domingo, 15 de julho de 2018

Ulysses Lins de Albuquerque (1889 – 1979)

Ulisses (também grafado Ulysses) Lins de Albuquerque nasceu em Sertânia (PE) , em 9 de maio de 1889, filho de Manuel Coelho Lins de Albuquerque e de Teresa Lins de Siqueira. 

Funcionário público, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife. Foi professor interino, em 1904, e teve uma escola particular. Nomeado pelo governador Sigismundo Gonçalves, foi agente do Tesouro na Coletoria Estadual e agente fiscal do Imposto de Consumo em Pernambuco. Transferido para São Paulo, em 1938, atuou na advocacia e na indústria agropecuária, aposentou-se em 1940.. Em 1945, elegeu-se constituinte e, depois, deputado federal por Pernambuco, na legenda do Partido Social Democrático (PSD). Preocupado com o andamento das obras realizadas pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), destacou-se na defesa da construção da usina hidrelétrica de Paulo Afonso.

Após a promulgação da nova Carta (18/9/1946), passou a exercer o mandato na legislatura ordinária, tornando-se membro da Comissão de Transportes e Comunicações da Câmara. Reelegeu-se deputado federal nos pleitos de outubro de 1950 e de 1954 e, ao final do último mandato, em janeiro de 1959, deixou a Câmara, não voltando a exercer cargos públicos eletivos.

Foi membro da Academia Pernambucana de Letras e seu representante na federação das Academias do Brasil, sócio do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e membro do Instituto Genealógico de Pernambuco.

Foi casado com Rosa Bezerra Lins de Albuquerque, com quem teve nove filhos.

Faleceu no Rio de Janeiro em 29 de dezembro de 1979.

Publicou Pedúnculos (1916), Ao sol do sertão (poesia, 1922), Mestres e discípulos (1927), De joelhos (com o pseudônimo de Bilac Sobrinho, 1930), Livro de Inach (1933), Um sertanejo e o sertão (memórias, 1957, 2ª ed., 1976), Chico Dandim (romance, 1974), O boi de ouro e outras histórias (1975), Fogo e cinza, Sertão mártir, Hino à gleba, Alma da terra, Estrada de espinho, Moxotó brabo, Sol poente e Três Ribeiras.

O arquivo de Ulisses Lins encontra-se depositado no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas.

Fontes:

Carlos Drummond de Andrade (Assalto)

Na feira, a gorda senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu:

— Isto é um assalto!

Houve um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém, correndo, foi chamar o guarda. Um minuto depois, a rua inteira, atravancada, mas provida de admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se estava perpetrando um assalto ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente que sim, pois do contrário como poderia ser assaltado?

— Um assalto! Um assalto! — a senhora continuava a exclamar, e quem não tinha escutado escutou, multiplicando a notícia. Aquela voz subindo do mar de barracas e legumes era como a própria sirena policial, documentando, por seu uivo, a ocorrência grave, que fatalmente se estaria consumando ali, na claridade do dia, sem que ninguém pudesse evitá-la.

Moleques de carrinho corriam em todas as direções, atropelando-se uns aos outros. Queriam salvar as mercadorias que transportavam. Não era o instinto de propriedade que os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo transporte. E no atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se, melancias rolavam, tomates esborrachavam-se no asfalto. Se a fruta cai no chão, já não é de ninguém; é de qualquer um, inclusive do transportador. Em ocasiões de assalto, quem é que vai reclamar uma penca de bananas meio amassadas?

— Olha o assalto! Tem um assalto ali adiante!

O ônibus na rua transversal parou para assuntar. Passageiros ergueram-se, puseram o nariz para fora. Não se via nada. O motorista desceu, desceu o trocador, um passageiro advertiu:

— No que você vai a fim de ver o assalto, eles assaltam sua caixa.

Ele nem escutou. Então os passageiros também acharam de bom alvitre abandonar o veículo, na ânsia de saber, que vem movendo o homem desde a idade da pedra até a idade do módulo lunar. Outros ônibus pararam, a rua entupiu.

— Melhor. Todas as ruas estão bloqueadas. Assim eles não podem dar no pé.

— É uma mulher que chefia o bando!

— Já sei. A tal dondoca loura.

— A loura assalta em São Paulo. Aqui é a morena.

— Uma gorda. Está de metralhadora. Eu vi.

— Minha Nossa Senhora, o mundo está virado!

— Vai ver que está caçando é marido.

— Não brinca numa hora dessas. Olha aí sangue escorrendo!

— Sangue nada, tomate.

Na confusão, circularam notícias diversas. O assalto fora a uma joalheria, as vitrinas tinham sido esmigalhadas a bala. E havia joias pelo chão, braceletes, relógios. O que os bandidos não levaram, na pressa, era agora objeto de saque popular. Morreram no mínimo duas pessoas, e três estavam gravemente feridas.

Barracas derrubadas assinalavam o ímpeto da convulsão coletiva. Era preciso abrir caminho a todo custo. No rumo do assalto, para ver, e no rumo contrário, para escapar. Os grupos divergentes chocavam-se, e às vezes trocavam de direção: quem fugia dava marcha a ré, quem queria espiar era arrastado pela massa oposta. Os edifícios de apartamentos tinham fechado suas portas, logo que o primeiro foi invadido por pessoas que pretendiam, ao mesmo tempo, salvar o pelo e contemplar lá de cima. Janelas e balcões apinhados de moradores, que gritavam:

— Pega! Pega! Correu pra lá!

— Olha ela ali!

— Eles entraram na Kombi ali adiante!

— É um mascarado! Não, são dois mascarados!

Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora, a pequena distância. Foi um deitar-no-chão geral, e como não havia espaço, uns caíam por cima de outros. Cessou o ruído. Voltou. Que assalto era esse, dilatado no tempo, repetido, confuso?

— Olha o diabo daquele escurinho tocando matraca! E a gente com dor de barriga, pensando que era metralhadora!

Caíram em cima do garoto, que soverteu na multidão. A senhora gorda apareceu, muito vermelha, protestando sempre:

— É um assalto! Chuchu por aquele preço é um verdadeiro assalto!

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. 70 Historinhas. 
São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

sábado, 14 de julho de 2018

Gislaine Canales (1938 - 2018)

Faleceu sexta-feira, 13 de abril de 2018, em Porto Alegre/RS,  aos 80 anos de idade, a poetisa e trovadora gaúcha Gislaine Canales.


sexta-feira, 13 de julho de 2018

J. G. de Araújo Jorge (Poemas Seletos) I


AS CHAVES
A Fernando Torquato Oliveira

Felizes os homens que tem as chaves
porque só encontram portas abertas...


Como podem tantos homens dormir sossegados e felizes
de portas fechadas,
quando essas portas se fecham para tantos homens
que ficam sempre ao relento
e nunca podem entrar?

Neste mundo de tantas portas,
quando teremos cada um, a sua chave,
e a sua hora de voltar?...

A BANDA

Meu verso será como a banda
tocará música para o povo.

Irá para o coreto da praça fazer retreta
passará pelas ruas com um carneirinho branco
- é a mascote -,
as mulheres virão de avental à janela,
os homens pararão o trabalho e atravessarão a rua,
e os garotos, - ah, os garotos! - acompanharão a banda.. .

Tocarei o Hino da Liberdade, tocarei a Marcha do Socialismo,
às vezes uma valsa - Danúbio Azul -
e a Protofonia do Guarani.

De qualquer forma todos me ouvirão:
estarei no coreto da praça - os instrumentos brilhando-
e os garotos me acompanharão pela rua
até o futuro.

Se preciso - se preciso - estarei à frente das tropas
abrindo passagem para a bandeira.

A FESTA TRISTE

Não, o Natal não é uma festa alegre,
é uma festa triste.

De repente
as crianças (logo as crianças!)
separam o mundo em duas metades
desiguais:
- de um lado, a abastança, indiferente ou piedosa;
do outro, a necessidade, a mendigar seus restos
como há milênios faz...

As crianças (logo as crianças!)
Algumas com presentes, brinquedos, esperanças,
e as puras alegrias que o bom Velhinho
lhes traz do céu;
outras, sem terem nada, e mesmo tendo pais,
são "órfãos do Natal",
não tem Papai Noel...

Não. Neste mundo como está,
(neste mundo profano
que a um olhar mais humano
não resiste),
o Natal pode ser uma festa,
(quem contesta?)
mas é uma festa triste…

A GELADEIRA

Os capitalistas, os donos do mundo
não conhecerão esta pura alegria.

Esperar a geladeira nova
e a geladeira nova chegar.

O caminhão que para, o vulto branco que desce,
o cuidado do homem rude que nunca a possuirá,
uma faísca de sol nos metais de fecho de abrir,
os meninos que param em roda do caminhão, assistindo,
e eu, de camarote, da sacada do apartamento
assistindo.

Os capitalistas não conhecerão esta pura alegria:
esperar a geladeira
a geladeira de sete pés, branca e iluminada
que afinal chegou.

Agora haverá coca-cola, crush, e água gelada pra visita
e pavê de chocolate, e quanta coisa gostosa
que o frio preservará com seu sopro imortal.

O dial da geladeira  não faz jorrar música
mas fala inglês: "defrost, fast, freese, box";

Gosto de abrir a geladeira, 
ela se acende toda quando eu a toco,
fica festiva, bela e alegre, 
na sua brancura imaculada
e nos seus metais rebrilhando.

Sinto o hálito frio que me envolve o rosto
me apanha as mãos,
e uma emoção primária de conforto me dissolve
quando ela se abre para mim, feliz e sortida
nas suas entranhas burguesas.

Esta pura alegria, esta higiênica alegria
não sentirão os capitalistas,
é privilégio dos que vem de baixo, 
escalando a vida como alpinistas,
para encontrar a neve e o frio das alturas
na sua geladeira branca e cheia de sol!

A MESMA HISTÓRIA... 

A história continua a mesma:
- um dia, um soldado (ou será civil?)
também não faz diferença,
baterá à tua porta,
estarás almoçando, ou estarás escrevendo,
estarás amando, ou apenas dormindo, não importa,
e te dirá que a pátria precisa de ti.

Ninguém perguntará tua opinião. Não tens escolha:
- tens que ir, assim farão todos,
senão a pátria dirá que és um desertor, (ou quem sabe? um covarde)
e todos acreditarão e todos te perseguirão.

Largaras tua mulher na cama, deixaras teus filhos na mesa;
abandonarás teu arado, a receberás uma linda metralhadora.
No lugar da cátedra, do laboratório, da oficina,
dirigirás um poderoso tanque ou um superbombardeiro;
deixaras a máquina de escrever, o tear, e pincel, o linotipo,
e levaras um fuzil;
saltaras de pára-quedas - as imensas    medusas do espaço, -
ou descarregarás bombas H sobre outras mulheres e outros filhos
pois teus olhos não distinguirão os seres humanas
das pedras do chão.

Não te perguntarão se tens pais, esposa ou filhos
que dependem de tua presença
se sobreviverão para esperar-te
nem mesmo te garantirão se ficarão protegidos.

Tambores, cornetas, hinos e ordens marciais
não te deixarão pensar:
reaprenderás a marchar
enquanto o medo te espreitará todas as horas,
e, quem sabe? te tornará um futuro candidato
a paciente de um hospital psiquiátrico.

A história continuará a mesma:
- um dia, o Governo se lembrará que existes,
e te mandará buscar onde estiveres:
e te dará instrução militar, farda vistosa, armas modernas,
galões nos ombros, medalhas, homenagens,
tudo de graça,
para morrer pela pátria.
....................

Ah, meu Deus,
quando chegará aquele dia, em que os Governos
se lembrarão de nos chamar
para viver pela pátria?

ALGUM SENTIDO

Não falo das torres altas, das torres engradeadas,
isolado nas alturas, olhando tudo distante,
sem a exuberância, sem os detalhes insignificantes
que são as grandezas trágicas da vida...

Não estou longe, não sou reflexo, não sou eco,
não sou um som perdido que ninguém sabe a origem...

Sou a boca que grita, a boca que pronuncia o som,
a mão que se eleva, não o gesto irreconhecível,
o coração que bateu, não a pulsação anônima,
a alma que luta, não o espírito que se acovardou
num canto introvertido...

Não falo do meu quarto fechado onde me tranquei a sete chaves
para não ouvir a algazarra dos tempos,
e a agitação das ruas,
nem receio descer os degraus que me levam à multidão
porque em verdade a nossa revolta não tem degraus!

Não temo as suas explosões porque seus estilhaços nunca me ferirão
nem atingirão nunca os que tiverem coragem de ser justos
e os que não se atropelam com a própria consciência...

Falo das ruas e das praças, estou perdido no meio da multidão,
não tenho medo porque eu sou ela e porque ela está em mim,
seu corpo fala pela minha voz na hora da compreensão
sinto a responsabilidade de falar em nome de seu destino...

Não me fechei na torre alta, isolado e indiferente,
meus pés estão no chão
sei que todas as torres altas, ante a avalanche dos tempos
se destruirão…

Fonte: 
J. G. de Araújo Jorge. O Poeta na Praça. 1981.

Élton Carvalho (Jardim de Trovas)


A esperança, como a vaga,
insistente, não se cansa:
se uma esperança se apaga,
se acende nova esperança!

A mulher do cabra tem
apelido de “Jangada”
porque ela, às vezes, não vem,
ou volta.... de madrugada.

Angústia é mágoa, é desgosto
que transparece no olhar
e mostra o pranto no rosto
dos que não sabem chorar.

A proveta não gerou,
e um doutor meio zureta
fez exame e constatou:
menopausa... de proveta!

A sorte, como as rendeiras
sem seu labor persistente,
com suas mãos feiticeiras,
tece o Destino da gente...

A ventura, às vezes, mente:
promete que vem, insiste,
e marca encontro com a gente
na esquina que não existe!...

Coitadinha, está zureta
e anda triste por aí...
deu um grilo na proveta
e o bebê só faz cri-cri!

Conservando a imagem bela
de um amor que não se esquece,
a saudade é uma aquarela
que nem o tempo esmaece...

Dá-me outro inferno ao morrer,
mas não me curvo a Teus pés...
Se não me deixaste ver,
não quero ver quem Tu és!

De barro, Deus fez um homem,
da costela, uma mulher.
– E as sogras, que nos consomem,
fez de um espeto qualquer...

Deus, num requinte de zelos,
em milagroso improviso,
pôs a noite em teus cabelos,
e a aurora no teu sorriso.

Diz o velho, com ternura,
depois de um beijo que espoca:
– Meu bem, minha dentadura
não ficou na tua boca?

Doces visões do passado:
meu pai, irmãos, minha irmã e...
– e aquele jeito encantado
de tudo de minha mãe!

Do coreto pequenino,
da pracinha e o chafariz,
restam restos de um menino
que sonhava ser feliz...

Ele enrolava, enrolava,
e a enrolação era tanta
que, às vezes, quando falava
sentia um nó na garganta.

Em que infinito se esconde
esse Deus tão grande assim?
E minha fé me responde:
– Não se esconde. Mora em mim!

É triste vê-las, meninas,
restos de infância na face,
vendendo amor nas esquinas,
como se amor se comprasse...

Fazer biquíni ela sabe,
mas o próprio faz tão mini
que eu nem sei como é que cabe
tudo “aquilo” no biquíni...

Fui pescar com meu vizinho,
mas, logo que pus a vara,
veio um cavalo-marinho,
me deu um coice... na cara!

Fui ver a fonte falada
que jorra no pé do monte,
e, ao ver você debruçada,
vi tudo... e não vi a fonte!

Genro é minha distração,
que pena ter dez, somente.
Eu queria uma porção:
genro distrai tanto a gente...

Jamais estrelas persiga
quem não alcança a amplidão,
que o mérito da formiga
é achar migalhas no chão...

Levando a esperança ao mundo,
ao sair da Santa Sé,
tornou-se Paulo Segundo
o Peregrino da Fé!

Minha sogra não reclama
do bom trato que lhe dou.
Até de filho me chama
– Só não diz que filho eu sou.

Na hora da confusão
minha sogra é sempre assim:
nem sabe quem tem razão,
solta os cachorros em mim!

Não me agradeças, amigo,
porque te auxilio assim...
Apenas faço contigo
o que farias por mim!

Na solidão que me arrasa,
órfão de amor e carinho,
enchi de espelhos a casa
pra não me sentir sozinho.

Num cego, as palavras boas
calam bem mais do que em nós,
que o cego julga as pessoas
pelo que mostram na voz...

Num milagroso improviso,
com seu divino pincel,
Deus pintou o Paraíso
quando fez Vila Isabel!

Para fugir às rotinas,
na esperança de mudar,
cansei de dobrar esquinas
e dar no mesmo lugar.

Pelos abismos profundos,
nos confins da Terra imensa,
no mais distante dos mundos,
DEUS é a infinita presença!

Porque a verdade transpira
e nos mostra a realidade,
jamais o véu da mentira
esconde a luz da verdade!

Quem perdeu amor recente
e se ressente de amor,
se apega à cinza ainda quente,
porque sente algum calor...

Seguindo um rumo impreciso
que o nosso destino tece,
cada dia é um improviso
que a vida nos oferece.

Se há casa comercial
que engana o freguês à beça,
a drogaria é legal:
vende “drogas”, mas confessa!

Sentem os rudes e os sábios
– menos os pobres ateus
que a prece é a alma nos lábios
quando se fala com Deus.

Servir tem sido o meu fado:
já balizei tantas rotas
e, hoje, farol apagado,
sirvo de pouso às gaivotas...

Socorre, irmão, no caminho,
teu irmão que nada tem...
Não existe irmão sozinho:
todo irmão é irmão de alguém!

Solidão –a alma embotada
velando a própria agonia.
Uma cadeira ocupada
ao lado de outra vazia...

Só num trabalho fecundo,
semeando amor, poderemos
construir um novo mundo
melhor que o mundo que temos!

Subindo o morro, cansado,
quase pedindo socorro,
foi que eu vi porque é chamado
aquele troço de... MORRO!

Trocador... triste ironia,
não troca o que lhe convém:
se trocasse, então, iria
trocar a vida que tem...

Tu sempre estavas PREsente
e AUsente, querida, estás,
– UMA SÍLABA somente
que diferença que faz!

Vem, palhaço, sem tardança,
com teus trejeitos, teus chistes,
e acorda a alegre criança
que dorme nos homens tristes...

Zé, que faz a comida,
lava a roupa, se arrebenta,
diz: – Não aguento esta vida !
E a sogra, rindo, diz: – GUENTA...

Fonte:
União Brasileira de Trovadores Porto Alegre - RS. 
Trovas de Maria Nascimento Santos Carvalho e Élton Carvalho. 
Coleção Terra e Céu, vol. C. Porto Alegre/RS: Texto Certo, 2017.

Élton Carvalho (1916 – 1994)

Élton Carvalho nasceu em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, no dia 29 de agosto de 1916. Casou-se com a Trovadora Maria Nascimento Santos Carvalho em 29 de julho de 1969, com quem viveu até a morte.

Iniciou sua carreira militar na Arma de Infantaria do Exército Brasileiro e, graças aos seus esforços e dedicação, pôde encerrar a carreira como General-de-Divisão, depois de permanecer na ativa por mais de quatro décadas. Exerceu, por muitos anos, a função de Professor Catedrático de Filosofia, no Colégio Militar.

A partir de 1970, ingressou, como Professor, na Escola Superior de Guerra, tendo realizado mais de 100 Conferências em todo o território nacional. Em 1983, Élton reformou-se.

Filiado à UBT-Rio de Janeiro, detinha o título de “Magnífico Trovador” em Nova Friburgo, sendo um nome conhecidíssimo no movimento trovadoresco, principalmente por seus livros de humor. 

Faleceu no Rio de Janeiro, em 03 de março de 1994.

Obras: 
Mestre na difícil modalidade trovas humorísticas, Élton produziu dois livros exclusivamente com trovas de humor: “Sogra, Coroa, Bebida e outras Bombas” (1974) com 200 trovas e “Sogra & Outras Piadas” (1993) com 250 trabalhos. Além disso, publicou também “Instantâneos” (1973), com 200 Trovas líricas e filosóficas; “Ciranda de Sonhos” (1979), com 200 trovas líricas e filosóficas); “Aquarelas” (1981) com 500 trovas líricas e filosóficas; “Rosas na Pedra” (1984) com 40 poemas e 25 sonetos. E um mini romance: “A História do Sapateiro”.

Fonte:
União Brasileira de Trovadores Porto Alegre - RS. Trovas de Maria Nascimento 
Santos Carvalho e Élton Carvalho. Coleção Terra e Céu, vol. C. Porto Alegre/RS: Texto Certo, 2017.

Nilto Maciel (Quem Tiver Ouvidos, Ouça)


No julgamento histórico dos Lobos, os juízes e acusadores, condignamente trajados, ora fumavam, ora cochilavam, ora bebiam água.

Horas e dias assim, fatigantes, calorentos, palavrosos. Os réus amparavam-se uns nos outros, comunicavam-se entre si por gestos, códigos, ruídos imperceptíveis aos homens da corte. Os mais sagazes sempre arranjavam jeito de transmitir a melhor resposta aos mais ingênuos. E conseguia o grupo enfurecer cada vez mais os gordos e imprevisíveis julgadores.

– Responda você – o juiz-presidente apontou para um dos acusados – sem errar, sem tomar fôlego: quem foram Remo e Rômulo?

O Lobo apontado olhou para cada um de seus companheiros, piscou os olhos, gaguejou. O inquisidor martelou a mesa, queria resposta pronta.

– Foram dois homens...

Na sala de audiências, a respiração de todos parou, juízes e acusadores de olhos vidrados, grudados na boca entreaberta do Lobo.

– Então?

E de novo o arfar dos peitos, o cair das mãos, o bater das pálpebras, o chiar dos lábios fizeram a sala viver.

– Vocês são uns néscios. Qui habet aures, audiat. Pois saibam que Remo e Rômulo foram amamentados e criados por uma loba. Apesar disso, a espécie lupina não deixa de ser cruel, desnaturada, selvagem.

– Como assim, se até salvamos homens, conforme vocês mesmo dizem?

– Não confunda alhos com bugalhos, idiota. Uma única boa ação não pode servir de atenuante, quando o acusado praticou mil crimes inomináveis.

– No entanto, essa única boa ação é a base de toda a história do homem ocidental.

Os julgadores e acusadores reagiram em cadeia. O Lobo acabava de dizer a maior tolice do mundo. Só podia ser um louco. Achincalhava a Justiça Humana.

– Deixem-me concluir: sem Rômulo e Remo, não teria sido fundada Roma. E, se Roma não tivesse sido fundada, não teriam existido os Césares, o Império, a República, a civilização romana. Nero não teria existido, nem o incêndio nem o latim. Qui habet aures, audiat. Sem o amor e o leite da loba, os gêmeos não teriam sobrevivido. Logo, a Loba é a matriz de Roma e, em consequência, da civilização ocidental.

– Isso é loucura. Vocês são uns loucos. Falam como loucos.

– Não, excelências, somos apenas lobos e como lobos falamos.

O juiz-presidente bateu o martelo na tábua da mesa, ordenou silêncio e gritou:

– A partir de agora fica incorporado ao Código Penal o seguinte artigo:

“Quem for lobo e como ele falar, será condenado à morte pela caça, pelo desmatamento, pela poluição.”

Fonte:
Nilto Maciel. Babel (contos). 
Brasília/DF: Editora Códice, 1997.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Prof. Garcia (Sonetos Avulsos)


CREPÚSCULO E AURORA

Quando a luz do arrebol rasga a cortina,
e o clarão da manhã, o céu decora,
todo o orvalho respinga da campina,
matizando de prata a luz da aurora!

A tristeza do sol se descortina,
ante a tarde que chega, e se apavora:
o crepúsculo triste, na retina,
diz que um velho gigante também chora!

Ao nascer, chega ungido de esplendor,
traz na luz, esperança, paz e amor,
mas, à tarde, começa a entristecer...

Desse jeito caminha o sol do esteta:
De manhã, é feliz por ser poeta,
e à tardinha, é a luz do entardecer!

ANGÚSTIA

Quando tu foste embora, a minha vida
transformou-se em saudade e nostalgia
e a lembrança da triste despedida
é o que mais me tortura e me angustia.

Eu te busco a vagar, qual nau perdida,
mas o amor não responde e silencia:
e a lembrança de ti, nunca esquecida,
é o farol da saudade que me guia.

Eu preciso encontrar-te e tenho pressa,
pois um amor que se vai e não regressa,
deixa marcas profundas de orfandade;

se o meu peito carrega este segredo,
ou tu rasgas os fios deste enredo
ou o meu peito se rasga de saudade!

RETRATO DA VIDA

Já fui moço, seu moço, e não me esqueço
do que fiz na mais tenra mocidade.
Deus, que é pai, me deu tudo que mereço,
neste mundo carente de bondade.

Este dom de poeta eu ofereço
aos amores da eterna flor da idade,
que fizeram de tudo um recomeço,
afastando de mim tanta saudade.

Mas o tempo não para e a vida passa,
e eu me vendo, no espelho, já sem graça,
conto as rugas que aumentam meu desgosto...

E me pondo a pensar no que já fiz,
rogo a Deus, que me faça ser feliz,
abraçando estas rugas do meu rosto!

DOIS DESTINOS

Se o destino cruzou nossos caminhos,
e traçou retilíneas paralelas,
seguiremos nas trilhas dos sozinhos
eu e tu, todos dois, escravos delas.

Nossos sonhos repletos de carinhos,
tantas juras de amor, puras, tão belas,
serão, hoje, contadas noutros ninhos
ou nas telas de lindas aquarelas.

Quando tu me juraste eterno amor,
não pensei que o destino traidor
tinha feito, de nós, dois peregrinos.

Dessas juras de amor que segredamos,
resta apenas, do pouco que guardamos,
a saudade sem fim dos dois destinos.

ETERNO SONHAR

Quem me dera viver a infância linda,
sentir de novo a minha mocidade,
para esquecer a mágoa que não finda,
ao lembrar na velhice, a flor da idade.

Esta lembrança me atormenta ainda,
adormece comigo no meu leito,
apesar da distância, é dor infinda
que desperta a saudade no meu peito.

De saudade em saudade, a vida passa,
deixa o pó da velhice já sem graça,
no lugar dos momentos mais risonhos...

Só não rouba esta minha paz divina,
que a distância me guia e me ilumina,
"a cintilar no espaço dos meus sonhos"!

Fonte:
Francisco Garcia de Araújo. Cantigas do meu cantar. 
1. ed. Natal/RN: CJA Edições, 2017.