terça-feira, 6 de outubro de 2015

Aparício Fernandes (Trovas Mistas e Trovas Bipartidas)

(foi mantida a grafia original)
  
       Embora não constituindo categorias distintas, há trovas que apresentam particularidades curiosas quanto à sua mensagem e, mais raramente, quanto à origem. Estão neste caso as trovas mistas e as trovas bipartidas. Trovas mistas são aquelas que, pela sua mensagem, são, ao mesmo tempo, líricas e filosóficas, filosóficas e humorísticas, humorísticas e líricas e até mesmo lírico-filosófico-humorísticas. Não há mistério algum, pois a idéia contida numa trova pode exprimir simultâneamente essas três nuances do sentimento. Vejamos um exemplo de trova mista lírico-filosófica. É de autoria do consagrado trovador Orlando Brito:

Até num êrro há nobreza,
se com teu pranto o reparas,
— Mesmo a lama tem beleza
no fundo das águas claras...

         Com efeito, se os dois primeiros versos pregam um conceito filosófico, os dois versos finais nos oferecem uma comparação de grande delicadeza poética, revestida de encantador lirismo.
         Belmiro Braga nos proporciona um exemplo perfeito de trova mista filosófico-humorística:

Quanta vez, junto ao jazigo,
alguém murmura de leve:
– "Adeus para sempre, amigo"
E o morto diz: – "Até breve!..."

         Antônio Sales, um dos grandes trovadores brasileiros do começo do século, é o autor desta trova mista lírico-humorística:

Se as santas no paraíso
possuem os teus encantos,
eu fico muito indeciso
sôbre a virtude dos santos...

         As trovas mistas de mensagem tríplice, lírico – filosófico – humorísticas são, naturalmente, mais raras. Como exemplo, citaremos duas trovas. A primeira é de autoria de Lindouro Gomes; a segunda, de
Petrarca Maranhão:

A tua jura não passa
de falsidade patente:
– engana como a cachaça,
que alegra tombando a gente.
______
Eu pergunto muito a mêdo,
quase a sentir-me covarde:
– nasceste por demais cedo,
ou fui eu que nasci tarde?

         As trovas bipartidas (pela mensagem) são aquelas que nos dois primeiros versos exprimem uma idéia, e nos dois versos finais outra coisa muito diferente. Entre os dois pensamentos não há qualquer relação. São desconexos e, muitas vêzes, disparatados. Essas trovas, que comumente são populares anônimas, têm a sua graça, sua brejeirice. Eis um exemplo:

Debaixo daquela ponte
passa boi, passa boiada.
Quero que você me diga
se vai ser a minha amada.
continua… Trovas Mistas
Fonte: Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de Janeiro/GB: Artenova, 1972

domingo, 4 de outubro de 2015

A. A. de Assis e Elisabeth Souza Cruz (Vaivém do Riso), final




44. (ESC)
Do teu queijo eu tiro um naco
pois a minha ideia logra...
mudo de pau pra cavaco,
que tal falarmos de... sogra?
________________
45. (AAA)
Na hora do desespero,
vale tudo, oh Deus, que horror...
Vale até, sem exagero,
chamar a sogra de “amor”!
________________
46. (ESC)
Sei também de um desespero,
pois o genro, de mutreta,
pôs pimenta no tempero
e a sogra ficou zureta!
________________
47. (AAA)
Faltam-lhe os “tchans” da “zelite”,
talvez escola e que-tais...
Mas no “tempero”, acredite,
a danadinha é demais!
________________
48. (ESC)
Tempero lembra cozinha
e a tua trova... "a penosa",
aquela da tal galinha
que no garfo era bem prosa!
________________
49. (AAA)
Diz ao garfo, humilde, a faca:
– Rema, rema, remarré...
Eu sou fraca, fraca, fraca,
mas corto mais que a cuié...
________________
50. (ESC)
Quando tem panela cheia
no fogão da  cozinheira
sempre acaba em briga feia
que o patrão quer dar "rasteira" !!
________________
51. (AAA)
Felizardo é o cara esperto
que vai no mato morar.
Lá não tem patrão por perto
nem sogra no calcanhar...
________________
52. (ESC)
É verdade! Uma mamata
morar longe de patrão...
só não se pode é na mata
ficar na moita.... sem cão.
________________
53. (AAA)
Bem pior é um menestrel,
quando lhe apura a barriga,
na moitinha, sem papel,
ter que usar folha de urtiga...
________________
54. (ESC)
Querido.. eu não faço intriga,
mas veja a situação:
– na moita, anda dando briga,
por dinheiro em cuecão!!
________________
55. (AAA)
Tudo o mais é mera intriga,
fabulazinha bizarra...
– O chato é ser a formiga
“cantada” pela cigarra!
________________
56. (ESC)
E por falar em cantada
quem canta seu mal  espanta?
Eu sou tão desafinada
que nem galo se levanta!!!
________________
57. (AAA)
Quando o galo nega raça
e precoce o caldo entorna,
a frangona, por pirraça,
dá-lhe um ovo... de codorna!
________________
58. (ESC)
Eu falo e tenho respaldo,
pois em canja de galinha,
para aumentar mais o caldo,
pegue a sopa da vizinha!.
________________
59. (AAA)
Alarme no galinheiro.
– Será que há gambá na granja?...
– Bem mais grave: é o cozinheiro
que avisa: “Hoje vai ter canja!”...
________________
60. (ESC)
E foi tamanho o brigueiro,
pois dona "Gala"  se zanga,
já que o galo, que é frangueiro,
logo quis  salvar a "franga"!
________________
61. (AAA)
Fui à feira a fim de frango;
frango fresco ali faltava.
Fiquei fulo e ao fim meu rango
foi farofa, alfafa e fava.
________________
62. (ESC)
A minha ideia não míngua,
e eu lhe mando "plantar fava",
pois compondo um trava língua,
minha própria língua trava!
________________
63. (AAA)
Calma aí, não fique brava
com a minha brincadeira...
Se quiser, eu planto fava,
batatas, a horta inteira...
________________
64. (ESC)
Assis... eu não me detenho
e agora pego carreira:
– quero ver teu desempenho
se "plantares bananeira"!!!
________________
65. (AAA)
Nada há que mais atraia
a molecadinha arteira
que moça de minissaia
quando planta bananeira...
________________
66. (ESC)
Tu és um sujeito esperto,
(mas só  peço que não caias)
quando estiveres bem perto
das moças perdendo as saias!!!
________________
67. (AAA)
Disse o esperto garotinho
na forçada confissão:
– Olhei pelo buraquinho...
mas não vi “o” da moça não!
________________
68. (ESC)
Por falar em confissão,
confessa a moça (e reclama):
- Tão pesado é o meu patrão
que quebrou a minha cama!
________________
69. (AAA)
O funcionário e a patroa
a um baile foram... “ficaram”.
O patrão soube: largou-a,
e os pôs na rua: “dançaram”!
________________
70. (ESC)
Com duplo sentido, a "dança"
é  palavra que  marcou:
– nem sempre quem dança, cansa...
mas quem se cansa... dançou!
________________
71. (AAA)
Até pra fazer pecados
é necessário ser jovem.
Adões e Evas cansados,
nem mesmo as maçãs os movem...
________________
72. (ESC)
As maçãs, "na velha idade",
lembram uvas,  e o idoso,
olhando as "boas" (maldade!),
– Alcançá-las?! É penoso!!!
________________
73. (AAA)
Conhaque no aperitivo,
conhaque na sobremesa...
– E’ assim que o velhinho, ativo,
mantém a velinha acesa!
________________
74. (ESC)
"Sopre a velinha , sem dó!"
e, na festinha animada,
sopraram tanto a vovó
que ela ficou resfriada!
________________
75. (AAA)
– Sopre o trombone sem DÓ,
diz a velhinha ao regente...
– Se mande pra LÁ, vovó,
e cuide de SI... SOL-mente!
________________
76. (ESC)
Assis, neste DÓ RÉ MI,
a trova pede uma pala:
– como é que eu estando aqui,
ouço tanto a sua  fala?
________________
77. (AAA)
Se no dorré não faz sol,
nem também  no La mi si,
no remi lá do fá-rol
faz redó relá solmi...
________________
78. (ESC)
No dó ré que a gente inventa,
Antonio Augusto, tem dó!!!
Já vamos para as oitenta
numa brincadeira só!
________________
79. (AAA)
Enquanto você topar,
sigamos, então, sem medo.
Vamos brincar de brincar,
até cansar do brinquedo...
________________
80. (ESC)
O desafio me empolga,
eu topo qualquer parada....
E não preciso de folga 
porque eu ando eletrizada!

sábado, 3 de outubro de 2015

Luis Vaz de Camões (c. 1524 - 1580)



Luís Vaz de Camões  .Pouco se sabe com certeza sobre a sua vida. Aparentemente nasceu em Lisboa, cerca de 1524, de uma família da pequena nobreza. Por via paterna, Luís de Camões seria descendente de Vasco Pires de Camões, trovador galego, guerreiro e fidalgo, que se mudou para Portugal em 1370 e recebeu do rei grandes benefícios em cargos, honras e terras, e cujas poesias, de índole nacionalista, contribuíram para afastar a influência bretã e italiana e conformar um estilo trovadoresco nacional. Sobre a sua infância tudo é conjetura mas, ainda jovem, terá recebido uma sólida educação nos moldes clássicos, dominando o latim e conhecendo a literatura e a história antigas e modernas. Frequentou a corte de D. João III, iniciou a sua carreira como poeta lírico e envolveu-se, como narra a tradição, em amores com damas da nobreza e possivelmente plebéias, além de levar uma vida boêmia e turbulenta. Diz-se que, por conta de um amor frustrado, autoexilou-se em África, alistado como militar, onde perdeu um olho em batalha. Voltando a Portugal, feriu um servo do Paço e foi preso. Perdoado, partiu para o Oriente. Passando lá vários anos, enfrentou uma série de adversidades, foi preso várias vezes, combateu ao lado das forças portuguesas e escreveu a sua obra mais conhecida, a epopeia nacionalista Os Lusíadas. De volta à pátria, publicou Os Lusíadas e recebeu uma pequena pensão do rei D. Sebastião pelos serviços prestados à Coroa, mas nos seus anos finais parece ter enfrentado dificuldades para se manter.
            Logo após a sua morte a sua obra lírica foi reunida na coletânea Rimas, tendo deixado também três obras de teatro cômico. Enquanto viveu queixou-se várias vezes de alegadas injustiças que sofrera, e da escassa atenção que a sua obra recebia, mas pouco depois de falecer a sua poesia começou a ser reconhecida como valiosa e de alto padrão estético por vários nomes importantes da literatura europeia, ganhando prestígio sempre crescente entre o público e os conhecedores e influenciando gerações de poetas em vários países. Camões foi um renovador da língua portuguesa e fixou-lhe um duradouro cânone; tornou-se um dos mais fortes símbolos de identidade da sua pátria e é uma referência para toda a comunidade lusófona internacional. Hoje a sua fama está solidamente estabelecida e é considerado um dos grandes vultos literários da tradição ocidental, sendo traduzido para várias línguas e tornando-se objeto de uma vasta quantidade de estudos críticos.
            Depois de ver-se amargurado pela derrota portuguesa na Batalha de Alcácer-Quibir, onde desapareceu D. Sebastião, levando Portugal a perder sua independência para Espanha, adoeceu, segundo Le Gentil, de peste. Foi transportado para o hospital, e faleceu em 10 de junho de 1580, sendo enterrado, segundo Faria e Sousa, numa campa rasa na Igreja de Santa Ana, ou no cemitério dos pobres do mesmo hospital, segundo Teófilo Braga.
            Os testemunhos dos seus contemporâneos descrevem-no como um homem de porte mediano, com um cabelo loiro arruivado, cego do olho direito, hábil em todos os exercícios físicos e com uma disposição temperamental, custando-lhe pouco engajar-se em brigas. Diz-se que tinha grande valor como soldado, exibindo coragem, combatividade, senso de honra e vontade de servir, bom companheiro nas horas de folga, liberal, alegre e espirituoso quando os golpes da fortuna não lhe abatiam o espírito e entristeciam. Tinha consciência do seu mérito como homem, como soldado e como poeta.
            Todos os esforços feitos no sentido de se descobrir a identidade definitiva da sua musa foram vãos e várias propostas contraditórias foram apresentadas sobre supostas mulheres presentes na sua vida. O próprio Camões sugeriu, num dos seus poemas, que houve várias musas a inspirá-lo, ao dizer "em várias flamas variamente ardia".

Contexto
            Camões viveu na fase final do Renascimento europeu, um período marcado por muitas mudanças na cultura e sociedade, que assinalam o final da Idade Média e o início da Idade Moderna e a transição do feudalismo para o capitalismo.
            A produção de Camões divide-se em três gêneros: o lírico, o épico e o teatral.
            A sua obra lírica foi desde logo apreciada como uma alta conquista. Demonstrou o seu virtuosismo especialmente nas canções e elegias, mas as suas redondilhas não lhes ficam atrás. De fato, foi um mestre nesta forma, dando uma nova vida à arte da glosa, instilando nela espontaneidade e simplicidade, uma delicada ironia e um fraseado vivaz, levando a poesia cortesã ao seu nível mais elevado, e mostrando que também sabia expressar com perfeição a alegria e a descontração. A sua produção épica está sintetizada n’Os Lusíadas, uma alentada glorificação dos feitos portugueses, não apenas das suas vitórias militares, mas também a conquista sobre os elementos e o espaço físico, com recorrente uso de alegorias clássicas. A ideia de um épico nacional existia no seio português desde o século XV, quando se iniciaram as navegações, mas coube a Camões, no século seguinte, materializá-la. Nas suas obras dramáticas procurou fundir elementos nacionalistas e clássicos.
            Os seus melhores poemas brilham exatamente pelo que há de genuíno no sofrimento expresso e na honestidade dessa expressão, e este é um dos motivos principais que colocam a sua poesia em um patamar tão alto.
            As suas fontes foram inúmeras. Dominava o latim e o espanhol, e demonstrou possuir um sólido conhecimento da mitologia greco-romana, da história antiga e moderna da Europa, dos cronistas portugueses e da literatura clássica, destacando-se autores como Ovídio, Xenofonte, Lucano, Valério Flaco, Horácio, mas especialmente Homero e Virgílio, de quem tomou vários elementos estruturais e estilísticos de empréstimo e às vezes até trechos em transcrição quase literal. De acordo com as citações que fez, também parece ter tido um bom conhecimento de obras de Ptolomeu, Diógenes Laércio,Plínio, o Velho, Estrabão e Pompónio, entre outros historiadores e cientistas antigos. Entre os modernos, estava a par da produção italiana de Francesco Petrarca, Ludovico Ariosto, Torquato Tasso, Giovanni Boccaccio e Jacopo Sannazaro, e da literatura castelhana.
            Camões, depois de uma fase inicial tipicamente clássica, transitou por outros caminhos e a inquietude e o drama se tornaram seus companheiros. Por todo Os Lusíadas são visíveis os sinais de uma crise política e espiritual, permanece no ar a perspectiva do declínio do império e do caráter dos portugueses, censurados por maus costumes e pela falta de apreço pelas artes, alternando-se a trechos em que faz a sua apologia entusiasmada. Também são típicos do Maneirismo, e se tornariam ainda mais do Barroco, o gosto pelo contraste, pelo arroubo emocional, pelo conflito, pelo paradoxo, pela propaganda religiosa, pelo uso de figuras de linguagem complexas e preciosismos, até pelo grotesco e pelo monstruoso, muitos deles traços comuns na obra camoniana.
            O caráter maneirista da sua obra é assinalado também pelas ambiguidades geradas pela ruptura com o passado e pela concomitante adesão a ele, manifesta a primeira na visualização de uma nova era e no emprego de novas fórmulas poéticas oriundas de Itália, e a segunda, no uso de arcaísmos típicos da Idade Média. Ao lado do uso de modelos formais renascentistas e classicistas, cultivou os gêneros medievais do vilancete, da cantiga e da trova.
            N’Os Lusíadas Camões atinge uma notável harmonia entre erudição clássica e experiência prática, desenvolvida com habilidade técnica consumada, descrevendo as peripécias portuguesas com momentos de grave ponderação mesclados com outros de delicada sensibilidade e humanismo. As grandes descrições das batalhas, da manifestação das forças naturais, dos encontros sensuais, transcendem a alegoria e a alusão classicista que permeiam todo o trabalho e se apresentam como um discurso fluente e sempre de alto nível estético, não apenas pelo seu caráter narrativo especialmente bem conseguido, mas também pelo superior domínio de todos os recursos da língua e da arte da versificação, com um conhecimento de uma ampla gama de estilos, usados em eficiente combinação. A obra é também uma séria advertência para os reis cristãos abandonarem as pequenas rivalidades e se unirem contra a expansão muçulmana.
            A obra lírica de Camões, dispersa em manuscritos, foi reunida e publicada postumamente em 1595 com o título de Rimas. Ao longo do século XVII, o crescente prestígio do seu épico contribuiu para elevar ainda mais o apreço por estas outras poesias. A coletânea compreende redondilhas, odes, glosas, cantigas, voltas ou variações, sextilhas, sonetos, elegias, éclogas e outras estâncias pequenas. A sua poesia lírica procede de várias fontes distintas: os sonetos seguem em geral o estilo italiano derivado de Petrarca, as canções tomaram o modelo de Petrarca e de Pietro Bembo. Nas odes verifica-se a influência da poesia trovadoresca de cavalaria e da poesia clássica, mas com um estilo mais refinado; nas sextilhas aparece clara a influência provençal; nas redondilhas expandiu a forma, aprofundou o lirismo e introduziu uma temática, trabalhada em antíteses e paradoxos, desconhecida na antiga tradição das cantigas de amigo, e as elegias são bastante classicistas. As suas estâncias seguem um estilo epistolar, com temas moralizantes. A écoglas são peças perfeitas do gênero pastoral, derivado de Virgílio e dos italianos. Em muitos pontos de sua lírica também foi detectada a influência da poesia espanhola de Garcilaso de la Vega, Jorge de Montemor, Juan Boscán, Gregorio Silvestre e vários outros nomes.
            O conteúdo geral de suas obras para o palco combina, da mesma forma que n’Os Lusíadas, o nacionalismo e a inspiração clássica. A sua produção neste campo resume-se a três obras, todas no gênero da comédia e no formato de auto: El-Rei Seleuco, Filodemo e Anfitriões.
            Em El-Rei Seleuco, o tema, da complicada paixão de Antíoco, filho do rei Seleuco I Nicator, por sua madrasta, a rainha Estratonice, foi tirado de um fato histórico da Antiguidade transmitido por Plutarco e repetido por Petrarca e pelo cancioneiro popular espanhol, trabalhando-o ao estilo de Gil Vicente.
            Anfitriões, é uma adaptação do Amphitryon de Plauto, onde acentua o caráter cômico do mito de Anfitrião, destacando a onipotência do amor, que subjuga até os imortais, também seguindo a tradição vicentina. A peça foi escrita em redondilhas menores e faz uso do bilinguismo, empregando o castelhano nas falas do personagem Sósia, um escravo, para assinalar seu baixo nível social em passagens que chegam ao grotesco, um recurso que aparece nas outras peças também.
            O Filodemo, composto na Índia e dedicado ao vice-rei D. Francisco Barreto, é uma comédia de moralidade em cinco atos, de acordo com a divisão clássica, sendo das três a que se manteve mais viva no interesse da crítica pela multiplicidade de experiências humanas que descreve e pela agudeza da observação psicológica. O tema versa sobre os amores de um criado, Filodemo, pela filha, Dionisa, do fidalgo em casa de quem serve, com traços autobiográficos.
            Camões via a comédia como um gênero secundário, de interesse apenas como um divertimento de circunstância, mas conseguiu resultados significativos transferindo a comicidade dos personagens para a ação e refinando a trama, pelo que apontou um caminho para a renovação da comédia portuguesa. Entretanto, sua sugestão não foi seguida pelos cultivadores do gênero que o sucederam.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Trovador Homenageado: Fernando Câncio de Araújo

Adeus... e foste saindo,
dizendo que voltarias...
E a saudade entrou sorrindo,
da mentira que dizias...

A ilusão da meninice
com meus netos se refez:
– agora, em plena velhice,
eu sou criança outra vez!…

A mão triste, vacilante,
de porta em porta estendida,
é o troféu mais humilhante
que o pobre ganha na vida.

A mulher do seu Ventura
tem o beijo tão sugante,
que engoliu a dentadura
do dito... 'naquele instante"…

Ao ver-te assim neste encanto,
mãos postas em oração,
fiquei invejando o santo
que olhavas com devoção.

A vida de faz-de-conta
que levo desde menino,
é brinquedo de desmonta
nas peças do meu destino...

Bimbalham sinos tristonhos
entre as horas esquecidas,
como a lembrar velhos sonhos
perdidos em nossas vidas…

Enquanto o sino da igreja
martela o bronze perfeito,
minha saudade solfeja
na catedral do meu peito…

Entre velhos e crianças
há dois sinos na medida.
Quando um bimbalha: – Esperanças.
O outro bate o “pôr-da-vida”.

Era um poeta de mão cheia,
hippie, cabelos revoltos...
Só poetava na cadeia,
detestava versos soltos!

Meus olhos cheios de mágoa
buscam as pedras do chão,
são dois riachos sem água
perdidos na imensidão…

Nas tardes calmas sentidas
Bem-te-vi - que afinidade:
– tu a cantar - tristes vidas
eu, vida triste - saudade!

Na velha igreja em ruína,
desprezada em abandono,
a cruz cansada se inclina,
boceja o sino de sono.

Nesta saudade abrangente
que maltrata qual açoite,
vejo teu vulto silente
passando dentro da noite!

No palco azul desta vida
toda paixão é uma fraude,
pois no ato da despedida
somente a saudade aplaude...

O morro grita o seu nome
num frenesi sem igual
e vai sambando com fome
a deusa do carnaval!

O nosso sonho termina
num adeus triste, exaltado,
deixando no chão da esquina
o teu retrato rasgado!

O que me importa a saudade
se os netos brincam lá fora,
a renovar a ansiedade
dos velhos sonhos de outrora?!...

Pescador dos verdes mares,
quando embarca em procissão,
nos lábios leva cantares
e no peito uma oração…

Saudade, marcas doridas
de um momento que passou;
bandeirinhas coloridas
que o tempo nunca rasgou.

Se de lágrimas brotasse
a água carente do agreste,
talvez nunca mais faltasse
inverno no meu Nordeste.

Sertanejo, envelheceste,
tal cardo nascido ao léu:
– quantas secas tu venceste
com os olhos postos no céu.

Tarde sem chuvas, de estio.
Cigarras, que afinidade,
passamos horas a fio
cantando a mesma saudade...