quinta-feira, 13 de abril de 2017

Olivaldo Junior (Minha Esperança)

Glosando Vanda Alves da Silva*

MOTE:
Em meus tempos de criança,
pelas poças, num tropel...
lançava minha esperança
em barquinhos de papel...
Vanda Alves da Silva/UBT Curitiba-PR

GLOSA
Em meus tempos de criança,
sossegado e até baldio,
só queria ser quem lança
novas redes para o rio!...

Numa intrépida "ignorãça",
pelas poças, num tropel,
tropeçava em quem alcança
seu sertão num carrossel...

Na calçada, Sancho Pança 
sem Quixote (tão vazio!),
lançava minha esperança,
minha rede, ao meio-fio!...

Céu azul que não se cansa,
nuvens brancas a granel,
dava a vida em confiança,
em barquinhos de papel...
_________________________

* Sobre o ato de glosar trovas, assim nos diz a célebre poeta e trovadora Gislaine Canales, no blogue "Clevane Pessoa Entrevistas": 

Glosa de Trovas, é uma composição literária em forma de quadras, de que servem de mote os versos de uma trova. Mote é a trova que serve de inspiração. 

O Glosador multiplica a trova glosada em outras quatro, repetindo-a verso por verso, cada qual ajustado às novas trovas, uma a uma, numa seqüência poética peculiar das idéias recriadas. Com isso, a glosa recebe título à parte e exibe grandeza própria. 

Tecnicamente, a glosa é o desdobramento de uma outra composição mais curta - o mote. Cada um dos versos do mote começa, integra ou termina cada uma das estrofes da glosa. As estrofes da glosa serão tantas, quantos forem os versos do mote. 

Eu coloco o primeiro verso do Mote, no primeiro verso da primeira trova da Glosa, o segundo verso do Mote, no segundo verso da segunda trova da Glosa, o terceiro verso da Mote, no terceiro verso da terceira trova da Glosa e o quarto verso do Mote, no quarto verso da quarta trova da Glosa.

Cada trova glosada representa, a meu ver, uma homenagem ao seu autor.

Entrevista, na íntegra, em: 
http://clevanepessoaentrevistas.blogspot.com.br/2007/10/gislaine-canalestnis-e-sextilhas.html

Fonte:
O Autor

quarta-feira, 1 de março de 2017

Antonio Brás Constante (O Céu e o Inferno por Telefone – Parte Dois)

Alguns assuntos não se esgotam em um único texto, principalmente se o tema for telemarketing, pois suas ligações também não se encerram após o nosso primeiro “não”, com seus atendentes invadindo nossa privacidade através de nossos ouvidos.

Para alguns, essas ligações podem vir a caracterizar certo “status social”. Por exemplo: Fulano com jeito esnobe em meio a sua seleta roda de amigos, vestindo um smoking impecável e degustando um pequeno pedaço de bombom “Ferrero Roche”, olha para todos em sua volta e lhes diz com um leve sorriso irônico que recebe cerca de cinco ligações por dia das tais operadoras. Deixando seus conhecidos cheios de inveja, por receberem no máximo duas.

Outra teoria que ganha força, graças à insistência desse pessoal que nos atormenta com seus telefonemas, é que talvez as ligações do telemarketing não tenham tão somente o intuito de querer vender algo, mas que se trataria na verdade de uma rede de apostas internacional. Onde quanto mais difícil fosse o “cliente”, menores seriam as chances entre os apostadores.

Os supostos “atendentes” seriam homens e mulheres treinados na arte da persuasão. Artistas do telefone. Tratados como verdadeiros “astros” pelos apostadores. Recebendo cachês milionários por suas atuações. Alguns seriam políticos desempregados, que descobririam no telemarketing um novo jeito de enganar as pessoas, disfarçados como persistentes e irritantes vendedores.

As apostas girariam tanto na parte da compra, quanto na parte das reclamações, reafirmando a idéia de “céu” (compras), ou “inferno” (reclamações) por telefone. No segundo caso se analisaria a paciência do cliente, ou mesmo sua memória. Isso explicaria os números cheios de letras que recebemos por parte do suporte técnico, cada vez que tentamos abrir uma reclamação, onde nos fornecem um código gigantesco e complexo denominado “protocolo”, nos fazendo crer que pelo tamanho daquele código, deve existir uma infinidade de pessoas reclamando.

Ao se tentar verificar o andamento da reclamação, o atendente que finalmente lhe atendesse diria que você anotou o número errado, e que deverá refazer o chamado. Para cada nova reclamação lhe perguntam de tudo, até a cor dos pêlos de seu cachorro (mesmo que você não tenha cachorros).

Voltando a teoria das apostas, nelas nada seria desperdiçado. Jogariam entre outras coisas: quanto à pessoa gastou, se ela é convencida de forma rápida, quantos produtos comprou, se suportou com calma toda sabatina de espera na hora de reclamar, Etc.

Enfim, às vendas por telefone vem cada vez mais se alastrando em nosso meio, parecendo uma epidemia que procura se incubar em nossa conta corrente (via debito em conta), atacando através de nosso cartão de crédito. Invadindo nossos lares e atormentando nossa paz. Tudo isto ao custo de uma ligação.

Fonte: O Autor

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Contos do Oriente (O Amestrador de Tigres)

Um dos melhores amestradores da China chamava-se Liang Yang. Ele treinava qualquer tipo de animal, de lobos a tigres, de águias a serpentes. Mas Liang Yang estava envelhecendo e, caso morresse, não haveria ninguém para substituí-lo. O rei Xuan ordenou então que Mao Qiuyuan aprendesse com ele suas habilidades de amestrador.

— Eu não tenho nada para lhe ensinar — disse Liang Yang — Acontece que se você disser isso ao rei, ele vai achar que estou de má vontade.

Mao Qiuyuan escutou em silêncio o que lhe dizia Liang Yang. Começou então a observar como o amestrador entrava na jaula do leão, acariciava sua juba durante algum tempo e saía logo depois. Nesse momento, a pantera negra urrou debaixo de uma figueira. Liang Yang aproximou-se dela, os dois observaram-se durante algum tempo, até que Liang Yang pareceu lembrar-se de que Mao Qiyuan ainda o esperava.

— E então? — Quis saber Mao Qiyuan.

— Eu vou te falar um pouco sobre cuidados que você tem de ter. Alguns animais ficam muito bravos quando são desobedecidos. Cuidado com eles! Um amestrador, por exemplo, não ousa dar ao tigre animais vivos para comer, pois logo eles ficam bravos e impacientes. Não se pode também dar aos tigres um animal inteiro. Os tigres não gostam. Preferem a comida dada aos poucos. Além disso, um amestrador tem de saber quando o animal está faminto e o que pode irritá-lo. Embora tigres e homens sejam de espécies diferentes, os tigres vivem muito bem com seus criadores porque esses amestradores conhecem bem a vontade dos tigres e nunca os desobedecem.

´Eu nunca desobedeci meus tigres, deixando-os furiosos ou agradei-os, com obediência em demasia. Freqüentes alegrias são seguidas de repetidas fúrias e repetidas fúrias de alegrias: nenhuma dessas situações pode ser boa. Sendo assim, fico calmo e tranqüilo e nunca sou obediente ou irritante em excesso. Nos olhos dos animais e dos pássaros, somos da mesma espécie. Eles vivem no meu pátio como se ele fosse deles, nunca sentindo saudade da floresta, do mar, da montanha ou do vale.


Euclides da Cunha (Poemas Escolhidos)


DEDICATÓRIA

Se acaso uma alma se fotografasse
De sorte que, nos mesmos negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos... Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos;

Amigo! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando — deste grupo bem no meio —

Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos é precisamente
O mais triste, o mais pálido, o mais feio.
__________________

DANTON

Parece-me que o vejo iluminado.
Erguendo delirante a grande fronte
— De um povo inteiro o fúlgido horizonte
Cheio de luz, de idéias constelado!

De seu crânio vulcão — a rubra lava
Foi que gerou essa sublime aurora
— Noventa e três — e a levantou sonora
Na fronte audaz da populaça brava!

Olhando para a história — um século e a lente
Que mostra-me o seu crânio resplandente
Do passado através o véu profundo...

Há muito que tombou, mas inquebrável
De sua voz o eco formidável
Estruge ainda na razão do mundo!
__________________

MARAT

Foi a alma cruel das barricadas!...
Misto de luz e lama!... se ele ria,
As púrpuras gelavam-se e rangia
Mais de um trono, se dava gargalhadas!...

Fanático da luz... porém seguia
Do crime as torvas, lívidas pisadas.
Armava, à noite, aos corações ciladas,
Batia o despotismo à luz do dia.

No seu cérebro tremente negrejavam
Os planos mais cruéis e cintilavam
As idéias mais bravas e brilhantes.

Há muito que um punhal gelou-lhe o seio.
Passou... deixou na história um rastro cheio
De lágrimas e luzes ofuscantes.
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ROBESPIERRE

Alma inquebrável — bravo sonhador
De um fim brilhante, de um poder ingente,
De seu cérebro audaz, a luz ardente
É que gerava a treva do Terror!

Embuçado num lívido fulgor
Su'alma colossal, cruel, potente,
Rompe as idades, lúgubre, tremente,
Cheia de glórias, maldições e dor!

Há muito que, soberba, ess'alma ardida
Afogou-se cruenta e destemida
— Num dilúvio de luz: Noventa e três...

Há muito já que emudeceu na história
Mas ainda hoje a sua atroz memória
É o pesadelo mais cruel dos reis!...
__________________

COMPARAÇÃO

"Eu sou fraca e pequena..."
Tu me disseste um dia.
E em teu lábio sorria
Uma dor tão serena,

Que em mim se refletia
Amargamente amena,
A encantadora pena
Que em teus olhos fulgia.

Mas esta mágoa, o tê-la
É um engano profundo.
Faze por esquecê-la:

Dos céus azuis ao fundo
É bem pequena a estrela...
E no entretanto — é um mundo!
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AMOR ALGÉBRICO

Acabo de estudar — da ciência fria e vã,
O gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente,
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel decerto foi o ente
Que este Saara atroz — sem aura, sem manhã,
A Álgebra criou — a mente, a alma mais sã
Nela vacila e cai, sem um sonho virente.

Acabo de estudar e pálido, cansado,
Dumas dez equações os véus hei arrancado,
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz.

É tempo, é tempo pois de, trêmulo e amoroso,
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar do seu olhar o luminoso X.
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SAINT-JUST

Quando à tribuna ele se ergueu, rugindo,
— Ao forte impulso das paixões audazes
Ardente o lábio de terríveis frases
E a luz do gênio em seu olhar fulgindo,

A tirania estremeceu nas bases,
De um rei na fronte ressumou, pungindo,
Um suor de morte e um terror infindo
Gelou o seio aos cortesãos sequazes -

Uma alma nova ergueu-se em cada peito,
Brotou em cada peito uma esperança,
De um sono acordou, firme, o Direito -

E a Europa - o mundo -  mais que o mundo, a França -
Sentiu numa hora sob o verbo seu
As comoções que em séculos não sofreu!
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A FLOR DO CÁRCERE

Nascera ali — no limo viridente
Dos muros da prisão — como uma esmola
Da natureza a um coração que estiola —
Aquela flor imaculada e olente...

E ele que fôra um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O lábio seco, na úmida corola
Daquela flor alvíssima e silente!...

E — ele — que sofre e para a dor existe —
Quantas vezes no peito o pranto estanca!..
Quantas vezes na veia a febre acalma,

Fitando aquela flor tão pura e triste!...
— Aquela estrela perfumada e branca,
Que cintila na noite de sua alma...
__________________

RIMAS

Ontem — quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão — louca — suprema
E no teu lábio, essa rósea algema,
A minha vida — gélida — prendias...

Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema...
Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias...

Hoje, que vivo desse amor ansioso
E és minha — és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!

E tremo e choro — pressentindo — forte,
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida — que é a morte...
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D. QUIXOTE

Assim à aldeia volta o da "triste figura"
Ao tardo caminhar do Rocinante lento:
No arcabouço dobrado — um grande desalento,
No entristecido olhar — uns laivos de loucura...

Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura
Do ideal e da Fé, tudo isto num momento
A rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre os risos boçais do Bacharel e o Cura.

Mas, certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente
Contigo a sorte, ao pôr nesse teu cérebro oco
O brilho da Ilusão do espírito doente;

Porque há cousa pior: é o ir-se a pouco e pouco
Perdendo, qual perdeste, um ideal ardente
E ardentes ilusões — e não se ficar louco!
__________________

PÁGINA VAZIA

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo, inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De guerra despiedada e aterradora.

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
Que possa figurar dignamente
Em vosso álbum gentil, minha senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
De vossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde, nesta folha lesse
Perguntaria: "Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes?”

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Antonio Brás Constante (O Céu e o Inferno por Telefone)

No decorrer da história, o homem conseguiu desenvolver ideias maravilhosas, em contrapartida também concebeu outras horríveis. Entre a lista das coisas existentes que odiamos podemos citar: as propagandas políticas, as musiquinhas que os caminhões de gás tocam pelas ruas, a broca do dentista, e é claro: o telemarketing.

O telemarketing é um conceito de comerciais por telefone. Onde ligam para nós geralmente nos momentos em que tudo o que não gostaríamos de fazer era atendê-los. Testando nossa paciência. Pondo em cheque a nossa educação para com o próximo.

Acredito que existam pessoas que já estejam tão influenciadas pelas ligações diárias que vivem recebendo, que caso houvesse uma greve das operadoras de telemarketing, elas acabariam sofrendo uma espécie de crise de abstinência pela falta de suas ligações.

No primeiro dia estranhariam um pouco a calma em seu lar. No segundo dia, começariam a pensar no que teria ocorrido para não ligarem mais. Afinal, eles sempre lhes diziam que eram clientes especiais e de muita sorte, por terem sido escolhidos em meio a milhares de outras pessoas para possuir aquele produto.

Começariam a desconfiar que talvez seu poder econômico tivesse finalmente descido abaixo da linha que separa os possíveis clientes viáveis dos inviáveis. Ou pior, talvez eles soubessem de algo que a pessoa ainda não sabia sobre si mesma. A partir daí, passaria a imaginar teorias da conspiração. A desejar que o telefone tocasse para se desculpar por todos os “não” que já dissera. O telefone enfim toca, a pessoa corre para atendê-lo, e para seu desespero, a ligação era apenas a sua mãe dizendo que estava com saudades.

Pensa em ligar para alguma operadora de cartões e ver o que acontece. Para não parecer que está interessada em adquirir algo, quando atenderem pedirá uma pizza, como se tivesse ligado para o número errado.

Ao se ligar para uma operadora de telemarketing tem-se que ter em mente que ao lhe atenderem, farão uma pergunta que determinará se você será encaminhado ao céu ou ao inferno por telefone. Ou seja, vão lhe perguntar se quer comprar algo ou fazer alguma reclamação.

Caso escolha “comprar”, imediatamente cairá em um grupo de atendentes com vozes melodiosas e sensuais, que irão brigar entre si pela chance de poder atendê-lo. Elas sussurrarão palavras quase hipnóticas em seu ouvido. Para completar, um som de fundo cheio de mensagens subliminares, fará você se sentir à vontade para gastar todo seu dinheiro ali.

Porém, se resolver ir pelos caminhos das almas torturadas que buscam reclamar de algo, caíra em um calvário sem fim. Será jogado de um atendente para outro, todos parecendo o nosso presidente, dizendo que não sabem nada daquele assunto, e que irão encaminhá-lo para outro setor. Possivelmente você sofrerá longos minutos até a ligação cair, sem que seja atendido. Mas o mais provável é que acabe se irritando e desistindo da reclamação.

Enfim o telemarketing existe, para provar que o homem ainda pode ser o pior inimigo do próprio homem, mesmo que lhe diga por telefone que você é um cliente especial.

Fonte: O Autor

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Olivaldo Júnior (Pierrô)

Começaria o Carnaval sexta-feira, à noite, e só o daria por encerrado ao meio-dia da Quarta-Feira de Cinzas. 

Não tinha como dar errado. Moço ainda, pintou sua cara, vestiu-se à caráter e se fez um Pierrô. Aquela lágrima triste pintada em relevo. "Não, não sei se devo...". Deve. Pinta sua cara, amigo, e que a Colombina o queira! Colombina? Onde estaria ela? Num baile qualquer (no que ele estaria), num filme bem velho, nas ruas antigas, no tempo remoto da delicadeza. Onde o Chico para nos cantar uma marchinha? Não sei. Só sei que o moço sairia logo em busca da flor, da única rosa que o quer bem: a dele. Haveria mesmo essa tal de tampa da panela de que os mais velhos falavam? Hoje há mais tampa que panela, né? 

Bem, ele estava decidido. Vestiu-se todo para isso. Ei! A marchinha ao longe não me deixa mentir! Vai, "menino", vai para o seu sonho! Colombina está na esquina! Arlequim? Sai já de mim! Pega o seu lugar no bloco, desbloqueia a mente e tenha fé. "Quem é você / Adivinha se gosta de mim"... É o Chico, rapaz, vai lá! Que os mascarados sejam por você! Eu, daqui de cima, o vejo ir. Está bonito. Quisera eu ter seu porte alegre, seu compromisso com o próximo beijo, com a próxima lua em seus braços! Palhaço, não achei minha "mina", a Colombina, minha alma, e voo só. Boa sorte, amigo! A noite não é mais uma criança. É uma rua de esperança sob os pés de quem não dança: ama.

Fonte:
O Autor

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Contos do Oriente (O Homem que vendia fantasmas)

Quando Sung Tingpo, de Nanyang, era ainda rapaz estava passeando certa noite quando encontrou-se com uma fantasma. Perguntou à aparição quem era e ela respondeu que era um fantasma. 

- "Quem é você ?" perguntou por sua vez o fantasma. 

Tingpo mentiu e respondeu - "Eu também sou um fantasma." 

O fantasma então quis saber para onde ele ia e Tingpo informou - "Estou a caminho para a cidade de Wanshih." 

- "Também vou para lá," afirmou a aparição. 

Assim puseram-se a caminhar juntos. Após uma milha, se tanto, o fantasma disse que era estupidez estarem andando ambos quando um podia carregar o outro, por turnos. 

- "Ótima ideia," achou Tingpo. 

O fantasma pôs Tingpo às costas e depois de ter andado uma milha disse: - "Você é pesado demais para um fantasma. Tem certeza de que é um fantasma mesmo?" 

Tingpo explicou que ainda era um fantasma novo e que, por conseguinte, ainda pesava um pouco. Tingpo, por sua vez, pôs-se a carregar o fantasma, mas esse era tão leve que tinha a impressão de não estar carregando nada. Assim foram caminhando, revezando-se, até que Tingpo perguntou ao companheiro qual era a coisa que metia mais medo aos fantasmas. 

- "Os fantasmas têm um medo horrível da saliva humana", afirmou o fantasma. 

Assim foram andando, andando até que chegaram a um rio. Tingpo deixou que o fantasma fosse adiante e observou que ele não fazia barulho algum ao nadar, mas quando ele entrou n’água, o fantasma ouviu o estalar na água e pediu-lhe uma explicação. 

Tingpo explicou novamente - "Não se surpreenda, pois ainda sou muito novo e não estou ainda acostumado a atravessar a correnteza." 

No momento em que se aproximavam da cidade, Tingpo começou a carregar o fantasma nas costas apertando-o fortemente. O fantasma pôs-se a gritar e a chorar lutando para apear-se, porém Tingpo o apertou com mais fôrça ainda. 

Ao chegar às ruas da cidade, soltou-o e o fantasma se transformou num bode. Tingpo cuspiu no animal a fim de que não pudesse transformar-se outra vez, vendeu-o por mil e quinhentos dinheiros e foi para casa. 

Eis a razão do ditado de Shih Tsung: "Tingpo vendeu um fantasma por mil e quinhentos dinheiros.”

Fonte: 

Estante de Livros (Jorge Amado: Tieta do Agreste)

Tieta do Agreste, publicado em 1977, é uma das mais populares obras de Jorge Amado, autor baiano, que criou personagens sensuais engajando criticas politico-sociais sobre o cenário nacional e especial baiano, seja na capital baiana, Salvador, ou no interior do estados nos campos cacaueiros, exportando a cultura nacional, a partir daí considerado ”embaixador simbólico do Brasil”. Tieta tem um enredo divertido e envolvente.

escritor retoma a leitura crítica do regime de exceção governamental, em moda na América Latina, e, particularmente, no solo brasileiro. A história contada em Tieta do Agreste é vivida entre os anos de 1965 e 1966, como claramente expressam trechos textuais, reafirmando ser Amado um contador continuado de histórias datadas.

Antonieta Esteves Cantarelli, apelidada de Tieta, era pastora de cabras quando foi expulsa pelo seu pai e volta ao lar anos depois, em busca de redenção e justiça, para fazer as pazes com a família, incluindo Perpétua, sua irmã gananciosa e beata solteirona.

A chegada de Tieta na pequena cidade de Santana do Agreste vai gerar grande rebuliço, Tieta tem grandes pretensões: levar luz elétrica para a cidade, já que esta era considerável ”viúva” rica vinda de Sampa. No inicio da história Tieta não aparece, na verdade nem se sabe se ela está viva, a curiosidade dos parentes da família Esteves na pequena cidade é grande, como Tieta está? O que aconteceu? E como já não bastasse, uma indústria pretende se fixar na cidade.

Um dos temas fortes no livro é o meio-ambiente e desenvolvimento, em um certo momento da história a Brastânio, uma empresa de dióxido de titânio, ameaça se instalar nos arredores de Mangue Seco (praia próxima à cidade) e destruir os manguezais, a população se divide e discussões politicas começam, retratando as peculiaridades da politica nacional como um todo e em plena ditadura Jorge dá alfinetadas ao regimento militar. 

Existem na pequena comunidade duas facções: a dos que desejam o progresso na localidade, com a atração de turistas, pouco importando com as mudanças de crenças e comportamentos (sob o comando de Ascânio Trindade, responsável pela Prefeitura local), e a dos que preferem manter o lugar protegido, evitando a invasão de turistas com a seguida alteração de crenças e comportamentos (sob o comando do Comandante Dário). Inicialmente, dá-se a oposição de interesses, focada nas alterações na paisagem – a flora e a fauna – de Mangue Seco. A “luta” acontece sob a tutela da multinacional Brastânio, do lado da instalação da fábrica e do progresso turístico, com o apoio direto da Prefeitura; em oposição, os contrários a destruição ambiental, tendo, além do Comandante, dona Carmosina e seu “Areópago”. Do lado da Brastânio, estão em cena viagens, mulheres, farras, dinheiro, interesses políticos e a boa fé de Ascânio Trindade; do outro lado aparecem artigos de jornais, as leituras de dona Carmosina, o conservadorismo do Comandante Dário etc. De um lado, a falta de escrúpulo, a ganância, a usura; de outro lado, a defesa do interesse coletivo, a preservação da ecologia, o princípio igualitário da justiça.

O cotidiano da cidade é nostálgico para quem já morou em cidades interioranas: beatas, meninos travessos, prostitutas, políticos ferrenhos e uma pitada de interesse-na-vida-alheia, ou seja, fofocas, Tieta adicionada à vinda da indústria de titânio é um prato cheio para as línguas afiadas, com um adicional de meia-xícara de romance, romances proibidos, romances líbidos: sexo. As palavras nos livros de Jorge são escolhidas, amaciadas, dançantes, um dialeto que às vezes só se pode entender ao buscar no dicionário, ou para quem vive ou viveu no interior.

Antonieta criou um próprio personagem para a sua vida, viúva rica, enquanto na verdade é dona de um bordel, moral vs realidade, ela precisa desse disfarce para se aproximar de sua família, se adequando às commodities sociais para se encaixar ou sofrerá a irá de seu pai novamente, uma das criticas de Jorge quanto a auto-aceitação.

O ciclo narrativo das peripécias aventureiras da personagem central encerra-se com a volta às propostas do exórdio, inscrito no final do primeiro capítulo, quando o narrador supostamente dialoga com seu provável leitor, dando mostra da longa e constante produção que lhe aguarda, ambiguamente carnavalizada: “Agradecerei a quem me elucidar quando juntos chegarmos ao fim, à moral da história. Se moral houver, do que duvido”

Fontes:
http://www.torredevigilancia.com/resenha-tieta-do-agreste/
excertos de Benedito Veiga em http://www.filologia.org.br/ixcnlf/7/09.htm

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Fernando Pessoa (Quadras ao Gosto Popular)


A caixa que não tem tampa 
fica sempre destampada.
Dá-me um sorriso dos teus, 
porque não quero mais nada. 

Adivinhei o que pensas 
só por saber que não era 
qualquer das coisas imensas 
que a minh'alma sempre espera. 

A rosa que se não colhe 
nem por isso tem mais vida. 
Ninguém há que te não olhe 
que te não queira colhida. 

A terra é sem vida, e nada 
vive mais que o coração... 
E envolve-te a terra fria 
e a minha saudade não! 

Cantigas de portugueses 
são como barcos no mar — 
vão de uma alma para outra 
com riscos de naufragar. 

Deixa que um momento pense 
que ainda vives ao meu lado... 
Triste de quem por si mesmo 
precisa ser enganado! 

Depois do dia vem noite, 
depois da noite vem dia, 
e depois de ter saudades, 
vêm as saudades que havia. 

Dias são dias, e noites 
são noites e não dormi... 
Os dias a não te ver, 
as noites pensando em ti. 

Duas horas te esperei, 
dois anos te esperaria. 
Dize: – Devo esperar mais? 
Ou não vens porque inda é dia? 

Em vez da saia de chita 
tens uma saia melhor. 
De qualquer modo és bonita, 
e o bonita é o pior. 

Entreguei-te o coração, 
e que tratos tu lhe deste! 
É talvez por 'star estragado 
que ainda não mo devolveste ... 

Eu tenho um colar de pérolas 
enfiado para te dar: 
– As per'las são os meus beijos, 
o fio é o meu penar. 

Fomos passear na quinta, 
fomos à quinta em passeio. 
Não há nada que eu não sinta 
que me não faça um enleio. 

Levas chinelas que batem 
no chão com o calcanhar. 
Antes quero que me matem 
que ouvir esse som parar. 

Levas uma rosa ao peito 
e tens um andar que é teu... 
Antes tivesses o jeito 
de amar alguém, que sou eu. 

Morto, hei de estar ao teu lado 
sem o sentir nem saber... 
Mesmo assim, isso me basta 
p'ra ver um bem em morrer. 

Não digas mal de ninguém 
que é de ti que dizes mal. 
Quando dizes mal de alguém 
tudo no mundo é igual. 

Não sei se a alma no Além vive... 
Morreste!  E eu quero morrer! 
Se vive, ver-te-ei; se não, 
só assim te posso esquecer. 

No baile em que dançam todos 
alguém fica sem dançar. 
Melhor é não ir ao baile 
do que estar lá sem lá estar. 

Nunca dizes se gostaste 
daquilo que te calei. 
Sei bem que o adivinhaste. 
O que pensaste não sei. 

Ó minha menina loura, 
Ó minha loura menina, 
dize a quem te vê agora 
que já foste pequenina ... 

Ouvi-te cantar de dia. 
de noite te ouvi cantar. 
Ai de mim, se é de alegria! 
Ai de mim, se é de penar! 

Por um púcaro de barro 
bebe-se a água mais fria. 
Quem tem tristezas não dorme, 
vela para ter alegria. 

Quando é o tempo do trigo 
é o tempo de trigar, 
a verdade é um postigo 
a que ninguém vem falar. 

Quando olhaste para trás, 
não supus que era por mim. 
Mas sempre olhaste, e isso faz 
que fosse melhor assim. 

Se ontem à tua porta 
mais triste o vento passou — 
Olha: – levava um suspiro... 
Bem sabes quem to mandou... 

Tenho um relógio parado 
por onde sempre me guio. 
O relógio é emprestado 
e tem as horas a fio. 

Tens uma rosa na mão. 
Não sei se é para me dar. 
As rosas que tens na cara, 
essas sabes tu guardar. 

Tens um livro que não lês, 
tens uma flor que desfolhas; 
tens um coração aos pés 
e para ele não olhas. 

Teus brincos dançam se voltas 
a cabeça a perguntar. 
São como andorinhas soltas 
que inda não sabem voar. 

Teus olhos tristes, parados, 
coisa nenhuma a fitar... 
Ah, meu amor, meu amor, 
se eu fora nenhum lugar! 

Tive uma flor para dar 
a quem não ousei dizer 
que lhe queria falar, 
e a flor teve que morrer. 

Toda a noite ouvi no tanque 
a pouca água a pingar. 
Toda a noite ouvi na alma 
que não me podes amar. 

Trazes a rosa na mão 
e colheste-a distraída... 
E que é do meu coração 
que colheste mais sabida? 

Vai alta a nuvem que passa. 
Vai alto o meu pensamento 
que é escravo da tua graça 
como a nuvem o é do vento. 

Vale a pena ser discreto? 
Não sei bem se vale a pena. 
O melhor é estar quieto 
e ter a cara serena.

Antonio Brás Constante (A Armadilha)


   Fim de tarde. Sua namorada lhe convida para passearem juntos. Como é bom namorar. Você caminhando de mãos dadas com seu amor. A cabeça flutuando longe, imaginando uma parada em algum barzinho com sua amada para desfrutarem de um delicioso sorvete, ou quem sabe um chope geladinho. De repente sente a mão dela apertar mais forte a sua, puxando-o, ou melhor, arrastando-o para dentro de uma loja.

     Então era isto. Uma armadilha. Bem que você desconfiou que havia algo errado, quando sugeriu que entrassem em uma lancheria há alguns instantes atrás e ela fez que não lhe escutou. Agora você se encontra ali, no meio de uma infinidade de roupas, parecendo uma ilha perdida. Rodeado de “panos” por todos os lados.

     Nessas horas sentimos uma certa fragilidade em nossos bolsos. Um calafrio que percorre a espinha indo parar dentro de nossa carteira, que fica acuada entre todos aqueles preços, códigos de barras e placas de ofertas.

     Antes mesmo que se recupere do trauma inicial, sua companheira se aproxima de você. Umas três peças de roupa quase idênticas nas mãos. Mudando no máximo a nuance de cores entre tons pasteis e pastosos. Ela lhe olha com um olhar doce e pergunta se a primeira peça combina com uma das sandálias dela.

      Você procurando ser prático responde “aham”. Tem-se que ter muito cuidado ao se responder sobre algo a uma mulher que faz compras. Deve-se evitar polêmicas desnecessárias que fatalmente tornariam sua permanência ali ainda mais demorada e em muitos casos poderiam abalar a harmonia entre os dois.

      A melhor resposta nesses momentos delicados é um sonoro “aham”. Ela continua lhe mostrando roupas e mais roupas, e você se mantendo firme em suas afirmações, continua emitindo o seu bom e velho “aham”.

      Lá pelo décimo “aham” ela estoura. As mulheres são mesmo imprevisíveis. Você o tempo todo tentando ser gentil, concordando com ela e agora tem uma fera indomável na sua frente. Vociferando coisas sobre insensibilidade e incompreensão.

      A raiva logo dá lugar a um choro abafado e triste. Um beicinho de quem teve o coração partido. Tudo muito rápido e intenso. Fazendo-o derreter em remorsos e culpa.

Seguem em silêncio para o caixa. Ela não tem mais dúvidas sobre quais peças levar, pois está com todas elas nas mãos. Você seguindo atrás. Carteira na mão, tentando lembrar a senha do cartão.

       Por fim, seguem os pombinhos felizes para uma praça de alimentação. Ela com o rostinho cintilando de felicidade e você imaginando que no próximo carnaval sairá vestido em uma fantasia que lhe cairá como uma luva. Irá vestido de palhaço.

Fonte: O Autor

Estante de Livros (Lúcio Cardoso: Crônica da Casa Assassinada)

A história de “Crônica da Casa Assassinada” se passa no interior de Minas Gerais, no desenrolar do século XX. Naquele momento as famílias tradicionais estavam começando a temer o desenvolvimento urbano, pois tinham receio que essas novas construções oprimissem o brilho e a soberania dos casarões. E por falar em família, a história gira em torno dos Meneses, uma família que praticamente rege a cidade, sendo considerada a “realeza” local. Apesar do jeito petulante, eles estavam em decadência; suas propriedades já não tinham tanto valor. Com isso, uma coisa se torna muito importante para compreender o que Lúcio Cardoso desejava transmitir com sua Crônica: desconfiar de tudo o que você lê, pois a velha chácara dos Meneses contém segredos inimagináveis.

Em meio às fragilidades do momento, Valdo, membro da família Meneses, retorna do Rio de Janeiro. Porém, ele não estava sozinho, trouxe consigo a bela Nina como esposa, para ser a nova habitante da Chácara. Dona de gostos extravagantes e uma beleza extraordinária, ela rapidamente vai atraindo a atenção dos habitantes da região, também devido o seu jeito mais “liberal”. Os Meneses estavam um tanto quanto preocupados, pois manter as aparências de uma família real era imprescindível.

O próprio título do livro já anuncia o enigma em que ele se constituirá, ao se debruçar sobre as lembranças angustiadas e desconexas dos vários personagens, que não se fiam na memória que construíram sobre suas relações com os outros e com a realidade. O relato que se anuncia como sendo uma crônica carece de verdade, porque não há fatos claros e objetivos. Assim, cabe ao leitor desvelar o assassino e reconstituir o crime que baila entre sofisticadas técnicas narrativas, trabalhadas por uma linguagem meticulosa, que se desdobra em descrições quase líricas não fosse a exploração aguda dos perfis psicológicos elaborados e o grotesco que surge dos dramas apresentados:

"Decerto, quando as pessoas não nos interessam, esmaecem em torno a nós com a indiferença dos objetos. Alberto, para mim, sempre fora o jardineiro, e jamais conseguira identificar sua presença senão daquele modo. Eis que agora, pelo simples manejo da existência de Nina, eu o descobria como havia descoberto a mim mesma. Este deve ser, Padre, o primeiro dom essencial do demônio: despojar a realidade de qualquer ficção, instalando-a na sua impotência e na sua angústia, nua no centro dos seres." (Cardoso, 2008, p. 110)

Crônica da casa assassinada fala, de forma não linear, da decadência e fragmentação de uma família mineira burguesa e tradicional. É narrado por várias vozes, incluindo membros da família Meneses e habitantes de Vila Velha, cidade onde vivem. O romance é construído através de cartas, recordações saudosas, diários etc. Com esse tipo de narração, é preciso analisar os detalhes da obra e não acreditar em tudo que se vê/lê. Por exemplo: quando Nina narra a Chácara onde os Meneses vivem, a impressão que se tem é de que está caindo aos pedaços. Os Meneses são descritos como gente que ficou presa no século passado e o local onde vivem também. Mas é preciso levar em conta que Nina estava acostumada ao Rio de Janeiro, uma cidade grande e urbanizada. E como num passe de mágica, ela se vê numa cidade do interior de Minas Gerais, onde tudo parecia enferrujado e empoeirado, sem contar nas recusas dos Meneses para realizar e fazer parte dos raros eventos sociais que ocorriam na cidade.

Falando um pouco mais sobre os personagens, enquanto Nina era a bela moça da cidade grande, Valdo, seu marido, é um legítimo Meneses. Para ele era necessário conservar a imagem e boa aparência do casarão, pois seria de grande valia para o futuro da cidade. A história ainda aborda o homossexualismo, com Timóteo, homossexual assumido. Ele é confinado por Demétrio (seu irmão mais velho e que assume a chefia da família depois da morte de seus pais) num quarto esquecido da casa. Ali Timóteo é “livre” para viver como deseja. A consciência de Timóteo de que um nome não deve ser um fator limitante ou decisivo da sua identidade se choca com o conservadorismo dos irmãos e do restante da cidade, tornando-o prisioneiro do seu próprio eu. Ana, por sua vez, foi educada ao gosto de Demétrio (seu marido e membro real dos Meneses). Desse modo, ela não teve liberdade para pensar e fazer as coisas como queria. Foi criada para ser rígida, usar cores neutras e passar o mais despercebidamente possível. Mas com a chegada de Nina, Ana começa a despertar para sua realidade de submissa aos costumes do marido. Ana é o oposto de Nina, foi tão bem “domesticada” por Demétrio, que ao longo da narrativa ela é vista como um objeto que se funde às paredes da velha casa.

Composta por meio de cartas enviadas e não respondidas, de trechos de diários, de depoimentos, de confissões parciais, a narrativa é fragmentada, não-linear e sem nexos explícitos de causa e consequência. As primeiras páginas com que depara o leitor são parte do diário de André. Ele nos conta o momento final das tramas ainda a serem apresentadas, mergulhando na profunda dor e revolta que lhe causara a morte de Nina, mulher da capital carioca que aporta no conservadorismo rural sustentado pela casa dos Meneses. Encerrado em seu relacionamento, André se sente profundamente traído pela perda de seu objeto de desejo. Vivendo alienado de todos e do mundo, sua fuga e sua separação da casa dos Meneses ao fim da narrativa, depois do enterro da mãe, não significam uma possível libertação da engrenagem da dor em que se encontrava preso:

"18 de... de 19... - (meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará seus restos mortais, terei de refazer neste mundo o caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo - ‘era assim que ela beijava' - naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos - todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre ?...)" (Cardoso, 2008, p. 19)

É preciso remexer os entulhos e viver o caos. O leitor, depois de cumprir a leitura, descobre que desde o início da trama narrativa também ele era vítima das aparências, pois o incesto, afinal, não ocorrera. André foge da casa sem conhecer a verdade e Valdo, que nem sequer desconfiava do que seu suposto filho pensava estar vivendo, abandona o território dos Meneses. O cadáver de Nina, mesmo enterrado, faz vibrar a urgência de se enxergar através da cortina, por entre alguma brecha possível. Esse desejo de rever o passado para que se faça a justiça é o que movimenta Padre Justino em seu último depoimento

Conhecido por travar polêmicas com os escritores nordestinos regionalistas de seu tempo, Lúcio Cardoso não nutria simpatia por esse tipo de literatura, enveredando por outras searas estéticas. Esse fato torna Crônica da casa assassinada um romance muito particular da história da literatura brasileira, porque não se enquadra facilmente em um único tipo de produção literária. O viés psicológico e o viés regionalista se encontram em processos metafóricos e metonímicos que se combinam sem que oponham. Desse modo, o tom intimista com que é realizada a exploração de personagens enigmáticas como Nina, que seduz seu suposto filho, André, dá forma e sustentação para a contestação da cultura mineira, lida na desagregação das tradicionais formas de relação familiar.

Lúcio Cardoso escreveu uma das obras mais belas e mais impactantes da literatura brasileira. Tratando de temas polêmicos como homossexualismo e o relacionamento incestuoso, o autor rompeu barreiras impostas pela sociedade. Tendo Nina, Valdo e Timóteo Menezes, como personagens principais, esse livro pretende levar o leitor a uma reflexão sobre o certo, o errado e se o imposto pela sociedade é o que deve realmente ser seguido. E cuidado, as aparências enganam! Então até que ponto podemos confiar nelas?

Fontes:
Thereza Cristina, in Catálise Crítica 
Prof. Dra. Giselle Larizzatti Agazzi in APROPUC-SP,