domingo, 1 de setembro de 2024

Newton Sampaio (Funeral)

Damião entrou de mansinho no quarto abafado. Era mesmo verdade. O amigo não poderia resistir mais tempo. Trazia sulcos grandes no rosto. E os olhos, outrora irrequietos quando anunciavam um novo epigrama, restavam mortiços nas órbitas salientes.

O doente notou-lhe a chegada. Esboçou um sorriso em que punha toda a gratidão. E disse, balbuciante:

— Você... Meu velho amigo.

— É. Eu vim, Frederico. Eu vim.

— Muito... obrigado...

— Não precisa agradecer, não. Mas não fale tanto, Frederico. Você se vai cansar à toa. É preciso repouso, ouviu?

— Não quero.

— Descanse sim. Vai ficar bom mais depressa.

— Qual! Desta vez...

Passou a língua nos lábios secos.

— Chegou o meu dia.

— Ora. Nem diga isso.

Damião se levantou, a troco de nada. Fazia o possível para não chorar.

Frederico gemeu fundo. A testa brilhava, orvalhada. E o corpo todo queria pegar fogo, de tão quente.

Pediu água, numa angústia.

— Quero água, Damião. Bem... gelada.

— Paciência, Frederico. Não pode ser, não.

— Eu quero... Quero.

— Seja forte, menino.

Limpou-lhe o suor brandamente, e encostou um pano molhado na boca do enfermo.

— Eu quero é água.

— Logo. Logo você vai beber. Logo mais.

Revolvia-se, a todo instante, o Frederico.

Do lado de fora do quarto, a cidade sofrendo o sol medonho de dezembro. E do lado de dentro, a febre consumindo, consumindo...

De repente, levou a mão à nuca.

— Aqui.

— Que é?

— Aqui.

Arregalou os olhos.

— Vai estourar. É agora!... Ele vai estourar, já!

Pensava que ia arrebentar um furúnculo na nuca. Depois era a cabeça que estava aberta de lado a lado. A cabeça subiu, subiu. Pegou a cabeça. Atravessou o dedo no ouvido, e o dedo veio sair nos olhos. Os olhos saltaram. Ficaram dançando no ar. Caíram no chão. Era olho dançador! Era só o direito.

Mas a mulher chegou. Pisou, com raiva. Só viu água. A água estava afogando. Então, o furúnculo rompeu na ponta do nariz. Bem na pontinha. O nariz ficou compridíssimo. Chegou a bater na janela. Montou no nariz e saiu correndo. Voaram pela janela, ele mais o nariz. Mas a calçada era de quadradinhos. Deu com o nariz na pedra. Daí entrou na varanda. Socou um tapa no tio... O tio, que balançava na rede, ficou furioso. Deu-lhe uma sova tremenda. Foi aquela sova por causa do roubo da marmelada. Ora, a marmelada! Enterrou o focinho nela.

Encheu-se dela. E a marmelada virou língua. Uma língua danada, que lambia. Que lambia sempre.

Quando retomou consciência, caiu em prostração.

Damião era que sofria tanto como o amigo. Viveu o resto da tarde ali na beira da cama.

À noite, a febre diminuiu. A velha Luísa achava que aquela era a visita da saúde. A última visita. Mas não dizia, não. Podia assustar o moço...

— Você vai sarar logo. Tenho certeza disso.

— Por que, Damião? Não vou prestar mais pra nada...

— Nem fale.

— Eu sei...

Tirou o cabelo dos olhos.

— Sabe, Damião? Sou um caso perdido. Até à minha consciência eu menti sempre.

— Nada disso.

— Eu me arrependo. Fui um inútil. Paciência! Se acaso existisse uma outra vida, seria capaz de me regenerar, acredite.

Piorou, na manhã seguinte. Um febrão!

— Estou me queimando. Não aguento...

— Coragem, menino.

— Mas eu não quero morrer, ouviu? Não quero não... Me salve, Damião. Por favor!

Apenas passou a crise, tentou brincar.

— A bondade, meu amigo, é monótona. A inteligência é incômoda...

— E o romantismo é cretino (completou o outro, recordando as boas tertúlias do passado).

— Isso mesmo.

Fitaram-se longamente.

— Dê-me a sua mão. Como vou morrer logo... quero despedir-me... do único amigo que deixo na terra.

— Bobagem, Frederico.

— Dê-me sua mão. Assim.

E falou, pausadamente, como se estivesse são.

— Cria de alugado, hein? Você, cria de alugado... Lembra-se da palavra de Goethe? Ele falou mais ou menos assim: “Não creia nunca esquecer as dores da meninice...” Está certo?

— Sou capaz até de dizer a página.

Frederico quis sorrir. Mas uma dor aguda cortou-lhe a intenção. Gemeu alto. E quando dona Luísa entrou no quarto o coração do sulista não queria trabalhar mais...

Damião gastou todas as economias no funeral do amigo. Assim mesmo teve de encomendar um de classe inferior.

Os conhecidos, convidados pelo escriturário, prometeram ir, mas não foram.

O morto não deixara mesmo outras amizades. Até mesmo a Jeanette fujona, fora diabólica...

O carro levava duas coroas. E, atrás das coroas, caminhava Damião, em silêncio.

Dona Luísa — a pobre! — arquejava como quê! Só as vizinhas janeleiras é que estavam achando bom o enterro. Porque todo o pessoal as olhava — as únicas moças do acompanhamento.

Nas pernas do grande amigo do Frederico enroscou-se o Chouriço. O cachorro também sabia sentir a morte do dono.

Chouriço ganiu, longamente.

E Damião jurava que a marcha fúnebre de Chopin não podia ser mais triste, mais angustiada do que o ganido daquele vira-lata cheio de pulgas…

(Publicado originalmente em O Dia. Curitiba, 12/11/1936)

Fonte: Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.

Vereda da Poesia = 100 =


Trova de São Paulo/SP

DOMITILLA BORGES BELTRAME

Numa página, a saudade;
no verso – não tem escolha –
quase sempre a mocidade
faz parte da mesma folha!...
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Poema da Bahia

CASTRO ALVES
Freguesia de Muritiba (hoje, Castro Alves)/BA, 1847 – 1871, Salvador/BA

O crepúsculo sertanejo

A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.

A tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro...
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.

Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um — silêncio!... Talvez uma — orquestra...
Da folha, do cálix, das asas, do inseto...
Do átomo — à estrela... do verme — à floresta!...

As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas, — da brisa ao açoite —;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça co'as penas da noite!

Somente por vezes, dos jungles* das bordas
Dos golfos enormes, daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos — um touro selvagem.

Então as marrecas, em torno boiando,
O voo encurvavam medrosas, à toa...
E o tímido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!…
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* jungles = selvas
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Trova de Miguel Couto/RJ

EDMAR JAPIASSÚ MAIA

A despedida foi breve
e o nosso adeus sem afrontas...
Mas a saudade se atreve
a vir cobrar velhas contas! 
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Soneto de Magé/RJ

BENEDITA AZEVEDO

Minha lira

Minha lira interior vibrando ao te encontrar,
Levando-me de volta a dias tão distantes,
Naquele nosso encontro, e a mim sempre garantes
Que foi somente o acaso ali sob o luar...

Que nos levou também ao céu naquele abraço,
ao contar as  estrelas em  todo  esplendor
de uma noite suave  e cheia de sabor...
Nós dois ali sentados perto do terraço.

Mamãe a nos olhar vai chegando à janela,
convida-me a  entrar, é hora de dormir
cordialmente  vais sem  nem se despedir.

Canta meu coração, tal qual naqueles dias,
Ao entrar em meu quarto, enquanto tu partias...
Mas, hoje, meu amor, só eu vou decidir.
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Trova Premiada em Brumadinho/MG, 2004

JOSAFÁ SOBREIRA DA SILVA 
Rio de Janeiro/RJ

Nas cordas do coração,
em sonhos, dedilho, triste,
estilhaços da canção
que rasguei, quando partiste...
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Poema de Itararé/SP

SILAS CORRÊA LEITE

Família

minha mãe fritava polenta
e convidava a aurora para o banquete

Clarice tinha tranças bonitas
e uma voz de santa

Sueli era uma janela fechada
esperando um príncipe encantado

Erzita era a "irmãe" mais velha
guardiã dos sonhos de nós todos

Paulo e eu brigávamos muito
e tínhamos o destino da luta

(Célio sequer existia ainda
para ser nosso referencial futuro)

Depois meu pai vendeu a casa
Morreu 

virou saudade e nos deixou Célio Ely
de herança

E minha mãe com sua voz de clarinete
ainda alonga orações por nossos sonhos.
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Trova Popular

Quando eu te vi, logo disse:
lindos olhos para amar,
linda boca para os beijos
se a menina os quiser dar.
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Soneto de de São Paulo/SP

JB XAVIER
José Xavier Borges Junior

O Livro que não leste

De quais ignotos mundos transcendeste,
Para perder-te assim em meu passado?
E ao te perder perdi meu sonho amado...
A quais ignaros mundos pertenceste?

Por que à ignávia* lassidão cedeste?
E por que teu amor tens abrandado
Se por ti eu teria abandonado
De novo toda a vida que me deste?

Em quais ignóbeis mundos te perdeste
Vagando assim ao léu desencantado,
Que ao ferir-me sequer te apercebeste?

Eu sou a sinfonia que fizeste,
E o amor que te dedico, abnegado
É o livro da tua vida, que não leste!
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* ignávia = covarde, indolente.
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Trova de Felgueiras/Portugal

ARLINDO BRITO

És rainha. És soberana.
Porque só, por teu anelo,
a nossa humilde choupana
tem nobreza dum castelo.
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Poema de Itajaí/SC

VIVALDO TERRES

Ao encontrar-te

Ao encontrar-te na rua.
Maltrapilha, quase nua,
Implorando pedaço de pão,
Quem te conheceu não sabe,
Que fostes qual majestade
Morando numa mansão.

Tratavas teus serviçais
Como se fossem animais,
Sem amor ou compostura.
Hoje estás abandonada,
Passas as noites na calçada,
Como mendiga de rua.

Quantas noites recebestes
Esmola e compreensão
Dos mesmos que maltratavas
E arrogante, gritavas:
Vão trabalhar malandrões!

Os mesmos, indignados,
Mas pobres e necessitados.
Fingiam não te escutar
Pois eram gente honesta
Precisavam do trabalho
Pra seus filhos sustentar.

E tu, com arrogância,
Não pensavas que ferias
a alma e o coração
Daqueles que trabalhavam,
Cujo suor derramavam
Para ganharem seu pão..

Hoje vives abandonada,..
Cansada, desmemoriada,
Talvez sintas dor profunda.
Tua casa é a marquise,
Tua cama é a calçada,
Pois és mendiga de rua. 
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Trova Humorística de São Paulo/SP

THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Quando a vida se distrai
ou dá tudo ou tudo nega;
Rico, pega o carro e sai...
pobre sai – e o carro pega!
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Soneto de de Mogi-Guaçu/SP

OLIVALDO JÚNIOR

O segredo de um tesouro

“Um bom amigo, que nos aponta os erros e as imperfeições e reprova o mal, deve ser respeitado como se nos tivesse revelado o segredo de um oculto tesouro.” 
(Sidarta Gautama - BUDA) 

O segredo de um tesouro 
não está no que se tem, 
mas no que nos vale ouro: 
ser a luz irmã de alguém. 

Toda luz é mais que o louro 
das vitórias de um 'ninguém', 
um senhor que tira o couro 
dos irmãos e o seu também. 

Vem cansado e sem abrigo 
este irmão aqui presente, 
sem a luz que mais persigo... 

Um tesouro é um bom amigo, 
um irmão que o faz contente, 
bem cantante, vento ao trigo!…
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Trova de Ponta Grossa/PR

SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO
1943 – 2016

Nos mistérios deste outono,
as folhas caindo ao chão,
tecem colchas de abandono
que envolvem minha ilusão! 
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Poema do Rio de Janeiro/RJ

VINÍCIUS DE MORAES
1913 – 1980

A carta que não foi mandada

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais
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Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ

SÉRGIO BERNARDO

Celular eu não tolero
desde um pré-pago que eu tinha,
que tocou “Mamãe eu quero...”
no velório da vizinha!
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Soneto do Rio de Janeiro/RJ 

HERMES FONTES
Buquim/SE, 1888 – 1930, Rio de Janeiro/RJ

Luar 
(em Gênese)

Noite ou dia?! Ilusão... É noite. A Natureza
tem um pudor de noiva, ao beijo do noivado:
sonha, velada por um véu diáfano, e presa
de um sonho branco, um sonho alegre, iluminado.

A Lua entra por toda a parte, clara, acesa...
Desabrocham jasmins de luz, de lado a lado...
E o luar – vê bem: dirás que é o óleo da Tristeza
diluído pelo céu... pela terra entornado...

E há nos raios da Lua – a um tempo, hastis e lanças,
corações a sangrar feridos do infortúnio,
flores sentimentais do jardim das lembranças...

A ave do Sentimento as asas bate e espalma...
e, enquanto se abre aos céus a flor do Plenilúnio,
abre-se, dentro em nós, o plenilúnio da Alma...
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Trova Premiada em Brumadinho/MG, 2004

ÉLBEA PRISCILA DE SOUZA E SILVA 
Piquete/SP, 1942 – 2023, Caçapava/SP

Fracasso não me intimida,
bom ator, sou pertinaz,
repiso o palco da vida
com novo sonho em cartaz...
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Poema do Maranhão

GONÇALVES DIAS
Caxias, 1823 – 1864, Guimarães

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
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Trova do Rio de Janeiro/RJ

VASCO DE CASTRO LIMA 
(1905-2004)

Embora vivas cantando,
canário, tens vida triste:
- já vi lágrimas pingando
nessa vasilha de alpiste!
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Grinalda de Trovas de São Paulo/SP

FILEMON MARTINS

Mulher

Segue uma estrada florida
quem, na verdade, tiver
a glória de ter, na vida,
um coração de mulher!
Filemon Martins

Quero seguir meu destino
com minha cabeça erguida,
quem ama o bem, imagino,
segue uma estrada florida.

Segue uma estrada florida,
quem é da paz e requer
a esperança protegida,
quem, na verdade, tiver.

Quem, na verdade, tiver
uma paixão desmedida,
felicidade é mister
a glória de ter, na vida.

A glória de ter, na vida,
um amor minha alma quer,
numa paixão incontida
um coração de mulher!
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Trova da Princesa dos Trovadores

CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Quando a penumbra descia,
a nossa emoção vibrava,
sonhando o que não dizia,
dizendo o que nem sonhava!...
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Hino de Itaboraí/RJ

Pedra Bonita, 
foi assim que te chamaram
Certa vez em Guarani
Terra bendita, 
é assim que hoje 
te chamo minha Itaboraí

Tens uma porta aberta para o mar
És a janela do nosso país
Quem vem de longe aprende a te amar
Quem nasce aqui é a tua raíz

Com a argila do teu solo
O calor do teu colo
E o suor do teu povo

Vamos seguir com firmeza
E ajudar com certeza
A construir um mundo novo

És um eterno poema
Que tem como tema a felicidade
Escrito pelo criador, 
que te transformou nesta bela cidade (Bis)

Teus laranjais, 
teus imortais
A tua história é um hino de amor
És a própria paz, 
porque sempre estás 
nas mãos de nosso senhor (Bis)

Itaboraí, Itaboraí!
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Trova de São Mateus do Sul/PR

GERSON CESAR SOUZA

Num show que bem poucos olham,
no palco das noites calmas,
chuvas de estrelas não molham,
mas lavam as nossas almas...
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Soneto de Vitória/ES

BERNARDO TRANCOSO

Ser feliz

Vida é viver, é ser alguém, é ser ninguém,
Quando quiser; é não mentir, sempre sorrir,
Morrer de rir, quando puder; é querer bem,
Homem, mulher, um ser qualquer, sem resistir;

Não desistir, nunca chorar, só quando tem
Alguém pra ouvir; sonhar, lutar, prá descobrir
O que é amar, o que é sentir; saber também
Que é grande o amor, elevador, sempre a subir;

Crescer, ter fé, firmar o pé, pisar no chão
E caminhar; Andar e crer, buscar, querer,
Na imensidão, o teu lugar; ter mente exposta

E, a quem te gosta, essa canção, teu coração;
Responder "não", pra quem te diz: "Ser ou não ser:
Eis a questão"; pois SER FELIZ: eis a resposta.
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Trova de Bauru/SP

ANTONIO VALENTIM RUFATTO

Se há pedras na encruzilhada
do sucesso que procuras,
faze delas uma escada
para galgar as alturas.
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Fábula em Versos da França

JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry, 1621 – 1695, Paris

O passarinheiro, o açor* e a cotovia

A injustiça, o rigor desculpam-se em geral
Citando como exemplo a quantos fazem mal,
Ninguém deve esquecer a regra tão cediça:
«Respeite sempre os mais quem atenções cobiça».

Certo dia um campónio armava aos passarinhos —
Vem despontando abril, estão já sós os ninhos,
A grande natureza há muito que não dorme,
O campo todo em flor ostenta um luxo enorme,

Imprime vibrações no ambiente perfumado,
O constante esvoaçar do inquieto mundo alado —
E o homem de atalaia...
De repente sorri dizendo: — «Talvez caia!»

— Cair o quê? Não sei — objeta-me o leitor.
Era uma cotovia. A tola, a sensabor
Dispunha-se a trocar a boa liberdade
Pela rede traiçoeira, e até, que ingenuidade!

Vinha cantando alegre a procurar a morte:
Ou se é, ou não se é forte.
Neste ponto um açor, que andava pelos ares,
Faminto, peneirando em voltas circulares,

Avista a pobrezinha e rápido qual seta
Silvando fende o espaço em breve linha reta,
Cai sobre a cotovia, empolga-a rudemente,
Aperta-a, despedaça-a em fúria recrescente.

Que bárbaro glutão!
Viu tudo o caçador e resolveu-se então
A puxar o cordel da pérfida armadilha,
Que ao distraído açor enreda, envolve e pilha.

Colhido de improviso o bicho quer soltar-se,
Mas logo dissuadido, usando de disfarce,
Murmura em voz mui doce:
«Meu caro caçador, sem dúvida enganou-se,

Podia lá prender-me! Eu nunca lhe fiz mal!...»
Replica-lhe o campónio: «E o pobre do animal
Que aí tens, fez-te algum? Não me responderás?»
O açor quis responder, porém não foi capaz.
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* Açor = ave de rapina, semelhante ao falcão.

Recordando Velhas Canções (Apanhei-te cavaquinho)


(Polca, 1915)

Compositores: Ernesto Nazareth e Ubaldo Mangione

Ainda me lembro,
Do meu tempo de criança,
Quando entrava numa dança,
Toda cheia de esperança,
De chinelinho e de trança,
Com Mané e o Zé da França,
Nunca tive na lembrança,
De rever esse chorinho.

E hoje ouvindo,
Neste choro a voz do pinho,
Relembrando o bom tempinho,
Da mamãe e do maninho,
Hoje sou ave sem ninho,
Sem família, sem carinho,
Mas sou bem feliz ouvindo,
O "Apanhei-te Cavaquinho"!

Hoje cantando o "Apanhei-te Cavaquinho",
Fico louca, fico quente,
Fico como um passarinho,
Sinto vontade de cantar a vida inteira,
Esta vida, eu levo de qualquer maneira,
Ouvindo a flauta, o cavaquinho e o violão,
Eu sinto que o meu coração,
Tem a cadência de um pandeiro,
Esqueço tudo e vou cantando com jeitinho,
Este chorinho,
Que é muito Brasileiro !

Hoje cantando o "Apanhei-te Cavaquinho",
Fico louca, fico quente,
Fico como um passarinho,
Sinto vontade de cantar a vida inteira,
Esta vida, eu levo de qualquer maneira,
Ouvindo a flauta, o cavaquinho e o violão,
Eu sinto que o meu coração,
Tem a cadência de um pandeiro,
Esqueço tudo e vou cantando com jeitinho,
Este chorinho,
Que é muito Brasileiro !...
(bis a 1ª e 2ª)
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

A Nostalgia e a Alegria do Chorinho em 'Apanhei-te Cavaquinho'
A música 'Apanhei-te Cavaquinho', é uma celebração nostálgica e alegre do chorinho, um gênero musical tipicamente brasileiro. A letra remete às memórias de infância da narradora, que se recorda com carinho dos tempos em que dançava cheia de esperança, com chinelinho e trança, ao som do chorinho. Essas lembranças são evocadas com uma mistura de saudade e alegria, destacando a simplicidade e a felicidade dos momentos passados com a família e amigos.

No presente, a narradora se encontra sem família e sem carinho, mas encontra consolo e felicidade ao ouvir e cantar o chorinho 'Apanhei-te Cavaquinho'. A música se torna um refúgio, uma forma de reviver os bons tempos e de sentir-se viva e feliz novamente. A letra expressa como a música tem o poder de transformar o estado emocional da narradora, fazendo-a sentir-se como um passarinho, livre e leve, com vontade de cantar a vida inteira.

A canção também exalta a brasilidade do chorinho, destacando instrumentos típicos como a flauta, o cavaquinho e o violão, e a cadência do pandeiro. Ademilde Fonseca, conhecida como a Rainha do Chorinho, traz uma interpretação vibrante e cheia de vida, que captura a essência do gênero musical. A música é uma ode à cultura brasileira e à capacidade da música de trazer alegria e conforto, mesmo nos momentos mais difíceis.

A polca "Apanhei-te Cavaquinho" é a segunda composição mais gravada de Ernesto Nazareth, perdendo apenas para "Odeon". De andamento rápido (o autor recomendava semínima = 100 para as polcas e semínima = 80 para os tangos) é muitas vezes executada em velocidade vertiginosa por músicos exibicionistas, que presumem assim mostrar habilidade virtuosística.

Composta em 1915 e gravada no mesmo ano pelo grupo O Passos no Choro, "Apanhei-Te Cavaquinho" foi dedicada a Mário Cavaquinho (Mário Álvares da Conceição), um exímio cavaquinista, amigo de Nazareth (segundo Ary Vasconcelos, ele inventou o cavaquinho de cinco cordas e a bandurra de 14 cordas).

Em 1930 o autor gravou esta composição em disco de grande valor documental, que passou a servir de referência para novas execuções. Já classificado como choro, ganhou letra de Darci de Oliveira, em 1943, para ser gravado por Ademilde Fonseca.
Fontes: Cifrantiga