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sábado, 25 de agosto de 2018
Emílio de Meneses (Poemas ao Anoitecer) I
GOTA D’ÁGUA
Olha a paisagem que enlevado estudo!...
Olha este céu no centro! olha esta mata
E este horizonte ao lado! olha este rudo
Aspecto da montanha e da cascata!...
E o teu perfil aqui sereno e mudo!
Todo este quadro que a alma me arrebata,
Todo o infinito que nos cerca, tudo!
D'água esta gota ao mínimo retrata!...
Chega-te mais! Deixa lá fora o mundo!
Vê o firmamento sobre nós baixando;
Vê de que luz suavíssima me inundo!...
Vai teus braços, aos meus, entrelaçando,
Beija-me assim! vê deste azul no fundo,
Os nossos olhos mudos nos olhando!...
MATINA
Noite! Cesse o teu ar imoto e quedo!
Quero manhã! todos os sons que vazas!
Fujam do ninho ao lépido segredo
Todas as bulhas de reflantes asas.
Sol! tu que a terra fecundando a abrasas.
Desce da aurora em raio doce e a medo,
Todas as luzes travessando o enredo
Diáfano e leve das nevoentas gazas.
Telas festivas deslumbrai-me a vista!
Cantos alegres desferi-me em roda
Em toda a luz, em todo o som que exista.
E a natureza toda em harmonia,
Iluminada a natureza toda,
Surja gloriosa no raiar do dia.
VIDA NOVA
De uma vida sem fé de nebuloso inverno,
Furtei-me sacudindo o gelo da descrença.
Aquece-me outra vez este calor interno,
Esta imensa alegria, esta ventura imensa.
Sinto voltar de novo a minha antiga crença,
Creio outra vez no céu, creio outra vez no inferno,
Na vida que triunfe ou na morte que a vença
Creio no eterno bem, creio no mal eterno!
E quando enfim do corpo a alma for desgarrada
E procure entrever a região constelada
Que aos bons é concedida, esplêndida a irradiar,
Ao coro festival de um hino triunfante
Abra-se a recebê-la, olímpico e radiante
Todo o infinito céu do teu sereno olhar!...
O PEIXE
(José Maria de Heredia)
Do mar, ao fundo, o sol, em misteriosa aurora,
Dos corais da Abissínia a floresta alumia,
Banhando, à profundez da tépida bacia
A fauna que floresce e a palpitante flora.
E tudo o que do oceano o iodo ou o sal colora
A anêmona marinha, as algas de haste esguia,
Põe suntuoso desenho em púrpura sombria
Na pedra verminosa onde o pólipo mora.
Amortecendo o brilho à refulgente escama,
Um grande peixe vaga entre a enlaçada rama;
Da água as ondas, em torno, indolente desfralda.
Mas súbito ele agita a barbatana ardente,
E à tona do cristal azulado e dormente,
Corre um rastilho de ouro e nácar e esmeralda!
AS SEREIAS
Fui pelo mar em fora. A recurva trirreme
Ampla, em prata estendendo um rastilho de espuma,
Leva, léguas além, a áurea canção que geme
E canta, d'harpa, e ri, nas cordas, uma a uma.
Vibra sempre a canção; adelgaça-se a bruma;
Surge a lua, e ao luar, a superfície treme
Do mar que a essa canção em colo a vaga apruma,
Extreme de paixões, de cóleras extreme.
Tão sugestivo é o canto, e entre as vagas do oceano
Os golfins e dragões sorvem-lhe o eco em tal dose,
Que pouco a pouco vão tomando o aspecto humano.
Súbito, cessa o canto e as sereias em rima,
Mudas pasmam de ver esta metamorfose:
- Monstros do ventre abaixo e deusas ventre acima.
Fonte:
Emílio de Meneses. Obra Reunida.
Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1980.
Vinicius de Moraes (O amor por entre o verde)
Não é sem frequência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns 13 anos, o corpo elástico metido nuns blue jeans e num suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de-cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, 16, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida. Uma coisa eu lhes asseguro: eles são lindos, e ficam montados, um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na sua extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.
Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhes os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a perscrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando não há passantes, num longo e meticuloso beijo.
Que será, pergunto-me eu em vão, dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com os cabelos presos? E se prosseguirem se amando, pergunto-me novamente em vão, será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado?
É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado... Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que frequentemente aquela que devia ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram. E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas.
Fonte:
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
Faustino da Fonseca Júnior (Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa vol.4) IV
EM VIAGEM
Noite de lua cheia, pura brisa
Agita caprichosamente o mar
Onde o navio rápido desliza,
Dentro da superfície circular
Formada pelas aguas buliçosas
Que a abobada celeste vem tapar.
As nuvens, em manadas caprichosas,
O vapor desafiam na carreira,
Passando em turbilhões vertiginosas.
Defendendo o navio, precavida,
As aguas vão tingir de rubra cor,
A lanterna vermelha, suspendida,
E faz correr do flanco do vapor
Um jato cor de sangue, qual baleia,
Ferida pela mão do trancador.
A proa corta a vaga que volteia.
Há um arfar gigantesco, convulsivo,
D'um imenso coração que bate e anseia.
E d'aquelle organismo, forte, vivo,
Saem soluços de estridor medonho,
Saem rugidos d'um toar altivo.
Esse gigante que se ri do oceano
É criação, quase milagre, sonho,
D'outro gigante, o pensamento humano!
LIRISMO
Quisera possuir a lira harmoniosa
Dos vates geniais, dos reis da poesia
De Camões ou do Tasso, o Dante ou Cimaros
A bela inspiração a doce melodia.
Para te descrever em rima caprichosa
O meu amor sem fim, ir com a moda queria,
Dedicar-te um poema e chamar-te formosa
Tratar-te por “Marília” em vez do teu “Maria”.
Mas os versos por mais que faça vão errados,
Não soam nunca bem e fogem á medida,
E por isso não quero estar com mais cuidados.
Gosto muito de ti, bem o sabes querida.
Mas não posso imitar os outros namorados
Piegas que em idílio arrastam toda a vida.
MINIATURA
O céu puro e sereno,
O mar auri-fulgente,
O ar tépido, ameno,
O campo sorridente,
A rama do arvoredo,
A frança dos salgueiros,
A voz do fraguedo,
Que límpidos ribeiros!
Ao fundo entre a folhagem
Beijada pela aragem
Risonha reclinada
Estavas tu, Elvira.
Eu empunhando a lira
Cantei a minha amada.
DESCRENÇA
Trabalho. E cada dia que decorre
Vem trazer-me maior desilusão.
É mais uma esperança que me morre,
É mais um fundo golpe ao coração.
E acreditava, louco, no direito!
E cria, visionário, na honradez!
Inda abrigava puras no meu peito
Ilusões que este pântano desfez!
A ganância, a ambição, a intriga vil,
Como sapos e rãs n'um lodaçal,
Asquerosos, vão tudo macular.
Vence o ladrão, o néscio, o imbecil
Oh! Quem tivesse o rir de Juvenal,
Um raio pr'a orgia fulminar!
LUAR
Como é linda esta noite de luar!
Nos raios de fulgor fosforescente
Vejo recordações do teu olhar!
Fico então a cismar. Mas de repente
Uma nuvem pesada, vagarosa,
Lembra-me de que estás saudosamente
Tanto longe de mim! E pesarosa
Fica minha alma a contemplar o céu
Enamorada, crente e desditosa.
E contudo diviso um sorrir teu
No puro azul d'estrelas cintilante
Onde vagueia o pensamento meu!
Tudo consola um coração amante.
A crença de que estás também fitando
O lindo céu de mundos fulgurante,
O nosso puro amor idealizando,
Isso me basta ao coração amante,
E me vai a saudade mitigando!
Fonte:
Faustino da Fonseca Júnior. Lyra da mocidade Primeiros versos.
Angra do Heroismo/Portugal, 1892
Antonio Brás Constante (Pratique o suicídio saudável)
O suicida é alguém literalmente disposto a morrer por seus objetivos, porém, ainda assim, não pode ser considerado uma pessoa que vai conseguir ir muito longe na vida.
Ao contrário do que alguns pensam, nem todo suicida é um pessimista por natureza, como no caso do suicida otimista que pulou de um prédio de 30 andares e ao passar em queda livre já pelo vigésimo andar disse para si mesmo: “bom, até aqui tudo bem...”.
Todo dia matamos algo em nós mesmos, e muitas vezes nem percebemos isso. Somos suicidas em potencial, massacrando sonhos, destruindo chances de felicidade, desperdiçando bons momentos presentes em busca de desejos sem futuro. Existem pessoas, no entanto, que chegam ao extremo de achar que não está sobrando nada de valor em suas vidas, transformando o suicídio numa espécie de saída de emergência, na esperança de expiar seus erros, ou de alcançar a paz, e para tentar vencer suas frustrações optam por perder a própria vida.
Não é fácil viver: muitos já morreram tentando. Não existem fórmulas milagrosas que nos transformem em seres felizes e em harmonia com os animaizinhos do bosque encantado, mas antes de rasgarmos nosso bilhete vitalício (sem prazo de vencimento
determinado), deveríamos experimentar o suicídio saudável.
Para quem não conhece o termo (cunhado provavelmente a partir deste momento), o suicídio saudável consiste em eliminar apenas uma parcela de nossas vidas conhecida como melancolia (um sentimento que, quando se encontra dentro de nós, merece mesmo morrer juntamente com outros, tais como o egoísmo, a inveja, o ódio, etc.), através de ações em prol de nossos semelhantes.
Para que pensar em se matar hoje, se ainda hoje você poderia salvar outra vida e quem sabe assim também ser feliz? Ao invés de se enforcar, pule corda ou troque uma bala na cabeça por doces e balas em orfanatos. Conheça melhor os idosos e seus exemplos de vida antes de querer jogar fora a continuação de sua história. Mais importante do que uma carta explicando os motivos de sua morte é deixar marcas feitas de solidariedade.
Alguns dizem que é preciso coragem para se matar; então, por que não usar esta coragem para ajudar, ou mesmo para pedir ajuda. Basta olhar além de nossas próprias dores para encontrarmos tantas outras pessoas que, mesmo em situação pior do que a
nossa, estão querendo viver, ou mesmo sobreviver, e muitas vezes necessitam apenas de um pequeno empurrão, que pode ser dado através de nossas mãos. Do mesmo modo, também existem pessoas dispostas a estender os braços para nos dar apoio; basta querermos abrir nossos corações antes de tentarmos fazê-los pararem de bater. Vivemos em um mundo cheio de dor, egoísmo, ódio e sofrimento, mas também repleto de bons corações e almas. Então vamos ser uma dessas nobres almas; afinal, o que temos a perder?
Enfim, às vezes a melhor forma de criarmos um objetivo que fortaleça nosso sopro de vida é auxiliando nossos semelhantes na conquista do respeito e da dignidade que eles (assim como nós) merecem receber.
Fonte:
Constante, Antonio Brás. Hoje é o seu aniversário! “Prepare-se” : e outras histórias.
Porto Alegre, RS : AGE, 2009.
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
Carlos Drummond de Andrade (A Cabra e Francisco)
Madrugada. O hospital, como o Rio de Janeiro, dorme. O porteiro vê diante de si uma cabrinha malhada, pensa que está sonhando.
— Bom palpite. Veio mesmo na hora. Ando com tanta prestação atrasada, meu Deus.
A cabra olha-o fixamente.
— Está bem, filhinha. Agora pode ir passear. Depois você volta, sim? Ela não se mexe, séria.
— Vai, cabrinha, vai. Seja camarada. Preciso sonhar outras coisas. É a única hora em que sou dono de tudo, entende?
O animal chega-se mais perto dele, roça-lhe o braço. Sentindo-lhe o cheiro, o homem percebe que é de verdade, e recua.
— Essa não! Que é que você veio fazer aqui, criatura? Dê o fora, vamos. Repele-a com jeito manso, porém a cabra não se mexe, encarando-o sempre.
— Aiaiai! Bonito. Desculpe, mas a senhora tem de sair com urgência, isto aqui é um estabelecimento público. (Achando pouco satisfatória a razão.) Bem, se é público devia ser para todos, mas você compreende… (Empurra-a docemente para fora, e volta à cadeira.)
— O quê? Voltou? Mas isso é hora de me visitar, filha? Está sem sono? Que é que há? Gosto muito de criação, mas aqui no hospital, antes do dia clarear… (Acaricia-lhe o pescoço.) Que é isso! Você está molhada? Essa coisa pegajosa… O quê: sangue?! Por que não me disse logo, cabrinha de Deus? Por que ficou me olhando assim feito boba? Tem razão: eu é que não entendi, devia ter morado logo. E como vai ser? Os doutores daqui são um estouro, mas cabra é diferente, não sei se eles topam. Sabe de uma coisa? Eu mesmo vou te operar!
Corre à sala de cirurgia, toma um bisturi, uma pinça; à farmácia, pega mercúrio cromo, sulfa e gaze; e num canto do hospital, assistido por dois serventes, enquanto o dia vai nascendo, extrai do pescoço da cabra uma bala de calibre 22, ali cravada quando o bichinho, ignorando os costumes cariocas da noite, passava perto de uns homens que conversavam à porta de um bar.
O animal deixa-se operar, com a maior serenidade. Seus olhos envolvem o
porteiro numa carícia agradecida.
— Marcolina. Dou-lhe este nome em lembrança de uma cabra que tive quando criança, no Icó. Está satisfeita, Marcolina?
— Muito, Francisco.
Sem reparar que a cabra aceitara o diálogo, e sabia o seu nome, Francisco prosseguiu:
— Como foi que você teve ideia de vir ao Miguel Couto? O Hospital Veterinário é na Lapa.
— Eu sei, Francisco. Mas você não trabalha na Lapa, trabalha no Miguel Couto.
— E daí?
— Daí, preferi ficar por aqui mesmo e me entregar a seus cuidados.
— Você me conhecia?
— Não posso explicar mais do que isso, Francisco. As cabras não sabem muito sobre essas coisas. Sei que estou bem a seu lado, que você me salvou. Obrigada, Francisco.
E lambendo-lhe afetuosamente a mão, cerrou os olhos para dormir. Bem que precisava.
Aí Francisco levou um susto, saltou para o lado:
— Que negócio é esse: cabra falando?! Nunca vi coisa igual na minha vida. E logo comigo, meu pai do céu!
A cabra descerrou um olho sonolento, e por cima das barbas parecia esboçar um sorriso:
— Pois você não se chama Francisco, não tem o nome do santo que mais gostava dos animais neste mundo? Que tem isso, trocar umas palavrinhas com você? Olhe, amanhã vou pedir ao Ariano Suassuna que escreva um auto da cabra, em que você vai para o céu, ouviu?
ESTRAMBOTE
Que um dia Francis Jammes abra
lá no alto seu azul aprisco.
Mande entrar Marcolina, a cabra,
e seu bom amigo Francisco.
Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. 70 Historinhas.
São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Filemon F. Martins (Coisas do coração)
Hoje acordei contemplativo. O dia amanheceu escuro, chuvoso e triste. E enquanto chovia, observava as gotas de água que caíam na vidraça da janela e deslizavam mansamente. Uma saudade inexplicável bateu forte em meu coração. Lá fora, a chuva continuava fina, mas constante, ativando ainda mais este agridoce vazio que pesa no meu peito.
Nestes dias parece que a poesia adquire mais sabor e mais vida, transformando-se num lenitivo para o espírito. Munido de caneta e papel, começo a escrever. Escrevo com o coração uma palavra, uma frase, sobre um episódio, um fato, um sonho, uma esperança ou quem sabe a reminiscência de um amor.
Aos poucos a chuva vai cessando e sinto uma vontade incontrolável de sair pelas ruas do bairro. Talvez, eu possa ir à barbearia conversar com as pessoas. Gosto de ouvir suas histórias, sonhos e segredos e tentar entendê-los.
Por algum tempo, fico absorto, imaginando, como seria bom, se pudesse ser um pássaro. Poderia voar livre, como um beija-flor numa valsa delicada e bela em redor das flores. Poderia, ainda, cantar mavioso, como faz o sabiá nas laranjeiras. Porém, não sou pássaro e também não sei cantar, mas posso pensar. Meu pensamento é uma arma. Aliás, única arma do poeta. Com ele posso vencer obstáculos e transpor montes, rios e oceanos. Posso percorrer o Planeta Terra, porque meu pensamento não encontra barreiras na propagação da paz, da esperança e do amor.
Depois destas conjeturas, levanto-me. Fico impaciente e ando de um lado para o outro, vou até à porta, mas vejo através da janela que a chuva volta a cair. Torna-se forte. A enxurrada se faz barulhenta. Não posso sair. Volto a sentar-me e meu coração se acalma. Emudeço. Ouço uma música e volto a escrever - coisas do coração.
Fonte:
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
Jardim de Versos I
Alume Paixão
FLORAIS
No meio da dança,
Meu nariz em seu pescoço,
Aspiro e sinto.
A música mansa,
O perfume do moço,
Floral de Absinto…
Anna Maria Carneiro
FLOR FATAL
Presa à haste verde com espinhos
Protegida da dor – não bastou
Foi botão – aflorou
Flor colhida na luxúria
Usada, abusada, sofrida
Derramada no lixo, depois
Hoje, murcha, desprezada
Espera o lixeiro que passa
Para dar fim ao que começou.
Daniela Genaro
AS SUAS FLORES
As suas flores
não são pintadas,
não são bordadas.
As suas flores
não são de plástico.
As suas flores,
na verdade,
não são flores,
são sonhos.
Edweine Loureiro
FUNERAL
Quando o caixão
e as lágrimas descem,
rumo ao esquecimento,
até as velas ofertadas
são apagadas pelo vento.
O que fará, então, às flores
a implacável ação do tempo?
Francisco Ferreira
As vinhas produzem ira
num espírito inferior
mas, no coração caipira
até o brejo gera flor.
Gilmar Souza
BUQUÊ DE VERSOS
A Rosa oferece amor
E a Orquídea a pureza
O Lírio lhe dá doçura
Jacinto delicadeza
A Bromélia resistência
E a Begônia leveza.
A Tulipa esperança
A Margarida gentileza
O Cravo lhe traz talento
E o Jasmim a beleza
O Girassol felicidade
E a Camélia grandeza.
Joilson Portocalvo
SE AS FLORES
tivessem de pedir licença
ao solo para retirar a seiva
implorar ao sereno orvalha-las
recusassem perfumar brisas
embelezar cerimônias
se elas
não renascessem do nada
não se deixassem engravidar
não se rendessem ao colibri
orgulhosas
não despetalassem
nem morressem
haveria apenas um jardim
de sempre-vivas
colorindo o mundo.
Maria Thereza Noronha
JARDIM
Pessoas há que são como as
camélias.
Ao mais ligeiro toque
escurecem
(quando não caem do galho).
Mimosas sensitivas
se fazem de mortas, vivas,
cheias de malquerenças…
Esquecidas de que,
ao fim da tarde,
estaremos dissolvendo
nossas desavenças
ao pé do muro
junto às avencas.
Olga Savary
AS SUBTERRÂNEAS
Mais belas que estas flores
– mas muito mais – que florescem
atormentando mil verdes,
mais belas que estas vermelhas
incendiando o jardim,
onde mãos imprecisas
castigam querendo colher,
são as nunca nascidas,
são essas flores ocultas
em subterrâneo desejo.
Paulo Franco
CACTO
Vejo o mundo
como um caminheiro
no deserto vê um cacto.
Vejo esgoto escorrendo
sob nuvens que passeiam
e pessoas rastejando feito ratos.
Vejo a flor
que brota desse esgoto
e a dor que, feito nuvem,
esgota a flor do rosto.
Vejo os restos
dos sentidos que ensinaram
se tornarem continência
e a flor secando pelo rosto
como cacto
em redor da ausência.
Roberto Massoni
A DONA DO JARDIM
Eu reconheço que não se trata assim
quem cuida de semente no jardim
é preciso por demais delicadeza
tratos triviais, mas de princesa.
Não se maltrata quem faz gerar a flor
compondo-a com sua alma de artista
a Arte Natural da florista.
Eu reconheço que não se fere assim
quem nos espinhos se fere tanto
esperando que ao final deste meu canto
esteja eu outra vez em paz
com a dona do jardim.
Sidney Sanctus
AMOR-PERFEITO
Eu querendo afogar os meus spleens
percorri vegetal, florida trilha,
aleia envolta de perfumes, ilha –
bela difusa, luz de serafins…!
E eis que nesses oníricos confins,
esfuziante, vi linda flor, filha
com certeza da própria maravilha
a jorrar ouro em meus secos jardins!
Pétalas com miríades de cores
que espargem polens, néctar e os olores
a seduzir estrelas, rosicler…
E pelas borboletas foi eleito
supra-sumo; seu nome: Amor-Perfeito,
puro sentir entre o homem e a mulher!
Fonte:
Cláudia Brino e Vieira Vivo. Cabeça Ativa. Flores 41.
São Vicente/SP: Costelas Felinas, mai/jun/jul 2018.
Malba Tahan (A Filha do Muezim)
Lenda árabe
Conta-se que o famoso califa Al-Mamum chamou um dia o seu grão-vizir, o fiel e bondoso Abdel-Terik, e lhe disse:
— Quero casar amanhã com uma jovem muçulmana de espírito esclarecido e notável talento. Encarrego-te, meu caro vizir, de ir aos mais suntuosos palácios, como às mais humildes choupanas procurar a moça que pelos seus dotes intelectuais possa superar todas as suas companheiras!
— Escuto-vos e obedeço-vos! — respondeu o vizir, inclinando-se respeitoso.
E nesse dia, ao cair da tarde, quando o pacato vizir regressava, como de costume, a casa, causava-lhe sérias apreensões o delicado encargo que lhe dera o sultão.
Como iria ele descobrir, entre tantas jovens de seu pais, a mais viva e inteligente! Como escolher, afinal, com segurança e acerto, uma esposa digna do Emir dos Crentes?
Caminhava o velho Abdel-Terik tão preocupado e absorto em seus pensamentos, que não deu atenção a um viajante desconhecido que lhe vinha ao lado.
Em meio do caminho avistou um homem a colher trigo no campo.
O desconhecido, que se conservava sempre ao lado do vizir, deixando o mutismo em que até então estivera, observou, em voz alta:
— Ai está um bom camponês a enfeixar o seu trigo! Queira Allah que ele já não tenha comido todo o trigo que está agora colhendo!
Abdel-Terik voltou-se para o seu companheiro de jornada e fitou-o, cheio de espanto. Aquela observação inesperada e absurda era de fazer rir o árabe mais ingênuo do Islã. Como poderia um homem comer o trigo antes da colheita?
— É um insensato — pensou o vizir desconfiado. — O melhor que faço é não lhe dar resposta nem atenção.
Momentos depois encontraram um cortejo fúnebre que se dirigia ao cemitério muçulmano.
A frente vários homens conduziam, em silêncio, um caixão mortuário. Três mulheres — que pareciam viúvas — choravam, cheias de desespero.
Novamente o desconhecido observou, em voz alta, com a maior naturalidade:
— Ali vai um enterro pelo caminho de Allah! Quem sabe se aquele morto não estará ainda vivo entre nós?
Aquela segunda observação causou ao grão-vizir não menor surpresa. Só mesmo um louco poderia formular ideia tão absurda!
— Não resta dúvida — refletiu o digno ministro. — Este infeliz que vem comigo é um demente, um pobre desequilibrado. Estou certo de que um homem, em seu juízo perfeito, seria incapaz de formular tão desconchavada tolice!
Depois de caminharem ainda algum tempo juntos, chegaram os dois viajantes a uma encruzilhada.
Voltou-se o desconhecido para o grão-vizir e disse-lhe:
— Antes que nos separemos devo dizer-vos, meu amigo, que poderíamos ter vindo pelo mesmo caminho, gasto o mesmo tempo, andado do mesmo modo, fazendo, porém, uma viagem mais curta!
E sem mais palavra, afastou-se lentamente, deixando o grão-vizir mergulhado em profundo pasmo.
Dias depois, com grande pompa, realizou-se o casamento da jovem Nadima...
— Infeliz! — murmurou o bom do ministro, sinceramente penalizado. — Desafortunado filho de Adão! Esta última observação veio provar, bem claramente, que és um louco! Como seria possível, vindo pelo mesmo caminho, andando do mesmo modo, gastando o mesmo tempo, fazer uma viagem mais curta? É positivamente uma parvorice!
Ao chegar a casa contou o grão-vizir à esposa o que lhe ocorrera em caminho, repetindo-lhe as três observações do seu original companheiro de jornada.
Mal terminara o grão-vizir a sua narrativa, ouviu-se no aposento contíguo, alegre e viva risada feminina.
— Quem está aí? — perguntou, intrigado, o ministro.
— É uma pobre rapariga chamada Nadima — respondeu a esposa. — É a filha do muezim (1), veio hoje, casualmente, à nossa casa oferecer-me alguns trabalhos e bordados que pretende vender.
— Quero falar a essa jovem — replicou o grão-vizir.
Atendendo a esse chamado, surgiu a moça com o rosto coberto por espesso véu.
— Minha filha — disse-lhe, carinhoso, o grão-vizir — por que motivo achaste tanta graça no caso extravagante que acabei de contar?
— Allah que vos conserve, ó vizir! — replicou a jovem com humildade e respeito. — Notei (perdoai a minha audácia!) que muito vos iludistes, julgando louco o original muçulmano que foi vosso companheiro de viagem!
— Como assim? Não reparaste nas observações descabidas que ele fez?
— Reparai, sim, ó cheique venerável! — continuou Nadima com calma e modéstia. — A meu ver o vosso companheiro de jornada é um homem judicioso e de grande talento!
As três observações feitas revelam claramente uma inteligência invejável, um raciocínio claro e um juízo equilibrado e perfeito!
E sem dar atenção ao grande espanto que invadia completamente a fisionomia do grão-vizir, a jovem assim falou:
— A primeira observação: “Queira Allah que ele já não tenha comido o trigo que está colhendo!”, significa que podia acontecer já ter o camponês vendido antecipadamente a colheita e gasto o dinheiro assim obtido. Teria, portanto, comido o trigo que estava colhendo. Quanto à segundo observação, explica-se ainda mais facilmente. Ao dizer ele: “Quem sabe se aquele morto não está vivo ainda entre nós?”, quis significar que muitas vezes uma pessoa, pelas obras notáveis que deixa, continua, mesmo depois de morta, na recordação e no pensamento de todos, como se na verdade estivesse entre nós!
— E a terceira observação? — interrogou o ministro. — Não vejo como justificar tão desarrazoada ideia.
— É muito fácil — acrescentou, com um encantador sorriso, a filha do muezim. — Que disse o desconhecido ao chegar à encruzilhada? Que a viagem poderia ser mais curta, muito embora fosse feita durante o mesmo tempo, do mesmo modo e pelo mesmo caminho! E isso teria, realmente acontecido, se tivessem tido a felicidade de encontrar um terceiro companheiro que fosse capaz, em agradável palestra, de contar histórias e lendas maravilhosas que os distraíssem durante a jornada, suavizando-a!
Ao ouvir tão hábil e sensata explicação, exclamou o grão-vizir:
— Allah seja louvado! Encontrei na pessoa desta jovem a esposa ideal para o grande e generoso califa Al-Mamum, nosso amo e senhor!
Dias depois, com grande pompa, realizou-se o casamento da jovem Nadima, filha do muezim, com o poderoso Abdala III — Al-Mamum — Emir dos Crentes, califa de Bagdá e senhor do grande império muçulmano!
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Nota:
1- Muezim — Pregoeiro. O muezim chama do alto das almenaras (minaretes) os fiéis à oração. Os muezins, em geral são cegos.
Fonte:
Malba Tahan. Minha Vida Querida.
terça-feira, 31 de julho de 2018
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