domingo, 24 de dezembro de 2017

Carlos Leite Ribeiro (O Sonho de Sofia)

(Conto de Natal dedicado à minha querida netinha Ana Sofia)
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- Mamã, não tenho sono e quero ir para a tua cama.

Antes de ter autorização para ir para a cama dos pais, a pequenina Sofia saltou para o meio e deitou-se entre ambos.

- Porque não consegues dormir, Bebê ? – perguntou-lhe a mãe.

- Sabes, a Barbie, a boneca da mana, esteve a falar comigo e não me deixou dormir…

- Não acredito que a boneca tivesse falado contigo! E o que te disse ela?

- Disse-me as prendas que o Pai Natal me vai dar amanhã …

- Ah, sim ?!!! não estou a acreditar e o papá está a rir-se.

- É verdade, papás ! Disse-me que me ia dar uma saia comprida como a mamã e a mana tem, uma linda t-shirt, meias, botas altas e um boné de pala.

- Marido, estás a ouvir esta nossa filha ? Não sei não …

- E ainda mais, papás, um telemóvel (celular) como o mano tem, uma mesa para eu escrever, um cocas (sapo) e um boneco muito grande como a mana tem e …

- Olha que talvez o Pai Natal não te possa dar tudo isso. Este ano, ele está com muita falta de dinheiro. Então um boneco grande está fora de causa, pois o vosso quarto é pequenino.

- O boneco da mana, como já é velho, pode ficar na garagem. E como o Pai Natal está pobrezinho, o papá podia dar-lhe uns dinheiritos … Também quando chegar o Pai Natal, quero ir falar com ele, para lhe dar um beijinho…

O pai, muito divertido, levantou-se da cama, dizendo-lhe:

- Olha Bebê, vai para a tua caminha que o papá amanhã vai escrever ao Pai Natal a fazer o teu pedido. O papá vai-te por na tua caminha.

A criança agarrou-se ao pescoço do pai que a foi pô-la na caminha. De regresso ao seu quarto, a esposa muito divertida, disse-lhe:

- Parece-me que esta nossa filhinha vai ser uma “contadora de histórias” como o avô …

Fonte: O Autor

sábado, 23 de dezembro de 2017

Carlos Leite Ribeiro (O Boneco de Trapos)

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Era uma vez um boneco de trapos...

O Natal estava à porta e, numa casa modesta, a mãe viúva e as suas duas filhas, trabalhavam afincadamente na confecção de bonecos de trapos.

O último boneco da última série saiu defeituoso: uma perna mais curta, um braço mais comprido e até o olhar era vesgo.

- Não vamos mandar este boneco para a loja, pois, está muito defeituoso - disse-lhe uma das filhas.

- É um fato, este boneco ficou com muitos defeitos - concordou a mãe, que continuou - mas talvez passe e não seja devolvido. Nós precisamos tanto de dinheiro...

- Sendo assim, minha mãe, vamos então mandar também o "aleijadinho".

E o Boneco de Trapos, com uma perna mais curta, um braço mais comprido e com o olhar vesgo, lá foi para a loja...

Em outra casa modesta, outra mãe falava a sua filha mais nova:

- Tu minha filha, queres oferecer uma prenda de Natal àquela menina que mora além, naqueles prédios novos, mas nós somos pobres e não podemos oferecer nenhum brinquedo caro.

- Podemos comprar qualquer coisa barata, uma simples lembrança - disse-lhe a criança - para mais, ela deu-nos umas roupinhas que nos fizeram muito arranjo.

- Pronto, não insistas mais. Vai à loja e compra um brinquedo que seja barato.

E foi assim que, o Boneco de Trapos, defeituoso, com uma perna mais curta, um braço mais comprido e o olhar vesgo, bem embrulhado e com um laço colorido, foi parar a uma casa menos modesta, onde habitava uma menina, que tinha muitos brinquedos caros e bonitos...

- A tua amiguinha ali de baixo, a que no outro dia deste aquelas roupas, trouxe-te esta prenda.

- Ah, mas que boneco tão imperfeito, mamã! que hei de de fazer com ele? É tão feio?!

- Brinca com ele - retorqui-lhe a mãe - Talvez depois o consideres bonito.

Pouco convencida, a menina não arranjou outra brincadeira que não fosse colocar o Boneco de Trapos, no centro do alvo dos dardos, e, com uma precisão quase matemática, começou a espetá-lo. Pouco a pouco o boneco foi-se desfazendo, e, assim, quase desfeito, foi parar na manhã da véspera de Natal, a um contentor de lixo...

Nessa manhã, uma mãe levava sua filha pela mão e, ao passar por um contentor de lixo, a criança exclamou:

- Mãe, olha aquele boneco de trapos. É tão bonito, deixa-me levá-lo?

- É um boneco tão imperfeito, já desventrado, para que tu o queres? Só servia para sujar a casa.

- Mãe, eu nunca tive um boneco, e este, até é coxinho como eu. Tu, minha mãe, até podias arranjá-lo, para mais, o Pai Natal nunca se lembrou de mim!

E a criança lá levou o boneco para casa, que à noite já estava consertado e com os defeitos corrigidos. Até parecia outro...
 
Quando nessa noite, foi para a cama, a menina aleijadinha, orgulhosamente, deitou o Boneco de Trapos a seu lado, e disse à mãe:

- Mãe, tu que és tão habilidosa, que consertaste tão bem este boneco, não podias consertar também e minha perninha, para eu ficar tão bonita como ele?

Comovida, a mãe limpou uma lágrima que, teimosamente lhe caia pela face abaixo, e, tristemente, respondeu-lhe:

- Infelizmente não posso, minha filha. Mas confiemos em Deus e na boa vontade dos Homens. Talvez para o ano que vem, possas ser curada...

E um ano passou...

A menina aleijadinha, depois de fazer algumas operações e de ser bem tratada, recuperou do seu defeito físico.

- Mais um ano em que não podemos fazer uma festinha nesta noite. Nem sequer um brinquedo te posso dar, minha filha - lamentava-se a mãe.

- Não te preocupes, mãe, eu já recebi uma grande prenda, pois, estou completamente curada e, para mais, tenho o Boneco de Trapos, que sempre me acompanhou. Ele é tão bonito, não é, mamã?!

O frio lá fora era intenso e talvez nevasse...

Aquela mãe, depois de aconchegar os cobertores a sua filha e ao seu Boneco de Trapos, olhou-o com mais atenção, e, teve a sensação que este lhe sorria e lhe dizia:

- Obrigado, mãe, vai descansar, pois eu velarei pela nossa menina...

E será mesmo que... Nessa Noite em que dizem que os animais falam, os Bonecos de Trapos, também falam?

Fonte:
O Autor

L. P. Baçan (A História do Terceiro Velho e do Pescador)

          Senhor, havia um pescador tão velho e tão pobre que mal podia sustentar sua esposa e três filhos. Saia pescar muito cedo diariamente e havia estabelecido uma regra para si: jamais lançar sua rede mais do que quatro vezes. Ele partiu uma certa manhã, ainda à luz da lua, e foi para a beira do mar. Ele se despiu e lançou a rede. Quando a estava puxando para o banco de areia, sentiu um grande peso. Imaginando ter pegado um grande peixe, ficou muito contente. Mas, no momento seguinte, viu em sua rede, ao invés de um grande peixe, a carcaça de um asno. Ele ficou muito desapontado.

          Aborrecido com tal pescaria, ele consertou a rede que a carcaça do asno havia arrebentado em vários pontos. Em seguida, atirou novamente a rede ao mar pela segunda vez. Ao puxar, ele novamente sentiu um grande peso, de forma que pensou que ela estava cheia de peixe. Mas ele só achou uma enorme cesta cheia de lixo. Ele ficou ainda mais aborrecido.

          — Ó, sorte! — ele clamou. — Não faça troça comigo, um pobre pescador que não pode sustentar sua família!

          Dizendo isso, ele jogou fora o lixo, e lavou a rede, limpando-a de toda sujeita. Novamente ele a lançou ao mar, pela terceira vez agora. Dessa vez, só pegou pedras, conchas e lama. Ele estava à beira do desespero. Então ele lançou a rede pela quarta vez. Quando pensou ele nada pescara, ele a puxou com muito dificuldade. Não havia peixes, mas ele achou um pote amarelo, que pelo seu peso parecia conter alguma coisa. Ele notou que estava fechado e lacrado com um selo. Ficou encantado.

          — Eu o venderei ao fundidor e, com o dinheiro que conseguir, comprarei uma medida de trigo.

          Ele examinou o jarro por todos os lados, depois o chacoalhou para ouvir algum ruído, mas nada ouviu. Analisando o selo na tampa, ele pensou que, mesmo assim, poderia haver alguma coisa lá dentro. Usando sua faca, com um pouco de dificuldade ele conseguiu soltar a tampa. Virou o pote de cabeça para baixo, mas nada saiu dali. Levantou o objeto à altura dos olhos e estava olhando seu interior, tentando ver alguma coisa, quando saiu dali uma fumaça espessa, fazendo-o recuar alguns passos. Essa fumaça se levantou até as nuvens e estendeu-se para cima do mar e da orla, formando um nevoeiro que muito surpreendeu o pescador. Quando toda a fumaça estava fora do pote, ela se concentrou numa massa enorme, na qual apareceu um gênio duas vezes maior que um gigante. Quando viu aquele monstro terrível olhando para ele, o pescador ficou tão aterrorizado que não conseguiu dar um passo para fugir.

          — Grande rei dos gênios! — exclamou o monstro. — Jamais voltarei a desobedece-lo!

          Estas palavras levaram coragem ao pescador.

          — O que você está dizendo, grande gênio? Conte-me sua história e como acabou encerrado nesse vaso.

          O gênio olhou o pescador com arrogância.

          — Dirija-se a mim com cortesia, antes que eu o mate!

          — Ai! Por que você deveria me matar? — indagou o pescador. — Eu o libertei, já se esqueceu?

          — Não! — respondeu o gênio. — Isso não me impedirá de matar você. Mas vou lhe conceder um favor: escolha como quer morrer!

          — Mas o que fiz eu a você? — insistiu o pescador.

          — Eu não o posso tratar de qualquer outro modo — disse o gênio. — Se quiser saber o motivo, escute a minha história. Eu me rebelei contra o rei dos gênios. Para me castigar, ele me encerrou neste vaso de cobre, lacrando-o com um selo de chumbo, que é o único encanto capaz de me deter e me impedir de sair. Em seguida ele jogou o vaso no mar. Durante o meu cativeiro, jurei que se qualquer um me libertasse antes de cem anos, eu o faria rico até mesmo depois da morte. Aquele século passou e ninguém me livrou. No segundo século, prometi que daria todos os tesouros do mundo para meu libertador, mas ele nunca veio. No terceiro século, eu prometi fazer de meu salvador um rei, sempre estar perto dele e lhe conceder diariamente três desejos. Mas aquele século também se passou e eu permaneci na mesma prisão. Finalmente, fiquei furioso por ter permanecido cativo por tão longo e prometi que se alguém me soltasse, eu o mataria imediatamente e só lhe permitiria escolher de que maneira ele deveria morrer. Como vê,

          O pescador estava muito infeliz.

          — É isso que um homem azarado como eu ganha por ter salvado você. Eu lhe imploro que poupe minha vida.

          — Já lhe disse! — tornou o gênio. — Sejamos breves. Escolha, você está desperdiçando meu tempo!

          O pescador teve uma ideia repentina.

          — Considerando que eu tenho que morrer — falou ele, — antes de eu escolha a maneira de minha morte, eu suplico por sua honra que me diga se estava realmente dentro do vaso!

          — Sim, eu estava — respondeu o gênio.

          — Eu realmente não posso acreditar nisso — afirmou o pescador. Aquele vaso pequeno mal pode conter um de seus pés, quanto mais o corpo inteiro. Eu não posso acreditar nisso, a menos que eu o veja fazer isso.

          — Pois vou lhe mostrar como! — falou o gênio, com desprezo.

          Então ele começou a se transformar em fumaça que, como antes, esparramou-se para cima do mar e da orla, depois foi se juntando e começando a entrar lentamente no vaso, até que nada restasse do lado de fora. Uma vez saiu do vaso, indagando:

          — Bem, pescador descrente, aqui estou eu, dentro do vaso. Acredita em mim agora?

          O pescador, em vez de responder, apanhou a tampa de chumbo e fechou depressa no vaso.

          — Agora, ó gênio do mal — exclamou o pescador. — Peça perdão a mim e escolhe de que morte morrerá! Mas não, será melhor que eu o lance ao mar e que construa uma casa na praia para avisar a todos os pescadores que aqui vêm lançar suas redes para que se previnam de pescar um gênio tão mau como você, que jura matar o homem que o libertar.

          A estas palavras, o gênio fez tudo que pôde para sair, mas não podia, por causa do encanto da tampa.

          — Se me ajudar, eu o farei o homem mais sábio do mundo todo, capaz de desafiar gênios, seduzir fadas e conquistar reinos.

          — Se eu confiar em você, nada me garantirá que serei tratado com justiça. Além disso, se minha astúcia superou a de um gênio, estou certo de que poderei vencer pela astúcia qualquer outro que aparecer no meu caminho — disse o velho.

          — Poderá ter tudo que jamais teve em sua miserável vida! — continuou o gênio.

          — Vou fazer melhor! Vou correr o mundo, levando você para ensinar as pessoas a enfrentarem a maldade — finalizou o velho, encarando agora o gênio que queria tirar a vida do pobre e desesperado comerciante.

          — Devo confessar que sua história é a mais surpreendente e maravilhosa de todas as outras — afirmou o gênio, realmente surpreso, olhando de rabo de olho para o pote que o velho tinha nas mãos. — Por isso eu lhe dou a terceira parte do castigo do comerciante. Ele deve agradecer todos os três pelo empenho demonstrado em salvá-lo. Se não fossem vocês, ele já teria partido desta vida.

          Dizendo assim, ele desapareceu, para grande alegria do comerciante e de seus companheiros. Ele não soube como agradecer seus amigos e fez tudo que estava ao seu alcance para demonstrar sua gratidão.

          Convidou a todos para irem morar na casa dele, mas os viajantes agradeceram e cada um tomou seu rumo. O comerciante voltou para sua esposa e para seus filhos, passando o resto de sua vida feliz com eles.

Fontes:
BAÇAN, L. P. Lendas árabes. Pérola/PR: Ed. do Autor, 2007.
Imagem: http://um-livro-de-coisas.blogspot.com

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

L. P. Baçan (A História do Segundo Velho e dos Cachorros Pretos)

   
       Grande Príncipe do Gênios, você tem que saber que nós somos três irmãos, estes dois cachorros pretos e eu. Nosso pai morreu e deixou mil cequim para cada um de nós. Com essa quantia, resolvemos ter a mesma profissão e nos tornamos comerciantes. Pouco tempo depois que abrimos nossas lojas, meu irmão primogênito, um destes dois cachorros, resolveu visitar países estrangeiros para vender mercadorias. Com essa intenção, ele vendeu tudo que tinha e comprou para novas mercadorias para a viagem que estava a ponto de fazer. Ele partiu e se passou um ano inteiro. Ao término deste tempo, um mendigo veio a minha loja.

          — Bom-dia! — eu disse.

          — Bom-dia! — respondeu ele. — É possível que você não me reconheça?

          Então eu o olhei bem de perto e vi que era meu irmão. Eu o fiz entrar em minha casa e lhe perguntei o que ocorrera com o empreendimento dele.

          — Não me questione! — ele me respondeu. — Veja, você vê tudo o que sobrou do que eu tinha. Sinto dificuldade em contar os infortúnios que me aconteceram nesse ano e que me deixaram assim.

          Eu fechei minha loja e lhe dei toda a minha atenção. Levei-o ao banho, dando-lhe uma de minhas batas mais bonitas. Eu fiz minhas contas e descobri que tinha dobrado meu capital. Entreguei a metade ao meu irmão, dizendo:

          — Agora, irmão, você pode esquecer suas perdas.

          Ele os aceitou com alegria, e vivemos juntos como vivíamos antes. Algum tempo depois, meu segundo irmão também desejou fazer a viagem de negócios dele. Meu irmão primogênito e eu fizemos tudo que pudemos para dissuadi-lo, mas foi inútil. Ele se juntou a uma caravana e partiu, para retornar ao término de um ano, no mesmo estado que nosso irmão mais velho.

          Tomei conta dele e, como eu tinha mil cequim para repartir, eu os dei a ele e ele reabriu sua loja.

          Um dia, meus dois irmãos vieram até mim para propor que nós viajássemos para vender mercadorias. No princípio eu recusei.

          — Vocês viajaram e o que ganharam com isso? — indaguei.

          Eles não desistiram e vieram repetidamente a mim e, depois de insistirem durante cinco anos, eu acabei cedendo. Finalmente, quando eles tinham feito os preparativos deles e começaram a comprar as mercadorias que iríamos vender, perceberam que haviam gastado todo o dinheiro que eu lhes havia dado. Eu não os repreendi e dividi minha fortuna, no total de seis mil cequim, da seguinte forma. Deu mil a cada um deles, guardei mil para mim e enterrei os outros três mil em um canto de minha casa. Nós compramos mercadoria, carregamos um navio com elas e partimos com um vento favorável.

          Depois da navegar dois meses, chegamos a um porto onde desembarcamos e fizemos excelentes negócios. Então nós compramos mercadorias do país e nos preparamos para velejar mais uma vez. Eu estava no barco, parado na praia calma, quando uma linda mas pobremente vestida mulher subiu a rampa e veio até mim, beijou minha mão e me implorou que me casasse com ela e a levasse a bordo. No princípio eu recusei, mas ela implorou tanto, prometendo ser uma boa esposa, que eu, afinal, consenti. Eu comprei alguns vestidos bonitos e, depois de termos nos casado, embarcamos e fixamos a vela. Durante a viagem, descobri tantas qualidades boas em minha esposa que comecei a amá-la cada vez. Mas meus irmãos começaram a ter ciúmes de minha prosperidade e resolveram conspirar contra minha vida. Uma noite, quando nós estávamos dormindo, eles nos jogaram no mar. Porém, minha esposa era uma fada e não me deixou afogar, transportando-me para uma ilha. Quando o dia amanheceu, ela disse a mim:

          — Quando eu o vi naquela praia, fiquei encantada com você e desejei testar sua natureza para ver se era boa, por isso me apresentei na forma em que me viu. Agora eu o recompensei, salvando sua vida. Mas estou muito brava com seus irmãos e não descansarei até levar as vidas deles.

          Eu agradeci à fada tudo que ela tinha feito para mim, mas supliquei para não matar meus irmãos. Tanto fiz que consegui aplacar sua ira. Num momento, então, ela me transportou da ilha onde estávamos para o telhado de minha casa, desaparecendo em seguida. Eu desci, abri as portas e desenterrei os três mil cequim que eu tinha enterrado. Eu foi para o lugar onde minha loja estava localizada e abri-a, recebendo as boas-vindas de meus companheiros comerciantes pelo meu retorno. Quando eu fui para casa, vi dois cachorros pretos que vieram humildemente ao meu encontro, como me conhecessem. Fiquei surpreso, mas a fada reapareceu e disse:

          — Não fique surpreso com esses cachorros. Eles são seus dois irmãos, condenados a permanecer durante dez anos nessa forma.

          E entes que eu pudesse falar alguma coisa, ela desapareceu. Os dez anos já quase se passaram e eu estou viajando a procura dela. Quando passava por aqui, vi esse comerciante e o velho com a corça e fiquei com eles.

          — Realmente! — disse o gênio. — Sua história é maravilhosa e por isso eu lhe concederei um do castigo do comerciante.

          Então o terceiro velho fez para o gênio o mesmo pedido que os outros dois haviam feito, e o gênio lhe prometeu o último terço do castigo do comerciante se a história dele ultrapassasse as outras.

          Assim ele contou a história dele ao gênio.

continua...

Fontes:
BAÇAN, L. P. Lendas árabes. Pérola/PR: Ed. do Autor, 2007.
Imagem: http://um-livro-de-coisas.blogspot.com

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

L. P. Baçan (A História do Velho e da Corça)

   
       Esta corça que você vê comigo é minha esposa. Nós não tínhamos nenhum filho nosso, então adotei o filho de meu escravo favorito e determinei fazê-lo meu herdeiro. Minha esposa, porém, sentia uma grande antipatia pela mãe e pela criança, fato que me escondeu até que fosse tarde demais. Quando meu filho adotivo tinha aproximadamente dez anos, fui obrigado a sair em viagem. Antes de ir, confiei a minha esposa a criança e a mão dela, implorando que cuidasse delas durante minha ausência, que durou um ano inteiro. Durante este tempo, ela se dedicou ao estudo das artes mágicas para levar a cabo seus planos maléficos. Quando adquiriu conhecimento e poderes suficientes, levou meu filho e a mãe para um lugar distante, transformando-os num bezerro e numa vaca. Depois pediu a meu mordomo que cuidasse dos dois como se fossem animais que ela havia comprado. Por fim, tratou de dar fim no meu escravo.

          Quando voltei, perguntei por meu escravo e pela criança.

          — Seu escravo está morto — disse ela. — Quando ao seu filho, eu não o vejo há dois meses e não sei onde ele está.

          Eu lamentei ao ouvir falar do morte de meu escravo, mas como meu filho havia apenas desaparecido, eu pensei que logo haveria de encontrá-lo. Porém, oito meses se passaram, sem nenhuma novidades dele. Então chegou a época das festas de Bairam.

          Para celebrar isso, ordenei que meu mordomo trouxesse uma vaca gorda para sacrificar. Ele assim fez. A vaca que ele trouxe era minha escrava, a mãe de meu filho. Quando eu estava a ponto de mata-la, ela começou a mugir baixinho, como se suplicasse por sua vida. Eu vi, então, que os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Tomado de piedade, ordenei o mordomo para levá-la e trazer um outro. Minha esposa, que estava presente, ridicularizou a minha compaixão, dizendo maliciosamente:

          — O que está fazendo você? Mate esta vaca. É a melhor que nós temos para sacrificar.

          Tentei agradá-la, mas novamente o animal mugiu e suas lágrimas me desarmaram.

          — Leve-a embora! — ordenei ao mordomo. — Mate-a você, eu não posso fazer isso.

          O mordomo, cumprindo minhas ordens, a matou. Ao esfolada, porém, descobriu que ela não tinha nada além de ossos, embora aparentasse ter muita gordura. Fiquei consternado.

          — Fique com ela! — disse ao mordomo. — E se tiver um bezerro gordo, traga-o no lugar dela!

          Em pouco tempo ele trouxe um bezerro gordo que, embora eu não o reconhecesse, era meu filho. Tentou arduamente partir sua corda e vir até mim. Lançou-se a meus pés, com sua cabeça no solo, como se desejasse despertar minha piedade, implorando-me para não lhe tirar a vida.

          Eu fiquei ainda mais surpreso com essa ação do que fiquei com as lágrimas da vaca.

          — Vá — ordenei ao mordomo. — Leve de volta este bezerro, com bastante cuidado, e traga imediatamente outro em seu lugar.

          Assim que minha esposa me ouviu falar isso, indagou:

          — O que está fazendo você, marido? Não sacrifique nenhum outro bezerro senão este!

          — Esposa! — eu respondi. — Não sacrificarei este bezerro!

          Rebati todos os argumentos dela e permaneci firme. Matei um outro bezerro e libertei o primeiro. No dia seguinte, o mordomo me procurou e pediu para falar em particular.

          — Eu vim lhe contar uma notícia que eu o penso que irá gostar de ouvir. Eu tenho uma filha que conhece magia. Ontem, quando libertei o bezerro que você recusou sacrificar, eu contei a ela e ela sorriu. Imediatamente depois começou a chorar. Eu lhe perguntei por que ela estava fazendo aquilo.

          — Pai! — ela respondeu. — Este bezerro é o filho de mestre. Eu sorri de alegria ao vê-lo ainda vivo, mas lamentei ao lembrar que a mãe dele foi sacrificada. Essas transformações foram forjadas pela esposa de nosso mestre, que odiava o filho adotado.

          Ao ouvir essas palavras do mordomo, mal podem imaginar a minha surpresa. Pedi ao mordomo que trouxesse a filha dele e fui para o estábulo ver meu filho, que respondeu a seu modo a todo o meu carinho. Quando a filha do mordomo apareceu, eu lhe perguntei se ela poderia fazer meu filho voltar a sua forma natural.

          — Sim, eu posso — ela respondeu, — sob duas condições. A primeira é que ele me seja dado como marido. A segunda, é que o mestre me deixe castigar a mulher que o transformou em bezerro.

          — Com a primeira condição — respondi, — eu concordo de todo meu coração e ainda lhes darei um generoso dote. Quanto à segunda condição, também concordo, mas eu só lhe imploro que poupe a vida dela.

          — Assim será! — disse ela. — Será tratada como tratou o filho.

          Então ela apanhou uma vasilha de água e pronunciou sobre ela algumas palavras incompreensíveis. Depois, lançou essa água sobre o bezerro, que tomou imediatamente a forma de um homem jovem e belo.

          — Meu filho, meu querido filho! — exclamei, — beijando-o cheio de alegria. Esta linda jovem o salvou do terrível encanto terrível. Estou certo que, não apenas por gratidão, mas também por amor, você concorda em se casar com ela.

          Ele consentiu cheio de alegria, mas antes que eles estivessem casados, a jovem transformou minha esposa em uma corça, e é ela quem vê você aqui, ao meu lado. Eu desejei que ela tivesse esta forma, ao invés de a de um animal mais estranho, de forma que ninguém a olhasse com repugnância. Deixei meu filho cuidando de meus negócios e vivo viajando. Como não queria confiar minha esposa aos cuidados de ninguém, eu a levo comigo aonde for.

          E então, o que achou de minha história?

          — Realmente, é uma história maravilhosa e surpreendente — afirmou o gênio. — Por causa disso, eu concedo a você um terço do castigo desse comerciante.

          Quando o primeiro velho terminou de agradecer, o segundo, que estava conduzindo os dois cachorros pretos, disse ao gênio:

          — Eu gostaria de lhe contar o que aconteceu a mim e estou certo que achará minha história até mesmo mais surpreendente que a que acabou de ouvir. Mas quando eu terminar, também vai me garantir a terceira parte do castigo do comerciante.

          — Sim — respondeu o gênio. — Contanto que sua história seja mais surpreendente que a história da corça.

          Com este acordo feito, o segundo velho começou a narrar sua história.

continua...

Fontes:
BAÇAN, L. P. Lendas árabes. Pérola/PR: Ed. do Autor, 2007.
Imagem: http://um-livro-de-coisas.blogspot.com

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Silmar Bohrer (Lampejos Semanais) VIII


L. P. Baçan (O Comerciante e o Gênio)

       
   Havia um comerciante que possuiu grande riqueza, tanto em terras, mercadorias como também em dinheiro. Ele era obrigado, de tempos em tempos, a viajar para cuidar de seus negócios. Numa dessas vezes, ele montou seu cavalo, levando com ele uma sacola pequena na qual ele tinha posto alguns biscoitos e tâmaras, porque teria que atravessar o deserto, onde nenhuma comida poderia ser encontrada. Ele chegou ao seu destino sem qualquer infortúnio e, tendo terminado seus negócios, partiu em retorno. No quarto dia da jornada, o calor do sol era muito grande e ele decidiu descansar debaixo de algumas árvores. Ele achou, ao pé de uma enorme nogueira, uma fonte de água clara e corrente. Ele desmontou, amarrou seu cavalo a um galho da árvore e se sentou junto à fonte, depois de ter tirado da sacola algumas tâmaras e alguns biscoitos. Quando ele terminou de comer, lavou a face e as mãos na fonte.

          De repente, ele viu um gênio enorme, pálido de fúria, vindo para ele, com uma cimitarra nas mãos.

          — Levante-se! — ordenou o gênio, com uma voz terrível. — Deixe-me mata-lo como você matou meu filho!

          Ao dizer estas palavras, ele deu um grito horroroso. O comerciante, totalmente petrificado diante da face horrorosa do monstro e com as palavras contra ele, respondeu tremulamente:

          — Ai, meu bom senhor bom, o que posso eu ter feito a você para merecer esta morte horrorosa?

          — Eu o matarei! — repetiu o gênio. — Da mesma forma como você matou meu filho.

          — Mas — disse o comerciante, — como possa eu ter matado seu filho se não o conheço e nunca o vi até agora?

          — Quando você chegou aqui, você não se sentou no solo? — perguntou o gênio. — E você não apanhou algumas tâmaras de sua sacola e, ao come-las, não lançou os caroços fora?

          — Sim, eu certamente fiz isso — confirmou o comerciante.

          — Então, eu lhe falo você matou meu filho. Enquanto atirava os caroços fora, meu filho passou a sua frente e um deles o acertou no olho, matando-o. Assim, eu também matarei você.

          — Ah, senhor, me perdoa! — implorou o comerciante.

          — Não terei clemência com você — respondeu o gênio.

          — Mas eu matei seu filho sem querer, assim eu imploro que me poupe a vida.

          — Não! Eu o matarei como matou meu filho!

          Dizendo isso, ele amarrou os braços do comerciante, lançando-o ao solo. Ergueu a cimitarra para lhe a cabeça. O comerciante protestou mais uma vez sua inocência e lamentou as crianças de sua esposa, tentando evitar seu trágico destino. O gênio, com a cimitarra erguida acima de sua cabeça, esperou até que ele tivesse terminado, nem um pouco sensibilizado com as súplicas do outro.

          Quando o mercador percebeu que o gênio estava determinado a lhe cortar a cabeça, ele disse:

          — Só mais um pedido, eu peço. Conceda-me um adiamento, apenas um pouco de tempo para eu ir para casa dizer adeus a minha esposa e filhos e fazer meu testamento. Quando eu fizer isto, eu voltarei aqui e você me matará.

          — Se eu lhe conceder o adiamento que me pede, temo que você não volte mais aqui.

          — Eu lhe dou minha palavra de honra — respondeu o comerciante. — Eu voltarei sem falta.

          — Quanto tempo você quer? — perguntou o gênio.

          — Eu lhe peço a graça de um ano — respondeu o comerciante. — Eu lhe prometo que, daqui a doze meses, eu o estarei esperando debaixo desta árvore para lhe entregar a minha vida.

          Nisso o gênio o deixou perto da fonte e desapareceu. O comerciante, tendo se recuperado do susto, montou seu cavalo e retomou seu caminho. Quando chegou em casa, a esposa e as crianças o receberam com a maior das alegrias. Mas em vez de abraçá-los, ele começou a se lamentar amargamente. Eles adivinharam logo que algo terrível havia acontecido.

          — Fale, conte-nos o que aconteceu! — pediu a esposa dele.

          — Ai! — respondeu-lhe. — Eu só tenho um ano para viver.

          Então ele lhes contou o que tinha acontecido entre ele e o gênio, e como ele tinha dado sua palavra de voltar ao término de um ano para ser morto. Quando eles ouviram esta notícia terrível, entraram em desespero e lamentaram muito. No dia seguinte, ao retomar seus negócios, a primeira coisa que o comerciante começou a fazer foi pagar suas dívidas. Deu presentes para os amigos e grandes esmolas para os pobres. Ele determinou a liberdade de seus escravos e cuidou para nada faltasse à esposa e aos filhos.

          O ano passou logo, obrigando-o a partir. Quando ele tentou dizer adeus, quase foi vencido pelo sofrimento e, com dificuldade, tomou a direção de seu destino final. Quando lá chegou, ele desmontou e se sentou junto à fonte, onde ele esperou a chegada do gênio terrível. Estava ali, esperando, quando um homem velho que conduzia uma corça veio até ele. Saudaram-se e então o velho indagou:

          — Deixe-me perguntar, irmão, o que o trouxe a este lugar do deserto, onde há tantos gênios maus? Vendo estas belas árvores, qualquer um imagina que o local é habitado, mas, na verdade, é um lugar perigoso para se parar por muito tempo.

          O comerciante falou para o velho por que era obrigado a estar ali. O outro o ouviu com surpresa.

          — Mas esse é um acontecimento maravilhoso! Eu gostaria de ser testemunha de seu encontro com o gênio — falou o velho, sentando-se ao lado do comerciante.

          Enquanto eles conversavam, um outro velho chegou, seguido por dois cachorros negros. Ele os saudou e perguntou o que eles estavam fazendo naquele lugar. O velho que estava conduzindo a corça lhe contou a aventura do comerciante com o gênio. O segundo velho, que jamais ouvira uma história semelhante, também decidiu ficar para ver o que iria acontecer. Sentou-se junto aos outros e estavam conversando, quando um terceiro velho chegou, trazendo em seus braços um pote amarelo. Ele perguntou por que o comerciante que estava com eles parecia tão triste. Eles lhe contaram a história e ele também decidiu ficar para ver o que aconteceria entre o gênio e o comerciante.

          Estavam esperando, quando viram uma fumaça espessa, como uma nuvem de poeira. Aquilo foi se aproximando cada vez mais e então tudo desapareceu repentinamente. Eles viram o gênio que, sem falar com eles, se aproximou do comerciante, com espada na mão. Segurando-o pelo braço, disse:

          — Levante-se e me deixe matá-lo como você matou meu filho.

          O comerciante e os três velhos começaram a lamentar e gemer. Então o velho que conduzia a corça se lançou aos pés do monstro e suplicou:

          — Príncipe dos Gênios, eu imploro que detenha sua fúria e me escute. Eu vou lhe contar minha história e a da corça que tenho comigo. Se você achá-la maravilhosa, eu peço que anule um terço do castigo do comerciante que está a ponto de matar!

          O gênio considerou algum tempo, e então disse:

          — Muito bem, eu concordo com isso.

          — Eu vou começar minha história agora — disse o velho. — Por favor, ouça-me com atenção! — pediu ele e iniciou sua história.

continua...

Fontes:
BAÇAN, L. P. Lendas árabes. Pérola/PR: Ed. do Autor, 2007.
Imagem: http://um-livro-de-coisas.blogspot.com

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Silmar Bohrer (Lampejos Semanais) VII


Fiodor Dostoiévski (O Duplo)

O Duplo é um romance do escritor russo Fiódor Dostoiévski, escrito um ano após o seu livro de estreia, Pobre Gente.

O Duplo narra as aventuras do conselheiro titular Goliadkin e das suas terríveis inquietações em torno de um colega que lhe usurpa a identidade enquanto seu homônimo.

Concebida ainda numa prematura fase do autor russo, O Duplo é ao mesmo tempo «uma história verídica» sobre as crispações - e alienações - de um homem que se vê privado de seus direitos enquanto pessoa particular numa sociedade intrusa e ávida de usurpação, e de uma história documentada sobre a existência do indivíduo em torno de fatores que o levam à insanidade mental e à ruptura da sociedade, mercê de uma vida em que o terror supera o amor em sua plena renovação - fatores esses que desencadearam décadas de superstição e preconceito numa Rússia agitada pelos ventos avassaladores de que o realismo soube tirar proveito.

O mais inquietante neste romance de contornos realistas é a completa desconfiança do senhor Goliadkin – desconfiança essa partilhada ao longo da narrativa pelo leitor – perante as causas que disparam a sua condição. O senhor Goliadkin é antes de qualquer suspeita um homem aparentemente normal, não fosse a sua incessante agitação em redor dos seus inimigos, numa sociedade onde se fomenta a intriga na primeira pessoa. É neste contexto que nos é apresentado o senhor Goliadkin.

Porém, a existência deste homem, aparentemente anônimo e oculto da sociedade de que faz parte, é repentinamente abalada com a aparição de um senhor Goliadkin «completamente igual a si próprio», como se este fosse prova viva da sua pavorosa ocupação.

Após haver dado guarida ao senhor «completamente igual a si» - um indivíduo bastante infeliz e miserável, que passara por várias provações na vida -, o senhor Goliadkin ver-se-á numa situação deveras delicada quando o mesmo a quem dera «do seu pão» se haver convertido em seu inimigo.

A situação em casa do senhor Goliadkin seria para o senhor Goliadkin uma forma muito frutuosa de se passar despercebido na sociedade que frequentava; compreendera mesmo a causa que o deixaria incólume. Porém, o seu homônimo acabaria por se deixar passar por ele mesmo, ora granjeando o carinho dos chefes do departamento, ora fazendo-se convidado no reduto dos seus mais diretos inimigos.

Fonte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Duplo_(romance)

sábado, 16 de dezembro de 2017

Silmar Bohrer (Lampejos Semanais) IV


Monteiro Lobato (A Chave do Tamanho) VIII - A travessia das salas

Para chegar à varanda tinham de subir o último degrau da escada. Por onde? Pelo único caminho existente, o pau da vassoura. Como? Muito bem. Juquinha a ergueria nos ombros e a poria lá. Depois, lá de cima, ela ajudaria Juquinha a subir, dando-lhe a mão. 

"Não! Isso não serve. Posso escorregar e cair. O melhor é eu ir sozinha engatinhando pelo pau até a varanda, e ver se lá existe alguma corda. Se houver corda, Juquinha subirá por ela — e em seguida a Candoca. Está certo."Depois de bem planejada a subida, explicou tudo ao menino e deram começo à realização da ideia. Juquinha, menino forte, ergueu-a facilmente ao ombro e empurrou-a para cima do cabo da vassoura.

— Muito bem — disse Emília lá do alto. — Agora eu subo até a varanda em procura de corda, e você me espera aí com a Candoca — e pôs-se a engatinhar pelo cabo da vassoura acima. Chegando ao nível da varanda, pulou. Encontrou lá um montinho de lixo da manhã.

Emília compreendeu que a criada estava no meio da variação quando ficou reduzida — e a vassoura escorregou pela escada. Nesses ciscos de casa de família, "corda" é coisa que não falta nunca. Emília encontrou vários pedaços de fios de linha, bons para o fim desejado. Arrastou um deles até à quina do degrau e gritou para o menino lá em baixo:

— Achei uma corda ótima. Vou jogar a ponta. Faça uma laçada e passe-a pela cintura da Candoca. Depois suba pela corda acima como os marinheiros sobem pelo cordame dos navios. Mas antes de jogar a corda tenho de amarrar a outra ponta em alguma coisa aqui. Espere.

Emília olhou em torno. Onde amarrar a ponta da "corda"? O chão da varanda era de ladrilhos, sem felpa nenhuma ou prego. Emília foi examinar a soleira da porta, que era de madeira. Descobriu uma excelente lasquinha, ajeitadíssima para o caso, mas inútil, porque ficava a três centímetros de altura. Inútil? Com um pau ela poderia enfiar lá uma laçada feita na ponta da "corda". Só restava achar o pau.

Emília voltou para o montinho de cisco. Que riqueza de materiais! Havia tudo ali. "Cordinhas", paus, pedras, fiapos de pano e rolos de "penugem de cisco".

O pau encontrado foi uma palhinha da vassoura. Emília enfiou a laçada num gancho da palhinha e ergueu-a até à lasca.

— Ótimo! A laçada cerrou e não escapa.

Depois jogou a ponta da "corda" pelo degrau abaixo.

— Pronto, Juquinha. Deixe a Candoca amarrada e suba. Aqui de cima nós dois suspenderemos essa manhosa.

E assim foi feito. O menino subiu com a maior facilidade, porque era mestre em trepar em árvores. Em seguida os dois juntos suspenderam a Candoca. Aí é que ela chorou de verdade, aos berros, como se fosse o fim do mundo. "É natural", pensou Emília fazendo a conta. "Este degrau tem 15 vezes a alturinha dela; corresponde, pois, a uma altura de 27 metros para o Coronel Teodorico. Até ele, um homenzarrão, era capaz de chorar se alguém o suspendesse 27 metros na ponta de uma corda."

Muito bem. Lá estavam os três na varanda, Tinham agora de entrar na casa, o que foi fácil, porque a soleira da porta era apenas de 5 centímetros de altura e havia aquele precioso cisco para ajudá-los. Emília e o menino tomaram duas palhinhas de vassoura de igual comprimento, quebraram outra mais fina em pedaços iguais e amarraram esses pedaços nas duas palhinhas — e lá subiram pela escada feita. A Candoca resistiu. Não queria subir. Estava com medo e a chorar que nem um bezerro. O remédio foi repetirem a operação anterior. Passaram-lhe a corda sob os braços e suspenderam-na à força.

Lá dentro da casa Emília admirou a imensidão de tudo. No assoalho viu um tapete verde-cana com ramagens cor-de-rosa. Tinha meio centímetro de espessura — metade da altura dela! 

— Este tapete está me parecendo um pasto de capim-catingueiro florescido que os bois ainda não amassaram.

Como fosse impossível atravessar a sala por cima do tapete, tiveram de dar volta junto ao rodapé. Em certo ponto viram um enorme balde vermelho: o dedal de celuloide da Zulmira, caído por ali.

— Ótimo! — exclamou Emília. — Vamos deixar a Candoca guardadinha neste "balde", enquanto procuramos o algodão. Esta manhosa só serve para nos atrapalhar.

A Candoca foi sentada à força dentro do dedal e lá ficou chorando, enquanto Emília e Juquinha continuavam a viagem pela beira do rodapé. Em certo ponto encontraram uma pulga dormindo. Que tamanho! Era como um leitão para um homem comum. Juquinha pregou-lhe um pontapé. A pulga arregalou os olhos, assustada, e deu um pulo gigantesco. Logo adiante viram uma traça, dessas que parecem semente de abóbora e caminham com a cabecinha de fora, arrastando a "casa". Pararam para ver bem.

— Estes bichinhos aprenderam o sistema, com os caramujos — disse Emília. — Com eles não há isso de "ir para casa" porque a casa anda com eles.

Notou que a casa da traça era feita de pedacinhos de lã, cortados do tapete e ligados entre si dum modo especial. Emília quis fazer uma experiência.

— Será que se eu trepar em cima ela continua andando? — e trepou.

A traça, porém, encolheu a cabeça, como faz a tartaruga, e ficou imóvel. Emília desceu.

— Não presta. Isto não dá cavalo.

E contou ao Juquinha as suas proezas com o mede-palmo, com o caramujo, com o besouro de pintas amarelas e a mutua. O menino ficou radiante à ideia de montar num besouro.

— Muito melhor que os cavalos — disse ele — porque os besouros voam.

— Antigamente os cavalos também voavam, disse Emília.

— Quando? Nunca ouvi falar nisso.

— Na Grécia houve um tal Pégaso que voava maravilhosamente. O Walt Disney pintou o retrato dele, da Pégasa e dos Pegasosinhos, naquela fita a Fantasia. Não viu?

— Eu bem quis ver, mas papai não deixou. Disse que era muito caro.

— "Pão duro!" Por isso mesmo está "empapado".

— Quê?

— Está dormindo na Papolândia — atrapalhou Emília. — Mas depois da Grécia os cavalos perderam as asas, como as içás quando enjoam de voar e descem. Já agora podemos ter quantos Pégasos quisermos. Podemos montar em besouros, em borboletas, e até em libelinhas. Imaginem que gosto, voarmos montados na velocidade incrível das libelinhas!

E assim, na prosa, chegaram ao quarto de Dona Nonoca. Lá estava a estante dos remédios, imensa, com caixas de pílulas e vidros. Também lá estava o pacote azul do algodão com um chumaço aparecendo. Mas muito alto — na segunda prateleira.

— O algodão está encimíssimo — observou Emília. — Está como papagaio de papel enganchado no fio telefônico. Como derrubar aquilo? O jeito era esse: derrubar. Pacotes de algodão pesam pouco. Se conseguissem alcançá-lo com uma vara... Mas que é da vara?

Emília espiou entre a estante e a parede.

— Achei! Achei! Há aqui um vão escuro, cheio de velhas teias de aranha pelas quais podemos subir.

— E a aranha? — perguntou o menino.

— Não vejo nenhuma. É teia velha, e estes fios aguentam perfeitamente o meu peso — disse Emília experimentando. — Não há como não ter peso nem tamanho. Tudo vira fácil — e foi subindo.

Juquinha de nariz para o ar, acompanhava a manobra.

— A estante tem forro — disse ele. — Quero ver como a senhora passa.

— O forro é de pinho — respondeu Emília. — As tábuas de pinho às vezes têm nós que caem e deixam um buraco. Estou rezando para que este forro seja de tábua de pinho com buraco de nó. Se não houver passagem, paciência. Descerei e procurarei outro meio.

continua…

Fonte:
Monteiro Lobato. A Chave do Tamanho.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Silmar Bohrer (Lampejos Semanais) III


Monteiro Lobato (A Chave do Tamanho) VII – Juquinha conta a sua história

Depois que o gato se foi embora, talvez em procura de mais insetos gostosos como aqueles, Emília pôs-se a refletir muito a sério. Podia sair da toca, mas já estava sem liberdade de ação. De um momento para outro o destino a transformara em mãe de dois órfãos. Juquinha não era nada; até lhe serviria de companheiro — menino taludo, de dois centímetros de altura. Já a Candoca não passava duma criança de três anos e meio, completamente boba. Teria de andar pela mão de alguém. Que alguém? Juquinha ou ela, a "ama seca" Emília — que graça!

— Nunca me casei de medo de ter filhos, e afinal me vejo tutora de dois marmanjos — um maior que eu, mas ainda sem juízo, e outro do meu tamanho, mas que só sabe chorar. A encrenca vai ser grande...

Emília sempre teve fama de não possuir coração. Mentira. Tinha sim.

Está claro que não era nenhum coração de banana como o de tanta gente. Era um coraçãozinho sério, que "pensava que nem uma cabeça". Podendo deixar ali as duas crianças, já que a situação do mundo era a de um geral "salve-se quem puder", não as deixou. Heroicamente resolveu salvá-las.

— Bem. E agora? — pensou lá por dentro logo depois de passado o perigo. — Sozinha, eu ia me arrumando muito bem. Mas tudo mudou. As duas crianças me obrigam a estudar a defesa. Que defesa devo adotar? Evidentemente, o disfarce. Não me resta outro caminho senão essa forma de mentira. Tenho de disfarçar-me em bicho-folhagem ou qualquer coisa assim — e tenho também de disfarçar estas crianças.

A ideia do bicho-folhagem foi sugerida pela lembrança de uma velha história de tia Nastácia. Para livrar-se da onça, o macaco besuntou-se de mel e rolou num monte de folhas secas, desse modo transformando-se em bicho-folhagem e enganando a onça. Emília tinha de inventar qualquer coisa assim.

— Juquinha — disse ela voltando-se para o menino — saiba que seus pais se mudaram para um país muito distante e deixaram vocês entregues aos meus cuidados.

— Para onde foram?

Emília demorou na resposta. Estava pensando. Isso de falar a verdade nem sempre dá certo. Muitas vezes a coisa boa é a mentira. "Se a mentira fizer menos mal do que a verdade, viva a mentira!" Era uma das ideias emilianas. "Os adultos não querem que as crianças mintam, e no entanto passam a vida mentindo de todas as maneiras — para o bem. Há a mentira para o bem, que é boa; e há a mentira para o mal, que é ruim. Logo, isso de mentira depende. Se é para o bem, viva a mentira! Se é para o mal, morra a mentira! E se a verdade é para o bem, viva a verdade! Mas se é para o mal, morra a verdade! Juquinha quer saber para onde os pais foram. Se eu disser a verdade, ele se desespera, chora, e fica uma 'inutilidade de olho vermelho e ranho no nariz atrás de mim. Logo não devo contar a verdade. Poderei inventar uma mentirinha benéfica. Dizer, por exemplo, uma coisa que ele não compreenda bem, mas que o sossegue." E respondeu:

— Seus pais, Juquinha, foram obrigados a mudar-se para a Papolândia.

— Onde é isso?

— É uma terra em toda parte, onde só há papa-popos. É a terra dos papapupu-dospos que voam, ou andam pelo chão miando como gato. E sabe o que é papapopo? — É uma espécie de colo. Antigamente as mães punham os filhinhos no colo; hoje os papapupudospos põem todo mundo no papapopo.

— E é bom lugar esse papapopo?

— Ótimo. Quentinho como cama. Quem adormece nesse colo gosta tanto que não acorda mais.

A explicação deixou Juquinha na mesma, mas o sossegou. Sentia muito que seus pais fossem dormir um sono tão comprido numa terra tão esquisita; mas se era no quente, então bem. A expressão "quentinho como cama" agradou ao menino, que estava nu e com frio.

— Não sei o que aconteceu com a nossa roupa, disse ele. — Eu estava com o meu capote vermelho, de boné na cabeça, pronto para sair com a tia Febrônia depois do almoço. De repente, tudo se sumiu diante de mim. Uma escuridão! Fiquei caído no meio de panos. Veio a falta de fôlego. Comecei a me debater e engatinhar para sair dali.

— Dali de onde?

— Daquela panaria escura.

— Sair e ir para onde?

— Não sei. Eu queria sair, sair — e fui saindo sempre engatinhando.

— Por que sempre engatinhando?

— Porque não podia ficar de pé. O pano não deixava.

— E depois?

— Fui indo, fui indo, até que rolei para um enorme buraco que já não era de pano. Parecia de couro. Escuro como a noite lá dentro. Felizmente vi uma luz. Era um buraquinho claro naquele buracão escuro. Encaminhei-me para lá e saí.

— E que viu?

— Vi este mundo de agora. Tudo tão grande que a gente nem reconhece as coisas. De repente, olhei; mamãe ia saindo de gatinhas de outro enorme monte de pano. E dum terceiro monte de pano, adiante, vi sair papai. Corri para eles. Estavam tão assustados que nem podiam falar. Mamãe afinal falou; papai nunca mais. Ficou totalmente mudo. Vovó, coitada, sumiu. A Zulmira também. Vi o chão forrado de pelos enormes; andar por ali era o mesmo que andar por um capinzal cerrado. Pelos vermelhos e azuis e pretos.

Emília percebeu que Juquinha estava se referindo ao tapete da sala de jantar.

— E a Candoca? — perguntou.

— A Candoca ia tomar banho naquele momento.

A Zulmira já tinha tirado o vestidinho dela... Emília horrorizou-se. Se a pequena já estivesse no banho quando sobreveio a "redução" teria morrido afogada. E pensou nos milhões de criaturas que pelo mundo a fora deviam naquele momento estar no banho e fatalmente morreram afogadas.

— Quem era a Zulmira?

— A ama de Candoca.

Um ponto da história do Juquinha Emília não compreendeu — o tal buracão escuro em que ele havia caído ao escapar da montanha de pano. Mas desconfiou duma coisa.

— Você estava calçado, Juquinha?

— Estava, sim, com os meus sapatos amarelos. E ia sair com a Febrônia justamente para comprar uns sapatos novos. O do pé direito estava furado no dedão.

Emília riu-se.

— Compreendo agora, Juquinha. O tal buraco enorme em que você caiu foi o pé direito daqueles sapatos velhos, o buraquinho do buracão" era o furo do dedão.

O menino ficou pensativo, de rugas na testa.

"Quem sabe se foi mesmo?"

A Candoca principiou a choramingar de frio. Aquele cimento da escada não era bom berço. O choro da criança fez que Emília voltasse à ideia do bicho-folhagem. Tinha de descobrir qualquer coisa com que vestir-se e vestir os órfãos. Pano?... Impossível. Pano até que havia muito, por toda parte montanhas de pano; mas pano pede tesoura e agulha, e se acaso ela possuísse uma tesoura e uma agulha seriam proporcionais ao seu tamanho e tão pequenininhas que não cortaria nem coseria nenhum dos grossos panos existentes no mundo.

Mas há uma coisa que pode substituir o pano: o algodão com que se fazem os panos. Se ela encontrasse um pouco de algodão, estariam resolvidos dois grandes problemas: o do vestuário e o da defesa.

— É isso! Vou disfarçar-me em chumaço de algodão e fazer o mesmo às crianças. Chumacinhos de algodão valem pela melhor roupa e podem rolar à vontade pelo mundo, sem atrair a atenção de gatos, pintos ou passarinhos. Que bicho come algodão? Nenhum. Logo, o problema agora é descobrir um chumaço de algodão.

E voltando-se para o Juquinha:

— Lá dentro de sua casa não haverá algodão?

— Algodão?

— Sim, desse de botar em cova de dente ou no ouvido, quando há dor de ouvido.

— Há, sim. Na estante dos remédios do quarto de mamãe há um pacote azul.

— Ótimo. Fique sabendo que a grande coisa para nós três agora é irmos até lá e apanharmos um pouco desse algodão.

— A senhora está com dor de ouvido? — perguntou o bobinho.

Emília riu-se.

— Não, meu amor. Estou com dor de papapopo e o remédio é algodão.

— Que tanto papapopo a senhora fala? Emília riu-se de novo.

— Juquinha, Juquinha. Papapopo era uma coisa que antigamente não preocupava a ninguém. Mas agora o papapopo é tudo. O grande perigo da humanidade nova, meu amor, é o Senhor Dom Papapopo. Saiba disso.

O menino não entendia. Quis explicações. Ela tapeou.

— O Senhor Dom Papapopo, Juquinha, deve ser filho daquele Papão que outrora assustava as crianças. O tal Papão, porém, era mentira. Nunca existiu. Começou a existir desde que alguém mexeu na Chave do Tamanho. Está entendendo? Desde esse instante o Papapopo, ou o Senhor Dom Papão — pois tudo é a mesma coisa — apareceu no mundo e anda por toda parte nos rondando. Felizmente eu não sou boba. Percebo as coisas muito bem. Penso em tudo e "adapto-me", como diz o Visconde. Por isso estou certa de que o grande remédio contra o Papão é o Algodão. Juquinha amigo toca a procurar o Senhor Dom Algodão por causa do Senhor Dom Papão.

Juquinha ficou na mesma e Candoca pôs-se a berrar.

— Vamos! — disse Emília, dando a mão à manhosa e saindo da fresta.

continua…

Fonte:
Monteiro Lobato. A Chave do Tamanho.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Silmar Bohrer (Lampejo Semanal) II


Monteiro Lobato (A Chave do Tamanho) VI – A família do Major Apolinário

A torneira ficava a cinco palmos do chão, isto é, a cem alturas da Emília. Pareceu-lhe a maior torneira do mundo.

— Em geral as torneiras de jardim não ficam bem fechadas, pensou ela, de modo que de vez em quando cai um pingo.. Lá, portanto, é provável que eu encontre água.

Emília desceu da folha de samambaia e avançou na direção da calçada. Teve a sorte de ver no chão uma folha de iúca mexicana, que o jardineiro podara na véspera e deixara caída por ali (talvez o "apequenamento" o tivesse colhido durante o trabalho.) Onde andaria o pobre jardineiro? No papo de algum passarinho, com certeza. Emília caminhou muito bem por cima da folha de iúca e assim chegou à beira da calçada sem judiar dos pezinhos na dureza das pedras.

A altura da calçada seria duns 20 centímetros, o que representava 20 alturas da Emília, de modo que ela ficou a olhar para semelhante barreira como se fosse a muralha da China. Que colosso! Como galgar tamanha escarpa? Se fosse formiga, dotada de seis patinhas, nada mais simples; naquele momento duas formigas ruivas subiam pela pedra com a mesma facilidade com que andavam no plano. Mas para um bípede de um centímetro de altura, obstáculos de um palmo são muralhas intransponíveis. Emília seguiu pela beira inferior da calçada, na esperança de encontrar um "subidor" qualquer.

Logo adiante deu com uma imensa "cobra vermelha", que descia da calçada, atravessava o pedregulho e afundava a "cabeça amarela" na grama do canteiro próximo. Emília aproximou-se cautelosamente. Viu que era o cano de borracha do jardim. Parou diante dele. Mediu-o com os olhos. Diâmetro igual a três vezes a sua altura. Se pudesse trepar e caminhar por sobre esse cano, ser-lhe-ia fácil transpor a escarpa e descer no cimento.

Por felicidade, a "cabeça-da-cobra", isto é, o esguicho de metal amarelo, afundava na grama do canteiro. Emília foi para lá, agarrou-se às folhinhas de grama e depois de várias manobras conseguiu trepar sobre a borracha. O resto foi fácil. Seguiu pelo cano até à escarpa, isto é, o ponto em que o cano subia do pedregulho à calçada. Esse trecho íngreme ela o galgou de gatinhas.

Ótimo. Estava outra vez no horizontal, em cima da calçada. Com as mãos na cintura, Emília contemplou a paisagem. Que calçada imensa, Deus do céu! Parecia o deserto do Saara.

Deixando-se escorregar do cano abaixo, encaminhou-se para a torneira. Como era gostoso andar no liso do cimento! Até deu uma corridinha.

Bem debaixo da torneira, olhou para cima. Haveria algum pingo em formação naquelas alturas? Impossível perceber. Súbito, sem aviso, um pingão, plaft! pingou em cima dela e esborrachou-a no cimento.

Que banho! Emília ficou atordoada por vários segundos. Nunca supôs que um pingo d'água pesasse tanto. Erguendo-se, bebeu, à moda dos animais, numa das pocinhas formadas pelos respingos, e aproveitou a ocasião para um banho.

— Que coisa curiosa! — exclamou enquanto se esfregava. — Estou nua e não sinto a menor vergonha. Será que isso de vergonha depende do tamanho das criaturas? Deve ser, porque entre os homens a vergonha era só para os adultos. As criancinhas novas não mostravam vergonha nenhuma nem ninguém se ofendia de vê-las nuas.

Aprendi mais essa: vergonha é coisa que depende do tamanho. 

A torneira ficava perto de uma enorme escadaria de cinco degraus — a escadinha da varanda das trepadeiras. Lá no quarto degrau Emília percebeu viventes. Firmou a vista. Eram dois insetos cor-de-rosa e um preto — insetos desconhecidos e evidentemente descascados. Chegando mais perto, compreendeu tudo.

— Meu Deus do céu! Aquilo é gente!...

Era de fato gente — gentinha como ela — os donos da casa com certeza, O inseto preto seria uma tia Nastácia de lá — a cozinheira. E Emília teve assim a primeira prova provada de que o apequenamento também havia alcançado outras criaturas.

— Bom. Vou dar uma subida até lá para conversar com aqueles companheiros.

Mas havia escada, com cada degrau vinte vezes a sua altura. Ah, se aparecesse por ali a mutuca! Emília viu enorme pau caído sobre a escada e compreendeu que era a vassoura. Com certeza a negra estava passando a vassoura na varanda e no momento em que ficou pequenininha a vassoura escorregara escada abaixo e era agora o tal "enorme pau". Felizmente a palha encostava no chão, de modo que Emília pôde subir por ela até equilibrar-se em cima do pau — e lá se foi engatinhando. Ao chegar ao ponto desejado, pulou.

Quando a viram engatinhando por cima do cabo da vassoura, as criaturas do quarto degrau supuseram tratar-se dum mede-palmo; mas mede-palmo não pula, de modo que o pulinho da Emília fez que todas recuassem assustadas.

— Não tenham medo! — disse ela aproximando-se. — Também sou gente. Sou Emília, lá do sítio de Dona Benta, que fiquei pequenininha e ando em exploração pelo mundo.

— É a Emília mesmo, mamãe! — gritou um menino que também andava por ali e só então ela viu.

— Conheço os livros que falam dela. A cara é a mesma, o jeito é o mesmo. Só falta a roupinha de xadrez.

— E quem é você? — perguntou Emília.

— Sou o Juquinha. E esta é a Candoca, minha irmã — disse o menino apontando para outra criança.

— E que aconteceu por aqui?

— Não sei. Era de manhã e estávamos na mesa almoçando. De repente, uma panaria sem fim nos enleou e foi um custo para sairmos de dentro. E todas as coisas ficaram enormes — enormíssimas, como a senhora vê. A casa cresceu que não tem mais fim. Nossa roupa evaporou-se, num mistério.

Emília viu que eles não estavam compreendendo a verdadeira situação. Julgavam-se do mesmo tamanho de sempre. As coisas em redor é que haviam crescido.

— Esse senhor quem é, Juquinha? Seu pai?

— Sim, meu pai. E ali está mamãe. A criada é a tia Febrônia, nossa cozinheira. Papai perdeu a fala coitado, tamanho foi o susto, e mamãe está
muito triste com o desaparecimento de vovó.

— Como desapareceu sua avó?

— Desapareceu porque não aparece — explicou Juquinha — Depois que conseguimos nos livrar daquela inundação de pano, reunimo-nos todos embaixo da mesa — menos vovó. Até agora, nem sinal.

Emília compreendeu o caso. A pobre velha não tinha podido safar-se de dentro de suas próprias roupas, e com certeza havia morrido asfixiada. Se o apequenamento foi coisa para a humanidade inteira, então milhões de criaturas deviam ter perecido como a avó daquele menino — pela impossibilidade de saírem de dentro das próprias roupas. Nada mais claro.

— Como se chama sua mãe?

— Nonoca.

Emília dirigiu-se para Dona Nonoca, que estava chorando. Contou-lhe mil coisas, as suas aventuras no jardim, a luta com a aranha, o perigo das aves, o almocinho de mel que havia feito. A mulher chorava, chorava.

— Chorar não adianta, Dona Nonoca. O que temos de fazer é nos adaptar.

Dona Nonoca não entendeu essa palavra tão científica. Emília explicou-se.

— Adaptar-se quer dizer ajeitar-se às situações. Ou fazemos isso, ou levamos a breca. Estamos em pleno mundo biológico, onde o que vale é a força ou a esperteza. A senhora até teve muita sorte de que nenhum passarinho ou gato a visse. Como vieram parar neste degrau?

A pobre mulher contou que depois do desastre eles vieram caminhando até à varanda, para ver como tinha ficado o mundo.

— E estávamos olhando para o nosso velho jardim, transformado nesta mata gigantesca e sem fim, quando um horrível pé-de-vento nos jogou aqui.

Emília achou graça no "horrível pé-de-vento". Havia de ser aquele mesmo ventinho insignificante que a derrubara duas vezes. Conversou o que pôde com a pobre criatura e com o inseto preto. Desejava provar que nada havia crescido, eles é que haviam perdido o tamanho — mas não pôde convencer ninguém.

— Como é que sabe? — disse a negra. — Eu estou vendo tudo grande.

Emília deu todas as razões imagináveis, sem conseguir coisa nenhuma. E diante da certeza da negra e de Dona Nonoca, também ficou na dúvida.

— Será que tudo ficou grande e as criaturas estão do mesmo tamanho de sempre ou tudo está do mesmo tamanho de sempre e fomos nós que diminuímos?

Pensou, pensou, pensou. O problema era dos mais sérios. Tanto podia ser uma coisa como outra — e em ambos os casos a situação das criaturinhas era exatamente a mesma.

Aquele homem era o Major Apolinário da Silva, prefeito da cidade, cidadão muito importante. Estava agora transformado em insetinho descascado e mudo. Emília mediu-lhe a altura. Viu que tinha 4 centímetros. E como fosse muito gordo, dava a ideia duma taturana cor-de-rosa em pé.

Juquinha, o mais esperto da família, mostrava-se contente com a novidade e, ao contrário do pai, falava pelos cotovelos. Contou que antes da "ventania" ele estivera na varanda espiando a rua pelas grades de ferro do jardim, e muito estranhara não ver movimento nenhum.

— Não passou nenhum automóvel nem carroça, nem nada. Tudo paradíssimo. Um silêncio que nunca vi. Silêncio de gente, porque os passarinhos andam mais barulhentos do que nunca. Parece que se mudaram todos para a cidade.

Emília riu-se. Lembrou-se da queda de içás e siriris em outubro, quando milhões de formigas de asas saem dos formigueiros para a festa anual do banho de sol. Nesses dias o assanhamento das galinhas e passarinhos é enorme — e os papos se enchem de arrebentar. O mundo inteiro devia estar agora cheio do assanhamento das aves, diante da inesperada aparição daquela nova espécie de içás.

Emília esclareceu como pôde o caso e deu os conselhos da sua experiência.

— É preciso, primeiro — disse ela — o maior cuidado com os ventos. Qualquer ventinho nos derruba. Segundo: cuidado ainda maior com os passarinhos e as galinhas. Basta dizer que eu estou aqui, nesta terra desconhecida, justamente por causa dum simples pinto sura, que ainda ontem corria de medo de mim. Terceiro: cuidado com os buracos redondos, porque em geral têm moradores dentro e esses moradores se defendem. Em vez de buraquinhos redondos, temos de procurar vãos, fendas e outros abrigos naturais, não feitos por nenhum colega.

— Colega?

— Sim, nossos colegas são agora os bichinhos do chão e do ar.

Quarto conselho: cada um que arranje um espinho de cactos, porque se não fosse este aqui — e mostrou a sua lança — eu já estava sugada por uma aranha.

— Mas onde poderemos arranjar essa arma? — quis saber Juquinha.

— Esta encontrei perto do "violetal", no chão. Mas criaturas grandes, como seu pai, sua mãe e a tia Febrônia, podem usar alfinetes. Não há alfinetes aqui em casa?

Nesse momento um miado de gato assustou Emília. O menino, porém, e a negra fizeram cara alegre.

— É o Manchinha, disseram os dois ao mesmo tempo.

— Que Manchinha? — perguntou Emília.

— O nosso gato amarelo.

— Emília horrorizou-se. Pois então estavam com um gato ali perto e não se escondiam?

— Ele é o que há de manso — disse a boba da Febrônia. — Dormia na minha cama. Fui eu que o criei.

Oh, estupidez humana! — pensou Emília. — Será que esta gente supõe que o gato vai reconhecê-los e continuar bonzinho como era?

Explicou-lhes isso, e aconselhou-os a procurarem refúgio. Mas quem pode com a burrice de certas criaturas? Ninguém acreditou em suas palavras. Riram-se. Até o Major Apolinário riu-se — pela primeira vez depois do apequenamento.

— Você diz isso porque não conhece o Manchinha — observou Dona Nonoca. — Não há no mundo gato mais meigo.

— Mas pega camundongo?

— Isso, pega.

— E gafanhotos?

— Também pega. Ainda ontem andou atrás dum gafanhoto aí no jardim.

— E acha então que ele tem inteligência bastante para nos distinguir dum gafanhoto ou duma barata?

O Major riu-se de novo. Ele ainda estava com a "ideia de gato" própria das gentes que possuíam tamanho. Emília tentou esclarecê-lo. Explicou aquela história da "ideia filha da experiência".

— A "ideia de gato", Senhor Apolinário, vinha da nossa antiga experiência de criaturas tamanhudas em relação aos gatos. Era a ideia dum animal perigoso para ratos, baratas e gafanhotos, mas inofensivo para nós. Agora, porém, temos de reformar essa ideia, como também temos de reformar todas as ideias tamanhudas, como por exemplo, a "ideia de pinto", a "ideia de leão" e tantas outras. E quem não fizer assim está perdido.

O Major não entendeu. Era a burrice em pessoa. Achou aquele sermão com cara de "coisa de livros". Nesse momento o Manchinha miou novamente mais perto.

Emília não quis saber de mais nada. Agarrando as duas crianças correu a esconder-se numa rachadura do cimento.Foi a conta. A enorme carantonha dum gato gigantesco surgiu à porta da varanda. Miou várias vezes, como quem está aflito em procura dos donos. Depois, aproximou-se, no perigoso andar de gato que enxerga barata.

Que horrível cena! Apesar de durinha de coração, Emília arrepiou-se ao ver o meigo Manchinha, tão saudoso dos seus donos, comer sossegadamente os três insetos descascados que descobriu ali. Mas teve o cuidado de tapar com as mãos os olhos das duas crianças. Juquinha e Candoca nunca vieram a saber do trágico destino de seus pais — vítimas da "lerdeza com que sé adaptavam às novas condições de vida", conforme Emília mais tarde explicou ao Visconde.

continua…

Fonte:
Monteiro Lobato. A Chave do Tamanho.