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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024
Mensagem na Garrafa = 107 =
Caçador/SC
"TUDO TE LEMBRA E LEMBRANDO CHORO"
agosto, 07, 2023.
Era madrugada da segunda quando a MALDITA levou do nosso convívio o amado Frederico, cãozinho "ente encantado de encantos", jovial, social, comunicativo, que viveu conosco por onze anos. Assim mesmo! Nós, do signo de gêmeos, ele gostando de "falar", e eu entendia a língua dele, e ele compreendia a minha língua.
Nossa língua era universal.
Comandante das horas dos dias, Frederico, você merece mais do que uma croniquinha, porque sua vida foi grandiosa, gloriosa, espetáculo de vida. Tantos seres humanos não escrevem uma CRÔNICA linda e inesquecível como a de um cachorrinho doce, carinhoso, livre de maldades, injustiças, preconceitos. Alegria da nossa vida.
Nossa convivência tinha rituais, rumos e razões de ser. O conversar estava no sangue, e a gente conversava a qualquer momento. Tinha um bordão especial. Na alacridade de sempre, latia dizendo - eu e o papai somos nós. E éramos nós !
Final de noite, dez e meia/onze horas eu no computador, ou lendo, ou escrevendo, olhava para o lado, ali o Negão sentadinho esperando silente para irmos deitar.
Manhãzinha, ele ao meu lado no colchonete, acordamos, conversamos, um abraço, vai para fora e logo volta, cutucando minha perna com o focinho como a dizer que estava ali, enquanto me lavo. Senta e espera para abrirmos a biblioteca.
Onze e meia me convida para a voltinha até o vizinho. Vamos. À tarde o soninho do vigia da casa. Saio a caminhar e na volta encontro o "guri do pai" esperando no portão para nossa caminhada na quadra. Seis e meia/ sete horas, escurinho, me chama para darmos quirerinha aos pássaros do bosco e nos fundos de casa. Sempre na frente. A lista é longa...
Tantos lembrares, tantos viveres. As incursões. Banhos de mar, a busca do sirizinho na areia, viagens. A empatia entre nós, a liberdade de viver leve e solto, como nós viventes também gostamos.
Fomos construtores. Construímos amigos.
Você era o vanguardeiro, ia na frente abrindo sorrisos, jorrando alegria, carismático, criatura singular - fidalgo a ensinar o papai e a outros tantas lições de vida.
Fez história, querido, e agora não há mais tempo para você. Que lástima! Mas vamos nos encontrar nalguma planura do universo.
Papai e mamãe choram a sua ausência, mas o LORDE FREDERICO estará sempre no nosso coração. Papai e você seremos sempre nós, meu eterno Frederico.
Fonte> enviado pelo autor.
Teófilo Braga (A adega de Funck)
(Conto baseado das notas de Hoffmann)
A ironia, quando não é despertada pela luta incessante de contrariedades imprevistas, que cercam o espírito de dúvidas e desesperos, e o deixam na prostração da indiferença e do cinismo, é uma doença, uma febre lenta, que vai devorando a existência, depois de a ter despido de todas as alegrias. Observa-se no pessimismo do poeta. O riso com que a ironia se traduz, que é a expressão que mais de pronto lhe acode no acesso do frenesi suscitado pela vista repentina de um contraste, para quem o compreende, é uma visagem infernal, um esgar que gela, um arremedilho de cadáver sacudido por uma pilha galvânica. É uma descarga nervosa pela via muscular, como uma compensação, como notaram os fisiologistas.
A gargalhada é também a linguagem das grandes agonias; é esta polaridade misteriosa da nossa natureza dupla, constituída já em aforismo: os extremos tocam-se. A ironia, derivada do mesmo principio supremo, é a impressão abrupta de uma ideia infinita que se compara com outra finita, cuja disparidade intuitiva desperta em nós todas as vibrações do sentimento cómico. A primeira manifestação do cómico na vida foi por certo o grotesco; Susarion e Thespis caracterizavam os seus personagens com borras de vinho.
Ele aparece-nos no mundo moderno como uma arma da burguesia contra a pressão do clero e as extorsões dos senhores feudais, na Festa do Asno, nos serviços, nos contos cômicos, nos baixos relevos e goteiras das catedrais. O pico, a agudeza do pensamento estão completamente materializadas na imagem; eis o cómico pela sua parte visível ou objetiva, tanto da simpatia popular.
O humor é um grão elevado; no contraste que se funda na antítese da ação e o pensamento, a forma não corresponde, contraria mesmo a expressão da ideia, donde resulta uma monotonia triste; o esforço do que procura alegrar-se infunde nos que o contemplam uma melancolia indefinida, como na Viagem de Sterne. A ironia é a impossibilidade de conciliar os elementos da antítese, ou o contraste mental que gera todo o sentimento cómico: tal é o desespero de Hamlet propondo ao seu espírito o problema insolúvel e eterno: To be or not to be that is the question.
A imaginação de Hoffmann similar a um caleidoscópico onde estas três cambiantes do sentimento se refletem, confundem, se cruzam em direções infinitas, formando um espectro a que chamamos o fantástico. A ironia, o humorismo e o grotesco sucedem-se, como fases da sua inspiração. Quando ele sente estas inversões do sistema nervoso, anuncio da ataxia locomotora que progride de um modo irremissível, o pensamento então dá forma a todas as vertigens; a dor torna a criação pessoal, caprichosa; os retratos que ele faz são quase sempre caricaturas, a incarnação de um riso de desespero. As bebidas e o seu cachimbo de Kumer vêm distrai-lo da consumação que ele observa a cada instante em si. O fumo que se enovela em formas extravagantes no ar, e se dissipa como uma quimera fugitiva, representa-lhe os tipos que reproduz nos seus contos. Ao fogão, na concentração íntima da família, o cachimbo povoa-lhe o aposento de silfos e gnomos, que embalam a fantasia enlevada em sonhos incríveis, com músicas estranhas que o deliciam no egoísmo do sofrimento que o corrói. Ele tem uma afeição particular ás pessoas espirituosas, porque lhes supõe talvez a veia sarcástica proveniente de algum estado mórbido. Quando se retrata caricaturiza-se.
Muitas vezes aceitar-se uma criação cómica, rimo-nos, sem saber que a inspiração que a produziu foi a doença que arrebatou Molière, o desalento de Gil Vicente, a resignação de Scarron. Porque não procuraria Hoffmann distrair-se com o vinho, afogar nele a preocupação do mal irremediável, que lhe atacava a espinha dorsal?
O seu editor Funck, homem estimável de caráter, a quem a especulação não pôs em guerra com os que têm a infelicidade de precisar escrever, convidou-o para passar alguns dias na sua residência em Bamberg. Funck tinha uma magnifica adega e lembrava-se perfeitamente daquelas expressões de Hoffmann: «Fala-se muito do entusiasmo que procuram os artistas no uso das bebidas fortes; citam-se músicos, poetas que não podem trabalhar senão assim; eu não sei, mas é certo que com esta feliz disposição, direi, quase sob a constelação favorável, em que se está quando o espírito passa da concepção à realização, as bebidas espirituosas aceleram a torrente das ideias.»
Funck tinha o mais excelente de todos os vinhos, como lhe chamava Hoffmann, o Porto, que no seu nome traz o segredo da sua força. O escritor original era esperado com ansiedade em Bamberg. Chegou por uma tarde fria. O céu estava escuro, carregado de nuvens; relampejava a espaços, como o preludio de uma grande trovoada noturna. Quando a natureza é triste sentimos uma vontade de nos reconcentrarmos; o lar domestico é a grande poesia do norte. Um dos maiores castigos no antigo direito germânico era a pena severa expressa naquela formula romana interdictio tecti; o banido é comparado ao lobo solitário; a casa era arrasada, tapado o poço, extinto para sempre o fogo do lar.
Hoffmann esquecia todas as dores ao abraçar aquele amigo; com toda a liberdade de uma confiança intima sentou-se logo ao piano. O frenesi da inspiração fazia-o percorrer desesperadamente o teclado. Era a sua ultima composição, meio improvisada com o júbilo que sentia. Começou um canto com uma voz desentoada, que fazia arrepiar os nervos; parecia que estava em delírio. Nisto um trovão rebentou com um estampido soturno.
—A natureza, disse ele para Funck, escarnece-se de mim, parodia-me a voz roufenha. Há bastantes dias que tenho sentido humor para o romântico religioso. Jovis omnia plena! Hoje, não sei se é o excesso da alegria, predomina em mim uma exaltação humorística levada até à ideia da aberração.
Funck continuava silencioso. Hoffmann permaneceu alheado alguns instantes, como levado por uma serie de deduções, que absorvem fatalmente toda a contenção do espírito. Estava a diagnosticar-se; a prolongada doença dera-lhe um certo conhecimento do seu estado. Depois prosseguiu:
—É notável! Que diversidade de sensações agora. Disposições humorísticas, coléricas, com um humor musical exaltado, e sentimento de um bem estar com indiferença. Como conciliar tudo isto? O hematose nervoso inverte-se-me de dia para dia.
Restrugia um aguaceiro espesso. Há no cair da agua uma magia, que adormece.
—Vamos, disse Funck, interrompendo aquela reflexão penosa, eu tenho um excelente remédio. Vejo-te tiritar com frio, de um modo que me tira a satisfação do agasalho que presto a um amigo. O seio de Abraão deve estar com uma temperatura suave; refugiemo-nos lá.
— Como isso era bom! Mas infelizmente as asas da poesia não nos desprendem da terra; a realidade é pior do que o sol para as asas de Ícaro; ela toca-nos o corpo com mais aspereza do que o velho Satã quando experimentava o desgraçado varão da terra de Hus. Agora acho-me divorciado com a poesia, com a musica, com a pintura; são as três fúrias que sob uma aparência sedutora surgiram das sombras do paganismo para atribularem-me o espírito.
—E por que não havemos de refugiar-nos, em uma tarde destas, no seio de Abraão? —disse Funck procurando interromper a corrente das ideias aflitivas.—Não é tão difícil como pensas. Nem são precisas asas para ir lá. Para descermos basta obedecer à lei eterna da gravidade, que sobre nós pesa. Não sabias ainda que a gravidade é o nosso pecado original?
Hoffmann sorriu-se; o seu amigo tomou um tom humorístico para se adequar ao carácter dele nesse dia.
—Apesar da facilidade que apresentas ainda não resolvi o problema. Como iremos nós procurar conforto ao seio de Abraão?
—Segue-me.
Funck caminhava adiante com um ar vitorioso. Hoffmann sorria-se com um modo duvidoso, para que o riso o defendesse do logro que esperava. Desceram uma escadaria escura; uns ferrolhos pesados gemeram, como se abaixasse uma ponte levadiça.
Entraram. Era um subterrâneo fundo, alumiado por um lampadário de bronze. Depois de afeito à sombra, Hoffmann pôde discriminar grandes toneis dispostos, como uma longa fila de cachaci-pansudos cônegos*.
Era a adega do seu amigo Funck. De fato havia ali uma temperatura tépida, de fermentação. Nenhum olhar importuno através da abobada calada.
—Se os velhos patriarcas, principalmente nosso pai Noé, não trocariam de boa vontade a tua adega pelo seio de Abraão!—Hoffmann estava animado de uma alegria indivisível; era um homem de extremos; a sensibilidade excessiva deixava-lhe apreciar os mais desapercebidos contrastes, era por isto que ele possuía mais do que ninguém a raça irritável dos poetas.
Mal acabava de proferir aquelas palavras, quando se atirou de um salto, com uma loucura de criança, e se escarranchou em um tonel.
Funck seguiu o exemplo.
—A vida é um grande mar, que estua em convulsões intermináveis; felizes os que caindo na voragem encontram deste delfins, que os tomam sobre si e os levam a porto seguro.
—Foste feliz na imagem, principalmente, porque o vinho desperta-me o humor erótico-musical, e os delfins, se dermos credito a antigos fabuladores, eram levados pela magia da musica.
E começou a cantar alguns trechos da sua opera a Ondina, que só interrompeu para levar à boca o sifão de lata que estava mergulhado na pipa. Hoffmann tocava a realidade dos seus contos.
—Este não dá pelos calcanhares do teu dileto Porto?—acudiu Funck; o vinho de Nuits é dos melhores de Borgonha, e, graças ao céu, podemos nadar em mar de rosas.
A noite corria tempestuosa e tétrica: os trovões rebentavam com uma detonação tremenda. Nos ares, coriscou um relâmpago repentino e veio iluminar com um clarão pálido o rosto dos dois amigos, que tocavam neste momento os copos espumantes. Era um quadro com toda a verdade e simplicidade de Teniers, como o próprio Funck, em uma nota de uma edição do seu amigo, confessa com aquela ingenuidade alemã.
Hoffmann ficou deslumbrado com o fulgor instantâneo; tinha a mudez do terror.
—Em que pensas?
—Um conto, um conto horrível!
—Mais uma saúde, e narra-me essa historia ponto por ponto.
—Historia? dizes bem; porque tem muita verdade, ao menos a verdade da arte. Nunca te falaram nisso? Admira! Foi tão notório. Quem a não conheceu! Bela, como era, ninguém podia fita-la sem experimentar o pasmo da admiração. As linhas do semblante tinham uma irradiação etérea, perdiam-se no ar. Era uma visão suspensa, a incarnação de um sonho indivizível de amor.
A tristeza realçava-lhe a candura angélica. Para ela, a vida era um desterro no mundo. Passava, alheia de tudo, distraída, sem saber que levava após si todas as aspirações que um olhar de relance, fortuito, gerava na alma. Um dia vi-a pelo braço de um homem feio, que a conduzia com burlesca familiaridade! Disseram-me que era o marido.
Perscrutei o segredo de uma união para mim impossível, inexplicável. Não tinha sido arrojada a hipótese: viviam com uma certa paz artificial, um acordo de convenção ante a sociedade. O marido bem conhecia, que a família da engraçada criança a forçara aquela união desigual; a consciência da riqueza não conseguira persuadi-lo de que a merecesse; e espreitava, espiava-lhe todos os olhares, interpretava-lhe cada gesto insensível.
O que não idearia o ciúme? O ciume que não tem a franqueza selvagem de Otelo é vil, infame. Um dia, a infeliz senhora, começou a sentir-se indisposta; não faltavam carinhos da parte do esposo, não poupava esforços para consola-la, com uma solicitude hipócrita. O mal progredia, convulsões violentas a acometiam, vertigens assombrosas, dores intensas, como se lhe retalhassem as entranhas. O marido escutava os gemidos com um pungimento afetado.
Sabia que morria:—«Sabes, disse ela tomando-lhe uma das mãos, eu deixo a vida, mas custa-me baixar à frieza do sepulcro sem te dizer uma palavra. Oh! nem sei como revelar-te esse segredo, esse desvario de uma paixão infantil. Não soube guardar a fidelidade do tálamo.»
O marido ouviu a confidencia solene com um ar estúpido de imbecilidade:—És neste momento tão generosa e grande! A verdade nos teus lábios vibra-me de um modo que tudo te perdoo. Choras? escuta. Deixa também fazer-te uma revelação tremenda: envenenei-te.
Hoffmann não pôde tirar do conto a moralidade que se espera, e caiu, esquecido do mundo, entre os toneis do seu amigo.
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* cachaci-pansudos cônegos = não encontrei o significado.
Fonte> Teófilo Braga. Contos Phantásticos. Lisboa: Livraria de Antonio Maria Pereira, 1894. Disponível em Domínio Público. Português atualizado por J. Feldman
Mitos Indígenas (Thaina Khan, a estrela da manhã)
Imaeru, uma linda e vaidosa jovem Karajá, tinha como maior desejo possuir a estrela Thaina Khan (estrela Dalva), a mais brilhante da manhã.
Seu pai, o velho pajé, vendo a angústia da filha, pediu ao Deus Tupã que lhe satisfizesse o desejo. Tupã concordou, mas avisou-lhe que a estrela só poderia descer à Terra na forma de um homem.
Imaeru ficou radiante e numa noite de luar, elevando seus olhos em direção aos astros, pediu à almejada estrela que descesse para desposá-la. Neste instante, desceu do céu uma luz, surgindo à sua frente um velho: era Thaina Khan, que de lá viera para casar-se com ela.
A índia, decepcionada, respondeu-lhe rudemente, alegando que, tão jovem e bela, não poderia desejá-lo. O velho entristeceu-se profundamente, lamentando seu destino, pois da mais brilhante estrela que houvera sido, transformara-se em homem, não podendo mais regressar à sua condição original.
Danace, irmã de Imaeru, que os ouvira, resolveu aproximar-se e, sensibilizando-se com a situação do bondoso ancião, ofereceu-se para ser sua esposa. Era menos bela que a irmã, mas muito meiga e generosa, passou a cuidar com muito carinho do esposo idoso. Ambos viviam felizes.
Certo dia, Thaina Khan não voltou da roça na hora de costume. Preocupada, Danace saiu à sua procura. Encontrou somente um jovem, todo iluminado. Era Thaina Khan, que Tupã havia rejuvenescido, tornando-o belo e forte, em reconhecimento à bondade da índia.
Radiantes, regressaram abraçados à aldeia. Imaeru, ao saber do ocorrido, desejou ardentemente o jovem, mas Danace o havia conquistado para sempre.
Desesperada, Imaeru desapareceu na floresta, sendo transformada por Tupã no pássaro Urutau, que, em noites de luar, entoa um triste canto, lamentando haver perdido o amor de sua almejada estrela da manhã.
Fonte> Adaptação do Texto de Jayhr Gael in O Caminho de Wicca - http://www.caminhodewicca.com.br (desativado). acesso em 13/10/2023.
Dicas de Escrita (Formas de Escrever Diálogos) – 1
MÉTODO 1: PESQUISANDO DIÁLOGOS
1 – Preste atenção em conversas de verdade.
Ouça o modo como as pessoas falam umas com as outras, veja como é diferente o jeito de falar de acordo com cada interlocutor e use essas conversas e padrões no seu diálogo para que ele soe autêntico.
Desconsidere as partes da conversa que não ficam bem transcritas. Por exemplo, nem todos os "olás" e "tchaus" precisam ser escritos. Alguns dos seus diálogos podem começar no meio de uma conversa, como "E aí, fez tal coisa?" ou "Mas por que você fez isso?".
Carregue um caderno na pasta para anotar todas as conversas interessantes que ouvir.
2 – Leia bons diálogos.
Para ter uma boa ideia do equilíbrio necessário entre discurso realista e discurso literário, você precisará ler bons diálogos em livros e roteiros de cinema e teatro. Veja o que funciona ou não e tente descobrir o porquê.
Alguns escritores que renderam ótimos diálogos são Nelson Rodrigues e João Guimarães Rosa (para citar somente dois, existem muitos!)
Ler e praticar a escrita de diálogos para filmes e peças de rádio é de grande ajuda para aprimorá-los.
3 – Desenvolva completamente seus personagens.
Você vai precisar entendê-los completamente antes de conseguir fazê-los falar. Saiba de antemão se o personagem é taciturno, monossilábico etc.
Aspectos como idade, gênero, grau de escolaridade, origem e tom de voz farão a maior diferença no modo de falar de um personagem.
Uma senhora de Santa Catarina certamente não falará igual a um rapaz do Rio de Janeiro.
Dê a cada personagem uma voz distinta. Nem todos os personagens vão usar o mesmo vocabulário, tom ou modo de falar.
Certifique-se de que cada personagem soe de modo diferente.
4 – Aprenda a evitar diálogos excessivamente formais.
Eles podem não arruinar uma história completamente, mas com certeza podem desanimar o leitor a continuá-la e, como escritor, você quer evitar isso a todo custo.
Diálogos formais funcionam ocasionalmente, mas apenas com tipos mais específicos de histórias.
Diálogos formais só funcionam em níveis óbvios e em um linguajar que ninguém use. Por exemplo: "Olá Joana, você parece triste hoje", disse Carlos. "Sim, Carlos, estou triste hoje. Você gostaria de saber por quê?"; "Sim Joana, eu gostaria de saber porque você está triste hoje"; "Eu estou triste porque meu cachorro está doente e isso me lembra da morte de meu pai, dois anos atrás, sob circunstâncias desconhecidas para mim."
Como o diálogo acima deveria ser: "Joana, tem alguma coisa errada?" perguntou Carlos. Joana deu de ombros, com o olhar fixo em algo fora da janela. "Meu cachorro tá doente. Eles não sabem qual é o problema." "Isso é péssimo, mas... ele é velho. Talvez seja esse o problema."; As mãos dela se agarraram ao batente da janela — "Mas... é que... eu esperava que pelo menos o médico soubesse de algo."; "Você quer dizer o veterinário?" Carlos estranhou. "É. Tanto faz."
A razão para o segundo diálogo funcionar melhor é o fato de Joana não mencionar em nenhum momento que está pensando na morte do pai, mas há palavras que dão a dica sobre os pensamentos dela. O fato de ela trocar a palavra "veterinário" por "médico" é um indício bom o suficiente, além do ritmo fluir melhor.
Um exemplo de diálogo formal que funciona é "O Senhor dos Anéis"; eles não são sempre assim, especialmente quando os hobbits estão falando, mas podem se tornar bastante eloquentes e grandiosos (e nada realistas).
Isso só funciona (e muita gente discorda disso) porque a história se passa em um ambiente medieval, como em "Beowulf".
= = = = = = = = =
continua...
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024
Daniel Maurício (Poética) 64
J. G. de Araújo Jorge (A Poesia Popular)
Somos felizmente um povo inteligente e de grande sensibilidade. Se querem um exemplo da inteligência do povo brasileiro, de sua filosofia, do seu senso de humor, procurem observar as frases que comumente se encontram escritas nos para-choques ou na própria carroceria dos caminhões que trafegam pelas estradas.
São de uma graça e de uma acuidade, às vezes profundas, em sua simplicidade. Sozinhos, viajando durante dias, longe do lar e de seus amores, os motoristas de caminhões são como os marinheiros. Mas a permanente presença da terra, tira-lhes á saudade aquele tom de grande lirismo do homem do mar, realmente desligado de tudo, cercado de silêncios e horizontes. E espouca em seus espíritos a sátira, a alegria boêmia dos que fazem a vida de aventuras, em prazeres de cada momento.
Já pensei em comprar um caderninho para anotar as frases que leio nos para-choques dos caminhões. Tenho a convicção de que acabaria por ter um verdadeiro retrato do espírito popular, um verdadeiro “compêndio” dessa filosofia de vida, tão interessante e cheia de sutilezas, do homem da rua.
Uma das trovas que compõem o meu “Cantigas de Menino Grande” eu a fiz, aproveitando um pensamento de uma dessas frases que vi num caminhão, quando dirigia meu carro rumo a Friburgo. Dizia o seguinte
“Eu dirijo, Deus conduz”.
Nada mais, simples e profundo. E pensando no que acabara de ler fui arrumando mentalmente os outros versos, já que o pensamento vinha num verso de sete sílabas. No meio da serra a quadrinha estava pronta:
“No meu carro vou tranquilo
tenha a estrada sombra ou luz,
pois bem sei que ao dirigi-lo:
- Eu dirijo, Deus conduz."
Numa crônica que preparei para volumes anteriores desta coleção, afirmei:
“Do mesmo modo que os provérbios e adágios representam o pensamento do povo que se vai cristalizando através do tempo, as trovas, são a sua alma. E os poetas, tocados pela “graça” das trovas, os intérpretes dessa alma.”
O povo fala em versos, sem sentir e, instintivamente, nos seus provérbios e sentenças, procura a rima, que é um elemento oral de enfeite e de memorização mais fácil. Observem os provérbios. este, por exemplo, bem conhecido:
“Água mole em pedra dura
tanto bate até que fura.”
Dois. versos de sete sílabas, rimando.
E este outro:
“Ha sempre um chinelo velho
Pra um pé doente e cansado.”
Glosei, também, numa trova:
O tal ditado é um conselho,
não te mostres desolado…
“Há sempre um chinelo velho
Pra um pé doente e cansado…”
Nem tal fato é de se estranhar, quando sabemos que as línguas neolatinas esgalharam-se do tronco secular do velho latim, na língua poética, dos trovadores medievais, nas suas cantigas.
Sobre trovas populares e anônimas, escrevi, na crônica citada :
“Uma trova, (ou como a chamam também, uma quadrinha) é tanto mais expressiva quanto maior o grau de fidelidade ou de identidade do poeta com o sentimento popular. Cai então, pode-se dizer, no gosto do povo, que a recolhe, decora e divulga, e sua expansão se faz de modo permanente, extenso e profundo.
Seu processo de popularização é tamanho, que ela acaba desgarrada de quem a criou, filha de ninguém. Ou melhor: lhe arranjam um pai, lhe atribuem uma paternidade, ou várias, o que vem a ser a mesma coisa. É uma trova anônima.
Glória efêmero e paradoxal. No momento mesmo em que a atinge, o trovador a perde. E são quase sempre, as maiores trovas, aquelas que acabam no anonimato, emaranhadas em meio a dúvidas e suposições. Tratando-se de pequenas composições poéticas, facilmente reproduzíveis, acontece com as publicações o mesmo que se dá com a difusão oral. Jornais e revistas de toda a parte, álbuns e cadernos de poesia as divulgam com autores diversos, tornando cada vez mais difícil a identificação, e mais penosa a pesquisa.”
“A Ilíada” e a “Odisseia”, memorizadas durante séculos pelo povo grego, e mandadas escrever por Psístrato, guardaram a glória de Homero, ainda que lendária, intacta. Eram grandes poemas. Mas as pequeninas trovas, estilhaçam qualquer glória, e torna-se impossível identificar através dos tempos, os nomes dos seus verdadeiros autores, quando elas caem “na boca do povo”
* * *
Mas, trovas populares e anônimas, não são apenas as trovas “eruditas” dos grandes poetas, as trovas literárias, que um dia se perdem no rio da grande popularidade, afogando seus autores. São também as trovas rústicas e imperfeitas que nascem da alma do povo, na boca dos cantadores, dos violeiros, dos sanfoneiros, dos poetas populares anônimos que enxameiam pelo interior do Brasil e de Portugal. Verdadeiros filões de ouro de nossa sensibilidade e de nosso espírito.
Na sua obra, farto acervo de folclore e poesia, “Mil quadras brasileiras”, ( “Mil quadras populares brasileiras” (Contribuição ao folclore). Recolhidas e prefaciadas por Carlos Góis. (Catedrático do Ginásio Mineiro, membro da Academia mineira de Letras). F. Briguet & Cia., Editora. Rio de Janeiro. 1916).
Carlos Góis observa:
“É no interior do país, longe do bulício convencional e cerimonioso das grandes cidades, onde mais intensamente floresce a poesia popular. Quem se internar no sertão do Brasil, verá, na razão direta da distância dos grandes centros populosos, a expandir-se a alma do povo em expressões rítmicas de um cunho espontâneo, subitâneo, flagrante. Só quem como nós já assistiu de viso, aos descantes ao som da viola e do violão, poderá aquilatar do grau de fluência e espontaneidade que jorra da musa popular”.
Ainda recentemente, aqui no Rio, tive a oportunidade de conhecer os irmãos Batista, (Otacílio e Dimas), exímios cantadores e improvisadores do Nordeste (de Campina Grande), e outros violeiros e repentistas, alagoanos e baianos. Durante horas, com seus violões ao peito, lançam-se reciprocamente desafios, e os versos vão brotando em catadupas, com uma espantosa facilidade, ricos de verve e imaginação.
Rodolfo Cavalcanti, que é, na Bahia, o Presidente do Grêmio Brasileiro de Trovadores, é um poeta popular típico do Norte. Homens simples, emotivos, sem quase instrução, com uma poesia fácil e “bem falante”, compõe longos poemas a propósito de tudo. Publica-os em folhetos que ele mesmo vende nas ruas de Salvador. E vive disto, como verdadeiro trovador de seu tempo.
Já se começa a dar valor também a essa manifestação literária do povo brasileiro. Os próprios críticos de gabinete, desligados até agora das raízes de nossa formação literária voltam-se para o estudo e a observação de extraordinário manancial de riquezas. O atual surto de trovadores, verdadeiro movimento ,de incentivo à poesia popular, obriga-os a reconsiderarem suas atitudes puramente intelectuais, e a perceberem o que há de autêntico e real nessa manifestação -de nossa sensibilidade e de nossa cultura.
Não foi sem razão, que defini:
Ó trovador: professor
de poesia popular!
Com suas trovas de amor
o povo aprende a cantar!
Fonte:
J. G. de Araújo Jorge. Cem trovas populares. Coleção Trovadores Brasileiros.
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Florilégio de Trovas,
Sopa de Letras
Arthur Thomaz (A pulguinha discreta)
O fato de meu avô e meu pai serem fanáticos torcedores do Barcelona mostra o porquê de meu nome ser Messi. Mamãe afirma até hoje que fui a mais linda pupa. Disputei como todos de minha idade o quesito salto em altura.
Meu avô, já com muita idade, sempre me aconselhou a ser discreto e não fazer como meu pai, que assistindo a um jogo do Barcelona, irritou-se com um gol do Real Madrid e picou a pessoa/hospedeiro, e que incomodada, desferiu-lhe um tapa fatal.
- Seja discreto, saiba a hora de molestar o hospedeiro, era a sua frase preferida.
Seguindo esta máxima, cresci, desenvolvi e tornei-me uma pulga forte, destacando-me nos esportes e na vida social.
Por essas coincidências do destino, estava eu sugando tranquilamente o sangue de um cachorrinho em um parque da cidade, quando um famoso jogador de futebol aproximou-se, gostou do cãozinho, levou-o para casa e o adotou.
Cheguei assim à Catalunha sem nem precisar pagar a passagem. Passei inúmeras vezes pela linda Barcelona e arredores. Mas já estava começando a me cansar desta monotonia, quando em um churrasco, troquei a cabeleira oxigenada do meu hospedeiro pela barba ruiva de outro jogador.
Vovô, quando me viu na televisão durante um jogo, telefonou-me e disse que era o tal Messi, meu xará. Ficou empolgado e pediu que eu tirasse uma selfie. Depois, publicou no PulgaNews, um famoso tablóide.
Fiquei muito famoso e pulei da barba portenha para a gaforinha de um zagueiro, que havia sido dispensado pelo clube e que retornaria ao país. Com o lema “se é bom para o Messi, é bom para todos”, ganhei fama. Recebi altos cachês das TV’s para entrevistas e participações em talk shows.
Transei com todas as PP (Pulguinhas Periguetes) que queriam aproveitar da minha fama para ascender nas carreiras. Mas quando estava prestes a ceder à tentação de entrar na política, veio um enérgico convite de meu avô para visitá-lo.
Recebeu-me com um cartaz no colo, com a palavra DISCRIÇÃO. Conversamos longamente e ele me fez ver que a exposição demasiada me levaria à desgraça e logo seria esmagado por um tapa do sistema.
Hoje, gozo da tranquilidade de um canil que adquiri, em um pacato bairro, onde todos os cães têm apetitosos sangues do tipo “O-”.
Fonte> Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: imponderáveis. Volume 3. Santos/SP: Bueno Editora, 2022. Enviado pelo autor
Caldeirão Poético LXXX
Cruz do Espírito Santo/PB, 1884 – 1914, Leopoldina/MG
ASA DE CORVO
Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...
Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!
É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...
É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte — a costureira funerária —
Cose para o homem a última camisa!
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Cláudio Manoel da Costa
Mariana/MG, 1729 – 1789, Ouro Preto/MG
ONDE ESTOU?
Onde estou? Este sítio desconheço:
quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
e em contemplá-lo, tímido esmoreço.
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
de estar a ela um dia reclinado;
ali em vale um monte está mudado:
quanto pode dos anos o progresso!
Árvores aqui vi tão florescentes,
que faziam perpétua a primavera:
nem troncos vejo agora decadentes.
Eu me engano: a região esta não era;
mas que venho a estranhar, se estão presentes
meus males, com que tudo degenera!
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Jorge de Lima
(Jorge Mateus de Lima)
União dos Palmares/AL, 1895 – 1953, Rio de Janeiro/RJ
O ACENDEDOR DE LAMPIÕES
Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!
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Lêdo Ivo
Maceió/AL, 1924 – 2012, Sevilha/Espanha
ACONTECIMENTO DO SONETO
À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros
versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.
Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,
irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.
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Luís Vaz de Camões
Coimbra/Portugal, c. 1524 – 1580
SONETO 5
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?
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Miguel Russowsky
(Miguel Kopstein Russowsky)
Santa Maria/RS (1923 – 2009) Joaçaba/SC
A VIDA É URGENTE
Se sabes que te quero e sou por ti bem quisto,
o “depois” não importa. O tempo nos dirá.
Viver!... Sentir o amor, é urgentíssimo já!
Não somes ao anseio uma descrença, insisto!
Felicidade... Instante azul!... Apenas isto.
Deixa então, o porvir, às leis do “Deus dará”.
Não penses que o amanhã necessite alvará
para dar luz ao sol, se tudo está previsto.
Aproveitemos agora os encantos da vida,
antes que o fado hostil os sonhos desarrume,
ou às desilusões os teus enganos somes!
A existência esvai-se em célere corrida...
Um dia eu serei pó e tu serás perfume
e o vento soprará sem lembrar nossos nomes.
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Neide Rocha Portugal
Bandeirantes/PR
ÊXODO MENTAL
Ficou distante a roça… E, com a venda,
entre a mobília que cortava a estrada
se avolumava o pó, em fina renda,
sobre a “senhora” reduzida ao nada.
.
Noutro lugar, levada à estranha tenda,
não mais se lembra nem da filharada.
Dessa memória, que hoje é pura lenda,
recordou-se de mim… E, na empreitada,
.
tentei trazer à luz essa memória;
reconstruir a “ordem” nessa história,
sem entender por que me reproduz.
.
Do que é capaz um som?… Fiz o que pude:
– Sou a cantiga do sarilho rude
que traz o balde d’água para a luz!
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Olegário Mariano
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE, 1889 – 1858, Rio de Janeiro/RJ
O MEU RETRATO
Sou magro, sou comprido, sou bizarro,
Tendo muito de orgulho e de altivez.
Trago a pender dos lábios um cigarro,
Misto de fumo turco e fumo inglês.
Tenho a cara raspada e cor de barro.
Sou talvez meio excêntrico, talvez.
De quando em quando da memória varro
A saudade de alguém que assim me fez.
Amo os cães, amo os pássaros e as flores.
Cultivo a tradição da minha raça
Golpeada de aventuras e de amores.
E assim vivo, desatinado e a esmo.
As poucas sensações da vida escassa
São sensações que nascem de mim mesmo.
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Tomás Antônio Gonzaga
Porto/Portugal, 1744 – 1810, Moçambique
MARÍLIA DE DIRCEU: SONETO II
Num fértil campo de soberbo Douro,
dormindo sobre a relva descansava,
quando vi que a Fortuna me mostrava
com alegre semblante o seu Tesouro.
De uma parte, um montão de prata e ouro
com pedras de valor o chão curvava;
aqui um cetro, ali um trono estava,
pendiam coroas mil de grama e louro.
Acabou (diz-me então) a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
pois benigna os concedo, vai, procura.
Escolhi, acordei, e não vi nada:
comigo assentei logo que a ventura
nunca chega a passar de ser sonhada.
Mitos Indígenas (Mumuru - a estrela dos lagos)
Maraí, uma jovem e bela índia, muito amava a natureza. Passava seus dias a brincar perto do lago, tornando-se a companheira e melhor amiga dos peixes, das aves e dos outros animais.
À noite, ficava a contemplar a chegada da Lua e das estrelas.
Nasceu-lhe então um forte desejo de tornar-se também uma estrela. Perguntou ao pai, como surgiam aqueles pontinhos brilhantes no céu e, com grande alegria, veio a saber que Jacy, era um dos nomes indígena da Lua, ouvia os desejos das moças e, ao se esconder atrás das montanhas, transformava-se em estrelas.
A partir deste instante, todas as noites Maraí esperava pela Lua, suplicando que a levasse para o céu, bem no alto.
Muitos dias se passaram sem que a jovem realizassem seu sonho.
Resolveu então aguardar a chegada da Lua junto aos peixes do lago. Assim que esta apareceu, Maraí encantou-se com sua imagem refletida na água, sendo atraída para dentro do lago, de onde não mais voltou.
A pedido dos peixes, pássaros e outros animais, Maraí não foi levada para o céu. Jacy transformou-a numa bela planta, ganhando o nome de Mumuru, a Vitória-régia.
Ela vive nos lagos e rios da Amazônia. Sua flor se abre sempre à meia-noite e tem o formato de uma estrela.
Assim a linda jovem tomou-se a rainha da noite, a estrela dos lagos, a enfeitar ainda mais a Natureza com sua beleza e seu perfume.
Fonte> Adaptação do Texto de Jayhr Gael in O Caminho de Wicca - http://www.caminhodewicca.com.br (desativado). acesso em 13/10/2023.
Dicas de Escrita (Como Escrever uma Boa História Descritiva)
Escrever é uma forma de arte muito popular. Na escrita, qualquer um é capaz de se expressar através de diferentes paixões, sentimentos e expressões. Ser descritivo é uma característica importante para qualquer escritor, mas como escrever de maneira descritiva?
COMEÇANDO
1. Certifique-se de ter uma boa introdução.
É isso que atrairá o leitor para a história. Por exemplo: “Eu permaneci lá, na fortaleza da montanha, esperando e observando. Não sabia pelo que esperava, mas tinha certeza de que deveria estar ali. É como se tudo já estivesse determinado para acontecer."
2. Utilize linguagem descritiva!
Adjetivos são belos exemplos de palavras descritivas, tais como vermelho, macio, pegajoso, magnífico, horrendo, escamoso, entre outros. Com isso, o leitor poderá ter uma ideia clara do que está acontecendo na história.
Por exemplo: “A cobra vermelha e escorregadia deslizou por entre as duas moitas espessas e repletas de folhas verdes.”
3. Crie sua conclusão.
Um final emocionante. NÃO use apenas o tradicional “Fim”, isso seria muito maçante! Termine de maneira inesperada, algo que ninguém nunca havia usado antes.
Por exemplo: “Ao perceber que minha jornada havia acabado, voltei meu olhar para o céu tão azul que parecia encoberto por um tecido. As nuvens eram negras como a noite. Embora tenha vencido, não realizei meu último desejo, que era encontrar minha mãe há muito perdida.”
USANDO A LINGUAGEM DESCRITIVA
1. Comece sua história de maneira que prenda a atenção do leitor.
A menos que esteja escrevendo um conto de fadas, você provavelmente não começará seu texto com “Era uma vez...”. Ao invés disso, use alguma coisa que desperte imediatamente o interesse do leitor, por exemplo:
“Mary foi ao chão ao que uma grande explosão atravessava a floresta como uma faca cortando um tecido.”.
Com isso, o leitor será imediatamente apresentado ao personagem e ação principal. Não comece com uma cena de ação empolgante para depois seguir com várias páginas de exposição sobre o passado dos personagens e os bastidores de todas as ações.
O leitor ficará irritado ao perceber que se interessou por uma parte apenas para ser forçado a passar por todas as partes entediantes.
Por exemplo: se você começar a história apresentando a personagem Mary e o contexto da explosão na qual está envolvida, dê sequência a esse segmento evitando seguir para páginas de descrição sobre como a floresta era antes e como passara por diversas transformações até se tornar o cenário atual, além de como era a aparência de Mary e sua história completa, etc.
Ao invés disso, continue a ação principal contando o que Mary estava fazendo na floresta e o que causou a explosão.
2. Desperte os cinco sentidos do leitor.
Descreva como as coisas são, que cheiro elas têm, que sons podem ser ouvidos e que sensações podem ser sentidas. Dessa forma o leitor poderá sentir-se como parte integrante da ação e visualizar facilmente tudo o que está acontecendo.
Por exemplo, descreva como Mary sentiu o calor da explosão percorrendo seu corpo, faça com que o cabelo tenha ficado chamuscado para que ela possa sentir o cheiro de queimado.
Crie uma sequência em que ela quase sufoca com a fumaça acre e começa a tossir desesperadamente. E, por fim, faça com que seus ouvidos fiquem zunindo devido ao barulho da explosão (ao que esse pode ser um dos pontos-chave, onde Mary é capturada por não ouvir seus agressores se aproximando).
Obviamente, descreva apenas o que seja importante para sua história. Tente montar o cenário para dar ao leitor uma noção de como é a área onde está ocorrendo a ação, mas não sobrecarregue o leitor com cada ínfimo detalhe. Confie na imaginação do público.
3. Descreva os pensamentos e emoções de seu(s) personagem(ns).
Permitir que o público tenha esse conhecimento fará com que o leitor se sinta mais próximo e conectado a eles. Disserte sobre como os eventos da história influenciam a maneira como os personagens se sentem, como passam por mudanças emocionais devido aos eventos que experienciaram e que tipo de ação ou acontecimentos são criados a partir desses momentos.
Por exemplo: Mary pode estar se sentindo aterrorizada pela explosão na floresta, visto que ela havia dedicado sua vida a preservar esse habitat natural, ou talvez por que um de seus amigos estava próximo do ponto de impacto. Ela pode estar arrasada por causa da explosão, ou simplesmente nervosa. Talvez até esteja se sentindo arrasada, nervosa e aterrorizada, tudo ao mesmo tempo.
Reflita sobre como os pensamentos e emoções mudam conforme o rumo da história. Você não desejaria criar um personagem estático que não passa por nenhuma mudança, ao mesmo tempo que um personagem que passa por uma transformação drástica e sem sentido também poderia não agradar ao leitor.
Por exemplo: no início da história, Mary pode estar se sentindo envergonhada por não ter ido contra as pessoas que criaram a explosão e, no decorrer da trama, desenvolve força e coragem impressionantes que a permitem derrotar os vilões.
4. Mostre, mas não conte.
Esta é a principal regra utilizada pelos mais criativos autores e escritores descritivos pelo mundo.
Você não pode entregar toda a história pronta para o leitor, ao invés disso, utilize elementos de linguagem que passem pelo que você está querendo dizer, mas que não revelem o sentido literal de cada passagem construída.
Por exemplo: ao invés de dizer “Mary estava nervosa por causa da explosão”, você pode optar por uma passagem mais elaborada, tal como: “Mary cerrou os punhos ao ver as chamas e a fumaça devastando aquilo que um dia fora sua linda floresta. Ela mal sentia as pontas das unhas perfurando a carne de suas palmas. Tudo que ela havia trabalhado tanto para proteger agora estava destruído. Nesse momento, não era apenas a fumaça ardente que fazia seus olhos lacrimejarem.”.
DICAS
Não seja descritivo demais.
Por exemplo, “Peguei com a mão esquerda a faca que estava guardada em sua devida posição dentro da gaveta localizada ao lado da geladeira com o imã vermelho de Papai Noel.”
Isso é descritivo demais e facilmente incomodaria qualquer leitor. No entanto, evite fazer apenas descrições curtas e simples demais, tais como: “Seu cabelo era preto.”. Isso seria maçante demais!
Uma boa maneira de escrever uma história é pensar no que toca os personagens, o que escutam, cheiram, etc. Por exemplo: “Quanto mais ela andava floresta adentro, mais sentia o ar carregado”, ou algo parecido.
Fonte> https://pt.wikihow.com/
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