sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Graciliano Ramos (A doença de Alexandre)

— Como vai, seu Alexandre? Que estrago foi esse? perguntou mestre Gaudêncio à porta da 
camarinha.

— Macacoas da idade, suspirou o doente. Na beira da cova desde a semana passada. Tomei a purga de pinhão que o senhor me ensinou. Entre, seu Gaudêncio, vá-se abancando. Tomei a purga de pinhão e uns xaropes. Depois sinha Terta andou por aí e me deu um suadouro. 

Estava na cama de varas, a testa enrolada num lenço vermelho, a camisa de algodão aberta mostrando os pelos do peito e o rosário de contas brancas e azuis. Cesária e Das Dores levaram
para o quarto a mobília da sala: a pedra de amolar, a esteira, a mala de couro cru e o cepo. 

Mestre Gaudêncio abaixou-se, encolheu-se na passagem estreita e escorregou da treva do corredor para a meia luz que a candeia de azeite espalhava. Seu Libório acompanhou-o. O cego preto Firmino sondou a abertura com o cajado, arriscou alguns passos e, tateando a parede, acercou-se da cama:

— Onde é a dor, seu Alexandre?

— Sei não, seu Firmino, respondeu mole o dono da casa. Pega na raiz do cabelo e vai ao dedo grande do pé. Sente, seu Firmino, sentem vossemecês. Me dê água, Cesária. 

Os visitantes mergulharam na sombra que se adensava nos cantos, procuraram, descobriram e utilizaram os móveis. Das Dores saiu, voltou com um caneco de lata enferrujada, que ofereceu ao padrinho. O enfermo ergueu-se lento num cotovelo, bebeu, deixou cair desanimado no travesseiro a cabeça cor de sangue, como a de um galo-de-campina.

— Arreado, meu amigo, queixou-se. A princípio era uma gastura, o estômago embrulhado e a vista escurecendo. Botei para o interior a purga de pinhão de mestre Gaudêncio e a garrafada que Cesária fez. Das Dores rezou uma oração forte. Depois veio sinha Terta. Ai!

— Esteja quieto, seu Alexandre, murmurou o negro. É melhor vossemecê calar a boca, fechar os olhos e descansar.

— Que descansar! A vida inteira aqui descansando, seu Firmino! Isto é negócio? Não adianta descansar. Ai! Não há mezinha que sirva. Desta vez acho que embarco.

— Não embarca não, sentenciou mestre Gaudêncio curandeiro. É assim mesmo. A moléstia vai comendo, vai comendo, e quando mata a fome, deixa o corpo do cristão. Aí o suplicante se levanta e mata a fome também. Endurece, engorda, conversa, desempena o espinhaço.

— Se o senhor fala, é porque sabe, seu Gaudêncio, gemeu Alexandre. Peço a Deus que os anjos digam amém. Esta fé é que me traz em pé. Ora vejam que besteira. Em pé! Aqui de papo para o ar, contando os caibros, não presto para nada. Cesária fez uma promessa: se me endireitar, arranja umas novenas, vai à missa um ano inteiro todos os domingos e paga cinco libras de cera a Nossa Senhora do Amparo.

— Seu Alexandre, tornou o cego, vossemecê está gastando fôlego à toa, perdendo força.

— Há uma semana que não falo, seu Firmino, e se falo, é para soltar variedades. Agora que estou no meu juízo não me calo, nem por decreto. Preciso desabafar, dizer o que vi naqueles sonhos agoniados de quem está de viagem para a terra dos pés juntos. Primeiro foi um bode. Montei-me nele, e o bicho cresceu, passou as nuvens, chegou ao céu, ficou tão alto que eu não enxergava a terra. Um fumaceiro, um pretume. Segurava-me desesperadamente, com receio de me despencar lá de cima e esbagaçar-me. O infeliz saltava como se tivesse o diabo no couro, espetava as estrelas com as pontas, dava marradas na lua e sapecava os cabelos do focinho no sol. Num dos pulos desaprumei-me e caí. Caí escanchado numa onça-pintada, que se atirou pelo mundo correndo, um pé de vento. Andou, virou, mexeu, atravessou um espinheiro (lá deixei o olho esquerdo num garrancho), meteu-se num mato cheio de marquesões cobertos de jacas maduras, parou na beira de um rio que, pelos modos, era o S. Francisco. Vai senão quando uma coisa me bateu no estribo. Levantei o rebenque, saltei no chão, mas aí notei que estava com a perna metida na goela de uma jiboia, até a coxa.

— “Valha-me o Senhor S. Bento, gritei. Sou um homem frito.” Nessa altura a cachorra Moqueca apareceu e começou a latir. A cobra assustou-se, livrei-me dela devagarinho, saí atrás de uma guariba que fumava cachimbo e usava gibão e guarda-peito.

— Desarranjo no interior, segredou mestre Gaudêncio curandeiro.

— Isso mesmo, seu Gaudêncio, concordou Alexandre. Miolo avariado. O aperreio do sonho continuou, misturado a casos verdadeiros. Uma confusão, um sarapatel, seu Firmino. Das Dores rezando a oração forte, Cesária no cós da saia de Nossa Senhora, e eu malucando na beira do S. Francisco, rastejando uma guariba. Tremia que era um deus nos acuda, procurava afastar aquelas bobagens, mas um papagaio, com um olho de gente no bico, chegava junto de mim, arrastando os pés apalhetados: — “Está aqui, seu major. Está aqui o olho que eu achei estrepado num garrancho, coberto de moscas e formigas. Bote o olho na cara, seu major.” Eu aceitava o conselho e via perfeitamente o papagaio, o S. Francisco, Cesária de joelhos, bulindo nas contas, Das Dores rezando a oração de sustância. A febre não era deste mundo, um febrão pior que o fogo do inferno, sim senhores. Aí sinha Terta se apresentou. Sentiu de longe a quentura, sentiu a quentura no fim do pátio, lá para os pés de juá, foi o que ela disse. Foi ou não foi, Cesária?

— Foi, Alexandre, confirmou Cesária. Podem perguntar a sinha Terta.

— Não senhora, interveio o curandeiro. Fale, seu Alexandre. Está com vontade de falar, fale. É bom. Nós escutamos e o senhor espalha a morrinha. Fale até rebentar.

— Uma peste, seu Gaudêncio. Já andou perto de fornalha de engenho? Era aquilo. Sinha Terta sentiu o calor no fim do pátio.

— Não é muito não? perguntou o cego.

— Sei lá, respondeu Alexandre. Pode ser que seja. Sinha Terta disse, mas se vossemecê julga que ela se enganou, não discuto. Isso não tem importância. A verdade é que eu estava com febre. E estou. Pegue aqui no meu pulso. Escangalhado, seu Firmino. Felizmente agora já penso direito, a leseira desapareceu, Deus seja louvado. Pois, como ia contando, sinha Terta chegou, estirou o beiço, foi à cozinha e ferveu muita flor de sabugueiro. Bebi uma panela toda. Sinha Terta me consolou, arrumou em cima de mim uma serra de panos e saiu com Das Dores, que não se aguentava nas pernas, coitada. Cesária, bamba também, se amadorrou ali na rede. Fiquei só. E começou o efeito do remédio, um despotismo, sim senhores. Quase me desmanchei em suor. As bobagens da arrelia voltaram, achei-me de novo no S. Francisco, ouvindo as lorotas do papagaio, que me acompanhava em voos curtos. A sede me apertou. Deitei-me de barriga para baixo, encostei a boca na correnteza e empanzinei-me com mais de uma canada, mas quando me levantei, estava seco, a língua dura, cuspindo bala. Avistei de supetão uma canoa que se largava para a outra banda, carregada de tatus. 

— “Entre para dentro, major Alexandre, convidou-me o dr. Silva, que era o canoeiro. Tem lugar para o senhor.” Despedi-me do papagaio, acomodei-me na embarcação e ela se afastou. Dr. Silva quis puxar conversa, mas eu estava repugnado, suando, suando. — 

“Santa Maria! estranhou o dr. Silva. Que é que o senhor tem que está pingando tanto, major Alexandre?” E eu me expliquei: — “Armadas de sinha Terta. Empurrou-me no bucho um suadouro brabo, e estou assim, derretendo-me como sebo na brasa. Parece que me sumo. Quando acabar esta desgraceira, não me resta nem osso.” Fomos navegando. Dr. Silva dizia uns casos e eu suava. 

A canoa, com o peso do suor, no meio do rio emborcou. — “Estamos afundando, gritou o dr. Silva. Caia na água, major. Caia na água e veja se alcança terra.” Dito e feito. Saltei da cama, num desespero, aos berros: — “Cesária, que é das minhas alpercatas?” Saibam vossemecês que eu estava com água pela canela. Cesária deixou a rede, as saias levantadas, num assombro: — “Jesus, Maria, José! A gente se afoga.” 

Ainda azuretado, com o S. Francisco e o dr. Silva na cabeça, não me espantei muito. Depois tomei tento e informei-me: — “Está chovendo, Cesária?” — “Está não, Xandu. Certamente houve trovoada nas cabeceiras do riacho.” Foi ver as coisas lá fora e achou tudo em ordem: o tempo limpo, o céu estrelado, o riacho na largura do costume. Voltou — e percebemos o motivo daquele despropósito. O suor tinha enchido a casa, fazia um barulho feio no corredor, saía pelos fundos e entrava no barreiro. Entendem? Horrível, meus amigos.

— Um desadoro, pois não, concordou o cego. Mas quem sabe se aquilo não era trapalhada? Talvez vossemecê estivesse zuruó, tresvariando.

— Estava não, seu Firmino, respondeu Alexandre. Acordei. E Cesária molhou a barra do vestido. Podem perguntar a ela. A casa está úmida. Assim de noite, com esta candeia safada, não se nota, mas de dia vê-se bem. E as alpercatas sumiram-se. As alpercatas foram encontradas anteontem no quintal, enganchadas num pé de muçambê. O senhor quer prova melhor, seu Firmino? Ai! Aquele suadouro me arrasou. Eu queria conversar com os senhores, mas não posso, estou feito um molambo. Não reparem na falta não, meus amigos. Vou dormir.

Fonte> Graciliano Ramos. Histórias de Alexandre. Publicado originalmente em 1944.Disponível em Domínio Público 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Mensagem na Garrafa - 71 -

Carlos Drummond de Andrade
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste. 

Contos e Lendas do Paraná - 19 (Esperança Nova – Paranaguá)


ESPERANÇA NOVA
Quebradeira

O caso ganhou destaque na imprensa da região de Umuarama, quando no ano de 1994, na estrada Jequitibá, distrito das Três Vendas, município de Esperança Nova, uma casa assombrada causava medo, risos e incredulidade nas pessoas. 

No sítio do senhor Derso moravam o seu Neno, a esposa e três filhos; sendo uma menina e dois adolescentes. Na condição de empreiteiros, a família do seu Neno, por mais que trabalhasse, era considerada muito pobre pelos vizinhos sitiantes. Porém, ninguém desabonava a conduta honesta daquela gente simples e humilde. Uma doença nos olhos obrigou seu Neno a retirar um olho, colocando no lugar uma espécie de burca, deixando a família ainda mais necessitada de recursos financeiros.

Certa feita, determinados fenômenos passaram a acontecer na casa daquela família: xícaras, pratos e copos amanheciam quebrados. Garfos entortados podiam ser vistos pela casa. Tochas de fogo acendiam sozinhas e o telhado da casa se encheu de buracos. Seu Neno comunicou o assombro para o patrão, que veio ligeiro de Curitiba para constatar o fato. 

Tamanho foi seu susto, quando um dia dormia tranquilo e, no  meio da noite, às escuras, sentiu a cama suspensa. Aí sim a notícia chegou aos jornais e emissoras da região, culminando nas visitas e orações de crentes, curiosos, padres, pastores e espíritas. 

A filha do Zé Turilho dizia, por exemplo, que o seu rosário havia quebrado em diversos pedaços só por ter se aproximado da casa. O Zé Carlos ofereceu lar aos meninos. O povo dizia que a assombração destruiria com tudo. 

O padre de Pérola achou por bem transferir a família para uma casinha no pátio da Igreja das Três Vendas. A vizinhança ajudava com donativos. A comunidade se comprometeu a ajudar com dinheiro aqueles assustados moradores. Mas, seu Quintino e outros poucos vizinhos não acreditavam naquilo; chamaram a polícia, que visitou o local, conversou com os membros da família e se foi. 

Entretanto, investigadores deixaram na casa uma câmera para filmar o “fenômeno”. Tamanha foi a surpresa, quando a polícia viu as imagens dos sorrateiros moleques, jogando tijolos no telhado, quebrando e danificando os móveis e objetos domésticos. 

Conduzidos à delegacia, confessaram tratar-se de um plano que visava arrecadar dinheiro para reverter o estado de pobreza em que se encontravam. Liberados após os depoimentos e sermões, a família retornou à tal casa assombrada, onde vive até hoje, sem maiores alaridos ou quebradeiras.
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PARANAGUÁ
A lenda do brejo que canta

Cheguei a conhecer, já octogenário, o João Bomsinho, que tinha um sítio lá para as bandas do Porto dos Padres, assim chamado o lugar onde tiveram os Jesuítas uma fazenda de criação, na foz do Imboguassu. Neste sítio o velho cultivava algodão e foi ele quem me contou a história do
“Brejo que Canta”:

A meio caminho da cidade, na embocadura do Imboguassu, há um terreno vasto e alagadiço, onde o lírio do brejo cresce viçoso. Com as chuvas o lugar se transforma num lago e com bom tempo prolongado continua a ser temível atoleiro, do qual o gado por instinto se afasta, receoso de desaparecer no sumidouro.

E assim falava, na sua pitoresca linguagem, o João Bomsinho:

– O brejo canta, sim Sinhô, mas só uma vez no ano, à meia-noite, justa de quinta pra Sexta-feira santa e nessa hora quem por ali passa, ouve muito bem o batido dum fandango, ao som de duas violas e da cantiga dos violeiros. Deus permite que saiam as suas almas do purgatório na noite da paixão pra correrem o fado, em castigo da ofensa ao “Sinhô Morto”.

– Almas de quem? perguntei.

– “Dos violeiros e dos dançadores, os excomungados que cantavam e fandangueavam na noite em que nosso Sinhô morreu. Escuite mecê; no lugar do brejo era um terreno enxuto, bom, de terra branca e firme e nele morava em casa de pedra e cal um tal de Roberto Inglês, ruivo e herege como o diabo, não gostava de Deus nem dos santos. Decerto esse mardito era criminoso e até diziam que fora pirata.

“O meu avô que o conheceu de vista, sempre que o encontrava fazia o sinal da cruz e com ele nunca quis parceria, receoso do castigo do céu. Ora, numa quinta-feira maior estava a vila entregue aos ofícios da semana santa, enlutados os moradores e até o capitão-mor dera ordem à milícia que fizesse a guarda, com a boca dos arcabuzes voltada para o chão e não permitissem cantorias nem folguedos até a hora da aleluia, sob pena de cadeia. Quando o danado, em conluio com o “coisa ruim”, resolveu uma folgança pra essa noite.

“Andava por aqui nesse tempo o coronel Afonso Botelho, que assistiu à missa devotadamente com um laço de crepe no copo da espada, e a Câmara, com o estandarte do rei, de luto, que o vereador mais moço conduzia, foi incorporada à matriz para fazer guarda ao Sinhô Morto.

“Tudo era respeito ao dia. Mas no caminho do Porto dos Padres, o inglês, zombando das coisas santas, procurou e achou uns infelizes que aceitaram o convite. À meia-noite estrondeava o fandango, longe da vila e por isso despercebido da autoridade. A cachaça corria aos copázios. Maneco Eduvirges e Domingos Pedrão, violeiros e já embriagados, cantavam quadrinhas blasfemas, desafiando a majestade divina, com aprovação do diabo ruivo. Quando cantavam esta:

Si Deus morreu porque quis
Não é caso pra chorá
Bate firme, minha gente
Bate forte, até suá

“Nesse instante, a casa moveu-se e todos sentiram que afundava, mas antes do alarme ainda se ouviu o Pedro e o Eduvirges cantarem mais esta barbaridade:

Si morreu pra nos salvá
O fio do padre eterno,
Ele que vá buscá nois
Lá nas profunda do Inferno!

“O movimento acentuou-se e o pânico se manifestou naquelas almas entenebrecidas pelo vício e pela impiedade, despertada nelas a compreensão do desastre e morte inevitável. O primeiro impulso foi de fuga, mas quando tentaram evadir-se já as portas e janelas estavam entaipadas pelo lodo mole que invadia o interior. 

“Apagaram-se as luzes. Nas trevas e começando a respirar dificultosamente, aqueles desgraçados se debatiam. Não havia salvação possível! O fim pela asfixia era fatal. Não tardou a agonia. O terreiro, há pouco ainda sólido, com laranjeiras e cajueiros, dum pra outro instante virou lodaçal e tudo se afundou.

“Consumada a tragédia, a habitação desapareceu no abismo e com ela quantos estavam no fandango sacrílego e fatal. No dia seguinte os sitiantes vizinhos, que iam para a vila assistir à missa da sexta-feira santa, viram com espanto um brejo no local onde de véspera se erguia a moradia do inglês e isto sem que tivesse chovido. E brejo ficou o lugar maldito. Na noite de quinta-feira santa do ano seguinte, alguém por ali passando, noite alta, ouviu claramente o batido dum fandango, ao toque das violas e o cantar dos violeiros. Correu espavorido a contar na vila o prodígio que a tradição trouxe, do Brejo que Canta. De geração em geração, até o presente, vem enchendo de terror a gente supersticiosa que a tudo se arriscará neste mundo, menos transitar pela estrada que margeia o trágico alagadiço, na noite da paixão de Jesus.”

Fonte> Renato Augusto Carneiro Jr (coordenador). Lendas e Contos Populares do Paraná. 
Curitiba : Secretaria de Estado da Cultura , 2005.

Hans Christian Andersen (Olavinho-fecha-os-olhos)

Não há ninguém no mundo que conheça tantas histórias como Olavinho-fecha-os-olhos, ou quem pode relacioná-los tão bem. À noite, enquanto as crianças estão sentadas à mesa ou em suas cadeirinhas, ele sobe as escadas muito suavemente, pois anda de meia, depois abre as portas sem o menor barulho e lança uma pequena quantidade de poeira muito fina em seus olhos, apenas o suficiente para impedi-los de mantê-los abertos, e assim eles não o veem. Então ele se arrasta atrás deles e sopra suavemente sobre seus pescoços, até que suas cabeças começam a cair.

Mas Olavinho-fecha-os-olhos não deseja magoá-los, pois gosta muito de crianças e só quer que eles fiquem quietos para que ele possa se relacionar com essas histórias bonitas, e eles nunca ficam quietos até que estejam na cama adormecidos. Assim que dormem, Olavinho-fecha-os-olhos se senta na cama. Ele está bem vestido; seu casaco é feito de seda; é impossível dizer de que cor, pois muda de verde para vermelho e de vermelho para azul quando ele se vira de um lado para o outro. Sob cada braço, ele carrega um guarda-chuva; um deles, com fotos por dentro, que se espalham em boas crianças, e então eles sonham com as mais belas histórias a noite toda. Mas o outro guarda-chuva não tem fotos, e ele segura as crianças malcriadas para que durmam pesadamente e acordem de manhã sem terem sonhado.

Agora ouviremos como Olavinho-fecha-os-olhos veio todas as noites durante uma semana inteira ao menino chamado Hjalmar, e o que ele lhe disse. Havia sete histórias, pois há sete dias na semana.

SEGUNDA-FEIRA

"Agora, preste atenção", disse Olavinho-fecha-os-olhos, à noite, quando Hjalmar estava na cama, "e eu decorarei o quarto".

Imediatamente todas as flores nos vasos se tornaram árvores grandes, com galhos compridos chegando ao teto e se estendendo ao longo das paredes, de modo que a sala inteira parecia uma estufa. Todos os galhos estavam carregados de flores, cada flor tão bonita e perfumada como uma rosa; e, se alguém os provasse, os teria achado mais doce que a geleia. A fruta brilhava como ouro, e havia bolos tão cheios de ameixas que quase estouravam. Era incomparavelmente bonito. Ao mesmo tempo, soaram lamentos sombrios da gaveta da mesa onde estavam os livros escolares de Hjalmar.

“O que pode ser isso agora?” Disse Olavinho-fecha-os-olhos, indo para a mesa e puxando a gaveta.

Era uma lousa, tão angustiada por causa de um número falso na soma, que quase se partira em pedaços. O lápis puxou e puxou a corda como se fosse um cachorrinho que queria ajudar, mas não conseguiu.

E então veio um gemido do caderno de Hjalmar. Oh, foi terrível ouvir isso! Em cada folha havia uma fileira de letras maiúsculas, cada uma com uma pequena letra ao lado. Isso formou uma cópia; sob essas havia outras cartas que Hjalmar havia escrito: imaginavam que pareciam a cópia, mas estavam enganadas; pois estavam inclinados de um lado como se pretendessem cair sobre as linhas de lápis.

"Veja, é assim que você deve se manter", disse a cópia. "Olhe aqui, você deve inclinar-se assim, com uma curva graciosa."

"Oh, estamos muito dispostos a fazê-lo, mas não podemos", disseram as cartas de Hjalmar; "Somos tão miseravelmente feitos".

"Então você deve estar riscado", disse Olavinho-fecha-os-olhos.

“Oh, não!” Eles choraram, e então se levantaram tão graciosamente que foi um prazer olhar para eles.

"Agora devemos desistir de nossas histórias e exercitar essas cartas", disse Olavinho-fecha-os-olhos; - Um, dois, um, dois ... Então ele os treinou até que se levantassem graciosamente e parecesse tão bonito quanto uma cópia poderia parecer. Mas depois que Olavinho-fecha-os-olhos se foi, e Hjalmar olhou para eles pela manhã, eles estavam tão miseráveis ​​e desajeitados como sempre.

TERÇA-FEIRA

Assim que Hjalmar estava na cama, Olavinho-fecha-os-olhos tocou, com sua varinha mágica, todos os móveis do quarto, que imediatamente começaram a tagarelar, e cada artigo falava apenas de si.

Sobre a cômoda, pendia uma imagem grande em uma moldura dourada, representando uma paisagem, com belas árvores velhas, flores na grama e um amplo riacho que fluía através da madeira, passando por vários castelos, longe no oceano selvagem. Olavinho-fecha-os-olhos tocou a foto com sua varinha mágica, e imediatamente os pássaros começaram a cantar, os galhos das árvores farfalharam e as nuvens se moveram pelo céu, projetando suas sombras na paisagem abaixo deles. Então Olavinho-fecha-os-olhos ergueu o pequeno Hjalmar até a moldura e pôs os pés na foto, bem na grama alta, e lá estava ele, com o sol brilhando sobre ele através dos galhos das árvores.

Ele correu para a água e sentou-se em um pequeno barco ali, pintado de vermelho e branco. As velas brilhavam como prata, e seis cisnes, cada um com uma argola dourada em volta do pescoço e uma estrela azul brilhante na testa, puxaram o barco para o bosque verde, onde as árvores falavam de ladrões e bruxas, e as lindas flores. pequenos elfos e fadas, cujas histórias as borboletas tinham relacionado a eles. Peixes brilhantes, com escamas como prata e ouro, nadavam atrás do barco, às vezes formando uma mola e espirrando água ao redor deles, enquanto pássaros vermelhos e azuis, pequenos e grandes, voavam atrás dele em duas longas filas.

Os mosquitos dançaram ao redor deles, e os chocadeiras gritaram "Buz, buz". Todos queriam seguir Hjalmar, e todos tinham alguma história para contar. Foi uma vela muito agradável. Às vezes as florestas eram densas e escuras, às vezes como um belo jardim, alegre ao sol e flores; depois passou por grandes palácios de vidro e mármore, e nas varandas havia princesas, cujos rostos eram os de menininhas que Hjalmar conhecia bem, e com quem brincava com frequência. Um deles estendeu a mão, na qual havia um coração feito de açúcar, mais bonito do que qualquer confeiteiro já vendido. Enquanto Hjalmar navegava, ele segurou um lado do coração de açúcar e o segurou com força; a princesa também se segurou, de modo que se partiu em dois pedaços.

Hjalmar tinha uma peça e a princesa a outra, mas a de Hjalmar era a maior. Em cada castelo havia pequenos príncipes atuando como sentinelas. Eles apresentaram armas, e tinham espadas de ouro, e fizeram chover ameixas e soldados de estanho, para que fossem príncipes de verdade.

Hjalmar continuou a velejar, às vezes pelos bosques, às vezes por grandes salões e depois pelas grandes cidades. Por fim, ele chegou à cidade onde morava sua enfermeira, que o carregara nos braços dela quando era muito pequeno e sempre fora gentil com ele. Ela assentiu e acenou para ele, e então cantou os pequenos versos que ela mesma compôs para ele:

“Quantas vezes minha memória se volta para ti,
Meu próprio Hjalmar, sempre querido!
Quando eu pude assistir tua alegria infantil,
Ou beije uma lágrima perolada.
Tem nos meus braços tua língua falsa
Primeiro falou a palavra meio esquecida,
Enquanto os teus passos cambaleantes eu pendurava,
Minha carinhosa proteção para pagar.
Despedida! Oro para o poder celestial
Para te manter até a hora da morte."

E todos os pássaros cantaram a mesma música, as flores dançavam nos caules e as árvores velhas assentiam como se Olavinho-fecha-os-olhos também lhes estivesse contando histórias.

QUARTA-FEIRA

Como a chuva caiu! Hjalmar podia ouvir isso enquanto dormia; e quando Olavinho-fecha-os-olhos abriu a janela, a água correu bastante até o peitoril da janela. Tinha a aparência de um grande lago do lado de fora e um belo navio jazia perto da casa.

“Você vai velejar comigo esta noite, pequeno Hjalmar?” Disse Olavinho-fecha-os-olhos; "Então veremos países estrangeiros e voltarás aqui de manhã."

De repente, estava Hjalmar, com suas melhores roupas, no convés do nobre navio; e imediatamente o tempo ficou bom. Eles navegaram pelas ruas, contornaram a igreja e, de todos os lados, rolaram o amplo e grande mar. Eles navegaram até a terra desaparecer, e então viram um bando de cegonhas, que haviam deixado seu próprio país, e estavam viajando para climas mais quentes. 

As cegonhas voavam uma atrás da outra, e já havia muito, muito tempo na asa. Um deles parecia tão cansado que suas asas mal o carregavam. Ele foi o último da fila e logo foi deixado para trás. 

Por fim, afundou cada vez mais baixo, com asas estendidas, batendo-as em vão, até que seus pés tocaram o cordame do navio, e ele deslizou das velas para o convés e parou diante deles. Então, um menino de marinheiro o pegou e o colocou no galinheiro, com as aves, os patos e os perus, enquanto a pobre cegonha ficou perplexa entre eles. "Basta olhar para aquele sujeito", disseram as galinhas.

Então o peru-galo estufou o máximo que pôde e perguntou quem ele era; e os patos giram para trás, gritando: "Quack, quack".

A cegonha contou-lhes tudo sobre a África quente, as pirâmides e o avestruz, que, como um cavalo selvagem, atravessa o deserto. Mas os patos não entenderam o que ele disse e gritaram entre si: “Somos todos da mesma opinião; a saber, que ele é estúpido. "

"Sim, com certeza, ele é estúpido", disse o peru; e devorado.

Então a cegonha permaneceu em silêncio e pensou em sua casa na África.

"Essas são suas pernas finas e bonitas", disse o peru. "Quanto custam um quintal?"

"Quack, quack, quack", sorriram os patos; mas, a cegonha fingiu não ouvir.

"Você também pode rir", disse o peru; “Pois esse comentário era bastante espirituoso, ou talvez estivesse acima de você. Ah, ah, ele não é inteligente? Ele será uma grande diversão para nós enquanto permanecer aqui. ”E então ele devorou, e os patos gritaram:“ Devore, devore; Quack, quack.

Que tumulto terrível eles fizeram, enquanto se divertiam tanto entre si!

Então Hjalmar foi ao galinheiro; e, abrindo a porta, chamou a cegonha. Então ele pulou no convés. Ele havia descansado agora, e parecia feliz, e parecia que ele acenou para Hjalmar, como se quisesse agradecer. Então ele abriu as asas e voou para países mais quentes, enquanto as galinhas estalavam, os patos grasnavam e o peru ficava escarlate na cabeça.

"Amanhã você será transformado em sopa", disse Hjalmar às aves; e então ele acordou e se viu deitado em sua pequena cama.

Foi uma jornada maravilhosa que Olavinho-fecha-os-olhos o fez fazer essa noite.

QUINTA-FEIRA

"O que você acha que eu cheguei aqui?” Disse Olavinho-fecha-os-olhos: “Não se assuste, e você verá um ratinho.” E então ele estendeu a mão para ele, na qual estava uma adorável pequena criatura. “Chegou para convidá-lo para um casamento. Dois ratinhos vão entrar no estado de casamento hoje à noite. Eles residem sob o piso do depósito de sua mãe, e essa deve ser uma excelente moradia. ”

"Mas como posso atravessar o pequeno buraco de rato no chão?", Perguntou Hjalmar.

"Deixe-me administrar isso", disse Olavinho-fecha-os-olhos. "Em breve vou fazer você pequeno o suficiente." E então ele tocou Hjalmar com sua varinha mágica, e depois se tornou cada vez menos, até que finalmente não passou de um dedinho. “Agora você pode pegar emprestado o vestido do soldado de lata. Eu acho que isso serve apenas para você. Parece bom usar um uniforme quando você entra na empresa. ”

"Sim, certamente", disse Hjalmar; e em um momento ele estava vestido tão bem quanto o mais puro de todos os soldados de estanho.

"Você será tão bom a ponto de se sentar no dedal da sua mãe", disse o ratinho, "para que eu possa ter o prazer de atraí-lo para o casamento."

- Você realmente vai se incomodar, mocinha? - perguntou Hjalmar. E assim, ele foi ao casamento do rato.

Primeiro eles entraram no chão e depois passaram por uma longa passagem, que mal era alta o suficiente para permitir que o dedal passasse por baixo, e toda a passagem foi iluminada com a luz fosforescente da madeira podre.

“Não tem um cheiro delicioso?” Perguntou o ratinho, enquanto ela o puxava. “A parede e o chão foram manchados com casca de bacon; nada pode ser melhor."

Muito rapidamente eles chegaram ao salão nupcial. À direita, estavam todas as ratinhas, sussurrando e rindo, como se estivessem brincando umas com as outras. À esquerda estavam os camundongos, acariciando seus bigodes com as patas dianteiras; e no centro do salão podia ser visto o par nupcial, lado a lado, em uma casca de queijo oca, e se beijando, enquanto todos os olhos estavam fixos neles; pois eles já estavam noivos e logo se casariam. Mais e mais amigos continuavam chegando, até que os ratos estavam quase se matando; pois o par nupcial estava agora na porta e ninguém podia entrar ou sair.

A sala havia sido esfregada com casca de bacon, como a passagem, que era toda a bebida oferecida aos convidados. Mas para a sobremesa eles produziram uma ervilha, na qual um rato pertencente ao casal de noivas havia mordido as primeiras letras de seus nomes. Isso era algo bastante incomum. Todos os camundongos disseram que era um casamento muito bonito e que tinham sido muito agradáveis.

Depois disso, Hjalmar voltou para casa. Ele certamente estivera em grande sociedade; mas ele fora obrigado a rastejar debaixo de uma sala e a se tornar pequeno o suficiente para vestir o uniforme de um soldado de lata.

SEXTA-FEIRA

“É incrível a quantidade de idosos que ficariam felizes em me receber à noite”, disse Olavinho-fecha-os-olhos, “especialmente aqueles que fizeram algo errado. 'Bom olá', dizem eles para mim ', não podemos fechar os olhos e ficamos acordados a noite toda e vemos todas as nossas más ações sentadas em nossas camas como pequenos diabinhos e borrifando-nos com água quente. Você vai levá-los embora, para que possamos ter uma boa noite de descanso? ​​', E eles suspiram profundamente e dizem:' Teríamos prazer em pagar por isso. Boa noite, Olavinho, o dinheiro está na janela. - Mas nunca faço nada por ouro. - O que devemos fazer esta noite? - perguntou Hjalmar. "Eu não sei se você gostaria de ir para outro casamento", respondeu ele, "embora seja um assunto completamente diferente do que vimos na noite passada. A boneca grande de sua irmã, que se veste de homem e se chama Herman, pretende se casar com a boneca Bertha. Também é o aniversário das bonecas e elas receberão muitos presentes."

“Sim, eu já sei disso”, disse Hjalmar, “minha irmã sempre permite que suas bonecas mantenham seus aniversários ou se casem quando precisam de roupas novas; isso já aconteceu centenas de vezes, tenho certeza.

“Sim, pode ser; mas hoje à noite é o centésimo primeiro casamento e, quando isso aconteceu, deve ser o último; portanto, isso deve ser extremamente bonito. Apenas olhe."

Hjalmar olhou para a mesa, e lá estava a casinha de bonecas de papelão, com luzes em todas as janelas, e desenhadas diante dos soldados de lata que apresentavam armas. As noivas estavam sentadas no chão, encostadas na perna da mesa, parecendo muito atenciosas e com boas razões. Então Olavinho-fecha-os-olhos vestidos com o vestido preto da avó casou-se com eles.

Assim que a cerimônia foi concluída, todos os móveis da sala se uniram para cantar uma bela canção, composta pelo lápis de chumbo, e que foi para a melodia do Military Tatoo.

“Que sons alegres estão ao vento,
Enquanto os ritos do casamento se unem
Um par calmo e amoroso,
Embora formado de criança, ainda suave e justo!
Viva! Se eles são surdos e cegos,
Vamos cantar, embora o tempo se mostre desagradável. "

E agora veio o presente; mas o casal nupcial não tinha nada para comer, pois o amor era a comida deles.

"Vamos a uma casa de campo ou viajar?", Perguntou o noivo.

Depois, consultaram a andorinha que havia viajado tão longe e a velha galinha no quintal, que criara cinco ninhadas de galinhas.

E a andorinha conversava com eles de países quentes, onde as uvas pendiam em grandes cachos nas videiras, e o ar é suave e suave, e sobre as montanhas brilhando com cores mais bonitas do que podemos imaginar.

“Mas eles não têm repolho roxo como nós”, disse a galinha, “eu estive no país com minhas galinhas por um verão inteiro; havia um grande poço de areia, no qual podíamos andar e arranhar o que quiséssemos. . Então nós entramos em um jardim em que crescemos repolho roxo; oh, como foi bom, não consigo pensar em nada mais delicioso.

"Mas um talo de repolho é exatamente igual a outro", disse a andorinha; "E aqui geralmente temos mau tempo".

"Sim, mas estamos acostumados a isso", disse a galinha.

"Mas está muito frio aqui e congela às vezes."

"O tempo frio é bom para os repolhos", disse a galinha; “Além disso, nós o aquecemos aqui algumas vezes. Há quatro anos, tivemos um verão que durou mais de cinco semanas e estava tão quente que mal se podia respirar. E então neste país não temos animais peçonhentos e estamos livres de ladrões. Ele deve ser perverso, que não considera nosso país a melhor de todas as terras. Ele não deveria poder morar aqui. ”E então a galinha chorou muito e disse:“ Eu também viajei. Uma vez, percorri 20 quilômetros em uma gaiola e não foi nada agradável viajar.

"A galinha é uma mulher sensata", disse a boneca Bertha. "Não ligo para viajar por montanhas, apenas para subir e descer novamente. Não, vamos ao poço de areia em frente ao portão e depois daremos um passeio no jardim de repolho.

E então eles resolveram isso.

SÁBADO

“Estou ouvindo mais histórias?” Perguntou o pequeno Hjalmar, assim que Olavinho-fecha-os-olhos o mandou dormir.

"Não teremos tempo esta noite", disse ele, estendendo o guarda-chuva mais bonito sobre a criança. “Olhe para esses chineses”, e então o guarda-chuva inteiro apareceu como uma grande tigela de porcelana, com árvores azuis e pontes pontiagudas, sobre as quais estava o pequeno chinês balançando a cabeça. “Devemos deixar o mundo bonito para amanhã de manhã”, disse Olavinho-fecha-os-olhos, “pois será feriado, é domingo. Agora devo ir ao campanário da igreja e ver se os pequenos sprites que vivem lá poliram os sinos, para que soem docemente.

Então devo ir aos campos e ver se o vento soprou o pó da grama e das folhas, e a tarefa mais difícil de tudo o que tenho que fazer é derrubar todas as estrelas e alegrá-las. Eu tenho que numerá-los primeiro antes de colocá-los no meu avental, e também numerar os lugares de onde os levo, para que eles possam voltar aos orifícios certos, ou então eles não permaneceriam, e devemos ter um número de estrelas cadentes, pois todos caíam um após o outro. ”

“Ouça! Sr. Olavinho-fecha-os-olhos”, disse um retrato antigo pendurado na parede do quarto de Hjalmar. "Você me conhece? Eu sou o bisavô de Hjalmar. Agradeço por contar as histórias dos meninos, mas você não deve confundir as ideias dele. As estrelas não podem ser retiradas do céu e polidas; são esferas como a nossa terra, o que é uma coisa boa para eles. ”

"Obrigado, velho bisavô", disse Olavinho-fecha-os-olhos. "Eu que agradeço; você pode ser o chefe da família, como sem dúvida é, mas eu sou mais velho que você. Eu sou um pagão antigo. Os antigos romanos e gregos me deram o nome de deus dos sonhos. Eu visitei as casas mais nobres e continuo a fazê-lo; ainda sei me conduzir tanto para o alto quanto para o baixo, e agora você pode contar as histórias” e então Olavinho-fecha-os-olhos se afastou, levando os guarda-chuvas com ele.

"Bem, bem, nunca se deve dar uma opinião, suponho", resmungou o retrato. E acordou Hjalmar.

DOMINGO

"Boa noite", disse Olavinho-fecha-os-olhos.

Hjalmar assentiu, depois pulou da cama e virou o retrato do bisavô para a parede, para que não os interrompesse como havia feito ontem. “Agora”, ele disse, “você deve me contar algumas histórias sobre cinco ervilhas verdes que viviam em uma vagem; ou do grão de bico que cortejou o grão de bico; ou da agulha de cerzir, que agiu com tanto orgulho porque se imaginava uma agulha de bordar. ”

"Você pode ter muita coisa boa", disse Olavinho-fecha-os-olhos. “Você sabe que eu gosto mais de lhe mostrar uma coisa, então eu vou lhe mostrar meu irmão. Ele também é chamado Olavinho-fecha-os-olhos, mas ele nunca visita ninguém, mas uma vez, e quando chega, ele o leva a cavalo e conta histórias enquanto andam. Ele conhece apenas duas histórias. Uma delas é tão maravilhosamente bela que ninguém no mundo consegue imaginar algo assim; mas o outro é igualmente feio e assustador, de modo que seria impossível descrevê-lo. ”

Então Olavinho-fecha-os-olhos levantou Hjalmar até a janela. “Agora você pode ver meu irmão, o outro Olavinho-fecha-os-olhos; ele também é chamado de morte. Você percebe que ele não é tão ruim quanto eles o representam nos livros de figuras; lá está um esqueleto, mas agora seu casaco é bordado em prata e ele veste o esplêndido uniforme de um hussardo, e um manto de veludo preto voa atrás dele, sobre o cavalo. Veja como ele galopa.” Hjalmar viu que, enquanto este Olavinho-fecha-os-olhos seguia em frente, ele levantou velhos e jovens e os levou com seu cavalo. Alguns ele sentou na frente dele, outros atrás, mas sempre perguntou primeiro: "Como está o livro das marcas?"

"Bom", todos responderam.

"Sim, mas deixe-me ver por mim mesmo", respondeu ele; e eles foram obrigados a dar-lhe os livros. Então todos aqueles que tinham “Muito bom” ou “Extremamente bom” vieram na frente do cavalo e ouviram a bela história; enquanto aqueles que tinham "miserável", ou "razoavelmente bom", em seus livros, eram obrigados a sentar e ouvir a história assustadora. Eles tremiam e choravam, e queriam pular do cavalo, mas não podiam se libertar, pois pareciam presos ao assento.

"Ora, a morte é um Olavinho-fecha-os-olhos mais esplêndido", disse Hjalmar. "Eu não tenho o menor medo dele."

"Você não precisa ter medo dele", disse Olavinho-fecha-os-olhos, "se tomar cuidado e manter um bom livro de conduta".

"Agora eu chamo isso de muito instrutivo", murmurou o retrato do bisavô. “Às vezes, é útil expressar uma opinião;” ele ficou bastante satisfeito.

Estes são alguns dos feitos e ditados de Olavinho-fecha-os-olhos. Espero que ele possa visitá-lo pessoalmente esta noite e relatar um pouco mais.

Fonte> Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 11 de novembro de 1843. Disponível em Domínio Público 

Hinos de Cidades Brasileiras (São Francisco de Itabapoana/RJ)


Autor: Roberto Pinheiro Acruche

São Francisco de Itabapoana
como eu gosto de você.
Sua beleza encantadora
há de sempre resplandecer.

Suas praias, sua grandeza,
seus campos e floração colorida,
obra prima da natureza
eu me orgulho de ter nascido aqui.

Salve seu povo hospitaleiro,
bom, amigo e trabalhador;
Salve terra abençoada
de São Francisco Nosso Senhor...

Abraçada pelos rios,
beijada pelo mar,
ornada com lagoas
você é linda , sempre vou te amar.

São Francisco de Itabapoana
onde o sol brilha mais o ano inteiro,
estrela de grandeza reluzente
do Estado do Rio de Janeiro.

Nilto Maciel (O Julgamento)

A desgraça, descarga megatômica, se abateu sobre nós, de forma impiedosa. Deus nos castiga com seu chicote de ferro, como se tivéssemos cometido infinitamente os pecados das Tábuas da Lei. E eu, que fiz eu, que não me lembro? Terá sido pecado tão terrível todo o sofrimento que sempre tive? Esta série incontável de malogros que não consigo esquecer? Ou, meu Deus, a rebelião que arquitetei e cometi contra o poder de meu pai? Mas nunca o ofendi publicamente, nunca o esbordoei, nunca sonhei a sua morte. Se o ofendi, o fiz em silêncio, nas longas noites de insônia, em sonhos e pesadelos, histórias horrorosas que jamais inventei, e apenas fluíam como águas da terra, incontrolavelmente. Ou terá sido aquela mancebia tão conscientemente esquecida, eu tão jovem e necessitado de amor, de três anos apenas, com a pobre Raquel, coitada, onde estará? Ou a prodigalidade vivida por tanto tempo, a esbanjar como não devia, a deixar de dar a eles, meus pais e irmãos, o tanto precisado? Ou esse casamento malfadado, com essa menina tornada adulta tão de repente? Ou essa fuga precipitada e alucinante, como um bandido caçado insistentemente, para este fim de mundo? Ou o abandono a que lancei meu querido Aécio, para morrer só como um leproso? Não sei, não sei. Ou terá sido tudo isso, todo esse rosário de erros? Estou desgraçado pelo resto da vida. Vou penar ainda mais como um vil pecador. Morrer e parar nas profundezas do Inferno. Não, vou cair eternamente nas labaredas infinitas, inteiro e consciente de minha perdição. Mas, meu Deus, tenha piedade de mim, ajude-me, socorra-me, livre-me dessa dor, desse tormento, desse momento e das dores maiores que me esperam. Dê-me um fim sem dor, perdoe-me todos os pecados e leve-me para sua morada. Seja piedoso! Sou um pobre ser humano ignorante do que faz e fez. Se errei, não foi por querer, mas por não saber. Eu queria ser bom, eu sempre quis ser bom. Eu juro, era assim.

Que desespero é esse, Manuel? Acalma-te. Aquieta-te. Isso não te livrará da solidão e do tormento. Homem, Deus não está contra ti. Ninguém está contra ti. Tu és homem e isso é apenas a vida. Apenas a dor. Não é nada de anormal. É muito normal até. A vida é isso: uma dor trágica e absurda para os incapazes de pensar coerentemente, mas, até certo ponto, cômica e perfeitamente admissível para os dotados de bom senso.

Manuel, pensa, medita, escuta a tua voz antiga. Tu eras um homem sensato, apesar das loucurazinhas que cometeste. Tu nunca desesperaste, mesmo nos momentos mais críticos, mesmo quando a tempestade levantava as patas negras. Tu eras tranquilo, como um lago. Tu eras, sobretudo, forte, corajoso, sonhador. Tu sonhavas castelos e reinados, embora sem ambição. Tu não usavas da violência para realizar teus pequenos sonhos de aventureiro, bandeirante, soldado. Tu seguias teu caminho, que era estreito e difícil, com tropeços aqui e ali, mas seguias. Destemidamente. Tu chutavas as pedras do meio do caminho e buscavas o lado limpo, reto e mais fácil, embora elas te machucassem as pontas dos dedos. E seguias, pisando o solo macio, a relva molhada e admiravas a beleza do teu mundo, já esquecido dos tropeços anteriores e das pedras passadas. Mesmo à noite, quando a escuridão te guiava pelos caminhos da perdição, tu sabias olhar para o alto e sorrir para a aurora que viria infalivelmente. Vinda, teus olhos faiscavam de esperança, tuas faces se avermelhavam de calor, teu corpo se enchia de vida. O sol vinha ao teu encontro e te mostrava os quatro pontos cardeais. Guiavas-te como os Reis Magos e buscavas o Menino-Deus. E gritavas loas ao Senhor, cheio de amor. E davas e recebias. Era a Fé. Que te sustinha, alimentava, saciava e rejuvenescia.

Manuel, se hoje estás no semi-outono, não é por acaso, é tão só pela necessidade de que assim seja. A primavera passou, mas isto não é razão para choro. Por acaso não crês no infinito e no eterno? Por acaso esqueceste a tua crença? Ou já mudaste? Ou já não és o mesmo Manuel cristão? Terás esquecido tão de repente os valores inegáveis que os Padres da Igreja de Roma te ensinaram? Recordo-te, então, que em tua cidade, aquela pequenina cidade onde viveste um pedaço importante de tua vida, tu foste o único, tu e tua mulher, a aplaudir, entusiasmado e no meio da rua, a Revolução e que, por isso, quase foste massacrado pelas turbas revoltadas. Lembras-te? Pois bem: um homem como tu, cristão, acima de tudo, não pode desesperar. Porque o desespero só existe na alma apodrecida dos renegados, dos blasfemos, dos hereges, dos incréus. Esses, sim, têm uma falsa felicidade. Usam máscaras para encobrir a extrema feiúra que suas almas revelam. Eles riem e até gargalham para sufocar o choro de condenados. De condenados ao patíbulo, à fogueira, ao Inferno. Tu, cristão, não cometeste pecado nenhum que mereça o Castigo. O que fizeste, durante toda a tua vida, foi por culpa dos outros. De teu pai, de tua família, de teus parentes, conterrâneos, falsos amigos, de tua mulher. Tu não mereces esse sofrimento. Essa auto-flagelação. Esquece e perdoa. Esquece e bebe. Bebe mais. Bebe, bebe. Afugenta o desespero. Esquece o passado. Tudo. Bebe. Amanhã, amanhã então, tudo será novo. O sol vai nascer. E tu vais em busca do Sol Nascente. Pode ser na Amazônia, nos pampas, nos gerais, nos sertões. Nada está perdido. Tu estás salvo. Toma a bússola. No mar a tempestade grita, mas Cristo caminhou sobre as águas. Lembras-te? E antes, muito antes, Deus separou as águas do Mar Vermelho para que seu povo o atravessasse. Lembras-te também? Por isso, bebe, bebe, bebe.

Fonte> Nilto Maciel. Babel. Brasília/DF: Editora Códice, 1997. 
Enviado pelo autor.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

A. A. de Assis (Jardim de Trovas) 38

 

Mensagem na Garrafa – 70 –

Clarisse da Costa 
Biguaçu/SC

Simplesmente Mulher Guerreira

Eu sou do jeitinho que sou. Pra mim não tem essa de ser normal. O ser diferente é mais legal, até mesmo porque nunca quis ser igual a todos. Já digo logo, eu sou chata quando quero ouvir a melhor música. Eu pareço um disco arranhado ouvindo a mesma melodia.

Não consigo terminar o dia sem uma boa música. Eu tenho aquele sorriso de canto. Outras vezes aquele sorriso frouxo que sorri junto com os olhos. E faço as pessoas sorrirem sem intenção alguma. Gosto da alegria que me rodeia. Claro, nem tudo é flores, às vezes eu choro, nem sempre sou fortaleza, mas ninguém vai me ver pra baixo, abro aquele sorriso e passo o meu batom vermelho. E como dizem, sigo o baile. Eu sou menina, outras vezes mulher.

Vivo a vida como Deus quer. Eu sou sentimento e ousadia. Pego o meu andador e enfrento a vida. Quando amo é por inteiro, já até chorei no meu travesseiro. Não sei fingir, muito menos fugir. Sinto e pronto. Eu enfrento as batalhas da vida sozinha. Não deixo o medo me dominar. 

Sou guerreira, não paro de lutar. Sofro preconceito. Tentam me colocar pra baixo, mas não deixa de sonhar. Eu sou uma mulher que não para de acreditar no melhor. 

Laé de Souza (Atrevimento do Januário)

"Não. Não chegou ainda, senhora." Falou o porteiro, num tom de voz meio áspero, resultado do quinto telefonema.

"Não esqueça de avisar que ele não durma, sem antes me ligar e que estarei esperando", insistiu Gracilina.

Nunca havia acontecido do Januário ter aprontado uma dessas. Sempre foi um sujeito caseiro e temente à mulher. Aquela viagem a serviço com colegas não fora bem aceita por ela, mas, por fim concordou, diante dos argumentos de crise e do crescente desemprego, que ele deveria sacrificar-se por dois dias noutra praça.

Desde os tempos de namoro que o Januário passava aperto e sempre sujeito a prestar contas dos seus movimentos e ausências, mesmo que por tempo mínimo. O que ela dizia ser interesse por ele, para mim, era observação meticulosa de mulher desconfiada.

Januário nunca leu coisa qualquer que Gracilina não lhe interrogasse do assunto e esbugalhasse aqueles negros olhos a querer captar um mistério no motivo do livro nas suas mãos.

O domínio sobre seus interesses e o ciúme vinha de longe. Descobriu sua assinatura da revista Playboy e, tanto fez, até que ele cancelou. Nem por isso, deixou de lhe revirar as coisas, e acertou no pressentimento de que ele não resistiria a comprar a da pose da Vera Fischer. Teve longas noites de insónia quando alardeou-se que, de novo, posaria a Carla Perez e, embora não o tenha pego em flagrante (acredito que também por zelo do Januário), não lhe sai da cabeça que o fulano viu a Carla pelada. E não é para morrer de ciúmes?!

Não passou dos três primeiros capítulos de Hilda Furacão. Quando percebeu que o tema desandava para a leviandade e estímulos ousados, numa crise de ciúmes, Gracilina proibiu que adentrassem à sala tais cenas. 

Januário nunca levantou a voz ou contrariou Dona Gracilina. Nem bem pisou no degrau de entrada do hotel, o porteiro foi lhe avisando dos oito telefonemas da mulher, que ela estava brava e mandou lhe dar o recado que não estava gostando nem um pouco daquela palhaçada e que ele ligasse imediatamente para casa.

Não se ouvia outra coisa que não fosse gargalhada e via-se o riso malicioso do porteiro. Januário refletiu que fosse qual fosse o tamanho do seu aprontamento a mulher iria lhe comer o fígado quando lá chegasse de volta. Melhor ficar com um, do que dois problemas. Não se pode negar que a cachaça ajudou a não deixá-lo desmoralizado perante os colegas. Tomou do telefone e pela reabilitação, xingou a mulher como nunca fizera e que ela não tivesse novamente a ousadia de lhe importunar, sob pena de levar uma sova maior ainda, porque pelo menos uns sopapos ela levaria quando do seu retorno. Bateu o telefone, não dando tempo para Gracilina sair do espanto, dirigiu-se ao porteiro dizendo que fosse quem fosse, não lhe incomodasse.

Nunca ousara tanto, ele reconhecia. Tanto é que agora, de joelhos, pedia que ela lhe perdoasse o atrevimento. E concordava que os bofetes que estava recebendo eram merecidos, mas tinha a recompensa de não estar sendo alvo de gozações no escritório.

Fonte> Laé de Souza. Acredite se quiser. SP: Ecoarte, 2000. Enviado pelo autor

Hinos de Cidades do Brasil (Maringá/PR)


Letra: Ary de Lima
 
I

Quem te avista, nos dias de agora,
Acenando ao porvir da esperança,
Adivinha a floresta de outrora
Que embalou tua vida criança.
Há em ti a grandeza imponente
De um passado que exemplos nos dá:
– Se és glória da Pátria contente,
És orgulho do teu Paraná.

Linda flor, a mais gentil,
Do norte do Paraná,
És orgulho do Brasil,
Nossa amada Maringá. (BIS)

II

O teu vulto traduz a mensagem
De um passado coberto de glória,
Arrancado à floresta selvagem
Para eterno viver na história.
Um poema de luz para o mundo
O teu nome sublime será,
E de nosso afeto profundo
Sempre filha serás Maringá.

Linda flor, a mais gentil,
Do norte do Paraná,
És orgulho do Brasil,
Nossa amada Maringá. (BIS)

III

Teu encanto de hoje é retrato
Das belezas que Deus espalhou
Como bênçãos do céu sobre o mato
Que a tua grandeza enfeitou.
Há em ti o perfume das flores,
A poesia de todos os ninhos,
E uma luz que acende fulgores,
Clareando teus novos caminhos.

Linda flor, a mais gentil,
Do norte do Paraná,
És orgulho do Brasil,
Nossa amada Maringá. (BIS)