como uma extensão da redação, atendendo o jornalista sempre que este precisar. Para tanto, ele precisa conhecer o dia-a-dia dos veículos e saber, por exemplo, qual o melhor dia e horário para enviar uma sugestão de pauta. O assessor deve também passar as informações completas e corretas, pois o jornalista não tem muito tempo para checá-las.

E por fim: não deve enviar jabás aos colegas de redação, não deve insistir na publicação de notícias e não deve recorrer à malandragem, ou seja, mentir para conseguir um espaço no jornal. Essas são as principais conclusões do livro “Assessor de Imprensa – fonte qualificada para uma boa notícia”.
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Mais sobre o autor pode ser encontrado em sua página pessoal http://www.rodrigocapella.com.br/ -----------------
Fonte:
http://www.rodrigocapella.com.br/

Bartolomeu Pinheiro de Lira (Entre a Gaveta e o Coração)



Remexendo as gavetas, me lembrei de certo apartamento onde moramos. Não é uma foto ou documento que me traz à tona nossa passagem por lá. Aparentemente algo tão insignificante e comum que dificilmente despertaria maior atenção, não fosse determinada característica que ela possuía.

Quando vi aquele bichinho pela primeira vez, não dei muita importância. Sempre chegava à noite do trabalho, cansado e faminto. Abria a porta maquinalmente e mal observava os dealhes, como era do meu feitio. Me preocupava apenas com a direção da chave e pronto, entrava e fechava a porta. Mas, com o desgaste da fechadura, comecei a dar uma maior atenção, uma pausa a mais. Foi quando dei de cara com uma aranhazinha. Ela não correu de imediato, quando girei a chave. Ficou me olhando cautelosamente e parecia balançar a cabeça, como uma lagartixa. Era tão minúscula que dificilmente eu poderia descrever sua reação a olho nu. Tratava-se de uma suposição. Segundos depois ela se escondia num buraquinho na madeira da parede. E isto foi tudo.

Nas noites seguintes, sempre que chegava, tomava o cuidado em não assustar a aranhazinha. Ela também tinha que ficar atenta para não ser espremida quando a porta fosse fechada. E formou-se um elo entre nós, um respeito mútuo, uma dedicação, e por que não dizer, uma amizade. Ela parecia sempre atenta aos meus passos, ao meu horário, ao cheiro do meu perfume! Minha esposa não acreditava fielmente nas minhas observações. Ficava sempre desconfiada, descrente, e muitas vezes até enciumada. Sim, porque nem sempre me dirigia a ela. Ficava parado na porta, observando se a aranhazinha iria entrar, se esconder dos predadores. Sempre apareciam insetos e bichinhos oportunistas. Era bom não vacilar.

Os meses foram passando e nossa amizade foi ficando mais firme. O carinho dela comigo foi estendido à minha esposa. A coisa ficou tão séria que tinha flagrado o bichinho se alimentando e, quando minha esposa abriu a porta para me receber, ela parou tudo e pulou em seu pulso, numa autoconfiança de surpreender. Ficamos perplexos. Parecia um pulo de satisfação. A aranhazinha ficava nos observando, olhando para um e virando para o outro. Um animalzinho de estimação. Coisinha fofa.

Certo dia, tivemos que viajar, passar alguns dias fora. Rolou uma preocupação. O que fazer agora? Pensamos em levá-la conosco. Mas onde a deixaríamos? Ela estava acostumada com aquela casinha. O clima para onde íamos era mais frio. Tudo isso pesou em deixá-la onde estava. Mas era o melhor para ela. São apenas alguns dias!

Vou confessar: senti saudades. Verdade! Era como se tivesse deixado para trás um ente querido, um amigo, sei lá! Talvez fosse uma paranóia. Ficava olhando para porta, sem acreditar que ela não estava ali. Ia ao banheiro. Mas era em vão procurar. Nada havia naquela porta.

Resolvemos antecipar nossa volta. Ficamos envergonhados em assumir a saudade daquele bichinho. Se ele precisava de carinho, se algum inseto o pegasse…

Ao chegar, corremos em direção à porta, não à fechadura. Nem chegamos a abrir a porta. Nada. Nem sinal. Esperamos desesperadamente. Resolvemos abrir a porta, fazer barulho. Nada e nada. Olhamos para o alto. Havia uma pequena lagartixa que nos olhava assustada. Imaginei que ela a havia devorado. O bucho cheinho e transparente. Chegamos tarde demais. Ficamos frustrados pela desatenção e tristes pelo falecimento do nosso bichinho de estimação. Tive uma ideia! Afinal, a esperança é a última que morre. Adentrei no nosso quarto e apanhei o frasco de perfume que costumávamos usar. Passei em uma das mãos e esperei pelo resultado. Incrível. Ela colocou a cabecinha do lado de fora do buraquinho, feliz da vida. E como foi gratificante aquele encontro! Ficamos até emocionados. Parecíamos pinto no lixo.

Mas tivemos que deixar o apartamento. Tomamos a decisão de transportar a aranhazinha conosco. Ela teria que se adaptar à nova residência. Cavaríamos um buraquinho só para ela. Não mais na porta, mas na gaveta. Protegida dos predadores e dos homens.

E é ao abrir a gaveta que lembrei do apartamento. Sim, porque é nela que se esconde o bichinho, num buraquinho bem no fundo, pra não ser incomodada. Ela vive bem feliz lá dentro. Faço tudo por ela. Quero que ela viva sempre em paz. Não quero que ela sofra. Ela mora na gaveta, no meu apartamento, no meu coração. Porque desde aquele dia da viagem, ao chegar, não a encontrei jamais.

Fonte:
http://www.bienalpernambuco.com/
Montagem da imagem utilizando imagens de http://nepo.com.br (gavetas) e http://blog.br.inter.net (coração)

William Marques (O Meu Papel no Mundo)



"O Meu Papel no Mundo", uma aventura na Chapada Diamantina, é o segundo livro da série de William Marques, mais conhecido como “O Autor das Chapadas do Brasil”. A obra é protagonizada pelo professor Robson, um cientista antropólogo que não acredita em milagres. Malda, sua esposa, está grávida e corre risco de perder o bebê. Na encruzilhada do destino, surge o Messias que oferece seus poderes de cura e Robson tenta evitá-lo a todo custo. A trama os envolve e os coloca diante de um grande enigma: o de descobrir o verdadeiro papel no mundo de Robson. Só esta revelação salvaria a vida do bebê.

A alquimia literária reúne numa mesma fórmula o calor de uma aventura e a paz de um cenário ecológico nos vales de rocha da chapada. Drama e humor contracenam juntos, levando o leitor a risos e lágrimas. Além de sua emocionante história, trata-se de uma obra capaz de nos fazer refletir sobre o propósito da vida e como nosso ser age de forma inconsciente e determinante para a realização de nosso destino.

Sua narrativa é a forma escrita mais próxima da cena real. É uma obra quase cinematográfica, rica em detalhes que impressionam e transpõem a riqueza das chapadas. A aventura é o ponto alto de sua ficção e sua obra é, acima de tudo, um veículo para a elevação da consciência humana. O autor reúne mensagens que vão desde o individual ao coletivo, fala de ciência e religião e vislumbra o despertar de uma nova consciência. Sua obra questiona a visão limitada do homem, tanto pela ótica da ciência como pelo lado da religião, para uma compreensão mais ampla da realidade.

William Marques, o “autor das chapadas do Brasil”, é o primeiro autor de ficção contemporânea a promover as chapadas como cenário da cultura brasileira. “O Quadrado da Caverna”, uma aventura na Chapada dos Guimarães, lançado em 1998 é o primeiro livro da série.


Extrato do Livro
1. Capítulo

O Messias

O vento soprava levemente seus cabelos. Ele caminhava de um lado para o outro fazendo a multidão segui-lo com os olhos. Ironicamente, pisava no que um dia tentou ser a fundação de uma igreja. Ele pregava o fim da religião, em nome de Deus, com a palavra de um líder e com as vestes de um sacerdote. Suas barbas longas lembravam um profeta, não daqueles que vêem o futuro, mas daqueles que querem reconstruir o passado.

O estranho dividia os homens, causava medo para uns, esperança para outros. Suas mãos prometiam cura para os desesperançados. Sua palavra criava desordem para os religiosos. Bem ali, no coração da Bahia, ele caminhava no solo chapadense, confundindo a tradição.

Parei, deixando minha mochila no chão. Fiquei estupefato com sua ousadia diante de um povo que apenas ouvia e temia contestá-lo. Pegou uma menina, e em público, colocou as mãos na sua fronte. Saiu dali com a promessa de que no dia seguinte ela não teria mais febre. Uns diziam que era a reencarnação de Jesus e, como o próprio Jesus de dois milênios atrás, teria guardado para si uma nova cruz, o repúdio dos sacerdotes.

Estava próximo, e quando me viu encarou-me como se já me conhecesse. Assustei-me quando veio em minha direção:

– Ei, você, forasteiro!
– Fala comigo? – perguntei, meio sem graça.
– Sim. Deve ter acabado de chegar no ônibus que vem de Salvador. Pode chamar-me de Messias – estendeu a mão, cumprimentando-me.
– Muito prazer – cumprimentei-o com um sorriso amarelo, tentando manter-me calmo diante da pequena multidão que o seguia e agora, olhava-me com curiosidade.
– Algo me diz que nossos destinos se cruzam.
– Como pode saber disto? É algum cigano?
– Não. Um cigano teria que ler a sua mão para lhe dizer o que digo, e além do mais, ia cobrar-lhe por isto. Eu não estou cobrando nada.
– Você é algum tipo de profeta?
– Profeta? Não sou do tipo que quer interferir no futuro, nem tampouco quero conquistar a atenção das pessoas com adivinhações.
– Desculpe, não queria insinuar nada...

Naquele momento, fui salvo por um de seus seguidores, que o tomou pelos braços, indo ter com as pessoas que se juntavam. Saí rápido diante das pessoas que me olhavam. A situação era cômica e desajustada. O jovem, com a aparência de louco, abordara-me com certa intimidade. Preferi não dar importância ao fato e fui direto ver Malda, que me aguardava.

A porta da agência estava aberta enquanto um viralata dormia na sombra da marquise. Malda estava atrás de sua mesa, atendendo ao telefone. Viu-me e estampou um sorriso enquanto desligava o telefone. Deixei a mochila cair e ela levantou-se, devagar, protegendo o ventre com as mãos. Veio em minha direção e nos abraçamos. Ainda desajeitado, acariciei-lhe o ventre. Ela tirou o chapéu de minha cabeça, colocou-o sobre a mesa e nos sentamos. Com um lenço, contive o suor que corria pela testa. O calor naquela época do ano era insuportável.

– Como tem passado? Melhorou o enjôo? – perguntei, preocupado.
– Um pouco melhor. As costas doem e agora os pés estão inchando, mas o médico disse que é assim mesmo. Olha, sinta, acho que ele já o conhece.

Malda colocou minha mão sobre o seu ventre, para que eu pudesse sentir os movimentos do bebê. Sorri, emocionado.

– Como se sente com uma criança dentro de você?
– É uma sensação maravilhosa. Pena que vocês, homens, jamais poderão sentir o mesmo. Eu posso senti-lo dentro de mim, como se fosse uma continuação de meu corpo, de minha alma.

Sorri comovido com as palavras simples e profundas de Malda. Naquele instante, uma pequena multidão correu lá fora, interrompendo-nos. Levantei-me para ver o que era e percebi que se tratava do Messias com seus seguidores indo embora da cidade.

– O estranho de barbas que vai lá fora apresentou-se como Messias assim que me viu.Disse que nossos destinos se cruzariam. É algum tipo de maluco?
– Não creio, é apenas uma pessoa radical. Ele olha para uma pessoa e já sabe de muitas coisas.
– Ele não tem nome verdadeiro?
– Não, ele não diz para ninguém.
– Estranho. Pode ser algum cara encrencado com a Justiça.
– Talvez, mas se fosse mesmo, acho que ele evitaria tanta exposição.
– Tem razão. Mas afinal, o que ele quer por aqui?
– Ninguém sabe exatamente. Dizem que ele tem o dom da cura. Então, de vez em quando, aparece na cidade e oferece alguma ajuda aos doentes. As pessoas vêm e dizem que conseguem a cura mesmo.
– Ele não cobra nada?
– Não. Algumas pessoas oferecem ajuda e contribuem por livre e espontânea vontade.
– Talvez esteja tentando conquistar as pessoas para depois conseguir o que quer.
– E o que ele poderia querer? – Sei lá! Foi a pergunta que fiz.

Voltamos aos nossos assuntos, deixando o Messias seguir para o seu retiro. Já se passavam alguns meses que não nos víamos e precisávamos decidir o nosso destino. Fechamos a agência e levei-a para casa, bem ao lado. A gravidez já passava dos seis meses. Malda estivera só por um tempo tentando manter-se no novo negócio em Lençóis. Mas a gravidez inesperada ameaçava impor mudanças em nossas vidas.

Insisti para que Malda vendesse a agência, mas ela não concordava. Dizia que ela era a própria agência e que não poderia se colocar à venda. Havia um impasse entre nós. Eu não queria largar a universidade para viver na Chapada. Achava que Malda poderia ir para o Rio, para que juntos pudéssemos criar nosso filho. Ela havia se predisposto a vender a agência, mas estava sempre voltando atrás e me deixando confuso. Talvez estivesse esperando o bebê nascer e tentar seduzir-me a ficar na Chapada. Era uma causa difícil. Não ia dar para viver bem só com a agência, mas ela insistia que daria, que o turismo a cada ano aumentava. Tinha a idéia de abrir um restaurante. Até me seduzia, mas eu não podia abandonar minha carreira, meus alunos e minhas teses. Tínhamos um entendimento difícil pela frente.

Após o jantar, fomos até a praça porque Malda precisava caminhar um pouco. Fomos até um banco, bem próximo à igreja, e sentamo-nos, com as estrelas cintilando no céu.

– Conseguiu uma boa oferta pela agência?
– Não – Malda respondia, entreolhando-me pelo canto dos olhos.
– Nada? Você colocou algum anúncio?
– Não – respondia novamente, com um olhar maroto.
– Então só você sabe que a agência está à venda?
– Também não. Não sei se está. Ainda não decidi. Não quero pensar nisto agora. Quero dedicar este tempo para o bebê.
– Mas Malda, precisamos mudar a nossa vida...

Malda interrompeu-me colocando o dedo em minha boca e levando minha mão sobre o seu ventre. Senti o bebê movendo-se novamente. Achei que o momento não era adequado para discutir o assunto. Apenas deixamos as estrelas falarem por nós, como se a resposta de nosso destino estivesse no brilho do céu. O vento soprava leve, levando uma fina névoa entre as estrelas. E com a névoa, foram-se a dúvida e os pensamentos.

Fonte:
http://livrosliteratura.blogspot.com/

Jean-Pierre Bayard (História das Lendas) Parte V



4. — Influência da Igreja católica

Todas as religiões empregam os mesmos símbolos, mas os colégios sacerdotais velaram a verdade aos profanos a fim de reservá-la aos seus iniciados; velaram-na de tal forma que a sufocaram e não souberam mais separar as ficções. Contudo as religiões refletem a consciência humana, as relações sociais entre os indivíduos, toda a experiência de nossa vida. A divulgação dos contos é devida, em grande parte, a uma propaganda religiosa. O budismo não foi o seu único agente de difusão, há também o druidismo, o catolicismo e todas as religiões. Os missionários e os exploradores propagavam lendas bíblicas. A religião que nada mais é que esoterismo, pois que pode existir apenas em estado de mistérios, age pelo seu maravilhoso e provoca uma espécie de entorpecimento da alma. Schelling escreve: Introduction à la philosophie de la mythologie (Introdução à filosofia da mitologia): “O conteúdo da religião é puramente espiritual e jorra, desta forma, das profundezas mais intimas da vida humana.”

A Bíblia é uma grande lenda histórica que abrange vários séculos e não alguns anos. Obra de várias gerações concentradas na única vida humana, ela nos ensina o deslocamento dos nômades, a migração do povo de Abraão que se estendeu durante numerosos anos. A influência bíblica, por seu maravilhoso, se revela em todas as artes e também nas procissões, nas festas e na própria vida.

5. — Criação do mito do diabo

O antagonismo entre Deus e Satanás se encontra em todo o decorrer dos temas orientais, persas e cristãos. E Ariman, a grande serpente da noite, adversária de Ormuzd. O princípio do mal vem da mais remota antigüidade. Mas, na religião católica, Deus criou ele mesmo seus anjos caídos, enquanto que Ariman é um poder primordial, antítese da Bondade.

A fim de combater a sensualidade, a curiosidade, os prazeres da carne e do espírito, a Igreja católica, serviu-se do personagem de Satanás e lhe criou uma personalidade mais intensa; dos mistérios da Idade Média ficou-lhe a truanice que lhe deram os primeiros dramas. Assim nasceu a bruxa, serva do mau espírito. Os métodos de feitiçaria mostram essa alucinação coletiva, comparável ao Grande temor; mas esses métodos terminaram de maneira trágica. A Inquisição incumbia-se de conduzir a um ponto cruciante essa extraordinária criação do espírito.

Assim é que Loeffler-Delachaux vê nos contos de fadas um protesto contra essas regras inflexíveis, a fada que reabilita a sacerdotisa ou a feiticeira druida injustamente condenada.

6. — Conclusão

Quer se trate da Escola filológica, naturalista ou histórica, a origem e a interpretação das lendas só tem sentido a partir de uma equação pessoal; cada sistema crê possuir a verdade. Mas a abundância, de assuntos iguais em cada país, a esperança que deles se desprende, a perfeição de suas formas poéticas deixam prever a busca de temas iniciáticos capazes de elevar o indivíduo. A aventura maravilhosa, com sua surpreendente riqueza de alma, nos alegra e nos instrui.
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continua...
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Fonte:
BAYARD, Jean-Pierre. História das Lendas. (Tradução: Jeanne Marillier). Ed. Ridendo Castigat Mores

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Paulo Leminiski (Desencontrários)


Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Imagem = http://conhecimentoetudo.wordpress.com

Lairton Trovão de Andrade (Lágrima de uma Mulher)


Por que essa chuva salgada que
Cai do céu dos teus olhos, Mulher?
Não! Assim não pode ser!
Porque, em ti, tudo é ternura sem par,
Símbolo nobre dos sonhos,
Centro cativante do romance real,
Razão maior do caminhar do homem,
Começo, Meio e Fim da vida humana sobre a Terra...
Este cálice transbordante
É motivo de veneração incontida,
Porque , Mulher, és o santuário da criação,
A deusa visível deste contraditório Planeta!
Portanto,
Diante da tua realidade,
Devemos, todos, refletir!..
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Fontes:
Portal CEN

Machado de Assis (Segunda Vida)



MONSENHOR CALDAS interrompeu a narração do desconhecido:
- Dá licença? é só um instante.

Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:

- João, vai ali à estação de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dous homens, para livrar-me de um sujeito doudo. Anda, vai depressa.

E, voltando à sala:

- Pronto, disse ele; podemos continuar.

- Como ia dizendo a Vossa Reverendíssima, morri no dia vinte de março de 1860, às cinco horas e quarenta e três minutos da manhã. Tinha então sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou pelo espaço, até perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol; penetrou finalmente num espaço em que não havia mais nada, e era clareado tão-somente por uma luz difusa. Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por ali dentro, sem arder, porque as almas são incombustíveis. A sua pegou fogo alguma vez?

- Não, senhor.

- São incombustíveis. Fui subindo, subindo; na distância de quarenta mil léguas, ouvi uma deliciosa música, e logo que cheguei a cinco mil léguas, desceu um enxame de almas, que me levaram num palanquim feito de éter e plumas. Entrei daí a pouco no novo sol, que é o planeta dos virtuosos da terra. Não sou poeta, monsenhor; não ouso descrever-lhe as magnificências daquela estância divina. Poeta que fosse, não poderia, usando a linguagem humana, transmitir-lhe a emoção da grandeza, do deslumbramento, da felicidade, os êxtases, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma cousa indefinível e incompreensível. Só vendo. Lá dentro é que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o motivo das festas extraordinárias que me fizeram, e que duraram dois séculos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal, concluídas as festas, convidaram-me a tornar à terra para cumprir uma vida nova; era o privilégio de cada alma que completava um milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas não havia recusar. Era uma lei eterna. A única liberdade que me deram foi a escolha do veículo; podia nascer príncipe ou condutor de ônibus. Que fazer? Que faria Vossa Reverendíssima no meu lugar?

- Não posso saber; depende...

- Tem razão; depende das circunstâncias. Mas imagine que as minhas eram tais que não me davam gosto a tornar cá. Fui vítima da inexperiência, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razão. Então lembrou-me que sempre ouvira dizer a meu pai e outras pessoas mais velhas, quando viam algum rapaz: - "Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!" Lembrou-me isto, e declarei que me era indiferente nascer mendigo ou potentado, com a condição de nascer experiente. Não imagina o riso universal com que me ouviram. Jó, que ali preside a província dos pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e venci. Daí a pouco escorreguei no espaço: gastei nove meses a atravessá-lo até cair nos braços de uma ama de leite, e chamei-me José Maria. Vossa Reverendíssima é Romualdo, não?

- Sim, senhor; Romualdo de Sousa Caldas.

- Será parente do padre Sousa Caldas?

- Não, senhor.

- Bom poeta o padre Caldas. Poesia é um dom; eu nunca pude compor uma décima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me sucedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverendíssima. Entretanto, se me permitisse ir fumando...

Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala que José Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos anos, pálido, com um olhar ora mole e apagado, ora inquieto e centelhante. Apareceu ali, tinha o padre acabado de almoçar, e pediu-lhe uma entrevista para negócio grave e urgente. Monsenhor fê-lo entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lunático. Perdoava-lhe a incoerência das idéias ou o assombroso das invenções; pode ser até que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato clérigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agressão de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxilio policial, Monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, política útil com os loucos, as mulheres e os potentados.
José Maria acendeu finalmente o cigarro, e continuou:

- Renasci em cinco de janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova meninice, porque aí a experiência teve só uma forma instintiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia para não apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo de cair, e daí me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar, trepar nas árvores, saltar paredões, trocar murros, cousas tão úteis, nada disso fiz, por medo de contusão e sangue. Para falar com franqueza, tive uma infância aborrecida, e a escola não o foi menos. Chamavam-me tolo e moleirão. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo não escorreguei, mas também não corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabeças quebradas de outro tempo com o tédio de hoje, antes as cabeças quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no período dos amores... Não se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverendíssima sabe o que é uma ceia de rapazes e mulheres?

- Como quer que saiba?...

- Tinha dezenove anos, continuou José Maria, e não imagina o espanto dos meus amigos, quando me declarei pronto a ir a uma tal ceia... Ninguém esperava tal cousa de um rapaz tão cauteloso, que fugia de tudo, dos sonos atrasados, dos sonos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia, por assim dizer, às apalpadelas. Fui à ceia; era no Jardim Botânico, obra esplêndida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um apetite de vinte anos. Há de crer que não comi nada? A lembrança de três indigestões apanhadas quarenta anos antes, na primeira vida, fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veio sentar-se à minha direita, para curar-me; outra levantou-se também, e veio para a minha esquerda, com o mesmo fim. Você cura de um lado, eu curo do outro, disseram elas. Eram lépidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retraí-me. Elas fizeram tudo, tudo; mas em vão. Vim de lá de manhã, apaixonado por ambas, sem nenhuma delas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu José Maria pondo as mãos nos joelhos, e arqueando os braços para fora.

- Com efeito...

- Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendíssima adivinhará o resto. A minha segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreada por uma experiência virtual e tradicional. Vivo como Eurico, atado ao próprio cadáver... Não, a comparação não é boa. Como lhe parece que vivo?

- Sou pouco imaginoso. Suponho que vive assim como um pássaro, batendo as asas e amarrado pelos pés...

- Justamente. Pouco imaginoso? Achou a fórmula; é isso mesmo. Um pássaro, um grande pássaro, batendo as asas, assim...

José Maria ergueu-se, agitando os braços, à maneira de asas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no chão; mas ele não deu por ela. Continuou a agitar os braços, em pé, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um pássaro, um grande pássaro... De cada vez que batia os braços nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cadência de movimentos, e conservava os pés unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor aprovava de cabeça; ao mesmo tempo afiava as orelhas para ver se ouvia passos na escada. Tudo silêncio. Só lhe chegavam os rumores de fora: - carros e carroças que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhança. José Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes termos:

- Um pássaro, um grande pássaro. Para ver quanto é feliz a comparação, basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciência, uma paixão, uma mulher, uma viúva, D. Clemência. Tem vinte e seis anos, uns olhos que não acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas pinceladas de buço, que lhe completam a fisionomia. É filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe tão bem que eu às vezes digo-lhe rindo que ela não enviuvou senão para andar de luto. Caçoadas! Conhecemo-nos há um ano, em casa de um fazendeiro de Cantagalo. Saímos namorados um do outro. Já sei o que me vai perguntar: por que é que não nos casamos, sendo ambos livres...

- Sim, senhor.

- Mas, homem de Deus! é essa justamente a matéria da minha aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e não nos casamos: tal é a situação tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendíssima, e que a sua teologia ou o que quer que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Corte namorados. Clemência morava com o velho pai, e um irmão empregado no comércio; relacionei-me com ambos, e comecei a freqüentar a casa, em Mata-cavalos. Olhos, apertos de mão, palavras soltas, outras ligadas, uma frase, duas frases, e estávamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo... Perdoe estas cousas, monsenhor; faça de conta que me está ouvindo de confissão. Nem eu lhe digo isto senão para acrescentar que saí dali tonto, desvairado, com a imagem de Clemência na cabeça e o sabor do beijo na boca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida única; determinei pedir-lhe a mão no fim da semana, e casar daí a um mês. Cheguei às derradeiras minúcias, cheguei a redigir e ornar de cabeça as cartas de participação. Entrei em casa depois de
meia-noite, e toda essa fantasmagoria voou, como as mutações à vista nas antigas peças de teatro. Veja se adivinha como.

- Não alcanço...

- Considerei, no momento de despir o colete, que o amor podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalçar as botas, lembrou-me cousa pior: - podia ficar o fastio. Concluí a toilette de dormir, acendi um cigarro, e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a convivência, podia salvar tudo; mas, logo depois, adverti que as duas índoles podiam ser incompatíveis; e que fazer com duas índoles incompatíveis e inseparáveis? Mas, enfim, dei de barato tudo isso, porque a paixão era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda criancinha... Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Também podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, penúria, doenças; podia vir alguma dessas afeições espúrias que perturbam a paz doméstica... Considerei tudo e concluí que o melhor era não casar. O que não lhe posso contar é o meu desespero; faltam-me expressões para lhe pintar o que padeci nessa noite... Deixa-me fumar outro cigarro?

Não esperou resposta, fez o cigarro, e acendeu-o. Monsenhor não podia deixar de admirar-lhe a bela cabeça, no meio do desalinho próprio do estado; ao mesmo tempo notou que ele falava em termos polidos, e, que apesar dos rompantes mórbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse homem? José Maria continuou a história, dizendo que deixou de ir à casa de Clemência, durante seis dias, mas não resistiu às cartas e às lágrimas. No fim de uma semana correu para lá, e confessou-lhe tudo, tudo. Ela ouviu-o com muito interesse, e quis saber o que era preciso para acabar com tantas cismas, que prova de amor queria que ela lhe desse. - A resposta de José Maria foi uma pergunta.

- Está disposta a fazer-me um grande sacrifício? disse-lhe eu. Clemência jurou que sim. "Pois bem, rompa com tudo, família e sociedade; venha morar comigo; casamo-nos depois desse noviciado." Compreendo que Vossa Reverendíssima arregale os olhos. Os dela encheram-se de lágrimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.

- Não, senhor...

- Como não? Sou um monstro. Clemência veio para minha casa, e não imagina as festas com que a recebi. "Deixo tudo, disse-me ela; você é para mim o universo." Eu beijei-lhe os pés, beijei-lhe os tacões dos sapatos. Não imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma carta tarjada de preto; era a notícia da morte de um tio meu, em Santa Ana do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. "Entendo, disse a Clemência, você sacrificou tudo, porque tinha notícia da herança." Desta vez, Clemência não chorou, pegou em si e saiu. Fui atrás dela, envergonhado, pedi-lhe perdão; ela resistiu. Um dia, dous dias, três dias, foi tudo vão; Clemência não cedia nada, não falava sequer. Então declarei-lhe que me mataria; comprei um revólver, fui ter com ela, e apresentei-lho: é este.

Monsenhor Caldas empalideceu. José Maria mostrou-lhe o revólver, durante alguns segundos, tornou a metê-lo na algibeira, e continuou:

- Cheguei a dar um tiro. Ela, assustada, desarmou-me e perdoou-me. Ajustamos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impus uma condição: doar os vinte mil contos à Biblioteca Nacional. Clemência atirou-se-me aos braços, e aprovou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. Há de ter lido nos jornais... Três semanas depois casamo-nos. Vossa Reverendíssima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora é que chegamos ao trágico. O que posso fazer é abreviar umas particularidades e suprimir outras; restrinjo-me a Clemência. Não lhe falo de outras emoções truncadas, que são todas as minhas, abortos de prazer, planos que se esgarçam no ar, nem das ilusões de saia rota, nem do tal pássaro... plás... plás... plás...

E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando os braços, e dando ao corpo uma cadência. Monsenhor Caldas começou a suar frio. No fim de alguns segundos, José Maria parou, sentou-se, e reatou a narração, agora mais difusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianças. Não podia comer um figo às dentadas, como outrora; o receio do bicho diminuía-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preocupações, desejos, ódios, tristezas, outras cousas, iam dissimuladas por umas três quartas partes delas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um jantar que não ficasse triste logo depois da sopa, pela idéia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de serviço podia sugerir o epigrama digestivo, na rua, debaixo de um lampião. A experiência dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que, realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao contrário, perdera até, porque fora levado ao sangue... Ia contar-lhe o caso do sangue. Na véspera, deitara-se cedo, e sonhou... Com quem pensava o padre que ele sonhou?

- Não atino...

- Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus fala dos lírios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-mos. "Toma, disse-me ele; são os lírios da Escritura; segundo ouviste, nem Salomão em toda a pompa, pode ombrear com eles. Salomão é a sapiência. Sabes o que são estes lírios, José? São os teus vinte anos." Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo pegou deles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse também. Não lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sair de dentro um réptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flores. Então, o Diabo, escancarando uma formidável gargalhada: "José Maria, são os teus vinte anos." Era uma gargalhada assim: - cá, cá, cá, cá, cá...

José Maria ria à solta, ria de um modo estridente e diabólico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, tão depressa abriu os olhos, como viu a mulher diante dele, aflita e desgrenhada. Os olhos de Clemência eram doces, mas ele disse-lhe que os olhos doces também fazem mal. Ela arrojou-se-lhe aos pés... Neste ponto a fisionomia de José Maria estava tão transtornada que o padre, também de pé, começou a recuar, trêmulo e pálido. "Não, miserável! não! tu não me fugirás!" bradava José Maria investindo para ele. Tinha os olhos esbugalhados, as têmporas latejantes; o padre ia recuando... recuando... Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de pés.

Fonte:
ASSIS, Machado de. Histórias sem data. 1.ed. SP: Cia. Editora Nacional, 2005.

Leandro Rodrigues (Escrever ou não escrever, eis a questão!)


Conversando com uma prezada professora de Letras, a colunista deste site (http://www.escritoresdosul.com.br/) Tânia Ramos, soube de algo que já imaginava: A maioria dos estudantes de Letras têm medo de escrever, deixam de escrever, resolvem apenas lecionar, pesquisar, fazer qualquer coisa menos literatura. Isso acontece, entre outras, pelas cobranças que se fazem em relação à língua, à gramática, às concordâncias a serem utilizadas, à escolha das melhores palavras, enfim, diversos fatores linguísticos que bloqueiam o processo criativo e o seu fluxo.

Lógico que muitos escrevem bem, formam-se, fazem mestrado, doutorado, pós-doutorado, o diabo a quatro e publicam boas obras – o próprio entrevistado do site deste mês, Renato Tapado, é um exemplo. Mas, leiam novamente o que eu escrevi no primeiro parágrafo, e que agora ratifico aqui em letras maiúsculas: A MAIORIA deixa de escrever. E, se a maioria deixa de escrever, é sinal que uma graduação em letras não é o melhor caminho para quem deseja escrever seus sonhados best-sellers, é bom dizer. Nem sei, na verdade, se existe "melhor caminho" para se escrever algum best-seller, mas o que quero dizer é que aqueles que imaginam que a faculdade de Letras fará com que virem exímios Saramagos, Kafkas, Clarices, Éricos, tirem o "cavalinho da chuva". Não é por aí.

Se eu, que não faço Letras, fico me perguntando todos os dias a frase-título desta crônica ("escrever ou não escrever, eis a questão!") imaginem os que se graduam! Tantos exames fazem, tantas livros clássicos maravilhosos (ou trechos) lêem, tantas regras encaram, tantas exigências e cuidados para não maltratarem a língua possuem que abdicam até mesmo de tentar fazer uma boa literatura. “É melhor não tentar a fazer uma porcaria”, pensam, com certeza. De porcarias o mundo já está cheio mesmo, basta visitar a seção de mais vendidos das livrarias, por exemplo, ou criar um site de literatura como este e ver isso ainda mais de perto...

Todos os dias novas porcarias são publicadas. Graças a Deus, criariam a Internet e, desta forma, muitos pseudo-escritores puderam criar seus blogs e escreverem bobagens por lá ou nos fóruns das comunidades de relacionamentos, por exemplo. Se não fosse a Internet, teríamos mais destruições de milhares de árvores por aí para fabricação de papel para produção de mais lixo literário, o que é um atentado contra a natureza, que deveria ser punido como qualquer outro crime. Destruição da natureza para a produção de lixo literário é um absurdo que eu abomino! Viva a Internet!

Aliás, sou a favor de algo tipo "exame de OAB" para alguém poder ser declarar escritor (uma “OEB” – Ordem dos Escritores do Brasil), pois mesmo que estes exames não necessariamente formem bons advogados, pelo menos ninguém pode sair se declarando advogado por aí porque cursou um ou dois anos de Direito ou mesmo terminou a faculdade. É necessário mais que isso para ser considerado um advogado, bem como deveria ser necessário mais que um ou dois livros de poesias para alguém ser chamado de escritor. E falo não somente em relação à quantidade, pois há autores de um livro só muito bons, logicamente, mas sim em relação à qualidade, visto que da mesma forma há quem escreva quinze, vinte livros ruins e, portanto, não deveria ser chamado de escritor.

Na Bienal do Livro de Curitiba até livro do Alexandre Frota eu encontrei. Acho que ele ainda não se disse “escritor”, mas muitos que escrevem como ele se dizem. Sem contar os autores sem-noção e sem-talento que ficam enviando e-mails coletivos quase todos os dias (ou semanas) divulgando um monte de coisas desinteressantes que estão fazendo à espera de alguma atenção, elogio ou notoriedade.

Quero ressaltar então que se a faculdade de Letras é ruim pelo bloqueio criativo que ela pode trazer, o bom é que pelo menos ela dá para muitos esta noção de que é melhor não escrever para que depois não fiquem se ridicularizando por aí que nem estes autores que estou comentando, os divulgadores inconscientes de ruindades próprias. Pois acredito que é melhor não se dizer um “jogador de futebol” a ser um futebolista medíocre, que fica no banco de reservas ou nem no banco de reservas de um timeco da quarta divisão tem lugar.

Claro que muitos escrevem só pelo prazer de escrever, publicam só pelo prazer de publicar, bem como muitos jogam futebol nos campinhos de várzeas nos fins de semana com os amigos apenas porque gostam do esporte - fazendo uma pequena comparação, já que trouxe a questão do futebol. Só que não é por causa disse que podem se dizer “escritores”. Penso que o ideal seria dizer: “Eu escrevo”; “Eu gosto de escrever”, “Eu aprecio brincar de literatura”, mas não se identificar como “Escritor”.

“Eu sou escritor”, como alguns adoram dizer por ego ou sei lá o quê, é ofensivo, virulento e machuca a verdadeira e boa literatura.

Não tenho preconceito contra quem sabe que não é escritor, contra quem escreve por brincadeira, por prazer, por contentamento interno ou por julgar que só é feliz mesmo quem planta uma árvore, faz um filho e publica um livro. Tenho preconceito apenas contra quem escreve mal e afirma ao mundo que é escritor, mas mesmo assim seus nomes (muitos nomes) estão até mesmo neste site que edito porque não gosto de discriminações. Se dizem que são escritores e não há exames de “OEB” para dizer o contrário, quem sou eu para contestar? Por que tiraria um doce da boca de uma criança?

Meu maior preconceito, no entanto, é contra quem escreve bem mas decide não escrever devido às regras, bloqueios e exigências que passou a ter na faculdade, sobretudo na faculdade de Letras. Estes, sim, são até piores que os que escrevem mal e gritam ao mundo que são escritores, porque, como diria Kant, "não usar um talento que se tenha é uma das piores coisas que alguém pode fazer contra si mesmo." – é bonito citar Kant, mesmo que uma das poucas coisas claras realmente nele, algo quase inconfessável, é verdade, para a maioria dos estudantes de filosofia).

Mas, voltando à literatura, para terminar, escreva independente de alguma graduação se você de fato tem talento (mas não faça esta pergunta à sua mãe e a seus amigos, é lógico). E faça urgentemente uma faculdade de Letras se você não tem talento porque, desta forma, você se desencatará e não escreverá - ou pelo menos publicará lixos com algum requinte, disfarçados de "formosos" - o que é até aceitável, pois a beleza é sempre admirável, ainda que de palavras, frases soltas ou unicamente da capa...

(*Leandro Rodrigues (lerodriguesoriginal@hotmail.com) é editor do site Escritores do Sul, co-editor da revista Ciências da Saúde, estudante de filosofia da UFSC e autor de alguns textos que, talvez, um dia, virem livros...sabe-se lá...)

Fonte:
http://www.escritoresdosul.com.br/

Angelo Batista (Quem me dera)



Ter conhecimento das estrelas
e ao vê-las chamá-las de você
intimamente, sem deixar de dar um oi
ao sol estrela menor.

Andar pelo firmamento alhures
como se chutasse latas
em uma viela de minha cidade

Como se as enormes galáxias
fossem como um oceano, uma montanha
e suas entranhas sem novidade.

Conhecedor do universo, do mundo
seria eu senhor da vida
e aí sonhar com o que
seria um Deus, sonhar pra que?

(Extraído do seu livro "Poetas da Feira e da Pátria Brasileira - 1994)
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Angelo Batista



Nascido na cidade de Mandaguari, no interior do Paraná, criado na lavoura, enfrentando todas as dificuldades da vida pobre na companhia dos 11 irmãos, mas com toda a garra herdada de seus pais Francisco e Laura.

Angelo encontrou sempre na família o escopo da sua formação humana. Lição aprendida dos pais, Angelo fortalece a sua família, juntamente com a sua esposa Sônia, dando o melhor exemplo de virtude para seus 4 filhos: Ana Paula, Marcos Elvécio, Angelo Júnior e Guilherme Luís. Tem larga experiência como homem público pela dedicação dos seus quase 40 anos trabalhando no ramo farmacêutico.

Angelo trabalhou com afinco na defesa dos interesses da classe, conjuntamente aos demais membros do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos do Estado do Paraná - SINDIFARMA.

Além da efetiva atuação como membro sindical, Angelo sempre se destacou pela força de sua ação comunitária nos bairros de Curitiba, especialmente no bairro Uberaba. Prestando auxílio como conselheiro comunitário nas igrejas, ministrando palestras, colaborando com escolas e outras entidades onde a cidadania é exercida, Angelo sempre personificou a honestidade e perseverança do cidadão.

Grande conhecedor da história brasileira e mundial é compositor, poeta e escritor com 4 livros publicados - além de outros ainda inéditos. Angelo, além de participar da União Brasileira de Trovadores- UBT/Curitiba, do Centro de Letras do Paraná, da Academia Paranaense da Poesia (Cadeira 37) e da Academia de Cultura de Curitiba, fez parte da Comissão Municipal de Incentivo a Cultura da Cidade de Curitiba, contribuindo assim para arte e expressão cultural genuínas de nossa cidade.

Foi Juiz vogal da 18ª Vara do Trabalho de Curitiba. Por insistentes pedidos de amigos, familiares e da população, Angelo candidatou-se ao cargo de Vereador na eleição municipal de Curitiba no ano de 2000, sagrando-se mandatário da confiança popular, sendo então eleito pela primeira vez Vereador de Curitiba.

Foi reeleito para mais um mandato consolidando sua posição de defesa dos interesses da população curitibana. Na Câmara Municipal de Curitiba, além das suas atribuições como vereador presidiu a Comissão Permanente de Educação, Cultura, Bem Estar Social e Ecologia nos anos de 2001 e 2002.

Atualmente é membro da Comissão de Legislação, Justiça e Redação, da Comissão de Educação e Cultura e da Comissão do Eixo-Metropolitano, da CPI das Invasões, do Comupa e da Comissão de Revisão da Lei Orgânica de Curitiba, além de participações anteriores na Comissão de Economia, Finanças e Fiscalização, da CPI da Telefonia, da CPI das Águas, da CPI das Funerárias e da CPI dos Combustíveis.

Eis a relação de Obras já publicadas pelo:

No Universo das Rimas - Poemas, Versos, Temas
Poetas da Feira e da Pátria Brasileira
Remediando Com Pílulas de Poesia
Contos do Balcão
Livreto Comemorativo - Bodas de Ouro de Francisco e Laura, Uma História de Amor

Fonte:
http://www.angelobatista.com.br/

Reinoldo Atem (Aquarelas Marinhas)


Prefácio

Após umas férias de um mês, há uns dez anos atrás, encantei-me pelo lugar e, a partir de então, tenho ido todos os anos com a família.
As paisagens marinhas e praias desertas, tendo ao fundo os recortes azuis da Serra do Mar, o trabalho dos pescadores, as dificuldades da pesca, as salgas do camarão, o temperamento afável do povo local, tudo isso nos faz querer retornar sempre.

As conversas de balcão de bar entre os pescadores, o perigo das águas-vivas numerosas, que vêm dar à praia e queimam nossa pele, podendo causar febre e vômito.
A graça dos sirizinhos garoçás, correndo enfiar-se em seus buraquinhos, a qualquer aproximação, erguendo as garrinhas brancas para defender-se.

As gaivotas numerosas voando em bandos nas alturas ou rasante sobre a água para agarrar algum peixinho. Os golfinhos que acompanham a movimentação dos barcos.
A maresia cheirosa e acolhedora, o vai-e-vem das marés.
Todos esses aspectos, em seu conjunto, formam um ambiente admirável, para quem vive nas cidades grandes.

Os animais endêmicos: o mico-leão-da-cara-preta e o papagaio chauá, o jacaré do papo-amarelo.
As moças caiçaras, bonitas e tímidas, habitando lugarejos variados, ao pé da serra, à beira d'água, escondidos nos recantos da Baía de Paranaguá, tão cheia de ilhas habitadas por gente do mar.

A Ilha de Superagüi, que antes era uma península, foi comprada toda, por volta de 1850, pelo cônsul geral da Suíça, em São Paulo, para planos de colonização da Ilha. Juntos vieram italianos, franceses, alemães.
Anteriormente, foi por lá que começou o povoamento do Paraná, pois, para quem vinha ao sul pelo mar, era o primeiro pedaço de terra paranaense encontrado.

Hoje é uma vila de pescadores artesanais, que sofrem concorrência das traineiras profissionais de fora, que lhes tiram o pescado, sem qualquer preocupação dos poderes públicos com a saúde e a sobrevivência daquela população afável e carente.

Reinoldo Atem

Radicou-se no Paraná aos quatro anos de idade, já tendo virado curitibano. Começou a interessar-se por literatura bem cedo, antes dos quinze anos de idade, lendo e escrevendo, principalmente poesia. Em Londrina, onde morava na época.

De volta a Curitiba, por volta dos vinte e cinco anos de idade começou a publicar por conta própria poesias e contos. Tem um livro de contos intitulado "Eterna Primavera". E vários de poesia: "Urbe Urge", "O Sopro de Tudo", "O Aprendizado da Vida", "Sob o Céu do País. Tendo também participado de várias coletâneas de prosa e poesia. Tem uma novela sobre a época da ditadura militar, intitulada "1971", uma metáfora sobre a repressão.

Naquela época, ainda, fundou em Curitiba, com alguns amigos escritores, a Editora Cooperativa de Escritores, que teve participantes de vários estados, em âmbito nacional. Mais tarde, fundou também em Curitiba, com outros amigos, de várias áreas das artes, o Movimento ZéBlue, que publicou revistas culturais abrangentes, expondo o trabalho de músicos, fotógrafos, escritores.

Editou por conta a revista cultural Outras Palavras, antes que Caetano Veloso lançasse o disco de mesmo nome. Foi elogiado, na Gazeta do Povo, em artigos de Miguel Sanches Neto e Wilson Martins, pelo seu trabalho de poesia.

Agora, volta à prosa com o livro Aquarelas Marinhas, retratando uma parte distante e desconhecida do Paraná, contando sua história e a vida dos pescadores artesanais.

FONTE:
http://reinoldoatem.com.br/

Miguel Sanches Neto (Notícias do lugar comum, de Mirian Paglia Costa)


O padrão poético que tem imperado no Paraná é o da brevidade que encontrou no haicai abrasileirado a sua melhor tradução. Mas não chegamos ao haicai através do imigrante japonês, o que teria dado um sentido mais profundo a esta prática, e sim através da influência da literatura de grandes centros. Hoje, com certeza, somos o estado brasileiro com a maior tradição no gênero. Mas o fato é que esta tradição tornou muito rarefeito o trabalho poético.

Outro elemento forte em nossa poesia é o desejo de modernidade. Vivendo na periferia, com um projeto de vida urbana muito definido, o paranaense, e o curitibano em especial, optou por se aproximar, pelo menos na literatura, da modernidade da qual ele se sentia apartado. Nossos poetas produzem poemas como uma fábrica produz brinquedos, valorizando as novidades. Em função disso, o binômio da poesia local é modernidade e brevidade. Paulo Leminski não só exportou esta nossa imagem, como a consagrou entre as gerações mais jovens. Hoje é inegável a presença de Leminski na poesia contemporânea nacional, mas parece ter chegado a hora de restabelecer o equilíbrio, pelo menos em termos estaduais, dos caminhos da poesia. É que a estatura de Leminski fez com que bons poetas, que tinham uma voz própria, ficassem na sombra. É hora de recuperá-los, não para desbancar Leminski, mas por uma questão de justiça.

A nossa boa poesia não está entre os continuadores de Leminski. Estes, achando que escrever como o autor de Caprichos e relaxos é homenageá-lo, levaram à exaustão um certo modo de fazer poesia. É nos antípodas da brevidade e do desejo de modernidade que se encontra uma possibilidade de dar outra identidade à nossa produção.

Significativamente, uma poeta de Londrina, pertencente à geração de Leminski, rompeu com a ditadura do poema ligeiro e essencialmente poético. Mirian Paglia Costa (Notícias do lugar comum, Editora 34, 1997) tem resgatado os tópicos poéticos da vida interiorana, em poemas que se confundem com crônicas. É uma poeta para quem as experiências no tempo e no espaço falam mais alto do que qualquer modismo poético. O seu livro, do começo ao fim, transpira honestidade. A capa é a reprodução de uma venda de interior, que, com suas rústicas mercadorias, já anuncia o conteúdo poético inatual e, por isso mesmo, extremamente oportuno.

Mas Mirian não é uma interiorana e nem o seu livro é regional. Morando há décadas em São Paulo, ela trabalha com os dramas desta passagem de uma sociedade agrária para o mundo industrial. O primeiro poema do livro chama-se "São Paulo, KM 0" e o último "Londrina de longe", o que mostra não só a dupla face de sua experiência, mas a natureza regressiva de sua poesia, ou seja, o seu poder de evocação do lugar da memória. É na metrópole que ela recupera a província - Londrina entra como elemento definidor da
"poesia corriqueira" que a caracteriza. Mais ainda, a perda da cidade da infância é a razão última de sua condição de poeta. Ela só escreve porque se sente órfã de um tempo, restando-lhe a sina de guardar o que se perdeu:

quero o olho inaugural
a coleção de espantos
o rememorar das coisas
o primeiro som do mundo
seu cheiro ainda não classificado
quero rio turvo e terra roxa
quebradas de londrina, paraná
quero parentes, amigos, desafetos
amor sem fim, ódio mitigado
zero de conduta, comportamento ilibado
quero porque quero arquivar tudo (p.116)

Em outro poema, "Esquina do bosque", ela retoma a relação entre poesia e memória: "de tudo o que foi sobraram fios / mantendo em pé os postes do progresso / arrimo de pardais ocasionais / nem charrete nem cavalo / sobramos nós / nós e os pardais / para que tenha alguma serventia / a memória, os postes e o progresso"(p.132). Assim, o progresso que destrói tudo, só encontra serventia por permitir o exercício da lembrança enquanto poesia. Para Mirian Paglia Costa não existem palavras líricas nem ansiedade de influência, a poesia está nela, em seu código de recordações. Se o poema curto é uma forma de contemporizar com a vida agitada das grandes cidades (lembremos que a poesia atual se rendeu aos slogans publicitários), a poeta de Londrina quer contrariar a cidade moderna recuperando o seu quinhão natal e escrevendo um verso longo, prosaico, sem musicalidade, verso que é primo-irmão da crônica, gênero privilegiado da reminiscência.

Sua trajetória guarda algumas peculiaridades. Enquanto os poetas presos à província (Leminski, que foi o maior deles, costumava dizer que não se pode transplantar um pinheiro) escrevem uma poesia que aspira à modernidade e ao progresso, Mirian Paglia, residindo numa metrópole industrial, valorizou justamente o contrário: a sabedoria interiorana, seu ritmo lento de vida, sua população simples, etc. Deslocando-se para São Paulo, ela pôde escrever versos marcados pela nostalgia da cidade pequena, o que dá autenticidade ao seu trabalho, que se localiza na contramão da lírica contemporânea, principalmente em nosso estado. A grande maioria de nossos poetas, ficando longe do progresso, ou seja, vendo-o apenas como turistas, acabou sentindo necessidade de uma poesia up-to-date, que a livrasse do complexo de inferioridade.

Com o rápido crescimento de Curitiba, estamos agora num momento propício para dar uma guinada de 180 graus e colocar o centro da atividade poética nos valores interioranos, no vivido, no memorialismo, no verbo espontâneo, para fazer com que a poesia deixe de contemporizar com a índole do mundo industrial, desmemoriado e descartável por natureza. É esta poesia que podemos encontrar em Reinoldo Atem, O aprendizado da vida (Edições Ímã, 1997), desde já um dos mais autênticos poetas surgidos em Curitiba. Embora declaradamente curitibano, ele nasceu em 1950, no Piauí, morou em Londrina e em São Paulo. Mas a sua poesia guarda as imagens de uma Curitiba sem os delírios de modernidade. Como conseqüência, seus melhores poemas não pagam o tributo para o verso curto ou para a modernidade epidérmica. Muito pelo contrário, os seus bons poemas são longos, bem articulados e revelam o domínio da macroestrutura da linguagem - coisa inusitada em nossa poesia tatibitate.

O seu olhar recorta uma cidade habitada por gente simples, pelos meninos pobres, com seus botecos sórdidos (prolongamentos inúteis das casas) e dramas humaníssimos. É este olhar ("O olhar diz tudo / que não devia ser dito") que diferencia Reinoldo Atem de quase tudo que se produziu em termos poéticos no estado. Um olhar focado no imediato, sem esnobismos lingüísticos e falsos exotismos:

Olhar o céu
olhar a vida.

Na fímbria da noite
não
na próxima esquina. (p.26)

Atento aos dramas humanos, sem máscaras e sem afetações, sua poesia segue "O ofício das águas" (título de um belíssimo poema), percorrendo os subterrâneos da cidade, e se deixando impregnar pelos detritos do vivido: "Tubulações invisíveis / carregam por toda parte / do corpo-cidade a água / que nunca existe parada, ela e seus derivados, / buscando sempre o de baixo / o centro da terra amada / onde está sua morada" (p.30). Esta água-poesia que conhece o dentro da vida, o baixo, o caído, não foge ao seu destino de transportar detritos e de ser purificadora, opondo-se para isso a toda forma de edulcoração lírica. Assim, seu pedido ao mar acaba ganhando uma significação maior: "Preso e sereno / mar barulho / come o mel / do meu corpo / e me transforma / em sal" (p.75). A poesia marcada pelo sal é a que resgata as trajetórias simples, as verdades de todos os dias, é a poesia do trabalho e do olhar cotidiano.
Mas não é apenas contra a acepção poética das amenidades líricas que este livro pode ser lido. Optando por retratar uma vida dura, sem os brinquedos, Reinoldo Atem revela sua poética avessa à brincadeira com as palavras:

Eis o mundo dos latões rasgados
e das gargalhadas
mundo
dessas barbas grandes
e das mãos queimadas
mundo
dos que nunca se esquivam desses males,
Mundo
quando a vida se move sem brinquedos. (p.63)

O aprendizado da vida coloca Reinoldo Atem entre os mais importantes poetas do Paraná, acenando esta passagem de uma poesia curta e inconseqüente para a poesia autêntica, sem nenhuma dose de simulacro. O poeta, que deve trabalhar ainda mais na poda de seus versos, tem tudo para ocupar um lugar de destaque na sua geração, uma geração que acabou polarizada em Paulo Leminski, mas que, passada a safra temporã, começa a dar os primeiros e acanhados frutos definitivos.

Fonte:
http://www.escritoresdosul.com.br

Folclore Japonês (Tanabata)


Através do céu estrelado de uma noite de verão, é possível avistar duas estrelas, em lados opostos: Altair e Vega. Dizem que estas duas estrelas foram, há muito tempo, um homem e uma mulher, que agora só se encontram um vez por ano, no sétimo dia do sétimo mês, 7 de julho. A lenda a seguir é a história dos dois.

Era uma vez um homem, chamado Mikeram. Um dia, quando voltada do trabalho e andava perto de um lago, avistou uma manto preso a uma árvore. Era feito de tecidos finos, muito bonito e brilhante. “Que lindo manto! Deve valer uma fortuna”, pensou o rapaz. Ele pegou o manto e guardou consigo.

“Com licença senhor”, ouviu alguém dizer enquanto se preparava para ir embora. “O senhor viu o meu manto, ele estava aqui, sobre esta árvore?” Mikeram mentiu, “não, não vi nada parecido com um manto aqui”. “Ai, como voltarei agora para o meu reino, acima das nuvens, sem meu manto eu não consigo.”, disse a jovem mulher.

Ela se chamava Tanabata. Mikeram apaixonou-se pela linda mulher à primeira vista e tinha medo que, ao devolver o manto, ela partisse para longe. “Venha comigo, você pode ficar na minha casa enquanto não encontra seu manto sagrado”.

Eles se casaram e viveram juntos por alguns anos. Mas Tanabata olhava para as estrelas todas as noites, ela tinha muita saudade de seu reino. Todos os dias Mikeram saía para trabalhar e Tanabata ficava em casa, com os passarinhos. Um belo dia, ela viu um passarinho bicando algo no telhado e logo percebeu que era o seu manto.

“Então foi Mikeram que pegou meu manto, ele sabia o tempo todo”. Preparou-se para partir, vestiu seu manto e ia subindo, quando ouviu Mikeram gritando. “Você encontrou seu manto, me perdoe, não vá, eu te amo”. Tanabata gritou, “Se realmente me ama, faça mil pares de chinelos e enterre-os perto de um broto de bambu. Assim nós nos encontraremos novamente, eu estarei esperando”. E partiu voando.

Assim, dia após dia e noite após noite, Mikeram produziu chinelos e mais chinelos. Quando finalmente conseguiu juntar mil pares, correu para um broto de bambu e os enterrou. De repente, o bambu cresceu e cresceu. Sem perder tempo, Mikeram subiu até as nuvens. Mas, quando chegou perto do topo, percebeu que não havia mais árvore para subir e ainda faltava um pouco para chegarão topo. Na verdade, ele havia errado na conta, construíra somente 999 pares de chinelo.

“Tanabata, Tanabata, me ajude a subir, sou eu, Mikeram”. Tanabata ouviu os gritos do marido e correu para ajuda-lo. Quando ele finalmente conseguir subir, os dois se abraçaram. Mas de repente, ouviram um grito, “quem é você?”, perguntou o pai de Tanaba a Mikeram.

“Ele é meu marido e eu o amo”, disse Tanabata. O pai não gostou nada de Mikeram, ele era de outro reino e não servia para sua linda filha. “Para ficar aqui, meu rapaz, você terá que cumprir algumas tarefas. Está vendo aquelas cestas, eu quero que você plante todas as sementes que estão nelas”. “Sim, senhor, farei isso.”, respondeu timidamente Mikeram.

Havia milhares de sementes e ao final de três dias, Mikeram plantara todas. “Mas, o que significa isso? Você plantou as sementes no campo errado”, disse o pai, enfurecido. “Você terá que plantar todas novamente e rápido”, ordenou. Pobre Mikeram, levaria anos para achar todas as sementes e planta-las novamente.

Felizmente, Tanabata teve uma grande idéia: chamou seus pássaros de estimação e pediu para que eles achassem e replantassem todas sementes, juntos com outros pássaros amigos. Assim, o céu ficou coberto de pássaros, que cumpriram a tarefa.

O pai de Tanabata mal pode acreditar no que viu. Logo pensou em outra tarefa difícil para Mikeram: ele deveria cuidar da plantação de melancias por três dias e três noites, sem comer ou beber nada. “Tome muito cuidado, Mikeram, melancias são frutas sagradas no meu reino”, advertiu Tanabata, “não coma uma sequer.”

Após dois longos e cansativos dias, Mikeram estava exausto, como muita fome e sede. Ele não resistiu e abriu uma das milhares de melancia. De repente, uma enorme quantidade de água jorrou da melancia, como um rio turbulento, arrastando Mikeram para longe, muito longe do reino das estrelas e de Tanabata.

A partir deste dia, Tanabata e Mikeram se encontram somente uma vez por ano, no dia 7 de julho. Nesta data, o pai de Tanabata convoca todos os pássaros do reino para formar uma grande ponte, que leva Mikeram a Tanabata.
(autor desconhecido)
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O Festival Tanabata, ou Festival das Estrelas, combina tradição chinesa com crenças japonesas. Tanabata celebra o encontro de dois amantes míticos simbolizados pelas estrelas: Kengyu (a estrela Altair) e Shokujo (Vega). Estão separados pela Via Láctea, mas reúnem-se uma vez por ano, nos princípios de Julho. Muito famoso, o Festival Tanabata efetua-se de 6 a 8 de Agosto em Sendai, no distrito de Miyagi. Cada família local ergue um poste de bambu, profusamente decorado com tiras de papel colorido. As decorações mais elaboradas são colocadas ao longo das ruas do comércio. Dos tetos dos centros comerciais pendem centenas de decorações em papel, cada uma com mais de dez metros de altura. Na véspera do Festival Tanabata de Sendai, os organizadores montam uma fantástica exibição de mais de 10 mil peças de fogo de artifício para os dois milhões de turistas que assistem. O Tohoku Shinkansen (comboio rápido) leva-os de Tóquio a Sendai em pouco mais de duas horas
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Fonte:
Imagem = http://painandpower.blogger.com

domingo, 8 de novembro de 2009

Carlos Leite Ribeiro (O Papel)


O papel, tal como o conhecemos hoje, teve origem na China, misturando cascas de árvores e trapos de tecidos. Depois de molhados, eram batidos até formarem uma pasta. Esta pasta, depositada em peneiras para escorrer a água, depois de seca em superfícies planas, tornava-se uma folha de papel.

Na Europa, no final do século XIII, começa uma outra revolução no mundo da escrita: a substituição do pergaminho pelo papel. No entanto, a história do papel como suporte da escrita remonta ao ano 105 depois de Cristo e tem como protagonistas os chineses.

Dados históricos mostram que o papel foi muito difundido entre os árabes, e que foram eles os responsáveis pela instalação da primeira fábrica de papel na cidade de Játiva, Espanha, em 1150 após a invasão da Península Ibérica.

No final da Idade Média, a importância do papel cresceu com a expansão do comércio europeu e tornou-se produto essencial para a administração pública e para a divulgação literária. Johann Gutenberg inventou o processo de impressão com caracteres móveis.

Antes da invenção do papel, o homem se utilizava de diversas formas para se expressar através da escrita. Na Índia, eram usadas as folhas de palmeiras. Os esquimós utilizavam ossos de baleia e dentes de foca. Na China escrevia-se em conchas e em cascos de tartaruga. As matérias primas mais famosas e próximas do papel foram o papiro e o pergaminho. O primeiro, o papiro, foi inventado pelos egípcios e apesar de sua fragilidade, milhares de documentos em papiro chegaram até nos. O pergaminho era muito mais resistente, pois se tratava de pele de animal, geralmente carneiro, bezerro ou cabra e tinham um custo muito elevado.

Os Maias e os Astecas guardavam seus livros de matemática, astronomia e medicina em cascas de árvores, chamadas de "tonalamatl".

A palavra papel é originária do latim "papyrus". Nome dado a um vegetal da família "Cepareas" (Cyperua papyrus). A medula dos seus caules era empregada, como suporte da escrita, pelos egípcios, há 2 400 anos antes de Cristo. Entretanto foram os chineses os primeiros a fabricarem o papel como o actual, começando a produção de papel a partir de fibras de bambu e da seda.

A invenção do papel feito de fibras vegetais é atribuída aos chineses. A invenção teria sido obra do ministro chinês da agricultura Tsai-Lun, no ano de 123 antes de Cristo. A folha de papel fabricada na época seria feita pela fibra da Morus papyrifer ou Broussonetia papurifera, Kodzu e da erva chinesa "Boehmeria", além do bambu. Por volta do ano 610 depois de Cristo., os monges coreanos Doncho e Hojo, enviados à China pelo rei da Coreia disseminaram o invento pela Coréia e também pelo Japão. Entre os prisioneiros que chegaram a Samarkand (Ásia Central), havia alguns que aprenderam as técnicas de fabricação. O papel fabricado pelos samarkandos e coreanos, mais tarde, passaram a ser feitos com restos de tecidos, desprezando-se os demais materiais fibrosos.

Por volta de 795 instalou-se em Bagdad (Turquia) uma fábrica de papel. A indústria floresceu na cidade até o século XV. Em Damasco (Síria), no século X, além de objectos de arte, tecidos e tapetes, se fabricava o papel chamado "carta damascena", que se exportava ao Ocidente.

O Papiro: muito da História do Egipto nos foi transmitido pelos rolos de papiro encontrados nos túmulos dos nobres e faraós. Foram os egípcios que, por volta de 2200 antes de Cristo, inventaram o papiro, espécie de pergaminho e antepassado do papel.

Papiro é uma planta aquática existente no delta do Nilo. Seu talo em forma piramidal chega a ter de 5 a 6 metros de comprimento. Era considerada sagrada porque sua flor, formada por finas hastes verdes, lembra os raios do Sol, divindade máxima desse povo. O miolo do talo era transformado em papiros e a casca, bem resistente depois de seca, utilizada na confecção de cestos, camas e até barcos.

Para se fazer o papiro, corta-se o miolo do talo - que é esbranquiçado e poroso - em finas lâminas. Depois de secas em um pano, são mergulhadas em água com vinagre onde permanecem por seis dias para eliminar o açúcar. Novamente secas, as lâminas são dispostas em fileiras horizontais e verticais, umas sobre as outras. Esse material é colocado entre dois pedaços de tecido de algodão e vai para uma prensa por seis dias. Com o peso, as finas lâminas se misturam e formam um pedaço de papel amarelado, pronto para ser usado.

De papiro, deriva-se a nossa palavra papel. O seu uso na escrita vem de 3000 antes Cristo, era o Pergaminho, que é pele de animal, curtida e polida utilizada na escrita. Vem dos primórdios da era Cristã.

A palavra Bíblia, que quer dizer livro, deriva do nome do porto de Biblos, no Líbano, que era o principal porto de exportação de rolos de papiro. Na literatura egípcia de 2.500 antes de Cristo, já se encontram tratados científicos de medicina, textos religiosos, manuais e mesmo obras de ficção científica! Em particular, a história das aventuras do faraó Snofru, pai de Quépis, é um verdadeiro romance de antecipação de invenções extraordinárias, de monstros e máquinas.

Em 2200 antes de Cristo, usava-se para pinturas e registos da época, algo como pergaminhos: o papiro. Na verdade o papiro é uma planta aquática, originária do Delta do Nilo. Sua família científica é Cyperus Papyrus. Os antigos egípcios extraiam a casca da planta e a usavam para artesanatos, camas e barcos. O miolo era cortado em finas tiras que, depois de secas em um pano, eram mergulhadas em água com vinagre, permanecendo ali por seis dias.

Existe um antigo papiro egípcio escrito por volta de 2000 antes de Cristo, que nos conta da existência de um mágico chamado Dedi. O relato, nos conta à história de sua incrível performance perante a corte do faraó Queops. Dizia-se que era capaz de colocar a cabeça de volta em corpos decapitados fazendo-os voltar à vida, entre outros truques. De seu número perante a corte, diz-se que lhe trouxeram um ganso decapitado, o qual ele pôs do lado oeste da sala, e com algumas palavras mágicas fez com que a cabeça voltasse ao sítio.

O primeiro jogo de adivinhação inventado pelo ser humano, e também o provável primeiro jogo de palavras da História, faz parte do folclore oral da maioria dos povos desde tempos imemoriais, assim como as lendas e os mitos. O Livro dos Recordes, o mais antigo quebra-cabeças matemático também é uma adivinha, encontrada num papiro egípcio datado por volta de 1650 antes de Cristo.

Na história da origem da anatomia, o mais antigo tratado anatômico existente é um papiro egípcio escrito por volta de 1600 antes de Cristo . Ele demonstra que o coração, fígado, baço, rins, ureteres e vesícula já eram conhecidos. Os egípcios acreditavam que a causa da dor estava na possessão de deuses ou espíritos. A história da prática médica egípcia está descrita em sete papiros, entre os quais o papiro de Georg Ebers de 1550 antes de Cristo é o mais extenso e que contempla descrições de varias doenças, os tratamentos médicos, encantamentos e feitiços. Há evidências de que os egípcios também buscaram outras explicações além das causas divinas para a causa das doenças.

Outro papiro Egípcio importante é o de Ebers, que relata casos que envolvem a causa orgânica do esquecimento, depressão e outras condições clínicas importantes. A prática Cirúrgica e as Civilizações Sul-Americanas. A história do cérebro e dos comportamentos, sempre esteve intimamente relacionada com praticas de abertura cirúrgica do cérebro e procedimentos neurocirúrgicos de craniotomia. Essa cirurgia, extremamente difícil, tem sido feita desde o período paleolítico até os dias actuais. Importante notar que nem todas craniotomias foram feitas por problemas de traumatismo cranianos, e que evidências de cérebros que passaram por trepanação. Os instrumentos mais antigos encontrados, para tais cirurgias eram compostos de pedras, mas com o advento de novas tecnologias começam a serem empregados instrumentos feitos de ferro e bronze.

Voltando ao papel, o seu fabrico é a madeira, a sua obra-prima mais importante. Até um passado recente foi utilizada, principalmente, a madeira das coníferas, com predomínio do pinheiro e do abeto, mas actualmente emprega-se cada vez maior quantidade a madeira de árvores caducifólias, com maior incidência para o álamo, a bétula e o eucalipto.

Definitivamente aceite, com relativa exatidão, a data da invenção do papel, no ano de 105 da era Cristã, na China. O seu inventor, Ts’ai Lun, apresentou ao imperador Ho Ti informação sobre o seu processo baseado no emprego de cascas de árvores, Cânhamo, trapos e velhas redes de pesca como principais matérias primas. O segredo do fabrico do papel foi ciosamente guardado durante cerca de sete séculos, tendo o isolamento e as dificuldades de comunicação ajudando a impedir a propagação do invento.

O fabrico do papel foi introduzido, porém, no Japão, onde já era conhecido no ano 611 e, mais tarde, viria a estender-se a outras regiões em desenvolvimentos históricos. O papel chegou à Península Ibérica, após a invasão árabe tornou possível a primeira fábrica, em 1150, em Xativa (Valência), que foi a primeira fábrica na Europa.

Em Portugal é aceite que a utilização do papel remonta ao reinado de D. Dinis. Quanto ao seu fabrico, os primeiros engenhos foram levantados no arredores da cidade de Leiria, junto ao rio Lis, por Gonçalo Lourenço de Gomide, escrivão da puridade de D. João I, que em 1411 recebeu dois moinhos em ruínas por escambo celebrado com as freiras de Santa Clara de Coimbra. Posteriormente aparecem as fábricas da Batalha em 1514, de Fervença (perto de Alcobaça) em 1537 e de Alenquer em 1565. Portugal, porém, não era auto-suficiente, e continuava a importar papel, nomeadamente de França e de Itália.

A fundação da fábrica da Lousã, em finais de XVII, provocou a expansão da industria do papel, aumentando a produção e a qualidade. Em 1802, Moreira de Sá fundou a fábrica de Vizela, segundo alguns estudiosos a primeira do mundo a fabricar pasta de madeira, pois até então era feita de trapos. No ano de 1863, existiam 52 fábricas produtoras de papel em Portugal.

Para o fabrico do papel, as matérias-primas, ou o conjunto de produção necessário ao seu fabrico, são a água, as diferentes pastas (mecânica, química, semimecânica, semiquímica, etc.), os papéis velhos, as cargas e os produtos auxiliares, cuja função é conferir ao papel qualidades complementares ou especiais, como a resistência, coloração, impermeabilidade, etc.

As pastas e os papéis velhos são desintegrados e libertos das impurezas grosseiras. Após as operações de depuração de refinação, a suspensão é diluída. As cargas e os produtos auxiliares são geralmente incorporados no decurso destas operações. As cargas utilizam-se essencialmente em papéis de escrita e de impressão para lhes aumentar os graus de opacidade e de brancura, embora lhes diminua o grau de resistência. As principais cargas utilizadas ao longo das várias épocas e para diferentes finalidades são constituídas por caulino, talco, carbonato de cálcio. Ultimamente, começou a ser utilizado, com vantagens qualitativas, carbonato de cálcio, farinha cálcio e magnésio, óxido e sulfureto de zinco.

Fonte:
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal. Portal CEN.

Paulo Leminski (Bem no Fundo)


No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Fonte:
Imagem = http://eunaumtenhopagnaweb.blogspot.com/

Trovas de Guardanapo



PREFÁCIO

Para os cultores do gênero, não pode existir nada mais romântico do que uma trova escrita em um guardanapo de bar ou restaurante. Desconheço trovadores que não tenham sequer uma história curiosa a respeito. Principalmente as chamadas “trovas de circunstância”, feitas ao sabor de qualquer situação não prevista.

E aquelas escritas a quatro mãos então. Lembro-me de uma madrugada em Amparo, em 1999, quando, terminada a cerimônia de premiação dirigimo-nos até uma lanchonete: eu, o amparense Marcelo Henrique, José Valdez, Thalma Tavares, Eduardo Toledo, Maria Lua, Heloisa Zanconato, Renata Paccola e mais algum nome que eu possa ter esquecido. Tenho, ainda, em meu poder, vários daqueles guardanapos: testemunhas fiéis de momentos tão venturosos.

Em outra ocasião, numa churrascaria paulistana, logo após a proibição do fumo em restaurantes, durante o jantar travou-se uma das mais renhidas “batalhas” em guardanapo de que se tem notícia. Foram quase vinte trovas trocadas entre Renata Paccola, da UBT São Paulo, e Newton Meyer, da UBT de Pouso Alegre. Ele a favor da proibição e, ela, contra. Citarei apenas uma, da série:

Como se explica, um prefeito,
que um cigarro não admita,
produzir contrário efeito,
se o seu candidato “Pitta”?!...

Muitos anos antes, em 1969, o Lions Clube de Juiz de Fora promoveu um concurso de trovas e, no banquete de encerramento, o famoso Elton Carvalho sentou-se, num dos extremos da mesa, ladeado pelas poetisas portuguesas Maria Helena e Maria Amélia Novais. Lá pelas tantas, dirigindo-se aos demais trovadores do outro extremo, despejou esta “guardanapada”:

Amigos, não os invejo,
tão distantes, isolados:
estou feliz como o Tejo,
com Portugal dos dois lados!

Izo Goldman, certa vez, saiu-se com uma que merece lugar especial na galeria. A coisa aconteceu lá em Pinda e... Bem, utilizemos as palavras do próprio autor da proeza.

Como é que foi mesmo, Izo?

“A Trova foi feita por ocasião de um almoço de encerramento de Jogos Florais de Pindamonhangaba. Havia sobrado uma mousse de chocolate, e o Valdez disse que quem fizesse uma Trova com mousse, ficaria com ela. Então, eu rapidamente disse:

Eu quero, com tanto empenho,
que darei, por esta mousse,
todo dinheiro que eu tenho,
todo o dinheiro que eu ‘trousse’! (traduzindo: pronuncia-se “trusse”!)

e peguei a mousse , e fui comendo sob os protestos daqueles que estavam questionando a "rima".

E depois a registrou em um... guardanapo, é claro!

E assim, quantos guardam suas histórias!... Mas não houve ninguém que tivesse a feliz lembrança de compilar essas preciosidades e transformá-las em algo mais consistente . Ou melhor dizendo... não havia. Nova Friburgo, maio de 2009, Jubileu de Ouro dos Jogos Florais inaugurados por J.G. e Luiz Otávio. Durante o animado jantar em um local que eu chamo de “Restaurante dos Trovadores”, eis que vem Sérgio Ferreira da Silva, de mesa em mesa, pedindo que cada um escreva uma trova de sua autoria. Até então ninguém “suspeitava” de nada. Depois, foi até o microfone e procedeu à leitura de todas.

Foi quando a real intenção se revelou: por iniciativa de sua jovem filha Laura (por sinal que Sérgio, Laurinha e esposa Leila são uma família de artistas), que ilustraria a obra, os simpáticos papéis quadriculados se transformariam em livro. Em verdade, um exaustivo trabalho de fotografar guardanapo por guardanapo, visando preservar os traços de cada autor.

Pronto. Simples e original. Sucinto e maravilhoso. Como ninguém pensara nisso antes? Como original também foi convidar este despretensioso rabiscador para prefaciar tão admirável obra. Sem maiores recursos para dissecar a importância deste trabalho para a História da Trova, limito-me a aplaudi-la. Uma iniciativa que irá nos inspirar, mais ainda, a dizimar – doravante – todos os guardanapos que encontrarmos nos estabelecimentos onde a Trova assinar o livro de presença.

Parabéns, Laura, pela concepção da idéia; parabéns, Sérgio, pela execução da mesma. E parabéns, Leila, por ter concedido o alvará para que ambos: marido e filha, pudessem ir avante. E anotem aí: Segundo o Sérgio, este é apenas o primeiro volume. Que bom, não!

Dizem até que, doravante, os restaurantes passarão a oferecer guardanapos personalizados, para que o merchandising da empresa apareça ao fundo da trova. Só não inventem de produzir guardanapo já com trova nele impressa, porque iria empanar o romantismo de nossa iniciativa , rs.

OBS: se os donos de restaurantes adotassem realmente a idéia de imprimir trovas nos guardanapos, seria a reafirmação do Movimento Trovístico no Brasil e a consagração da Laura!
José Ouverney
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Ela escolheu outros braços,
e a mágoa que me devora,
se fez sombra dos meus passos
mundo adentro vida a fora!
(Campos Sales)

À espera do teu regresso,
deixei a vida passar...
Envelheci, mas... confesso:
- Valeu a pena esperar!!!
(Maria Madalena Ferreira – Magé/RJ)

Apesar desta certeza de
que somos tão iguais,
alma gêmea, que tristeza,
chegaste tarde demais!...
(Ercy Maria Marques de Faria – UBT – Bauru/SP)

Na despedida, a tristeza
do pranto falou por nós,
enfatizando a certeza
de que saudade tem voz. (Adilson Maia
– Niterói/RJ)

Um cego tem seus segredos
e viver não o intimida... faz
pela ponta dos dedos
a descoberta da vida.
(Elen de Novais Félix – Niterói)

Minha saudade é defeito
que outra saudade requer
pois, sempre que abro o meu peito,
encontro a mesma mulher!
(Héron Patrício)

Eu te imploro, por favor
não insistas neste adeus.
Se não for por meu amor,
fica, pelo amor de Deus!
(Arlindo Tadeu Hagen)

Tu chegas, só por instantes
e as minhas mágoas contenho:
se não há depois nem antes,
vivo os instantes que tenho!
(Thereza Costa Val – Belo Horizonte)

O amor tem momentos sábios
quando em uniões bem vividas,
une não somente os lábios
mas, numa só, duas vidas.
(Alba Christina)

Sempre que um vento mais forte
o mar da vida agitar,
calma, não perca o seu norte,
que a tormenta vai passar.
(Wanda Horilda)

Diante da ofensa, o revide
não me parece ação boa;
em vez de mais um que agride,
seja mais um que perdoa!
(José Tavares Lima)

Divago... e assim qual vidraça,
dando cor a luz do dia
reflito a dor que me abraça
nesta aparente alegria.
(Jorge Pontes – Fortaleza/CE)

Quando pediste o retrato
onde dizes “Sempre teu”,
eu percebi que, de fato,
nem o retrato era meu!
(Terezinha Dieguez Brisolla)

Descalços, pelo gramado,
teus pés mansamente vão...
Pões, no pisar, tanto agrado
que eu sinto inveja do chão...
(Marina Bruna)

Ao chegar em Portugal depois
da grande conquista, vendo a
sogra em seu quintal, diz
Cabral: - Encrenca à vista!
(Renata Paccola)

Minha cama se revela
o melhor móvel do lar,
pois passo mais tempo nela
que em qualquer outro lugar...
(Pedro Mello – UBT – São Paulo)

Tu lês os versos que eu faço,
e nem sequer adivinhas
os segredos que eu te passo
no espaço das entrelinhas.
(Selma Patti Spinelli)

Coração desconsolado
não podeis esmorecer.
Se viver é complicado,
muito mais é não viver.
(Luiz Antonio Cardoso – UBT Tremembé)

Se a vida me põe a prova,
não há nada que me oprima,
meu psicólogo é a trova,
o analista é a rima.
(Neoly de Oliveira Vargas – Sapucaia do Sul/RS)

Revivendo na saudade a
minha casa paterna,
choro, mas tenho vontade
que a saudade seja eterna.
(Orlando Woczikosky – Nova Friburgo)

Os lençóis de nossa cama em
dias que não são poucos
guardam vestígios da chama
dos nossos delírios loucos!
(Marisa Rodrigues Fontalva – UBT São Paulo)

Por orgulho, rompi laços!
Ser teu cativo não quis...
Hoje longe dos teus braços,
livre estou, mas infeliz...
(Maria Helena Oliveira Costa)

Friburgo, terra encantada,
nas trovas, tu és demais,
tua história está marcada,
cinquenta jogos florais.
(Flávio Stefani)

Por mais que a vida se oponha,
traze os sonhos junto a ti,
porque, aos olhos de quem sonha,
o Infinito... é logo ali!
(Edmar Japiassu Maia)

Percebo, com desconforto,
que ainda sou teu vassalo:
nosso passado está morto,
mas não consigo enterrá-lo.
(Wanda de Paula Mourthé)

Baú velho, tampo torto,
cartas e fotos mofando...
- Refúgio de um sonho morto,
que eu vivo ressuscitando!...
(José Ouverney – Pindamonhangaba/SP)

No ano de dois mil e seis,
eu fiquei muito feliz.
Estar aqui com vocês
Foi tudo que eu sempre quis!
(Lunanda – Musa 2006)

Nas lutas do seu viver
guarde o troféu merecido...
Virtude é saber vencer
sem humilhar o vencido!
(José Valdez de Castro Moura – Pindamonhangaba/SP)

Nas curvas do desalento,
quando a paixão me convida,
eu largo a velhice ao vento
e bebo o sopro da vida!
(Eduardo A. O. Toledo – Pouso Alegre/MG)

Em vez de grito e pancada,
quando um filho se excedia,
meu pai só dava uma olhada
e a gente logo entendia!
(Pedro Ornellas – São Paulo/SP)

Nosso encontro... O beijo a medo...
A carícia fugidia... Nosso
amor era segredo... Mas,
todo mundo sabia.
(Rodolpho Abbud – Nova Friburgo/RJ)

Eu sempre agi com prudência.
Às vezes me fiz de mouco,
por capricho e até decência,
ouço muito e falo pouco.
(Gutemberg Andrade – Fortaleza/CE)

E nem ao sol se revela
o mistério desta aurora:
se a hora que a faz tão bela,
se ela que faz bela a hora.
(Pedro Lyra)

Perua bela e proscrita
que não temia o sertão,
era Maria Bonita...
que acendia o lampião!
(Maria Lúcia Daloce Castanho – Bandeirantes/PR)

Sonho um mundo diferente,
que as cores todas resuma, e
a cor da pele da gente
não tenha importância alguma!
(Octávio Venturelli – Nova Friburgo/RJ)

Alguém o chamou de otário
e o tolo se envaideceu,
foi correndo ao dicionário
e não gostou do que leu.
(Istela Marina)

Pequei, mas só por vaidade
e por motivos pequenos,
e a dor de tua saudade
deixou-me cego de acenos.
(Rejane Costa Barros – UBT Fortaleza/CE)

Buscando a felicidade
já passei por muita estrada,
mas encontrei de verdade
você (minha) eterna amada!
(Francisco José Moreira Lopes – UBT Maranguape/CE)

Com cautela, sem conflito,
aprendo a lição do mar:
foi contemplando o infinito
que eu aprendi a sonhar...
(Djalda Winter Santos – Rio de Janeiro/RJ)

A minha vida se encerra
neste andar assim ao léu:
sou nuvem querendo terra,
sou terra querendo o céu!
(Marta Maria de O. Paes de Barros – São Paulo/SP)

Emoção maior na vida, um
despertar de esperança,
quando o amor se consolida,
ao nascer de uma criança!
(Dirce Montechiari – Nova Friburgo/RJ)

A favela à luz da lua
é um presépio em miniatura,
mas ante o sol, triste e nua,
tem, de um calvário, a estatura!
(Domitilla Beltrame – São Paulo/SP)

Quando tu dizes que és minha,
teu reino sofre um agravo,
como pode uma rainha
pertencer ao seu escravo...
(Izo Goldman – São Paulo/SP)

Sou poeta... e em meus caminhos
não temo estradas rochosas...
- Quando a vida planta espinhos
tanto mais eu colho rosas!
(Clenir Neves Ribeiro – Nova Friburgo/RJ)

Duas taças, queijo, pão, um
bom vinho e uma lareira,
prometem-nos, de antemão,
uma festa, a noite inteira!
(Lucília A. T. Decarli – Bandeirantes/PR)

Vivo em constante conflito
entre o delírio e a razão:
- Meu sonho alcança o infinito...
Meus pés tropeçam no chão!
(Elisabeth Souza Cruz – Nova Friburgo/RJ)

Doce amada, neste louco
esperara por ti, em vão,
cada noite morro um pouco
nos braços da solidão.
(João Costa – Saquarema/RJ)

Nosso dinheiro sumia de
forma triste e sinistra e o
Cabral se divertia
co’a “poupança” da Ministra!
(Antonio Vanzella – São Bernardo do Campo/SP)

Vê passar o seu vizinho
e a mulher sente revolta
do suspiro bem fininho
que o marido dela solta.
(Therezinha Tavares)

No trem dos Jogos Florais
trafegam trova e alegria
poetas universais
para a estação da poesia.
(Haroldo Lyra – Fortaleza/CE)

Ofensas, busca evitá-las
que a palavra tem raízes;
tu és Senhor do que calas,
mas escravo do que dizes!
(Heloísa Zaconato – Juiz de Fora/MG)

Meu viver nunca é tristonho,
do mar copiando a investida,
eu jogo espumas de sonho
por sobre as pedras da vida.
(Carolina Ramos – Santos/SP)

Menina muito sapeca, disse
prá mãe, nem vem, não
quero ganhar bonecam pois
sei brincar de neném.
(Lúcia Corrêa)

Se és veloz no pensamento,
no trânsito sê prudente.
Use o cinto, fique atento,
mostre que és inteligente.
(Gledis Tissot – UBT Balneário Camboriú/SC)

Vivemos juntos, mas sós!
Nossa solidão somada,
fez de ti, de mim, de nós,
a soma triste do nada!
(Gislaine Canales - Balneário Camboriú/SC)

Friburgo e tanta beleza,
dessa cidade sou fã...
E ainda tem a proeza:
é da trova guardiã!
(Roberto Acruche – UBT São Francisco de Itabapoana/RJ)

No carnaval da alegria
fantasiei-me de gay,
era pura fantasia
mas confesso que gostei!
(José Moreira Monteiro – Nova Friburgo/RJ)

Quando partiste querida,
meu coração infeliz,
tomou enorme ferida
e não parou por um triz! (Maurício
Friedrich – Curitiba/PR)

Em meu nome e de Valdez
quero aqui agradecer
por tudo que o Abbud fez
para a festa acontecer.
(Helena Moura – Pindamonhangaba/SP)

Tua alma desperta em mim
tanta calma e tanto ardor,
que, se o amor não for assim,
eu mudo o nome do amor!
(Sérgio Ferreira da Silva – São Paulo/SP)
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Fonte:
Trovas de Guardanapo - 1ª Edição – Nova Friburgo/São Paulo - 2009
Organizador: Sérgio Ferreira da Silva
Disponível para download em pedf no site http://www.falandodetrova.com.br

Walter Galvani (Mal Rompe a Manhã...”)

Amanhecer em Alcafache (pintura em pastel s/cartolina)
de Eduardo Soares Pereira Leitão
Por força das circunstâncias e uma longa atividade jornalística, acabei formatando (como diriam os viciados em informática) um estilo que se caracterizava por deitar tarde e levantar tarde. Depois a corrupção de costumes foi completada com o trabalho em um vespertino (sonho e glória de muitos jornalistas, mas hoje quase completamente expurgado do mercado pelo advento das televisões e as confusões do trânsito) que me propiciava a chance de dormir cada vez menos e misturar cada vez mais os horários.

O tempo foi fazendo seus habituais estragos, ventos de mais de cem quilômetros passaram a se tornar presentes em nossas vidas e meus relógios revolutearam também enlouquecidos. Hoje, levanto na hora em que antes ia deitar... E então, depois de um bom café à moda dos hotéis brasileiros, sento-me diante do computador. Tomo conhecimento do correio eletrônico, recebo e respondo as mensagens mais urgentes ou mais caras e começo a dedilhar em busca do primeiro texto ou da continuação do que venho transacionando comigo mesmo.

Como diria o velho e insubstituível Drummond: “A luta com as palavras/ é luta vã/ No entanto lutamos/ mal rompe a manhã!”

Hoje um texto curto, amanhã um artigo para uma revista, depois o romance, ah sim, o romance, desafiador, que ressurge sempre, estocado na memória do computador e que a um simples toque deixa seu esconderijo virtual e perpassa minha tela à espera da continuidade, ou para sofrer pacientemente as retificações. Entusiasmo-me e levo adiante, aproveitando o momento propício que se criou e que se repete todo o santo dia, menos aquele que sou obrigado a excluir para devotá-lo integralmente à incineração diante das necessidades prosaicas de vida bancária ou profissional jornalística, algo que me dá um prazer sofrido e condenado.

Certa vez, perguntaram a Pablo Picasso se ele acreditava em inspiração. “Sim, claro - foi sua resposta imediata. Sempre que ela chega me encontra trabalhando”.

E assim é, como foi hoje mesmo e como será amanhã. Cercado por livros, amigos e necessários apoios, com os dicionários alinhados à minha espera, e as fotos da minha mulher e das minhas filhas, como ícones capazes de me garantirem a tranqüilidade, sigo martelando com vigor datilográfico (velhas máquinas Remington e Olivetti) o teclado onde deveria pousar levemente a polpa dos dedos, num exercício de balé eletrônico. Minha digitação acompanha com o seu ritmo o progresso do meu pensamento, que, naturalmente por vezes ultrapassa a velocidade da sua conversão em matéria.

Vá lá, vá lá, ando para trás e para diante, retomo e súbito, um gesto desastrado destrói o que já se acumulava, é preciso recomeçar e eis que o telefone toca.

O recomeço é sempre mais difícil, é como descer um patamar do sonho, é um recuo e aos poucos vou deixando a minha identificação com o vôo. Os cães latem. Há uma nova retomada. Agora reviso o que fiz, retoco, reescrevo, ponho a dourar, reservo e estoco no fundo do misterioso computador. Amanhã, quando a manhã começar, descongelo e retomo o ritmo, procurando rapidamente acertar o passo, antes do mergulho.

Durante o restante do dia, viajo. Entrego-me a outras atividades, sinto que preciso fazer algumas anotações, faço exercícios de memória, mas o texto está lá, distante, ainda não o imprimi para que possa senti-lo, cheirá-lo e mostrá-lo quem sabe a alguém que possa perceber o que estou pretendendo dizer e confirmar-me que recebeu a mensagem, totalmente.

Perco minhas lembranças durante o dia, envolvido na movimentação, nos contatos, nos telefonemas, no trabalho e nas leituras. Os jornais, com textos tão dispersos e tão pouco inspiradores, ou os artigos retirados e reservados para leitura posterior. Há, sim, os livros que estão sendo lidos, religiosamente. Salto de um para o outro, vejo pouquíssima televisão, um pouco mais antes de preparar o sono, e diante de mim, outra vez a manhã.

E puxo então novamente da memória do computador o texto que dormiu o sono justo do esquecimento e lá está ele, implacável, a me cobrar a continuidade. Não, hoje não, ainda não está maduro, a digitação só vai perturbar o que está consolidado, mando-o de volta para sua caverna eletrônica.

Quando termino aquela jornada, alinho a nítida impressão de que desperdicei um dia de minha vida e com este sentimento venenoso faço todo o giro habitual, novamente o sono e outra vez o despertar com a expectativa de que, hoje sim, farei ressurgir do poço fundo do esquecimento, em todo o seu esplendor o que estou buscando botar de pé. Vejo e revejo os erros, hoje mais claros do que anteontem.