terça-feira, 9 de abril de 2019

Vinicius de Moraes (O Exercício da Crônica II)


Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentração. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.

Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali desses pequenos achados que são a sua marca registrada e constituem um tópico infalível nas conversas do alheio naquela noite. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono: a estes se lê como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros, ainda, e constituem a maioria, "tacam peito" na máquina e cumprem o dever cotidiano da crônica com uma espécie de desespero, numa atitude ou-vai-ou-racha. Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situações. Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes "marginais da imprensa", por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros, as espicaçam; este é lido por puro deleite, aquele por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica, e o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente seguido de um bom cigarro, que tanto prazer dão depois que se come.

Coloque-se porém o leitor, o ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica "não baixa". O cronista levanta-se, senta-se, lava as mãos, levanta-se de novo, chega à janela, dá uma telefonada a um amigo, põe um disco na vitrola, relê crônicas passadas em busca de inspiração - e nada. Ele sabe que o tempo está correndo, que a sua página tem uma hora certa para fechar, que os linotipistas o estão esperando com impaciência, que o diretor do jornal está provavelmente coçando a cabeça e dizendo a seus auxiliares: "É... não há nada a fazer com Fulano..." Aí então é que, se ele é cronista mesmo, ele se pega pela gola e diz: "Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre esta cadeira que está aí em tua frente! E que ela seja bem-feita e divirta os leitores!" E o negócio sai de qualquer maneira.

O ideal para um cronista é ter sempre uma os duas crônicas adiantadas. Mas eu conheço muito poucos que o façam. Alguns tentam, quando começam, no afã de dar uma boa impressão ao diretor e ao secretário do jornal. Mas se ele é um verdadeiro cronista, um cronista que se preza, ao fim de duas semanas estará gastando a metade do seu ordenado em mandar sua crônica de táxi - e a verdade é que, em sua inocente maldade, tem um certo prazer em imaginar o suspiro de alívio e a correria que ela causa, quando, tal uma filha desaparecida, chega de volta à casa paterna.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Vinicius de Moraes (O exercício da crônica I)



O cronista trabalha com um instrumento de grande divulgação, influência e prestígio, que é a palavra impressa. Um jornal, por menos que seja, é um veículo de ideias que são lidas, meditadas e observadas por uma determinada corrente de pensamento formada à sua volta. Um jornal é um pouco como um organismo humano. Se o editorial é o cérebro; os tópicos e notícias, as artérias e veias; as reportagens, os pulmões; o artigo de fundo, o fígado; e as seções, o aparelho digestivo - a crônica é o seu coração. A crônica é matéria tácita de leitura, que desafoga o leitor da tensão do jornal e lhe estimula um pouco a função do sonho e uma certa disponibilidade dentro de um cotidiano quase sempre "muito lido, muito visto, muito conhecido", como diria o poeta Rimbaud.

Daí a seriedade do oficio do cronista e a frequência com que ele, sob a pressão de sua tirania diária, aplica-lhe balões de oxigênio. Os melhores cronistas do mundo, que foram os do século XVIII, na Inglaterra - os chamados essayists - praticaram o essay, isto de onde viria a sair a crônica moderna, com um zelo artesanal tão proficiente quanto o de um bom carpinteiro ou relojoeiro. Libertados da noção exclusivamente moral do primitivo essay, os oitocentistas ingleses deram à crônica suas primeiras lições de liberdade, casualidade e lirismo, sem perda do valor formal e da objetividade. Addison, Stecle, Goldsmith e sobretudo Hazlitt e Lamb – estes os dois maiores - fizeram da crônica, como um bom mestre carpinteiro o faria com uma cadeira, um objeto leve mas sólido, sentável por pessoas gordas ou magras.

Do último, a crônica "O convalescente" serviria bem para ilustrar o estado de espírito maníaco - lírico - depressivo do cronista de hoje, inteiramente entregue ao egoísmo de sua doença e à constante consideração de sua pessoinha, isolado no seu mundo de cortinas corridas, a lamber complacentemente as próprias feridas diante de um espelho pessimista. Num mundo doente a lutar pela saúde, o cronista não se pode comprazer em ser também ele um doente; em cair na vaguidão dos neurastenizados pelo sofrimento físico; na falta de segurança e objetividade dos enfraquecidos por excessos de cama e carência de exercícios. Sua obrigação é ser leve, nunca vago; íntimo, nunca intimista; claro e preciso, nunca pessimista. Sua crônica é um copo d'água em que todos bebem, e a água há que ser fresca, limpa, luminosa para a satisfação real dos que nela matam a sede.

Num momento em que o grande mal de grande parte do mundo é o entreguismo, a timidez e a franca covardia, o exercício da crônica reticente, da crônica vaga, da crônica temperamental, da crônica ególatra, da crônica à clef, da crônica da cartola - é um crime tão grande quanto o de se vender, em época de epidemia, um antibiótico adulterado. A restauração da crônica, no espírito da dignidade com que a praticaram os essayists ingleses do século XVIII, deveria constituir matéria de funda meditação por parte de seus cultores no Brasil.

Monteiro Lobato (As Duas Cachorras)


Moravam no mesmo bairro. Uma era boa e caridosa; outra, má e ingrata.

A boa, como fosse diligente, tinha a casa bem arranjadinha; a má, como fosse vagabunda, vivia ao léu, sem eira nem beira.

Certa vez… a má, em véspera de dar cria, foi pedir agasalho à boa:

- Fico aqui num cantinho até que meus filhotes possam sair comigo. É por eles que peço…

A boa cedeu-lhe a casa inteira, generosamente.

Nasceu a ninhada, e os cachorrinhos já estavam de olhos abertos quando a dona da casa voltou.

- Podes entregar-me a casa agora?

A má pôs-se a choramingar.

- Ainda não, generosa amiga. Como posso viver na rua com filhinhos tão novos? Conceda-me um novo prazo.

A boa concedeu mais quinze dias, ao termo dos quais voltou.

- Vai sair agora?

- Paciência, minha velha, preciso de mais um mês.

A boa concedeu mais quinze dias; e ao terminar o último prazo voltou. Mas desta vez a intrusa, rodeada dos filhos já crescidos, robustos e de dentes arreganhados, recebeu-a com insolência:

- Quer a casa? Pois venha tomá-la, se é capaz…

 Moral da Estória:  Para os maus, pau!

domingo, 7 de abril de 2019

Roberto Pinheiro Acruche (Lenda da “Bailarina” Ana)


A chuva caia fina e persistente, era uma tarde de sábado em plena primavera; o clima era agradável; e pela vidraça da janela avistava-se o campo verdejante. O Jardim que ficava na frente e em uma das laterais da casa, estava lindamente florido, multicolorido e esbanjando um aroma gostoso, que estimulava aspirá-lo profundamente, num suspiro suave, prolongado e repetido. Naquele momento, não se avistava os colibris, presença continuada nos dias claros e ensolarados, pairando sobre as rosas, dálias, crisântemos, girassóis, margaridas e tulipas, nem as borboletas, sempre numerosas, uma das criaturas voadoras mais belas, que vinham colorir ainda mais a paisagem; mesmo assim o panorama era espetacular; as folhagens encharcadas pela chuva branda, levemente soprada pelo vento, faziam jorrar as águas acumuladas, como se fossem lágrimas de felicidade. No interior da residência, o casal, ainda moço, que havia contraído núpcias um pouco além da adolescência, conversava e assistia alegremente seus quatro filhos e filhas, três lindas meninas e o primogênito, que brincavam; dedicando, no entanto, atenção especial para a caçulinha, que bailava enquanto seus irmãos entoavam cantigas infantis, o que fazia desde os seus primeiríssimos passos. Tudo parecia perfeito naquele lar, que fora constituído sob as inspirações do amor. Durante os mais diversos assuntos que o casal tratava, especulava-se sobre o futuro das crianças. – Dizia a D. Marta: - Vou cuidar para que minhas filhas sejam bastante prendadas; elas vão saber pintar, bordar, marcar, costurar e cozinhar... Enquanto o Senhor Herculano profetizava... -nosso filho, Hermínio vai pra cidade estudar, vai ser veterinário, para cuidar do gado e continuar os serviços da propriedade.

Assim começou esta história, contada pelo Senhor Arivaldo e D. Rutinha, casal que morava numa propriedade vizinha, amicíssimos da família e que nesse dia ao passar pelas proximidades da residência dos sitiantes, resolveu dar uma chegada, para se abrigar das chuvas, que nessa hora era mais intensa.

O Senhor Herculano, homem de respeito e querido na região, a despeito de ser o mais novo proprietário, entre os outros, era reconhecido como trabalhador, honesto, cumpridor de seus deveres e muito prestativo; gostava de reunir com os amigos para prosear, falar das suas experiências na lavoura, com o gado e falar do sonho que alimentava de ver o filho, formado, prestando assistência aos criadores da região e dedicando-se a terra.

Enquanto isso, o menino, que estava para completar onze anos de idade, acordava todos os dias, bem cedinho, e caminhava até a escola rural que ficava aproximadamente uns três quilômetros de distância de onde morava; na volta dos estudos, ainda ajudava o pai a complementar a ração dos animais e recolhe-los ao curral. Como todo menino, gostava de montaria e nos fins de semana juntar-se a garotada para jogar futebol.

O tempo passava, e com muito trabalho, dedicação e perseverança, os planos do Senhor Herculano pareciam ser mais ambiciosos; e toda família se reunia nas atividades diárias de plantação, colheita, tratamento dos animais. D. Marta ensinava às filhas, as prendas domésticas; Rosália, a filha mais velha já costurava e bordava com muita habilidade, além de usar muito bem a arte de pintar; Isolda, sua outra filha, também muito dedicada, já executava lindos pontos de marca e preparava temperos excepcionais; com exceção da mais jovem, a Ana, que bailava o tempo todo, desde muito pequena, bastava ouvir uma música, o cantarolar da mãe, dos irmãos, ou dela mesma, entoando sons para movimentar os braços, os passos e executar os rodopios; até mesmo quando escutava a passarinhada gorjeando e no silêncio de suas caminhadas a caminho da escola, ou outro qualquer, por onde passava. Apesar da influência da mãe e das irmãs, não conseguia aprender, nem mesmo, prender um botão ou costurar uma bainha. Isso incomodava demais os seus pais, que preocupados, não entendiam a fascinação pela dança e conter o desejo incontrolável de bailar da bela filha, que no passar dos dias, crescia mais formosa, mais encantadora, cuja beleza chamava a atenção de todos que a avistava.

No teatrinho improvisado da escola, lá estava a Ana sendo aplaudida pela plateia entusiasmada; da mesma forma, nas festinhas de aniversários, quando era convidada para exercer a sua arte. Os seus passos pareciam leves como a pluma, seu equilíbrio era perfeito, seus movimentos tinham graça e precisão; as poses e passos eram primorosamente combinados; e a admiração maior, de todos que a conhecia, era saber que ela nunca esteve numa escola de Balé e, no entanto executava com perfeição o cambre, batterie, battement, glissê, deboulés, fouetté e tantos outros passos do balé clássico.

Toda essa sua paixão pela arte de dançar e a beleza com que fazia, foi se tornando cada vez mais conhecida, e essa informação ia chegando aos teatros, às companhias e as escolas de danças.

A curiosidade a respeito, e o desejo de conhecer tão magnífica dançarina, foram crescendo, despertando o interesse dos coreógrafos, de importantes e consagrados diretores de teatros da época. Ao mesmo tempo, que crescia a fama, também crescia a inveja, o despeito, a ciumeira de outras jovens e a intolerância de algumas dançarinas que não conseguiam por mais que esforçasse, se apresentar com o mesmo encanto e perfeição; e chacoteavam dizendo: Como pode uma bailarina da roça, que nunca frequentou uma academia de dança, ter a petulância, a audácia de se denominar bailarina.

Ana, a majestosa dançarina, não se importava com esses comentários desairosos. O seu sonho de dançar era cada vez mais fluente; o importante era bailar, flutuar pelos palcos, passear entre os cenários, flores, luzes e encantar as plateias. O seu gosto de menina, foi se transformando em aspiração; enquanto as apresentações imaginadas não aconteciam, continuava bailando pela casa, pelo jardim, fazendo com as borboletas, que sobrevoavam as plantas, coreografias ritmadas por numerosos pássaros, que pareciam conhecer os seus anseios, daí formando uma orquestra canora de sonoridade esplendorosa, verdadeiramente indescritível. Nesses momentos, a natureza postava-se para apreciar o espetáculo; às arvores, os animais ficavam completamente silentes e os ventos brandeavam; as águas de um pequeno córrego que ficava nos arredores, magicamente se continham.

O mistério de Ana, assim passou a ser murmurado o fato de tão encantadora jovem, que nasceu e residia em área rural, afastada da cidade, e que tinha gestos suaves, singelos, gentis, além de inexplicavelmente dominar a arte de dançar de maneira perfeita e de exuberante beleza.

Um belo dia, ensolarado, ainda pela manhã, Ana seguida por uma nuvem de pássaros que sobrevoavam em sua volta, bailava por um dos caminhos, da propriedade onde morava, o que não era novidade, pois muitas vezes assim procedeu, adentrou a uma pequena floresta onde costumeiramente dançava contemplando a natureza.

Como demorava muito para retornar a casa, nunca havia se afastado por tanto tempo, a sua mãe, já aflita, pediu ao filho que estava chegando para que fosse procurar a irmã, e este ao ouvir o relato do que estava ocorrendo, imediatamente retomou a montaria e saiu a sua busca; porém foi inútil, não a encontrou em nenhuma parte, assobiou, gritou e não recebeu resposta.

Como o sol já se escondia no horizonte, e o filho também não retornava, a D. Marta, desesperada, acompanhada de suas outras filhas, saiu pela redondeza pedindo ajuda para que os procurassem e os encontrassem, pois temia que algo muito grave pudesse ter acontecido.

O Seu Herculano, que tinha ido à cidade próxima, tratar de interesses da família, chegando a casa, já anoitecendo, e não encontrando ninguém, ficou com o pressentimento de que algo muito estranho estava acontecendo; o jantar não estava pronto, o fogão apagado, os bordados que suas filhas estavam fazendo encontravam-se desarrumados na mesa da sala, o que não era comum; acendeu o lampião, pois a casa estava totalmente às escuras e diante da demora da mulher e dos filhos, também retomou a montaria, que ainda não havia retirado os arreios, e levando em uma das mãos um lampião aceso, a noite já estava bem escura, saiu a procura dos seus, quando em uma das propriedades vizinhas, uma senhora que permaneceu em casa, relatou o que estava ocorrendo e que todos saíram a procura da jovem desaparecida.

Abatido pela preocupante notícia, Seu Herculano partiu rapidamente para se juntar aos demais, e depois de muito caminhar, encontrou a D. Marta, as duas filhas mais velhas, todos os seus vizinhos, empregados das propriedades próximas, que com fachos de luz, lampiões vasculhavam todos os lugares sem encontrar a ditosa moça. Cansados, pelas horas de incessante procura, ninguém admitia desistir de dar continuidade as buscas, estavam determinados, mesmo sabendo que teriam de enfrentar a escuridão e outros riscos por ela proporcionados.

Ainda sem saber explicar o que aconteceu, pois de nada recordava, Hermínio, que foi encontrado caído, sem sentidos, ao lado de sua montaria, que permanecia ali, parada,como se estivesse protegendo a sua integridade, era um dos mais abatidos, pois passou quase todo o dia, sem água e se alimentar, a procura da talentosa irmã. Com as forças abaladas, também insistia para que as buscas não fossem interrompidas.

Varou-se a noite, o dia já estava clareando, os primeiros raios de sol chegavam, ainda que timidamente, e não se tinha o menor vestígio da bailarina.

Cada espaço, cada parte da propriedade foi minuciosamente averiguado, sem sucesso. O que teria ocorrido? Como alguém poderia desaparecer assim, tão estranhamente, sem vestígios, sem uma razão aparente? Não havia estranhos, que se tinha conhecimento, o lugar era pacato, todos se conheciam e eram amigos e jamais ouve um caso de desaparecimento naquele local, que se tivesse notícia.

O ocorrido passou a ser de conhecimento de toda a região, auxílios foram solicitados, mais pessoas se integraram aos grupos de buscas que foram formados.

Continuava o mistério!... Nenhuma informação que pudesse ajudar, e cada hora que passava, maior era o desespero dos familiares. Onde a Ana poderia estar? Perdida... Não seria o caso, pois conhecia bem todo o local!... E se tivesse ferida, não pudesse caminhar, ou se algo pior aconteceu? Aumentava o drama! O medo de não encontrá-la salva, com vida afetava o coração de todos, principalmente dos seus pais.

D. Marta, que muito havia chorado, sob os cuidados de algumas amigas, ainda em lágrimas, dizia: Meu Deus, onde está a minha filhinha, tão bonita, tão feliz?

Depois de longa busca por toda a região, sem nenhum sinal da filha tão querida, Seu Herculano resolveu derrubar toda a mata que tinha na propriedade; acreditava ser aquela a última medida a ser tomada para encontrar a jovem Ana.

Tomou todas as providências, contratou pessoal, fez mutirões e a floresta, antes tão preservada, foi definitivamente cortada, não restou uma árvore de pé.

Nem deste jeito foi encontrada a bailarina ou qualquer vestígio seu!

No local da bela floresta, ficou um descampado, que por longo tempo não brotava um mato qualquer.

Da Ana, só restava a saudade, a lembrança da linda jovem, alegre, sorridente e que vivia dançando.

Seu Herculano pensava em vender a propriedade e ir para bem longe dali, pois, para cada direção que olhava, vinha na memória, a imagem da Ana, dançando, sorridente e feliz... Com o que discordava D. Marta, mesmo tendo passado tanto tempo, continuava com a esperança, que sua filha, a caçulinha Ana, iria voltar.

Anos depois, no descampado, onde existia vistosa floresta, brotou uma única árvore, que foi crescendo, tomando forma, ficando a cada dia mais bonita... Ali, estava a bailarina, de braços suspensos num passo mavioso do balé clássico.

Fonte:
O Autor 

Roberto Pinheiro Acruche (1944)

Roberto Pinheiro Acruche, nasceu em 1944, em São Francisco de Paula, hoje São Francisco de Itabapoana, no Estado do Rio de Janeiro. 

Escritor, historiador, poeta, trovador e compositor, detentor de premiações em concursos de âmbito nacional de Trovas, Poesias e Crônicas. 

Autor dos Livros: 
“Apontamentos para a História de São Francisco de Itabapoana” 
“Minha Terra Também Faz Parte da História do Brasil” (ambos com edição esgotada); 
e “Mangue da Moça Bonita”. 

Tem vários de seus poemas inseridos na  “ A Verve de Sete Poetas e Escritores de Campos-RJ” números 01, 03, 04, 05, 06, 07 e 08. Participou da VERVE DA SAUDADE – Tributo ao Poeta Antônio Roberto Fernandes em 2009. 

Tem mais de 1400 (POESIAS) nos modelos Poemas, Sonetos e Trovas publicados em revistas, jornais e em vários sites e blogs; 

Criou o Blog Literário Roberto Pinheiro Acruche www.robertoacruche.blogspot.com; e LUZ DOS MEUS SONHOS (Facebook). 

Criou o Informativo digital “Trovas e Poemas”. 

Prêmios e honrarias:

Recebeu do Congresso Sociedade de Cultura Latina – Seção Brasil – A Medalha e Diploma como autor do melhor Livro de Prosas de 2007 

Em 2009 recebeu a Medalha e Diploma “Hors Concours” pelos grandes serviços prestados a cultura nacional; 

Recebeu da Academia de Letras e Artes de Paranapuã, em 2009 a medalha de Mérito Cultural Austregésilo de Athayde.  

Autor do Hino Oficial do Município de São Francisco de Itabapoana/RJ; recebeu da Sociedade de Cultura Latina – Senadoria do Estado do Rio de Janeiro, o título de Intelectual do Ano de 2014. 

Entidades a que pertence:

Academia Pedralva Letras e Artes, Cadeira nº 31, 
Academia Campista de Letras, Cadeira nº 24, 
Academia de Letras do Brasil – Campos dos Goytacazes/RJ, Cadeira nº 13; 
Delegado da UBT – União Brasileira de Trovadores em São Francisco de Itabapoana.

Vários de seus Poemas e Trovas foram publicados no blog “Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes”; no blog e no almanaque “Florilégio de Trovas”; "Almanaque “O Voo da Gralha Azul”;  no “Falando de Trova” ; “Oceano de Letras” . etc.

Fonte:
O Autor 

sábado, 6 de abril de 2019

A. A. De Assis (Trovas Brincantes) II


16
O bom discurso amoroso
dispensa texto comprido.
Basta um “te gosto” gostoso
Cochichado ao pé do ouvido…
17
Como se diz lá na roça,
o amor é um bichim-de-pé;
quanto mais a gente coça,
melhor a coceira é…
18
Disse o gambá pra “gamboa”:
– Que delícia de catinga!
E ternamente beijou-a,
depois da terceira pinga…
19
Tal como o povo, pisada
por tantos, a todo instante,
a alegria da calçada
é o tropicão do passante!…
20
Pão-duro de carteirinha,
veja a que extremo ele vai:
para poupar letra e linha,
faz trova em tamanho haicai…
21
Uma andorinha, voando,
sozinha não faz verão…
Passando, no entanto, em bando,
chove “adubo” em profusão!
22
Quem foi que disse ao senhor
que amor não enche barriga?
Foi justo “fazendo amor”
que encheu a dela uma amiga…
23
Muito cara que se julga
ladino, culto, elegante,
no fim não passa de pulga
com mania de elefante…
24
Se o vovô quer ir à praia,
deixe que vá… não resista.
– é Bom que ele se distraia
indo lá dar pasto à vista…
25
Tudo o mais é mera intriga,
fabulazinha bizarra…
– O chato é ser a formiga
“cantada” pela cigarra!
26
– Chamaste meu pai de otário?…
Repete-o se és homem… vem!
– Chamei não, pelo contrário…
mas que ele tem cara, tem!
27
Para o marido inocente,
surpresa é a cada domingo
mostrar-lhe a esposa um presente,
dizendo: “Ganhei no bingo!”
28
Depois de tomar “uns treco”
para aquecer a moringa,
o trovador de boteco
dá um soluço… e a rima pinga!
29
Foi abacate, seu moço,
o pomo que Adão papou.
Tanto é fato, que o caroço
em seu pescoço encalhou…
30
Se tens filho, escuta aqui,
que um lembrete eu vou deixar-te:
– Guri que já faz guri…
se fica solto, faz arte!

continua…

Fonte:
José Fabiano & A. A. De Assis. Trovas brincantes. 2007.

Monteiro Lobato (A Garça Velha)


Certa garça nascera, crescera e sempre vivera à margem duma lagoa de águas turvas, muito rica em peixes. Mas o tempo corria e ela envelhecia. Seus músculos cada vez mais emperrados, os olhos cansados – com que dificuldade ela pescava!

- Estou mal de sorte, e se não topo com um viveiro de peixes em águas bem límpidas, certamente que morrerei de fome. Já se foi o tempo feliz em que meus olhos penetrantes zombavam do turvo desta lagoa…

E de pé num pé só, o longo bico pendurado, pôs-se a matutar naquilo até que lhe ocorreu uma ideia.

- Caranguejo, venha cá ! – disse ela a um caranguejo que tomava sol à porta do seu buraco.

- Às ordens. Que deseja?

- Avisar a você duma coisa muito séria. A nossa lagoa está condenada. O dono das terras anda a convidar os vizinhos para assistirem ao seu esvaziamento e o ajudarem a apanhar a peixaria toda. Veja que desgraça! Não vai escapar nem um miserável garu.

O caranguejo arrepiou-se com a má notícia. Entrou na água e foi contá-la aos peixes.

Grande rebuliço. Graúdos e pequeninos, todos começaram a pererecar às tontas, sem saberem como agir. E vieram para a beira d’água.

- Senhora dona do bico longo, dê-nos um conselho, por favor, que nos livre da grande calamidade.

- Um conselho?

E a matreira fingiu refletir. Depois respondeu.

- Só vejo um caminho. É mudarem-se todos para o poço da Pedra Branca.

- Mudar-se como, se não há ligação entre a lagoa e o poço?

- Isso é o de menos. Cá estou eu para resolver a dificuldade. Transporto a peixaria inteira no meu bico.

Não havendo outro remédio, aceitaram os peixes aquele alvitre – e a garça os mudou a todos para o tal poço, que era um tanque de pedra, pequenininho, de águas sempre límpidas e onde ela sossegadamente poderia pescá-los até o fim da vida.

Moral da Estória: Ninguém acredite em conselho de inimigo.

Fonte:
Monteiro Lobato. Fábulas

quinta-feira, 4 de abril de 2019

J. G. de Araújo Jorge (Inspirações de Amor) IV


BORBOLETAS

Aos casais... - ante a espessa ramaria
verde, e rendada ao sol deste verão
- livres, felizes, cheias de alegria
as borboletas pelos céus se vão...

Despreocupadas... pela floração
se perdem, numa inquieta correria...
- Onde foram?... e em que lugar estão?
Já não se vê o olhar que as perseguia...

Mas... de repente, voltam pelo espaço,
- trêmulas e amorosas de cansaço,
asas roxas e azuis coo violetas...

E invejoso pensei, vendo-as pelo ar:
- quem me dera nascer, viver e amar,
como aqueles casais de borboletas !

BUCÓLICA

Invejo a vida humilde da criatura
dos  lugares distantes, sossegados,
onde a terra é mais simples e mais pura
e os céus são transparentes e azulados...

Onde as árvores crescem, na beleza
da  galharia exuberante e farta,
e o sol transforma a inquieta correnteza
num dorso rebrilhante de lagarta...

E onde os galhos são mãos cheias de flores
e as flores, taças multicores, vivas,
servindo mel aos tontos beija-flores
e às borboletas trêmulas e esquivas...

Desses lugares cheios de caminhos
como garotos, rabiscando o chão,
e onde os homens são como passarinhos
que são felizes sem saber que são...

E onde as casa, pequenas, de brinquedo,
com  os olhos das janelas, como a gente
de dentro do aconchego do arvoredo
olham tudo ao redor, serenamente...

E onde o sol sai mais cedo, e sobre a serra
desdobra o seu lençol feito de luz
e acorda a seiva que intumesce a terra
nos campos verdes ou nos campos nus...

Gosto desses lugares sossegados
onde a vida é mais simples e mais pura,
os céus são transparentes e azulados
e é mais humana e humilde a criatura...

CAMINHEIRO

Eu ando pela vida à procura de alguém
que saiba compreender minha alma incompreendida,
alguém que queira dar-me a sua própria vida
como eu lhe dar pretendo o meu viver também...

Caminheiro do ideal - seguindo para o além
vou traçando uma rota estranha e indefinida,
- não sei se em minha estrada hei de encontrar guarida,
ou se eterno hei de andar, sem rumo e sem ninguém.. .

Já me sinto cansado... E em vão ainda caminho
na ilusão de encontrar um dia a companheira
que me ajude na vida a construir meu ninho...

Boemia do destino!...  Hei de andar... hei de andar...
até que esta minha alma errante e aventureira
descanse numa cruz cansada de sonhar!...

CARNAVAL
  
Ela passou na minha vida
vazia
de boêmio e sentimental,
como passa num ano de tristeza
o relâmpago de alegria
do carnaval...

Seus braços me envolveram como serpentinas
frágeis, de papel,
e se romperam coo as serpentinas
que se arrebentam quando o vento sopra
e se soltam no céu....

Ela passou na minha vida, assim,
tal como passa na monotonia
de uma existência banal,
a furtiva beleza e a loucura de um dia
de  carnaval !...

Nossa história, - o romance desse dia
sem ódio, sem despeito, sem rancor, sem ciúme,
nem podemos lembrar,

teve o destino irreal de toda fantasia
e a existência de um jato de lança-perfume
atravessando no ar...

O nome dela, não sei;
ela não sabe o meu, - que importa ? - não faz mal...
- Não fôssemos nós dois apenas fantasias
não fosse a nossa história apenas carnaval !...

CARTA 

Aqui, tudo é bonito e quieto, a gente
vai vivendo uma vida sempre igual...
- Há um dia que o regato de cristal
de águas turvas ficou devido à enchente...

Os dias têm passado, lentamente,
e um tédio sinto em mim, de um modo tal,
que às vezes, fico até sentimental,
lembrando-me de ti, saudosamente...

Quando estavas aqui, - tudo era lindo...
Como um doce casal de beija-flores,
vivíamos os dois sempre sorrindo...

Por que não voltas?... Vem!... - Se tu voltares
o céu há de cobrir-se de outras cores...
- as flores voltarão pelos pomares!..

CARTA CINZENTA

As palavras amargas que te escrevo
são aquelas que pensas mas não dizes,
e esta, - é a carta cinzenta onde me atrevo
a despertar o nosso falso enlevo
e a confessar que somos infelizes...

Esta é a carta cinzenta que põe termo
ao sofrimento que te suplicia...
Meu amor, pobre amor! - vacila enfermo...
Teu amor, falso amor! - já nasceu ermo
como uma noite longa de invertia...

Onde o antigo calor do teu carinho?
Onde o esplendor dos teus olhos castanhos?
Segues só, ao meu lado... Eu, vou sozinho...
- como dois vultos por um só caminho
um do outro perto, e totalmente estranhos...

Não aceito o teu tolo sacrifício
que eu não nasci para inspirar piedade.
Essa carta cinzenta é o precipício
onde atiro esse amor... E marca o início
da tua mais completa liberdade!

Não deve haver passado entre nós dois...
Esquece o que já fui e o que te digo,
o Destino entre nós tudo interpôs
e assim, pelo que fui... nunca depois
por consolo me chames teu amigo!

Se eu cruzar o teu passo, volta o rosto!
Devo ser menos que um desconhecido,
- se eu era o teu Senhor e fui deposto
que no exílio final do meu desgosto
guarde a ilusão de ao menos já haver sido!

Juro por esse deus em quem não creio
em quem tu crês, - que em minha dor imensa
só desejo ficar de tudo alheio,
- não receio por mim, eu só receio
que ainda me negues tua indiferença!

E que um dia, quem sabe? não compreendas
as palavras de fel que hoje te digo,
- receio que mais tarde não me atendas
e queiras debruar talvez de rendas
o desespero que guardei comigo!

Uma coisa, no entanto, me conforta
depois que por teu bem tudo desfiz,
- é que enfim minha vida já está morta,
e, afinal, minha vida pouco importa
quando se trata de te ver feliz!
....................................

Bem. Paremos aqui. Daqui por diante
seguirás o teu rumo e eu sigo o meu...
Hás de ser mais feliz se mais constante,
e que ao menos te lembres, certo instante,
de quem nunca um instante te esqueceu...

É o fim... Mas sem lamúrias nem piedade.
Guarda a piedade, - eu já fiquei com a dor... -
Quem pode mais do que a fatalidade?
Se o Destino assim quis, fique a saudade
florindo triste sobre o nosso amor!...

Fonte:
J. G. de Araújo Jorge. Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou. vol. 1. SP: Ed. Theor, 1965.

Arthur de Azevedo (A Melhor Vingança)


O Vieirinha namorou durante dois anos a Xandoca; mas o pai dele, quando soube do namoro, fez intervir a sua autoridade paterna.

– A rapariga não tem eira nem beira, meu rapaz; o pai é um simples empregado público que mal ganha para sustentar a família! Foge dela antes que as coisas assumam proporções maiores, porque, se te casares com essa moça, não contes absolutamente comigo – faze de conta que morri, e morri sem te deixar vintém. Tu és bonito, inteligente, e tens a ventura de ser meu filho; podes fazer um bom casamento.

Não sei se o Víeirinha gostava deveras da Xandoca; só sei que depois dessa observação do Comendador Vieira nunca mais passou pela Rua Francisco Eugênio, onde a rapariga todas as tardes o esperava com um sorriso nos lábios e o coração a palpitar de esperança e de amor.

O brusco desaparecimento do moço fez com que ela sofresse muito, pois que já se considerava noiva, e era tida como tal por toda a vizinhança; faltava apenas o pedido oficial.

Entretanto, Xandoca, passado algum tempo, começou a consolar-se, porque outro homem, se bem que menos jovem, menos bonito e menos elegante que o Vieirinha, entrou a requestá-la seriamente, e não tardou a oferecer-lhe o seu nome. Pouco tempo depois estavam casados.

Dir-se-ia que Xandoca foi uma boa fada que entrou em casa desse homem. Logo que ele se casou, o seu estabelecimento comercial entrou num maravilhoso período de prosperidade. Em pouco mais de dois anos, Cardoso – era esse o seu nome – estava rico; e era um dos negociantes mais considerados e mais adulados da praça do Rio de Janeiro.

Ele e Xandoca amavam-se e viviam na mais perfeita harmonia, gozando, sem ostentação, os seus haveres e de vez em quando correndo mundo.

Uma tarde em que D. Alexandrina (já ninguém a chamava Xandoca) estava à janela do seu palacete, em companhia do marido, viu passar na rua um bêbedo maltrapilho, que servia de divertimento aos garotos, e reconheceu, surpresa, que o desgraçado era o Víeirinha.

Ficou tão comovida, que o Cardoso suspeitou, naturalmente, que ela conhecesse o pobre-diabo, e interrogou-a neste sentido.

– Antes de nos casarmos, respondeu ela, confessei-te, com toda a lealdade, que tinha sido namorada e noiva, ou quase noiva, de um miserável que fugiu de mim, sem me dar a menor satisfação, para obedecer a uma intimação do pai.

– Bem sei, o tal Víeirinha, filho do Comendador Vieira, que morreu há três ou quatro anos, depois de ter perdido em especulações da bolsa tudo quanto possuía.

– Pois bem – o Vieirinha ali está!

E Alexandrina apontou para o bêbado, que afinal caíra sobre a calçada, e dormia.

– Pois, filha, disse o Cardoso, tens agora uma boa ocasião de te vingares!

– Queres tu melhor vingança?

– Certamente, muito melhor, e, se me dás licença, agirei por ti.

– Faze o que quiseres, contanto que não lhe faças mal.

– Pelo contrário.

Quando no dia seguinte o Víeirinha despertou, estava comodamente deitado numa cama limpa e tinha diante de si um homem de confiança do Cardoso.

– Onde estou eu?

– Não se importe. Levante-se para tomar banho!

O Vieirínha deixou-se levar como uma criança. Tomou banho, vestiu roupas novas, foi submetido à tesoura e à navalha de uni barbeiro, e almoçou como um príncipe.

Depois de tudo isso, foi levado pelo mesmo homem a uma fábrica, onde, por ordem do Cardoso, ficou empregado.

Antes de se retirar, o homem que o levava deu-lhe algum dinheiro e disse-lhe:

– O senhor fica empregado nesta fábrica até o dia em que torne a beber.

– Mas a quem devo tantos benefícios?

– A uma pessoa que se compadeceu do senhor e deseja guardar o incógnito.

O Vieirinha atribuiu tudo a qualquer velho amigo do pai; deixou de beber, tomou caminho, não é mau empregado, e há de morrer sem nunca ter sabido que a sua regeneração foi uma vingança

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Fernando Sabino (Como dizia meu pai...)


Já se tornou hábito meu, em meio a uma conversa, preceder algum comentário por uma introdução: 

— Como dizia meu pai... 

Nem sempre me reporto a algo que ele realmente dizia, sendo apenas uma maneira coloquial de dar ênfase a alguma opinião. 

De uns tempos para cá, porém, comecei a perceber que a opinião, sem ser de caso pensado, parece de fato corresponder a alguma coisa que Seu Domingos costumava dizer. Isso significará talvez — Deus queira — insensivelmente vou me tornando com o correr dos anos cada vez mais parecido com ele. Ou, pelo menos, me identificando com a herança espiritual que dele recebi. 

Não raro me surpreendo, antes de agir, tentando descobrir como ele agiria em semelhantes circunstâncias, repetindo uma atitude sua, até mesmo esboçando um gesto seu. Ao formular uma ideia, percebo que estou concebendo, para nortear meu pensamento, um princípio que se não foi enunciado por ele, só pode ter sido inspirado por sua presença dentro de mim. 

— No fim tudo dá certo... 

Ainda ontem eu tranquilizava um de meus filhos com esta frase, sem reparar que repetia literalmente o que ele costumava dizer, sempre concluindo com olhar travesso: 

— Se não deu certo, é porque ainda não chegou no fim. 

Gosto de evocar a figura mansa de Seu Domingos, a quem chamávamos paizinho, a subir pausadamente a escada da varanda de nossa casa, todos os dias, ao cair da tarde, egresso do escritório situado no porão. Ou depois do jantar, sentado com minha mãe no sofá de palhinha da varanda, como namorados, trocando notícias do dia. Os filhos guardavam zelosa distância, até que ela ia aos seus afazeres e ele se punha à disposição de cada um, para ouvir nossos problemas e ajudar a resolvê-los. Finda a última audiência, passava a mão no chapéu e na bengala e saía para uma volta, um encontro eventual com algum amigo. Regressava religiosamente uma hora depois, e tendo descido a pé até o centro, subia sempre de bonde. Se acaso ainda estávamos acordados, podíamos contar com o saquinho de balas que o paizinho nunca deixava de trazer. 

Costumava se distrair realizando pequenos consertos domésticos: uma boia de descarga, a bucha de uma torneira, um fusível queimado. Dispunha para isso da necessária habilidade e de uma preciosa caixa de ferramentas em que ninguém mais podia tocar. Aprendi com ele como é indispensável, para a boa ordem da casa, ter à mão pelo menos um alicate e uma chave de fenda. Durante algum tempo andou às voltas com o velho relógio de parede que fora de seu pai, hoje me pertence e amanhã será de meu filho: estava atrasando. Depois de remexer durante vários dias em suas entranhas, deu por findo o trabalho, embora ao remontá-lo houvesse sobrado umas pecinhas, que alegou não fazerem falta. O relógio passou a funcionar sem atrasos, e as batidas a soar em horas desencontradas. Como, aliás, acontece até hoje. 

Tinha por hábito emitir um pequeno sopro de assovio, que tanto podia ser indício de paz de espírito como do esforço para controlar a perturbação diante de algum aborrecimento. 

— As coisas são como são e não como deviam ser. Ou como gostaríamos que fossem. 

Este pronunciamento se fazia ouvir em geral quando diante de uma fatalidade a que não se poderia fugir. Queria dizer que devemos nos conformar com o fato de nossa vontade não poder prevalecer sobre a vontade de Deus - embora jamais fosse assim eloquente em suas conclusões. Estas quase sempre eram, mesmo, eivadas de certo ceticismo preventivo ante as esperanças vãs: 

— O que não tem solução, solucionado está. 

E tudo que acontece é bom — talvez não chegasse ao cúmulo do otimismo de afirmar isso, como seu filho Gérson, mas não vacilava em sustentar que toda mudança é para melhor: se mudou, é porque não estava dando certo. E se quiser que mude, não podendo fazer nada para isso, espere, que mudará por si. 

Às vezes seus princípios pareciam confundir-se com os da própria sabedoria mineira: esperar pela cor da fumaça, não dar passo maior do que as pernas, dormir no chão para não cair da cama. Os dele eram mais singelos: 

— Mais vale um apertinho agora que um apertão o resto da vida. 

— Negócio demorado acaba não saindo. 

— Dinheiro bom em coisa boa. 

— Antes de entrar, veja por onde vai sair. 

Um dia me disse, ao me surpreender tentando armar um brinquedo qualquer com mãos desajeitadas: 

— Meu filho, tudo que é bem feito se faz com os dedos, não com as mãos. 

Tenho tido ocasião ao longo da vida de observar como é procedente este seu ensinamento. A mão é grossa, pesada, insensível. Se não fossem os dedos de nada serviria, a não ser para dar bofetadas. Os dedos são refinados, sensitivos, e a eles devemos tudo o que é bem feito e acabado: do mais requintado trabalho manual às mais complicadas operações, da mais fina sensação do tacto à mais terna das carícias. 

— Se o cafezinho foi bom, melhor não aceitar o segundo: será sempre pior que o primeiro. 

Como tudo mais nessa vida: uma viagem, uma mulher: não repetir, pois a emoção jamais será a mesma da primeira vez. E não desanimar, pois se nascemos nus e estamos vestidos, já estamos no lucro. Nada neste mundo é cem por cento perfeito. Se contamos com mais de cinquenta por cento, também já estamos no lucro. Quando conseguimos o que é apenas bom, naturalmente devemos continuar aspirando o melhor, se possível - mas perfeição absoluta, só Deus. E creio que Seu Domingos, homem íntegro, reto e temente a Deus, hoje em Sua companhia, não consideraria sacrilégio comentar, naquele seu jeito ladino: 

— E assim mesmo, olhe lá... 

Seus conselhos eram de tamanha simplicidade que tinham a força de provérbios nascidos da voz do povo: nada como um dia depois do outro, um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar, tudo tem seu tempo. Fosse ele influenciado por leituras piedosas, poderíamos mesmo detectar, aqui e ali, vestígios de inspiração bíblica: tempo de semear, tempo de colher... 

— É o que nos acontece. 

Há uma diferença sutil entre admitir que as coisas são como são, não como deviam ser, e reconhecer que é o que nos acontece. Aqui, o comentário não pretendia refletir a impossibilidade de modelar (com os dedos) os fatos de acordo com a nossa vontade, mesmo que esta esteja certa. Exprime antes a humilde aceitação da nossa precária condição humana, como frágeis criaturas de Deus. Procura se solidarizar com a desgraça alheia, como a dizer que também estamos sujeitos a ela, somos todos irmãos na mesma atribulação. É o que nos acontece. 

Portanto, alegremo-nos! Uma amiga minha, que não o conheceu, busca nele se inspirar quando afirma, sempre que se vê diante de algum contratempo: 

— Antes de mais nada, fica estabelecido que ninguém vai tirar o meu bom humor. 

Acabei levando esta disposição de minha amiga às últimas consequências: o mais importante é não perder a capacidade de rir de mim mesmo. Como Cartola e Carlos Cachaça naquele samba, às vezes dou gargalhadas pensando no meu passado.. . E cada vez acredito mais no ensinamento recebido não sei se de meu pai ou diretamente de Confúcio, segundo o qual há várias maneiras de realizar um desejo, sendo uma delas renunciar a ele. Como adverte outro sábio, se desejamos obstinadamente alguma coisa, é melhor tomar cuidado, porque pode nos suceder a infelicidade de consegui-la. 

Tudo isso que de uns tempos para cá vem me vem ocorrendo, às vezes inconscientemente, como legado de meu pai, teve seu coroamento há poucos dias, quando eu ia caminhando distraído pela praia. Revirava na cabeça, não sei a que propósito, uma frase ouvida desde a infância e que fazia parte de sua filosofia: não se deve aumentar a aflição dos aflitos. Esta máxima me conduziu a outra, enunciada por Carlos Drummond de Andrade no filme que fiz sobre ele, a qual certamente Seu Domingos perfilharia: não devemos exigir das pessoas mais do que elas podem dar. De repente fui fulminado por uma verdade tão absoluta que tive de parar, completamente zonzo, fechando os olhos para entender melhor. No entanto era uma verdade evangélica, de clareza cintilante como um raio de sol, cheguei a fazer uma vênia de gratidão a Seu Domingos por me havê-la enviado: 

Só há um meio de resolver qualquer problema nosso: é resolver primeiro o do outro. 

Com o tempo, a cidade foi tomando conhecimento do seu bom senso, da experiência adquirida ao longo de uma vida sem maiores ambições: Seu Domingos, além de representante de umas firmas inglesas, era procurador de partes — solene designação para uma atividade que hoje talvez fosse referida como a de um despachante. A princípio os amigos, conhecidos, e depois até desconhecidos passaram a procurá-lo para ouvir um conselho ou receber dele uma orientação. Era de se ver a romaria no seu escritório todas as manhãs: um funcionário que dera desfalque, uma mulher abandonada pelo marido, um pai agoniado com problemas do filho — era gente assim que vinha buscar com ele alívio para a sua dúvida, o seu medo, a sua aflição. O próprio Governador, que não o conhecia pessoalmente, certa vez o consultou através de um secretário, sobre questão administrativa que o atormentava. Não se falando nos filhos: mesmo depois de ter saído de casa, mais de uma vez tomei trem ou avião e fui colher uma palavra sua que hoje tanta falta me faz. 

Resta apenas evocá-la, como faço agora, para me servir de consolo nas horas más. No momento, ele próprio está aqui a meu lado, com o seu sorriso bom.