quarta-feira, 5 de maio de 2021

Estante de Livros (Porteira Fechada, de Cyro Martins)

I- O Autor:


Cyro Martins nasceu em Quaraí/RS, em 1908. Médico psicanalista, foi contista, ensaísta e romancista. Pertenceu ao grupo de autores do chamado 'romance de 30', na medida em que sua obra se adequou às características levantadas para os escritores que produziram narrativas 'em que são apresentadas de forma direta os modos de existência de sociedades concretas ou supostamente concretas'.

Enquanto nos apresenta o monarca dos pampas, personagem épica na conquista e defesa da terra, Cyro fornece a outra visão do gaúcho: o trabalhador descapitalizado, pobre, desempregado, que substitui o trabalho do campo por um subemprego na cidade - o gaúcho a pé. Não há nada de épico, portanto, nas personagens de Cyro Martins.

O Autor morre em 1995.

II- Trilogia do gaúcho a pé

Quero salientar que nunca quis contribuir com a ampliação da mentira do monarca das cochilas. Nunca trarei o gaúcho como personagem em estilo ufanista. Pelo contrário, procurei ser realista, para poder ser útil de alguma forma” [Cyro Martins].

A temática do gaúcho a pé, cujo aspecto nuclear é a lenta expulsão dos peões da estância e sua inexorável pauperização nos cinturões da miséria das cidades da campanha, não foi apenas um achado casual. A temática surgiu a partir de um modo de viver os problemas, da sua circunstância social. Como médico em São João Batista do Quaraí, cenário de todos os seus romances, conheceu de perto e muito cedo as diferenças sociais e a miséria instituída pelos latifúndios.

Deste modo, na trilogia do gaúcho a pé, composta de Sem rumo, Porteira fechada e Estrada nova, Cyro Martins faz uma operação dolorosa, um corte vertical e profundo nos problemas sócio-econômicos que afligem a campanha a partir de 1910/20 e que vêm se avolumando.

Contexto histórico da obra Porteira Fechada

O Rio Grande do Sul dos anos 30 vive uma época de intensa efervescência política, a Revolução de 30 coloca o estado no cenário político nacional com Getúlio Vargas, que após o golpe de 37, cria o Estado Novo, decretando uma Constituição fascista, fecha o Congresso, suspende as eleições, proíbe partidos e censura a imprensa.

No cenário econômico, o Rio Grande do Sul, ainda em expansão no setor agro-pastoril, perde força no mercado nacional, competindo com produtos do centro do país. Reduzida a renda familiar e atingida drasticamente a pequena propriedade, começa a aparecer o excedente populacional nas colônias. É o primeiro passo para o fluxo migratório e o surgimento dos sem-terra.

1. Porteira fechada

Em 1944, a sua trilogia do gaúcho a pé, com Porteira fechada.

Apesar de ser um romance autônomo, que pode ser lido separadamente dos demais, continua a temática do gaúcho sem terra, iniciada em Sem rumo, e que vai terminar com Estrada nova.

Décio Freitas, na introdução que faz à Porteira fechada, comenta a consciência aguda de Cyro Martins em pintar com talento determinadas relações sociais de produção, uma das 'mais belas tentativas de romance social já realizadas entre nós'. Décio Freitas, neste mesmo prefácio, situa Cyro Martins entre os maiores romancistas rio-grandenses. Exige do autor, no entanto, um passo à frente na construção do romance, na penetração psicológica, ou seja, realização integral das suas possibilidades: “já tem experiência e equilíbrio em tal grau, que o que lhe falta em vigor artístico talvez venha a ser complementado quando Cyro Martins acertar de todo na sua vida sociológica da campanha sul-riograndense.

Porteira fechada configura a tirania econômica da classe dominante sobre a massa de trabalhadores rurais. O problema básico é - e continua sendo - o da distribuição, o da exploração das massas. A tirania econômica impõe um assalto à pequena estância; ocasiona a crise, que se traduz no êxodo contínuo às cidades do interior e à capital.

João Guedes, gaúcho pobre, com meia quadra de campo arrendado, criava e cultivava para sobreviver. Mas a miséria, antes tolerável na estância, alcança situação extrema e terrível quando o proprietário se vê obrigado a vender a quadro e o novo dono a requer para engorde do seu gado. Expulso do seu chão, João Guedes vai para os ranchos que cercam a cidade de Boa Ventura. A decadência econômica, psicológica e moral de João Guedes empurra-o para o roubo. Quase não reage, quando uma de suas filhas morre de tuberculose e a outra se prostitui. A família de João Guedes chega ao último grau da degradação humana e sua morte miserável constitui apenas o corolário deste desajuste social.

Cyro Martins, com um toque irônico, conclui: “Que engorde dava aquela invernada! Para um fim de safra, então, já com caídas para o inverno, não havia campo que se igualasse. Seiscentos novilhos pastavam folgadamente entre as altas cercas de sete fios e madeirame de lei que a tapavam. O sol entrou sem grandes esplendores. A noite caiu suavemente. Que paz naqueles campos!

2. As coxilhas sem monarca

Monarca das coxilhas= símbolo de hombridade, bravura e fortaleza de espírito.

Cyro Martins detecta e passa a analisar o problema da gradativa marginalização do gaúcho, sua expulsão da estância e seu servilismo. As causas vêm à tona aos poucos. Em Sem rumo o autor opõe de modo muito simples a ideia de um campo agradável e protetor, ainda que pobre, e de uma cidade desumana. Já em Porteira fechada, a crise econômica é causa direta dos desequilibrados, conflitos e traumas, da miséria de toda a família de João Guedes. Os personagens permanecem num total servilismo em relação ao sistema que lhes foi imposto.

Os temas de proporções épicas não correspondiam mais à realidade da desalentadora década de 1930/40. Os temas clássicos do regionalismo estavam gastos e estereotipados e Cyro Martins trouxe à tona a transição da estrutura econômica, política e social.

As personagens que porventura possamos extrair das entranhas do processo histórico a que estão subordinadas possuem uma estrutura mental primária, tanto que nem se capacitam da própria desgraça. E como essas coroas de miséria que circundam as cidades constituem uma população doente, desnutrida, consequentemente, desanimada, não possuem nem sequer o elã do protesto.

Poucos são os escritores que possuem uma visão tão clara de sua obra, dos limites e de suas potencialidades. Cyro Martins recriou um mundo, uma época de crise e de intensas transformações. Resgatou-a com empenho e talento e tornou-a viva para sempre. Além de perseverança e talento, Cyro Martins teve sorte: a vida deu-lhe cancha. E ele soube aproveitá-la.

III- Resumo:

A marginalização do gaúcho a pé, o gaúcho pobre que foi obrigado a refugiar-se, sem eira nem beira, nos arredores das cidadezinhas. Ali perde o interesse pelo trabalho, o gosto de viver, emborracha-se, adoece e morre na miséria. Esse gaúcho desenraizado, inconforme, encurralado no rancherio miserável, é apresentado na figura de João Guedes que encarna todos os sem-rumos da campanha que vêm dar nos arrabaldes das grandes cidades, onde eles, aos poucos, sentem que não encontrarão maneiras de subsistir.

Um livro apaixonadamente humano, exato e sincero na descrição das condições horríveis em que está sendo atirada a massa dos nossos trabalhadores rurais. João Guedes, o gaúcho honesto e sofredor, era pobre, com a sua meia quadra de campo arrendado. Naquela meia quadra, ele criava e cultivava, com frutos mais do que parcos e miseráveis. Mas um dia a coisa piorou mais ainda, porque o proprietário da meia quadra teve que vendê-la e o novo proprietário quis o campinho para um 'engorde'. E João Guedes é expulso do seu pedaço de terra, atirado sem rumo na estrada nova, indo para os ranchos que cercam Boa Ventura, uma típica cidadezinha do interior. Ali ele vai sofrer um processo implacável de decadência material e moral que culmina com a prática do roubo, a morte por tuberculose de uma das filhas, a perdição da outra. Um rosário de miséria, o deboche total dum punhado de seres humanos. João Guedes e a sua família chegam ao último grau de desajustamento social.

Fontes:
Algo sobre.
Passeiweb

terça-feira, 4 de maio de 2021

Adega de Versos 18: Hipólito Moura

 


Silmar Böhrer (Croniquinha) 23

Escrito nas estrelas que a comunicação é uma forma de transmitir conhecimentos. E não é à toa que o século vinte e um é chamado de era da comunicação - estendida para era do conhecimento.

A explosão das redes sociais nos dá a chance de buscar conhecimentos e saber de toda espécie. Não tenho notícia de outras civilizações que tenham tido a democratização do conhecimento como a atual. Mas assim como temos as tecnologias a serviço da informação e do conhecimento, muita gente também usa os meios tradicionais de buscar e disseminar cultura.

Sou dessa casta que usa os correios incessantemente, encaminhando livros e versos e prosas - meus pássaros perdidos -, assim como escrevo e recebo cartas há décadas, algumas sazonais, outras semanais, como é o caso de dois missivistas com quem troco envelopes há quase três décadas.

E quem não gosta de receber o agente do correio, entregando algo esperado, e também o não esperado ? A surpresa até parece mais gostosa, aguça a expectativa . . . E quem não fica contente quando chega um pacote maior amarrado com barbante, sabendo que chega um livro, dois livros ou mais ? Comunicação à vista, cultura chegando, saber tocando a campainha.

Alvíssaras sempre ! Delícias perenes !

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Olavo Bilac (O Pecado)

A Anacleta ia caminho da igreja, muito atrapalhada, pensando no modo porque havia de dizer ao confessor os seus pecados... Teria a coragem de tudo? E a pobre Anacleta tremia só com a ideia de contar a menor daquelas coisas ao severo padre Roxo, um padre terrível, cujo olhar de coruja punha um frio na alma da gente. E a desventurada ia quase chorando de desespero, quando, já perto da igreja, encontrou a comadre Rita.

Abraços, beijos... E lá ficam as duas, no meio da praça, ao sol, conversando.

— Venho da igreja, comadre Anacleta, venho da igreja... Lá me confessei com o padre Roxo, que é um santo homem...

— Ai! comadre! — gemeu a Anacleta — Também para lá vou... e se soubesse com que medo! Nem sei se terei a ousadia de dizer os meus pecados... Aquele padre é tão rigoroso...

— Histórias, comadre, histórias! — exclamou a Rita — vá com confiança e verá que o padre Roxo não é tão mal como se diz...

— Mas é que meus pecados são grandes...

— E os meus então, filha? Olhe: disse-os todos e o Sr. padre Roxo me ouviu com toda a indulgência...

— Comadre Rita, todo o meu medo é da penitência que ele me há de impor, comadre Rita...

— Qual penitência, comadre?! — diz a outra, rindo — as penitências que ele impõe são tão brandas!... Quer saber? contei-lhe que ontem o José Ferrador me deu um beijo na boca... um grande pecado, não é verdade? Pois sabe a penitência que o padre Roxo me deu?... Mandou-me ficar com a boca de molho na pia de água benta durante cinco minutos...

— Ai! que estou perdida, senhora comadre, ai! que estou perdida! — desata a gritar a Anacleta, rompendo num pranto convulsivo — Ai! que estou perdida!

A comadre Rita, espantada, tenta em vão sossegar a outra:

— Vamos, comadre! que tem? então que é isso? Sossegue! Tenha modos! Que é isso que tem?

E a Anacleta, chorando sempre:

— Ai, comadre! é que, se ele me dá a mesma penitência que deu á senhora, não sei o que hei de fazer!

— Porque, filha? Porque?

— Porque... porque... afinal de contas... eu não sei como é que... hei de tomar um banho de assento na pia!…

Fonte:
Olavo Bilac. 7 melhores contos (seleção por August Nemo).Tacet books.

Carla Rejane Silva (Insensata loucura)

Dia destes resolvi, num impulso, mudar um pouco a minha rotina diária. Pensei com meus botões: hoje não farei nada que antes me era habituável, ou seja, lavar passar cozinhar etc. Naquele momento o meu desejo, ou melhor, uma ânsia quase sexual, me direcionou a sair daquela mesmice. Peguei meu celular, o carregador, o notebook, passei a mão na minha mochila contendo algumas peças básicas, e parti alegre e saltitante rumo ao destino previamente programado.

Cheguei horas depois em um condomínio com apartamentos particulares alugados, tanto nas modalidades anual, mensal como, igualmente, diária. Em face da reserva feita em programação antes de sair do aconchego do meu lar, apenas me identifiquei na portaria. Fui prontamente atendida por um homem super educado, dono de um sorriso maravilhoso e cativante, de nome Orlando.

Após as apresentações pessoais e documentais, seu Orlando chamou um funcionário, que gentilmente me acompanhou até as dependências do loft que eu havia alugado. Ao adentrar no edifício, me encantei com o nome do prédio. Era uma construção de três andares e fora batizado com o nome de ‘Saudade’. De imediato, gostei deste nome. Saudade. Saudade, sempre me trazia doces recordações de um passado não muito distante. Havia uma centena de vasos de plantas espalhados em derredor, o que contribuía para formar um jardim florido, acolhedor e muito elegante por sinal.

Ao adentrar por um corredor comprido, percebi que por todo o hall, até próximo dos dois elevadores, mais plantas existiam.  Na cabine do social, o moço de nome Eusébio, apertou o terceiro. Este andar se constituía numa cobertura elegantemente bem aconchegante com uma banheira jacusi.  Ao ser aberta a porta da unidade na qual eu ficaria, dei de cara com uma poltrona marrom, de três lugares, ao lado de uma mesinha de centro com alguns bibelôs enfeitando.

Havia também um aparelho de televisão, uma mini geladeira, a cama de casal em formato de coração e um guarda roupas de duas portas. Agradeci a gentileza do rapaz e mandei-lhe uma gorjeta modesta. O funcionário agradeceu com um gesto mais de gentileza que pelo valor do dinheiro que metera correndo no bolso da calça.  Porta fechada, passei uma rápida ‘de visu’ no apartamento. Na verdade não se constituía exatamente naquilo que eu imaginava, se fazia muito melhor.

Espiei tudo, canto por canto, cômodo por cômodo. O quarto escolhido, possuía uma pequena varanda que, por sinal, me permitia ter uma visão maravilhosa do que havia à minha frente. Diante dos meus olhos, se apresentava algo esplendoroso. Um mar imenso e sem fim,  um oceano de águas calmas que se confundia com o azul do céu. Um azul infinitamente glorioso e belo. Desfiz minha pequena bagagem, guardei os pertences, no banheiro e o resto, numa das gavetas do guarda-roupas.

Para relaxar um pouco mais, tomei um gostoso banho de quase uma hora, coloquei um biquini confortável, e me preparei para ir até a praia.  Antes de sair, liguei meu notebook  para ver as novidades. Na caixa de mensagens do zap, talvez alguns e-mails deixados pelos amigos, me fariam  mais feliz do que eu já estava. Liguei o Wi-Fi e nada, sem conexão local. Tentei o roteador do meu note, igualmente, uma mensagem me pediu para harmonizar  com o aparelho do meu uso, no caso, meu celular. Nada.

Uma outra gravação lembrou que o número a e senha não existiam. Procurei insistentemente várias outras maneiras de me conectar e tudo redundou sem sucesso. Corri ao telefone fixo e disquei o ‘UM’ da recepção. À jovem que me atendeu, expliquei a situação. A resposta dela foi lacônica e em resumo, esclarecia o seguinte: ‘Senhora, a senha e o número de seu aparelho, só a senhora possui. Nós aqui não podemos ajudá-la neste infortúnio. Todavia, iremos mandar um de nossos funcionários para tentar ajudá-la’.

Agradeci e aguardei. Cinco minutos depois, de fato, o funcionário que o Condomínio me disponibilizou tentou, de várias formas me conectar ao mundo virtual, e como das vezes anteriores, sem sinal. Dispensei o cidadão bastante chateada. Me senti meio que desnorteada, abusada no que considerava uma de minhas necessidades básicas, a Internet. Por mais que a beleza que me rodeava e me ofuscava lá fora, além da varanda, perdi o colorido do passeio, foi para o beleléu. Nesse interregno, o telefone da sala do apartamento tocou. Ao atendê-lo, a mesma funcionária que há pouco falara comigo, me informou que a ‘Internet fora desligada por problemas técnicos, e que só retornaria na segunda feira, por ser final de semana’.

Foi a gota d’água que transbordou o copo. Para aumentar a minha ira, alavancar meu desespero interior, e bolinar de forma abrupta, no meu estresse virtualizado, me vi sem chão. Ato contínuo, voltei a contactar com a moça da recepção pedindo a ela que fechasse a minha estadia, sem muitas delongas. Em troca, recebi um calhamaço de desculpas e um abatimento na diária que eu havia pago. Dos males, o melhor nesta confusão toda. Desliguei tudo, refiz as minhas bugigangas, peguei meu aparelho, até então ‘apareado’ sem estar parido e voltei triste e infeliz ao meu  destino, à minha rotina e, principalmente, à minha vida extra virtual.

Texto enviado pela autora.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Mia Couto (Falas do velho Tuga)


Quer que eu lhe fale de mim, quer saber de um velho asilado que nem sequer é capaz de se mexer da cama? Sobre mim sou o menos indicado para falar. E sabe porquê? Porque estranhas névoas me afastaram de mim. E agora, que estou no final de mim, não recordo ter nunca vivido.

Estou deitado neste mesmo leito há cinco anos. As paredes em volta parecem já forrar a minha inteira alma. Já nem distingo corpo do colchão. Ambos têm o mesmo cheiro, a mesma cor: o cheiro e cor da morte. Morrer, para mim, sempre foi o grande acontecimento, a surpresa súbita. Afinal, não me coube tal destino. Vou falecendo nesta grande mentira que é a imobilidade.

Também eu amei uma mulher. Foi há tempo distante. Nessa altura, eu receava o amor. Não sei se temia a palavra ou o sentimento. Se o sentimento me parecia insuficiente, a palavra soava a demasiado. Eu a desejava, sim, ela inteira, sexo e anjo, menina e mulher. Mas tudo isso foi noutro tempo, ela era ainda de tenrinha idade.

Este lugar é a pior das condenações. Já nem as minhas lembranças me acompanham. Quando eu chamo por elas me ocorrem pedaços rasgados, cacos desencontrados. Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida. E assim ter a certeza que morro de uma só única vez. Mas não: mesmo para morrer sofro de incompetências. Eu deveria ser generoso a ponto de me suicidar. Sem chamar morte nem violentar o tempo. Simplesmente deixarmos a alma escapar por uma fresta.

Ainda há dias um desses rasgões me ocorreu por dentro. É que me surgiu, mais forte que nunca, esse pressentimento de que alguém me viria buscar. Fiquei a noite às claras, meus ouvidos esgravatando no vão escuro. E nada, outra vez nada. Quando penso nisso um mal-estar me atravessa. Sinto frio mas sei que estamos no pico do Verão. Tremores e arrepios me sacodem. Me recordo da doença que me pegou mal cheguei a este continente.

África: comecei a vê-la através da febre. Foi há muitos anos, num hospital da pequena vila, mal eu tinha chegado. Eu era já um funcionário de carreira, homem feito e preenchido. Estava preparado para os ossos do ofício mas não estava habilitado às intempéries do clima. Os acessos da malária me sacudiam na cama do hospital apenas uma semana após ter desembarcado. As tremuras me faziam estranho efeito: eu me separava de mim como duas placas que se descolam à força de serem abanadas.

Em minha cabeça, se formavam duas memórias. Uma, mais antiga, se passeava em obscura zona, olhando os mortos, suas faces frias. A outra parte era nascente, reluzente, em estreia de mim. Graças à mais antiga das doenças, em dia que não sei precisar, tremendo de suores, eu dava à luz um outro ser, nascido de mim.

Fiquei ali, na enfermaria penumbrosa, intermináveis dias. Uma estranha tosse me sufocava. Da janela me chegavam os brilhos da vida, os cantos dos infinitos pássaros. Estar doente num lugar tão cheio de vida me doía mais que a própria doença.

Foi então que eu vi a moça. Branca era a bata em contraste com a pele escura: aquela visão me despertava apetites no olhar. Ela se chamava Custódia. Era esta mesma Custódia que hoje está conosco. Na altura, ela não era mais que uma menina, recém-saída da escola. Eu não podia adivinhar que essa mulher tão jovem e tão bela me fosse acompanhar até ao final dos meus dias. Foi a minha enfermeira naqueles penosos dias. A primeira mulher negra que me tocava era uma criatura meiga, seus braços estendiam uma ponte que vencia os mais escuros abismos.

Todas as tardes ela vinha pelo corredor, os botões do uniforme desapertados, não era a roupa que se desabotoava, era a mulher que se entreabria. Ou será que por não ver mulher há tanto tempo eu perdera critério e até uma negra me porventurava? Me admirava a secura daquela pele, 0 gesto cheio de sossegos, educado para maternidades. Enquanto rodava pelo meu leito eu tocava em seu corpo. Nunca acariciara tais carnes: polposas mas duras, sem réstia de nenhum excesso.

Os dias passavam, as maleitas se sucediam. Até que, numa tarde, me assaltou um vazio como se não houvesse mundo. Ali estava eu, na despedida de ninguém. Olhei a janela: um pássaro, pousado no parapeito, recortava o poente. Foi nesse pôr do Sol que Custódia, a enfermeira, se aproximou. Senti seus passos, eram passadas delicadas, de quem sabe do chão por andar sempre descalço.

– Eu tenho um remédio, disse Custódia. É um medicamento que usamos na nossa raça. O Senhor Fernandes quer ser tratado dessa maneira?

– Quero.

– Então, hoje de noite lhe venho buscar.

E saiu, se apagando na penumbra do corredor. Como em caixilho de sombra a sua figura se afastava, imóvel como um retrato. Na janela, o pássaro deixou de se poder ver. Adormeci, doído das costas, a doença já tinha aprisionado todo meu corpo. Acordei com um sobressalto. Custódia me vestia uma bata branca, bastante hospitalar.

– Onde vamos?

– Vamos.

E fui, sem mais pergunta, tropeçando pelo corredor. Dali parei a tomar fôlego e, encostado no umbral da porta, olhei o leito onde lutara contra a morte. De repente, estranhas visões me sobressaltaram: deitado, embrulhado nos lençóis, estava eu, desorbitado. Meus olhos estavam sendo comidos pelo mesmo pássaro que atravessara o poente. Gritei Custódia, quem está na minha cama? Ela espreitou e riu-se:

– É das febres, ninguém está lá.

Fui saindo, torteando o passo. Afastamo-nos do hospital, entramos pelos trilhos campestres. Naquele tempo, as palhoças dos negros ficavam longe das povoações. Caminhava em pleno despenhadeiro, o pequeno trilho resvalava as infernais e desluzidas profundezas. Me perdi das vistas, mais tombado que amparado nesse doce corpo de Custódia.

Voltei a acordar como se subisse por uma fresta de luminosidade. Aquela luz fugidia me pareceu, primeiro, o pleno dia. Mas depois senti o fumo dessa ilusão. O calor me confirmou: estava frente a uma fogueira. O calor da cozinha da minha infância me chegou. Escutei o roçar de longas saias, mulheres mexendo em panelas. Saí da lembrança, dei conta de mim: estava nu, completamente despido, deitado em plena areia.

– Custódia!, chamei.

Mas ela não estava. Somente dois homens negros baixavam os olhos em mim. Me deu vergonha ver-me assim, descascado, alma e corpo despejados no chão. Malditos, se preparavam para me degolar? Um deles tinha uma lâmina. Vi como se agachava, o brilho da lâmina me sacudiu. Gritei: aquela era a minha voz? Queriam me matar, eu estava ali entregue às puras selvagerias, candidato a ser esquartejado, sem dó na piedade. Me desisti, covarde, desvalido. De nada lucrava recusar os intentos do negro. O homem cortou-me, sim. Mas não passou de uma pequena incisão no peito. Sangrei, fiquei a ver o sangue escorrer, lento como um rio receoso.

Um dos homens falou em língua que eu desconhecia, seus modos eram de ensonar a noite, a voz parecia a mão de Custódia quando ela me empurrava para o sonho. Voltei a deitar-me. Só então reparei que havia uma lata contendo um líquido amarelado. Com esse líquido me pintavam, em besuntação danada. Depois, me ajeitaram o pescoço para me fazerem beber um amargo licor. Choravam, pareceu-me de início. Mas não: cantavam em surdina. Dores de morrer me puxavam as vísceras. Vomitei, vomitei tanto que parecia estar-me a atirar fora de mim, me desfazendo em babas e azedos. Cansado, sem fôlego nem para arfar, apaguei.

No outro dia, acordei, sem estremunhações. Estava de novo no hospital, vestido de meu regulamentar pijama. Qualquer coisa acontecera? Eu tinha saído em deambulação de magias, rituais africanos? Nada parecia. Verdade era que eu me sentia bem, pela primeira vez me chegavam as forças. Me levantei como uma toupeira saída da pesada tampa do escuro. Primeira coisa: fui à janela. A luz me cegou. Podia haver tantas cores, assim tão vivas e quentes?

Foi então que eu vi as árvores, enormes sentinelas da terra. Nesse momento aprendi a espreitar as árvores. São os únicos monumentos na África, os testemunhos da antiguidade. Me diga uma coisa: lá fora ainda existem? Pergunto sobre as árvores.

Quer saber mais? Agora estou cansado. Tenho que respirar muito. Há tanto tempo que eu não falava assim, às horas de tempo. Não vá ainda, espere. Vamos fazer uma combinação: você divulga estas minhas palavras lá no jornal de Portugal – como é que se chama mesmo o tal jornal? – e depois me ajuda a procurar a minha família. É que sabe: eu só posso sair daqui pela mão deles. Senão, que lugar terei lá no mundo? Traga-me um qualquer parente. Quem sabe, depois disso, ficamos mesmo amigos.

Você sabe como eu confirmo que estou ficando velho? É da maneira que não faço mais amigos. Aqueles de que me lembro são os que eu fiz quando era novo. A idade nos vai minguando, já não fazemos novas amizades. Da próxima vez venha com um parente. Ou faça mesmo o senhor de conta que é meu familiar.

Fonte:
Mia Couto. Contos do nascer da terra.

A. A. De Assis (88 Poeminhas ) – 1 –


Ebook enviado pelo poeta quando da comemoração de seus 88 anos, em 21 de abril de 2021.


01.
Fiat lux.
Assim
começou
a biografia do mundo.

02.
Graças à graça
da luz
tudo o mais
tem graça.

03.
Felizes os anjos,
as aves
e os limpos de coração.
Morantes do céu.

04.
No cosmo a cosmética:
o puro, a verdade, o bem.
A perfeita estética.

05.
Sursum corda.
Deixem que voe
sobre a Terra
a Pomba da Paz.

06.
As Ave-Marias.
As aves, Maria, voam.
De tardinha voltam.

07.
Bem-aventurados
os que sonham.
Chama-os Deus
poetas.

08.
Um vaso de avenca,
minimíssima floresta.
Mas é verde,
é festa.

09.
Anoi /
tecia.
A lua luava
sobre o rio
e ria.

10.
Dobra-se
a roseira
em reverência
à raiz:
a vovó das rosas.

11.
Manhêêê
– diz o menino –
trouxe uma flor
pra você.
Troco por um beijo.

12.
Lesa-poesia.
Chamar à abelha
de inseto
e ao girassol
commodity.

13.
Xô tristeza,
xô cansaço.
Insisto
em pensar azul.

14.
Sonho um tempo
sem vilões.
Falcões dando vez
às pombas
e os fuzis aos violões.

15.
Deixa o beija-flor
um selinho
em cada rosa.
E elas gostam...
ahhhh.

16.
Faz a mão
a roça.
Faz a roça
o pão.

17.
Ave, avós.
Hão de um dia devolver
a vós a voz.

18.
Dizem que a cigarra
nada faz senão cantar.
Ah, é indispensável.

19.
Menininho ao léu.
Um colo onde se deitar
já seria um céu.

20.
Deu-lhe o mundo
a cruz.
E Jesus queria apenas
acender a luz.

21.
Só se é
cidadão
se se é sócio
do pão.

22.
Corrija-se a tempo.
Mais de mater
que de magistra
necessita o mundo.

Continua…
 
Imagem: montagem por José Feldman com fotos obtidas no livro
de Assis, "Vida, Verso e Prosa" e enviadas pelo poeta.

Nilto Maciel (O Sonho Esquecido)

Numa grande cidade viveram, há alguns anos, Moisés, Salomão e Daniel. Suas histórias estão registradas na memória coletiva de seus descendentes. E também nos subterrâneos, nas galerias de esgotos, nas catacumbas, no submundo em que viviam e onde vivem seus filhos e netos.

Naquele tempo (talvez também hoje), depois das correrias, das estripulias, das aventuras noturnas, alguns ratos se reuniam em pequenas assembleias. Às vezes apenas trocavam ideias, narravam fatos, riam ou choravam. A maioria, no entanto, quando não ia dormir, preferia continuar correndo atrás de alimentos e diversões. “Não vale a pena perder tempo em reuniões. A vida é muito curta, embora às vezes seja também muito divertida. Vamos à luta e à farra.”

Pouco a pouco as pequenas reuniões se transformaram em grandes assembleias. E então  apareceram os primeiros chefes e, logo, as primeiras brigas internas. Uma noite, Moisés subiu a um palanque e apresentou uma proposta radical: precisavam implodir a cidade. O mundo deveria vir ao chão. Tudo demolido: prédios, igrejas, fábricas, escolas, quartéis, casas. Recebeu vaias e aplausos. E aproveitou a ocasião para apresentar ao público o nome do grupo que comandava. Não ainda um partido, porém já pronto para grandes batalhas. “Somos os Ratos Mosaicos”. Partidários de outro líder gargalharam e os chamaram de ultrapassados, inimigos da civilização humana. Moisés não se abateu: Não deviam ter medo de nada, de ninguém. Afinal, eram apenas ratos, viviam nos subterrâneos, sem direitos sociais, civis ou políticos. Precisavam derrotar os homens. Nada de esperar pelas grandes pragas prometidas. Elas poderiam matar dois coelhos com uma só paulada: os homens e os ratos.

Salomão pediu a palavra: a implosão significaria a morte de todos os seres, sobretudo dos ratos. Os edifícios viriam abaixo e soterrariam exatamente as redes de esgotos, os subterrâneos. Melhor viverem como viviam, mesmo na miséria, na mais absoluta miséria. E se declarou inimigo dos ideais mosaicos. Nada de implosões, de explosivos. Poderiam solapar a sociedade humana, sim, porém pelo envenenamento das águas. O morticínio seria tão abrangente, tão avassalador, tão repentino que as autoridades nada poderiam fazer. E eles, ratos, tomariam conta da cidade, do mundo. Os próprios gatos morreriam, juntamente com seus donos, seus senhores - os humanos. Eles, ratos, eram livres, não tinham donos. E assim seriam para sempre, porém sem a presença nefasta de gatos e homens.

Salomão discursava com veemência e sempre cheio de filosofias: “Os loucos desprezam a sabedoria e o ensino”; “não tenham inveja dos homens, que são violentos, nem sigam nenhum de seus caminhos”; “morrendo o homem, morre a sua esperança”. E terminava seus discursos com um grito: “Por um mundo novo e salomônico!”

Outra facção - a dos Ratos da Babilônia - apresentou proposta tão revolucionária quanto as duas primeiras. Chefiada por Daniel, pretendia o aniquilamento da raça humana por outra via: o agigantamento dos ratos. Ora, agigantando-se os ratos, não haveria homem capaz de enfrentá-los. Como se daria esse processo de crescimento físico de cada indivíduo rato? Os homens haviam inventado substâncias químicas que vinham provocando o agigantamento dos novos seres humanos. O mesmo deveriam fazer os ratos. Em poucos anos, as gerações de ratos já nasceriam do tamanho de pequenos leões. Na idade adulta, qualquer rato poderia enfrentar um leão adulto. E as presas? Ora, com a superpopulação de ratos gigantes, ferozes e imunes a venenos, seria fácil tomar conta do mundo. Todos os gatos seriam eliminados. E também as serpentes e outros inimigos naturais dos ratos. Os homens, inclusive.

Finalmente apresentou-se Nabucodonosor, dizendo-se rei. Todos se prostraram diante dele, até mesmo os chefes dos grupos. “Tive um sonho; e para sabê-lo está perturbado o meu espírito.” Os ratos ergueram as cabeças e gritaram: “Ó rei, vive eternamente e dize o sonho a teus servos; nossos sábios darão a interpretação de teu sonho.” Nabucodonosor se irritou: “Se não me fizerdes saber o sonho e a sua interpretação, sereis todos despedaçados.” Alguns olhares se voltaram para Daniel. “Ele é sábio e lembrará ao rei o sonho esquecido.” Outros se voltaram para Moisés: “Ele falou com o Senhor, foi mediador entre Ele e os ratos, copiou os dez artigos da lei principal - lembrará ao rei o sonho esquecido.” Houve ainda quem se lembrasse de Salomão: “Ele é sábio e também poeta - lembrará ao rei o sonho esquecido.”

Nesse momento a catacumba ruiu. Morticínio catastrófico. Porém, alguns ratos conseguiram a salvação.

Fonte:
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre: Bestiário, 2006.
Livro enviado pelo autor.

Estante de Livros (Dora, Doralina, de Rachel de Queiroz)

“Dora, Doralina” é um romance da escritora cearense, Rachel de Queiroz, publicado pela primeira vez em 1975.

Na época, Rachel de Queiroz já era famosa pelo clássico da literatura brasileira, “O Quinze”.

Quando “Dora, Doralina” foi publicado, a obra também teve muita visibilidade a ponto de ser adaptada para o cinema brasileiro em 1982, com direção de Perry Salles.

“Dora, Doralina” é dividida em três partes: Livro de Senhora, Livro de Companhia e Livro do Comandante. Os três livros narram a história de Maria das Dores, ou Dora, como ela preferia ser chamada.

Dora é uma jovem simples que vive na fazenda Soledade, no agreste nordestino no interior do Ceará, sob o domínio de sua mãe. Tratada como Senhora, a mãe de Dora era uma mulher que dominava tudo e todos.

As três partes de “Dora, Doralina” trazem a trajetória de Maria das Dores que se muda da fazenda para Fortaleza, depois para o Rio de Janeiro e por fim, seu retorno a fazenda.

Principais personagens
 
    Maria das Dores: protagonista da história. Ela vive submissa ao domínio da mãe, Senhora, até que decide partir para Fortaleza buscar liberdade.
    Senhora: mãe de Maria das Dores. É uma mulher que domina tudo e todos da fazenda Soledade.
    Laurindo: agrimensor que se casa com Maria das Dores, mas em um casamento de convenção familiar e não de amor.
    Cadete Lucas: comandante de um navio por quem Dora se apaixona perdidamente. Contudo, é um homem machista, com tendências a bebedeira e a violência.
    Brandini: dono da Companhia de Teatro, onde Maria das Dores passa a integrar e viajar pelo país.
    Belmiro: um fugitivo suspeito de ter matado Laurindo para livrar Dora do infeliz casamento.
 
Livro de Senhora

A primeira parte de “Dora, Doralina” se dedica a vida de Dora ainda morando na fazenda da Soledade.

Dora perdeu o pai logo cedo e é criada pela mãe, Senhora, uma mulher dominadora que ao invés de dar amor à filha, dá indiferença.

Mesmo a obra não deixando claro quais os motivos, Senhora e Dora não se dão muito bem. Elas não se amam como mãe e filha, mas se suportam.

Segundo Senhora, o nome Maria das Dores foi dado a Dora como uma promessa às dificuldades que teve no parto. Contudo, Dora acha o nome horrível e acredita que a mãe lhe deu esse nome como castigo.

Além disso, Dora gostaria de conversar sobre o pai, já que o perdeu quando ainda era criança. Contudo, é um dos assuntos que Senhora não conversa de forma alguma.

A narrativa do livro deixa bem claro o quão dominadora é Senhora, não somente com a filha, mas com todos que vivem na fazenda.

Um dia, para resolver uma questão acerca de terras, Senhora e um vizinho chamam Laurindo, um agrimensor para solucionar a questão. Nesse contato, ele conhece Dora.

Dora e Laurindo se casam, não em um casamento de amor, mas um casamento meramente social. Eles se casam mais por uma questão de convenção familiar.

Contudo, mesmo depois do casamento Dora continua morando com a mãe. Ou seja, ela ainda tem que aguentar o domínio de Senhora, até que seu marido, Laurindo, é morto e ninguém sabe por quem. Mesmo sendo um caso que não é desvendado durante a narrativa, o livro deixa suspeitas de que o crime pode ter sido cometido por Belmiro.

Belmiro era um fugitivo que recebeu os cuidados por Dora quando apareceu ferido em Soledade. Belmiro adora Doralina, e a acha uma santa.

Após o crime, Dora finalmente resolve se livrar do domínio da mãe e procura liberdade em Fortaleza.
 
Livro de Companhia

A segunda parte de “Dora, Doralina” se inicia quando Dora vai embora da fazenda Soledade e se muda para Fortaleza. Lá, ela vai morar na pensão de D. Loura e trabalha administrando a pensão.
 
Dora conhece senhor Brandini, dono da Cia de Comédias e Burletas Brandici Junior, e então passa a fazer parte da Companhia de Teatro como atriz e viaja por todos os lugares.

Dora, não é mais a mesma da fazenda, agora ela se abre para novas experiências. Assume o nome de palco “Nely Sorel” e faz diversas apresentações pelo país com a Companhia de Teatro.

Ela se torna uma mulher mais madura e convicta dos seus princípios e valores. Sabe lidar com o jeito malandro do senhor Brandini e com as investidas dos homens em geral.

A fase na Companhia de Teatro se trata da aprendizagem e da liberdade que ela tanto lutou e que não tinha quando morava com Senhora. É uma jornada de autoconhecido de Dora.

Com a Companhia de Teatro, Dora viaja por todo país, em uma dessas viagens ela conhece Cadete Lucas, um comandante de navio por quem se apaixona perdidamente.
 
Livro do Comandante

A terceira parte se trata da história do Cadete Lucas com Dora. Ao conhecer o comandante, ela larga a Companhia de Teatro para viver somente em volta dele.

Finalmente Dora encontra o amor verdadeiro e se casa. Um casamento por amor e não por interesse e convenção familiar.

Mesmo baseado no amor, o romance de Lucas e Dora não é totalmente felicidades. A saída dela da Companhia de Teatro se deu por imposição dele que não aceita que sua mulher viva em palcos rebolando para outros.

Era um relacionamento totalmente submisso e abusivo, pois Dora se submete a tudo que o Comandante quer. Contudo, assim como ele, Dora é machista, passiva, submissa e aceita a situação em que vive.

Mesmo com todas as situações, o Comandante dá amor que ela nunca tinha recebido de ninguém e juntos passam por muitas situações. Até que o comandante adoece e morre.

Então, Dora decide voltar a fazenda. Ela volta uma nova mulher e recomeça a vida com mais força, se impondo a Senhora e ajudando os outros empregados a viverem sem o domínio da mãe.

Por fim, Dora, Doralina toma posse da fazenda e passa a assumir a posição de sua mãe. E mesmo sem um motivo de alegria, ela é obrigada a viver a sua vida.
 
Análise

A história é narrada pela própria protagonista, Maria das Dores, em um discurso memorialista dela.

Ela narra os fatos tecendo o passado com o presente, com evidências e personagens que passaram por sua vida. Quando necessário retornando ao passado, como um flashback.

Ao longo da narrativa traços da personalidade de Dora vão sendo expostos por atitudes e reações que ela mesma expõe.

Maria das Dores é uma personagem predestinada a dor, que vai desde o seu nome aos acontecimentos na sua vida.

Ela já sente a dor quando perde o pai ainda criança, e cresce sem o amor materno. Até quando ela encontra o amor no comandante, ela sofre por sua morte.

Contudo, a narrativa de “Dora, Doralina” mostra a evolução de Dora, que mesmo voltando ao ponto de partida quando ela retorna a fazenda, ela retorna como uma nova mulher.

Durante as suas viagens, ela aprendeu a ter independência e liberdade. Dora é uma mulher forte e lutadora.
 
Trechos de “Dora, Doralina”

    Bem, nisso tudo o que eu quero dizer é que antes de eu entrar na Companhia, tinha o meu corpo como se fosse uma coisa alheia que eu guardasse depositada, e só podia dar ao legítimo dono, e depois de dar a esse dono era só dele, não adiantava eu querer ou não, porque o meu corpo eu não tinha o direito de governar, eu vivia dentro dele mas o corpo não era meu.

    Já agora o corpo era meu, pra guardar ou pra dar, se eu quisesse ia, se não quisesse não ia, acabou-se. Era uma grande diferença, para mim enorme. (p. 161)

    Procurava a todo instante me lembrar de como Senhora fazia; e tudo se repetia agora como no tempo dela, porque mesmo que eu quisesse não sabia fazer nada diferente, e então era a lei dela que continuava nos governando. […]E aos poucos eu também ia endurecendo, na couraça do meu vestido preto… (p. 239)


Fonte:
Dora, Doralina; Disponível em Guia Estudo. Acesso em 02 de maio de 2021.
 

domingo, 2 de maio de 2021

Oscar Wilde (O Milionário modelo)

Uma nota de admiração

A menos que seja rico, não há utilidade nenhuma em ser encantador. Romance é privilégio dos ricos, não a profissão dos desempregados. Pobres devem ser práticos e prosaicos.

É preferível ter uma renda permanente a ser fascinante. São essas as grandes verdades da vida moderna que Hughie Erskine nunca compreendeu. Pobre Hughie!

Intelectualmente, devemos admitir, não tinha muita importância. Nunca disse algo brilhante ou mesmo mordaz em toda a sua vida. Mas era magnificamente belo, com cabelos castanhos encaracolados, pele alva e olhos acinzentados. Era tão popular entre os homens quanto entre as mulheres, e tinha todos os talentos, menos o de conseguir dinheiro. O pai havia-lhe legado a espada de cavalaria e a “História da Guerra da Península”, em quinze volumes. A primeira, Hughie pendurou sobre o espelho, a segunda, acomodou numa estante, entre o “Guia Ruff” e a “Bailey’s Magazine”, vivendo com duzentas libras por ano, que uma velha tia lhe dava. Tinha tentado de tudo. Por seis meses estivera na Bolsa de Valores, mas o que tinha uma borboleta a fazer entre touros e ursos? Por algum tempo, comercializou chá, mas logo se cansou de pekoe e souchong (*). Em seguida tentou vender xerez seco, mas não obteve sucesso: o xerez era um pouco seco demais. Por fim transformou-se em um jovem maravilhoso e inútil, com um perfil perfeito e nenhuma profissão.

Para piorar as coisas, estava apaixonado. A moça a quem amava chamava-se Laura Merton, filha de um coronel aposentado, que na Índia tinha perdido a paciência e a boa digestão, e nunca mais as encontrou novamente. Laura adorava o rapaz, e ele estava sempre pronto para beijar-lhe os cordões dos sapatos. Formavam o casal mais belo de Londres e entre os dois não havia sequer um tostão. O coronel gostava muito de Hughie, mas não queria ouvir falar sobre noivado.

“Venha até mim, meu jovem, quando tiver conseguido dez mil libras por si mesmo, e falaremos a respeito”.

Nessas ocasiões, Hughie ficava muito deprimido e ia consolar-se com Laura.

Certa manhã estava a caminho de Holland Park, onde moravam os Merton, quando decidiu casualmente visitar um grande amigo, Alan Trevor. Trevor era pintor. Na verdade, poucas pessoas escapam de sê-lo, hoje em dia. Mas ele era também um artista, e artistas são bastante raros. Pessoalmente, era um amigo estranho e grosseiro, de rosto sardento e uma barba vermelha e desalinhada. Contudo, quando utilizava o pincel, era um verdadeiro mestre, e suas pinturas eram muito requisitadas.

No começo tinha se sentido muito atraído por Hughie, deve-se admitir, devido apenas ao encanto pessoal que possuía.

“As únicas pessoas que um pintor deve conhecer”, costumava dizer, “são as tolas e as belas, cuja contemplação constitui um prazer artístico, e a conversação, um repouso para o intelecto. Homens dandies e mulheres darlings governam o mundo, ou pelo menos deveriam fazê-lo”. Entretanto, depois de conhecer Hughie melhor, passou a gostar dele também pelo espírito vivaz e pelo bom humor, pela natureza imprudente e generosa, e deu-lhe passe livre para entrar no estúdio quando quisesse.

Ao chegar, Hughie encontrou Trevor dando os toques finais em uma maravilhosa pintura em tamanho natural de um mendigo. O próprio mendigo estava em pé numa plataforma no canto do estúdio. Era um velho enrugado, a face parecendo um pergaminho cheio de pregas e com uma expressão bastante cansada. Sobre os ombros pendurava-se um grosseiro manto castanho, puído e esfarrapado; as grossas botinas eram manchadas e remendadas e, em uma das mãos, segurava um cajado tosco e na outra, trazia um chapéu estragado, para as esmolas.

– “Que modelo surpreendente!”, sussurrou Hughie, ao apertar as mãos do amigo.

– “Modelo surpreendente?”, gritou Trevor o mais alto que podia; “Tenho certeza que sim! Mendigos como ele não são encontrados todos os dias. Um achado meu caro, um Velásquez vivo! Pelas estrelas! Que água-forte Rembrandt não teria feito com tal modelo!”

– “Pobre rosto de pele rachada e envelhecida!”, disse Hughie, “quão desgraçado ele parece! Mas suponho que, para vocês, pintores, essa face é uma grande sorte”.

– “Com certeza”, replicou Trevor, “você não espera que um mendigo pareça feliz, não é?”

– “Quanto recebe um modelo para posar?”, perguntou Hughie, sentado confortavelmente em um divã.

– “Um xelim por hora”.

– “E quanto consegue pela pintura, Alan?”

– “Ah, por isso eu recebo uns dois mil”.

– “De libras?”.

– “De guinéus. Pintores, poetas e médicos sempre recebem em guinéus”.

– “Bem, penso que o modelo deveria levar uma porcentagem”, exclamou Hughie, rindo: “eles trabalham tão duro quanto você”.

– “Bobagem, bobagem! Ora, repare na dificuldade de fazer a pintura e de passar o dia inteiro diante de um cavalete! Para você é muito fácil falar, Hughie, mas lhe asseguro que há momentos em que a arte quase atinge a dignidade do trabalho manual. Mas não deve ficar aí tagarelando, estou muito ocupado. Fume um cigarro e fique quieto”.

Depois de algum tempo entrou o criado, informando a Trevor que o fabricante de molduras queria falar-lhe.

– “Não fuja, Hughie”, disse ao sair, “voltarei em um instante”.

O velho mendigo aproveitou a ausência de Trevor para descansar por um instante em um banco de madeira que estava bem atrás. Parecia tão desamparado e infeliz que Hughie não pôde evitar de sentir pena dele e tateou os bolsos para ver quanto dinheiro tinha. Tudo o que pôde encontrar foram um soberano e alguns cobres.

“Pobre velho!”, pensou consigo mesmo, “ele precisa disto mais do que eu, mas terei que passar duas semanas andando a pé”. Cruzou o estúdio e deslizou o soberano nas mãos do mendigo.

O velho estremeceu, e um sorriso tênue passou rapidamente pelos lábios ressecados.

– “Obrigado, senhor”, disse, “Obrigado”.

Logo depois Trevor retornou e Hugie despediu-se, um pouco corado pelo que tinha feito. Passou o dia com Laura, recebeu uma encantadora repreensão por sua extravagância e voltou a pé para casa.

Naquela noite, foi passear no Pallete Club por volta das onze horas e encontrou Trevor sentado sozinho na sala de fumantes, tomando vinho do Reno com soda.

– “Então, Alan, conseguiu terminar o quadro?”, disse, acendendo um cigarro.

– “Terminado e emoldurado, meu rapaz!”, respondeu Trevor, “e, a propósito, você fez uma conquista. O velho modelo que você viu encontra-se completamente devotado a você. Tive que contar a ele tudo a seu respeito: quem você é, onde mora, quanto é sua renda, quais suas perspectivas...”

– “Meu caro Alan”, bradou Hughie, “provavelmente o encontrarei esperando por mim quando voltar para casa. Mas é claro que você está apenas brincando. Pobre velho infeliz! Espero poder fazer algo por ele. Penso ser horrível que alguém seja assim, tão miserável. Tenho montes de roupas velhas em casa, você acha que interessaria a ele? As dele estão caindo aos pedaços”.

– “Mas ele fica esplêndido nelas”, disse Trevor. “Não o pintaria de sobrecasaca por nada neste mundo. O que você chama de andrajos, eu chamo de romance. O que parece pobreza para você, para mim é pitoresco. Entretanto, direi a ele sobre sua oferta”.

– “Alan”, disse, com seriedade, “vocês pintores não têm coração!”

– “O coração de um artista é a mente”, replicou Trevor, “e além do mais, nosso trabalho é perceber o mundo como ele é, não reformá-lo com o que conhecemos dele. A cada um o seu ofício. E agora me diga como está Laura. O velho modelo está muito interessado nela”.

– “Você não está me dizendo que falou a respeito dela?”, disse Hughie.

– “Claro que sim. Ele sabe tudo a respeito do implacável coronel, a adorável Laura e as dez mil libras”.

– “Você contou ao velho mendigo tudo a respeito dos meus negócios particulares?”, bradou Hughie, vermelho de raiva.

– “Meu caro rapaz”, disse Trevor, sorrindo, “aquele velho mendigo, como você o chama, é um dos homens mais ricos da Europa. Ele poderia comprar Londres inteira amanhã sem esgotar o próprio saldo. Tem uma casa em cada capital, janta em pratos de ouro e pode impedir a Rússia de entrar em guerra quando quiser”.

– “O que você quer dizer?”, exclamou Hughie.

– “Apenas o que disse”, respondeu Trevor. “O velho que você viu hoje no estúdio é o Barão de Hausberg. É um grande amigo meu, compra todos os meus quadros e esse tipo de coisa, e deu-me uma comissão há um mês para pintá-lo como mendigo. O que quer? É a fantasia de um milionário! E devo dizer que ficou magnífico em seus andrajos, ou melhor, nos meus andrajos. É um traje velho que consegui na Espanha”.

– “Barão Hausberg!”, bradou Hughie. “Deus do céu! Dei a ele um soberano!”, e afundou na poltrona: era o retrato da desolação.

– “Deu a ele um soberano”, gritou Trevor, explodindo numa gargalhada ruidosa. “Meu caro jovem, jamais terá seu dinheiro de volta. Seu negócio é o dinheiro dos outros”.

– “Penso que você deveria ter-me dito, Alan”, disse Hughie, aborrecido, “e não ter me deixado fazer papel de tolo”.

– “Bem, para começar, Hughie”, disse Trevor, “nunca imaginei que você fosse sair por aí distribuindo esmolas desse modo afoito. Posso entender que você beije uma bela modelo, mas que dê um soberano a um modelo feio... por Júpiter, não! Além do mais, para todos os efeitos eu não estava em casa hoje. Quando você chegou, não sabia se Hausberg gostaria de ter o nome mencionado. Você sabe que ele não estava corretamente vestido”.

– “Que idiota ele deve ter pensado que sou!”, disse Hughie.

– “De jeito nenhum. Ele ficou extremamente bem humorado depois que você saiu. Ficou dando pancadinhas em si mesmo e esfregando as mãos enrugadas. Não pude entender por que ele tinha ficado tão interessado por saber tudo a seu respeito, mas agora compreendo. Ele vai investir seu soberano, Hughie, pagar-lhe os juros a cada seis meses e ter uma história interessantíssima para contar depois do jantar”.

– “Sou um pobre diabo sem sorte”, resmungou Hughie. “A melhor coisa que posso fazer é ir para casa dormir e, meu caro Alan, não conte nada a respeito. Eu não teria mais coragem de aparecer em público”.

– “Bobagem! Isso dará o mais alto crédito ao seu espírito filantrópico, Hughie. E não fuja. Fume outro cigarro e poderá falar de Laura o quanto quiser”.

Mesmo assim Hughie não se deteve, e caminhou para casa sentindo-se muito infeliz, deixando Alan Trevor rindo a solta.

Na manhã seguinte, enquanto tomava o desjejum, o criado trouxe-lhe um cartão em que estava escrito:

“Monsieur Gustave Naudin, da parte de M. Le Baron Hausberg”.

– “Suponho que tenha vindo exigir desculpas”, disse Hughie para si mesmo; e disse ao criado para deixar entrar o visitante.

Um cavalheiro idoso, de cabelos grisalhos e usando óculos de ouro, entrou na sala e disse, com um leve sotaque francês:

– “Tenho a honra de me dirigir ao Monsieur Erskine?”.

Hughie inclinou-se.

– “Venho em nome do Barão Hausberg”, prosseguiu. “O barão...”.

– “Eu rogo, sir, que ofereça a ele minhas mais sinceras apologias”, gaguejou Hughie.

– “O barão”, disse o cavalheiro idoso com um sorriso, “me encarregou de trazer-lhe esta carta”, e estendeu um envelope selado.

No exterior estava escrito:

“Um presente de casamento para Hughie Erskine e Laura Merton, de um velho mendigo”, e dentro havia um cheque de dez mil libras.

Alan Trevor foi o padrinho do casamento e o barão fez um discurso durante a recepção.

– “Modelos milionários”, observou Trevor, “são bastante raros; mas, por Júpiter, milionários modelos são ainda mais raros!”.
_________________________________
*Variedade de chá preto.

Carolina Ramos (Poemas Escolhidos) 12

O INVENTOR


Desde cedo, sonhara ser, um dia,
um inventor famoso de verdade!
E alimentava a doce fantasia,
no enlevo de servir à humanidade!

Cresceu ao acalanto da poesia.
E ao vê-la sucumbir à realidade,
sentiu que a fibra, aos poucos, lhe fugia,
dando morada aos sonhos e à saudade.

Velho e cansado, em fuga da amargura,
acomodou-se a conquistar afetos
e a descobrir tesouros de ternura!

E na humilde renúncia às próprias glórias,
rodeado de filhos e de netos,
nada mais foi que um inventor de histórias!…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

DOM QUIXOTE

Dom Quixote... "Quijote de la Mancha"
- herói do impulso... arrojo sem plateias!
Seco de corpo, como seca a terra
que pisavas em tuas epopeias!
Pigmeu ante gigantes poderosos,
de longos braços a lembrar "molinos"!
Quando lutavas, em teus desatinos,
em defesa da frágil Dulcinéia,
fiel, tremia Sancho Pança, em zelos!
Mas, Quixote... "Quijote de la Mancha"
não estavas errado nem sozinho,
que a Humanidade inteira tem, também,
seus arroubos de sonhos... pesadelos,
a explodir dentro da alma dos que têm
um grande ideal guardado com desvelos!

Dom Quixote... "Quijote de la Mancha",
ante a réstia de luz que se desmancha,
já libertei das rédeas meu corcel,
de crinas brancas e de indócil passo!
Já dispersei meus sonhos, sem quartel!
]á cavalguei um Rocinante lasso!
E quixotando sigo pela vida,
a cumprir minha sina, mal cumprida,
a quebrar lanças... a enfrentar moinhos...
E a carregar nos ombros meus cansaços,
eu vou deixando a marca dos meus passos
e pedaços de mim, pelos caminhos!...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

MISSÃO CUMPRIDA!

Fecho a porta a mim mesma! E ao colocar a aldrava,
nego ao sonho o direito à vida que insinua.
No pranto já chorado, a alma se lava,
despida de ilusões e de esperanças nua.

Não quero mais sofrer! Cansei de ser escrava
de desejos não meus. Não trilho mais a rua
dos desencantos, basta! A dor que eu carregava,
nestas rimas entrego, em confidência, à lua!

Sem nada ambicionar, com pouco me contento.
E, seca de emoções, chego a invejar as folhas
que flutuam, sem dono, aos caprichos do vento!

Ah! Pudera eu dizer, enfim: - Missão cumprida!
E tudo o que viesse, aceitar sem escolhas,
nesse afã de viver... sem mais pensar na vida!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

RETORNANDO…
de uma festa poética

Obrigada, Senhor, eu Te agradeço
os dias de emoção que me ofertaste;
este sol, esta luz, que não tem preço
e faz do céu azul o seu engaste;

estes campos viçosos que se estendem
numa carícia aos olhos que, cansados,
buscam repouso e o brilho reacendem
na veludosa ondulação dos prados.

Obrigada, Senhor, pela ternura
colhida em cada gesto, em cada olhar…
ficou mais bela a minha noite escura
depois do beijo suave do luar.

Obrigada, Senhor, muito obrigada,
pela doce esperança que acarinho
de que a Poesia, que me abriu a estrada,
me ajude a reencontrar este caminho!

Fonte:
Carolina Ramos. Destino: poesias. São Paulo: EditorAção, 2011.
Livro enviado pela poetisa.

Chico Anysio (Beco)


A culpa não era dele, mas o patrão não quis ouvir explicações.

- Está despedido!

Isto foi há três meses. Daí pra cá, tentou o que pôde uma nova colocação. Comprava o jornal às cinco e saía tentando uma vaga de motorista. Sempre chegava depois do lugar já tomado. Quando não, exigiam referências que não tinha.

Usou o dinheiro da caderneta de poupança e vendeu o relógio, para alimentar a família. Heloísa estimulava-o.

— Quem sabe amanhã.. .

Amanhã era igual. Quantos amanhãs teria que esperar? Estava desesperado, quando o convidaram para dirigir o automóvel. Sabia do erro, do perigo, das possibilidades de prisão, mas aceitou. Viu aí a saída do beco.

— Eu te aviso no dia.

Passou a ter, em casa, comportamento diferente. Ficou nervoso, excitado, sem conseguir a naturalidade antiga.

— Que é que você tem?

— Eu?

— É. Está nervoso.

— Nada. Não tenho nada.

E saía da sala para cortar o assunto no nascedouro.

O carro era um Volkswagen verde, como milhares. A bala da polícia o atingiu no estômago.

— Pé embaixo.

Achou que voava, quando partiu da porta do banco à procura da estrada. O abdômen queimava, um suor frio banhava-lhe a testa.

— Acho que não aguento...

— Pé embaixo e cala a boca. Quem mandou descer do carro?

Com ele, mais três. Tinham-lhe prometido a quarta parte do dinheiro. Queria poder calcular a quanto iria a sua parcela, mas as dores eram grandes demais, a cara parecia torrar. Sentiu sangue na boca. Achou que explodiria.

— Não posso continuar.

Entravam na Rio—São Paulo. Antes de Nova Iguaçu parou o carro no acostamento.

— Que ideia é essa?

— Não aguento... não aguento...

Jogaram-no do carro e sumiram.

Tinha chovido e o asfalto molhou sua cara. Sentiu grande conforto no frio que a água lhe pôs no rosto. Sabia que podia levantar, mas preferiu ficar deitado, cara no chão, onde um rio de sangue começava a nascer, caindo na terra depois do acostamento.

Roncavam forte os motores que passavam. Ele dava as costas para a estrada como dera as costas para a vida desde o momento em que aceitara o convite.

 
— Vinte e cinco por cento.

— Você vai apenas dirigir: o carro, deixa comigo que eu puxo um, no dia.

— Não saia do carro.

— Não saia do carro.

— Não saia.

— Fique no carro, com o motor ligado.

O guarda que apareceu na esquina foi que o fez saltar. Achou que poderia haver problemas com a chegada da polícia. Se não fosse aquele guarda...

Apertou a barriga e achou que sentiu o contato da bala sob a pele. Cuspiu vermelho. Arrastou-se para o mato e deitou de cara na terra. Doía muito, doía tudo. Admitiu morrer ali e quase desejou que assim fosse. Com esforço, levantou a cabeça e viu gente entrando na padaria 300 metros à frente. A mão se confundia com a camisa, com o sangue. Quis levantar-se mas as pernas não obedeceram.

— Quem sabe amanhã...

O otimismo da esposa chegou-lhe para aumentar o desespero. Considerou que lhe tinha faltado paciência.

— Quem sabe amanhã...

Rezou. Pediu a Deus que lhe desse um amanhã. Um, pelo menos. Chegou à conclusão de que nada mais lhe restava que hoje. Hoje. Hoje, apenas. A dormência da perna preocupou-o ainda mais. Escutou risadas. Eram meninos que passavam à procura de um campo de futebol. Teve vontade de gritar por socorro. Prendeu a respiração para que não dessem conta de que ali havia um homem. Encolhendo-se, comprimindo o estômago. Assim ficou até o anoitecer total. Apoiou-se num poste de luz e cobriu com o paletó a camisa encarnada de sangue. Juntou o resto das forças, simulando uma naturalidade impossível de ser conseguida.

— Um táxi. Preciso de um táxi...

Andou cambaleante para o lado oposto à estrada. Via as coisas com dificuldade. Como se lhe tivessem posto uma cortina de plástico à frente.

Passou um soldado abraçado à mulata. Abaixou-se, fingindo abotoar o sapato. Não foi notado. Levantou-se com esforço sobre-humano e caminhou o que calculou terem sido 100 metros. Na boca, um gosto acre, uma coisa pegajosa que o incomodava mais do que a bala no bucho. Não tinha destino. Como não tinha futuro — adivinhava.

Deu numa rua de casas de porta e janela. Conseguiu passar despercebido. A bala que o pegara parecia crescer pelo ardor que provocava. O sangue agora já manchava o paletó cinzento; mas era noite, ninguém notaria. Um cinema anunciava Giuliano Gema. Pensou em entrar, mas a dor aumentava. Doía-lhe a barriga, fervia-lhe a cabeça, ardia-lhe o peito, desagradava aquela coisa quente que lhe enchia a boca, de minuto a minuto. Ele cuspia.

— Quem sabe amanhã...

E eles, onde estariam? Em Aparecida do Norte, como tinham planejado, ou já teriam tido a sorte de terem sido apanhados?

— Preciso de um carro...

E aí? Para onde iria? Que explicação daria no hospital? A mulher o imaginava procurando emprego.

Escorou-se no portão de uma casa verde. Percebeu que o sangue corria pelas pernas, tingia os sapatos. Limpou-os na calça o que foi possível. Era uma dor de enlouquecer. Tivesse uma faca e arrancaria o estômago, com bala, com tudo.

Na esquina avistou o carro. Apertou os olhos, procurando descobrir que carro era aquele. Era um carro preto e branco, com uma luz vermelha na capota. Mesmo assim, ele gritou.

Fonte:
Chico Anysio. O Enterro do Anão. Publicado em 1973.

sábado, 1 de maio de 2021

Adega de Versos 17: Gislaine Canales

 


Contos e Lendas do Mundo (O Gigante lenhador)

Segundo as lendas dos colonizadores europeus, o maior lenhador de todos eles - algumas referem-se a ele como o primeiro lenhador – foi um gigante chamado Paul Bunyan.

A senhora Bunyan sabia que havia algo de especial com o seu filho Paul quando ele nasceu.

- O nosso rapaz vai ser alguém grande neste mundo - disse ela ao marido cheia de orgulho, mas provavelmente nunca pensaram na grandeza que ele viria a atingir.

Quando começou a andar, o seu filho era maior e mais forte do que a maioria dos homens da cidade. Toda a gente sabia quem era o Paul Bunyan e ao fim de pouco tempo todos tinham a sua história para contar acerca dele.

Uma manhã, as pessoas acordaram com um enorme estrondo seguido do barulho de vidros estilhaçados - e o som viera da casa dos Bunyan. As pessoas saltaram das suas camas, vestiram as calças, calçaram as botas e foram a correr ver se podiam ajudar.

- O que é que aconteceu? - gritou um, quando o pai de Paul apareceu à porta, o chão coberto de vidros partidos. - Estás bem?

- Estamos todos bem, obrigado, amigos - asseverou-lhes o pai de Paul. - Só que o jovem Paul está com uma leve constipação e um dos seus espirros partiu os vidros de todas as janelas.

As pessoas, com olhos de sono, riram-se e voltaram para casa para tomar o pequeno almoço.

Quando atingiu a idade adulta, Paul Bunyan não era grande, era enorme! Nunca ninguém conseguiu medir a sua altura, porque não havia uma fita métrica suficientemente comprida. Paul em breve ficou demasiado grande para a sua cidade natal e resolveu tornar-se lenhador na floresta. O trabalho dos lenhadores era cortar árvores para madeira, de modo a que outras pessoas pudessem construir casas novas e móveis para essas casas.

A madeira era usada para fazer carroças para transportar pessoas e mercadorias, e para fazer chulipas para os carris do caminho de ferro para que as pessoas pudessem viajar até paragens distantes. Era também usada na construção de igrejas, hotéis e prisões, e para fazer postes telegráficos para que as pessoas pudessem enviar mensagens umas às outras.

O trabalho de lenhador num campo de derrube de árvores era um trabalho pesado - um trabalho de fazer fome - para homens fortes, e o campo onde Paul Bunyan estava não era diferente dos outros.

Por trás dele havia um lago, mas este não era um lago vulgar. Em vez de águas cristalinas e azuis, este lago estava cheio de um líquido borbulhante, espesso e esverdeado. Era um lago de sopa de ervilhas quente e pronta a servir, noite e dia. E deviam ter visto a chapa de ferro em cima do fogão que os lenhadores usavam para fazer as suas panquecas. Para a engordurarem, dois cozinheiros tinham de prender dois presuntos aos pés e deslizar com eles para cima dela, enquanto a gordura frigia com o calor - era enorme!

O campo de Paul Bunyan era o maior e o melhor que alguma vez existiu. Ele trabalhava tanto que o guarda-livros - que registrava toda a madeira que vendiam - gastava mais de vinte barris de tinta por semana.

- O dinheiro que gastamos em toda aquela tinta poderia ser mais bem gasto em machados novos ou em comida suplementar para os homens - disse o guarda-livros. - Tens alguma ideia de como podemos fazer uma poupança? - perguntou a Paul Bunyan um dia.

- Não ponha os pontos nos is e os traços nos tês - disse Paul.

E foi exatamente o que o guarda-livros fez e conseguiu poupar seis barris de tinta em pouco mais de dois meses!

Tudo o que dizia respeito a Paul Bunyan era maior do que a vida – até o seu animal de estimação. Era um boi enorme e não era assim tão vulgar como isso. Era um boi gigantesco e, ainda por cima, de um azul-vivo. E o que é que Bunyan chamava a esse animal enorme com os seus chifres afiados e músculos colossais? Babe.

Babe tinha um celeiro só para si - porque era muito grande - mas até o celeiro já era demasiado pequeno para ele. Uma manhã, Paul encontrou Babe com o celeiro no lombo como se de uma sela se tratasse. O boi crescera excessivamente durante a noite e agora estava com o celeiro preso em cima dele!

Existem muitas histórias incríveis das aventuras de Paul Bunyan e de Babe. Como a do dia em que Bunyan teve problemas em levar uma carga de troncos por uma estrada sinuosa até ao rio. Troncos direitos e curvas são duas coisas que não ligam bem. Existia apenas uma estrada até ao rio, e essa era sinuosa. Logo que os troncos estivessem na água, seriam transportados até à serração através da corrente... mas Bunyan tinha de os levar primeiro pela estrada.

Delineou um plano, usando a sua inteligência e os músculos de Babe. Arranjou uns arreios ao boi e prendeu-os a uma ponta da estrada sinuosa. Com a promessa de cubos de açúcar, Babe puxou a estrada até todas as curvas terem desaparecido, ficando tão direita como uma corda.

Mas não foram só estradas direitas que Paul Bunyan deixou atrás de si. Alguns dizem que ele até criou o Grand Canyon... por engano! O canyon é uma fratura no solo do Arizona que tem mais de trezentos e vinte quilômetros e mais de mil e quinhentos metros de profundidade nalguns locais. A lenda diz que foi feito pelo enorme machado que Bunyan arrastava atrás de si - e ele nem percebeu o que estava a fazer.

Parece que Paul Bunyan ajudou realmente a moldar a América do Norte - de várias formas!

Fonte:
Mitos & lendas norte americanas. Disponível em Biblioteca sem limites.

Caldeirão Poético XLIV


Pedro Bezerra de Araújo
(Caxias/MA)

CAMINHAR, ERRAR, PERDOAR


Na caminhada da vida,
Que todos nós temos feito,
Tantas e quantas besteiras,
Que pra falar não há jeito.

Nesta dinâmica esteira,
Surgem defeitos certeiros;
Bem em nós, quando nos outros,
Logo, chamamos rejeitos.

Mas, ao crescer, percebemos
Contentamento não há,
Se o outro não entendermos,

Perdoar, não acusar,
Reconhecer, sim, que errar
Só faz o bem triunfar.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

Frei Francisco Lopes Neto, OFMCap*
(São Pedro do Piauí/PI)

CÂNTICOS, 6


Dez segundos, te vi ó Amado
Por iguais dez minutos perdi-te
Dez mil vezes meu ser procurou-te
Por dez vezes agora, achei-te!

Às dez horas desceste ao jardim
De açucenas e bálsamos, fontes.
Ó Pastor dos meus vales e montes!
Sou do Amado e Ele é pra mim.

Sem defeito, qual pomba a voar
Tal rebanhos às fontes, és Tu
Das romãs és botão sem par

Como a aurora avanças, quem és?
Como a lua e o sol, o esquadrão ...
És o Amor, do diadema aos pés!
__________________________
*OFM Cap – Ordem dos Frades Menores Capuchinhos
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

José Valdivino de Carvalho
(Água Verde/Pacatuba/CE)

CARMELITAS


Ei-las à sombra calma do convento,
faces veladas, corações em prece,
povoando de Deus o pensamento
ao silêncio cristão de quem padece.

Visse-as alguém assim, talvez dissessem
viverem só de dor e desalento,
na saudade mortal que não esquece
do mundo desprezado, o encantamento.

Mas como é pura a vida dessas santas!
Como os cilícios e o sofrer não prezam!
Consolo da oração, como as encantas!

Heroínas de Deus, a dor não medem.
Vivem rezando pelos que não rezam,
Pedem contritas pelos que não pedem!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

Edir Pina de Barros
(Brasília/DF)

CONFISSÕES


De nada nos valeu a despedida,
as lágrimas, o beijo, o forte abraço,
as confissões de mágoas, de cansaço
das noites sem dormir, da paz perdida.

Nossa intenção tornou-se desvalida,
porque resiste o amor, persiste o laço,
tornando-se mais forte do que o aço,
que a um novo enlace sempre nos convida.

Ah se eu pudera, sim, te esqueceria,
para acabar de vez com essa agonia,
esse febril estado de desejo.

Mas cá estamos nós de novo juntos,
os lábios mudos, sem quaisquer assuntos,
a tremular na súplica de um beijo.

Fonte:
Luciano Dídimo (org.). 100 sonetos de 100 poetas.
Fortaleza/CE: Expressão Gráfica e Ed., 2019.

Aparecido Raimundo de Souza (Coriscando) 16: Tal como os Cátaros de Albi

NO EXAME FINAL DO CATECISMO, para a Primeira Comunhão, o velho padre Ramaphosa chamou seus meninos à discorrerem sobre os ensinamentos trazidos à baila, notadamente do sinal da cruz, antes de se recolherem aos afagos do descanso de seus quartos. O pároco, mês inteiro, batera muito nesta tecla da obrigatoriedade de elevar os pensamentos aos céus, em agradecimento e, logo em seguida, feita uma pequena prece, se benzer conforme os exaustivos conselhos reiterados no final de cada encontro.  

— Vamos começar com você, Luiz Alberto. Qual é mesmo a última coisa que faz antes de ir se deitar?

— Peço a bênção aos meus pais.

— Só isto, Luiz Alberto? Nada mais?

— Só isto, seu padre.

Passou ao menino seguinte:

— E você, Carlinhos?

— Dou boa noite à mamãe.

— E a seu pai não?

— Meu pai mora com outra mulher.

O prelado, sem graça, desconversou:

— Não sabia Carlinhos. Me desculpe. E você, Catarino?

— Ah, seu vigário, eu beijo o Toninho na boca.

O santo homem arregalou os olhos, assustadíssimo:

— Cristo Salvador, a que ponto chegamos! Tenha piedade desta alma. E seus pais não falam nada? Não lhe ensinaram que este gesto é pecado e contra os princípios das leis divinas?

— Ué! Desde quando beijar o meu cachorro é todo este absurdo  que o senhor falou?

— Espera ai, Catarino. O Toninho é um cachorro?

— Sim, seu reverendo. Quem o senhor pensou que fosse?

— Retiro o que disse, Catarino.

O guri insistiu, esclareceu um pouco mais a história.

— Ganhei o Toninho da mamãe, no dia do meu aniversário.

O ministro de Senhor sorriu meio desajeitado com o rumo que a conversa havia tomado. Tratou logo de mudar de assunto. Fingindo um certo constrangimento pelas crianças, em face das coisas do Pai Maior não serem lembradas, como ensinara, apesar deste desgosto, seguiu em frente:

— Barnabé, qual a última coisa que você faz antes de se recolher?

— Dou uma surra em meu avô Barbozinha.

O da batina fuzilou o infante em vista do que ele acabara de confessar:

— Surra?

— Sim, seu padre. Surra.

— Meu filho, quantos  anos tem seu avô?

— Oitenta e cinco...  

O prior foi mais além. Boquiaberto, estupefato. Deu um tremendo salto de seu assento, um pulo tão barulhento da cadeira onde se achava sentado, que São Jorge, ao lado, numa espécie de andor imenso, quase despencou do lombo do cavalo se espatifando em cima do dragão que soltava fogo pelas ventas.

Estava o embatinado realmente deveras  furioso:

— E você tem coragem de dar uma surra em seu avô? Sabia que este procedimento é feio, digo mais abominável que tudo aos olhos do Altíssimo? Onde já se viu dar uma surra no avô?  Seus pais não reclamam com você, não falam nada, não lhe põe de castigo nem lhe chamam nos eixos?

— Que nada! Eu e vovô jogamos buraco, outras vezes Pif-Paf... Vovô gosta de roubar no jogo. Agora que eu descobri que ele esconde as cartas de baralho nas mangas da camisa, eu passei a lhe dar uma surra. Não deixo que ele ganhe. O vô fica é muito fulo da vida...

— Ah, bem! — Eu pensei — falou o padre mais calmo e passando um lenço na testa. — Eu imaginei que você descesse o braço no seu avô. Me perdoe.  Vamos à frente. E você, Augustinho?

— O que tem eu, seu pontífice?

— Qual a última coisa que faz antes de dormir? Sugiro, ao dar a sua resposta, refletir no desfecho de nossos encontros aqui na igreja antes de todos voltarem para suas casas.

— Eu espero toda a galera se recolher. Ai eu me esgueiro sorrateiramente até a cozinha e assalto a geladeira da mamãe. Tomo todo o suco que ela deixa numa jarra e devoro os pães de queijo que ficam  guardados no forno para quando meu pai chegar do trabalho...

— Que coisa feia, Augustinho. Jesus não gosta que seus pequenos ajam desta forma. Precisamos pensar em nossos semelhantes.

—  Mas eu penso, seu padre.

—  Como assim... Se você bebe o suco e come os pães de queijo?

—  Quando eu me esgueiro até a cozinha, papai já chegou e nós dois fazemos um lanche. É o único momento que eu tenho com ele, tardão da noite, uma vez que ele trabalha o dia inteiro e uma parte da noite e quase não o vejo em casa. Este momento, seu padre, é só nosso.

Finalmente chegou o instante do santo clérigo dar voz ao remanescente dos pirralhos. Talvez este se lembrasse dos ensinamentos que o representante do Altíssimo, durante todos os encontros tratou de colocar na cabeça de cada um. ‘Lembrem, antes de dormir, fazer uma pequena prece e renovar o sinal da cruz’.     

— Helinho, meu jovem, chegou a sua vez. Diga para nós, o que você faz antes de ir para a cama?

E o Helinho, com um rostinho resplandescendo a formosura dos seus oito anos, sem pestanejar, mandou ver:

— Eu vou ao banheiro e faço cocô.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Estante de Livros (Os Maias, de Eça de Queiroz)

UMA TRAGÉDIA MODERNA


Em junho de 1888, os livreiros portugueses começaram a vender os primeiros dos cinco mil exemplares da primeira edição de Os Maias. É tiragem que impressiona ainda hoje. O que dizer então naqueles tempos de um Portugal pouco habitado e não muito lido? Foi uma temeridade, mas à audácia dos editores correspondeu a curiosidade dos leitores e o interesse da crítica. E o livro do desconfiado Eça de Queiroz transformou-se, desde então, num sucesso de vendas.

E assim é [ou voltou a ser] hoje em dia. Andou uns tempos esquecido, é verdade, mas bastou que a televisão fosse buscar inspiração no velho romance, para que as novas reedições sumissem, recém-chegadas às livrarias, pouco antes do Natal, e fossem totalmente consumidas pouco antes do novo ano.

Eça de Queiroz foi impreciso e modesto ao dar a Os Maias o subtítulo 'episódios da vida romântica'. Na verdade, o seu mais famoso romance é uma tragédia, tal como a entendia Sófocles quando, já na maturidade, compôs o seu Édipo. Uma tragédia burguesa, mas apesar de tudo uma tragédia, pois que lá está a grave transgressão moral, cometida em completa inconsciência por seus dois personagens centrais — Carlos Eduardo e Maria Eduarda.

De Maia, ambos, irmãos, apaixonados e incestuosos ambos, e belos e trágicos.

Instigado pela minissérie, vai ler esse livro pela primeira vez. Terá prazer único e irreproduzível. As releituras que hão de vir, mais tarde, servirão de consolo, mas não de substituto. Esse prazer estará certamente na elegância barroca da forma e no desenvolvimento astucioso das entrelinhas. Mas estará também, ou principalmente, nos admiráveis retratos que Eça faz de seus tipos principais, com a elegância e a minúcia de um genial pintor romântico, mas com 'o seu olho à Balzac'.

A começar não por um tipo, mas por uma casa, mais exatamente a 'casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875', que surge, penumbrosa e prenunciadora, logo na primeira frase do livro, e que era conhecida como a casa do ramalhete 'ou, mais simplesmente, o Ramalhete'.

Então, lemos, já encantados:

Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas janelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação dos tempos da Sra. D. Maria I; com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de jesuítas”.

Ai está o cenário da tragédia. O Ramalhete é, pela ordem de entrada, o primeiro personagem em cena, com suas paredes sempre fatais àquela antiga família da Beira, tão rica e tão infeliz. E será no Ramalhete e em torno dele que vamos ser apresentados aos personagens nos quais Eça de Queirós se insinua, para nos falar através de suas muitas vozes.

Seus retratos eram sempre perfeitos e, ao longo da trama, coerentes. A única personagem que o confunde é Maria Eduarda, por sua beleza de deusa. Quando ela aparece — e como custa a aparecer! —, “é alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carne”; algumas páginas adiante, Carlos a revê e nota que “os cabelos não eram louros, como julgara de longe, à claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa”.

Falei de retratos e o mais correto é falar de auto-retratos.

Se Fernando Pessoa tinha seus heterônimos, Eça tinha os seus “eus”, como diz Beatriz Berrini, que eram muitos e muito se pareciam. Ele nos fala pela voz severa do velho Afonso da Maia, que “era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes...o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba de neve, aguda e longa”, a reclamar melhores destinos para o seu lamentável país e a cobrar, do neto tão promissor, menos diletantismo e mais realizações.

Fala-nos também com as palavras cruéis e desassombradas do neto Carlos, “um formoso e magnífico moço, alto, bem-feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis de cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, dum negro líquido, ternos como os dele e mais graves”, e que costumava vociferar: “A única coisa a fazer em Portugal é plantar legumes, enquanto não há uma revolução que faça subir à superfície alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo”. Ao que o avô respondia, já impaciente com esse diletantismo do neto, como se falasse em nome do autor: “— Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam alguma coisa!

Mas nenhum de seus “eus” foi mais ele mesmo que João da Ega, ou João da Eça, ou o Ega de Queirós, que todos esses trocadilhos, embora fáceis, têm cabimento e justiça. Talvez só o Fradique Mendes se lhe possa comparar, mas esse não vem ao caso, agora, porque não é personagem d´Os Maias. Eram “eus” idealizados e muita vez caricaturados, mas que, no fundo, o reproduziam com verdade e o exprimiam com coerência.

Ao Ega, deu-lhe o Eça a existência que gostaria de ter tido: discutido e admirado, com a mãe devota, rica e viúva, a lhe garantir o presente e o futuro, permitindo-lhe desfrutar as sofisticações, as intimidades e os desvelos de uma família de aristocratas, como era a dos Maias; mais alguns amores ardentes e com saúde razoavelmente forte para gozar, sem medos nem cuidados, o prazer das boas comidas e dos bons vinhos, dos conhaques e das águas ardentes, das noitadas com espanholas e das devassidões vespertinas, com amantes de luxo.

É a conclusão que se chega no momento em que Eça retrata o Ega — e se auto-retrata: cheio de verve e de irreverência, de frases retumbantes e ditos irônicos, um talento amaldiçoado, temido e exaltado. Vejamos o Ega pelos olhos do Eça:

O esforço da inteligência [...] terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os pelos arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito — tinha alguma coisa de rebelde e de satânico”. Ora, se não é esse ou quase esse o retrato do próprio Eça, tal como captado na célebre caricatura que dele fez Rafael Bordalo Pinheiro, então já não sei ver nem distinguir.

É ainda o Ega que, em momento de impaciência com a mediocridade e a hipocrisia da sociedade burguesa, e como que falando em nome de seu criador, deixa Lisboa e corre para restaurar-se no interior, lançando a Carlos e a Craft, os dois grandes amigos que o foram acompanhar à diligência, esta frase aterradora:

“— Sinto-me como se a alma me tivesse caído a uma latrina! Preciso um banho por dentro.”

Tal como Carlos da Maia, também João da Ega era um diletante. Ambos têm revoltas pouco profundas e de pouca duração. As suas grandes promessas de realização pessoal e de transformação do mundo terminam por desmaiar no culto quase religioso do luxo e do tédio. Passam a representar o que mais incomodava o inconformado Eça: a renúncia e o conformismo.

É com mãos hábeis, orgulhosas e brilhantes que Eça os faz florescer em Coimbra, em tempos de sonho e de estudo, a prometer insubmissão e luta. É com olhar de desalento e pessimismo que Eça os deixa vencidos e melancólicos, a “correr desesperadamente pela rampa de Santos”, atrás de um bonde e de um jantar, “sob a primeira claridade do luar que subia”. Tal como o próprio Eça se sentia, Ega e Carlos eram, naquele momento, dois “vencidos da vida”.

E assim a tragédia se consuma e nos obriga a repensar o ser humano com inquietação e desconfiança.

Lisboa, 1875. A cidade não apenas como um cenário mas como uma personagem, viva, interveniente, testemunha e cúmplice dos acontecimentos. A cidade acorda, o movimento cresce.

De entre a multidão que circula vão-se destacando, anunciadas pela narradora, as principais personagens desta história. Mais tarde, ao serão, no interior da casa dos Maias, conhecida como o Ramalhete, reúnem-se alguns distintos representantes da sociedade da época: da intelligentsia à alta burguesia lisboeta, até alguns políticos do constitucionalismo regenerador. Lá estavam, entre outros, João da Ega, amigo incondicional de Carlos da Maia, sagaz e polêmico, sempre crítico da mediocridade nacional.

Ou ainda Craft, com quem, nessa mesma noite, Carlos da Maia acabaria por negociar uma quinta, nos Olivais. Ou ainda Dâmaso Salcede, pretensioso e burlesco que revelaria, eufórico, como uma das suas recentes conquistas, a aproximação de Maria Eduarda de Castro Gomes, o que não deixara de provocar uma ainda inexplicável irritação a Carlos da Maia. A sólida presença de Afonso da Maia, patriarca da família, constitui, para todos, um valor de referência. Na realidade, Carlos da Maia alimentava já por Maria Eduarda de Castro Gomes uma secreta paixão e não deixava de a visitar diariamente a pretexto de assistir clinicamente a sua governanta inglesa, Miss Sarah. Numa dessas visitas como médico à residência dos Castro Gomes, - na rua de S. Francisco - percebe-se claramente a existência de uma reciprocidade de sentimentos, da qual Dâmaso Salcede acabará inadvertidamente, por ser testemunha, não escondendo a sua surpresa e o seu despeito, que o levara a engendrar uma forma de vingança. Entretanto, Carlos e Maria Eduarda vivem já o seu romance na nova Quinta dos Olivais, comprada a Craft.

Assim corre o tempo dividido entre as apressadas idas ao Ramalhete e a clandestina vida nos Olivais. Certo dia, no Ramalhete, Carlos e Ega trocam algumas confidência sobre a vida atribulada do primeiro, que procura esconder do avô a situação familiar da sua amante, conhecida em Lisboa, como a senhora Castro Gomes. Será, pois, com a maior estupefação que Carlos receberá em sua casa o próprio Castro Gomes que lhe esclarece, com algum acinte, que aquela que todos dão como sua esposa não é senão a sua amante, com quem vive e a quem paga uma existência requintada em troca de companhia. Perante o desespero e a humilhação de Carlos, Ega sugere-lhe que usufrua, como vinha fazendo até aí, desse amor ilegítimo. Porém, a súbita chegada de Monsieur Guimarães vai precipitar o fim da história, ao trazer consigo num pequeno cofre, o espólio de Maria Monforte, mãe de Maria Eduarda, que morrera em Paris. Nesse espólio confirma-se que Maria Monforte fora a esposa que levara ao suicídio Pedro da Maia, pai de Carlos.

A tragédia precipita-se - os dois amantes eram, no final, irmãos.

Tal revelação levará à morte o velho Afonso da Maia, ao afastamento dos dois amantes, à partida de Carlos para o estrangeiro. Só dez anos depois Carlos voltará a Portugal, reencontrando-se com os amigos de sempre, e sobretudo com Ega, com quem fará um saldo do passado, carregado de ironia e ceticismo, uma síntese dos seus destinos pessoais e do destino coletivo do país, como nação. Vidas falhadas ou ainda a tempo de apanhar o futuro?

Principais personagens

Afonso da Maia: era um homem baixo, de cabelos e barbas brancas. Descrito como um homem culto, religioso e sem defeitos. Afonso é a síntese das tradições e virtudes portuguesas.

Pedro da Maia: é um homem frágil criado pela educação livresca e clerical do avô, Afonso da Maia. Ele era temperamental e instável emocionalmente. É movido pela moral do sentimento e como resultado, se suicida após a fuga da mulher.

Maria Monforte: filha de um negreiro, é uma mulher dominadora, descrita como dona de uma extrema beleza. Ela era alta, loira e sensual. Se casa com Pedro da Maia contra a vontade de Afonso da Maia. Tempos depois, foge com um príncipe napolitano e leva a filha.

Carlos da Maia: protagonista da história. fruto do casamento de Pedro da Maia e Maria Monforte. Descrito como um rapaz belo, alto, de olhos pretos e pele branca. O autor diz que ele parecia um “belo cavaleiro da Renascença”. Carlos é culto e bem-educado.

Maria Eduarda: filha de Maria Monforte e Pedro Maia e divide o protagonismo com o irmão, Carlos da Maia, com quem tem um relacionamento sem saber do parentesco.

Castro Gomes: brasileiro que se envolve com Maria Eduarda. Todos achavam que era casado com Maria Eduarda, mas na verdade, era sua amante e não se incomoda com a relação dela com Carlos da Maia.

João da Ega: amigo boêmio de Carlos da Maia e responsável pelo jantar que resulta em Carlos conhecendo Maria Eduarda. É descrito como um personagem contraditório, por ser romântico e sentimental, mas também progressista e crítico.

Vale ressaltar que diversos personagens são introduzidos na narrativa de “Os Maias”, e cada um possui seu papel na história. Contudo, focamos apenas nos personagens da narrativa principal entre Carlos da Maia e Maria Eduarda.

Análise da obra

“Os Maias” é dividido em dois planos narrativos: um se trata das três gerações da família, centrado no personagem do Carlos Maia e o segundo foca na crítica sobre a alta sociedade de Lisboa, em 1880.

Traz uma representação dos espaços sociais internos e externos onde situam os personagens.

Ao representar esses espaços, o autor exprime uma crítica a sociedade portuguesa, incidindo nos costumes e comportamentos da burguesia da época.

“Os Maias” ainda traz uma abordagem hereditária, ou seja, os comportamentos do personagem do Carlos, quando ele é descrito como um jovem de caráter fraco, herdado do avô e do próprio pai, e o desequilíbrio amoroso que herdou da mãe.

Além disso, envolve assuntos psicológicos. Por exemplo, Carlos mesmo sabendo que a mulher com quem tem uma relação amorosa é sua irmã, não deixa de se envolver com ela. O fato de descobrir que Maria Eduarda é sua irmã, não é suficiente para que ele a não deseje.

As personagens femininas são representadas sempre como o símbolo da luxúria, do pecado, da perdição. Esta é característica não somente da obra “Os Maias”, mas também presente em outras obras de Eça de Queiroz, como “O Primo Basílio” e “O Crime do Padre Amaro”.

Alguns estudiosos afirmam que essa forma de representar o papel da mulher em suas obras é reflexo da rejeição que o escritor recebeu da própria mãe.

Em “Os Maias”, várias mulheres mantêm relações adúlteras, isto é, fora do casamento. Por exemplo: a mãe de Carlos e Maria Eduarda, Maria Monforte que foge com Tancredo e abandona o filho e o marido.

José Maria de Eça de Queiroz foi um romancista, contista, poeta, advogado e diplomata português nascido em 24 de novembro de 1845, em Portugal, e falece aos 54 anos em 16 de agosto de 1900, na França.

O escritor que tem como tradição o romantismo e o realismo. E muitos consideram o romance “Os Maias” o melhor romance do Realismo em Portugal.

Eça de Queiroz nasceu de uma relação não-marital. Mesmo que seus pais tenham se casado, não há registro da sua mãe. Ele foi criado pela avó e depois com uma ama, e posteriormente foi para um colégio. Além disso, o incesto presente na obra “Os Maias” veio também de sua família, pois há registro de episódios incestuosos no diário de sua prima.

O livro está disponível para download no domínio público em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ph000181.pdf

Fontes:
Algo Sobre
Os Maias. Disponível em Guia Estudo. Acesso em 01 de maio de 2021.