terça-feira, 21 de janeiro de 2025

José Deolindo Albuquerque da Silva “Caiçara” (A Lenda do Sol e da Lua)

Certa vez, há muito tempo atrás, num lugar muito distante onde só havia os verdadeiros brasileiros habitando o Brasil, e ali por muito tempo permaneceram até que com a colonização apareceram os homens brancos, que a todo custo queriam dominar as riquezas do país e, sem escrúpulos, iam se embrenhando e dominando os habitantes que ali viviam.

Chegando nesse lugar, que vou chamar de lugar desconhecido, e que era habitado por muitas tribos o homem branco, que se dizia civilizado, começou o conflito com as tribos que sempre  habitaram naquele lindo lugar, preservando a natureza, os animais, os pássaros, os peixes, as caças, os minerais, enfim, preservando tudo que Deus havia lhes deixado. Mas o homem branco, sem escrúpulos, começou a destruir as árvores, a tirar os minérios, a depredar os rios e igarapés, afugentando e matando a caça e o peixe que era a fonte de sobrevivência dos índios. Então, o tuxaua da tribo Pauxis muito triste com aquela situação, chamou dois habitantes da tribo que eram um menino e uma menina e lhes deu uma missão dizendo: “Olhem meus dois jovens, vocês estão vendo a situação em que estamos vivendo. O homem branco destruindo o nosso habitat desordenadamente, e nós que, por todos esses anos, vínhamos a preservar. Pois bem, o que lhes devo dizer, é que nós aqui ficaremos e lutaremos pelo que é nosso, mas não sabemos o que pode acontecer, por isso a missão que lhes confio é bastante difícil, mas não impossível de realizar. Eu quero que vocês saiam daqui e escolham um lugar, não importa a distância, mas quero que sigam o nosso lema. Esse lugar tem que ser preservado a todo custo, pois só assim vocês estarão cumprindo a missão que lhes confio.”

Então, os dois jovens Pauxis despediram-se do tuxaua, prometendo a ele que fariam tudo para cumprir com o que lhes era determinado, e saíram em sua canoa rio abaixo, rio acima, e, durante muitas luas, seguiram em busca desse lugar tão sonhado e sempre cantando assim:

Trá-lá-lá-lá-lá-lá-lá vamos juntos viajar;
Rumo à terra prometida, onde tem muita beleza;
Onde a preservação, nós iremos encontrar;
Onde o lema é plantar e cuidar da natureza;
Onde o Uirapuru encanta, onde canta o sabiá;
Trá-lá-lá-lá-lá-lá-lá.

Em uma bela manhã, quando eles seguiam em um lindo rio, hoje denominado Rio Amazonas, ficaram deslumbrados com um dos mais belos amanheceres de suas vidas! O sol vinha raiando por de trás de uma montanha, e seus raios dourados refletiam um brilho encantador, os dois olharam-se  e falaram: - Ali está a terra prometida o lugar que iremos zelar e ficar eternamente.

A montanha que eles avistaram hoje é chamada de Serra da Escama. E ao chegarem mais próximos, depararam também com um maravilhoso lago onde encontraram muitos peixes e pássaros das mais variadas espécies, onde havia  com abundância a vitória-régia, o murerú, os belos anhingais, enfim; tudo o que eles precisavam para sobreviver. Esse lago recebeu o nome de lago Pauxis em homenagem aos primeiros habitantes deste lugar, que aqui formaram família e povoaram esta terra e que por muitos anos foi habitada por eles, sempre acreditando e cumprindo a missão que lhes foi confiada que era somente trabalhar na terra com respeito e usar os lagos e a mata para tirar apenas o seu sustento, não derrubando árvores desordenadamente, não fazendo queimadas, não poluindo os rios, lagos e igarapés, sempre preservando a natureza.

Mas com a chegada do homem branco, eles, reviveram o pesadelo de seus antepassados e aí o homem branco, que sempre se diz civilizado, invadiu o espaço dos Pauxis, e, com o seu espírito de destruição, começou a devastar a floresta desordenadamente, afugentando e até matando muitos índios que eram os verdadeiros habitantes desse lugar. Mas mesmo muito tristes, o Sol e a Lua como eram chamados os dois primeiros habitantes da tribo Pauxis, resolveram ficar e lutar pela preservação, principalmente da Serra e do Lago, e, por muitos anos, ali permaneceram, até que em um determinado tempo o homem não conformado só com a destruição da mata e da caça, resolveram  a acabar com que lhes era mais precioso; o belo Lago, o qual foi cruelmente destruído, ficando assim sem os aningais, sem os pássaros, sem os peixes, sem os animais que dele sobreviviam. O belo Lago foi transformado apenas numa lagoa a céu aberto, onde a vida já não mais existia, e além disso, o próprio homem começou a poluí-lo desordenadamente.

Então o Sol e a Lua inconformados com tanta destruição, só faziam chorar, e em uma noite de lua, eles saíram meio que enlouquecidos de tanta tristeza e caminharam até onde hoje é o porto de cima, e ao chegarem bem no alto da barreira, olhando para o céu e pediram: - Ho mãe Lua nós te imploramos que nos liberte desse sofrimento, pois não queremos sair deste lugar, mas não aguentamos ver tanta destruição, por isso, gostaríamos que acabasse com o nosso sofrimento. 

Então, a mãe lua, compadecida  e ouvindo o clamor dos dois, os encantou no alto da barreira, e ali eles permanecem para sempre, preservando assim a raiz de origem dos Pauxis. Diz a lenda que no local do encante, próximo ao pingo d’água no porto de cima, as pessoas que por ali passam sempre percebem umas gotas de água que surgem cristalinas do alto da barreira, e que são as lágrimas dos dois que continuam a chorar por ver tanta destruição da natureza.

Segundo os sábios, dizem que quem passar no local onde a água fica pingando, e pegar alguns desses pingos e fizer uma cruz do lado esquerdo do peito, é tocado pelo espirito do Sol e da Lua, e para sempre será um preservador da Natureza.
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JOSÉ DEOLINDO ALBUQUERQUE DA SILVA "Caiçara" nasceu em 1958, em Óbidos/PA. Formado em administração. Durante a sua vida de estudante já gostava de escrever. Em 2003, escreveu uma biografia do saudoso pai que faleceu em Setembro de 2000, e junto com a biografia escreveu algumas “presepadas” dele, muito conhecidas pelos os obidenses,  como: O Homem de Fibra. O Carrinho de Mão, Plainada Brasileira,  Piranhas Buxudas, Paulada Escabriativa, as quais foram divulgadas em Óbidos para alguns amigos. Em junho de 2004, ano do Sesquicentenário, escreveu sobre Óbidos, como diz ele, “ minha terra tão amada”, então escreveu poesias que  falam de pontos históricos e culturais. Escreveu como uma forma de demonstrar a sua gratidão e o seu amor a terra  que lhe serviu de berço.

Fontes:
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7º Prêmio Scortecci de Poesia 2025 (Inscrições: até 31 de maio de 2025)

 
O 7° Prêmio Scortecci de Poesia 2025 tem por objetivo prestigiar a literatura brasileira e revelar novos talentos. O tema é livre. Podem participar: poetas brasileiros, residentes ou não no Brasil, maiores de 16 anos.

Inscrições: até 31 de maio de 2025.

CATEGORIAS

a) Poeta estreante: seleção de 5 (cinco) autores premiados: Entende-se por “autor estreante” aquele que nunca publicou nenhum de seus poemas por meio impresso ou digital, seja em livro individual, seja de modo avulso, em antologias ou coletâneas, jornais, sites, blogs, redes sociais ou outra forma similar de publicação.

b) Poeta com obra publicada: seleção de 45 autores premiados: Autor com livro individual ou coautoria, em antologias ou coletâneas, jornais, sites, blogs, redes sociais ou outra forma similar de publicação.

REGULAMENTO

Cada AUTOR participante poderá enviar para o concurso apenas 1 (uma) POESIA, inédita, de sua autoria, em língua portuguesa, o que não impede o uso de termos estrangeiros no texto. 

Cada inscrição deverá ter apenas um AUTOR. 

Não serão aceitos trabalhos coletivos. 

O AUTOR participante responderá legal e individualmente por plágio, publicação não autorizada, calúnia, difamação e não autoria, isentando a Scortecci Editora, promotora do prêmio literário, de qualquer responsabilidade sobre o conteúdo da obra. 

Não haverá para os AUTORES participantes do concurso taxa de inscrição, frete ou qualquer despesa de publicação da obra. 

Todas as despesas serão custeadas pela Scortecci Editora. 

Não haverá cessão de Direitos Autorais, ou seja, os trabalhos continuarão pertencendo aos AUTORES. 

Cada AUTOR premiado receberá pelo correio, gratuitamente, no endereço da inscrição 5 (cinco) exemplares da obra. Poderá, caso queira, não é obrigatório, adquirir mais exemplares da Antologia do 7º Prêmio Scortecci de Poesia 2025, junto à editora com preço especial: R$ 40,00 com desconto de 25% cada. 

PREMIAÇÃO

Serão selecionados pela Comissão Julgadora do prêmio 50 (cinquenta) trabalhos poéticos, a serem publicados em Antologia do 7º Prêmio Scortecci de Poesia 2025. 

Os trabalhos serão organizados por ordem alfabética de nome de autor, sendo: 5 (cinco) poetas estreantes e 45 (quarenta e cinco) poetas com obras publicadas. 

SOBRE A ANTOLOGIA

Formato 14 x 20,7 cm, impressão em equipamento digital, miolo preto e branco, papel Avena ou Pólen, capa 4 cores - cartão 250 gramas -, com orelhas de 7 cm cada, laminação fosca, com ISBN, Ficha Catalográfica e logomarcas da Scortecci Editora e Apoiadores, se houver. 

Os AUTORES participantes residentes fora do Brasil deverão preencher a Ficha de Inscrição com um endereço no Brasil. NÃO serão enviados livros para o exterior. 

SELEÇÃO E COMISSÃO JULGADORA

Serão selecionados pela Comissão Julgadora do concurso, formada por três jurados, indicados pela Scortecci, 50 (cinquenta) trabalhos poéticos, a serem publicados na Antologia do 7º Prêmio Scortecci de Poesia 2025. 

Os trabalhos premiados serão organizados por ordem alfabética de nome de autor. 

Atenção: Para os 50 (cinquenta) autores vencedores será solicitada, posteriormente, cópia do RG.

CRONOGRAMA

1) Inscrições: Até 31 de maio de 2025.

2) Seleção dos trabalhos de 01 de junho a 30 de junho 2025;

3) Resultados: até 15 de julho de 2025.

4) Lançamento da Antologia do 7º Prêmio Scortecci de Poesia 2025: agosto de 2025, no evento de aniversário de 43 anos da Scortecci Editora.

FICHA DE INSCRIÇÃO

AUTORES INSCRITOS NO CONCURSO

Mais informações:
WhatsApp: (11) 97548-1515

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Luiz Poeta (Nuvens de Sonhos) 07

     
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Luiz Gilberto de Barros, registrado como Luiz Poeta, nasceu em 1950, no Rio de Janeiro/RJ. Escritor, Poeta, Contista, Cronista, Ensaísta, Trovador, Aldravianista, Sonetista, Músico, Compositor, Produtor Musical, Artista Plástico, Gestor Educacional e Docente Aposentado  de Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa. Destacou-se no meio artístico como produtor fonográfico, violonista, guitarrista, compositor, poeta e artista plástico. Acadêmico da AVLBL membro da UBT, é Verbete do Dicionário de Música Popular Brasileira Antônio Houaiss e detentor de  relevantes títulos acadêmicos. Fundador de diversas entidades culturais Nacionais e internacionais. Autor premiadíssimo em inúmeros concursos no Brasil e no Exterior. Foi Presidente da Academia Pan-Americana de Letras e Artes; do Centro Cultural Leopoldina de Souza Marques, da Faculdade Souza Marques, e Diretor Presidente do Jornal “O Coruja“, de circulação universitária. Membro da Confraria Brasileira de Letras, Academia Luso-Brasileira de Letras; Academia Paulista de Letras; Cerc Universal des Ambasssadeurs de la Paix; Divine Academie Française de Letters y Arts; Associação dos Acadêmicos da Academia Brasileira de Letras; Diretor Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais; Inbrasci (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais, entre outros. Sua obra artística é eclética e engloba mais de 10.000 trabalhos (músicas, poesias, ensaios contos, novelas, textos dramáticos e crônicas – além de telas e trabalhos artesanais ). Tem CDs e DVDs gravados, tendo publicado mais de 100 obras publicadas entre livros-solo, antologias, CDs, DVDs, jornais e revistas.

Renato Frata (Depois da chuva)

A chuva caía fininha, fininha, que parecia não molhar de tão fina, e era tão silenciosa e sorrateira a lamber folhas e flores que nem parecia chuva, mas névoa que o sol recém-nascido, ainda não amornara. E o chão, com a garganta aberta a recebia como esponja, a ponto de não formar enxurrada como nas outras chuvas ásperas e volumosas em que, não suportando seus espessos volumes, escorrem fazendo buracos, enchem os rios que invadem as margens, alagam ruas e casas. Um desespero.
  
Caiu e caiu tanto durante a noite que nem os ponteiros do relógio que só giravam buscando o sol, conseguiram fazê-la parar, e ficaram só acompanhando sua caída. Até que um vento, não sei saído de onde, soprou a nuvem que já devia estar magrinha de chover e a levou para longe e, se abrindo, possibilitou a que o sol aparecesse.

E aí aconteceu algo especial: o sol, feliz por poder olhar para baixo, desenhou no céu com seus lápis de cor um arco-íris tão grande, mas tão grande, que as pernas dele abraçaram o mundo. E ficou assim, desenhado com sete cores enfeitando o dia.

Uma lindeza de ver e de sentir, até que o girassol que se abrira e olhava bem na cara do sol para se esquentar, pediu:

- Ei sol, me passe ao menos uma dessas cores do arco-íris aí, qualquer uma, olha, pode ser o vermelho, o laranja, o verde, o azul, o anil, o violeta... menos o amarelo que esse eu já tenho... - e complementou: - Não acha que é muita cor para um só arco-íris?

Então, o arco-íris ouvindo o despropósito, respondeu antes que o sol falasse:

- Qual é, cara, tem vergonha não? Pensa que minhas cores são figurinhas que se podem dar, vender ou trocar? Fazem parte de mim, como as suas pétalas. Se eu pedisse essas suas pétalas para me cobrir, você daria?

- Acho que não... ia me sentir pelado!

- Comigo é assim, também. Como sou apenas um arco luminoso de luz refletida em gotículas na atmosfera e tenho uma vida efêmera de pouco mais de uma hora, e você, uma planta enraizada que nasceu de semente, cresceu, floriu, que amanhã virará outras sementes e adubo e tem vida de mais de cem dias, que tal me dar a lindeza desse amarelo forte que tem nas pétalas? Pode ser apenas a cor, para que eu possa enfeitar um outro arco. Veja, você poderá ficar com as pétalas para que não se sinta nu, mas me passe sua cor. O que acha dessa proposta?

- Por que faria isso? Sem cor eu ficaria desmilinguido e ninguém me reconheceria como girassol. Eu perderia a identidade; afinal, a cor faz a flor, sabe desse ditado?

- Tá vendo? Nem tudo que é bom para um pode sê-lo para outro, razão de não poder lhe dar qualquer das minhas... Eu deixaria de ser arco-íris, se não tivesse sete cores, entendeu?

- Ah, bom! Desculpe-me: confesso que quando o vi radiante, resplandecendo no céu e chamando à atenção de tanta gente que se deslumbrava com sua beleza, senti uma pontinha de inveja...

- Sim, pensa que não percebi? Quando eu ouvi você pedir ao sol, já pressenti que se tratava disso... a inveja castiga! Ela é arma dos fracos e você, amigo girassol, não é fraco e, se permitir, gostaria de lhe explicar. Posso?

- Claro, ouvirei com atenção.

- Isso só acontece quando nos deixamos levar por sentimentos impuros e não nos damos o real valor que temos. Julgamo-nos menos inteligentes, menos bonitos, ou menos felizes que os demais. Sim, mas é uma questão fácil de resolver. Basta que nos amemos e nos respeitemos pelo que e do jeito que somos, porque pode alguém ser até mais alto que nós, ou mais magro, ou mais cabeludo, ou ter mais coisas, que nada disso nos obriga a sentir inveja dele. Sabe por quê? Porque ele também terá suas fraquezas... Esse mal que nos leva a nos menosprezar é reflexo de que não avaliamos bem o nosso valor, a nossa autoestima e o nosso autorrespeito, e acabamos por ficar nos sentindo diminuídos perante qualquer coisa que sintamos ou achemos bonita, mas que pertence a outro.

– Rapaz, você tem razão...

 Mais uma coisa, amigo; temos nossa vida para cuidar, não é? Para isso, basta que nos esforcemos. Olhemos para a abelha, por exemplo, que aerodinamicamente não foi feita para voar, mas por inspiração, voa para todos os lugares e produz o que você conhece, um dos melhores alimentos que é o mel.

- É...

-Aproveite a vida, girassol, porque eu estou aproveitando a minha. Entre outras coisas belas que enxergo, essa vista linda da terra molhada pela chuva fininha, por exemplo, cuja umidade lhe dá força para germinar sementes, criar beleza e conforto. Precisa de outros? Olhe, daqui a pouco eu desaparecerei; afinal, não passo de um simples reflexo em gotículas, mas só o encantamento que consegui colocar nos olhos das pessoas que me olharam e se gratificaram com a visão, a ponto de lhes arrancar suspiros de alma e de agradecimento pela oportunidade, posso dizer que o quanto de tempo que vivi, valeu pela minha vida precoce.

- Você é espetacular...

- Estou a aproveitar o que a Natureza me deu, só isso. Então, viva! Aja com coragem e destemor, realce-se com a beleza também da plantação que o acolhe, você está entre irmãos aí, veja ao seu lado quantos outros pés de girassol a lhe fazer companhia. Sugiro que se dê bem com quem. o cultiva e trate de produzir boas semente para a posteridade, e se guarde, girassol, para que a massa de sua carne sirva de bom adubo a terra que ora lhe dá vida, ajude-a para que produza outros girassóis tão lindos e esbeltos como você. Aproveite! Enquanto minha vida é tão efêmera e a sua é de mais de cem dias, faça como eu, dê aos olhos humanos a beleza que possui, eles irão agradecer por tê-lo visto. Esse é o segredo para fazer da vida, o melhor!

- Espere...

- Tchau, amigo, não tenho mais tempo, já vou apagar... e não se esqueça, faça das suas dificuldades o seu sucesssssssoooooooooo!

- Tchau... Ué, cadê o Arco-íris? Ah! Ele se foi. Que pena que não teve tempo de conversar mais, esperarei a próxima chuva quando ela nascerá de novo... para lhe dizer que sim, que tem razão; a vida vale por sua intensidade, não pela sua extensão.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais: contos e crônicas.  Editora EGPACK Embalagens, 2024. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

Vereda da Poesia = 200


Trova de 
JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ

O vento, pastor estranho,
tangendo as nuvens ao léu,
conduz seu alvo rebanho
pelas campinas do céu!
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Poema de
MACHADO DE ASSIS 
Rio de Janeiro/RJ, 1839 – 1908

O desfecho

Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilhão,
Uns cingidos de luz, outros ensanguentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a águia em cima os olhos espantados.

Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.

Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.
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Trova de
ALBERTINA MOREIRA PEDRO
Rio de Janeiro/RJ

Do passado, ouço a cantiga
que recorda, ternamente,
que há sempre uma rua antiga
nos velhos sonhos da gente...
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Poema de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

Texturas

Aconchega-se
À toalha de seda lilás
Ao bule branco,
Mesclam-se luz e sombra
Em dobras,
Tecidas na delicada seda -
Um labirinto...
Ao toque da porcelana
A sensação
De uma atemporal imagem,
Uma tala, um devaneio -
Saudade.
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Trova de
DOROTHY JANSSON MORETTI 
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

A existência é definida
não por azar, mas por sorte:
quanto mais cheios da vida,
mais perto estamos da morte.
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Poema de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/ Portugal

Quando as lágrimas caírem do rosto das estátuas
(Narciso Alves Pires, in “Para além do adeus”, p.48)

Quando as lágrimas caírem do rosto
Sereno das estátuas da mansão
Já o tempo terá feito uma invasão
E os dourados umbrais terá transposto.

Decadente, o jardim esteve exposto
Às ervagens da vil degradação
E o teto, na capela e no salão
Tem as rugas abertas de um desgosto,

De pé inda as estátuas permanecem
Velando o pó e a mágoa que adormecem
Vencidos por tão trágica vigília.

O breu vai caindo sobre a memória
Do que resta de alguma ida glória
Que morreu no brasão desta família.
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Poetrix de
AILA MAGALHÃES
Belém/PA

indigestão

A boca da noite
Mastigou meus sonhos
Sem digerir os pesadelos…
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Poema de
OLAVO BILAC
Rio de Janeiro/RJ, 1865 – 1918

O cavaleiro pobre
(Pouchkine)

Ninguém soube quem era o Cavaleiro Pobre,
Que viveu solitário, e morreu sem falar:
Era simples e sóbrio, era valente e nobre,
E pálido como o luar.

Antes de se entregar às fadigas da guerra,
Dizem que um dia viu qualquer coisa do céu:
E achou tudo vazio... e pareceu-lhe a terra
Um vasto e inútil mausoléu.

Desde então, uma atroz devoradora chama
Calcinou-lhe o desejo, e o reduziu a pó.
E nunca mais o Pobre olhou uma só dama,
Nem uma só! nem uma só!

Conservou, desde então, a viseira abaixada:
E, fiel à Visão, e ao seu amor fiel,
Trazia uma inscrição de três letras, gravada
A fogo e sangue no broquel.

Foi aos prélios da Fé. Na Palestina, quando,
No ardor do seu guerreiro e piedoso mister,
Cada filho da Cruz se batia, invocando
Um nome caro de mulher,

Ela rouco, brandindo o pique no ar, clamava:
“Lumen coeli Regina!” e, ao clamor dessa voz,
Nas hostes dos incréus como uma tromba entrava,
Irresistível e feroz.

Mil vezes sem morrer viu a morte de perto,
E negou-lhe o destino outra vida melhor:
Foi viver no deserto... E era imenso o deserto!
Mas o seu Sonho era maior!

E um dia, a se estorcer, aos saltos, desgrenhado,
Louco, velho, feroz, - naquela solidão
Morreu: - mudo, rilhando os dentes, devorado
Pelo seu próprio coração.
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Trova de 
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/ RN, 1951 – 2013, Natal/ RN

Lembranças deixam feridas 
que nascem na alma da gente. 
Que tenham elas nascidas
no passado… ou no presente!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Canção Anã

Essa abstração me
acarreta
acanhos e
acabrunhamentos!
Açambarca
anseios,
açoda instintos e
acossa
o CORAÇÃO.

Assalta e açoita a
Inocência
existente em mim...
adultera sonhos,
alucina emoções,
angaria debilidades,
aquece a ilusão, na
amplidão dessa
SAUDADE.

Aquém, vivo e padeço,
apressando os dias,
acelerando as horas,
apregoando frases mortas!
Azedo, arraso o corpo inteiro,
arrefeço o sangue quente, na
agonia de 
amoldar o
amor e a FELICIDADE!...
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Trova de
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

Se a gente fosse dar crédito 
ao que diz a maioria,
só de "autor de livro inédito" 
tinha uns mil na Academia!...
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Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994) Porto Alegre/RS

Um dia acordarás

Um dia acordarás num quarto novo
sem saber como fosse para lá
e as vestes que acharás ao pé do leito
de tão estranhas te farão pasmar,

a janela abrirás, devagarinho:
fará nevoeiro e tu nada verás...
Hás de tocar, a medo, a campainha
e, silenciosa, a porta se abrirá.

E um ser, que nunca viste, em um sorriso
triste, te abraçará com seu maior carinho
e há de dizer-te para o teu assombro:

— Não te assustes de mim, que sofro há tanto!
Quero chorar — apenas — no teu ombro
e devorar teus olhos, meu amor...
= = = = = = 

Trova de
JOSÉ TAVARES DE LIMA
Juiz de Fora/MG

Sertão seco... Longo estio...
Em meio a paisagem triste
uma ponte... Mas o rio
infelizmente inexiste!
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Hino de
AMAPORÃ/ PR

Foi a fibra do valente pioneiro 
Que lutando com audácia e destemor 
Fez surgir neste recanto hospitaleiro 
Esta terra de Paz e Esplendor
Já nascestes com destino grandioso 
E a mais nobre determinação 
Amaporã és torrão generoso 
Onde tudo é labor e união. 

Caminhando pela trilha do sucesso
Com a força do trabalho como lema 
Construindo dia a dia o teu progresso 
Desde o tempo em que te chamavam Jurema 
Nossa Senhora de Fátima querida
Com seu Manto estende sua proteção 
Abençoando para sempre a nossa lida 
E as riquezas que brotarem deste chão. 

Amaporã - chuva bonita, qual cascata.
Despetalando alva espuma no Ivaí 
Irrigando as lavouras e a mata 
No cenário mais lindo que eu já vi 
Eu que sou filho deste recanto 
Com orgulho hei de dizer 
Amaporã: És colmeia de encanto 
Onde sempre haverei de viver. 

Caminhando pela trilha do sucesso
Com a força do trabalho como lema 
Construindo dia a dia o teu progresso 
Desde o tempo em que te chamavam Jurema 
Nossa Senhora de Fátima querida
Com seu Manto estende sua proteção 
Abençoando para sempre a nossa lida 
E as riquezas que brotarem deste chão. 
= = = = = = = = =  

Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/ RJ

O amor que perdura
 
Nosso primeiro encontro no trabalho;
depois a nossa loja, nossas casas...
Os filhos chegam, como sempre, brasas
aquecidas e boas... Embaralho

das nossas vidas diferentes, asas
ligeiras balançando meu grisalho
amor, ciumento de nós todos, malho
constante dos espíritos. Abrasas

minha existência... Mas te amava tanto
que sublimei por muitos anos teu
precoce encantamento... E tanto quanto

te amei,  passei  a duvidar do amor
de qualquer ser humano... E espero ter
meu encontro contigo  quando eu for.
= = = = = = = = =  = = = = 

Trova Premiada de
RITA MOURÃO
Ribeirão Preto/ SP

Ser mãe é perpetuar 
a vida em seu seguimento 
conjugando o verbo AMAR 
seja qual for o momento.
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Uma Lengalenga de Portugal
HORAS DE SONO

(Esta lengalenga é também provérbio/adágio, cantada no século XVIII)

 Quatro horas dorme o santo,
 Cinco o que não é tanto,
Seis o caminhante
Sete o estudante,
Oito o preguiçoso,
Nove o porco,
Mais só o morto.
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Quadra Popular de
ANTÓNIO JOSÉ BARRADAS BARROSO
Paredes/ Portugal

Nosso querer tão velhinho,
cheio de ternuras e afetos,
se deu, aos filhos, carinho,
mais ainda deu aos netos.
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Aparecido Raimundo de Souza (Pedágios)

MINHA MÃE (que Deus a tenha!), dizia sempre: “Filho, não deixe de colocar seus joelhos no chão e rezar pedindo proteção ao seu Anjo da Guarda. Não se esqueça, jamais, de agradecer por estar vivo, por ter a chance contínua e durável de acordar todas as manhãs e enxergar o mundo que Deus preparou para você. Clame por segurança, brade em alto e bom som agradecendo, ponha as mãos para cima e ore. Dê graças. Suplique ao Criador para que novos caminhos apareçam trazendo horizontes benfazejos, e portas se abram à sua frente, com perspectivas infindáveis de sucessos e brilhanturas”.

Eu seguia seus conselhos à risca. Rezava antes de sair do meu quarto, orava compenetrado, implorando ao céu que me desse um dia venturoso e afortunado, um dia de realizações flóreas e plenas, e que ao sair depois do breakfast, voltasse inteiro e ileso, sem um arranhão no final da tarde e pudesse pegar no colo meus filhos, um por um, e beijar, e abraçar a minha mulher e a minha mãe, que ficavam acenando da janela da sala. 

A nossa casa, apesar de se posicionar numa rua sem saída, morria, por conta disso, em nosso portão. A alvenaria do “tempo do ronca” (muito antigo), não tinha os privilégios dos ricos, nem ostentava as riquezas soberbas das outras construções próximas. A sua estrutura se fazia de edificação modesta e simples. 

Havia um alpendre enorme que circundava todo o seu entorno e lembro que as paredes dessa varanda envelheciam a cada dia, desprovidas de reparos, sem reboco, os tijolos expostos às intempéries e aos bochornos (calor causticante) duros do tempo inexorável. A cobertura também se sustentava nas asas do precário. Existia um monte de telhas quebradas carentes de serem trocadas. 

Quando chovia, ainda que por pouco tempo, precisávamos correr contra os relâmpagos e as trovoadas. Tamponar ligeiro os móveis, e eletrodomésticos, vedando com plásticos enormes para que não fossem atingidos pelos pingos que pareciam brotar de todos os lugares como minúsculos olhinhos de nascentes, gotejando das cantoneiras e dos caibros velhos e cheios de teias de aranha. 

As minhas implorações, acreditem, por incrível que pareçam, davam certo. Na verdade, confesso, deu no ponto exato por todos esses anos. Graças a minha fé no Anjo da guarda e, claro, atento aos ensinamentos sábios de mamãe, grudado em suas leis e preceitos internos advindos de uma alma boa e sem máculas, consegui atravessar por esse mundo de loucos e birutas e chegar íntegro e perfeito até onde estou agora. Uma glória digna de ser contada e comemorada. 

Do alto da fortaleza que me sustenta, ao olhar longamente para trás, consigo contemplar, vitorioso, mais de meio século de existência. E faço consciente do dever cumprido, sem ter deixado mágoas e dissabores pelas mais diversas sendas que cruzei. Está certo que nem tudo se fez um mar de flores. Paguei taxas e contribuições caras às autarquias e concessionárias por pecados cometidos ao longo dessas décadas. Urrei pelas transgressões que, de certa forma, chegaram a pesar nos meus costados, açoitando, como fardos enormes em lombos de burros envelhecidos. 

Muitos desses deslizes, pasmem, eu confesso, cometi por vontade própria! Outros tantos, por pura bobeira ou ignorância e desconhecimentos da vida. Os aprendizados do cotidiano, nós todos, só conseguimos com o decorrer do tempo que nos é concedido. O mundo é a melhor escola para nos tornarmos melhores e mais humanos. O fato é que, apesar dos pesares e equívocos, aceitei a tudo numa boa. Não tenho, pois, do que reclamar. 

Meu trilhar sempre se mostrou pontilhado por trancos e barrancos, altos e baixos. Atravessei anos ruins e desastrosos, cruzei noites claras e escuras, me vi frenteado às esquinas mais diversas, com fantasmas iracundos assustando meus medos e covardias, desbrios e horrores, sem me darem trégua e um minuto, sequer de paz. 

Foi, entretanto, tirando fora as absurdidades e alogias (despropósitos), um tempo bom. Um tempo excelente, sem dores maiores, sem machucados que se negassem a cicatrizar. Todas as minhas feridas restaram curadas, sem deixarem indícios ou abalos morais. Por sorte, do Pai Maior colhi igualmente tempos de calmarias e bonanças, sem doenças letais ou irremediáveis. 

Hoje, fazendo uma introspecção de todo meu tempo percorrido, percebo que essas primaveras vividas, dia após dia, em nenhum momento se mostraram cruéis e desumanas, celeradas ou bárbaras demais. Apagar um amontoado de velinhas não é coisa para qualquer um. Tornou-se um dote, para mim, particularmente, um apanágio, uma regalia, um dom. 

Quero crer, e creio piamente, somente chegam a este número de janeiros acumulados, pessoas com a patente carimbada no DNA, com as peculiaridades dos que nasceram privilegiados, criaturas que, de alguma forma, se tornaram escolhidas a dedo, pelo Criador. 

Eu estou feliz, realizado, satisfeito, jubiloso e exultante. Todavia, quieto no meu cantinho. Contente com meu destino, em festividade constante com a minha vida, mais ainda com o meu passado. Enfim, com a minha sorte, com a minha auriflama empunhada, com meu estandarte às vistas de todos, porque na verdade, na verdade, eu fui, de fato, eu fui não, eu sou, por tudo o que passei, eu sou um escolhido e, como tal, me sinto, de certa forma, um álacre literalmente iluminado. Reparem todos: aqui estou, firme e forte, forte e firme, a viver e gozar os meus trebelhos.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Aos doze anos, deu vida ao livro “O menino de Andirá,” onde contava a sua vida desde os primórdios de seu nascimento, o qual nunca chegou a ser publicado. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

domingo, 12 de janeiro de 2025

Erigutemberg Meneses (Cascata de versos) 07

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José Erigutemberg Meneses de Lima nasceu em Fortaleza/CE, radicou-se em Blumenau/SC. Advogado aposentado do Banco do Brasil, com graduação em Ciências Econômicas e Direito pela FURB - Fundação Universidade Regional de Blumenau, dedica-se às letras, escrevendo prosa na forma de crônicas, contos, ensaios, textos jurídicos e poesia, especialmente, sonetos. Publicou “Raptos Líricos” - Sonetos, 2005; Portas da Solidão pela Fundação Cultural de Blumenau, 1996.

Monteiro Lobato (História dos dois ladrões)

Era uma vez um boiadeiro lá do sertão, que tinha cara de bobo e fumaças de esperto. Um dia veio ao Rio de Janeiro gastar os cobres de uma boiada. Logo que desceu do trem e ia se encaminhando para um hotelzinho próximo, foi abordado por um homem de cara ainda mais boba que a sua.
 
— Boa noite, meu senhor! — saudou o homem humildemente.

O boiadeiro respondeu com um "boa noite" desconfiado, e foram andando juntos. O homem começou a contar uma história muito comprida. Disse que era da roça e estava completamente zonzo naquela capital. Não conhecia ninguém, não sabia tomar bondes, atrapalhava-se com qualquer coisinha — e o pior de tudo era o medão de ser roubado.

— Isto aqui — disse ele — é gatuno de todos os lados. Ninguém pode confiar em ninguém. Os piratas não dormem. Se a gente está com dinheiro no bolso, eles conhecem pelo cheiro — e tanto fazem que deixam uma pessoa limpa.

— Se o senhor tem tanto medo, é sinal de que está empatacado — disse o boiadeiro.

O homem correu os olhos, com desconfiança, dum lado e doutro; depois respondeu quase num cochicho:

— O senhor adivinhou. Todo o meu medo vem de trazer no bolso um pacote de notas no valor de dez mil cruzeiros, que lá na minha terra me encarregaram de entregar à Santa Casa. Mas não sei onde é a Santa Casa. Se pergunto, ensinam-me errado — ou então desconfiam de que estou com dinheiro...

E deu um suspiro. Depois continuou:

— Aquela gente lá da roça não imagina o que é isto aqui. Nem eu imaginava coisa nenhuma. Se soubesse, não vê que não me encarregava deste maldito dinheiro. Dez mil cruzeiros! Se perco o pacote, ou se algum pirata me passa a perna, vão dizer por lá que roubei — e fico desacreditado.

— E que pretende fazer? — indagou o boiadeiro.

— Minha ideia é descobrir um homem de bem que queira encarregar-se da entrega do dinheiro. Mas não acho esse homem. As caras desta terra não me inspiram a menor confiança. Só a sua. Assim que vi o senhor, tive um pressentimento no coração: "Aquele, sim, aquele tem cara de homem de bem." Por isso me aproximei.

O boiadeiro ficou muito lisonjeado com a boa impressão que o homem fazia dele.

— Lá isso, sou. Graças a Deus tenho um nome limpo. Quem quiser tratar com pessoa séria, me procure.

O homem do pacote suspirou.

— Deus seja louvado! Custou, mas achei. Meu coração não nega. Quando o vi descendo esta rua; palpitei cá comigo: "Meu salvador vai ser aquele homem..."

— Mas de que maneira acha que eu possa servi-lo? — perguntou o boiadeiro.

— De um modo muito simples. Eu lhe dou o pacote dos dez mil cruzeiros e o senhor faz a entrega à Santa Casa.

Os olhos do boiadeiro brilharam.

— Pois estou às suas ordens! — disse ele. — Neste mundo um tem de servir o outro. Já que lhe inspiro tanta confiança, disponha dos meus préstimos.

— Ora graças! — suspirou o homem, tirando o pacote do bolso. Era um pacote de notas graúdas, muito bem amarrado, com uma de cem cruzeiros em cima.

— Pois aqui está o pacote, meu senhor. E eu fico imensamente agradecido da sua bondade, Ah, nem imagina o peso que me tira do coração! Uf! Esse dinheiro estava me deixando doido...

O boiadeiro pegou no pacote e foi abrindo a mala para guardá-lo.

— Espere! — disse o homem. — Eu tenho no senhor a mais absoluta confiança, mas sempre é bom que me dê uma garantiazinha — aí um dinheirinho qualquer, porque afinal de contas eu acabo de lhe entregar dez mil cruzeiros. Dez mil cruzeiros é uma fortuninha...

O primeiro ímpeto do boiadeiro foi restituir o pacote. Depois mudou e disse, pondo a mão no bolso:

— Serve uma garantia de mil e quinhentos cruzeiros? É todo o dinheiro que tenho no bolso.

O homem cocou a cabeça vacilante. Afinal resolveu:

— Serve. É pouco, mas serve...

O boiadeiro puxou os cobres e deu a de mil e quinhentos cruzeiros.

Despediram-se cada qual seguindo numa direção.

— Dez mil cruzeiros! — foi murmurando o boiadeiro. — Dez mil cruzeiros! Para que precisa a Santa Casa de tanto dinheiro? Muito melhor eu distribuir isto lá pelos pobres da minha terra — pelo menos metade. É justo que a outra metade fique comigo, em pagamento do trabalho...

No hotel pediu um quarto, onde se fechou para contar o dinheiro. Só encontrou aquela nota de cem cruzeiros. O resto era papel de jornal…
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José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu em 1882, em Taubaté/SP, e faleceu em 1948, em São Paulo. Foi promotor, fazendeiro, editor e empresário. Apesar de também escrever para adultos, ficou mais conhecido por causa dos seus livros infantis. Faz parte do pré-modernismo e escreveu obras marcadas pelo realismo social, nacionalismo e crítica sociopolítica. Já seus livros infantis da série Sítio do Picapau Amarelo possuem traços da literatura fantástica, além de apresentarem elementos folclóricos, históricos e científicos. Em 1900, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo. Em 1903, se tornou um dos redatores do jornal acadêmico O Onze de Agosto. Escreveu também para periódicos como Minarete, O Povo e O Combatente. Se formou em Direito no final do ano de 1904. Em 1908, se casou com Maria da Pureza. Com a morte do avô, em 1911, o escritor recebeu como herança algumas terras. Assim, decidiu morar na fazenda do Buquira. Ele passou a ser conhecido quando, em 1914, sua carta “Uma velha praga” foi publicada n’O Estado de S. Paulo. Em seguida, o autor criou o personagem Jeca Tatu. Três anos depois, desistiu da vida de fazendeiro e se mudou para São Paulo. Nesse ano, publicou o polêmico artigo Paranoia ou mistificação?, que critica as tendências modernistas. No ano seguinte, comprou a Revista do Brasil. Em 1920, fundou a editora Monteiro Lobato & Cia. Cinco anos depois, vendeu a Revista do Brasil para Assis Chateaubriand (1892–1968) e decretou a falência da editora Lobato & Companhia, que, a essa altura, já se chamava Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato. Ele se tornou sócio da Companhia Editora Nacional. Se mudou para o Rio de Janeiro, em 1925. Dois anos depois, foi para Nova York, onde assumiu o cargo de adido comercial. Em 1929, devido à crise econômica, vendeu suas ações da Companhia Editora Nacional. No final de 1930, quando Getúlio Vargas (1882–1954) subiu ao poder, o escritor perdeu seu cargo de adido comercial. Retornou ao Brasil no ano seguinte. Em 1932, foi um dos fundadores da Companhia Petróleo Nacional. Anos depois, em 1941, o autor ficou preso, durante três meses, por fazer críticas ao regime ditatorial de Getúlio Vargas. Se tornou sócio da Editora Brasiliense, em 1946, ano em que decidiu morar na Argentina, onde foi um dos fundadores da Editorial Acteón. Voltou ao Brasil em 1947 e fez críticas ao governo de Eurico Gaspar Dutra (1883–1974). Em 1922, decidiu concorrer à cadeira número 11 da Academia Brasileira de Letras. Porém, desistiu da candidatura por não querer “implorar votos”. Já em 1926, voltou atrás e, novamente, concorreu a uma vaga na ABL, mas não foi eleito. Por fim, em 1944, recusou indicação para a Academia, em protesto por Getúlio Vargas ter sido eleito à Academia Brasileira de Letras em 1941

Fontes: 
Monteiro Lobato. Histórias de Tia Nastácia.  Publicado originalmente em 1937.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing