segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Benedita Cristófoli (O Sonho de Voar!)


Era Sábado, uma manhã de muito sol, os pardais desciam do pé de carambola para saborear as nutridas sementes do gramado.

Ainda sonolenta, Maria Júlia sentou-se na calçada para observá-los e de vez em quando só olhar não a satisfazia, corria numa tentativa de pegá-los, mas quando se aproximava, eles voavam. Essa incompatibilidade a fez tirar o sapato e depois de um prolongado tempo, foi que percebeu que havia tirado só um pé.

Pelas folhas da grama escorriam as últimas gotas de orvalho, com a semelhança de um colar de pérolas debulhando entre as folhas e caindo para ser bebida pela terra.

Uma borboleta grande de cor azul voava ao seu redor num zig-zag, aguçando mais desejo de aprisionar os bichinhos!

Maria Júlia completaria 6 anos de idade na próxima semana, tinha pele clara, olhos castanhos esverdeados e cabelos loiros cacheados. Parecia uma bonequinha das mais lindas existentes.

O sol das dez horas já aquecia o seu rosto, deixando as bochechas vermelhas destacando ainda mais sua beleza.

Cansada, voltou à posição inicial, pôs os cotovelos no colo e a cabeça entre as mãos. Pensou, gostaria que meu presente de aniversário fosse uma noite de sonho, e pudesse transformar-me numa borboleta amarela por um dia de muito sol. Reforçando o pedido, escrevia bilhetes ao papai do céu, punha-os na janela, no gramado, na sala de jantar, na biblioteca, "Papai do céu! Quero ser uma linda borboleta amarela por um dia".

Foram passando os dias e para familiarizar-se mais com as borboletas, ela ia para o jardim todas as manhãs.

- Maria Júlia! Gritou sua mãe.

- Estou aqui no jardim treinando.

- Deixa de brincadeira e vem experimentar o seu vestido.

- Não, mamãe, já escolhi o meu.

Dona Neide fazia todas as tarefas domésticas e nas horas vagas costurava as roupas das crianças.

A noite soprava um vento fresco, Maria Júlia deitou mais cedo cobriu-se até o pescoço, sentiu a suavidade dos lençóis como a leveza da veste de um anjo. O quarto foi invadido por um clarão, uma voz dócil chamou:

- Maria Júlia! Acorda! Tenho um trabalho pra você.

- O quê? Respondeu já em frente ao espelho, admirando a bela borboleta em que tinha se transformado.

- Ouça com muita atenção: "Procure no jardim quatro sementes que estão bem juntinhas, coloque-as numa caixinha. Você não pode perdê-las, tenha muito cuidado! Vá aos quatro cantos do mundo; peça a seus habitantes que as plantem com muito carinho e dedicação. Quando essas plantinhas começarem a soltar o pólen, eles deverão soprá-los para o alto e
fazer três pedidos".

- Quais são os pedidos? – perguntou Maria Júlia.

- Isso vai depender da necessidade de cada região,

- Sim! Farei o que mandar.

Aborrecida, ela pensou, puxa! e meu dia de sol? Queria voar, voar rente ao chão, subir até as copas das árvores,.. É melhor não perder tempo. Pôs a bolsinha tiracolo no pescoço, já com as sementes, e voou, voou alta.

Imaginou os quatro pontos, e foi onde encontrou terra e gente, maravilha! Mas nos polos, fora uma viagem sofrida. Era o último lugar o Polo Norte, quando chegou, já sem forças e cansada, caiu numa geleira ficando presa uma de suas asas. Chorava e debatia tentando sair do gelo e assim permaneceu quase uma hora naquela situação lamentável. Até que decidiu pedir socorro e gritou:

- Onde está o povo deste lugar? Eu vou morrer congelada!

Com a gritaria apareceu um pinguim e seguidamente outros e alguns leões marinhos para ver o que acontecia.

- Calma, calma linda borboleta! Não vê que está se cansando cada vez mais?

- Me tire desse gelo, eu não tenho tempo a perder, por favor!

O pinguim delicadamente puxou com o bico a asinha dela para cima, tirou as pedras de gelo. Numa posição mais confortável ela respirou aliviada e agradeceu.

- Ah, que bom! Que mundo gelado esse de vocês!

- Sem dúvidas, mas eu no seu mundo quente, morreria!

- Onde estão os habitantes deste lugar?

– Somos nós.

- Tenho que achar alguém para plantar esta sementinha.

– Mas no gelo?

- Não sei, arrume uma terra, e faça esse trabalho.

E pronta para partir, depois de ter olhado tudo às pressas e muito curiosa, esquecia o motivo mais importante da sua ida ali. Despedia acenando com suas encantadoras asas.

- Linda borboleta! Disseram em coro.

– Sim!

– Você não falou os nossos pedidos.

- São as necessidades da região.

- Que nosso lugar seja habitado como o seu!

Será o primeiro pedido, disse o pinguim que lhe prestou socorro; o leão-marinho ia pedir para o homem preservar a vida deles. Um filhote pinguim pediu para que ela voltasse outras vezes para colorir o seu mundo.

Naquela manhã, Maria Júlia acordou mais tarde, a sua mãe preocupada entra no quarto e deseja-lhe feliz aniversário, percebe que dormia tranquila! Beija-a na face dizendo: – Levanta dorminhoca!

- Já acordei. Disse indo em direção à janela que a mãe acabara de abrir.

Fontes:
Rubens Luiz Sartori (org.). Compêndio da Academia Mourãoense de Letras.  Campo Mourão/PR: UNESPAR/FECILCAM, 2004.
Livro enviado por Sinclair Pozza Casemiro.

Cecy Barbosa Campos (Cristais Poéticos) III


IMPOSSIBILIDADES

Querer voltar
e não achar o caminho.
Querer segurar
e sentir que tudo o que tenho
escapa-me por entre os dedos.
Querer falar
e não achar as palavras.
Querer esquecer
e ser perseguido pela memória
dos fatos,
da vida,
das sensações
e das lembranças
que não se apagam
e que,
com nitidez penetrante
invadem o meu ser
tornando-se indeléveis.
Não é possível apagar
o que já não existe.
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INCLUSÃO

Dos males que nos afligem
estamos bem informados.
Na leitura dos jornais
ou pela televisão
temos notícias de tudo
que acontece no mundo.
O coração oprimido
compartilha o sofrimento
daqueles mais atingidos
que sem amigo, sem nada,
permanecem na exclusão.
Quisera encontrar caminhos
que possam levar os homens
a descobrir soluções
que amenizem as dores
do irmão injustiçado,
já bastante machucado
por agruras dessa vida.
Em minha busca incessante
percebo que, com caridade,
fé e amor no coração,
superaremos barreiras
e alcançaremos as mãos
daqueles que as estendem
suplicando proteção.
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INDAGAÇÕES

O que foi feito de nós?
Um de um lado,
outro de outro,
e um mundo entre nós dois.
O que foi feito
de nossas conversas noturnas
que se transformaram
em rotineiros Bom-dia?
Onde estão as luzes,
os risos, a alegria,
a música suave,
que ecoava em nossos ouvidos?
O que sobrou de nossas esperanças,
das tristezas partilhadas,
das angústias divididas?
Um sofrer inexplicável,
um temor silencioso,
tédio da vida,
Por quê?
As montanhas permanecem,
o sol brilha atrás das nuvens
e as estrelas clareiam as noites,
O que é mais importante?
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INFÂNCIA

O menino não tem brinquedo.
Nunca teve.
Mas brinca com serrote,
tesoura,
revólver,
caco de vidro.
Ele não reza. Ninguém lhe ensinou.
Se ensinou, esqueceu.
Mas vai à Igreja quando chove.
Se não puder entrar
fica na soleira, que lhe dá abrigo -
desde que não haja matança
como na Candelária.
O menino não come. Nem tem fome.
Cheira cola e dorme, com seu corpo osso,
num degrau de escada
sem frio, sem nada,
E dorme, e sonha,
até que os donos do mundo
surgindo dos cantos,
interrompam seu sono
e arrebentem seu sonho.
Batendo, espancando,
não ouvem seus gritos
e fazem calar
a quem nunca soube
infância, o que é.
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LEMBRANÇAS

Seu olhar enevoado enxergava os vultos
dos irmãos sentados à mesa da cozinha
e ouvia com atenção, o alarido incessante
que misturava perguntas e respostas
sem permitir que alguém fosse entendido.
Às suas lembranças, do tempo de criança,
juntavam-se outras de quando era cercada
por filhos e por netos. A vida transformada
trouxe alegrias e tristezas alternadas,
a partida de alguns, de outros a chegada.
Com a família dispersa foi ficando tão sozinha
que os retratos pelos móveis se tornaram companhia.
Dos momentos felizes restou-lhe a saudade
preenchendo as esperas inúteis de seus dias.
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MARCAS DO TEMPO

Tempestades marcaram a fronte enevoada
e sulcaram caminhos indistintos
pela serena face encarquilhada.
Com mãos trementes e sorriso tímido,
com a vergonha de insistir vivendo tanto,
olha perdido contemplando o nada
e enche de vazio a vida sem sentido.
Melancolia suave, lembranças persistentes
de ausentes presentes, teimosas companhias
que com ele ficaram, embora já partidos.
Indagações contínuas, perguntas sem resposta
de um mundo irreal e que ele não entende,
aqui vivendo em vida separada.
Com seus fantasmas conversa ensimesmado,
provoca risos e olhares aos quais não corresponde.
Fechado no seu eu, sorri às vezes,
ao receber um beijo ou carinhoso afago
daqueles que percebem qual o significado
da escrita confusa e empergaminhada
que traduz uma história de lutas e de dores
no seu rosto tranquilo e abnegado.

Fonte:
Cecy Barbosa Campos. Cenas. Juiz de Fora/MG: Editar Editora Associada, 2010.
Livro enviado pela poetisa.

domingo, 20 de setembro de 2020

Fábulas (A Ilha)


Era uma ilha que vivia no meio do oceano. Levava uma vida tranquila, sem grandes questionamentos. Conhecia outras ilhas e com elas se comunicava. Um dia porém uma ideia a inquietou: se toda vez que a maré baixava, uma porção de terra se descobria, então até que ponto haveria terra? Isso lhe tirou o sono por várias noites.

De repente seu conceito sobre si mesma mudou. Sempre se considerara uma porção de terra boiando à superfície da água, isso era ponto pacífico, todas as outras ilhas também pensavam assim. Mas agora já não podia acreditar nisso. Uma ilha não terminava ali na superfície. Não. Continuava para baixo. Uma ilha era na verdade uma montanha.

Saber que ela continuava além do que pensava ser era algo espantoso de se pensar. Assim, dia após dia, a ilha prosseguiu em seus esforços de auto-investigação – queria saber até onde existia. Mas à medida que sua atenção mergulhava em si mesma, as águas ficavam mais escuras. Era preciso cada vez mais concentração para não se perder. Ela prosseguiu e descobriu que o que existia abaixo da superfície possuía vida própria e, mesmo sem ser reconhecido, era capaz de interagir e até determinar o que existia acima. Uma ilha não era algo tão independente quanto pensava. Muito tempo se passou até que se convencesse de que era mesmo uma montanha com o pico emerso. E muito mais tempo para compreender que não flutuava solta nas profundezas do oceano: ela estava presa a uma base e essa base era uma enorme extensão de terra que funcionava como chão.

Vinham de lá todas as ilhas. E para lá voltariam todas quando os movimentos da terra e das águas as forçassem a isso. Mas as ilhas não sabiam da montanha e muito menos da terra ao fundo. Por isso as reais motivações do que faziam eram na maior parte desconhecidas. Se a montanha era a parte inconsciente de cada ilha, o fundo do mar era o inconsciente maior, único, de todas elas. Ao entender esse fato a ilha lembrou do tempo em que sua consciência de si própria se limitava àquela minúscula porção de terra à superfície. Todas as ilhas vêm do mesmo lugar - ela repetiu, intrigada - porque são feitas da mesma terra. A areia e os nutrientes que as raízes de suas plantas colhem vêm do mesmo chão. Todas as ilhas que existem são no fundo uma coisa só.

A ilha viu que eram ideias grandes demais, confundiam a mente. Aquela auto-investigação era importante mas era preciso muita atenção durante o processo. Só assim poderia voltar à superfície sempre que quisesse.

Enquanto tudo isso acontecia, as outras ilhas observavam seu comportamento e não entendiam. Concluíram então que estava louca e espalharam a notícia. A ilha sentiu-se só. Mas como poderiam condená-la por não compreenderem o que ela descobrira? Pensando melhor, eram todas partes dela mesma!

Então ela mesma ainda não se compreendia inteiramente. Foi então que a ilha percebeu, num clarão de compreensão, que toda aquela vasta extensão de terra inconsciente funcionava como um útero a expulsar pequenos pedaços de si mesma, forçando-os a ir à superfície.

Uma vez lá, eles se entendiam ilhas e começavam então sua aventura individual em busca de saber quem eram, aventura que podia durar anos, séculos, milênios, mas que um dia chegaria à mesma conclusão: todas as ilhas eram montanhas e todas as montanhas na verdade eram uma só extensão de terra a se experimentar em cada uma delas. Mas por que a terra fazia isso? Talvez para ela própria aprender com a experiência de cada ilha. Ao morrer uma ilha trazia à terra sua experiência para servir de aprendizado às futuras ilhas. Uma ilha continha em si, sem se dar conta, a mesmíssima areia das que a antecederam. A terra como um todo estava sempre aprendendo cada vez mais sobre si mesma.

Era mesmo uma tremenda aventura - pensou a ilha enquanto se divertia com os olhares estranhos que as outras lhe lançavam. Uma aventura de cada ilha. Mas também da terra inteira.

(autoria desconhecida)

Fonte:
Universo das Fábulas

Rubens Luiz Sartori (Poemas Avulsos)


NA BEIRA DO LAGO

Na beira do lago
não há "faz de conta".
Só coisas de fato.
Rodeiam os patos,
espreitam os sapos,
incautos insetos
fatores de vida,
da beira do lago.

Nos lagos tranquilos
de mato fechado,
carreiros de pacas,
de antas, capinchos,
galhadas, catetos,
e a noite barulha
nas águas do lago.

E o lago sozinho
nas vagas do tempo
seu mundo refaz.
Encrespa co' vento,
redobra suas ondas,
se torna tenaz.
E os dias escoam,
esvaem nas enchentes,
espraiam banhados
de beira de lago.

A lua debruça
seu manto de paz,
espelho luar
no ventre do lago.
E a vida contínua
na beira do lago,
é como ninar
de mãe benzedeira,
que conta a seus filhos,
centenas de histórias,
infindas de afago,
de todas as horas
na beira do lago.
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O TIJOLO E A VIDA

I
Ah! o tijolo do oleiro,
que amassa o barro bruto,
é um trabalhador resoluto,
retira da terra altaneiro
o seu sangue absoluto.
Faz na arte primitiva,
uma espécie alternativa
que constrói área e sala,
edifica até a senzala,
da negritude cativa.

II
Os tijolos da minha terra,
que se assentam em seus muros,
são tijolos de seis furos,
de oito, e muitos maciços;
são fortes, não são quebradiços.
São tijolos que guardam nobres,
nas tumbas dos cemitérios;
que também guardam gaudérios,
que viveram assim sem rumo,
mas que se igualam no prumo,
que só a tumba campestre,
nivela a todos os homens
na eternidade celeste.

Ill
São da terra que os adorna,
sem obedecer qualquer norma,
mas só a voz da natureza,
que nos tijolos da igreja,
celebram seu Criador.
Mas de que adianta a oração,
pro rude e louco pagão,
que só fez estripulia,
pois da sua vida um dia
só sobrou maledicência,
que pra muita consciência
é coisa feia e pecado.

IV
Porém, na vida, o passado,
só vale na hora da morte,
pros que têm muito mais sorte,
de ter uma cova bem rasa,
que agora será sua casa,
sem tijolo, porta ou cozinha,
mas na terra, mãe-madrinha,
que a todos recebe em consolo,
ajuntando cada tijolo
pras novas casas-mansões,
sucedendo as gerações
que virão sempre na terra,
qual tijolos cimentados,
na argamassa escondida
nas paredes da existência,
adornando a querência,
nas planuras e no vento,
fazem o arrimo da história,
que canta toda sua glória,
na herança eterna do tempo.

Fonte:
Rubens Luiz Sartori (org.). Compêndio da Academia Mourãoense de Letras.  Campo Mourão/PR: UNESPAR/FECILCAM, 2004.
Livro enviado por Sinclair Pozza Casemiro

Francisca Júlia (O Monge)


Uns mercadores, com suas malas às costas, caminhavam em direção à cidade, para vender suas mercadorias. Mas a viagem tinha sido longa e eles estavam cansados.

Tinham atravessado campos, galgado montanhas e sentiam já tanta fadiga, que resolveram sentar-se sobre a relva para descansar. Mas o sol estava muito ardente e eles seguiram adiante. Entraram num bosque onde a sombra era fresca e em cuja entrada havia uma gruta de pedras brutas, iluminada de alvas estalactites.

Penetraram, não sem algum receio, cautelosos, porque podia ser um covil de malfeitores.

Tudo estava às escuras. Mas, logo que se habituaram às trevas s da gruta, viram um monge de joelhos, as mãos postas, a fronte erguida, absorvido nas suas preces.

— Monge, disse um deles; perdoa-nos ter-te interrompido nas tuas meditações. Entramos em tua habitação para te pedir abrigo contra os ardores do sol.

— Entrai, viajantes, respondeu o monge mal desperto das suas contemplações místicas Todos os peregrinos terão aqui seguro abrigo contra as inclemências do sol e contra as tempestades da noite.

Os mercadores agradeceram, e, como sentissem fome e sede, falaram:

— Na nossa longa e perigosa jornada a fome devorou nossas entranhas e a sede secou nossas gargantas; mas tu deves estar tão acostumado ao jejum, que em tua habitação nada pode haver.

— Nada há, de fato, pobres viajantes; mas o poder de Deus é infinito e a sua misericórdia é sem limites. Então, de um gesto, fez jorrar de uma fenda da rocha um grosso fio de água clara, onde eles beberam até à saciedade; e, arrancando do chão uns calhaus que se transformaram em pães, entregou-os aos peregrinos, dizendo:

— Tomai; cumpriu-se a divina vontade.

Os mercadores, homens materiais e rudes, tremeram de susto, receando algum sortilégio diabólico; mas, ao mesmo tempo, diante da religiosa bondade e aspecto humilde do monge, comeram.

E um deles falou:

— Monge, se tu estás revestido de tanto poder e podes, com um gesto apenas, fazer brotar a água e transformar em pães os calhaus brutos, por que não fabricas também o ouro para gozares as delicias da riqueza? E por que vives oculto nas trevas desta gruta, como uma fera, emagrecido pelos jejuns e cilícios?

— Que errada e falsa compreensão tendes da vida, meus amigos! Sabei que o ouro serve somente para corromper os sentimentos, envenenar a alma, e não poderá dar-me os gozos a que eu aspiro. Ao menos, na pobreza em que vivo e que desprezais, sem as preocupações que acarreta a fortuna e os pecados que ela desperta, posso mergulhar-me inteiramente em minhas preces e na contemplação da divindade.

Os viajantes agradeceram ao monge o generoso acolhimento, beijaram-lhe respeitosamente as mãos e partiram.

Fonte:
O Poeteiro

sábado, 19 de setembro de 2020

Arquivo Spina 10 (Luciene Avanzini)

 


Sammis Reachers (O Pau-de-Sebo)


As novas gerações e mesmo as mais maduras, porém criadas em ambiente urbano, talvez não saibam o que seja um pau-de-sebo – ou imaginem, de pronto e maldosamente, que ele seja algo muito diverso do que é na realidade.

Antes de maiores desentendimentos, deixe-me aclarar logo a questão: Pau-de-sebo é uma tradição típica de festas juninas, uma tora de madeira de grande altura, à semelhança de um poste desses de eletricidade, completamente lambuzado, lubrificado, empapado com sebo (gordura) de porco. Eeeecaaa!, dirá você. E qual o objetivo disso? Um totem para ser incendiado à meia noite? Um símbolo do sincretismo pátrio que fundiu temas do catolicismo a outros oriundos dos cultos de matriz afro?

O pau-de-sebo é apenas uma brincadeira, algo perigosa, sim, mas muito divertida, daquelas diversões cruentas hoje já tão raras.

Instalada a grande tora em ponto central da festa, já devidamente “confeitada”, avisava-se aos festeiros presentes que, no topo daquele poste, havia uma nota ou um cheque representando um valor algo considerável – Digamos, em valores de agora, 300, 500, até mil reais. Pois bem: Estava dada a largada para as tentativas de subir em tal poste. Escadas e apetrechos de apoio não podiam, claro, ser utilizados: O valente ou a valentina, pois sempre houve dessas, deveria atracar-se a todo aquele escorregadio desafio e escalar tronco acima, como um macaco. E como era divertido! De quando em vez o sebo era reposto, pois o frenesi de candidatos ao tesouro acabava arrancando boa parte do tal sebo, que saía grudado em camisas e bermudas... Era comum ver alguns, já quase chegando ao topo, cansados e de repente tocando área de banha ainda “virgem”, repentinamente despencar – e o sebo restante na enorme envergadura daquele pau, mesmo já ralo, fazia as vezes de poderoso lubrificante, pois para baixo, seja em festa de São João ou de qualquer outro patrono, todo santo ajuda.

Certa feita, fins da década de oitenta, realizaram aqui na comunidade gonçalense do Jardim Nazaré, também dito Palha Seca pelas línguas maledicentes, e bem em frente à minha casa, uma festa junina. O festim foi organizado dentro do tradicional, no prumo da ortodoxia: Montaram palanque para a dança de quadrilha, forraram a rua de lado a lado com barraquinhas de guloseimas e prendas; bandeirinhas cruzando os céus, bambus e caniços dando o tom de roça. O organizador da festa era um camarada bem simpático, eterno candidato a vereador (eterno não, depois cansou-se), o William. William era também cana, meganha, magarefe: Soldado porra-louca como era o normal dos policiais militares cariocas daquele tempo.

Anunciado o valor, os durangos, aventureiros e também cachaceiros do bairro se lançaram ao desafio, como heróis numa batalha.

Dias se passaram enquanto aqueles sôfregos ferrabrases de birosca se revezavam na frente – ou tora – de combate, e nada de nenhum dos valentes conseguir assenhorear-se daquela quantia, a essa altura já mítica.

Euzinho e outros peraltas, bem que tentamos dar nosso sangue em tal peleja comunitária, mas nada logramos. Nem o talvez maior escalador de nossa idade, o legendário Luciano “Neném”, também dito “Highlander, o Imortal” – que se tornara lenda não por seus dotes de abraça-tora mas, acredite se quiser, por engolir QUALQUER remédio que achasse no lixo durante as expedições em que catávamos ferro-velho, sem jamais manifestar qualquer efeito, seja salutar, seja colateral, de tão sinistro apetite – conseguia superar a extensão daquela vara... O expediente era coisa pra adultos mesmo.

A causa ou a bufunfa já era dada como perdida. Mas, num arroubo final, já no penúltimo dia dos festejos – que se estenderiam por uma semana – uma aliança sombria foi formada, uma cabala de malandros do “melhor” que havia na área. Iluminados ou apertados pela desesperança, elucubraram uma ideia, uma última cartada contra a fortaleza de sebo. E assim, com cada um dando o melhor de si, formou-se uma pirâmide humana, composta de uns seis bravios canabravas...

E não é que os rapazes conseguiram? Nande, o mais leve deles, ficou com a honra ou a temerosa missão de ser o topo da pirâmide. Foi lindo: O sol de fim de tarde chegou a emitir um pulso, um flash, um brilho especial quando aquela mão leve – na plena acepção do termo – apalpou a pontinha do cheque.

Ao desmontar-se aquela pirâmide mambembe, salvos todos sem ferimentos, grande foi a festa! Cada um daqueles pipa-avoadas parecia imitar um bicho, de tanto que urravam, ou mugiam, ou grasnavam, ou sei lá que som um burro faz quando avoa!

Apanhando o cheque das mãos de Nande, o suarento Marcão, organizador ou chefe daquela estranha liga dos escaladores de tora, e que aturara o peso de cinco homens nas costas (não tente isso em casa!), foi conferir o valor do mesmo e a assinatura. Assinatura não constava, e o valor era nenhum: O cheque estava em branco.

O que se seguiu, amigo leitor, naquela festa que se iniciava, foi um fuzuê, um arranca-rabo, um salseiro como o Jardim Nazaré poucas vezes teve o desplante de ver.

O impasse entre xerife William e aqueles homens agora furiosos – sujos, fedorentos e furiosos – terminou em desobediência civil e desrespeito à autoridade, que afinal era gente boa mas não merecia lá muito respeito mesmo.

Naquele eterno vai-não-vai que sempre impede o cidadão de bem de esmurrar a cara dum poliça, sobrou mesmo foi para o segundo-em-comando da festa: O DJ, mestre de cerimônias, eletricista, técnico em eletrônica, mecânico de mobiletes e professor Pardal da comuna, Paulo.

E finalmente, ao som de Gonzagão e Gonzaguinha, a pancadaria se estabeleceu no arraiá. E, naquele anarriê, entre chutes e sopapos, badulaques e enfeites foram arrancados, caniços de bambu se tornaram varas justiçadoras, e até as inocentes caixas de som, grandes e valiosas e que pertenciam ao franzino Paulo, tiveram seus alto-falantes arrebentados a coices por aquela boiada em estouro.

O dia seguinte, último dia da agora esvaziada festa, parecia dia de luto: Eu fora proibido de atravessar o portão e, contrafeito, observava por cima do muro. Era cada um em sua casa, chorando mágoas, esfregando roupa encardida até o talo, de tanto abraçar aquela grande e sebenta tromba, e aplicando emplasto de saião nas feridas e nos magoados.

Quanto ao cheque em branco, em branco ficou: Nunca foi saldado, e cada um ficou com seu prejuízo. Mais que o valor imaginário do cheque, custavam as caixas de som que foram despedaçadas naquela festa de São João, um São João palha-sequence regado a maçãs-do-amor e tapas na cara e que, ao menos naquele ano, foi melhor que o de Campina Grande, a capital paraibana e mundial do tal festim!

No camarote das santidades, imagino que o bom São Gonçalo deve ter olhado para o veterano João e, desaguentando a bronca e desrespeitando a hierarquia, soltado: “Espia, espia... Espia e aprende como se faz uma festa, meu padrinho...”

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Thalma Tavares (Poemas Avulsos) 3


  AMADA

É tão doce, sutil, quase secreta,
tão gentil quanto a mais gentil donzela,
esta aura que faz de mim poeta
e me afaga ao entrar pela janela.

Vem da amada esta brisa e é por ela
que meu verso se faz canto de esteta,
e se alteia na estrofe que revela
que esta vida sem ela é incompleta.

Solidão era antes o meu nome
tão carente neste ermo, que consome
a esperança, a certeza e o porvir.

Mas foi ela quem veio dissipar
meus temores e fez-me acreditar
que hoje tenho razões para sorrir.
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MILAGRE

Eu era um deserto cinzento, sem flores
- um chão de tristeza em que não cresce a palma.
Então ela vem e me fala de amores,
e sobre o meu ermo a esperança se espalma.

Cobrindo de estrelas o ocaso sem cores,
trocando amarguras por noites de calma,
com rimas e afagos calou minhas dores,
e pôs em meu peito o candor de sua alma.

O vulgo não sabe quem é a criatura
que a mim favorece com tanta doçura,
repondo em meu ser a perdida alegria.

Os bardos já sabem do que estou falando,
mas vou concluir feito um bardo, cantando,
dizendo entre versos: seu nome é Poesia!
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TELEFONEMA
(Para o compadre Geraldo Nogueira)

- Alô, quem é que fala?... Ah, como vais amigo?
- Vou enganando aqui a minha ancianidade,
driblando-a como posso, a cultivar meu trigo,
curtindo a natureza e espantando a saudade...

E tu, como é que vais com teu mister antigo
de enganar, versejando, a dura realidade?
Bem pior do que tu, que em teu rural abrigo,
não sofres como nós os males da cidade.

- Então, porque não vens, com malas e papéis
soltar a inspiração aqui nestes vergéis,
ver a vida acordar na paz de todo dia?...

- Quem me dera!... Não posso... Este meu coração
é carrapato urbano... E longe deste chão,
de tédio e solidão decerto eu morreria.

-  Qual nada, meu irmão!... À sombra hospitaleira,
que o nosso coração há muito te oferece,
e sob a imensa paz ao pé do cordilheira,
tudo mais que escraviza a gente logo esquece.

– Tua amizade, irmão, sempre foi verdadeira.
Estar junto de ti é desfrutar a messe
que nos vem lá do céu, serena, alvissareira,
e é dádiva de paz que conforta e que aquece...

- O mesmo digo eu sobre a tua amizade...
Será bom te abraçar e matar a saudade
dos antigos serões, de tuas boas falas...

- Pois então, se é assim, me espera por aí...
Preciso desligar... Vou correndo daqui
juntar os meus papéis e preparar as malas.
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TRANSCENDÊNCIA

Meu bem, o meu amor já se faz quieto,
já não se perde em queixas ou lamúria.
Mesmo ele sendo o teu prazer dileto,
não quer que esse prazer mude em luxúria.

Meu corpo, que te quer além do afeto,
pede à libido que contenha a fúria.
Não pretende que eu o torne um objeto
mudando o sol do amor em luz espúria.

O meu amor quer ver a luz radiante
que a ternura projeta em teu semblante,
convertendo-te em anjo sideral...

Toma, pois, minha mão, sente minha alma,
e vê como palpita em tua palma
meu desejo de amor transcendental!

Fonte:
Thalma Tavares. Alguns sonetos e sonetilhos. São Simão/SP, 2014.
Apostila enviada pelo poeta.

Carolina Ramos (Obrigada, Vizinha!)


Conheci-a por acaso, num jantar, e, logo, sua afetividade cativou-me.

Minha amiga é uma senhora tranquila, muito simpática e atenciosa. E muito querida, também.

Não lhe menciono o nome por discrição. Não sei se gostaria de vê-lo declinado em letra de forma.

Contudo, para identificá-la é fácil. Afora as múltiplas qualidades que possui, bastaria se dissesse que de suas mão gentis sai o mais gostoso arroz doce que muita gente já comeu em toda sua vida! E o melhor, é que posso me instalar, gostosamente, entre os felizes provadores desse delicioso quitute.

Por mais de uma vez, a terrina fumegante já atravessou a rua que nos separa e gentilmente transpôs a minha porta.

E como é sabido que essa terrina fumegante, e tão apetitosa, chega, sempre em datas significativas e só, naturalmente às mesas de amigos, creio que posso, em definitivo, chamar de amiga àquela que enriquece minha ceia natalina, perfumando-a com o cheiro adocicado da canela em pó. Canela que amorena a brancura daquele arroz doce, cuja lembrança faz crescer água na boca.

Neste verão tórrido, mais uma gentileza devo agradecer à estimada vizinha.

Seu casarão branco, cercado de flores, é uma das visões mais agradáveis que meus olhos captam, quando, ao contornar o quarteirão, dou de frente com aquele cromo suavemente colorido onde a primavera parece eternizar suas bênçãos.

E é assim que, todos os dias pela manhã, eu saúdo minha vizinha, mesmo sem vê-la. E, mesmo sem vê-la, eu lhe agradeço, com muito carinho, aquelas flores tão lindas que ela planta no canteiro de minha alma, todos os dias, sem mesmo saber o bem que me faz!

As coisas mudam. Eu mudei de endereço e essa amiga gentil mudou-se para mais perto de Deus. Sua casa também mudou de função, as flores não mais existem porque suprimidos os canteiros. Apenas não mudou aquele perfume de canela que ficou na lembrança e que mais se acentua quando os sinos avisam que o Natal está às portas. E então, intimamente repito:

— Obrigada, vizinha! O mundo seria bem melhor, se copiasse a sua cordialidade.
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(Crônica publicada no jornal "A Tribuna", de Santos)

Fonte:
Carolina Ramos. Feliz Natal: contos natalinos. São Paulo/SP: EditorAção, 2015.
Livro enviado pela autora.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Arquivo Spina 9 (Ana Luzia Moura)

 


Carla Rejane Silva (Os Encantos da Nova Casa)


Mudei de casa, ou melhor, de apartamento. Estou, agora, em um maior. Quatro quartos, dois banheiros, uma sala enorme, cozinha espaçosa, área de serviço e pasmem, duas portas de entrada independentes. Como não tenho essas frescuras de superstições (a doença do Roberto Carlos), posso entrar por uma porta e sair pela outra, sem problemas.

Ou entrar pela outra e sair por uma, que dá no mesmo. Ou, no pior das loucuras, entrar e e sair pelas duas, ao mesmo tempo. O apartamento anterior era confortável, não nego. Dois quartos, uma cozinha pequena, um banheiro cheio de vazamentos, além das persianas que guarneciam os quartos e a sala estarem quebradas.

Falei diversas vezes no escutador de novelas da proprietária e ela nada de mandar arrumar os trocinhos quebrados. Tem gente que só quer ganhar (venha a nós o vosso reino...), ou grosso modo, meter o dinheiro do aluguel no bolso e o resto que se dane. Cuidar do patrimônio, para certas pessoas, representa o mesmo que ‘neca de pitibiriba’, ou seja, não representa coisa nenhuma.

Apesar desses entraves, eu me conformava, ia levando, empurrando com a barriga... Todavia, questão de uma semana atrás,  tive uma razão muito forte  que me fez mudar de ideia e entregar o imóvel à senhora dona Mão de Vaca. A vinda de minha filha Larissa e meu genro Artur, de Patrocínio, nas Minas Gerais, de mala, cuia, papagaio, gato, cachorro e outros bichos.

O fato é que esse evento contribuiu, sobremaneira, para eu chutar o pau da barraca e tomar a decisão de mudar imediatamente de endereço. Graças ao bom e amado Deus, a nova residência está encostada à outra (a antiga), embora seja em prédios diferentes. Outro detalhe: saí de um terceiro andar enervante para um segundo, com menos degraus para se galgar  até o novo portal do apê.

Estou feliz e realizada. Acho até que remocei uns vinte anos. Nessa nova casa eu terei meu quarto independente, minha filha e genro o quarto deles e o espaço, como um todo, praticamente quadruplicou. No mesmo pé, os móveis terão mais  clima de amplidão, podendo ficar mais desenvoltos nos ambientes, e sem estarem colados uns aos outros.

Já nem vou falar no piso de todos os cômodos, que me agradou deveras, ao contrário do chão anterior que, mesmo encerado e dado o brilho devido, deixava a casa às escuras e os móveis entristecidos, sem as matizes aconchegantes da felicidade. Loft novo, vida nova, ares benfazejos renovados. Tudo a contento. É o recomeço da alegria se reinventando.

Diria mais: vislumbro o início de uma nova e duradoura caminhada. O horizonte logo ali adiante, se abre numa linha infinda e inimaginavelmente abissal e eu, agora, posso dizer, sem medo de errar, que sou feliz e realizada. Resta, agradecer à Deus por mais esta oportunidade obtida em minha vida. SOU FELIZ. Viva euuuuuu!

Fonte:
Texto enviado por Aparecido Raimundo de Souza.

Monteiro Lobato (De como quebrei a cabeça à mulher do Melo)


— OLHA, esperam-te hoje em casa para o jantar.

— Impossível. Não janto fora.

— Abre uma exceção e vai.

— Impossível, já disse. Não insistas.

— Põe de lado a esquisitice e vai.

— Não é esquisitice, meu caro, é sibaritismo e prudência. Tenho para mim que comer é uma das boas coisas da vida. Mas comer o que se quer, como se quer, quando se quer. Gosto, por exemplo, de lombo de porco, mas a meu modo, assado cá dum jeito que sei. Se o como fora de casa, nunca o tenho ao sabor do meu paladar. Gosto ainda de comer quando tenho fome. Detesto o horário forçado, almoço às onze, jantar às seis, haja ou não apetite. Ora, a não ser em minha casa, onde não tenho horário, raramente o apetite coincidirá com o momento do bródio. Esta circunstância, aliada ao fato de ser induzido a comer o que está na mesa e não o que me pede a veneta, leva-me a recusar sistematicamente convites para jantar.

— Mas, homem de Deus, para tudo há remédio. Farás tu mesmo o cardápio, darás as receitas e só se porá a mesa à voz do teu apetite.

— Não. Em tua casa são todos de tal modo amáveis que receio não chegar à sobremesa sem cometer um homicídio.

— !!!

— Nunca te contei o meu rompimento com a família Melo? Éramos amicíssimos de longos anos e sê-lo-íamos até hoje se não fosse a minha imprudência aceitando um convite para lá jantar em dia de anos da dona Vidoca. Havia à mesa umas dez pessoas, todas íntimas, e as filhas, os genros — um povaréu. Dona Vidoca, como sabes, é uma criatura excessivamente amável e nesse dia excedeu-se. Serviu-me sopa, ela própria, mas carregando a mão como se eu fora um frade. Arrepiou-me aquele pantagruelismo brutal, mas calei a exasperação e ingeri com paciência toda a maranha de fios amarelos, boiantes num caldo untuoso. Mal absorvera a última colherada, a boa senhora, sem consulta prévia, atocha feijão num prato e passa-me.

“— Não, minha senhora, muito obrigado!

“— Ora, coma! Deixe-se de história. Coma feijão que dá sustância.

“Não houve escapatória possível; tive que aceitar o truculento prato de caroços pretos, coisa que detesto. Olhei para a rodela escura, cor de chocolate, que se me esparramava pelo prato inteiro sem deixar transparecer uma nesga sequer da louça branca, enchi-me de resignação e empreendi o trabalho de Hércules que era trasladar tudo aquilo para o estômago. Mas meu sangue começou a esquentar e senti o nó das cóleras surdas a subir-me à garganta. Estava eu em meio da empreitada, quando vi a excelente senhora dirigir para o meu prato um enorme naco de carne fisgado no garfo.

“— Doutor, um pedacinho de carne assada?

“Gaguejei, mal firme nas estribeiras:

“— Mas, minha senhora, eu...

“— Sempre com cerimônias! Olhe que aqui não se usa disso! Coma lá!

“E soltou-me no prato o boi...

“Senti bagas de suor frio borbulharem-me na testa. O nó da garganta engrossou. Baixei a cabeça, resignado, e encetei silenciosamente a mastigação, matutando sobre o modo de dar cabo daquilo. Comer tudo era impossível; deixar no prato, impolidez...

“— Agora um pouco de arroz!

“Lancei um olhar facinoroso à santa criatura, que o interpretou de maneira errônea, como de assentimento.

“— Eu bem vi que estava querendo arroz.

“— Impossível, dona Vidoca! Peço-lhe perdão, mas estou satisfeito. Como pouco e o que tenho no prato janta-me por três dias.

“— Luxento! Coma lá!

“E zás!, uma, duas, três colheradas, das grandes.

“Uma onda de sangue escureceu-me a vista. Tive ímpetos de saltar pela janela. Contive-me, porém, e com a resignação dos verdadeiros mártires recomecei a mastigar.

“— Um pastelzinho agora?

“Era demais! A virtuosa criatura abusava da minha situação. Recusei desabridamente, áspero.

“— Já sei por que não quer... É que foram feitos por mim... Mas deixe estar...

“— Dona Vidoca! Pelo amor de Deus! — gaguejei.

“— Unzinho só! Para me dar opinião sobre o tempero da massa, sim? Apare lá estezinho tostadinho, sim?

“Conheces o meu gênio, sabes com que facilidade saio fora de mim e cometo as maiores loucuras. Esse estado de superexcitação nervosa preludia por um tremor da voz e excessiva quentura nas faces. Naquele momento, sentindo os pródromos da erupção, entreguei-me a esforços sobre-humanos para conter a fera que mora em mim. E contive-a. Curvei de novo a cabeça e levei à boca mais umas garfadas.

“Aqui, Melo principia a trinchar o leitão.

“Refleti: se me oferecem, estouro. E fiquei de sobreaviso, engatilhado para o revide.

“Não tardou muito que dona Vidoca espetasse no garfo uma alentadíssima costela de leitão e fizesse pontaria para o meu lado.

“Ah! Perdi a tramontana! Agarrei na garrafa que estava na minha frente e abri a cabeça da santa criatura com uma pancada horrível!

“De nada mais me lembro. Ouvi um berro, um clamor. Senti o pânico em redor de mim e corri para a rua como um ébrio. Foi quando...”

Não concluiu. O amigo havia abalado.
____________________________________

Nota da primeira edição (1946)

Esta história deu origem a curioso incidente. Publicada em julho de 1906, sob o pseudônimo de Antão de Magalhães, no Minarete, que circulava não só em Pinda como nas cidades vizinhas, caiu sob os olhos de um hoteleiro da cidade de São Bento, de nome Melo e por coincidência esposo de uma senhora de apelido Vidoca. O excelente homem viu no artigo alusões pessoais e ofensivas a ele e sua família — e apresentou queixa-crime. Aqui vai a petição, transcrita do Minarete:

Ilmo. e Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito desta Comarca.

Diz F. F. Melo, por seu procurador, que, sentindo-se ofendido, com sua família, pelo injurioso artigo do Minarete, periódico de imprensa desta cidade, ora junto, distribuído por mais de quinze pessoas, intitulado “De como quebrei a cabeça à mulher do Melo” de 19 de julho de 1906, assinado por Antão de Magalhães, edição nº 159, e querendo a bem de seus direitos promover a responsabilidade criminal do autor, que não é pessoa conhecida, pelas injúrias que afetam ao suplicante e sua família, vem requerer a V. Exa. que se digne mandar intimar ao editor ou gerente da tipografia do dito periódico, senhor José Monteiro Salgado, que é quem assumiu a responsabilidade da publicação do Minarete perante a Câmara, preliminarmente, para exibir em juízo o respectivo autógrafo, em dia, lugar e hora previamente designados, requerendo também o suplicante a V. Exa. para isso uma audiência extraordinária, visto ser urgente a diligência etc. etc. Nestes termos, o suplicante requer que D. e A. esta, com os documentos inclusos, se proceda na forma da lei, a fim de que, terminadas as diligências, a exibição do referido autógrafo e pagas as custas do processo, sejam os autos originais entregues ao procurador do suplicante independente de traslado, para deles fazer o uso que convier ao suplicante.

P. deferimento E. R. M. Pinda, 26 de julho de 1906. Com a proc. inclusa — o advogado J. M. F. J.

O processo não foi por diante, irrisório que era. Apesar disso, a brincadeira custou ao escamado hoteleiro perto de um conto de réis...

Fonte:
Monteiro Lobato. Cidades Mortas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Arquivo Spina 8 (Beth Iacomini)

 


Aparecido Raimundo de Souza (Comédias da Vida na Privada) Parte Dezessete


BIPOLARIDADE

O CHINFRETA SE ABRE com o doutor Sartório, seu amigo e advogado. Ambos tomam café no escritório do profissional enquanto papeiam:

— Não podemos mais viver juntos. Eu tenho defeitos terríveis e Carol qualidades insuportáveis. Daí eu querer me separar dela.

— Fale de seus defeitos — pede o doutor Sartório:

— São tantos...

— Sou todo ouvidos, Chinfreta...

— Eu gosto de soltar bufões na frente de todo mundo. Principalmente das amigas dela.

— E dona Carol, por certo, acha suas ideias absurdas?

— Se não as ideias, pelo menos os traques, com toda certeza.

— Costuma dar bronca?

— Às vezes reza um terço. Doutras diz na minha lata que eu sou um verme.

— Verme, Chinfreta?

— Sim, Sartório. Desses bem peçonhentos. Imagine!

— O que mais você faz que deixa a sua querida esposa irritada?

— Nossa, a lista é imensa!

— Como disse, sou todo ouvidos:

— Gosto de ir ao banheiro de porta aberta.

— De porta aberta?

— É.

— E Carol, só de me ver indo em direção ao banheiro, aos trancos e barrancos — pense —, só de me ver... Começa a falar. E fala, fala, fala...

— E você?

— Tô nem ai! Assovio uma canção qualquer. As palavras dela entram por um ouvido e...

— Voam pelo outro?

— Não exatamente...

— Como assim, não exatamente?

— Um de meus ouvidos, Sartório, é completamente surdo. Se não me engano, surdo do tímpano:

— Como é que é?

— Um dos meus ouvidos não escuta.

— Então você é obsoleto de um lado?

— Sou.

— Qual deles?

— Acho que o esquerdo. Não, o direito. Não faz diferença. Sei que um é completamente alérgico à barulhos e sons.

— E do que mais a sua esposa reclama, além de  você soltar puns diante das amigas delas e ir ao banheiro de portas abertas?

— No geral, ela vive dizendo a toda hora que eu preciso ter modos. Criar vergonha. Parar de andar pelado pela casa. A Soraia não é obrigada assim...

— Calma lá. Quem é a Soraia?

— A nossa empregada.

— Ah! Continue...

— Fala também que eu preciso respeitar dona Risoleta, a mamãe...

— A sua mãe?

— Não, Sartório. A dela.

— Sua sogra?

— Em carne e presença. A velha mora com a gente desde que o marido, pai de Carol faleceu. Está cansada de me pilhar entrando e saindo de um armário enorme, de doze portas, que a gente tem lá em casa. Mentalize a cena...

— Como é que é?

— Eu disse que a velha mãe dela, dona Risoleta  está cansada de me ver entrando e saindo de um armário de doze portas. Tal atitude deixa a sessentona com a pulga atrás da orelha.

— Meu amigo, uma pergunta um tanto quanto idiota: você não tem mulher?

— Tenho.

— E por que precisa partir para dentro do armário?

— Sartório, não ajuíze nenhuma besteira. Não é nada do que você está alinhando nesta sua mente suja. Gosto de ficar lá dentro, no escurinho, geralmente jogando dominó ou paciência pelo celular. Para mim, uma terapia, ou válvula de escape que arrumei para me livrar dos estresses do dia a dia.

— E onde fica este armário que a sua sogra o vê entrando e saindo?

— Ora, Sartório, no nosso quarto de casal. A  mãe dela, assim que eu me acomodo, vem quietinha, entra, pé ante pé... E encosta o ouvido...

— Entendo. E a sua esposa?

— Como você sabe, a Carol dá aulas. Fica o dia inteiro fora. Como a jararaca da mãe dela não trabalha, não têm amigas, para sair... E como eu chego do serviço por volta de três horas, tomo banho, faço um lanche, vou pro meu quarto e aproveito para jogar partidas com meus amigos virtuais. Em resumo, a Carol não tem conhecimento das minhas loucuras.

— E a sua sogra, como ela descobriu a sua paixão pelos fundilhos do suntuoso armário?

— Como falei, a peste da velha fica me espionando, assim que piso no quarto. Então ela se achega e coloca o ouvido encostado na peça. Pior de tudo...

— Continue... O que é pior de tudo?

— A Soraia também vem lá da cozinha, só para tentar descobrir o que, de fato, eu ando fazendo entre as minhas roupas dependuradas e as de minha esposa.

— Não acredito no que estou ouvindo...

— Pode acreditar. É a mais pura verdade.

— Acho que você é louco.

— Eu tenho certeza...

— E aí, com as duas mulheres bisbilhotando, que atitude você toma?

— Nenhuma. Continuo silencioso e na minha, jogando sem maiores problemas.

— Realmente cheguei à conclusão que você não bate bem da bola.

— Qual o quê! Você me chama de louco e diz que não regulo bem da cachola. Piradona, diante desta história toda é a minha sogra.

— Por quê?

— Porque a velhota acima de qualquer coisa, me odeia. Dona Risoleta anda querendo pegar alguma coisa errada a meu respeito. Por assim, nas suas divagações, me persegue. E pasme, Sartório. A infeliz, costuma logo que se aproxima do armário, a emitir uns gritinhos estranhos, e a empregada endossa, indo na pilha dela, como se imaginassem que eu esteja fazendo alguma coisa indevida, sei lá. Cansei de ver. Por uma espécie de respiradouro redondinho do móvel, capturo as duas e dou com as engraçadinhas alvoroçadas. Jogar dominó com plateia te vigiando é complicado. Você por acaso, como advogado, já pensou em uma cliente aqui nesta sala, falando mal do marido e, em vista da sua posição, você tentar consolar a dita dando carinhos e jogando palavras melosas no escutador de novela dela?

— Não interessa, Chinfreta. Tal fato não vem ao caso. Não vou responder...

— Pela sua reação abrupta, percebo que é chegado... Sua secretária tem uma carinha de safada!...

— Olha o respeito. Não mude o rumo da nossa prosa. A Soraia... Você disse que ela também espia?

— Sim.

— E você nunca teve coragem de inverter a situação saindo do armário na hora agá e dando um chega pra lá nas duas? De certa forma vejo a sua situação como invasão de privacidade.

— Sartório, até o momento não havia pensando em nada. Pelo menos até sábado passado, quando tudo aconteceu...

— E o que aconteceu sábado passado?

— De novo? É a centésima vez que lhe conto a droga da história.

— Conte uma vez mais. Preciso saber dos mínimos detalhes para defender você, caso dona Carol realmente tome conhecimento pela mãe, ou pela serviçal, da sua imbecilidade e queira se separar.

— Ta legal. Eu liguei o aparelho celular e dois minutos depois a velhota pintou na área:

— Prossiga...

— A Soraia, como sempre, veio logo atrás, no vácuo. Ambas, acredito, se agarraram ao armário, como se quisessem abraçá-lo com outras intenções.  Entende o que digo? Como se o troço fosse um homem. Não tenho outra explicação para esse fato. É o que penso das duas, em razão de acharem que eu entro para me dedicar a algo abominável. Sei lá, entendo que elas idealizam o armário como um ser humano e veem nele um objeto sexual. O fato é que a geringonça com as duas agarradas, começou a balançar, apesar de abarrotado de bugigangas. Minha sogra, a certa altura, passou a balbuciar: ‘Fernandinho, Fernandinho...’.

— Fernandinho? Quem é Fernandinho?

— Sei lá, Sartório! Não faço a menor ideia.

— Vá em frente.

— Só que desta vez, a Soraia vendo a velha Risoleta, se excedeu. Não aguentou. Meteu as mãos no puxador e escancarou a porta do guarda roupas de canto a canto. Dona Risoleta, minha sogra, ficou pálida, se abriu em berros estridentes, ferozes, e a empregada não deixou por menos...

— Sim e depois?

— Quando as duas fuxiqueiras toparam comigo, Sartório, eu estava suando em bicas e meu Deus, eu literalmente beijava, na boca o Pimpão.

— Maldição, Chinfreta! Quem diabo vem a ser o Pimpão?

— Meu ursinho cor de rosa, que até então eu guardava a sete chaves...

Fonte:
Aparecido Raimundo de Souza. Comédias da vida na privada. RJ: Editora AMC-GUEDES, 2020.     Texto enviado pelo autor.

Lima Barreto (A Nova Califórnia)


Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...

Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.

— Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.

Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos como os da farmácia —um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse.

O alarme se fez na vila. Para uns, os mais adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o tinhoso.

Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um "credo" em voz baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.

Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluirá que o desconhecido devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos científicos.

Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico, que viera habitar a cidade.

De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crespúsculo, todos se descobriam e não era raro que às "boas noites" acrescentassem "doutor". E tocava muito o coração daquela gente a profunda simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que elas tivessem nascido para sofrer e morrer.

Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.

Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...

Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que não tinha em grande conta os méritos do novo habitante.

Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. "Vocês hão de ver, dizia ele, quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio."

A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático. Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do Capitão Pelino, e mesmo quando se falava em algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: "Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve: 'um outro', 'de resto'..." E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma cousa amarga.

Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores glórias nacionais. Um sábio...

Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Candido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dous dedos de prosa. Conversar é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão-somente a ouvir. Quando, porém, dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. "Eu asseguro, dizia o agente do Correio, que..." Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: "Não diga 'asseguro' Senhor Bernardes; em português é garanto."

E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras, houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.

Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas, como era generoso—pai da pobreza—e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como químico de valor.

II

Havia já anos que o químico vivia em Tubiacanga, quando, uma bela manhã, Bastos o viu entrar pela botica adentro. O prazer do farmacêutico foi imenso. O sábio não se dignara até aí visitar fosse quem fosse e, certo dia, quando o sacristão Orestes ousou penetrar em sua casa, pedindo-lhe uma esmola para a futura festa de Nossa Senhora da Conceição, foi com visível enfado que ele o recebeu e atendeu.

Vendo-o, Bastos saiu de detrás do balcão, correu a recebê-lo com a mais perfeita demonstração de quem sabia com quem tratava e foi quase em uma exclamação que disse:

—Doutor, seja bem-vindo.

O sábio pareceu não se surpreender nem com a demonstração de respeito do farmacêutico, nem com o tratamento universitário. Docemente, olhou um instante a armação cheia de medicamentos e respondeu:

— Desejava falar-lhe em particular, Senhor Bastos.

O espanto do farmacêutico foi grande. Em que poderia ele ser útil ao homem, cujo nome corria mundo e de quem os jornais falavam com tão acendrado respeito? Seria dinheiro? Talvez... Um atraso no pagamento das rendas, quem sabe? E foi conduzindo o químico para o interior da casa, sob o olhar espantado do aprendiz que, por um momento, deixou a "mão" descansar no gral, onde macerava uma tisana qualquer.

Por fim, achou ao fundo, bem no fundo, o quartinho que lhe servia para exames médicos mais detidos ou para as pequenas operações, porque Bastos também operava. Sentaram-se e Flamel não tardou a expor:

— Como o senhor deve saber, dedico-me à química, tenho mesmo um nome respeitado no mundo sábio...

— Sei perfeitamente, doutor, mesmo tenho disso informado, aqui, aos meus amigos.

— Obrigado. Pois bem: fiz uma grande descoberta, extraordinária. . .

Envergonhado com o seu entusiasmo, o sábio fez uma pausa e depois continuou:

— Uma descoberta... Mas não me convém, por ora, comunicar ao mundo sábio, compreende?

— Perfeitamente.

— Por isso precisava de três pessoas conceituadas que fossem testemunhas de uma experiência dela e me dessem um atestado em forma, para resguardar a prioridade da minha invenção... O senhor sabe: há acontecimentos imprevistos e...

— Certamente! Não há dúvida!

— Imagine o senhor que se trata de fazer ouro...

— Como? O quê? fez Bastos, arregalando os olhos.

— Sim! Ouro! disse, com firmeza, Flamel.

— Como?

— O senhor saberá, disse o químico secamente. A questão do momento são as pessoas que devem assistir à experiência, não acha?

— Com certeza, é preciso que os seus direitos fiquem resguardados, porquanto...

— Uma delas, interrompeu o sábio, é o senhor; as outras duas, o Senhor Bastos fará o favor de indicar-me.

O boticário esteve um instante a pensar, passando em revista os seus conhecimentos e, ao fim de uns três minutos, perguntou:

— O Coronel Bentes lhe serve? Conhece?

— Não. O senhor sabe que não me dou com ninguém aqui.

— Posso garantir-lhe que é homem sério, rico e muito discreto.

— E religioso? Faço-lhe esta pergunta, acrescentou Flamel logo, porque temos que lidar com ossos de defunto e só estes servem...

— Qual! E quase ateu...

— Bem! Aceito. E o outro?

Bastos voltou a pensar e dessa vez demorou-se um pouco mais consultando a sua memória... Por fim, falou:

— Será o Tenente Carvalhais, o coletor, conhece?

— Como já lhe disse...

— E verdade. E homem de confiança, sério, mas...

— Que é que tem?

— E maçom.

— Melhor.

— E quando é?

— Domingo. Domingo, os três irão lá em casa assistir à experiência e espero que não me recusarão as suas firmas para autenticar a minha descoberta.

— Está tratado.

Domingo, conforme prometeram, as três pessoas respeitáveis de Tubiacanga foram à casa de Flamel, e, dias depois, misteriosamente, ele desaparecia sem deixar vestígios ou explicação para o seu desaparecimento.

III

Tubiacanga era uma pequena cidade de três ou quatro mil habitantes, muito pacífica, em cuja estação, de onde em onde, os expressos davam a honra de parar. Há cinco anos não se registrava nela um furto ou roubo. As portas e janelas só eram usadas... porque o Rio as usava.

O único crime notado em seu pobre cadastro fora um assassinato por ocasião das eleições municipais; mas, atendendo que o assassino era do partido do governo, e a vítima da oposição, o acontecimento em nada alterou os hábitos da cidade, continuando ela a exportar o seu café e a mirar as suas casas baixas e acanhadas nas escassas águas do pequeno rio que a batizara.

Mas, qual não foi a surpresa dos seus habitantes quando se veio a verificar nela um dos repugnantes crimes de que se tem memória! Não se tratava de um esquartejamento ou parricídio; não era o assassinato de uma família inteira ou um assalto à coletoria; era coisa pior, sacrílega aos olhos de todas as religiões e consciências: violavam-se as sepulturas do "Sossego", do seu cemitério, do seu campo santo.

Em começo, o coveiro julgou que fossem cães, mas, revistando bem o muro, não encontrou senão pequenos buracos. Fechou-os; foi inútil. No dia seguinte, um jazigo perpétuo arrombado e os ossos saqueados; no outro, um carneiro e uma sepultura rasa. Era gente ou demônio. O coveiro não quis mais continuar as pesquisas por sua conta, foi ao subdelegado e a notícia espalhou-se pela cidade.

A indignação na cidade tomou todas as feições e todas as vontades. A religião da morte precede todas e certamente será a última a morrer nas consciências. Contra a profanação, clamaram os seis presbiterianos do lugar—os bíblicos, como lhes chama o povo; clamava o Agrimensol Nicolau, antigo cadete, e positivista do rito Teixeira Mendes; clamava o Major Camanho, presidente da Loja Nova Esperança; clamavam o turco Miguel Abudala, negociante de armarinho, e o cético Belmiro, antigo estudante, que vivia ao deus-dará, bebericando parati nas tavernas. A própria filha do engenheiro residente da estrada de ferro, que vivia desdenhando aquele lugarejo, sem notar sequer os suspiros dos apaixonados locais, sempre esperando que o expresso trouxesse um príncipe a desposá-la—, a linda e desdenhosa Cora não pôde deixar de compartilhar da indignação e do horror que tal ato provocara em todos do lugarejo. Que tinha ela com o túmulo de antigos escravos e humildes roceiros? Em que podia interessar aos seus lindos olhos pardos o destino de tão humildes ossos? Porventura o furto deles perturbaria o seu sonho de fazer irradiar a beleza de sua boca, dos seus olhos e do seu busto nas calçadas do Rio?

Decerto, não; mas era a Morte, a Morte implacável e onipotente, de que ela também se sentia escrava, e que não deixaria um dia de levar a sua linda caveirinha para a paz eterna do cemitério. Aí Cora queria os seus ossos sossegados, quietos e comodamente descansando num caixão bem feito e num túmulo seguro, depois de ter sido a sua carne encanto e prazer dos vermes...

O mais indignado, porém, era Pelino. O professor deitara artigo de fundo, imprecando, bramindo, gritando: "Na estória do crime, dizia ele, já bastante rica de fatos repugnantes, como sejam: o esquartejamento de Maria de Macedo, o estrangulamento dos irmãos Fuoco, não se registra um que o seja tanto como o saque às sepulturas do 'Sossego'. "

E a vila vivia em sobressalto. Nas faces não se lia mais paz; os negócios estavam paralisados; os namoros suspensos. Dias e dias por sobre as casas pairavam nuvens negras e, à noite, todos ouviam ruídos, gemidos, barulhos sobrenaturais... Parecia que os mortos pediam vingança...

O saque, porém, continuava. Toda noite eram duas, três sepulturas abertas e esvaziadas de seu fúnebre conteúdo. Toda a população resolveu ir em massa guardar os ossos dos seus maiores. Foram cedo, mas, em breve, cedendo à fadiga e ao sono, retirou-se um, depois outro e, pela madrugada, já não havia nenhum vigilante. Ainda nesse dia o coveiro verificou que duas sepulturas tinham sido abertas e os ossos levados para destino misterioso.

Organizaram então uma guarda. Dez homens decididos juraram perante o subdelegado vigiar durante a noite a mansão dos mortos.

Nada houve de anormal na primeira noite, na segunda e na terceira; mas, na quarta, quando os vigias já se dispunham a cochilar, um deles julgou lobrigar um vulto esgueirando-se por entre a quadra dos carneiros. Correram e conseguiram apanhar dois dos vampiros. A raiva e a indignação, até aí sopitadas no ânimo deles, não se contiveram mais e deram tanta bordoada nos macabros ladrões, que os deixaram estendidos como mortos.

A notícia correu logo de casa em casa e, quando, de manhã, se tratou de estabelecer a identidade dos dois malfeitores, foi diante da população inteira que foram neles reconhecidos o Coletor Carvalhais e o Coronel Bentes, rico fazendeiro e presidente da Câmara. Este último ainda vivia e, a perguntas repetidas que lhe fizeram, pôde dizer que juntava os ossos para fazer ouro e 0 companheiro que fugira era 0 farmacêutico.

Houve espanto e houve esperanças. Como fazer ouro com ossos? Seria possível? Mas aquele homem rico, respeitado, como desceria ao papel de ladrão de mortos se a coisa não fosse verdade!

Se fosse possível fazer, se daqueles míseros despojos fúnebres se pudesse fazer alguns contos de réis, como não seria bom para todos eles!

O carteiro, cujo velho sonho era a formatura do filho, viu logo ali meios de consegui-la. Castrioto, o escrivão do juiz de paz, que no ano passado conseguiu comprar uma casa, mas ainda não a pudera cercar, pensou no muro, que lhe devia proteger a horta e a criação. Pelos olhos do sitiante Marques, que andava desde anos atrapalhado para arranjar um pasto, pensou logo no prado verde do Costa, onde os seus bois engordariam e ganhariam forças...

Às necessidades de cada um, aqueles ossos que eram ouro viriam atender, satisfazer e felicitá-los; e aqueles dois ou três milhares de pessoas, homens, crianças, mulheres, moços e velhos, como se fossem uma só pessoa, correram à casa do farmacêutico.

A custo, o subdelegado pôde impedir que varejassem a botica e conseguir que ficassem na praça, à espera do homem que tinha o segredo de todo um Potosi. Ele não tardou a aparecer. Trepado a uma cadeira, tendo na mão uma pequena barra de ouro que reluzia ao forte sol da manhã, Bastos pediu graça, prometendo que ensinaria o segredo, se lhe poupassem a vida. "Queremos já sabe-lo," gritaram. Ele então explicou que era preciso redigir a receita, indicar a marcha do processo, os reativos—trabalho longo que só poderia ser entregue impresso no dia seguinte. Houve um murmúrio, alguns chegaram a gritar, mas o subdelegado falou e responsabilizou-se pelo resultado.

Docilmente, com aquela doçura particular às multidões furiosas, cada qual se encaminhou para casa, tendo na cabeça um único pensamento: arranjar imediatamente a maior porção de ossos de defunto que pudesse.

O sucesso chegou à casa do engenheiro residente da estrada de ferro. Ao jantar, não se falou em outra coisa. O doutor concatenou o que ainda sabia do seu curso, e afirmou que era impossível. Isto era alquimia, coisa morta: ouro é ouro, corpo simples, e osso é osso, um composto, fosfato de cal. Pensar que se podia fazer de uma coisa outra era "besteira". Cora aproveitou o caso para rir-se petropolimente da crueldade daqueles botocudos; mas sua mãe, Dona Emilia, tinha fé que a coisa era possível.

À noite, porém, o doutor percebendo que a mulher dormia, saltou a janela e correu direto ao cemitério; Cora, de pés nus, com as chinelas nas mãos, procurou a criada para irem juntas à colheita de ossos. Não a encontrou, foi sozinha; e Dona Emília, vendo-se só, adivinhou o passeio e lá foi também. E assim aconteceu na cidade inteira. O pai, sem dizer nada ao filho, saía; a mulher, julgando enganar o marido, saía; os filhos, as filhas, os criados—toda a população, sob a luz das estrelas assombradas, correu ao satânico rendez-vous no "Sossego". E ninguém faltou. O mais rico e o mais pobre lá estavam. Era o turco Miguel, era o professor Pelino, o doutor Jerônimo, o Major Camanho, Cora, a linda e deslumbrante Cora, com os seus lindos dedos de alabastro, revolvia a sânie das sepulturas, arrancava as carnes, ainda podres agarradas tenazmente aos ossos e deles enchia o seu regaço até ali inútil. Era o dote que colhia e as suas narinas, que se abriam em asas rosadas e quase transparentes, não sentiam o fétido dos tecidos apodrecidos em lama fedorenta...

A desinteligência não tardou a surgir; os mortos eram poucos e não bastavam para satisfazer a fome dos vivos. Houve facadas, tiros, cachações. Pelino esfaqueou o turco por causa de um fêmur e mesmo entre as famílias questões surgiram. Unicamente, o carteiro e o filho não brigaram. Andaram juntos e de acordo e houve uma vez que o pequeno, uma esperta criança de onze anos, até aconselhou ao pai: "Papai vamos aonde está mamãe; ela era tão gorda..."

De manhã, o cemitério tinha mais mortos do que aqueles que recebera em trinta anos de existência. Uma única pessoa lá não estivera, não matara nem profanara sepulturas: fora o bêbado Belmiro.

Entrando numa venda, meio aberta, e nela não encontrando ninguém, enchera uma garrafa de parati e se deixara ficar a beber sentado na margem do Tubiacanga, vendo escorrer mansamente as suas águas sobre o áspero leito de granito—ambos, ele e o rio, indiferentes ao que já viram, mesmo à fuga do farmacêutico, com o seu Potosi e o seu segredo, sob o dossel eterno das estrelas.

Fonte:
BARRETO, Lima.   A Nova Califórnia - Contos.  Publicado em 1910.