Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ana Miranda (1951)


Nasceu em 19/08/1951, em Fortaleza (CE) .

Mudou-se para o Rio de Janeiro aos quatro anos de idade. Em 1959 foi para Brasília, ao encontro de seu pai, engenheiro, que trabalhava na construção da cidade. Em 1969 voltou para o Rio de Janeiro, a fim de prosseguir com seus estudos de artes.

Romancista, poeta, ex-atriz (do filme Como era gostoso o meu francês), desenhista, cronista e roteirista.

Ana Miranda colaboradora da revista Caros Amigos, mas começou na literatura por meio de poemas e poesias, surgindo seus dois primeiros livros: Anjos e Demônios (Editora José Olympio/INL, Rio de Janeiro, 1979) e Celebrações do Outro (Editora Antares, Rio, 1983). 0 sucesso literário foi obtido com Boca do inferno (1989), uma biografia romanceada do poeta Gregório de Matos, que se tornou clássico, foi traduzido para mais de 20 idiomas e lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Revelação em 1990.

O retrato do rei (1991) é outro mergulho na história do Brasil colonial. São obras que resultam de copiosas pesquisas históricas e que alimentam sua criação literária.

O livro seguinte é uma trama contemporânea: Sem pecado (1995). Mas logo retoma a história e faz um mergulho na vida e obra do poeta Augusto dos Anjos com A última quimera (1995), outro sucesso de crítica e público.

Seu interesse é mais pela pesquisa da linguagem do que pela história propriamente dita. "Sempre tive muito encanto pela palavra, com a formação e o poder das palavras... quando eu faço um livro sobre o Gregório de Matos, na verdade o que me interessa é a linguagem dele". No entanto, seu apreço pela história é declarado: "Eu gosto do passado. Quando escrevo é como se estivesse lá. Estudo, faço os levantamentos de época, mas no texto nada disso deve aparecer, porque eu me impregno daquilo tudo, tenho que ser aquilo. Trabalho com a s lacunas da história".

Em 1996, Ana Miranda publicou mais um romance de ficção histórica, Desmundo, que conta com a história de mulheres de órfãs portuguesas que vieram para o Brasil a fim de se casarem com os colonos, inspirado em episódio histórico mencionado numa carta do padre Manoel da Nóbrega, em 1554. Desmundo é uma estonteante recriação do Brasil no século XVI, visto sob inédito olhar de uma mulher, pois é narrado na primeira pessoa. Neste romance Ana Miranda explode em sua maior vocação, que é o tratamento da palavra a partir da intertextualidade e da poesia. Em Desmundo ela explora um trabalho experimental com a língua portuguesa arcaica, tornando-se uma autora ainda mais original e imprevista. Ainda em 1996, Ana Miranda publicou a novela Clarice, que reconta, criativa e ousadamente, a vida de Clarice Lispector, a grande escritora ucraniana-brasileira, que revolucionou, no Brasil, o modo psicológico de abordagem dos personagens.

O romance Amrik, 1997, cujo tempo histórico é o fim do século XIX, fala sobre os imigrantes libaneses em São Paulo. É a bela história ficcional de um senhor cego, no Líbano em lutas contra os drusos, que se vê na iminência de uma fuga por questões políticas, e pede ao irmão que lhe dê um dos seis filhos para lhe servir de guia. O pai dá a única filha mulher, a inesquecível personagem Amina, que é a narradora do livro. O tio cego, Naim, ensina a menina a ler, para que ela leia em voz alta para ele os livros de sua biblioteca. Os dois libaneses acabam no Brasil, na América, ou Amrik, e Amina é envolvida num episódio que também se refere ao erro transformador. Aí Ana Miranda encontra uma chave experimentalista para junção de música, pois a narradora é dançarina libanesa, poesia, com a fala solta de um fluxo de consciência de alguém que mal sabe falar o português. Um resultado imprevisível, e uma leitura eletrizante, para quem aprecia as ousadias literárias. Criado em cima de textos clássicos da literatura árabe.

Em 2000 partiu para outra experiência literária e publicou Cadernos de sonhos, um livro "de arte", primorosamente editado pela Dantes Editora. Trata do registo de seus sonhos ocorridos em 1973.
"A minha literatura sempre foi muito onírica. Eu crio os meus livros quando estou sonhando. Acordo no meio da noite com cenas, palavras, frases que vou anotando".

Em 2002, Ana Miranda publicou o romance Dias & Dias, como todos os seus outros romances, pela Companhia das Letras. Com uma narrativa que mais parece um diário, pela aparente informalidade da linguagem e pelas informações sobre o Brasil do século XIX, Ana Miranda recria a vida de um dos nossos maiores poetas românticos: Gonçalves Dias. Há um esgarçamento da linguagem, que adquire uma singeleza romântica, pois o livro recria sentimentos e significados do Romantismo Brasileiro. Esse livro recebeu o Jabuti na categoria Romance, em 2003, assim como o prêmio da Academia Brasileira de Letras, no mesmo ano e categoria.

Deus-dará (2003) é uma reunião de crônicas escritas por Ana Miranda para a revista ''Caros Amigos''. Em 2004, foi publicado o primeiro livro infanto-juvenil da autora, Flor do cerrado, que também inaugura a literatura autobiográfica em sua obra. Nesse mesmo ano, Ana Miranda publicou Prece a uma aldeia perdida, poesia longa que corporifica todo o sentimento de exílio e perda de origens e raízes da autora, em cima da última frase de Iracema, do José de Alencar, "Tudo passa, e nada passará, sobre a terra". A autora publicou mais cinco livros infantis: Lig e o gato de rabo complicado, e Lig e a casa que ri, pela Companhia das Letrinhas; Mig o descobridor, e Mig, o sentimental, pela editora Record; e Carta do tesouro, pela editora Armazém da Cultura, num texto inspirado pela Declaração dos Direitos da Criança.

Em 2009, veio a público mais um romance dessa autora, intitulado Yuxin, alma, ambientado nas florestas do Acre, em 1919, baseado em pesquisa linguística realizada pelo historiador Capistrano de Abreu. Segundo o poeta Marco Lucchesi, autor do texto de apresentação do inovador romance, Yuxin é "uma câmara de ecos por onde ressoam harmonias e dissonâncias na interlíngua da índia Yuxin". O livro, que tem uma excelente capa com desenho da escritora, vem acompanhado de um cd de Marlui Miranda, com o mesmo título. Marlui Miranda é cantora e compositora de música indígena brasileira, e irmã da escritora, que lhe dedica o romance.

Carta do tesouro, infantil e adulto, Armazém da Cultura, Fortaleza, 2010;
Mig, o sentimental, infantil, Editora Record, Rio, 2010;

Apesar de Ana Miranda escrever sobre temas relativos a nossa história literária, e demonstrar preocupação na conservação e preservação do tesouro literário brasileiro, sua obra mergulha em um tema que se refere a sua experiência, enquanto mulher, e autora, e de tantas pessoas, nos dias atuais, que é o sentimento de exílio, belamente expresso em seu romance, Dias & Dias, sobre o poeta do exílio, Gonçalves Dias, autor da "Canção do exílio", a mais famosa de todas as poesias brasileiras: "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá…" Os romances de Ana Miranda são fartamente estudados, e adotados para estudos literários, como criação de um contexto das escolas literárias do Barroco e do Romantismo brasileiros. A autora trabalha também sobre um tema bastante contemporâneo: a alteridade; ela jamais parece aceitar ser algo próximo de si, busca recriar-se em personagens diferentes de sua experiência e sua memória.

Além da produção literária, Ana Miranda escreve artigos, resenhas e ensaios para jornais e revistas, roteiros de cinema e trabalha na edição de originais, organizando obras de nomes como Vinícius de Morais e Otto Lara Resende.

Foi escritora visitante na Universidade de Stanford em 1996, e faz palestras e leituras em universidades e instituições culturais de diversos países. Desde 1999 Ana Miranda faz parte do grupo de escritores que concede anualmente, em Roma, o Prêmio União Latina de Romance.

Fontes:
http://www.tirodeletra.com.br/biografia/AnaMiranda.htm
http://www.resenhando.com/rg/rg0104.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ana_Miranda

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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