segunda-feira, 15 de julho de 2019

Coelho Neto (Fantasia de Inverno)


Vento gelado, gélido vento amaina o teu furor, já que traiçoeiramente conseguiste penetrar em meu coração, que és tu que por lá andas: bem sinto o teu Mui, bem ouço os teus gemidos. Ai de mim!... És tu mesmo que andas a desfolhar as minhas últimas ilusões e a crestar as verdes folhas das minhas últimas esperanças.

Como se contrai um mal de morte à beira da água azul de lagoa tranquila, admirando um nenúfar aberto, assim ganhei a melancolia que me retrai olhando o límpido céu de inverno abotoado no pálido e triste plenilúnio.

Fazia frio, um frio navalhante e eu, esquecido, extasiado naquela serenidade, deixei-me ficar à janela enamorado da noite e foi, então, que me invadiste, como invades e varejas uma ruína fendida em mil abertas e taliscas e agora, no meu coração, gemes e regelas, vento gelado, gélido vento, que andavas errando à luz do luar.

Meu pobre coração! Quando, outrora, me falavam em vales floridos, em colinas marchetadas de margaridas e rosas, em campos palhetados de botões de ouro, em vivas águas recobertas de açucenas brancas, eu sorria superiormente como sorriria um deus a quem um mortal narrasse aventuras mesquinhas. É que eu tinha o meu coração mais rico em flores do que os jardins maravilhosos de Viviana e agora... Ai de mim! só há despojos e como poderiam resistir as flores meigas ao vento de inverno que, traiçoeiramente, penetrou em meu coração, onde sempre havia a doce, a tépida temperatura de uma primavera ideal?!

Meus sonhos, que será feito de vós? Como andam no ar noturno, em torvelinhos fantásticos, folhas e flores orfanadas, assim andais nas lufadas do vento gélido.

Amanhã o sol tornará ao céu — eu mesmo o verei seguir, rompendo as névoas como um noivo preguiçoso que abre vagarosamente o cortinado e, a contragosto, deixa o leito nupcial; eu o verei surgir e verei a terra revestir-se de luz e, florida e contente, louvá-lo pela boca harmoniosa dos seus pássaros. Acompanharei, com olhares invejosos, a corrida sonora dos límpidos regatos, ouvirei as cantilenas dos campônios e, talvez, sinta o calor benéfico do sol que reanima, mas... chegará o sol ao meu coração? Sim, é natural que chegue — ele não é da raça dos homens que só atendem aos que a Fortuna acerca. As mesmas minas vêm-no chegar, o pântano recena-se com ele, as cavernas recebem-no no íntimo, é para todos e para tudo que a sua luz rebrilha, mas... será também para os corações? Diz-me
a alma que não.

Ai de mim!... Como poderei viver com tal inverno gelado?

Lua, lua perversa, pálido fantasma, foste tu que assim sacrificaste a minha vida. Quiseste um companheiro que, parecendo vivo, não fosse mais que um cadáver e encantaste o meu coração, reduzindo todos os sonhos que nele havia a verdadeiros e melancólicos espectros.

Foste tu, foi o teu hálito, ou melhor, foi a exalação do teu corpo nevado, lívida e funérea lua, que transformou um campo de flores em campo de neve.

E se vier o degelo que pranto copioso inundará meus olhos; que dilúvio transbordará de mim... Para conter tantos sonhos e tantos amores é preciso que o meu coração seja do tamanho do mundo.

Quem me mandou a mim contemplar luares em maio, ao frio? Quem me mandou a mim fazer vigília a defuntos?

Bem fazem os indiferentes que, embora apareças, com a linda cor com que a morte irônica te enfeita, fecham as janeiras e entregam-se aos travesseiros. Esses estão livres do assombramento, mas eu, curioso, lá me deixei ficar a olhar-te e tu...

Daí... quem sabe! Talvez não sejas tu a culpada, lua merencória, porque, em verdade, quando eu te fitava, meu pensamento estava em outra face, mais linda do que a tua, mas também fria e indiferente.

Quem sabe se não foi a tristeza desse pensamento que me pôs no coração tamanha melancolia? Se foi... aqueles olhos doces, com um só olhar, desfarão a tristeza. Desfariam, devo eu dizer, desfariam se, um breve instante, se volvessem para o meu rosto, mas... são tão frios, tão frios que...

Ai de mim!... O inverno passará depressa, o verão tornará risonho, mas no meu coração nunca mais, nunca mais haverá sol de estio nem flores da primavera.

À noite, eu também ando a carregar um astro morto: o teu, matou-o o tempo; o meu, matou-o o amor.

Fonte:
Iba Mendes (revisão ortográfica).

domingo, 14 de julho de 2019

Lairton Trovão de Andrade (Panaceia de Trovas) 4


Apesar de tão “machão”
– parece castigo, eu sei -
é comum o “garanhão”
possuir um filho “gay”.

A pobre mulher ventana,
que tanto exibe o assento,
não esconde o ar sacana
e vive a mercê do vento.

Deus nos livre da procela,
que lança tudo para o ar;
faz machão virar donzela
e o pobre do ateu, rezar.

Do relógio, é só o ponteiro
que não para – não me contem! -
horas marca o dia inteiro,
mas as mesmas horas de ontem.

Ele diz que sabe tudo,
sem rever toda parada;
é bom que saiba, contudo,]
que o que sabe é quase nada.

Eram dois gêmeos idênticos,
mas um deles faleceu.
Funga o vivo, em tom jumentico:
– “Foi ele, ou eu quem morreu?!”

Escureceu todo o céu
com tempestade lá fora…
e o apavorado do incréu
bradava: “Nossa Senhora!”

Fico velho a cada dia?!
Isso é coisa boa, ó meu!
Viverei em regalia
mais um dia sendo “eu”.

Há algum homem realizado?
– Bem! Quatro filhos criei,
tenho algum livro editado
e árvores eu já plantei.

Mulher é anjo da guarda,
seiva de vida na terra;
em tudo, sempre vanguarda,
pomba de paz e… de guerra.

Na loja do seu Pafúncio,
sofá quebrado ele vende,
pois na peça está o anúncio:
CUIDADO, FREGUÊS, NÃO SENTE!

“Não há terra mais risonha
do que a terra brasileira”;
aqui se come pamonha
e se planta bananeira.

O escorpião, em seu terreno,
é perigoso também;
mas, não tem ele o veneno
tão mortal que os homens têm.

Olá, soberba vizinha,
sê feliz por onde vais!
Julguei-te, um dia, rainha
– foi engano, nada mais.

O Zé fechou a carranca
e mostrou-se acabrunhado:
Sua trova estava manca
com terrível pé quebrado.

Para matar as bactérias,
esfrega-se álcool na mão;
para limpar as artérias,
é cachaça com limão.

Presta atenção pra me ouvir:
– Quem já traiu uma vez
pode de novo trair,
– traíra não tem talvez!

Quão relativo é o humor:
Muitos há que encontram graça
quando curtem, em si, a dor,
rindo da própria desgraça.

Vê-se aqui degradação
que se estende ao chefe-mor;
castiga-se corrupção
com corrupção bem maior.

Vive aqui um “don juanita”
que se julga garanhão;
tem a cabeça partida
por posar de “bernadão”.

Fonte:
Lairton Trovão de Andrade. Perene alvorecer. Pinhalão/PR: Ed. do Autor, 2016.

Vinicius de Moraes (Uma Viola-de-Amor)


Deem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim... "Sairei de mim mesmo e irei ao encontro das flores humildes dos caminhos e das lentas aves dos crepúsculos, cujo pipilo suspende na paisagem uma lágrima que nunca se derrama. Sairei de mim mesmo em busca de mim mesmo, em busca de minha imagem perdida nos abismos do desespero, minha imagem de cuja face já não me lembro mais...

"Sairei de mim mesmo em busca das melodias esquecidas na memória, em busca dos instantes de total abandono e beleza, em busca dos milagres ainda não acontecidos...

"Que eu seja novamente aquele que ergue do chão o pássaro ferido e, no calor de sua mão, dá-lhe de morrer em paz; aquele que, em sua eterna peregrinação em busca da vida, ajuda o camponês a consertar a roda do seu carro...

"Que me seja dado, em minhas andanças, restituir a cada ser humano o consolo de chorar dias de lágrimas; e depois levá-lo lá onde existe a luz e chorar eu próprio ante a beleza do seu pranto ao sol...

"Possa eu mirar novamente os pélagos e compreendê-los; atravessar os desertos e amá-los. Possa eu deitar-me à noite na areia das praias e manter com as estrelas em delírio o colóquio da eternidade. Possa eu voltar a ser aquele que não teme ficar só consigo mesmo, numa dura solidão sem deliquescência...

"Bem haja o meu irmão no meu caminho, com as suas úlceras à mostra, que a ele eu hei de curar e dar abrigo no meu peito, Bem haja no meu caminho a dor do meu semelhante, que a ela estarei desvelado e atento...

"Seja a mulher a mãe, a esposa, a amante, a filha, a bem-amada do meu coração; possa eu amá-la e respeitá-la, dar-lhe filhos e silêncios. Possa eu coroá-la de folhas da primavera em seu nascimento, seu conúbio e sua morte. Tenha eu no meu pensamento a ideia constante de querê-la e lhe prestar serviço...

"Que o meu rosto reflita nos espelhos um olhar doce e tranquilo, mesmo no mais fundo sofrimento; e que eu não me esqueça nunca que devo estar constantemente em guarda de mim mesmo, para que sejam humanos e dignos o meu orgulho e a minha humildade, e para eu cresça sempre no sentido de Tempo...

"Pois o meu coração está antes de tudo com os que têm menos do que eu, e com os que, tendo mais do que eu, nada têm. Pois o meu coração está com a ovelha e não com o lobo; com o condenado e não com o carrasco…

"E que este seja o meu canto e o escutem os surdos de carinho e de piedade; e que ele vibre com um sino nos ouvidos dos falsos apóstolos dos falsos apóstatas; pois eu sou o homem, ser de poesia, portador do segredo e sua incomunicabilidade - e o meu largo canto vibra acima dos ócios e ressentimentos, das intrigas e vinganças, nos espaços infinitos...".

Deem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim, que sua voz está rouca de tanto insulto inútil e seu coração triste, de tanta vã mentira que lhe ensinaram.

Fonte:
Vinícius de Moraes. Para uma menina com uma flor.

J. G. de Araújo Jorge (Inspirações de Amor) XVIII


BALADA AO AMOR QUE NÃO VEIO...
   
Se acaso penso em ti, me inquieta o pensamento...
Por que havias de vir assim tarde demais?
Bem que eu tinha de há muito um cruel pressentimento,
- e há sempre um desespero em nós, se num momento
desejamos voltar a vida para trás...

Neste instante imagino o que teria sido
o meu vago destino desorientado,
se antes, eu já te houvesse um dia conhecido,
e esse tempo, meu Deus!... - e esse tempo perdido
pudesse ao teu convívio ter aproveitado!

Não há nada entre nós, nada... e em verdade há a vida
que nos chama e nos prende!.. . E já agora imagino
que aqui estás ao meu lado a ouvir-me comovida
e me entregas a mão, - e entrego-te vencida
a minha alma, - e com ela todo o meu destino!

Não há nada entre nós, - mas se nos encontramos
ouvirás de hoje em diante um poema onde tu fores,
- trouxemos o destino estranho de dois ramos,
separados, - que importa? ainda assim nos juntamos
confundindo as ramagens, misturando as flores. . .

E eu nem te vi direito! Um olhar sob um véu,
(há qualquer coisa estranha num olhar velado...)
- um olhar, - não direi que em teu olhar há um céu,
quando sei que afinal há tanta angústia e fel
em tudo o que me tens da vida revelado!

Acompanhei-te o vulto um segundo, alguns passos,
nada mais, e no entanto, se quiser pensar
sou capaz de te ver, (há gestos nos espaços,
e guardei a visão dos teus braços, - teus braços
guardei-os, como dois clarões dentro do olhar!)

E devem ser macias tuas mãos, - não ouso
pensar no que elas guardem nos seus finos dedos,
- pensando em tuas mãos, penso em sombra, em repouso,
num lugar quieto e bom, e num vento amoroso
a soprar entre as folhas murmuras segredos. . .

Mas... que saibas perdoar estas coisas que escrevo,
pensei-as a escutar distante a tua voz,
e há algumas coisas mais, que a dizer não me atrevo,
é que escrevo demais, e não posso, e não devo,
e não tenho o direito de falar em nós ...

BALADA EMBALANDO MARIA...
  
Odor de folhas verdes perturbando,
punhais de luz ferindo a ramaria...
- é o teu corpo cheiroso me estonteando!
- são teu olhos, Maria!

Rumor na mata de água inquieta e fria,
bicos de ave no ninho quente e brando...
- é a tua voz feliz cantarolando
- são teus seios, Maria!

Sombra de noite que vai baixando
caju mostrando a polpa cor do dia...
- são teus cabelos me chamando
- são tem lábios, Maria!

Fruto maduro abrindo a mataria,
gestos de gaivotas no ar bailando...
- é o teu riso medroso me tentando!
- são tuas mãos, Maria!

Vento que sopra leve, acariciando,
Mel que canta na boca e que inebria...
- é o teu carinho morno me prostrando!
- são teus beijos, Maria!

Raio de sol dançando de alegria,
cipós que ao meu redor se vão fechando
- é a tua alma de criança madrugando!
- são teus braços, Maria!

Rima que eu quis rimar com fantasia,
trecho de céu que ao longe vai clareando . . .
-é o teu nome que eu vivo soletrando!
- são teus sonhos, Maria!

Girassol sempre a luz acompanhando,
levada aos ventos, erradia...
É o meu amor por ti, louco, sonhando!
É o teu amor, Maria!

BARCO PERDIDO

Oh! a vida é uma grande renúncia, partida
em pequenos fragmentos, todo dia, toda hora...
E a ironia maior, é que às vezes, a vida
de renúncia em renúncia aos poucos vai embora...

Tu voltaste de novo... e o doce amor de outrora
trouxeste ainda no olhar, na expressão comovida.
e eis que o meu coração no reencontro de agora
transforma em labareda a chama adormecida...

No entanto, que fazer? Há uma âncora no fundo...
Hoje, sou como um barco sobre o mar do mundo,
barco esquife, onde jaz um marinheiro morto...

Velas rotas ao vento... os mastros aos pedaços...
E te vejo seguir, e a acenar-me teus braços,
e me deixo ficar, sem destino, nem porto...

BOM DIA, AMIGO SOL!

Bom dia, amigo Sol! A casa é tua!
As bandas da janela abre e escancara,
- deixa que entre a manhã sonora e clara
que anda lá fora alegre pela rua!

Entre! Vem surpreendê-la quase nua,
doura-lhe as formas de beleza rara...
Na intimidade em que a deixei, repara
que a sua carne é branca como a Lua!

Bom dia, amigo Sol! É esse o meu ninho...
Que não repares no seu desalinho
nem no ar cheio de sombras, de cansaços...

Entra! Só tu possuis esse direito,
- de surpreendê-la, quente dos meus braços,
no aconchego feliz do nosso leito!...

BRINDE
   
Tomarei tua cabeça entre as mãos como uma taça,
e transbordará o louro "champagne" dos teus cabelos
sobre meus dedos...

Me olharei no cristal dos teus olhos
e verei minha imagem refletida no desejo
que efervesce,
e beberei em teus lábios entreabertos a tua vida
até que os teus olhos fiquem vazios e ausentes...

Até que te sintas leve e gloriosa como uma taça de cristal
trespassada de luz
num brinde a esse segundo de êxtase imortal...
Uma taça que, por esse segundo morreria afinal
espatifada,
num grito de prazer esplêndido e triunfal!

Tua cabeça entre as minhas mãos
será a taça com que brindarei
nesse segundo,
o destino do amor
no destino do mundo!

CABOCLA

Cabocla, em teus olhos há estranhos desejos,
mistérios de noite,
clarões de luar...

Tua boca, é uma fruta madura, vermelha,
madura de beijos,
de beijos maduros que eu quero apanhar!
Tua boca é uma fruta gostosa,' será
assim como um bago branquinho,
branquinho,
e doce de ingá!

Teu riso, Cabocla, é tão fresco, tão bom,
que há nele um murmúrio de fontes, e o som
das águas rolando na mata fechada...
Teu riso, Cabocla, parece a alvorada,
parece na sombra o clarão do caminho,
- teu riso parece esse sulco branquinho
que se abre na pele macia e corada
de um doce caju!
  
Fonte:
J. G. de Araújo Jorge. Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou. vol. 2. SP: Ed. Theor, 1965.

Arthur de Azevedo (Black)


Leandrinho, o moço mais elegante e mais peralta do bairro de São Cristóvão, frequentava a casa do Senhor Martins, que era casado com a moça mais bonita da rua do Pau-Ferro.

Mas, por uma singularidade notável, tão notável que a vizinhança logo notou, Leandrinho só ia à casa do Senhor Martins quando o Senhor Martins não estava em casa.

Esperava que ele saísse e tomasse o bonde que o transportava à cidade, quase à porta da sua repartição; entrava no corredor com a petulância do guerreiro em terreno conquistado, e Dona Candinha (assim se chamava a moça mais bonita da rua do Pau-Ferro) introduzia-o na sala de visitas, e de lá passavam ambos para a alcova, onde os esperava o tálamo aviltado pelos seus amores ignóbeis.

A ventura de Leandrinho tinha um único senão: havia na casa um cãozinho de raça, um bull-terrier, chamado Black, que latia desesperadamente sempre que farejava a presença daquele estranho.

Dir-se-ia que o inteligente animal compreendia tudo e daquele modo exprimia a indignação que tamanha patifaria lhe causava.

Entretanto, o inconveniente, foi remediado. A poder de carícias e pães-de-ló, a pouco e pouco logrou o afortunado Leandrinho captar a simpatia de Black, e este, afinal, vinha aos pulos recebê-lo à porta da rua, e acompanhava-o no corredor, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

As mulheres viciosas e apaixonadas comprazem-se na aproximação do perigo; por isso, Dona Candinha desejava ardentemente que Leandrinho travasse relações de amizade com o Senhor Martins.

Tudo se combinou, e uma bela noite os dois amantes se encontraram, como por acaso, num sarau do Clube Familiar da Cancela. Depois de dançar com ele uma valsa e duas polcas, ela teve o desplante de apresentá-lo ao marido.

Sucedeu o que invariavelmente sucede. A manifestação da simpatia do Senhor Martins não se demorou tanto como a de Black: foi fulminante.

Os maridos são por via de regra menos desconfiados que os bull-terriers.

O pobre homem nunca tivera diante de si cavalheiro tão simpático, tão bem-educado, tão insinuante. Ao terminar o sarau, pareciam dois velhos amigos.

À saída do clube, Leandrinho deu o braço a Dona Candinha, e, como "também morava para aqueles lados", acompanhou o casal até a rua do Pau-Ferro.

Separaram-se à porta de casa.

O marido insistiu muito para que o outro aparecesse. Teria o maior prazer em receber a sua visita. Jantavam às cinco. Aos domingos um pouco mais cedo, pois nesses dias a cozinheira ia passear.

– Hei de aparecer – prometeu Leandrinho.

– Olhe, venha quarta-feira – disse o Senhor Martins. – Minha mulher faz anos nesse dia. Mata-se um peru e há mais alguns amigos à mesa, poucos, muito poucos, e de nenhuma cerimônia. Venha. Dar-nos-á muito prazer.

– Não faltarei – protestou Leandrinho.

E despediu-se.

– É muito simpático – observou o Senhor Martins metendo a chave
no trinco.

– É – murmurou secamente Dona Candinha.

Black, que os farejava, esperava-os lá dentro, no corredor, grunhindo, arranhando a porta, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

Na quarta-feira aprazada Leandrinho embonecou-se todo e foi à casa do Senhor Martins, levando consigo um soberbo ramo de violetas.

O dono da casa, que estava na sala de visitas com alguns amigos, encaminhou-se para ele de braços abertos, e dispunha-se a apresentá-lo às pessoas presentes, quando Black veio a correr lá de dentro, e começou a fazer muitas festas ao recém-chegado, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

O Senhor Martins, que conhecia o cão e sabia-o incapaz de tanta familiaridade com pessoas estranhas, teve uma ideia sinistra, e como os dois amantes enfiassem, a situação ficou para ele perfeitamente esclarecida.

Não se descreve o escândalo produzido pela inocente indiscrição de Black. Basta dizer que, a despeito da intervenção dos parentes e amigos ali reunidos, Dona Candinha e Leandrinho foram postos na rua a pontapés
valentemente aplicados.

O Senhor Martins, que não tinha filhos, a princípio sofreu muito, mas afinal habituou-se à solidão.

Nem era esta assim tão grande, pois, todas as vezes que ele entrava em casa, vinha recebê-lo o seu bom amigo, o indiscreto Black, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos Vários.

sábado, 13 de julho de 2019

Carolina Ramos (Da Cidade Grande)


Olhou em volta. Ninguém. O relógio, na boca do estômago, marcava tempo de fome. Hora do "rango". Encostou a "magrela" na parede. Olhou-a com enlevo de enamorado. Pintadinha de novo. Descaracterizada. Nem mesmo o arguto sherloquismo do antigo dono a reconheceria. Joia!

Descansou o traseiro na mesma parede. Ficou à espreita. Ou, como diria, "morou na paquera". O primeiro incauto aproximava-se. Gordo. Despreocupado. Paletó aberto, bem ao gosto da cintura rotunda. Bem ao gosto, também, dos amigos do alheio. O gordo parou no ponto do ônibus. Mão Leve sentiu a descarga compulsiva da adrenalina: — Já!

Como se chamava, na realidade, ninguém sabia. A pia batismal da malandragem alcunhara-o de Mão Leve. E, Mão Leve, ficara sendo.

Aproximou-se da vitima, como quem não quer nada:

— Tem um "fosfro" aí, amigo?

— Não... não tenho. Não fumo.

Diálogo curto. Suficiente para levar a termo o expediente. Dois dedos. Só dois dedos, ágeis e habilidosos, deram conta do serviço. Almoço garantido!

Sem carteira, o gordo emagreceu alguns gramas. Fácil!

Mão Leve conhecia a fundo a profissão. Por isso mesmo, eram seus o respeito e a admiração do bairro. Qualquer pivetezinho, com veleidades punguísticas, via nele um ídolo, um mestre, que dava até diploma, dependendo do feito... se bem feito! Nas horas de lazer, a roda fechava-se à sua volta. Gente jovem. Indócil por natureza. Estática, quando presa às fanfarronadas do malandro, na praça, que só não era o Pátio dos Milagres, porque sem bonecos, nem guizos. Vez ou outra, um velho camburão apontado ao longe, punha água na fervura e fim às aulas. Toda uma comunidade, hóspede em potencial de Febens e similares, se dispersava ou se descaracterizava como a "magrela" do pilantra.

Mão Leve, contudo, acabara por fazer escola. O bairro virara mesmo da pesada, E da pesada, mesmo!

Acariciou, por fora do bolso, a carteira gorda do gordo. Voltou para a bicicleta, sem demonstrar pressa. Cavalgou-a com arte e disparou, dobrando a esquina.

O peso, alternado sobre os pedais, energizava a fuga. Fuga estudada e programada com estilo. Cruzou velozmente a avenida, como água ladeira abaixo.

Quando o furgão apanhou-o, trazia em mente o filé mal passado, ilhado entre fritas, que teria no prato, daí a um nada.

Alheio à sangueira que esparramara, o furgão perdeu-se na distância.

Numa fração, mais rápida que a rápida ação dos próprios dedos, Mão Leve, que já perdera o filé com fritas, perdeu a bicicleta, agora esfolada e bastante amassada; perdeu o relógio, a gorda carteira do gordo... e tudo mais que seus bolsos guardavam.

Bairro da pesada! Alunos de primeira, honrando o mestre!

Um gaiato tripudiou, deixando sobre o corpo despojado, o bilhete: — ''Ei, Mestre... cadê meu diploma?"

Mão Leve, apesar das contusões, parecia sorrir… sem fome, sem bens e sem ambições. Absolutamente em paz!

Embuçada em névoa, a cidade grande acendeu as luzes, para enfrentar mais uma noite de vigília, de vícios e de violência!

Fonte:
Carolina Ramos. Interlúdio: contos. São Paulo: EditorAção, 1993.

Caldeirão Poético XXVII



LUÍS GUIMARÃES 
(1845-1898)

NOITE TROPICAL

Desceu a calma noite irradiante
Sobre a floresta e os vales semeados:
Já ninguém ouve os cantos prolongados
Do negro escravo, estúpido e arquejante.

Dorme a fazenda: - apenas hesitante
A voz do cão, em uivos assustados,
Corta o silêncio, e vai nos descampados
Perder-se como um grito agonizante.

Rompe o luar, ensanguentado e informe,
Brotam fantasmas da savana nua...
E, de repente, um berro desconforme

Parte da mata em que o luar flutua,
E a onça, abrindo a rubra fauce enorme,
Geme na sombra, contemplando a lua.

CARLOS DE LAET 
(1847-1927)

TRISTE FILOSOFIA

Ia Rosa vestir-se, e do vestido
Uma voz se desprende e assim murmura:
"Muitas morremos de uma morte escura,
Porque te envolva sérico tecido".

Ia toucar-se, e escuta-se um gemido
Do marfim que as madeixas lhe segura:
"Por dar-te o afeite desta minha alvura,
Jaz na selva meu corpo sucumbido!"

Põe um colar, e a pérola mais fina:
"Para pescar-me, quantos párias, quantos!
Padeceram no mar lúgubres sortes!"

E Rosa chora: "Oh! desditosa sina!
Todo sorriso é feito de mil prantos,
Toda vida se tece de mil mortes!"

NARCISA AMÁLIA 
(1852-1924)

RECORDAÇÃO FATAL

Distende essa mimosa envergadura,
Verso! Leve, transpondo os altos montes,
Sobe! Assombra-te, acaso, a terra impura?
Mergulha, inteiro, nas celestes fontes!

Anima-te! Esvoaça! Olvida a escura
Geena! Choradas lágrimas não contes...
- Porque prantos cantar, se é em festa a altura?
Se há, bengali, rosais nos horizontes?

Mas - ai! triste galé! quer o poema
De amor dos sóis surpreendas, quer a casta
Rola por tua voz soluce e gema,

Será contigo a lúgubre, a nefasta
Recordação, que arrasto, como a ema
A asa partida pelo campo arrasta!

TEÓFILO DIAS 
(1854-1889)

SAUDADE

A saudade da amada criatura
Nutre-nos n'alma dolorido gozo,
Uma inefável, íntima tortura,
Um sentimento acerbo e volutuoso.

Aquele amor cruel e carinhoso
Na memória indelével nos perdura,
Como acre aroma absorto na textura
De um cofre oriental, fino e poroso.

Entranha-se, invetera-se, - de jeito
Que do tempo ao volver, lento e nocivo,
Resiste: - e ainda mil pedaços feito

O lígneo cárcere que o retém cativo,
Cada parcela reproduz perfeito
O mesmo aroma, inalterável, vivo.

ARTHUR DE AZEVEDO 
(1855-1908)

AS ESTÁTUAS

No dia em que na terra te sumiram,
Eu fui ver-te defunta sobre a essa...
Fechados para sempre, oh! sorte avessa!
Aqueles olhos que me seduziram.

À luz do sol uma janela abriram,
E o jardim avistei onde, ó condessa,
Uma noite perdemos a cabeça,
E as estátuas de mármore sorriram.

Saíste por aquela mesma porta 
Onde outrora teus beijos me esperavam, 
Cheios do amor que ainda me conforta.

Quando o jardim saudoso atravessavam
Seis homens com o esquife em que ias morta,
As estátuas de mármore choravam.

B. LOPES 
(1856-1916)

APOTEOSE

Não sei por que surpresas do meu fado,
Se por ventura ou por desgraça minha,
Sigo os volteios do teu giro alado,
Teus aéreos caprichos de andorinha.

Nas tuas ígneas asas arrastado,
Do erro buscando a sedutora linha,
Perdi cultos e crenças do Passado:
És do meu coração dona e rainha.

Prende-o no áureo grilhão do teu encanto,
De teus braços febris na algema flórea,
Ou nas cadeias súplices do pranto;

Águia, eleva-te, e aos hinos das fanfarras,
Como um troféu sangrento da vitória,
Leva o meu coração nas tuas garras!

MÚCIO TEIXEIRA 
(1858-1926)

O INFINITO

Onde o corpo não vai - projeta-se o olhar;
Onde para o olhar - prossegue o pensamento;
Assim, nesse constante, eterno caminhar,
Ascendemos do pó, momento por momento.

Muito além da atmosfera e além do firmamento,
Onde os astros, os sóis, não cessam de girar,
Há de certo mais vida e muito mais alento
Do que nesta prisão mefítica, sem ar...

Pois bem! se não me é dado, em vigoroso adejo,
Subir, subir... subir - aos mundos, que não vejo,
Porém que um não sei quê me diz que inda hei de ver,

- Quero despedaçar os elos da matéria:
Perder-me pelo azul da vastidão etérea
E ser o que só é - quem já deixou de ser!

ALBERTO DE OLIVEIRA 
(1859-1937)

SOLIDÃO

Vês? estou só! E a vida aqui chega a seu termo.
Já com o sol que se põe se alonga no caminho
A sombra do viajor que fui, por tanto espinho,
E maior, com o ermo da alma, é destas coisas o ermo.

Para-me o coração e o punge a mágoa, a encher-mo,
De haver amado em vão e de viver sozinho.
Nem um sorriso! um beijo! um olhar! um carinho!
Só! e a esvair-se em sangue e a exulcerar-se enfermo!

Só! E em breve caindo, ao despertar em breve,
Verei, a acompanhar-me, a tua sombra leve,
Uniremos, enfim, as almas imortais?

Oh! que horror, se, ao chegar ao torvo Ignoto um dia,
Outra és tu, se te abraço - e te acho esquiva e fria,
Se te falo e segredo - e não me entendes mais!

Luiz Poeta (Racionalidade Animal)


O sinal toca. Os alunos saem numa natural algazarra. Vou junto com eles. Preciso colocar algumas cartas no correio num tempo inábil. É o último dia para a postagem. Quase corro. Tenho apenas meia hora para retomar de um percurso a pé de mais ou menos novecentos metros.

Isto feito, após receber o comprovante do envio dos envelopes, saio na mesma velocidade da vinda, mas levo um susto tremendo: deparo-me com um cão preto, de porte médio, parecendo bloquear a minha passagem.

O respeitável animal perscruta-me numa atitude solene.

Não há nele, nenhum tom ameaçador. Já não tenho medo, entretanto respeito-o. Os olhos amendoados parecem humanos. Fita-me por alguns segundos eternos, a língua de fora numa espécie de riso compartilhado, misturado num aparentemente tênue cansaço. Ando devagar, temendo ameaçá-lo involuntariamente.

Ele me segue.

Quando paro para um cumprimento eventual ou mesmo na intenção de observar um calçado em uma vitrine, ele também estaca. Parece conhecer-me há muito tempo.

Apresso-me. O cão me segue sem o mínimo pudor. 

Atravesso o túnel que liga os dois extremos do meu bairro abaixo da linha férrea. Desço e subo degraus de concreto, o cão, sem hesitar, ritma-se solidariamente a cada passada que 
dou. Estamos diante da avenida principal. O sinal fecha para os pedestres. Temo pelo bicho.

Alguns carros avançam ruidosamente. O sinal parece demorar uma eternidade para esverdear-se. Continuo com pressa. Preciso chegar à escola antes do toque da sirene que anuncia o término do recreio. Os próximos veículos estão a uns cem metros de mim. Entendo que há tempo suficiente para a travessia, mas tenho que correr. Contrariando as leis de trânsito, avanço cautelosa e rapidamente sem perder os carros de vista. Lembro-me do cão. Esqueci-me dele, todavia constato, aliviado, que não me acompanhou, ficou do outro lado, próximo a algumas pessoas atentas ao tráfego dos veículos.

O sinal se abre para os transeuntes. A exemplo das pessoas, o cão olha para ambos os lados, mira o semáforo, mostra-se seguro e atravessa calmamente o espaço que separa as duas calçadas. Sinto-me envergonhado.

O animal pára diante de mim numa pausa que parece criticar e ao mesmo tempo compreender o meu jeito encabulado de observá-lo e finalmente se afasta num último sorriso de língua de fora, ante a perplexidade de um educador... deseducado.

Reverencio-o taciturnamente, num silencioso pedido de desculpas expresso apenas por nossa última troca de olhares caninamente humana e humanamente animal.

Rio de mim para mim, questiono minha pseudo-soberania racional e constato, comovido, que tive uma canina aula de cidadania... animal.

(Crônica premiada em I" Lugar em concurso realizado pela União Brasileira de Escritores)

Fonte:
Luiz Gilberto de Barros (Luiz Poeta). Canção de Ninar Estátuas. 1.ed. Ilhéus/BA: Mondrongo, 2014.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Luiz Gonzaga da Silva (Trovas Dispersas)



Acostumei-me demais 
ao frescor da tua essência, 
mas aos poucos te afastais 
deixando apenas ausência. 

Acre odor de mata em chama,
fumaça que faz chorar,
meu peito gemendo clama
para a queimada acabar.

A deusa da minha rua
mora bem perto de mim:
– vive a contemplar a lua
que ilumina o meu jardim.

A mulher de meia idade,
madura e bem assumida,
tem a preciosidade
de uma vinha enobrecida.

A nossa fé compartida 
numa promessa de paz 
é como luz refletida 
na pureza dos cristais. 

As flores que me ofereces
perfumando os nossos dias, 
são meu rosário de preces, 
meu buquê de fantasias.

Caminhando nas planuras 
do meu mundo interior, 
eu sublimo as amarguras 
que o destino preparou.

Caminhante, aonde vais,
neste caminhar fremente,
não vês que o mundo não trás 
quietude à nossa mente?

Esta angústia que me invade, 
asfixiando o meu ser, 
amarga mais que a saudade, 
dói muito mais que morrer. 

Nesta vida multiforme, 
em que a sorte vai e vem, 
ainda há quem se conforme 
e só siga a luz do bem. 

Nesta vida tão atroz,
de multiformes percalços,
milhares são os heróis
que lutam de pés descalços.

No meu jardim plantei rosas, 
pensando nos seus carinhos, 
mas as minhas mãos calosas 
colheram só os espinhos.

O pelourinho na praça 
traz um grito do passado: 
grito de dor e desgraça 
de um grande povo ultrajado. 

O sertão está molhado... 
Não de chuva... mas do pranto 
desse povo abandonado 
que a seca castiga tanto!... 

O velho com suas dores, 
vergado ao peso dos anos, 
carrega ainda os amores, 
as glórias e os desenganos...

Passando fome em criança,
privações na mocidade,
será que a tal esperança
resiste à terceira idade?

Segue a vida em seu passar
na corredeira dos anos:
– de salto em salto o sonhar,
– de queda em queda os enganos.

Tua luz suave ilumina
meus passos de caminhante:
– és a estrela matutina,
– eu, o peregrino errante!

Um sonho de juventude
não morre nunca, eu suspeito
pois me assusta a inquietude
que ainda carrego ao peito.

Vivendo sem sul, sem norte,
suportando a minha dor,
sou "antes de tudo um forte"
- sertanejo e trovador.

Vivo na vida sem ninho, 
sem carinho e sem fanal, 
abraçado ao pelourinho 
do meu destino fatal. 

Fonte:
O Trovador

Vinicius de Moraes (Chorinho para a Amiga)


Se fosses louca por mim, ah eu dava pantana, eu corria na praça, eu te chamava para ver o afogado. Se fosses louca por mim, eu nem sei, eu subia na pedra mais alto, altivo e parado, vendo o mundo pousado a meus pés. Oh, por que não me dizes, morena, que és louca varrida por mim? Eu te conto um segredo, te levo à boate, eu dou vodca pra você beber! Teu amor é tão grande, parece um luar, mas lhe falta a loucura do meu. Olhos doces os teus, com esse olhar de você, mas por que tão distante de mim? Lindos braços e um colo macio, mas porque tão ausentes dos meus? 

Ah, se fosses louca por mim, eu comprava pipoca, saía correndo, de repente me punha a cantar. Dançaria convosco, senhora, um bailado nervoso e sutil. Se fosses louca por mim, eu me batia em duelo sorrindo, caía a fundo num golpe mortal. Estudava contigo o mistério dos astros, a geometria dos pássaros, declamando poemas assim: "Se eu morresse amanhã... Se fosses louca por mim... ". Se você fosse louca por mim, ô maninha, a gente ia ao Mercado, ao nascer da manhã, ia ver o avião levantar. Tanta coisa eu fazia, ó delícia, se fosses louca por mim! Olha aqui, por exemplo, eu pegava e comprava um lindo peignoir pra você. Te tirava da fila, te abrigava em chinchila, dava até um gasô pra você. Diz por que, meu anjinho, por que tu não és louca-louca por mim? 

Ai, meu Deus, como é triste viver nesta dura incerteza cruel! Perco a fome, não vou ao cinema, só de achar que não és louca por mim. (E no entanto direi num aparte que até gostas bastante de mim...). Mas não sei, eu queria sentir teu olhar fulgurar contra o meu. Mas não sei, eu queria te ver uma escrava morena de mim. Vamos ser, meu amor, vamos ser um do outro de um modo total? Vamos nós, meu carinho, viver num barraco, e um luar, um coqueiro e um violão? Vamos brincar no Carnaval, hein, neguinha, vamos andar atrás do batalhão? Vamos, amor, fazer miséria, espetar uma conta no bar? Você quer que eu provoque uma briga pra você torcer muito por mim? Vamos subir no elevador, hein, doçura, nós dois juntos subindo, que bom! Vamos entrar numa casa de pasto, beber pinga e cerveja e xingar? 

Vamos, neguinha, vamos na praia passear? Vamos ver o dirigível, que é o assombro nacional? Vamos, maninha, vamos, na rua do Tampico, onde o pai matou a filha, ô maninha, com a tampa do maçarico? Vamos maninha, vamos morar em jurujuba, andar de barco a vela, ô maninha, comer camarão graúdo? Vem cá, meu bem, vem cá, meu bem, vem cá, vem cá, vem cá, se não vens bem depressinha, meu bem, vou contar para o seu pai. Ah, minha flor, que linda, a embriaguez do amor, dá um frio pela espinha, prenda minha, e em seguida dá calor. És tão linda, menina, se te chamasses Marina, eu te levava no banho de mar. És tão doce, beleza, se te chamasses Teresa, eu teria certeza, meu bem. Mas não tenho certeza de nada, ó desgraça, ó ruína, ó Tupá! Tu sabias que em ti tem Taiti, linda ilha do amor e do adeus? Tem mandinga, tem mascate, pão-de-açúcar com café, tem chimborazo, kamtchaka, tabor, popocatepel? tem juras, tem jetaturas e até danúbios azuis, tem igapós, jamundás, içás, tapajós, purus! - tens, tens, tens, ah se tens! tens, tens tens, ah se tens! 

Meu amor, meu amor, meu amor, que carinho tão bom por você, quantos beijos alados fugindo, quanto sangue no meu coração! Ah, se fosses louca por mim, eu me estirava na areia, ficava mirando as estrelas. Se fosses louca por mim, eu saía correndo de súbito, entre o pasmo da turba inconsútil. Eu dizia : Woe is me! Eu dizia: helàs! pra você… Tanta coisa eu diria que não há poesia de longe capaz de exprimir. Eu inventava linguagem, só falando bobagem, só fazia bobagem, meu bem. Ó fatal pentagrama, ó lomas valentinas, ó tetrarca, ó sevícia, ó letargo! Mas não há nada a fazer, meu destino é sofrer: e seria tão bom não sofrer. Porque toda a alegria tua e minha seria, se você fosse louca por mim… Mas você não é louca por mim... Mas você não é louca por mim...

Fonte:
Vinicius de Moraes. Para uma menina com uma flor. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1966.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Carlos Drummond de Andrade (Serás Ministro)


— Esse vai ser ministro — sentenciou o pai, logo que o garoto nasceu.

— E você, com esse ordenado mixo de servente, tem lá poder pra fazer nosso filho ministro? — duvidou a mãe.

— Então, só porque meu ordenado é mixo ele não pode ser ministro? A Rádio Nacional deu que Abraão Lincoln trabalhava de cortar lenha no mato e chegou a presidente dos Estados Unidos.

— Isso foi nos Estados Unidos.

— E daí? Nem eu estou querendo tanto pra ele. Só quero uma de ministro.

— Tonzinho, deixa isso pra lá.

— Pra começar, a gente convida o ministro pra padrinho dele.

— O ministro não vai aceitar.

— Não vai por quê? Trabalho no gabinete há dois anos.

— Ele é muito importante, filho.

— Por isso mesmo. Com padrinho importante, o garotinho começa logo a ser importante.

— O ministro é tão ocupado, você mesmo diz. Vê lá se tem tempo pra batizar filho de pobre.

— Pois sim. Ele me trata com toda a consideração, de igual pra igual. Hoje mesmo eu faço o convite.

Fez. O ministro não pôde comparecer, mas enviou representante. Era quase a mesma coisa. Na hora de dizer o nome do menino, o pai não vacilou; disse bem sonoro:

— Ministro.

— Como? — estranhou o padre.

— Ministro, sim senhor.

A mulher ia atalhar: “Tonzinho, não foi Antônio de Fátima que a gente combinou?”, mas era tarde.

No cartório, também estranharam:

— Ministro por quê?

— Porque eu escolhi. Acho lindo.

— Não é nome próprio.

— Pois eu cá acho muito próprio. Não tem aí uma família chamada Ministério, aliás com pessoas distintas, médicos, dentistas etc.?

— Tem.

— Pois então. Meu filho é Ministro, só isso. Ministro Alves da Silva, futuro cidadão útil à pátria. Tem alguma coisa demais?

O garoto registrou-se. Cresceu. Na escola, a princípio achavam-lhe graça no nome. Parecia apelido. Depois, o costume. Há nomes mais estranhos. Ministro não era o primeiro da classe, também não foi dos últimos.

Já moço, o leque das opções não se abriu para ele. Entre o ofício sem brilho e o andar térreo da burocracia, acabou sendo, como o pai, servente de repartição. Promovido a contínuo.

— Eu não disse? — festejou o pai. — Começou a subir.

O máximo que subiu foi trabalhar no gabinete do ministro.

— Ministro, o senhor ministro está chamando.

— Ministro, já providenciou o cafezinho do senhor ministro?

— Sabe quem telefonou pra você, Ministro? A senhora do senhor ministro. Diz que você prometeu ir lá consertar umas goteiras e esqueceu.

— Ministro! Roncando na hora do expediente?!

Começaram os equívocos:

— Telefonema para o Ministro.

— Qual? O Ministro ou o senhor ministro?

— Esse Ministro é um cretino! Me fez esperar uma hora nesta poltrona!

— Perdão, deputado, o senhor está ofendendo o senhor ministro.

— Eu? Eu? Estou me referindo a esse animal, esse…

Até que se apurasse que o animal era Ministro, o contínuo — que confusão! O ministro de Estado, ciente da confusão, recomendou ao assessor:

— Faça esse homem trocar de nome.

— Impossível, senhor ministro. É o seu título de honra.

— Então suma com ele da minha vista.

Mandaram-no para uma vaga repartição de vago departamento. Queixou-se ao pai, aposentado, que isso de se chamar Ministro não conduz a grandes coisas e pode até atrasar a vida.

— Ora, meu filho, hoje no bueiro, amanhã no Pão de Açúcar. E você não tem de que se queixar. Num momento em que tanta gente importante sua a camisa pra ser ministro, e fica olhando pro céu pra ver se baixa um signo do astral, você já é, você sempre foi Ministro, de nascença! de direito! E não depende de governo nenhum pra continuar a ser, até a morte!

Abraçaram-se, chorando.

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. 70 Historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.