sábado, 16 de setembro de 2017

Olivaldo Júnior (Buquê de Trovas para o Dia do Cliente)

15 de setembro: Dia do Cliente

- Atenção: liquidação!
E uma fila já se engrossa!
No mercado da ilusão,
todo mundo se alvoroça...

Coração de vendedor
vende sonhos a varejo,
mas é mero sonhador
quando vem o realejo...

O cliente chega à porta,
para, espia, nada quer...
Para ele, o que conforta
é 'sondar' o que puder.

No pregão daquela feira,
passa o mundo da Cidade;
só não passa a feiticeira
que oferece a eternidade...

Tenho luas pra vender,
quero noites pra comprar...
Mas acabo sem saber
quanto o sonho irá custar.

Fonte:
O Autor

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Contos do Mundo (O Dragão e a Princesa)

Era uma vez um Dragão. Ou melhor, era uma vez um terrível Dragão, todo embolotado, que habitava a tenebrosa caverna negra do Reino das Águas Cantantes.

Todos os habitantes do Reino temiam o Dragão, pois como todo Dragão que se preza, este também soltava fogo pelas ventas. O rei buscava heróis que destruíssem a fera pois as colheitas estavam aos poucos sendo destruídas pelas suas labaredas e o reino empobrecia.

Por anos a fio o Rei procurou corajosos que exterminassem o ameaçador dragão, com ofertas de luxos e riquezas, mas agora, não havendo mais fortuna para premiar quem acabasse com o terrível dragão, o rei prometia casamento com Marinalva, sua filha predileta.

Mas onde é que andavam os heróis? Todos ocupadíssimos, nenhum se interessava pela oferta. Não que a princesa fosse feia, mas tinha um gênio danado! Chegava a ser mais temida do que o dragão. Aliás, não queria se casar com ninguém. Gostava de ser princesa, livre de compromissos, passear em seus cavalos e dar ordem a torto e a direito.

A oferta transtornou Belzabum, bruxo particular do rei, que há muito alimentava a pretensão de desposar Marinalva. Casando-se, assumiria o controle das finanças do reino e aumentaria seu poder. Fingia-se de doce apaixonado, mas Marinalva sempre o repudiava, aliás, como fazia com qualquer pretendente. Agora então, estando a princesa prometida para o destemido que enfrentasse o dragão, Belzabum viu suas esperanças transformadas em pó.

- Já que Marinalva não pode ser minha esposa, não será mais de ninguém! - gritou Belzabum lançando um terrível feitiço sobre a princesa.

Imediatamente, Marinalva sentiu um impulso irresistível de conduzir-se até a caverna do Terrível Dragão. O feitiço começava a fazer efeito.

Enquanto isso, o Dragão em sua caverna, reclamava:

- Como dói! Dói tudo! Deve ser gripe! Ou enfarte! A cabeça dói! As costas doem!!!! Como dói!!!

Quando ele ouviu ruídos de passos, gritou:

– Quem está aí???

Marinalva sentiu o calor. Sua pele tornou-se embolotada de urticária.

– Onde estou? Perguntou ela em voz alta.

– Quem é você? – perguntou o dragão ao perceber a silhueta de Marinalva surgindo da fumaça.

– Uau!!! Quanta luz! Quanta fumaça! – exclamou Marinalva coçando os olhos já vermelhos. A fumaça era tanta que, sem querer, ela pisou na cauda do dragão.

– O#### w##$***!!!!! – Além destas exclamações, o monstro soltou uma labareda que chamuscou os cabelos da princesa que ficaram arrepiados!

– Mas que dragão malcriado! – gritou Marinalva com o dedo em riste em direção do dragão. - Escute aqui, seu fogão de lenha quebrado, que negócio é este de me queimar? Não gostei nem um pouco. Estou uma fera!!!

O Dragão não resistiu. Vendo-a de perto, com os cabelos em pé, fumaça saindo pelas orelhas, olhos vermelhos e coberta de pelotas, apaixonou-se perdidamente! Finalmente encontrara um par! Usou sua voz mais doce, soltou uns estalidos, piscou três vezes, e disse:

– Como você é linda!

Neste momento, Marinalva viu-se refletida em uma poça d´água e deu um grito.

– AAAARGHH!

– Que voz maviosa! - elogiou o dragão.

Envergonhada de sua aparência, a princesa Marinalva não teve mais coragem de sair da caverna do dragão. Este, muito apaixonado, também enclausurou-se para viver um romance com sua amada e com isso, deixou as colheitas em paz. Não se sabe se viveram felizes, mas nunca mais foram vistos por ninguém!

Fonte:
Disponível em Contos de Encantar

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Carlos Leite Ribeiro ("Oh!... Destino…")

Queria que aquelas imagens desaparecessem completamente de sua cabeça. Não se queria lembrar do passado, mas não conseguia tirar essa ideia do cérebro por mais que tentasse.

Em sua casa, chorava muitas vezes sozinha. Nem as conversas banais com as vizinhas lhe davam um pouco de alegria, nem a televisão, que passava dias sem a ligar. Chegou a odiar os sábados e os domingos, pois, durante a semana embrenhava-se no seu trabalho e por vezes nas conversas das colegas de trabalho. Muitas vezes pensava no seu triste destino.

Tudo começou no Liceu e, desde os primeiros dias, elegeu como seus amigos especiais o Acácio Manuel e a Ernestina. Para ela eram a sua companhia predileta, não só nas aulas, como nas “escapadas” para irem ao cinema; por vezes, até ao Domingo se encontravam.

O tempo foi passando e um belo dia o Acácio apresentou a um amigo de ocasião, a Mariana como sua “namorada”. Esta ficou muito admirada com esta apresentação de “namorada”, e mais tarde perguntou-lhe:

Mariana: Olha lá, Acácio, eu sou tua namorada?!

Acácio: Pois claro que és, e desde o primeiro dia que te conheci!

Ela limitou-se a sorrir. Mais tarde deu a notícia à Ernestina, que ficou muito admirada, limitando-se a balbuciar: “Sempre pensei que era eu a escolhida…”.

Quando terminaram o Liceu, casaram-se e tudo parecia correr às mil maravilhas. Até que…

A Mariana e a Ernestina trabalhavam na mesma empresa de exportações; o Acácio trabalhava num escritório de contabilidade.

Algum tempo depois, Mariana começou a notar que a sua colega Ernestina todas as semanas pedia uma tarde, alegando “estar muito mal-disposta”. Até aí…

Numa dessas tardes, para tratar qualquer assunto, telefonou para o escritório onde o marido trabalhava, e de lá responderam que o “Acácio” tinha ido para casa com uma grande enxaqueca. À noite e já em casa, perguntou ao marido se estava melhor da “enxaqueca”. A resposta foi que tinha dado aquela desculpa para poder ir ao banco tratar de uns assuntos. A Mariana limitou-se a encolher os ombros.

Na semana seguinte, a mesma cena: A Ernestina “mal-disposta” e o Acácio com “enxaqueca”. Talvez o seu sexto sentido a avisasse que devia ir naquele momento a casa. Deu uma desculpa ao seu chefe e lá foi a caminho de sua casa. Com todo o cuidado, meteu a chave na fechadura da porta e entrou em casa sem fazer ruídos. Dirigiu-se ao seu quarto que tinha até a porta entreaberta, e ao abri-la, não gostou do que viu: o seu marido com a sua melhor amiga. Ficou como petrificada. Quando recuperou, saiu a correr de casa, meteu-se dentro do carro, e andou, andou nem sabe por onde.

Apesar dos sucessivos e pungentes pedidos de desculpas do marido, não lhe perdoou, e o divórcio deu-se.

Foi trabalhar numa sucursal da empresa, mas em outra terra…

OH!... DESTINO…

O Setembro estava a findar e com ele as primeiras chuvadas. Naquele dia até trovejava e o ar estava um pouco frio.

Como os relâmpagos sempre lhe causaram pavor, entrou no primeiro lugar que lhe parecia oferecer mais segurança, e que, por acaso, era o restaurante Grill que por vezes costumava frequentar. Era um restaurante considerado popular, quase sempre cheio à hora do almoço.

Os trovões continuavam cada vez mais fortes e os relâmpagos espalhavam raios eletrizantes em todas as direções, projetando uma luz intensa por toda a cidade. Era realmente uma tempestade assustadora. Tinha na altura 28 anos.

Recordando: “Aguardava que me servissem o almoço, quando um belo moço assomou à porta. Hesitou, mas por fim resolveu entrar. Como as outras mesas estavam ocupadas, dirigiu-se à minha e, delicadamente, perguntou:

- Dá-me licença que me sente, pois as outras mesas estão ocupadas?

Ele não era uma daquelas figuras que os gregos descrevem, mas era simpático, embora tivesse nos seus belos olhos castanhos-escuros, uma tristeza profunda. Eu não costumava compartilhar com estranhos os meus "solenes" momentos das refeições e detestava quando alguém tentava invadir a minha privacidade, mas, percebendo que não havia outro lugar desocupado, secamente, respondi-lhe:

- Sim, pode sentar-se…

Ele agradeceu e, calmamente, sentou-se. Comecei a sentir algo diferente em mim, mas logo afastei qualquer ideia da minha mente. Ele também não se mostrava muito à vontade, embora intimamente me estivesse a admirar (intuição feminina...). Eu fingia que não o estava observando, mas, volta - e - meia, descobria um ou outro detalhe interessante no meu imposto companheiro de mesa que naquela altura já saboreava um vinho tinto como se fosse a bebida mais saborosa do mundo. Olhando de vez em quando, de relance, percebi que era charmoso, muito bem cuidado. Além dos olhos castanhos e amendoados, tinha traços de pessoa fina, enfim, não deixava de ser um homem muito interessante.

Por fim, começou por perguntar se o comer era bom naquele restaurante; depois, se o meu marido não se importava que a esposa estivesse à mesa com outro homem, etc., etc. Respondi-lhe que não era casada, mas sim completamente livre. Ele pareceu ter ficado mais calmo e menos tímido. De início, eu não me senti à vontade com o rumo que a conversa estava tomando, e fiquei nervosa ao perceber que algumas pessoas conhecidas estavam nos lançando olhares atravessados, imaginando não sei o quê... Como em cidade pequena quase todas as pessoas se conhecem, no mínimo estavam censurando a minha "prosa" forçada com um cavalheiro desconhecido. Contudo, depois de algumas frases trocadas, fiquei mais descontraída e até fiz algumas indagações de somenos importância. Entretanto, começámos a almoçar e ele aproveitou para me ir dizendo que era aluno de Engenharia de Máquinas, mas por vários motivos não podia terminar o curso, sendo o principal o facto de uma moça que ele amava e já namorava há anos, o ter traído. Até parecia que se estava a confessar! Comecei a pensar:

"Este quer cantar-me a "canção do bandido", mas comigo vem de carrinho e para lá vai de carroça! Ainda tenho em mente o que sofri anteriormente"

Sorri. O que deve ter desencorajado o meu belo interlocutor, que, delicadamente, se despediu, levantou-se e foi-se embora, depois de ouvir pacientemente eu dizer, num gesto de amizade, que lamentava profundamente o que havia acontecido com ele, que o que lhe aconteceu poderia acontecer com qualquer pessoa e que a minha história não era muito diferente. Comigo, havia acontecido coisa pior, porque eu tinha sido "trocada" pela minha “melhor amiga", o que tornava a traição muito mais dolorida.

Mas, embora eu não quisesse admitir, fiquei muito decepcionada com aquela despedida algo apressada, que mais me parecia uma fuga. Fiquei ainda alguns minutos a pensar naquilo que tinha acontecido naquele almoço. Mas a vida tinha de continuar e eu tinha de entrar a horas no escritório. Tinha muitos trabalhos para fazer no computador. Realmente, precisava voltar ao trabalho e aceitar a minha realidade: a solidão.

Numa cidade pequena há sempre uma escassez muito grande de verdadeiros cavalheiros disponíveis e, querendo ou não, eu tinha que continuar levando a minha vidinha pacata e sem grandes perspectivas.

Durante muitos dias ainda alimentei a secreta esperança que ele aparecesse, mas em vão. Já fazia muito tempo que tinha chegado à conclusão que ele tinha uns belos olhos castanhos-escuros. Mas ele nunca mais apareceu e a minha vida continuou a ser o que tinha sido até aí: emprego – casa – emprego – casa.

De quando em vez ia ao cinema, mas numa localidade pequena é sempre difícil arranjar divertimentos. Por vezes mergulhava-me na Internet, horas e horas, sem saber bem o que queria navegar, o que me interessava procurar. Nem sabia o nome daquele “intruso” que tinha entrado na minha vida sem ele próprio o saber.

Mas aquele homem... Aquele homem não saía da minha cabeça... Era tão forte a presença dele no meu pensamento que parecia que eu já o conhecia há muitos anos. Era uma espécie de "namorado virtual". O namorado que era na minha mente sem nunca ter sido.

O tempo foi passando. Já estava perdendo a esperança de reencontrá-lo e cada dia ficava mais decepcionada comigo mesma por perder tanto tempo esperando por um milagre que, talvez, nunca acontecesse.

No ano seguinte, como é óbvio, o Setembro voltou.

Estava um dia esplendoroso, com muito sol e uma temperatura agradável. Como habitualmente, eu estava sentada na mesma mesa, do mesmo restaurante, em que pela primeira e última vez o tinha encontrado.

Pensava nele...

Pensava como seria maravilhoso se ele estivesse ali à minha frente, mesmo que fosse só para mostrar os seus olhos castanhos com aquela tristeza quase indecifrável. E, de vez em quando, me perguntava como uma mulher podia trair um homem como aquele, elegante, de traços finos, cavalheiro, e que, mesmo não sendo um " bonitão " , tinha uns olhos castanhos tão lindos, tão expressivos, apesar da tristeza que tentava ofuscar todo o seu brilho. Quando…

"OH!... Destino!... Tu por vezes fazes coisas maravilhosas..." De repente, como num toque de magia, ouvi uma voz que me parecia familiar, olhei de relance, e quase sem acreditar no que via, dialoguei imaginariamente com o meu Destino, e o meu coração pulsou mais forte quando tive a certeza de que era ele mesmo.

Entrou no restaurante e, assim que me viu, dirigiu-se logo para a mesa onde eu estava sentada. Aproximou-se de mim e, como se quisesse contar um segredo, foi logo me dizendo:

- Não acredito que um ano depois, você esteja sentada no mesmo lugar, no mesmo restaurante, e parecendo a mesma "garotinha" assustada que eu conheci aqui, sem esse sorriso lindo estampado no rosto, como tem agora. E encostando-se em mim quase ousadamente, perguntou-me tentando parecer engraçadinho:

- Por acaso tínhamos marcado alguma comemoração um ano depois do nosso primeiro encontro?

Sorrimos, parecendo velhos amigos, e ficámos rindo como duas crianças que apreciavam as mesmas brincadeiras. Desta vez nem pediu licença, sentou-se logo. E logo senti um enorme desejo que ele me contasse todas as "histórias de bandido que ele conhecesse". E que me conhecesse melhor... Mas ele limitou-se a contar que tinha emigrado para o Rio de Janeiro para refazer a vida, mas que nunca me tinha esquecido. Eu nem podia dizer que não acreditava, porque parece que ele estava em todas as coisas bonitas que eu via, e embora eu ainda não soubesse nem o seu nome, eu não o havia esquecido em momento algum e, para falar a verdade, estava ali quase chorando de tanta felicidade.

Foi nesse dia, um ano depois de nos termos encontrado, que tivemos oportunidade de revelar os nossos verdadeiros nomes: ele João e eu Mariana.

Hoje, estou aqui emocionada, sentada no mesmo lugar, do mesmo restaurante, a pensar naqueles belos olhos castanhos que um dia me apareceram e que modificaram completamente a minha vida. Alguns anos se passaram, mas para nós parece que o tempo não passou, porque parecemos eternos namorados. João trabalha numa cidade vizinha onde moram seus pais, mas não deixa de voltar para casa todos os dias porque nos amamos muito e não podemos ficar separados muito tempo porque sentimos muita falta um do outro. Por isso, até hoje, agradecemos a Deus por aquele dia de temporal em que nos conhecemos. Sou casada com ele. Temos dois filhos amorosos e, para o fim deste ano espero ter o terceiro. A nossa vida em comum cada dia se torna mais bonita. Temos gostos e gênios bem-parecidos, e naquilo em que não combinamos, respeitamos mutuamente as nossas diferenças. Nossos filhos são o Leonardo e o Telmo.

O terceiro e último, terá o nome de Miguel, que talvez venha ao mundo no próximo dia 25 de Dezembro. Já escrevemos ao Pai Natal para que não se esqueça de lhe mandar uma prenda.

Lembro-me das palavras de minha avó: “A Felicidade é como a Fortuna, vem na hora e se não é aproveitada, vai-se logo embora”

OH!... DESTINO…

Fonte:
Portal CEN

domingo, 10 de setembro de 2017

Virgínia Woolf (Objetos Sólidos)

A única coisa a se mover no vasto semicírculo da praia era um pontinho preto. Quando ele chegou mais perto das vértebras e espinha do barco de sardinhas na areia, tornou-se visível, por certa tenuidade em seu pretume, que o ponto tinha quatro pernas; e tornou-se mais claro, de momento a momento, que era composto pelas pessoas de dois jovens. Mesmo assim, em contorno contra a areia, havia neles uma vitalidade inconfundível; um vigor indescritível na aproximação e no retraimento dos corpos a indicar, malgrado sua insuficiência, alguma discussão violenta que saía das bocas diminutas das cabecinhas redondas. O que era confirmado, a uma inspeção mais atenta, pelas repetidas estocadas que uma bengala vinha dando pelo lado direito. “Você então quer me dizer… Você de fato acredita…”, assim, do lado direito, perto das ondas, parecia sustentar a bengala, enquanto cortava pela areia tiras retas e longas.

“Que se dane a política!”, adveio claramente do corpo à esquerda e, ao serem pronunciadas tais palavras, as bocas, narizes, queixos, bigodinhos, gorros de lã, botas grosseiras, capotes de caça e meias axadrezadas dos dois falantes tornaram-se cada vez mais distintos; a fumaça dos seus cachimbos subia pelo ar; nada era tão sólido, tão vivo, tão rijo, rubro, viril e hirsuto quanto esses corpos por quilômetros e mais quilômetros de mar e dunas de areia. Lançaram-se os dois ao fundo das seis vértebras e espinha dorsal do barco negro de sardinhas. Sabe-se como o corpo parece sacudir-se para livrar-se de uma discussão e desculpar-se por uma exaltação de ânimo; lançando-se ao fundo e exprimindo em seu afrouxamento de atitude a presteza para se ocupar de algo novo — seja o que for que a seguir venha à mão. Assim Charles, cuja bengala estivera, por quase um quilômetro, a retalhar a praia, começou a atirar pedaços planos de lousa para ricochetear sobre a água; e John, que havia exclamado

“Que se dane a política!”, começou a meter seus dedos na areia, cada vez mais fundo. Quanto mais ele enfiava a mão, que ao chegar além do pulso forçou-o a puxar a manga um pouco mais para cima, mais seus olhos perdiam em intensidade, ou melhor, o substrato de pensamento e experiência que dá profundidade inescrutável aos olhos das pessoas adultas desaparecia, para deixar apenas a clara superfície transparente, nada expressando além do espanto que os olhos das crianças demonstram. Sem dúvida o ato de cavar na areia tinha alguma coisa a ver com isso. Lembrava-se ele como, depois de cavar um pouco, a água escorre pelas pontas dos dedos; o buraco então se torna um fosso; um poço; uma nascente; um canal secreto para o mar. Enquanto ele decidia qual dessas coisas fazer, seus dedos, ainda se movendo na água, enroscaram-se em torno de algo duro — toda uma gota de matéria sólida — para desentocar pouco a pouco, trazendo-o à superfície, um grande e irregular fragmento. Ao ser lavada a areia que o cobria, surgiu um verde desmaiado. Era um caco de vidro, tão grosso a ponto de se tornar opaco; tudo o que fosse forma ou gume já se gastara por completo com o alisamento do mar, sendo impossível dizer assim se havia sido de garrafa, vidraça ou copo; não era nada, a não ser vidro; era quase uma pedra preciosa. Bastaria circundá-lo de uma borda de ouro, ou perfurá-lo com um arame, para que se tornasse uma joia; parte de um colar, ou uma luz verde e fosca sobre um dedo. Afinal, talvez fosse realmente uma gema; alguma coisa usada por uma princesa negra que, sentada na popa da embarcação, ia arrastando o dedo pela água enquanto ouvia os escravos que cantavam ao conduzi-la a remo através da baía. Ou então as tábuas de carvalho de uma arca do tesouro elizabetana é que se haviam despregado, tendo suas esmeraldas, ao sabor das ondas, para cá e para lá, finalmente chegado à praia. John se pôs a revirá-lo nas mãos; e o ergueu na luz; ergueu-o de tal modo que sua massa irregular eclipsou o corpo e o braço direito esticado de seu amigo. O verde se atenuava e turvava ligeiramente ao ser mantido contra o céu ou o corpo.

Causava-lhe prazer; intrigava-o; comparado ao vago mar e à costa tão imersa em brumas, era um objeto bem duro, bem concentrado, bem definido. Uma visão o perturbava agora — decisiva e profunda, tornando-o consciente de que seu amigo Charles havia jogado todas as pedras planas ao alcance da mão, ou chegado à conclusão de que não valia a pena fazê-lo. Lado a lado eles comeram seus sanduíches. Tendo-o feito, já se punham de pé e sacudiam-se quando John pegou o caco de vidro para o olhar em silêncio.

Charles olhou também. Mas imediatamente viu que ele não era achatado e, enchendo seu cachimbo, disse com a energia que rejeita um descabido esforço de pensamento: “Para voltar ao que eu estava falando…”.

Ele não tinha visto ou, se visse, mal teria notado que John, após examinar por um momento o vidro, como que em hesitação, o enfiara no bolso. Tal impulso poderia também ter sido o impulso que leva uma criança a apanhar uma pedrinha num caminho no qual elas se esparramam, prometendo-lhe uma vida em segurança e quentura sobre a lareira do quarto, deleitando-se com a sensação de poder e benignidade que uma ação como essa propicia e acreditando que o coração da pedra pula de alegria quando se vê escolhido, dentre um milhão de iguais, para gozar de tal felicidade, não de uma vida de umidade e frio na estrada. “Bem que poderia ter sido qualquer outra dos milhões de pedras, mas fui eu, eu, eu!”

Estivesse ou não essa ideia na cabeça de John, o fato é que o pedaço de vidro encontrou seu lugar em cima da lareira, onde solidamente se plantou sobre uma pequena pilha de cartas e contas, servindo não só como excelente peso de papéis, mas também como ponto natural de parada para o olhar do rapaz, quando ele se desviava do livro. Visto repetidas vezes e de modo semiconsciente por uma cabeça que pensa noutra coisa, qualquer objeto se mescla tão profundamente à substância do pensar que perde sua forma verdadeira e se recompõe com alguma diferença numa feição ideal que obseca o cérebro, quando menos se espera. John se via assim atraído, quando saía para andar, pelas vitrines das lojas de raridades, simplesmente por ter visto alguma coisa que o lembrava daquele caco de vidro. Qualquer coisa, desde que fosse algum tipo de objeto, mais ou menos redondo, talvez com uma chama agonizante imersa a fundo em sua massa, qualquer coisa — porcelana, vidro, âmbar, rocha, mármore — até mesmo o ovo liso e oval de uma ave pré-histórica serviria.

Habituou-se ele também a andar de olhos no chão, especialmente nas adjacências dos terrenos baldios onde são jogados fora os refugos das casas. Tais objetos ocorriam lá com frequência — jogados fora, de nenhuma utilidade para ninguém, disformes, descartados. Em poucos meses ele fez uma coleção de quatro ou cinco espécimes que foram para o mesmo lugar, parando em cima da lareira. Eram úteis também, pois um homem que concorre ao parlamento, no limiar de uma brilhante carreira, tem uma boa quantidade de papéis para manter em ordem — comunicados a eleitores, plataformas políticas, apelos a subscrições, convites para jantares e assim por diante.

Um dia, saindo de seus aposentos no Temple para pegar um trem, a fim de falar aos eleitores, seus olhos bateram num objeto extraordinário que jazia semioculto numa dessas bordaduras de grama que orlam as bases dos grandes prédios forenses. Não podendo senão tocá-lo, através da cerca, com a ponta da bengala, ele podia ver no entanto que era um caco de porcelana de forma bem singular, quase tão parecido com uma estrela-do-mar como qualquer coisa formada — ou acidentalmente quebrada — em cinco pontas irregulares, não obstante inconfundíveis. Se em sua coloração predominava o azul, ao azul se sobrepunham faixas ou manchas verdes de algum tipo, enquanto linhas carmesins davam-lhe uma riqueza e um brilho da mais atraente espécie. John estava decidido a possuí-lo; quanto mais perseverava nisso, mais no entanto ele retrocedia.

John, por fim, se viu forçado a voltar a seus aposentos para improvisar uma argola de arame presa na ponta de uma vara, com a qual, à força de grande habilidade e com muito cuidado, finalmente trouxe o pedaço de porcelana ao alcance das mãos. Ao apanhá-lo, soltou uma exclamação de triunfo. E o relógio bateu nesse momento. Já não lhe era mais possível cumprir seu compromisso. A reunião foi realizada sem ele. Mas como o caco de porcelana se partira daquele modo notável? Um exame cuidadoso deixou fora de dúvidas que a forma de estrela era acidental, o que tornava tudo ainda mais estranho, e parecia improvável que pudesse existir outro assim. Posto sobre a lareira, no lado contrário ao do caco de vidro que havia sido retirado da areia, dava ele a impressão de ser uma criatura de outro mundo — fantástica e extravagante como um arlequim. Parecia estar fazendo piruetas no espaço, tremeluzindo como uma estrela que pisca. Fascinado pelo contraste entre a porcelana, tão vívida e alerta, e o vidro, tão contemplativo e calado, ele se perguntou, pasmo e perplexo, como os dois tinham vindo a existir no mesmo mundo, para plantar-se, além do mais, no mesmo cômodo, na mesma estreita faixa de mármore. Mas a pergunta permaneceu sem resposta.

Ele então passou a frequentar os lugares em que os cacos de porcelana mais proliferam, como as nesgas de chão que sobram entre as linhas de trem, os terrenos de casas demolidas e as áreas públicas dos arredores de Londres. É porém muito raro, é um dos mais raros dentre os atos humanos, que se jogue porcelana de uma grande altura. É preciso achar em conjunção uma casa bem alta e uma mulher tão impulsiva e de prevenções tão coléricas que é capaz de atirar pela janela seu jarro ou pote, sem pensar em quem está embaixo.

Encontravam-se em abundância cacos de porcelana, porém quebrados na trivialidade de um acidente doméstico, não de propósito, e sem caráter. Não obstante ele se admirava com frequência, quando veio a entrar mais a fundo na questão, da imensa variedade de formas a encontrar-se apenas em Londres, havendo ainda mais motivos para especulação e espanto nas diferenças de padrões e qualidade. Os melhores espécimes ele levaria para casa e colocaria em cima da lareira, onde a função que lhes cabia era porém cada vez mais de natureza ornamental, já que os papéis que necessitavam de um peso para os manter sem voar tornavam-se progressivamente mais raros.

Descuidou-se de suas obrigações, talvez, ou as cumpria de um modo por demais desatento, ou então seus eleitores, quando o visitavam, viam-se desfavoravelmente impressionados pelo aspecto de sua lareira. Fosse como fosse, não foi eleito para os representar no parlamento, e seu amigo Charles, sentindo muito e se apressando a manifestar seu pesar, achou-o tão pouco abalado com a derrota que não pôde senão supor que a questão era grave demais para ele a entender de imediato.

Na verdade, John havia estado nesse dia nas áreas públicas de Barnes, onde achara, sob uma moita de tojo, um pedaço de ferro bem pouco comum. Era, na conformação, quase idêntico ao vidro, maciço e globuloso, mas tão frio e pesado, tão metálico e negro, que evidentemente era estranho à Terra, tendo sua origem numa das estrelas mortas, se não fosse em si mesmo escória de uma lua. Em seu bolso, pesava muito; e pesou muito em cima da lareira, irradiando frio. No entanto, o meteorito ficou na mesma prateleira com o caco de vidro e a porcelana em forma de estrela.

Quando seus olhos passavam de um para o outro, a determinação de possuir objetos que chegassem a ultrapassar aqueles atormentava o rapaz. Resolutamente ele se consagrou cada vez mais à procura. Se não ardesse de ambição, se não estivesse convencido de ser recompensado algum dia por um monte de lixo recentemente descoberto, as decepções que sofreu, sem falar do cansaço e do ridículo, teriam-no feito desistir da empreitada. Munido de uma bolsa e de uma vara comprida na qual se adaptava um gancho, revolveu todos os monturos de terra; escarafunchou sob densos emaranhamentos de mato; buscou por todas as vielas e espaços entre paredes onde se habituara a esperar descobrir objetos desse tipo jogados fora. Tornando-se seus critérios mais rígidos e seu gosto mais exigente, as decepções eram inumeráveis, mas sempre um brilho de esperança, um caco de porcelana ou de vidro com alguma marca curiosa ou curiosamente quebrado, o enganava. Passou-se um dia após o outro. E ele já não era mais jovem. Sua carreira — isto é, sua carreira política — tornou-se coisa do passado. As pessoas deixaram de visitá-lo. Ele era muito calado para que valesse a pena convidá-lo para jantar. Nunca falava com ninguém sobre as ambições tão sérias que tinha; a falta de compreensão dos outros transparecia no seu comportamento.

Recostado em sua cadeira, ele agora observava Charles, que repetidas vezes erguia as pedras em cima da lareira e enfaticamente as repunha em seu lugar para marcar o que ele estava dizendo sobre a orientação do governo, sem nem sequer notar a existência delas.

“Qual é a verdade, John?”, perguntou Charles de repente, virando-se para encará-lo. “O que o levou a desistir de tudo assim sem mais nem menos?”

“Eu não desisti”, respondeu John.

“Mas agora você não tem mais chance nenhuma”, disse Charles com aspereza.

“Nisso eu discordo de você”, disse John convictamente. Charles, olhando-o, sentiu-se profundamente incomodado; foi possuído pelas dúvidas mais extraordinárias; teve uma impressão esquisita de que os dois estavam falando de coisas diferentes. Olhou em torno, a fim de encontrar algum alívio para sua horrorosa depressão, mas a aparência desordenada do quarto o deprimiu ainda mais. O que eram aquela vara e a velha bolsa de tapeçaria pendurada na parede? E aquelas pedras? Ao olhar para John, algo fixo e distante em sua expressão o alarmou. Ele sabia muito bem que a presença do amigo num palanque já estava fora de questão.

“Bonitas pedras”, disse tão jovialmente quanto pôde; e foi dizendo que tinha um compromisso a cumprir que ele se despediu de John — para sempre.

Fonte:
Virginia Woolf. A Marca na Parede e Outros Contos

sábado, 9 de setembro de 2017

Solano Trindade (Poemas Escolhidos)

BALADA DO AMOR

É preciso fugir
De todo o amor que faz sofrer
É preciso fugir do amor...
Talvez a chuva lá fora faça bem
Talvez o frio da noite
Seja como alguém...

MEU CANTO DE GUERRA

Eu canto na guerra,
Como cantei na paz,
Pois meu poema
É universal.
É o homem que sofre,
O homem que geme,
É o lamento
Do povo oprimido,
Da gente sem pão...
É o gemido
De todas as raças,
De todos os homens.
É o poema
Da multidão!

O CANTO DA LIBERDADE

Ouço um novo canto,
Que sai da boca,
de todas as raças,
Com infinidade de ritmos...
Canto que faz dançar,
Todos os corpos,
De formas,
E coloridos diferentes...
Canto que faz vibrar,
Todas as almas,
De crenças,
E idealismos desiguais...
É o canto da liberdade,
Que está penetrando,
Em todos os ouvidos...

ORGULHO NEGRO

Eu tenho orgulho de ser filho de escravo...
Tronco, senzala, chicote,
Gritos, choros, gemidos,
Oh! que ritmos suaves,
Oh! como essas cousas soam bem
Nos meus ouvidos...
Eu tenho orgulho em ser filho de escravos...

POEMA DO HOMEM

Desci à praia
Para ver o homem do mar,
E vi que o homem
É maior que o mar

Subi ao monte
Pra ver o homem da terra,
E vi que o homem
É maior que a terra

Olhei para cima
Para ver o homem do céu,
E vi que o homem
É maior que o céu.

QUEM TÁ GEMENDO?

Quem tá gemendo,
Negro ou carro de boi?
Carro de boi geme quando quer,
Negro, não,
Negro geme porque apanha,
Apanha pra não gemer...

Gemido de negro é cantiga,
Gemido de negro é poema...

Gemem na minh'alma,
A alma do Congo,
Da Niger, da Guiné,
De toda África enfim...
A alma da América...
A alma Universal...

Quem tá gemendo,
negro ou carro de boi?

TEM GENTE COM FOME

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

VOU PRA TERRA DE IRACEMA

Vou pra terra de Iracema,
Amanhã - se Deus quiser,
Dizem que a terra é bonita,
Como olhar de mulher...

Vou pra terra de Iracema
Vou m'imbora prô Ceará
Meu coração quer queu siga
A minh'alma quer qu'eu vá...
 
POEMA AUTOBIOGRÁFICO

Quando eu nasci,
Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão,
Para o angu das manhãs...
Portanto eu venho da massa,
Eu sou um trabalhador...

Ouvi o ritmo das máquinas,
E o borbulhar das caldeiras...
Obedeci ao chamado das sirenes...
Morei num mucambo do "Bode",
E hoje moro num barraco na Saúde...

Não mudei nada...

NEGRA BONITA

Negra bonita de vestido azul e branco
Sentada num banco de segunda de trem
Negra bonita o que é que você tem?
Com a cara tão triste não sorri pra ninguém?

Negra bonita
É seu amor que não veio
Quem sabe se ainda vem
Quem sabe perdeu o trem
Negra bonita não fique triste não
Se seu amor não vier
Quem sabe se outro vem
Quando se perde um amor
Logo se encontra cem
Você uma negra bonita
Logo encontra outro bem.

Quem sabe se eu sirvo
Para ser o seu amor
Salvo se você não gosta
De gente da sua cor
Mas se gosta eu sou o tal
Que não perde pra ninguém
Sou o tipo ideal
Pra quem ficou sem o bem...

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Conto da Sibéria (A Princesa Marya e Blênio)

Certa vez, numa terra muito distante, vivia uma princesa tão bela que muitos príncipes vieram pedir sua mão em casamento. Mas seu pai, o czar, recusou-os todos, achando que nenhum era bom o bastante para ela. Um dia, um velho perguntou ao czar, se seu filho poderia casar-se com a princesa.

– Quem é seu filho? -perguntou o czar.

– Majestade - respondeu o velho - “meu filho é um blênio”.

– Mas esse é um peixe que vive no fundo do rio! - o czar exclamou - O que você está dizendo é ridículo!

- Sim, de fato - persistiu o velho - Durante muitos anos minha mulher e eu sofremos porque não tínhamos filhos. Então, certo dia, enquanto eu pescava, encontrei Blênio na ribanceira do rio. O peixe pediu-me que lhe poupasse a vida e prometeu que seria um filho para mim e minha esposa, e então o levei para casa. Agora, como ele cresceu, pediu-me que lhe arranjasse o casamento com sua filha.

– Por que eu deixaria que a princesa se casasse com ele? - perguntou o czar.

Naquele momento, detrás de uma cortina, a filha se manifestou.

– Pai, por que você não dá uma tarefa ao Blênio? Se ele obtiver êxito, casar-me-ei com ele, mas se ele fracassar, será morto. É assim que os russos fazem, disse ela.

O czar pensou por um instante.

– Bom, meu velho, o seu filho pode se casar com minha filha se ele construir um novo palácio para ela, melhor que o meu. E deve fazer isso até amanhã de manhã, do contrário cortar-lhe-ei a cabeça e a sua também, para que sirva de lição!

O velho quase morreu de terror, mas ao voltar para casa e contar ao filho qual era a exigência do czar, Blênio disse: – Não tema, pai. Vá dormir, e “amanhã veremos o que tivermos de ver”.

Naquela noite, Blênio deslizou até a porta da casa, saltou o muro, e transformou-se num lindo rapaz. Ergueu um bastão de ferro e fincou sua ponta no chão. Instantaneamente, surgiram trinta homens armados que lhe perguntaram: – Qual é o seu desejo?

– Construam-me um palácio vizinho ao do czar, ainda mais belo que o dele.

Os homens responderam que fariam o serviço e ele voltou para casa como peixe. Na manhã seguinte, ele acordou o pai e disse: – Pegue um machado, vá ao palácio do czar, depois volte e diga-me o que viu.

O velho fez o que o filho pediu e não conseguiu acreditar no que seus olhos viam. O palácio era mais lindo do que o do czar e o velho pegou o machado e atingiu suas paredes, mas nem uma só lasca saiu das paredes. Voltou para casa e disse o que vira ao filho.

– Agora - disse o filho - vá até o czar e peça a mão de sua filha, novamente.

Nesse ínterim, o czar tinha visto o novo palácio e ficou intrigado. Pensou: - “O filho deste velho não é um homem comum!” Entretanto, odiava a ideia de sua filha casar-se com um peixe. Quando o velho chegou, o czar disse: - Tenho outra tarefa para seu filho. Ele deve construir uma igreja , tão linda como a catedral. E tem que construir três pontes : uma que vá da velha catedral até a nova, outra da nova igreja até o palácio e a terceira da minha casa até o palácio dele. Se ele não construir até amanhã vocês morrerão.

O velho tremeu e pensou: - Eu devia ter matado Blênio no rio! – Mas quando contou ao filho a nova tarefa, ele sorriu e disse: –  Não tema, pai. Vá dormir e “amanhã veremos o que tivermos de ver.”

Naquela noite, depois do velho ir dormir, ele novamente saiu de casa e virou um rapaz e quando seus homens apareceram ele mandou que construissem a catedral e as três pontes. Ele voltou para casa e foi dormir.

No dia seguinte ele acordou o pai e disse novamente para ele pegar o machado e ir até o palácio do czar. O velho foi, e quando chegou perto viu a linda catedral que fora erguida e as três pontes. O velho tentou atingir a Igreja com o machado, mas nem uma só lasca saiu. Voltou para casa contando tudo para o filho.

– Meu pai, vá até o palácio e veja o que o czar dirá desta vez. Quando chegou, o velho viu o czar admirando assombrado a catedral e as três pontes. Mas ele disse ao velho que tinha uma última tarefa para seu filho.

– Diga a ele que quero que me traga um trenó e três cavalos melhores do que todos os que possuo. Se ele conseguir casar-se-a com a princesa, mas se fracassar terão as cabeças cortadas.

Mas quando o velho voltou para casa e contou ao filho este sorriu e mandou o pai dormir: - “Amanhã veremos o que tivermos de ver.”

Mais tarde, saiu de casa e ordenou aos seus homens que achassem um trenó com três cavalos mais maravilhosos do que os do czar.

No dia seguinte, ele novamente acordou o pai e mandou que ele fosse até o palácio e depois voltasse para contar o que vira. O velho quando chegou perto, viu assombrado o trenó com os três lindos cavalos. Ele voltou para casa e contou ao filho, que mandou que ele voltasse e pedisse a mão da princesa. O czar que já tinha visto o trenó, declarou que: – Como seu filho cumpriu as tarefas, eu manterei minha promessa. Traga-o até aqui e a princesa se casará com ele, hoje mesmo, não importando o que o povo diga.

O velho correu para casa e contou as novidades ao filho, e este lhe disse: - Coloque-me num saco e leve-me até o palácio para a festa de casamento. 

Todos riam porque a princesa ia se casar com um peixe.

O velho chegou ao palácio e colocou Blênio numa banqueta, aí começou a comemoração das bodas. Por fim, foram todos para a Igreja onde os dois se casaram. Depois das festas o casal recolheu-se à sua nova casa.

Eles viveram juntos por três anos, mas toda noite Blênio transformava-se num rapaz. A cada manhã ele voltava a ser peixe, só a princesa sabia da verdade.

Certa manhã a princesa acordou mais cedo e sentiu-se sozinha e triste, pois todos riam dela por ter se casado com um peixe. Ela teve uma ideia. Resolveu queimar a pele de peixe do marido antes que ele acordasse, assim ele ficaria homem para sempre. Ela queimou o traje e quando entrou no quarto, seu marido havia sumido. Naquele mesmo instante, um pequeno pássaro entrou voando pela janela.

– Que pena, princesa Marya, disse a ave. Se você tivesse esperado mais três dias, seu marido teria ficado livre de um feitiço. Teria ficado humano para sempre, mas agora você o perdeu. – Falou e saiu voando pela janela.

Ela ficou desesperada pensando porque tinha feito aquilo. Durante uma semana ela sofreu, mas depois levantou-se e jurou que iria em busca do marido e o salvaria. Naquele mesmo dia saiu do palácio, partindo sem saber para onde. Sua única pista era a avezinha. Quando chegou nos limites da cidade ela encontrou uma velha debruçada numa janela de uma pequena cabana.

– Por que esse ar tão triste, princesa Marya?, perguntou a velha.

– Estou procurando por meu marido. Queimei a pele dele e o perdi para um feitiço.

– Você jamais irá encontrá-lo viajando do modo como está. Volte para casa e peça ao ferreiro que lhe prepare três pares de botas de ferro, três chapéus de ferro e três pães de ferro. Então volte aqui e eu lhe direi onde ir em busca do seu marido.

A princesa agradeceu pelos conselhos da velha e voltou para casa. Pediu aos ferreiros que fizessem tudo que a velha mandara. Depois ela foi encontrar-se com a velha.

– Hoje está muito tarde para você seguir viagem, disse a velha. Jante comigo e descanse. Amanhã poderá partir.

No dia seguinte, ao amanhecer, a velha ofereceu-lhe alguns conselhos.

– Depois de sair daqui, procure um grande buraco na terra , disse a velha. Quando chegar ao abismo, coloque um dos pares de botas, um dos chapéus e coma um pão. Então desça. Você encontrará lá muitas pessoas gritando, cantando e chorando, e elas lhe pedirão que fique com elas, entretanto você deve seguir em frente sem demora. Se parar, jamais sairá desta caverna. Quando tiver gasto os três pares de botas, os três chapéus e comido os três pães de ferro, chegará ao fim da passagem. Do outro lado vive minha irmã, e ela lhe dirá o que fazer a seguir.

A princesa ficou horrorizada por tudo que teria que passar, mas agradeceu e partiu. Depois de muito andar, seu caminho terminou repentinamente na beira de um abismo. Ela espiou lá embaixo e não viu o fim. Destemida ela colocou o par de botas, o chapéu e comeu um pão de ferro. Depois começou a descer no vazio. Desceu, desceu, desceu, até que chegou num túnel sombrio. Lá ouviu pessoas que gritavam, cantavam e choravam, as quais lhe pediam que ficasse com elas. Mas ela os ignorou e foi em frente. A cada passo ela sangrava , pois o chão tinha lâminas de ferro e penduradas no teto também havia lanças de ferro, e sua cabeça as tocava e fios de sangue corriam em seu rosto.

Conforme ela afundava, mais e mais na escuridão, mais estridentes eram os gritos à sua volta. Ela lutou muito e, quando comeu seu derradeiro pão, usou o último par de botas e o último chapéu, viu um lampejo de luz ao longe. Chegou no final da caverna e arrastou-se até a luz do sol e despencou numa encosta gramada. Por uma semana ficou imóvel, fraca demais para se movimentar.Levantou-se ainda enfraquecida e andou aos tropeções, chegando numa casa que bateu na porta. BabaYaga, a grande bruxa apareceu para recebê-la.

– Princesa Marya! Aonde vai nesse estado? Minha irmã deve tê-la mandado aqui!

Marya contou o que acontecera com seu marido por sua culpa, mas que por amá-lo muito estava a sua procura.

BabaYaga suspirou, e disse: – Já se passaram dez anos desde que seu marido passou por minha casa. Agora ele é humano, mas nesse intervalo, casou-se com a filha do Rei de Fogo e agora vive com ela em seu palácio. Eu lhe direi como encontrá-lo e conquistá-lo de novo, mas antes descanse e coma.

Por uma semana a princesa ficou com BabaYaga, recuperando as forças. Então a bruxa lhe disse: – Chegou a hora de você ir ver seu marido. Eis o que você deve fazer. No jardim em torno do palácio em que ele vive, há uma pequena encosta. Sente-se no chão gramado desse morro e penteie-se com este pente de ouro. A filha do rei sairá do palácio ao vê-la e pedirá para comprar o pente de ouro. Ela estará acompanhada de duas mulheres, e elas têm exatamente a mesma aparência. Por isso, você deve cuidar para escolher a mulher certa, que será a do meio. Diga-lhe que você troca o pente por uma noite a sós com Blênio, mas não lhe dê o pente antes de estar com seu marido.

A princesa Marya agradeceu a BabaYaga pela sua ajuda e saiu da casa dela.

Chegou a um grande palácio, parou à entrada do jardim e sentou-se na encosta gramada. Começou a pentear os cabelos e logo as três mulheres acercaram-se dela. A do meio exclamou: – Nunca vi pente tão lindo. Você o venderia para mim? Posso pagar do jeito que você quiser.

– Não o vendo por dinheiro, mas posso trocá-lo por outra coisa.

– O que você deseja? , perguntou a outra . Ela disse: Apenas passar uma noite sozinha com seu marido.

– Ora , isso não é nada, disse a filha do rei. Você pode fazê-lo hoje mesmo. Agora dê-me o pente.

– Não disse Marya, ele será seu somente quando eu pisar dentro do quarto do seu marido.

– Muito bem, disse a outra. Vamos, venha comigo.

Chegando à porta do palácio ela entrou, e deixou Marya esperando, mas logo depois reapareceu. Você pode vir comigo agora e guiou a moça para o quarto. Pegou o pente de ouro das mãos de Marya e deixou-a sozinha com Blênio. Marya correu até o marido e chamou-o pelo nome, mas ele estava dormindo e não se moveu. Ela chorou e contou-lhe, mesmo assim, da longa viagem que vinha fazendo para encontrá-lo, mas nem assim ele se mexeu. Quando amanheceu a mulher expulsou a moça do quarto.

Marya voltou até BabaYaga, com o coração partido e desencorajada, e por uma semana ela chorou. Então, BabaYaga deu-lhe um lindo anel de ouro: - Use esse anel e vá novamente ao palácio e sente-se no jardim. As três mulheres virão novamente até você e a do meio vai querer comprar o anel. Faça igual da outra vez, mas só entregue o anel quando estiver dentro do quarto.

Assim ela fez e a mulher levou-a até seu marido. Ela novamente chamou-o pelo nome, mas ele dormia e não se mexeu. Mais uma vez a mulher colocou-a para fora do quarto e do palácio.

Ela voltou até BabaYaga dizendo que fracassara mais uma vez. A bruxa disse que a outra dera uma poção para que ele dormisse porque era esperta. Mas a bruxa não deixou que ela desistisse e tirou do armário um lenço muito bonito. Disse que essa seria a última chance dela recuperar o marido: –  Use este lenço e faça tudo como das outras vezes, mas se você não conseguir acordá-lo nada mais posso fazer por você. Esta é a última vez que a ajudo.

Marya agradeceu e seguiu seu rumo. Como antes, tudo aconteceu igual, mas Marya disse que só daria o lenço quando estivesse do lado do rapaz. Mais uma vez ele dormia e ela não conseguia acordá-lo. Quando amanheceu ela estava desesperada e chorou muito, mas naquele momento que a outra já a expulsava do quarto, uma lágrima dela caiu no rosto de Blênio que acordou sobressaltado.

A mulher gritava para que Marya saísse do quarto, mas quando ele a viu em pé ao seu lado logo a reconheceu e disse: – Finalmente você chegou!

A mulher gritava para tirar Marya do quarto, mas ele disse que a deixasse ficar.

– Ela é Marya minha primeira e verdadeira esposa.

Ele abraçou-a e ela lhe contou por tudo que passara desde que ele desaparecera.

Blênio reuniu todos os anciãos do reino, ofereceu um festa e perguntou-lhes: – Qual destas mulheres é minha verdadeira esposa? A que arriscou a vida para me encontrar, usando botas, chapéus e comendo pães de ferro, ou a que me trocou por um pente, um anel e um lenço?

Os anciãos responderam que sua verdadeira esposa era Marya, e é com ela que você deve viver.

Blênio concordou e voltando-se para Marya chamou-a para voltarem para casa. Ele pegou uma pequena caixa enferrujada e disse: – Marya feche os olhos.

Assim ela o fez, e no mesmo instante sentiu um vento soprando em seu rosto, ele aí sussurrou: – Agora pode abrir os olhos.

Quando ela olhou em volta, ficou atônita. Eles estavam num campo ao ar livre, e diante deles uma cidade fervilhava.

– Você reconhece esse lugar? ,disse ele.

– Sim, penso que sim.

– É o reino do seu pai disse ele, enquanto abria de novo a caixa.

Marya desfaleceu e acordou no palácio que fora construído por Blênio para conquistá-la. Ao seu lado estava seu marido dormindo. Alguns instantes depois ele acordou e disse: – Você me deu três tarefas antes de casarmos, essa é a razão de você ter sofrido tanto. Porém, agora estamos juntos mais uma vez.

Enquanto os dois se abraçavam, os pais de Blênio entraram, seguidos pelos pais de Marya. Todos comemoraram juntos o reencontro dos dois, com uma grande festa.

Fonte:
Disponível em Contos de Encantar <http://contosencantar.blogspot.com.br/>

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Francisco Pessoa (Décimas do Pessoa)


A mais cara e perfeita maquilagem
que lambuza e restaura certo rosto
por prazer ou se não a contra gosto
torna falso o semblante da imagem.
É o outono tristonho sem plumagem
É o alto do céu sem um condor
É um jarro quebrado sem a flor
É a infância sem um conto de fada
Eu não vejo beleza em quase nada
que não tenha beleza interior.
___________________________

MOTE
O chocalho da saudade
badala em meu coração


Quando o sol se levantava
a tanger a noite escura
depois da reza e da jura
pro curral eu me mandava
Uma caneca eu levava
nata passada no pão
Coisa melhor tinha não
Meu sertão virou cidade
o chocalho da saudade
badala em meu coração.

_______________________________

Tua honradez, meu pai, foi a herança
que tu deixaste e, foi meu tesouro,
arca mais rica do que prata e ouro
que tu me deste quando ainda criança.
Mesmo que fuja de mim a esperança
que a humanidade viva em plena paz,
o teu exemplo me tornou capaz
de enfrentar os contrários sempre em pé
portando a espada e o escudo da fé
acreditando que Deus pode mais.
_____________________________

MOTE
“Vou fechar a porteira da saudade
pois cansei de viver pensando nela”


Esperei bem mais tempo que judeu
Pelo grande Messias que já veio
O que fez eu ficar de saco cheio
Pois amor eu lhe dava e não me deu
Aquela “dor de corno” em mim bateu
(Burro xucro é difícil aceitar sela)
Resolvi terminar essa novela
Partirei a buscar nova amizade
Vou fechar a porteira da saudade
pois cansei de viver pensando nela.

______________
Fonte: Décimas enviadas pelo autor

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Clarisse da Costa (As Reticências de Thata Alves)

Thata Alves
A escrita para muitos traz certo prazer indescritível. Digamos que é um bem estar, além de proporcionar conhecimento. Ela surge de várias formas. O exemplo forte são as mulheres. Muitas de nós mulheres começamos a nossa escrita escrevendo em diários. Thata Alves, assim carinhosamente conhecida, teve prazer pela escrita por volta dos dez a doze anos de idade na escola, interpretação de textos e a produção de redações lhe fascinavam. Mas exercer a escrita foi mais pela necessidade de ter um diálogo necessário com seus pais, pois não havia diálogo sobre sentimentos, ou coisas do gênero. Para ela, a escrita foi sempre a prática de expressar o que não tinha como dizer em terapias, pelo fato de não poderem pagar um psicólogo.

Hoje, crescida e com opiniões formadas, Thata é uma guerreira negra no mundo literário. Atuante em diversos setores, já participou de dezenas de Antologias, Pracarau, Poezine, Poesia na Faixa, Encontro de Utopias, e tantas outras. Mas o auge de seu trabalho nasce em 2017, exatamente em janeiro, com a obra "Em Reticências". Esse nome me faz lembrar algumas lacunas em minha vida. O espanto é que foram mil exemplares vendidos. Imagina mil lacunas?! Loucura? Ou tortura? Que seja... a vida é cheia de lacunas de fato. A escrita mesmo não tem o seu ponto final, e sim reticências. Começo, meio, fim e recomeço.

Thata, para difundir a sua escrita criou objetos poéticos, como pequenos espelhos em formato de bottons, com trechos de suas poesias e cartões postais, com parcerias nas ilustrações de Felipe Oliveira. Sempre com a intenção das pessoas poderem ter a possibilidade do consumo deste. Uma mulher como tantas, porém com o olhar sempre à frente, sem perder o tempo de vista. Como toda mulher negra, sofreu barreiras, e na literatura não é diferente, afinal são apenas 15 mulheres na literatura brasileira, mas nada que tire o seu brilho e vontade de vencer. "Costumo dizer que o problema eu já tenho, a manobra é trazer a solução." – diz ela.

Fonte:
Texto enviado por Samuel da Costa.

XVIII Bienal Internacional do Livro - Rio (Programação de 06 setembro - Quarta)

11h; 13h; 14h; 15h; 16h; 17h; 18h
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

11hPavilhão 3 - Azul Café Literário
Assista a esse livro
Maria Camargo, Fernando Bonassi
Mediação: Edney Silvestre

13h30
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Slam Colegial FLUP
Slam Colegial FLUP

15h
Encontro com Autores
Pavilhão 4 - Verde - Auditório Madureira
De Bem com a vida
Daniel Barros, Daiana Garbin

17h
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Uma partida com RezendeEvil
RezendeEvil
Mediação: Chandy Teixeira

17h
Pavilhão 3 - Azul Café Literário
Grandes Lançamentos
Heloisa Seixas, Santiago Nazarian, Joca Reiners Terron
Mediação: Mariana Filgueiras

19h30
Pavilhão 3 - Azul Café Literário
Literatura e História
Mary Del Priore, Alberto Mussa, Samir Machado de Machado, Fabiano Costa Coelho
Mediação: Rodrigo Casarin

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Olivaldo Junior (Dois microcontos sobre saudade)

A FLOR NO LIVRO

Ainda moça, Angélica tivera um príncipe. Não um nobre dos contos de fada, mas um príncipe comum, cotidiano, daqueles que se encontram num ônibus. Era o Carlos.

Carlos era um lorde e sempre lhe trazia um mimo quando se encontravam, ou seja, quase todo dia. O amor ainda jovem é mesmo cheio de símbolos, soluços e de sonhos.

Não se casaram. Carlos, como seu xará famoso, tinha o dom da Poesia e a ela se deu. Angélica, no entanto, manteve no livro que ganhara dele a etérea flor da saudade.

A LÂMPADA ACESA
“Vem dormir, minha velha! Já ‘tá tarde!...”, chamava o marido de Amália, mas nada de ela ir se deitar. O branco dos cabelos dela reluzia a lua. Ambas eram eternas.

Porpeto, o cachorro da casa, também não dormia enquanto Amália não se desse ao sono que custava a vir, e, quando vinha, vinha triste, igual a quem chove, ou chora.

Quando Augusto a chamava de novo, ela, com uma foto do filho amado ao peito e uma lágrima sem lar nos olhos, deixava acesa a lâmpada da sala e enfim se recolhia.

Fonte:
Microcontos enviados pelo autor

XVIII Bienal Internacional do Livro - Rio (Programação de 05 setembro - Terça)


11h; 13h; 14h00; 15h; 16h00; 17h00; 18h00
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

12h
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Falando sério com Larissa Manoela
Larissa Manoela, Thalita Rebouças
Mediação: Claudia Sardinha

13h30
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Slam Colegial Fluip
Slam Colegial FLUP

14h
Pavilhão 4 - Verde - Auditório Madureira 2º Fórum de Educação | Interlivros
Educação e Futuro: experiência de inovação na educação no Brasil
Djamila Ribeiro, Diva Guimarães, Cleuza Repulho, Angela Dannemann, Priscila Cruz e Renato NogueraMediação: Monica Pinto

19h
Pavilhão 3 - Azul Café Literário
Bendita panelinha
Rita Lobo
Mediação: Alice Granato

19h
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Humor! Ontem, hoje, sempre
Bruno Mazzeo, Lucas Rangel
Mediação: José Lavigne

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ógui Lourenço Mauri (Poemas Escolhidos)


AMAR-TE EM POESIA!

Face a detalhes adversos
E a entraves do dia a dia,
Preciso apelar pros versos
E assim te amar em poesia!

Meus versos são lenitivos
À falta de teu calor,
Mantêm instintos ativos
Por conta de nosso amor.

Amar-te em poesia, sim;
Abrir para ti meu peito!
Trazer tua imagem pra mim
E envolvê-la do meu jeito!
 
Musa és de meus poemas
Instados pela distância.
De ti, vêm todos os temas
E paixão em abundância.
 
Os doces versos saindo,
Dão-me vida afortunada.
Amar-te em poesia é lindo,
Antes isso do que nada!
___________________________

ESTANCA TEU PRANTO!

Não!... Não chores, estanca teu pranto;
Doutro Plano, não sejas omisso!
Tinhas que sofrer o desencanto
Pra quitar, de vez, um compromisso.

Nesta tão prematura partida
De alguém muito querido em teu lar,
Não te olvides, é etapa vencida
De um pretérito a se resgatar.

Apesar de profunda essa dor
Do trespasse de um filho querido,
Agradece aos Céus, ao Criador,
O ditoso resgate assumido.

A agonia que sentes agora
Não é síndrome que te convém.
Calma, pois o ser que foi embora
Certamente te espera no Além!

A presente Passagem é acúmulo
De um saber tal que se perpetua.
E ele mostra que além do vil túmulo,
Nossa vida, por Deus, continua...
___________________________

MULHER...A VIDA!...

A partir dela, começa nova vida...
Mulher, gênese maior da concepção!
Faz-se ímpar protetora do embrião,
Num sublime encargo, por Deus escolhida!

Em seu ventre, traz o feto com amor.
Dá à luz!... A espécie que se perpetua!
Amamenta, por missão somente sua;
No crescer da cria, dá-lhe mais calor.

Vive, dos filhos, as vitórias e fracassos;
Muitas vezes, no lugar de mãe e pai.
São momentos em que sempre sobressai
A intuição do ser mulher ao dar os passos.

Mulher... A vida!... Missão polivalente!
Ela é mãe, tão companheira e tão amante!
Para o homem, faz-se trunfo exuberante,
É com ela que ele põe a vida à frente!

Mulher... A vida!... Coberta só de glória!
Competência a impulsionou rumo à conquista,
Eis que pela sociedade agora é vista
Pari passu ao homem, a fazer a História.
___________________________

UM VAZIO...

Um vazio põe além do horizonte
Um querer que à distância se lança,
Pois a ânsia que o barco desponte
Jacta o falso sabor da esperança.

Eu bem sei, não mudou a janela,
Mas o barco de longe não vem.
A saudade a meu peito se atrela
E a vontade do beijo também!

É verdade que após as tormentas
O mar calmo se faz tão presente,
Como é certo que as nuvens cinzentas
Põem o Sol a brilhar novamente.

Por aqui, vejo a chuva caindo;
Logo mais, chega a luz desde o leste,
A mostrar todo o azul do céu lindo,
Um desenho de Deus, inconteste!

Pensamento vai longe, de vez!
Traz, enfim, esse barco; reitero!
Penso até que meu porto, talvez,
Não comporte o navio que eu espero.
___________________________

LUA CHEIA, A DO BRASIL!

Meu Brasil tropical vive esta luta,
"Brilho do sol versus clarão da lua".
Entendo que a noite ganha a disputa,
é o que a massa romântica insinua.

Como é lindo o luar de minha terra
nas noites de brisa primaveril!
Lua cheia em seu esplendor encerra
toda a magia dos céus do Brasil!

Encanta-me o panorama estelar,
de lua cheia fazendo clarão;
passo muitas horas a contemplar
tal obra divina na imensidão.

Chego ao êxtase com tanta beleza
das noites de celestial aquarela.
Sem a luz do sol, vejo a natureza
sob lua cheia, alumbrada por ela.

Lua cheia, no Brasil, traz saudade,
emoção que só nosso idioma explica.
Machuca o coração de quem se evade
e estilhaça o coração de quem fica.

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

XVIII Bienal Internacional do Livro - Rio (Programação de 04 setembro - segunda)

11h; 12h; 14h30; 15h; 15h30; 16h30; 17h30; 18h30
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

14h
Pavilhão 4 - Verde - Auditório Madureira 2º Fórum de Educação | Interlivros
Juventudes e Educação
Flavia Oliveira, Ricardo Henriques, Sandra Benites, Pilar Lacerda, Wolney Candido de Melo, Tião Rocha, Anna PenidoMediação: João Alegria

17hPavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Música e ideologia
Tico Santa Cruz, Marcelo YukaMediação: Bruno Levinson

19hPavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Multimulheres
Sophia Abrahão, Lucy AlvesMediação: Bruno Levinson

domingo, 3 de setembro de 2017

Olivaldo Júnior (Poemas Escolhidos)

Um pequeno barco

Pela praia mais bonita,
onde o mundo é só um arco
e minh'alma é infinita,
vem vindo um pequeno barco...

Vem vindo um pequeno barco
que parece a minha vida:
porto a porto, vira um marco
que só marca despedida...

Barco a vela, vela ao vento
que nos leva para longe,
onde o mundo é um moinho

e essa praia, o movimento
da memória cujo bonde
traz à tona algum barquinho...
_____________________

Cora, doce Coralina!...
20/08/2017: 128º Aniversário de Cora Coralina*


Cora, doce Coralina!...
Inda acolhe uma menina,
a "doceira de Goiás",
num fazer que a satisfaz!...

Da colher, tão pequenina,
doce Cora, a Coralina,
faz nascer quem vai e faz,
verso a verso, sua paz!

Velho tacho acobreado,
no calor do coração,
ferve a obra, seu legado,

nobre amor que vira pão,
o poema adocicado
que de Cora vem à mão!...
_____________________________

No Café do Amor Platônico

No Café do Amor Platônico,
bebo só com a Solidão,
pois meu bem ficou irônico
ao pedir-lhe a sua mão...

Já tomei meu "Biotônico",
me afoguei no chá em vão,
pois o mal é supersônico,
sempre alcança o coração.

No Café de quem foi bobo,
vou tomando amor com pão,
sou cordeiro, nunca o lobo...

Um pedaço a mais de "não",
e eu me perco no meu globo,
meu "mundinho" de ilusão.
_____________________________

Uma pérola de homem...
À memória de Luiz Melodia (* 7/1/1951 / + 4/8/2017)


Negra pérola em fulgor
fez nascer a melodia
que vibrou neste cantor
toda a luz da poesia...

'Luís Carlos' fez amor
com as fadas que 'tecia',
magrelinhas de valor,
negras musas, dia a dia...

Juventude Transviada
cala a boca frente à cruz,
ante à pérola apagada

que mantém a sua luz
sob as vistas da moçada
lá do Estácio, de Jesus.
_____________________________

Pelas mãos do Agricultor
28 de julho: Dia do Agricultor


Lá no ventre da Mãe Terra,
pelas mãos do Agricultor,
a semente vence a guerra,
'primavera' à luz em flor.

A verdura que ela encerra,
pelas mãos do Agricultor,
mais saúde a nós descerra,
dando à vida mais sabor.

Sem veneno, tão divino,
pelas mãos do Agricultor,
cada ramo vira um hino,

canto verde de um labor
que, gigante ou pequenino,
faz nascer um lavra-dor!
_____________________________

O escritor já está em casa
25 de julho: Dia Nacional do Escritor*


- Falem baixo, por favor,
que o silêncio perde a asa!...
Devagar com seu andor,
o escritor já está em casa.

Cada estrela é um amor
que São Jorge logo abrasa!...
Deixe em brasa sua flor,
o escritor já está em casa...

O escritor já está em casa,
no seu quarto, sem ninguém,
pois jamais o "tal" se casa!...

Sem "donzela", nem vintém,
de uma "pena" faz a casa
que aprisiona e lhe faz bem.
_____________________________

Para o filho que hoje é pai
13 de agosto de 2017: Dia dos Pais


Para o filho que hoje é pai,
toda a paz de ser alguém
cuja força não se esvai,
nem que parta para o Além...

Nem que parta para o Além,
quem foi filho e já foi pai
nunca fica sem ninguém,
pois é filho de Deus Pai...

Num asilo, lá no "exílio",
para o pai que já foi filho
sempre é dia de pensar

que seu filho vai voltar
e, vagão com fé no trilho,
ter o pai por estribilho.

Fonte: Poemas enviados pelo autor

Academia Paranaense da Poesia (Boletim de Setembro de 2017)


2017 – 15 anos de Oficina Permanente de Poesia
        – 15 anos de Academia Paranaense da Poesia

Programação especial, em comemoração pelos 15 anos da Academia Paranaense da Poesia

Parceria entre APP e UBT

OFICINA PERMANENTE DE POESIA
Quintas-feiras – de 18h a 19h45. 


Projeto da Academia Paranaense da Poesia em parceria com a Biblioteca Pública do Paraná – VOLUNTARIADO DA POESIA – desde 15/08/2002 (de março a junho e de agosto a novembro) – na BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARANÁ
Rua Cândido Lopes,133 - 3º andar
 
de 18 a 19h: aula sobre Poesia por um de nossos poetas;
de 19 a 19:45h: declamação de poemas pelos participantes da Oficina.

14/09 * – UBT

17h30 – Jogos Florais: Cerimônia de premiação estudantil;
18h30 – palestra  A Trova no Brasil – Expansão da UBT – com Domitilla Borges Beltrame, presidente da UBT- Nacional.
21/09 – Academia Paranaense da Poesia: alguns poetas – Lilia Souza.

28/09 – A poesia de Vera Vargas – poetisa Graziela de La Martine.

Obs.: *Em 14/09, a cerimônia começará às 17h30, no Auditório Paul Garfunkel, 2º andar da BPP.

16/09 –  17h30
SARAU – Trova, Poesia e Canção –
atividade da UBT, gentilmente em conjunto com APP (pelos 15 anos de Academia)
Auditório Brasílio Itiberê
Rua Cruz Machado, 138. Centro.

17/09 –  11h
MISSA EM TROVAS
–  celebração  da  UBT, gentilmente em conjunto com APP (pelos 15 anos de Academia).
Paróquia São Francisco de Paula
Rua Desembargador Motta, 2500. Centro.

19/09 – às  17h
TARDE DE MÚSICA E POESIA
Auditório do Centro de Letras do Paraná
Rua Prof. Fernando Moreira, 370, Centro.
– Sessão solene: comemoração pelos 15 anos de Academia

30/09 – de 11h30 a 15h
ALMOÇANDO COM MÚSICA E POESIA
Restaurante Prato Fino
Rua José Loureiro, 385, Centro – (entre Ruas Monsenhor Celso e Barão do Rio Branco) – Fone 3026-1526 – Buffet por quilo.

Obs: Por causa dos feriados e fim de semana prolongado, não realizaremos Oficina dia 7, nem Tarde de Seresta dia 9.

Galeria da Saudade – Aniversariantes do mês de setembro:
01 – Leôncio Correa;
09 – Diva Ferreira Gomes;
10 – Maria Nicolas; Rodrigo Junior; Mariana Coelho;
11 – Antônio Salomão;
18 – Vasco José Taborda Ribas ;
29 – Vidal Idony Stockler .

Sua presença e sua alegria fazem a festa da Poesia.
Lilia Souza
Presidente

XVIII Bienal Internacional do Livro - Rio (Programação de 03 setembro - domingo)

11h; 12h; 13h: 14h; 15h; 15h30; 16h; 17h; 18h; 19h
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

11h30
Encontro com Autores
Pavilhão 4 - Verde - Auditório Madureira Encontro com Autores
Falando quase a mesma língua
Sofia Silva
Mediação: Frini Georgakopoulos

12h
Pavilhão 3 - Azul Café Literário
Novos Canais Literários
Pedro Gabriel, Daniel Pinsky, Gustavo Lembert, Gisele Eberspächer, Priscilla Sigwalt
Mediação: Mariana Filgueiras

13h
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Rebeldes Têm Asas - Como transformar crises em oportunidades
Rony Meisler
Mediação: Simone Magno

14h
Encontro com Autores
Pavilhão 4 - Verde - Auditório Madureira Encontro com Autores
Vivendo um romance
Abbi Glines
Mediação: Frini Georgakopoulos

15h
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Tudo que você sempre quis saber e nunca teve coragem de perguntar
Gabriela Medvedovski, David Lucas, Matheus Abreu
Mediação: Jairo Bouer

17h
Encontro com Autores
Pavilhão 4 - Verde - Auditório Madureira Encontro com Autores
Bate-papo com Mauricio de Sousa
Mauricio de Sousa
Mediação: Simone Magno

17h
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Multi-homens
Leo Jaime, Arthur Aguiar
Mediação: Bruno Levinson

18h30
Pavilhão 3 - Azul Café Literário
Vestindo a mesma pele
Martinho da Vila, Muniz Sodré, Maurício Pestana
Mediação: Ecio Salles

19h
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
Correndo atrás
Helio de La Peña, Juan Paiva, Lelezinha, Jefferson De
Mediação: Ana Paula Lisboa

sábado, 2 de setembro de 2017

Shirley Cavalcante (XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco)


Consolidada como um dos principais eventos literários do Nordeste brasileiro, a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco se torna a Bienal das oportunidades. A próxima já tem data marcada, e será de 6 a 15 de outubro de 2017.

Enquanto o Sudeste do Brasil está superlotado com grandes editoras, o Nordeste está expandindo e tendo, cada vez mais, a necessidade de editoras que se apresentem e conquistem o seu espaço no mercado editorial dessa região.

Apresentamos 10 motivos para você estar na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.

- O Pernambuco é um dos principais Estados do Nordeste e se destaca pelo seu desenvolvimento e economia.

- Estar próximo, por ter como limites os Estados da Paraíba, Bahia, Ceará, Alagoas e Piauí.

- O Estado tem a terceira maior Bienal Internacional do Livro do Brasil.

- A Bienal Internacional do Livro de Pernambuco TEM ENTRADA GRATUITA.

- Na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, o escritor pode se inscrever gratuitamente para adquirir um horário e lançar o seu livro na Plataforma de Lançamentos de Livros.

- Seus estandes têm um dos melhores preços por metro quadrado do Brasil, balanceando assim os custos de quem deseja trazer livros de outros Estados, como os do Sudeste, onde Rio de Janeiro e São Paulo têm os preços mais altos por metro quadrado na aquisição de estandes.

- Na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco a editora de grande porte é destaque, enquanto em outros Estados pode ser só mais uma editora a participar.

- Na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco o editor ainda consegue negociar diretamente com um dos principais gestores, um dos maiores produtores culturais do Nordeste, Rogério Robalinho.

- A Bienal tem inúmeras parcerias com blogs e mídias locais, que a promovem e a divulgam com frequência.

- Há uma parceria com a Divulga Escritor, Revista Literária da Lusofonia, Portal Literário, e-mail marketing, grupos e páginas nas redes sociais.

Diante de tantas oportunidades, você, editor, não pode ficar de fora, vamos somar e conquistar cada vez mais novos leitores nordestinos.

Para participar, acesse o site:
http://www.bienalpernambuco.com/

Facebook
https://www.facebook.com/BienalPernambuco/

Fonte: Assessoria de Imprensa Online Divulga Escritor
Contato: smccomunicacao@hotmail.com

XVIII Bienal Internacional do Livro - Rio (Programação de 02 setembro - sábado)

11h
Pavilhão 3 - Azul Café Literário
Cafezinho Literário: O olhar curioso e as boas ideias
Rona Hanning, Ricardo Leite

11h
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

11h
Encontro com Autores
Pavilhão 4 - Verde - Auditório Madureira Encontro com Autores
Agora e para sempre!
Jenny Han
Mediação: Frini Georgakopoulos

12h
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

12h30
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
CRESCENDO COM A MÍDIA
Maisa Silva, Priscilla Alcantara
Mediação: Ana Paula Lisboa

13h
Pavilhão 3 - Azul Café Literário
Religião e Modernidade
Frei Betto, Reginaldo Prandi, Alcio Braz, Pedro Siqueira
Mediação: Paulo Werneck

14h

Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

15h
Pavilhão 3 - Azul Café Literário
A Utilidade do Inútil
Nuccio Ordine, Marco Lucchesi e Ana Maria Machado
Mediação: Fernanda Diamante

15h
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

15h30
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

15h30
Encontro com Autores
Pavilhão 4 - Verde - Auditório Madureira Encontro com Autores
Em novos caminhos
Paula Hawkins
Mediação: Frini Georgakopoulos

16h
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

17h
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

17h
Pavilhão 3 - Azul Café Literário
Lima Barreto
Lilia Schwarcz
Mediação: Paulo Werneck

17h

Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
INTERCÂMBIO, UMA VIAGEM COM LEISA RAYVEN E BABI DEWET
Leisa Rayven
Mediação: Babi Dewet

17h30
Encontro com Autores
Pavilhão 4 - Verde - Auditório Madureira Encontro com Autores
Vamos pensar um pouco?
Mario Sergio Cortella, Mauricio de Sousa
Mediação: Josy Fischberg

18h
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

19h
Pavilhão 4 - Verde Atividade Infantil - EntreLetras
O mundo das Letras
Graviola Produções

19h
Pavilhão 4 - Verde Arena #SemFiltro
GAME É COISA DE MENINO?
Malena Nunes, Spok
Mediação: Paula Arantes

Fonte:
http://www.bienaldolivro.com.br/programacao_oficial.php

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Teatro (Sistema Coringa)

Histórico

Modelo dramatúrgico criado por Augusto Boal (1931-2009) para permitir a montagem de qualquer peça com elencos reduzidos, alterando as tradicionais relações narrativas do gênero dramático, apoiado numa proposta épica e crítica.

Após o golpe militar de 1964, os homens de teatro se veem numa situação paradoxal: há pouco público e inexistem peças que retratem as profundas mudanças ocorridas na realidade. A primeira experiência de uso do Coringa dá-se em Arena Conta Zumbi, pelo Teatro de Arena, em 1965.

No Rio de Janeiro, Augusto Boal dirige Opinião, no ano anterior, espetáculo que enfeixava as experiências de ex-cepecistas, sobretudo apoiados nos esquemas dramatúrgicos criados pelo "agit-prop". Opinião é uma colagem de fontes diversas: músicas, notícias de jornal, citações de livros, cenas esquemáticas e depoimentos pessoais situando as três realidades em cena, nucleadas em torno de Nara Leão (1942-1989) (a classe média intelectualizada), João do Vale (1934-1996) (o migrante nordestino) e Zé Kéti (1921-1999) (o sambista de morro).

Com essa experiência dramatúrgica na bagagem, Augusto Boal integra o coletivo de artistas que cria Zumbi. Trata-se aqui de colocar em cena um episódio complexo da história brasileira: a luta dos quilombolas de Palmares e sua resistência ao jugo português. Mas o Arena enfrenta dificuldades materiais, desde o pequeno palco e espaço cênico até um elenco reduzido. Escolhido o tema, os locais de ação e as principais personagens - a saga da luta antiescravagista -, a solução cênica encontrada toma o aspecto de um grande seminário dramatizado, com os oito atores representando todas as personagens, revezando-se no desempenho das pequenas cenas focadas sobre os pontos fortes da trama, deixando a um ator coringa a função narrativa de fazer as interligações entre fatos, pessoas e processos, como um professor de história organizando uma aula e dando seu ponto de vista sobre os acontecimentos. O emprego da música ajuda as passagens de cena, acrescentando tons líricos ou exortativos de grande efeito. Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) e Edu Lobo (1943) assinam a realização.

A montagem de Arena Conta Tiradentes, em 1967, aprofunda a experiência e surge explicada teoricamente em "O Sistema Coringa", redigido por Boal. O sistema evolui conceitualmente, desenvolvido para ser aplicado a qualquer texto teatral, permitindo, desse modo, tanto o barateamento da produção quanto a implantação de proposições estéticas, ligadas a um modo épico e dialético de expor a trama.

São empregados quatro procedimentos: a desvinculação ator/personagem (qualquer ator pode representar qualquer personagem, desde que vista a máscara correspondente), perspectiva narrativa unitária (o ponto de vista autoral é assumido ideologicamente pelo grupo que faz a encenação), ecletismo de gênero e estilo (cada cena tem seu estilo próprio - comédia, drama, sátira, revista, melodrama, etc. - independentemente do conjunto, que se transforma numa colagem estética de expressividades), uso da música (elemento de ligação, fusão entre o particular e o geral, introdução do ingrediente lírico ou exortativo no contexto mítico e dramático).

O Coringa é uma personagem onisciente que altera, inverte, recoloca, pede para ser refeita sob outra perspectiva uma cena, sempre que sinta necessidade de alertar a plateia para algo significativo, concentrando a função crítica e distanciada.

Função oposta ocupa o protagonista, o herói. Ele deve ser naturalista, fechado em sua lógica causal e psicológica, sempre representado pelo mesmo ator, destinado a criar e dar corpo à dimensão do particular típico, insuflando a ilusão cênica e materializando a dimensão mítica, uma vez que se destina à identificação e ao fomento da empatia junto ao público.

O conjunto de tais procedimentos é especialmente épico, oriundo de Bertolt Brecht (1898-1956), mas não deixa de abrigar, igualmente, uma tentativa de conciliar o historicismo proposto pelo distanciamento brechtiano com o particular típico, como concebido por György Lukács (1885-1971), outro teórico marxista que defende um herói mítico e fechado sobre si mesmo.

O sistema é examinado e tem suas propostas rebatidas no livro O Mito e o Herói no Moderno Teatro Brasileiro, por Anatol Rosenfeld (1912-1973). Tomando ponto por ponto os aspectos polêmicos da proposta de Boal, o crítico expõe os limites e contradições que apresenta, concluindo pela impossibilidade de sua aplicação a qualquer peça, como pretendia ser seu objetivo central.

E especificamente sobre Tiradentes, observa: "O herói, embora criticado pelos seus erros e cercado por um aparelho distanciador, é levado inteiramente a sério como herói [...] não chegando a ser suficientemente mito para colher as vantagens estéticas do arquétipo monumental. Mas de outro lado tem do mito a esquematização extrema de modo a não render suficientemente na dimensão da análise histórico-social e da vigência empática. A não ser que nos enganemos, Boal não deseja que se aplique a Tiradentes a sua excelente formulação: 'sempre os heróis de uma classe são os quixotes da classe que a sucede'. O herói, tal como proposto na peça, seria hoje um ser quixotesco, como o Hércules de Dürrenmatt".1

Na base dessas discussões encontram-se questões estéticas e ideológicas muito amplas, que devem ser reportadas às distintas soluções propostas por Bertolt Brecht ou por Lúkacs; ou seja, os modos diversos de se dialetizar artisticamente a perspectiva crítica e histórica.

Após Zumbi e Tiradentes, o coringa volta a ser empregado por Boal em A Lua Muito Pequena e a Caminhada Perigosa, texto integrante da Primeira Feira Paulista de Opinião em 1968 e em Arena Conta Bolivar, criação vitimada pela Censura e apresentada apenas no exterior, em 1970. Ainda que pleno de contradições, é ele utilizado por muitos grupos latino-americanos, ao longo dos anos 1970, que encontram assim um modo de ação política compatível com o fechamento dos regimes políticos do período. Em modo evoluído e diverso, ajuda Augusto Boal a definir e propor, logo a seguir, o Teatro do Oprimido.

Ao longo das décadas seguintes, no Brasil, algumas das técnicas teatrais nascidas ou criadas no sistema coringa acabam por ser empregadas em outros contextos, utilizadas como recursos de linguagem, sem obedecer, todavia, às suas determinações ideológicas. São exemplos: o rodízio de personagens do elenco por meio da substituição de adereços; o amálgama de gêneros diversos numa mesma cena ou peça; o emprego de recursos narrativos mesclados com cenas dramáticas, etc., tornando o Sistema algo assimilado e diluído, mais uma prática do que um modelo, no cotidiano do fazer teatral.

Notas
1 ROSENFELD, Anatol. O mito e o herói no moderno teatro brasileiro. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996. p. 38.


Referências:
BOAL, Augusto. 'O Sistema Coringa'. In: Arena conta Tiradentes. São Paulo: Sagarana, 1967. Republicado In: BOAL, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
MOSTAÇO, Edelcio. Teatro e política: Arena, Oficina e Opinião. São Paulo: Proposta, 1982. 196 p.
ROSENFELD, Anatol. O mito e o herói no moderno teatro brasileiro. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996. 122 p.

Fonte:
SISTEMA Coringa. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo620/sistema-coringa>. Acesso em: 13 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7