sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Clara Andrade Miranda de Araújo (Poemas Avulsos)


ÁRVORE DA VIDA

De criança eu me lembro, de uma visão bela
Onde uma árvore pequena, como eu, havia
Invadindo-me a vida, naquele instante,
Em que o mundo a mim se atrevia

No tronco se abria uma porta e eu adentrava,
Sempre de manhãzinha, olhos fechados, ainda,
Tão espaçosa, de luz intensa era a casa,
Como se ali morasse, eterno, o sol do meio-dia.

O tempo me consumiu em dilemas
E a criança escondeu-se nas incertezas e espinhos,
Da minha construção restaram, apenas, caquilhos
Que fui juntando pelos caminhos

Começo a regressar à casa, agora, mansão edificada
Em novos alicerces que o Mestre me ensinou
A retirar das tempestades, das quedas, no tempo
Em que ao meu lado caminhou

Pressinto a escadaria, onde os primeiros passos
Em direção à porta que finalmente se abrirá
No momento esperado, há de me acolher no seu amor
O grande construtor da vida, o Espírito Sagrado!
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ESTRANGEIRISMO

Pobre do nosso idioma
Que o estrangeirismo assola
Pra se falar hoje em dia
Na língua é preciso mola

Estar bem na vida é o must
O habitat é um flat
Onde o chic é ter um site
Relax na Internet

My darling tem mais um hobby
Diz o brother da society
Em weekend no Blue Moon
Com Sunday e soda light
Ganhei charm e new look
Usando training de strech
Se o stress te deixa down
Vá comer chips ou fresh

No window uma homepage
E um fax modem na house
Pra convidar pro new age
É só clicar o seu mouse

I love you para o baby
I’m sorry, como dói,
Recado só por e-mail,
Ou pelo office boy

Play back num happy end
En passant com champignon
Ticket num happy hour
Champagne no reveillon

O baby look dá o tom
Antigo é o pullover
Na rua tem dance street
Cantor da moda é um cover

Special é uma star
Que usa Babouche ou um Nike
O fashion é o black tie
Desconfiou é insight

Bye bye que eu vou pros States
Trabalhar num workshop
Na bag só um Rocaille
De cotton blue levo um top
Talvez eu vire uma lady
Ou uma star superpop.
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MINHAS MÃOS

Não eram assim essas mãos, elas já foram belas,
Mãos de crianças que davam vida
Às bonecas de milho, puxavam o rabo do gato
E o fio preparativo das teias agarradas às janelas
Regiam o canto do galo no terreiro, o latido do cão,
Naquele mundo brejeiro iniciavam a própria construção
Nos castelinhos de areia

Em tempos não matinais, já pelo meio-dia,
Arregaçaram mangas, no inverno e no verão,
Retiraram a brisa para as lembranças, enxugando lágrimas,
Distanciadas do caloroso e paterno abraço,
Embalaram berço com o canto do meu amor materno,
E na dor, exaustas, prepararam unguento para estranhas feridas,

Essas mãos, hoje cansadas, nunca foram ausentes,
Regeram de um jeito singular como o tempo quis
A sinfonia de semblantes jovens, durante quase uma vida inteira
E com devoção, manusearam nobres instrumentos:
Livros, apagador, giz,...
E recolheram tanta luz de uma aquarela
Ansiosa por colorir o meu mundo submerso
Que não puderam suportar e assim escurecidas,
Cicatrizes de um tempo prisioneiro
Elas vão escorregadias por entre os dedos,
Pintando em arremedo, as páginas em branco na forma de verso.
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ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO

"Última flor do Lácio inculta e bela"
Pelo mar em caravelas
Um dia chegou aqui
Num distante mês de abril,
Lusitana mãe de um povo alvissareiro
Ao encontro de um guerreiro
Forte e valente Brasil.

D'além mar ela chegou,
Em pés descalços caminhou,
Porta-voz de outra bandeira
Que fiel, um som nasala,
Soletrou em outras falas
A beleza do beabá.

Sua riqueza é que faz a doce lavra,
Dona de toda palavra,
Me ensinou a cantar
Amor a ti ó língua portuguesa.

E a boa mãe, língua materna,
Veio para ser eterna, morando na voz da gente
E o poeta que esse canto assim encerra,
Ao beijar a minha terra
Deixaria num prefácio
Que pra sempre eu vou amar
A "última flor do Lácio"

"Quem é que traz à voz tanta beleza
É com certeza nossa língua portuguesa"

Fonte:
Rubens Luiz Sartori (org.). Compêndio da Academia Mourãoense de Letras.  Campo Mourão/PR: UNESPAR/FECILCAM, 2004.
Livro enviado por Sinclair Pozza Casemiro

Contos e Lendas do Brasil (O Cantador de Modinhas)


Houve um tempo em que os bichos falavam. Mantinham entre si uma sociedade em que discutiam os assuntos mais palpitantes e que se relacionavam com os seus interesses. Nada ficava por apreciar. conversava-se à vontade numa tagarelice abundante e desprevenida. Nessa sociedade se encontrava de tudo desde orador até o funileiro. Alfaiates e marceneiros, vaqueiros e ferreiros, viviam todos trabalhando em cooperação, daí resultando uma vida regradamente feliz. Os acontecimentos se sucediam com certa normalidade. Os crimes não eram frequentes, lá, um ou outro só para se dizer que havia transgressores da lei, alguns espíritos mais rebeldes que não se sujeitavam facilmente ao estabelecido. Também se ia verificar o que fora — e a conclusão era que o ocorrido quase sempre não passava de fruto de ímpetos não contidos.

Entre os bichos mais educados não se via essa novidade de lutas pessoais. Somente no meio mais baixo é que se notava um certo desalinho nas atitudes. As ordens eram terminantes: nenhuma tolerância quanto aos transgressores. Aquele que cometesse uma falta podia ficar certo de que a punição não se faria tardar. Teria de vir e de ser aplicada para exemplo a outros indivíduos menos avisados. Havia, pois, ordem estabelecida. A sociedade dos bichos podia servir de modelo a outras sociedades mal organizadas. Quando eles falavam muito é que a coisa se transtornava um pouco. Um começo de confusão não se fazia esperar. De modo que as discussões eram terminantemente proibidas e parecia bem acertada a medida, porque sempre elas originavam conflitos lamentáveis, fazendo lembrar as competições políticas nas suas arengas na praça pública, correrias, tiros e o governo de seu, palitando os dentes.  E por falar em políticos, havia entre os bichos, bichos poetas, bichos homens de letras, médicos, advogados, engenheiros, havia de tudo, até cantadores de serenatas e tocadores de violão.

Num meio tão ilustre se destacavam o cachorro e o gato — aquele um famigerado cantador de modinhas e este gostando das ressonâncias do pinho, deitando-o no peito e de suas cordas tirando sons melancólicos. Nas noite de lua clara se acendia no coração dos dois um desejo louco de sair pelas ruas da cidade a tocar e a cantar. As namoradas não podiam dormir mais, perdiam o sossego com uma serenata assim, quebrando o silêncio da madrugada e sobretudo, trazendo-lhes recordações agradáveis ao sentimentalismo lacrimoso. E o cachorro e o gato ali no duro: derramados no  afeto, empenhados na obra de conquistar corações femininos. O cachorro tinha uma voz sonora e melodiosa, era um perigo que o gato precisava evitar quanto antes, acabar com aquilo que já estava lhe prejudicando; embora tocasse violão como ninguém e nele pusesse todos os dengues de sua alma de felino. Ouviam mais a voz do que a música. Esta ficava num plano mesmo, precisava ser posto em situação mais destacada.

A astúcia entrou em maquinações demoradas, cuja execução dependia apenas de um momento favorável. havia de chegar a hora. E essa hora desde muito inquietava o gato na sua macieza, na sua aparente impassibilidade. A inveja não fora feita para sua raça. O predicado maior era mesmo o de sibaritismo. A voluptuosidade surgia sempre como o prazer máximo e adorado pela sua gente que tudo conseguia da vida com o algodão dos pés e a agilidade dos movimentos oportunos. Mas uma noite incutindo solertemente no espírito do cachorro que a sua voz poderia ser muito melhor do que era. Estava no seu querer torná-la mais cheia e vigorosa nos acentos, muito mais ressonante nos agudos, macia e adocicada nos seus contornos líricos — era só ele mesmo querer e pronto, fazia-se a modificação com a maior rapidez possível. Insistiu na obra catequizadora. e foi perguntando com insistência se a operação transformadora requeria sacrifício extraordinário. a resposta não variava: "qual nada, coisa nenhuma, vagabunda mesmo, qualquer um suportará bem". E rematava: "a questão é você querer".

O convencimento fez-se afinal. Decidiu o cachorro a empreender a modificação orientada pelo gato. Este convenceu ao amigo sentimental que a sua voz ficaria muito melhor se a boca fosse rasgada nos cantos até perto das orelhas. Ficaria com bastante espaço para tornar a voz mais melodiosa e mais cheia de liberdade. Aceita a proposta, começou a rasgá-la a faca. Cortou-a ele mesmo um pedaço. Experimentou como ficava e começou então a uivar, coisa que nunca havia feito. Porém nem desconfiou e perguntou: "que tal?". Teve como resposta do gato: "está chegando no ponto". Animado com isso, mordido de ambição por possuir uma voz mais rica do que a que tinha, tratou de rasgar mais a boca até, como propunha o gato, à "vizinhança das orelhas". A ferida sangrava demais e precisava de ser curada quanto antes. Foi o que se fez. Depois de vários dias de tratamento ficou finalmente bom e em condições de prosseguir na realização de suas serenatas ao luar. Marcou o dia para ensaiar e ouvir o regalo da voz nova que obtivera.

A desilusão foi, entretanto, a mais completa possível porque agora somente fazia era latir. Na primeira etapa uivou, na segunda latiu. Estava perdido para sempre com a operação que fizera. A raça que dependia de sua virilidade de chefe sultânico iria ficar privada eternamente da voz que fazia o encanto das madrugadas cheias de sombras emocionais. Diante de tamanha decepção não havia outra alternativa senão declarar guerra eterna ao gato. Aonde ele estivesse, a perseguição se impunha como uma necessidade de uma raça digna, aviltada, todavia, na confiança e na sua boa fé.

Afirmam que nasceu desse dia a rivalidade entre cão e gato. Pelo menos é o que se diz nos engenhos da várzea.

Fonte:
Ademar Vidal, in Luís da Câmara Cascudo. Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: EDUSP, 1986.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Daniel Maurício (Poética) 2

 


Olivaldo Júnior (Um Coração, Também) Para Caio Fernando Abreu


Debruço-me sobre meu próprio corpo, cansado, exausto de tanto horror cotidiano. Busco uma música, um copo bem grande com água, um suco, uma fruta, um pouco de paz em meio à guerra sabe-se lá pelo quê, por quê, muito menos por quem. Quem me deixou aqui? Quem me mandou descer à Terra e cumprir meus dias como alguém? Mas alguém me disse: Deus. E escuto, de repente, o som de Bach numa vitrola, o som de Bach em “louva-ação”.

Cansado, quero um corpo menos denso, uma lua menos nova, um tempo para o sono. Sonso, o senso me pede: Um coração, também. Mas um que bata ao mesmo ritmo do seu, à mesma cardiofrequência e que se pareça um pouco infenso à dor, essa (in)constante solidão que perpetua os homens e as mulheres nos barzinhos, sempre a ouvir MPB, sempre a rir sem ter ouvido a piada infame que aquele “amigo” que se encontra por acaso conta ao léu. Argh!

Leve como uma pluma, quero a luz ao fim do túnel, algo que me diga que devia, ou deveria, ser assim: Aos (censurado) anos, mas ainda sem ninguém!. Alguém, o senso, me pede: Um coração, também. Parece que o senso comum quer mesmo que eu tenha um coração que me cutuque, me belisque e me machuque, mas, coração, ‘tá valendo, vale tudo, nesse caso. Quem não quer alguém que o veja, imperfeito como você é, e ‘pire’? Quem não quer, né?

Exausto, deito a cabeça em minhas letras e me elevo a poeta, a escritor, a letrista, a beletrista, a quixotesco e a qualquer outra coisa que me iluda e me faça aproveitar a sobra de minhas sombras em minha arte, parte de mim, mina de ouro para um artista, um artífice das horas, que se tornam dias, que se tornam meses, que se tornam anos, que se tornam décadas, que me tornam nada mais, nada menos, que um homem solitário e triste... Ah, que tempo!

Busco uma música, um copo bem grande com água, um suco, uma fruta, um pouco de paz em meio à guerra sabe-se lá pelo quê, por quê, muito menos por quem. Quieto, o senso me lembra: Um coração, também. Algum vermelho vivo, algum amigo que me ligue e que se ligue no que eu penso. Algum apenso que dispense apresentações. Algum abismo em que eu me atreva a experimentar minhas asas que, com barbante, luz e cola, improvisei. Um coração.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Aparecido Raimundo de Souza (Parte 18: Um “Pato” Entre os Espinhos da Morgaça)


DUAS VIATURAS DA POLÍCIA CIVIL estão estacionadas estrategicamente na Avenida Sousa Lima. Uma delas, quase em frente ao restaurante Bardana Cozinha Natural, colado na portaria do Condomínio do Edifício Tebas. A outra, na esquina sobre a calçada da Sousa Lima com a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. No Edifício Tebas, em face de um telefonema anônimo, alguém informou que estaria escondido um dos maiores traficantes da Baixada Fluminense. Um policial disfarçado de gari, se posiciona em ‘campana’, encostado ao murinho do buffet Bardana.

Outros quatro, vestidos com as roupas dos Correios, circulam no curto espaço entre a avenida Nossa Senhora de Copacabana, o Bar Buda de Fora e a Avenida Atlântica. O delegado Chicago, chefe da operação ‘Êxtase invisível’, finge ler as noticias dos jornais dependuradas numa banca de revistas. Na verdade, ele espreita toda a movimentação do quarteirão, enquanto chupa um picolé que acabou de comprar de um vendedor ambulante que cruzou em direção à praia.

Num dado momento, ainda com o sorvete nas mãos, o sisudo homem da lei atravessa a rua e se dirige ao policial gari:

— E ai, ele entrou?

— Se for o da foto que tenho aqui no bolso, positivo.

— Droga! Quanto tempo?

— Dois minutos, senhor.

O delegado se irrita:

— Dois minutos? Por que não me avisou?

O policial gari confirma o que disse e acrescenta:

— Achei que o senhor também tivesse visto o mesmo que eu, senhor. Evitei o rádio para não...

O delegado se enfurece:

— Para não o quê? Não é possível. O suspeito adentra no prédio e você come mosca?

— Eu, chefe? Quero dizer, positivo. Comi. Foi no momento em que o senhor cruzou indo para o outro lado.

— Inadmissível! Sequer pisquei.

— O senhor se descuidou...

O delegado franze o cenho:

— Que foi que disse? Me descuidei? Está me chamando de relapso?

— Sim, perdão, senhor, de forma alguma doutor. Que é isso!

O delegado joga o sorvete no chão, toca o interfone, se identifica ao porteiro e, após a passagem ser aberta, caminha em direção ao sujeito que lhe concede acesso.

Renova a exibição da sua função metendo o distintivo na fuça do infeliz. Puxa do bolso uma fotografia:

— Viu este homem?

O porteiro prontamente responde:

— Acabou de subir.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Qual o andar do meliante?

— De quem, doutor?

— Deste vagabundo que acabou de passar debaixo de seu nariz.

— Décimo, senhor...

O delegado corre para o elevador social. O porteiro vai na cola dele. Prende a porta. Fala:

— Senhor...

— Solta esta geringonça, seu imbecil. Quer ser preso por obstrução policial?

Assim que o delegado some da recepção, o elevador de serviço se abre e, dele sai, a figura que todo o aparato policial da Cidade Maravilhosa está nos calcanhares. Em suas mãos, uma cachorrinha late desesperadamente em vista do contentamento em saber que irá passear:

— Bozé, o ‘delega’ subiu?

— Quem, senhor?

— O delegado, seu idiota.

— Sim senhor... Mas...

— Perguntou alguma coisa a você?

— Não.

— Bozé, seu Mané: sou eu.

— Credo, seu Defuntino! Com este disfarce, só Jesus! Bigode, peruca, vestido com jaleco de médico, estetoscópio no pescoço... Se o senhor não me fala... Fique tranquilo. Disse ao chato do delegado que o senhor subiu para o décimo.

— Legal. Valeu!

— Apesar disso, tome cuidado seu Defuntino. Tá vendo aquele lixeiro grudado ali no Bardana?

— Sim. O que tem ele?

— É um agente camuflado.

— Ótimo. Continue de ‘butuca’. Vou levar a Xuxa para dar uma voltinha... Se liga...

— Deixa comigo...

Defuntino sai, passa numa boa pelo policial embuçado e segue em direção à Avenida Atlântica. O delegado retorna à portaria. O porteiro, se adianta a ele:

— Achou quem o senhor procura?

O delegado fulmina o funcionário. Está pra lá de possesso. Não fala, grita:

— Claro que não, seu quadrúpede. Qual o apartamento do meliante?

— De quem, senhor?

— Deste cara que lhe mostrei a foto. Veja de novo.

— 1.001.

O delegado berra ao policial gari. O porteiro libera o ingresso para que ele se aproxime. Enquanto isto, tira do bolso uma folha de papel. Na verdade, um mandado de prisão:

— Passe um rádio para os demais. Quero dois homens pelas escadas, e um em cada elevador. 1.001.

— Que diabo é isto, doutor?

— O cafofo do suspeito.

Os ‘tiras’ que andavam lá fora, na calçada, com os uniformes dos correios, pintam no pedaço. O policial varredor de rua repassa as ordens:

— Gil e Caju, pelas escadas, Goiaba, no elevador de serviço. Eu e você Tinhoso, mais o doutor delegado, no social.

— Qual a cachanga?

— 1.001. Vai, vai, vai...

Todos somem das vistas do Bozé. Retorna, à cena, uma exuberante mulher lindamente maquiada e acondicionada numa longa indumentária vermelha de tirar o fôlego. Ela toca o interfone:

— Pois não, senhora?

— Bozé, seu palhaço... Abre depressa. Sou eu...

— Eu quem? Nunca lhe vi mais gorda!

— Bozé, sou eu, Defuntino.

— Cruz credo, seu Defuntino! Vestido, digo, vestida de granfina, empoleirada no salto alto... Com todo respeito, a boneca está divina. Desculpe. Cadê a Xuxa?

— Psiu! Fale baixo. Tá me tirando? Deixe de brincadeira. Deixei a cadelinha no apartamento da minha irmã. Como você sabe, ela reside logo aqui na esquina da Atlântica. Cadê ‘os tira?’

— 1.001.

— Boa, boa...

A confusão não poderia ter sido pior. O pacato prédio quase vem à baixo. Os policiais chegam no 1.001 e mandam ver. Metem os pés, arrombam a porta. Fato desastroso. Residência do juiz de direito, doutor Claustroférico da Assunção Baioneta, titular de uma das varas criminais do fórum central do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, na Erasmo Braga.

A situação. Os policiais invadem o apartamento. O juiz almoça tranquilamente junto com a esposa e os filhos. Quando o delegado chega botando a porta no chão, exibindo mandado de prisão e o enfiando na goela do magistrado, ordenando que seus comissários algemem até os cachorros, o sujeito da capa preta sai do sério. Ato contínuo, usando das suas prerrogativas e privilégios, distribui carteirada à torto e a direito, puxa arma de fogo e o quadro se agrava. A militar e a guarda municipal são acionadas. Todo o perímetro da Sousa Lima, entre a Avenida Nossa Senhora de Copacabana e a Avenida Atlântica, bem como o pacato Edifício Tebas se vê, de repente, cercado pelo menos por umas vinte viaturas e uma centena de policiais das operações táticas especiais, todos mascarados e armados até os dentes.

Até uma ambulância encosta no pedaço. Sem falar na massa de curiosos. Lá em cima, apesar de todo mundo se identificando, ou tentando, a coisa segue degringoladamente bagunçada. O edifício, em peso, movido pelo estardalhaço, debanda para os corredores, outros ocupam janelas, como, igualmente, a galera que está no restaurante se aglomera para ver o que acontece. Em meio a toda balbúrdia, o caldo engrossa e se avoluma no décimo andar. Neste interregno, o bandido mais procurado do Rio de Janeiro, metido em sua longa fatiota vermelha de parar o comércio, escapa da reta. Faz meia volta e tranquilamente deixa o edifício dando linha à pipa.

Como sempre, a corda rebenta para o lado do mais fraco. Sobra para o pobre do porteiro, o Bozé. O desditoso sai preso, algemado e conduzido para o 13º Distrito Policial situado na Avenida Nossa senhora de Copacabana, em frente a antiga Galeria Alaska. Segundo declaração do delegado Chicago à imprensa: “Ação merecida, pelo fato dele, o funcionário do edifício Tebas, ter fornecido o número do apartamento errado e supostamente ajudado a dar fuga a um perigoso criminoso procurado em todos os cantos do Rio de Janeiro”.

Fonte:
Aparecido Raimundo de Souza. Comédias da vida na privada. RJ: AMC-GUEDES, 2020.
Texto enviado pelo autor.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Daniel Maurício (Poética) 1

 


Carlos Drummond de Andrade (Calça Literária)


É assíduo leitor de blusas, camisas, saias, calças estampadas. Não lhe escapa um exemplar  novo. Parece desligado, e observa tudo. Segundo ele, as peças de indumentária, masculina e feminina, ostentando símbolos e nomes de universidades americanas, manchetes, páginas de jornal, retratos de Pelé e Jimi Hendrix, apelos ao amor que não à guerra, etc., há muito deixaram de ser originais.  Constituem invólucros rotineiros de pessoas de qualquer idade. A gente estranha é uma camisa inteiramente nua de dizeres ou figuras, a roupa que não diz nada, só roupa. Hoje, lê-se mais nos tecidos do que nos livros, e não é ler apenas, é ver cinema e televisão, pois os corpos, ao se moverem, dinamizam as figuras estampadas. O que, de um modo ou de outro, contribui para a cultura de massas. Informa:

-  Estou pensando em aproveitar esse material para fins especificamente didáticos. Através dele, ensinar Geografia, História, Matemática, Medicina de Urgência, Imposto de Renda, Ortografia Desmistificada, essas coisas. O indivíduo cobre-se e vai distribuindo ciência. Ou aprendendo. Vinte minutos no busque aula! Classes ao ar livre, na feira, na fila. Escola dinâmica.

- Você sozinho é um Mobral 1971.

- Ontem eu li uma calça comprida, de mulher, que à primeira vista não tinha nada de especial. Estava escrita como tantas outras. Mas o texto (não confundir com textura) me chamou a atenção. Geralmente, calças e blusas não são literárias. Trazem notícias, anúncios,  slogans, mas versos, ainda não tinha visto. Pois essa tinha poemas em  português, de Camões ao Vinícius.

- Tomou nota?

- Claro. Aliás, a usuária foi muito gentil. Percebendo que  eu mirava a parte  inferior  do  seu  revestimento,  gratificou-me  com  um sorriso que eu traduzi assim: "Pode mirar mais". E eu mirei. Aí, puxei da caneta, e ela sorriu outra vez, como quem diz: "Pode copiar  também". Copiei.

- Tudo?

- Tudo, não. A dona da calça estava sentada na sala de espera do cinema. Só o que era visível. Depois se levantou, foi ao bebedouro, deu tempo para eu colher mais alguma coisa, no ir e vir. Não tive coragem de pedir-lhe que desse umas voltas. Você compreende: sou tímido.

- Estou vendo.

- Foi a primeira calça literária, totalmente poética do meu conhecimento. Feita em São Paulo? Talvez. Caracteres pretos sobre fundo branco. Versos em todas as direções. De Bilac, de Cecília, de Bandeira, de Castro Alves, de Fernando Pessoa. Uma antologia, bicho. Sem ordem, naturalmente. Escuta aí: Onde  vais  à tardezinha, morena flor do sertão? O que eu adoro em ti é a vida. Aqui outrora retumbaram hinos. Oh abelha imaginativa! o que o desejo inventa… Vou-me embora pra Pasárgada. Amor é fogo que arde sem se ver. Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho. No monte de amor andei, por ter de monteiro fama, sem tomar gamo nem gama. Clorindas e Belindas brincam no tempo das berlindas. Eu tenho amado tanto e não conheço o amor. Estrela Vésper do pastor errante. 'Tamos em pleno mar: dois infinitos ali se alteiam.

- Beleza.

- Não é? Tem  mais. Transforma-se o amador na coisa amada. Antônia, você parece uma lagarta listrada. Dona Janaína, rainha do mar, dai-me licença para eu também brincar no vosso reinado. Por que não nasci eu um simples vaga-lume? Não queiras indagar do meu  segredo. Mas que seja infinito enquanto dure. Cantando espalharei por toda parte. Tudo não escondido perde a graça. O emamomo floresce em frente do teu postigo. Crisântemo divino aberto em meio da solidão... Tinha uma pedra no meio do caminho.

- Isso já é prosa, amizade.

- É mesmo. Em todo caso, trata-se da primeira calça poética luso-brasileira. Os poetas que tratem de defender seus direitos autorais. A menos que considerem uma honra vestir de versos as mulheres.

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. De Notícias & Não-Notícias Faz-se a Crônica. RJ: José Olympio, 1974.

Rubens Luiz Sartori (Poemas Avulsos) 2


AMOR

As dores fortes da ausência,
se reencontram no amor.
Amor, essa coisa bendita,
que nos agarra qual fita,
de uma dança de pares,
que se encontram em olhares,
um de cada lado carente,
outro só, buscando silente,
numa pessoa, seu ser.

O ser de si e de alguém,
é como folha no vento,
que ao cair à distância,
se perde longe do galho,
que forte antes era ânsia;
agora é só um retalho,
que balança ao relento,
sem vida. fraco e aquém,
não é mais nada, é ninguém...

Mas qual! é sempre alegria,
quando o amor surge, possesso.
Faz do hoje um novo dia;
faz da morte um retrocesso;
faz de conta que não conta,
o passar dos dias, dos anos
e apesar dos desenganos,
com amor tudo é presente,
traz de volta o riso ausente,
e nos transforma em mais gente.
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AO MEU CACHORRO GETÚLIO!

O meu cachorro Getúlio,
é amigo fiel devotado.
É para mim, meu orgulho;
é parceiro apaixonado.

Descende da raça canina,
valente e fenomenal.
É forte, sem vitamina,
cumpre instinto sem igual.

É filho do "velho Xirú",
cão bravo de muita luta;
pioneiro na "Quero-Quero"
seu reinado sem disputa,

Acoa na sua vigilância;
defende-me, por ideal.
Guardião de toda a Estância,
sem pagamento ou metal.

Nunca nos faltem "Getúlios";
nunca falte um cão fiel,
passarão tempos e "julhos",
terei cão até no céu.
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 QUANDO EU NASCER DE NOVO...
E QUANDO EU NÃO MAIS EXISTIR...


Quando eu nascer de novo.
quero viver com mais risco.
Quero cruzar mais fronteiras,
conhecer montanhas e rios.
Andar na chuva de noite,
sentir o prazer do arrepio.
mirar o além d'horizonte,
sorver o vento e o frio.
Quero ver quanto eu arrisco...

Sonhar meus sonhos sombrios,
de ter que ser mais humano.
Buscar meu ego constante.
Olhar a vida de frente.
Amar a tudo que quero,
nadarem rios de vontade.
Conhecer a noite do tempo,
jogar meus jogos de amor.
Sentir de longe a saudade,
viver a cada minuto,
como se fosse um condor...

E quando eu não mais existir,
que vivam meus passos perdidos,
meus dias de muito tormento,
e todos meus beijos de amor
relembrem meus olhos vibrantes
e a pouca poesia que sobrou.
Que todos se lembrem de mim,
não como um homem apenas.
mas como alguém que sonhou...
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VELHA PONTE

Velha ponte de meu rio de infância
ligaste os sonhos de amor-criança.

Velha ponte de meu rio de infância,
quantos sonhos que eu sonhei com ânsia,

Foste ponte, de saudades quantas.
Foste rio, de águas limpas, tantas.

Velha ponte de meu rio de infância,
quanta vida deste a tantos sonhos.


Fonte:

Rubens Luiz Sartori (org.). Compêndio da Academia Mourãoense de Letras.  Campo Mourão/PR: UNESPAR/FECILCAM, 2004.
Livro enviado por Sinclair Pozza Casemiro

Rubem Braga (O Fiscal da Noite)


Fui eu que vi o Cruzeiro erguer-se do mar e mais tarde chegar até o horizonte de minha varanda; vi duas estrelas muito brilhantes nascerem depois dele e subirem também. Analfabeto olhando as  estrelas, segui sua navegação sem saber seus nomes; vigiei de meu imóvel tombadilho.

Estava solitário, mas não  triste; lembrei o velho dito dos bêbados: "A noite ainda é uma criança".

Mas o tempo avança. Agora medito no seio de uma noite madura, como à sombra de uma grande árvore; de raro em raro, madura demais, cai uma estrela e se perde na escuridão do céu ou do chão. Quase não vejo o mar, apenas o pressinto e o sei arfando lânguido, sem vento.

Deus me pôs nesta rede a olhar a noite. Não tenho sono nem vontade de sair; não telefonarei para ninguém. Sou como um débil  mental a quem houvessem dado o emprego de fiscalizar as estrelas, e acompanho com paciência sua marcha lenta. Devo dizer que estão se comportando bem, tanto as mais novas como as mais velhas; andam de leste  para  oeste  de maneira morosa e sensata, guardando com atenção as respectivas distâncias. Se o major-fiscal me telefonar direi que não há nenhuma alteração. O nascimento da lua está marcado para as 2h45min da madrugada; espero que seja pontual e não me dê aborrecimentos. O  número de estrelas cadentes é diminuto.

Informarei: "Pequenas baixas; o desperdício de estrelas durante a noite a meu cargo foi mínimo e, creio, inevitável; nosso estoque é imenso, senhor major". O major comunicará ao  coronel,  este ao general, este ao Presidente da República. O Presidente  da  República expedirá mensagens congratulatórias a Deus e a Albert Einstein, no Paraíso.

Adormeço na rede, e desperto assustado; mas o céu está em ordem, e as estrelas marcham  sempre na mesma direção, como crianças bem comportadas. Deus me pôs nesta rede, e o Diabo me fez dormir. Felizmente a lua ainda não nasceu. Risco um fósforo para olhar meu relógio ("a opinião do prefeito de Genebra sobre a hora de  Ipanema"), meu  famoso relógio antimagnético, antiatômico e antilírico, e suspiro aliviado; ainda faltam 18 minutos para o nascimento da lua. Levanto-me e tomo posição em outro ângulo da varanda, murmurando:  "Vamos  providenciar isso".

Fonte:
Rubem Braga. A Traição das Elegantes. RJ: Sabiá, 1967.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Arquivo Spina 11 (Rita Queiroz)

 


Carolina Ramos (O Poder de Um Simples Gesto!...)


As "coisas" não têm o mesmo sabor durante a vida toda. A própria vida é que, com arte, tempera tudo o que nos transita ao redor, misturando cores, sabores, criando sutilezas mutantes, fruto do que vemos, do que sentimos, inalamos e saboreamos ao longo da existência, sujeitos sempre à alquimia das múltiplas fases. E se assim  admitimos, ronda perto a resposta ao perplexo questionamento machadiano, já lugar comum: — "Mudou o Natal, ou mudei eu?!"

Que imensidade, espiritual e também material, se esconde por detrás dessa palavra sublime - Natal! Na infância, a expectativa, o ansioso aguardo da chegada, do Pai Noel, misto de fé e fantasia, alimentado pela matutina corrida aos sapatinhos, à espera dos presentes deixados, na noite anterior, sobre aquele fogão de cada dia, nessa noite, alçado ao status de lareira — à imitação dos moldes europeus ou dos pagos do sul, onde o frio aperta e o desejo de aconchego troca a sofisticação por necessidade.

Os pais a dormir tarde, no controle aos olhos curiosos, doidinhos para flagrar e perturbar os preparativos da Noite Santa! Fugida ao leito bem cedo, cara e asas de anjo, a criançada corria em busca do presente que o Velho Noel deixara nos sapatos dos merecedores — os tais "bonzinhos" daquele ano — o que, no final, todos acabavam por ser, já que ninguém ficava sem recompensa! — Não seria isto, por acaso, a semente dessa impunidade que por aí viça?!

Pergunta incômoda, esqueçamos! Nada de conotações constrangedoras quando o assunto é o Natal da nossa infância, aquele Natal que tinha brilho, tinha gosto... tinha cor e cheiro de Natal!

Para a Ceia, a mesa adornada com carinho especial, "enquitutada" no capricho, (vale o neologismo!) rodeava-se de gente amiga, gente alegre e gulosa, a esbanjar lembranças, meio àquela zoeira festiva dos reencontros bem humorados, dos abraços e tilintar de taças! Num canto nobre da sala, um pinheiro, natural ou não, enfeitado de luzes e bolas coloridas, brilhosas e tão frágeis, que exigiam renovação a cada novo ano!

Sob a árvore simbólica, o encantamento espiritualizado e singelo, do pequenino presepe, à espera do momento máximo das doze badaladas, quando o Menino seria colocado no berço de palha pelas mãozinhas puras de algum anjo, escolhido especialmente dentre os mais novos da família, para consumar a magnitude daquele ato sublime.

Natal Santo! Natal Família! — ao correr dos tempos, esvaziado e amargurado pelo sal das ausências (outro lugar comum das crônicas natalinas, sempre repetido, porque inquestionável).

Os ciclos, se repetem, alguns mais longos que outros. E, tempos depois, quase tudo é reestruturado, tão logo a algazarra dos netos nos invade a intimidade, a despertar os guizos das lembranças, a sacudir e reativar emoções, suavizando até mesmo aquelas saudades queridas, tão pesadas e doridas que, graças ao milagre natalino, se adoçam e chegam até a ganhar brandura!

Neste ano, fato inusitado antecipou-me o sabor de infância, chegado de surpresa pelas mãos carinhosas de uma filha. O singelo presente devolveu-me o delicioso sabor, perdido pelas esquinas da vida, sem que o esperasse voltar a provar! Sabor engolido pelo tempo e chegado, sem espera, naquele potinho de louça, repleto de amoras maduras, fresquinhas, cor avinhada e perfume suave! Não simples amoras, compradas numa banca de supermercado, que, se assim fosse, seriam menos valiosas sem o rótulo do carinho filial. O regalo deixava transparecer, ainda, um toque de justificado orgulho, servindo de invólucro o lembrete da filha: — "Mãe, estas amoras, são daquela amoreira que eu mesma plantei... lá no meu quintal!"

Deliciada, confesso nunca ter saboreado nada tão gostoso quanto o que me oferecia a terna doçura daquele punhado de amoras, frescas e perfumadas... nascidas no quintal de minha segunda filha!

E então, "não mais que de repente..." como diria Vinícius, o espírito natalino acenou, avisando já andar por perto! O pequeno pinheiro, que neste ano, inexplicavelmente, "preguiçava" sem ser desempacotado, saltou da gaveta e ganhou o costumeiro lugar no canto da sala, agora mais bela, coruscante de luzes e bolas coloridas, menos frágeis, não se partindo à-toa como antigamente.

Magia do Natal? — Com certeza! Mas, com certeza, também, aquele punhado de amoras frescas muito contribuiu para o empurrãozinho estimulador!

É que, para o coração de qualquer mãe, um pequeno e oportuno gesto de carinho, na maioria das vezes, vale bem mais que uma pepita de ouro!
- - - - - -
(Crônica publicada no jornal "A Tribuna", de Santos)

Fonte:
Carolina Ramos. Feliz Natal: contos natalinos. São Paulo/SP: EditorAção, 2015.
Livro enviado pela escritora.

Contos e Lendas do Brasil (Erro do Burro)


Nas rodas sertanejas, antigamente se contava certa história de bichos, que ainda hoje não é esquecida. Vez por outra algum velho está a relembrá-la com todo os rique-fifes. História simples, sem maiores artifícios, não escondendo, entretanto, o fator moral como razão de ser da passagem pitoresca ocorrida entre animais que falavam, discutiam e agiam de conformidade com os seus interesses.

O fato é que o burro se encontrava muito de seu, pastando nos campos, comendo panasco verde – e a sua atitude pacata até despertava inveja dos próprios homens. Aquilo sim, é que era felicidade sem perturbações incômodas. Se chegava a hora de trabalhar, o burro trabalhava no duro, sem pedir misericórdia, sustentando o peso do serviço de carregamento e, ainda pior do que isso, sob o chicote dos moleques condutores ou boiadeiros malvados. Também do boleeiro, pois puxava o cabriolé do senhor e, diziam, fazia-o com uma competência ajudada pela carícia e pela ternura de servir. Embora o sangue mau do condutor.

Realmente, o burro era detentor de bondade extraordinária: não fazia nada de cara fechada, era sempre alegre que costumava enfrentar o serviço. Pois, em compensação, os instantes de folga eram compridos por demais, às vezes duravam dias e semanas. Comia o panasco e bebia no tanque de pedra. Andava gordo, sereno e venturoso. De que se queixar? A vida lhe sorria. Não era assaltado por nenhuma aspiração que não fosse sossego e paz, tranquilidade e bonança, trabalho e repouso, boa mesa e sono solto. A liberdade era tudo. Ela rodava-lhe em torno. Os homens falavam em democracia. Democracia deveria ser mais ou menos aquilo: liberdade e abastança, barriga cheia e despreocupação pelo que venha a suceder.

Mas de repente, quando se achava pensando nessas coisas amáveis, surge pela frente a raposa (a comadre raposa é sempre a mesma figura, no litoral, na mata e no sertão: aje astuciosamente e, de ordinário, com requintes de perversidade criminosa) que, desde muito, espiava aquela beleza de existência retirada, sem imprevisto, sem qualquer sinal a mais ou a menos, sem a nota de altos e baixos. Que coisa? Aquilo precisava de sangue novo. Estava reclamando mais movimento, mais ação e, portanto, mais intimidade com a vida. Pois esta andava monótona para os espíritos inquietos e inteligentes, requerendo novidade e que, neste sentido, se fizesse o maior esforço de criação.

Pensou indagando de si mesmo:

- Perto daqui não existe chiqueiro de galinhas?

Então a raposa dispôs-se à luta, procurando o burro, com ele mantendo longa conversação, fazendo-lhe sentir a necessidade de entrar por outros caminhos menos insípidos.

– Olhe, eu conheço a onça pintada que vive na Furna da Alegria. É um prazer visitá-la. Tem vivido muito e passado pelo que o diabo jamais imaginou. Nos meus momentos de angustia é para lá que rumo os meus passos.

– Mas eu não sofro nada, disse o burro. Tenho saúde perfeita. E não me queixo de coisa alguma.

– Isso não significa nenhuma novidade. Também quando me sinto feliz vou bater à porta da amiga. Ouço-lhe a voz carinhosa dos conselhos. Fico ainda mais alegre e cheia de felicidade. A tristeza vai-se embora.

Perversa, a raposa não desanimava na cantada, tudo fazendo para demover o burro do lugar onde se encontrava, pois não tinha ofício nem obrigação, se saía era sempre a passeio e, à noite, os galinheiros estavam à disposição de suas garras. Vagabunda, faladeira, mexeriqueira. Gostava e alimentava a perversidade como estigma da espécie a que pertencia.

Enquanto falava naquele tom, no íntimo bem sabia que a onça pintada era velha e encarquilhada, má, vivendo faminta e assaltando os bichos que tinham o topete de andar por perto de sua morada.

– Vou fazer essa visita que me pede.

E, decidido, largou-se o burro para o lugar em que vivia a onça tão boa, como afirmava a raposa, pacífica e generosa. Chegou às imediações da Furna da Alegria. Viu a bicha cheia de pintas pretas, saindo com um ar de mansidão, se arrastando, com os olhos fuzilando e, dando salto ágil, procurou atingir o limite onde estava o burro. Este desconfiou da parada. E pernas para que te quero, danou no mundo, a galope, regressando num fôlego aos pastos de sua deliciosa mansão. Não sairia mais dali. E comentando com os botões:

- A onça queria me botar no papo. Faminta como quê. Essa cachorra da raposa que me apareça para eu lhe dar o troco merecido.

Os dias correram. Certa vez chega inesperadamente a comadre com toda delicadeza e a pedir desculpa. Aquilo fora um horror. Como obter o perdão de seu amigo? Não tinha direito a isso. Era uma pobre miserável, merecia a morte e, assim, lamentou-se até conseguir manifestações de ternura do burro. Animou-se a maliciosa hipócrita dizendo:

- A onça, eu sabia, estava doente há várias semanas e foi exatamente na ocasião em que você apareceu que ela, zangada e faminta, não o conhecendo, atirou-se com a violência que costuma empregar contra suas presas.

Adiantou cautelosa

- Porém eu já fiz as necessárias recomendações e ela, agora ciente, pede-lhe mil desculpas, contrariada que está e, sendo possível, espera-o quando você quiser ou achar conveniente.

– Bem, neste caso irei mais tarde.

E, de fato, renovou a dose, isto é: seguiu o caminho já de seu conhecimento. Foi e não voltou. A onça banqueteou-se a semana inteira com mesa opípara. Fazia muito tempo até que não saboreava carne tão gostosa. Carne macia e cheia de vitaminas.

A raposa alcançou o que escondia: os pastos precisavam ficar abandonados para o senhor da casa-grande, sem querer perdê-los (outro animal para soltar não possuía nas redondezas; o gado andava no cercado; apenas o burro estava privando de uma consideração excepcional; era privilégio forçado) e, ante a evidência, abrisse o chiqueiro e deixasse as frangas e capões invadi-lo para o mais gordo aproveitamento. E ainda teria dito consigo mesmo, apreciando os fatos em que fora figura principal:

- Vá ser burro assim no inferno, na casa do diabo que o carregue.

Fonte:
VIDAL, Ademar. Lendas e superstições: contos populares brasileiros. RJ: O Cruzeiro, 1950.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Benedita Cristófoli (O Sonho de Voar!)


Era Sábado, uma manhã de muito sol, os pardais desciam do pé de carambola para saborear as nutridas sementes do gramado.

Ainda sonolenta, Maria Júlia sentou-se na calçada para observá-los e de vez em quando só olhar não a satisfazia, corria numa tentativa de pegá-los, mas quando se aproximava, eles voavam. Essa incompatibilidade a fez tirar o sapato e depois de um prolongado tempo, foi que percebeu que havia tirado só um pé.

Pelas folhas da grama escorriam as últimas gotas de orvalho, com a semelhança de um colar de pérolas debulhando entre as folhas e caindo para ser bebida pela terra.

Uma borboleta grande de cor azul voava ao seu redor num zig-zag, aguçando mais desejo de aprisionar os bichinhos!

Maria Júlia completaria 6 anos de idade na próxima semana, tinha pele clara, olhos castanhos esverdeados e cabelos loiros cacheados. Parecia uma bonequinha das mais lindas existentes.

O sol das dez horas já aquecia o seu rosto, deixando as bochechas vermelhas destacando ainda mais sua beleza.

Cansada, voltou à posição inicial, pôs os cotovelos no colo e a cabeça entre as mãos. Pensou, gostaria que meu presente de aniversário fosse uma noite de sonho, e pudesse transformar-me numa borboleta amarela por um dia de muito sol. Reforçando o pedido, escrevia bilhetes ao papai do céu, punha-os na janela, no gramado, na sala de jantar, na biblioteca, "Papai do céu! Quero ser uma linda borboleta amarela por um dia".

Foram passando os dias e para familiarizar-se mais com as borboletas, ela ia para o jardim todas as manhãs.

- Maria Júlia! Gritou sua mãe.

- Estou aqui no jardim treinando.

- Deixa de brincadeira e vem experimentar o seu vestido.

- Não, mamãe, já escolhi o meu.

Dona Neide fazia todas as tarefas domésticas e nas horas vagas costurava as roupas das crianças.

A noite soprava um vento fresco, Maria Júlia deitou mais cedo cobriu-se até o pescoço, sentiu a suavidade dos lençóis como a leveza da veste de um anjo. O quarto foi invadido por um clarão, uma voz dócil chamou:

- Maria Júlia! Acorda! Tenho um trabalho pra você.

- O quê? Respondeu já em frente ao espelho, admirando a bela borboleta em que tinha se transformado.

- Ouça com muita atenção: "Procure no jardim quatro sementes que estão bem juntinhas, coloque-as numa caixinha. Você não pode perdê-las, tenha muito cuidado! Vá aos quatro cantos do mundo; peça a seus habitantes que as plantem com muito carinho e dedicação. Quando essas plantinhas começarem a soltar o pólen, eles deverão soprá-los para o alto e
fazer três pedidos".

- Quais são os pedidos? – perguntou Maria Júlia.

- Isso vai depender da necessidade de cada região,

- Sim! Farei o que mandar.

Aborrecida, ela pensou, puxa! e meu dia de sol? Queria voar, voar rente ao chão, subir até as copas das árvores,.. É melhor não perder tempo. Pôs a bolsinha tiracolo no pescoço, já com as sementes, e voou, voou alta.

Imaginou os quatro pontos, e foi onde encontrou terra e gente, maravilha! Mas nos polos, fora uma viagem sofrida. Era o último lugar o Polo Norte, quando chegou, já sem forças e cansada, caiu numa geleira ficando presa uma de suas asas. Chorava e debatia tentando sair do gelo e assim permaneceu quase uma hora naquela situação lamentável. Até que decidiu pedir socorro e gritou:

- Onde está o povo deste lugar? Eu vou morrer congelada!

Com a gritaria apareceu um pinguim e seguidamente outros e alguns leões marinhos para ver o que acontecia.

- Calma, calma linda borboleta! Não vê que está se cansando cada vez mais?

- Me tire desse gelo, eu não tenho tempo a perder, por favor!

O pinguim delicadamente puxou com o bico a asinha dela para cima, tirou as pedras de gelo. Numa posição mais confortável ela respirou aliviada e agradeceu.

- Ah, que bom! Que mundo gelado esse de vocês!

- Sem dúvidas, mas eu no seu mundo quente, morreria!

- Onde estão os habitantes deste lugar?

– Somos nós.

- Tenho que achar alguém para plantar esta sementinha.

– Mas no gelo?

- Não sei, arrume uma terra, e faça esse trabalho.

E pronta para partir, depois de ter olhado tudo às pressas e muito curiosa, esquecia o motivo mais importante da sua ida ali. Despedia acenando com suas encantadoras asas.

- Linda borboleta! Disseram em coro.

– Sim!

– Você não falou os nossos pedidos.

- São as necessidades da região.

- Que nosso lugar seja habitado como o seu!

Será o primeiro pedido, disse o pinguim que lhe prestou socorro; o leão-marinho ia pedir para o homem preservar a vida deles. Um filhote pinguim pediu para que ela voltasse outras vezes para colorir o seu mundo.

Naquela manhã, Maria Júlia acordou mais tarde, a sua mãe preocupada entra no quarto e deseja-lhe feliz aniversário, percebe que dormia tranquila! Beija-a na face dizendo: – Levanta dorminhoca!

- Já acordei. Disse indo em direção à janela que a mãe acabara de abrir.

Fontes:
Rubens Luiz Sartori (org.). Compêndio da Academia Mourãoense de Letras.  Campo Mourão/PR: UNESPAR/FECILCAM, 2004.
Livro enviado por Sinclair Pozza Casemiro.

Cecy Barbosa Campos (Cristais Poéticos) III


IMPOSSIBILIDADES

Querer voltar
e não achar o caminho.
Querer segurar
e sentir que tudo o que tenho
escapa-me por entre os dedos.
Querer falar
e não achar as palavras.
Querer esquecer
e ser perseguido pela memória
dos fatos,
da vida,
das sensações
e das lembranças
que não se apagam
e que,
com nitidez penetrante
invadem o meu ser
tornando-se indeléveis.
Não é possível apagar
o que já não existe.
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INCLUSÃO

Dos males que nos afligem
estamos bem informados.
Na leitura dos jornais
ou pela televisão
temos notícias de tudo
que acontece no mundo.
O coração oprimido
compartilha o sofrimento
daqueles mais atingidos
que sem amigo, sem nada,
permanecem na exclusão.
Quisera encontrar caminhos
que possam levar os homens
a descobrir soluções
que amenizem as dores
do irmão injustiçado,
já bastante machucado
por agruras dessa vida.
Em minha busca incessante
percebo que, com caridade,
fé e amor no coração,
superaremos barreiras
e alcançaremos as mãos
daqueles que as estendem
suplicando proteção.
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INDAGAÇÕES

O que foi feito de nós?
Um de um lado,
outro de outro,
e um mundo entre nós dois.
O que foi feito
de nossas conversas noturnas
que se transformaram
em rotineiros Bom-dia?
Onde estão as luzes,
os risos, a alegria,
a música suave,
que ecoava em nossos ouvidos?
O que sobrou de nossas esperanças,
das tristezas partilhadas,
das angústias divididas?
Um sofrer inexplicável,
um temor silencioso,
tédio da vida,
Por quê?
As montanhas permanecem,
o sol brilha atrás das nuvens
e as estrelas clareiam as noites,
O que é mais importante?
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INFÂNCIA

O menino não tem brinquedo.
Nunca teve.
Mas brinca com serrote,
tesoura,
revólver,
caco de vidro.
Ele não reza. Ninguém lhe ensinou.
Se ensinou, esqueceu.
Mas vai à Igreja quando chove.
Se não puder entrar
fica na soleira, que lhe dá abrigo -
desde que não haja matança
como na Candelária.
O menino não come. Nem tem fome.
Cheira cola e dorme, com seu corpo osso,
num degrau de escada
sem frio, sem nada,
E dorme, e sonha,
até que os donos do mundo
surgindo dos cantos,
interrompam seu sono
e arrebentem seu sonho.
Batendo, espancando,
não ouvem seus gritos
e fazem calar
a quem nunca soube
infância, o que é.
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LEMBRANÇAS

Seu olhar enevoado enxergava os vultos
dos irmãos sentados à mesa da cozinha
e ouvia com atenção, o alarido incessante
que misturava perguntas e respostas
sem permitir que alguém fosse entendido.
Às suas lembranças, do tempo de criança,
juntavam-se outras de quando era cercada
por filhos e por netos. A vida transformada
trouxe alegrias e tristezas alternadas,
a partida de alguns, de outros a chegada.
Com a família dispersa foi ficando tão sozinha
que os retratos pelos móveis se tornaram companhia.
Dos momentos felizes restou-lhe a saudade
preenchendo as esperas inúteis de seus dias.
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MARCAS DO TEMPO

Tempestades marcaram a fronte enevoada
e sulcaram caminhos indistintos
pela serena face encarquilhada.
Com mãos trementes e sorriso tímido,
com a vergonha de insistir vivendo tanto,
olha perdido contemplando o nada
e enche de vazio a vida sem sentido.
Melancolia suave, lembranças persistentes
de ausentes presentes, teimosas companhias
que com ele ficaram, embora já partidos.
Indagações contínuas, perguntas sem resposta
de um mundo irreal e que ele não entende,
aqui vivendo em vida separada.
Com seus fantasmas conversa ensimesmado,
provoca risos e olhares aos quais não corresponde.
Fechado no seu eu, sorri às vezes,
ao receber um beijo ou carinhoso afago
daqueles que percebem qual o significado
da escrita confusa e empergaminhada
que traduz uma história de lutas e de dores
no seu rosto tranquilo e abnegado.

Fonte:
Cecy Barbosa Campos. Cenas. Juiz de Fora/MG: Editar Editora Associada, 2010.
Livro enviado pela poetisa.

domingo, 20 de setembro de 2020

Fábulas (A Ilha)


Era uma ilha que vivia no meio do oceano. Levava uma vida tranquila, sem grandes questionamentos. Conhecia outras ilhas e com elas se comunicava. Um dia porém uma ideia a inquietou: se toda vez que a maré baixava, uma porção de terra se descobria, então até que ponto haveria terra? Isso lhe tirou o sono por várias noites.

De repente seu conceito sobre si mesma mudou. Sempre se considerara uma porção de terra boiando à superfície da água, isso era ponto pacífico, todas as outras ilhas também pensavam assim. Mas agora já não podia acreditar nisso. Uma ilha não terminava ali na superfície. Não. Continuava para baixo. Uma ilha era na verdade uma montanha.

Saber que ela continuava além do que pensava ser era algo espantoso de se pensar. Assim, dia após dia, a ilha prosseguiu em seus esforços de auto-investigação – queria saber até onde existia. Mas à medida que sua atenção mergulhava em si mesma, as águas ficavam mais escuras. Era preciso cada vez mais concentração para não se perder. Ela prosseguiu e descobriu que o que existia abaixo da superfície possuía vida própria e, mesmo sem ser reconhecido, era capaz de interagir e até determinar o que existia acima. Uma ilha não era algo tão independente quanto pensava. Muito tempo se passou até que se convencesse de que era mesmo uma montanha com o pico emerso. E muito mais tempo para compreender que não flutuava solta nas profundezas do oceano: ela estava presa a uma base e essa base era uma enorme extensão de terra que funcionava como chão.

Vinham de lá todas as ilhas. E para lá voltariam todas quando os movimentos da terra e das águas as forçassem a isso. Mas as ilhas não sabiam da montanha e muito menos da terra ao fundo. Por isso as reais motivações do que faziam eram na maior parte desconhecidas. Se a montanha era a parte inconsciente de cada ilha, o fundo do mar era o inconsciente maior, único, de todas elas. Ao entender esse fato a ilha lembrou do tempo em que sua consciência de si própria se limitava àquela minúscula porção de terra à superfície. Todas as ilhas vêm do mesmo lugar - ela repetiu, intrigada - porque são feitas da mesma terra. A areia e os nutrientes que as raízes de suas plantas colhem vêm do mesmo chão. Todas as ilhas que existem são no fundo uma coisa só.

A ilha viu que eram ideias grandes demais, confundiam a mente. Aquela auto-investigação era importante mas era preciso muita atenção durante o processo. Só assim poderia voltar à superfície sempre que quisesse.

Enquanto tudo isso acontecia, as outras ilhas observavam seu comportamento e não entendiam. Concluíram então que estava louca e espalharam a notícia. A ilha sentiu-se só. Mas como poderiam condená-la por não compreenderem o que ela descobrira? Pensando melhor, eram todas partes dela mesma!

Então ela mesma ainda não se compreendia inteiramente. Foi então que a ilha percebeu, num clarão de compreensão, que toda aquela vasta extensão de terra inconsciente funcionava como um útero a expulsar pequenos pedaços de si mesma, forçando-os a ir à superfície.

Uma vez lá, eles se entendiam ilhas e começavam então sua aventura individual em busca de saber quem eram, aventura que podia durar anos, séculos, milênios, mas que um dia chegaria à mesma conclusão: todas as ilhas eram montanhas e todas as montanhas na verdade eram uma só extensão de terra a se experimentar em cada uma delas. Mas por que a terra fazia isso? Talvez para ela própria aprender com a experiência de cada ilha. Ao morrer uma ilha trazia à terra sua experiência para servir de aprendizado às futuras ilhas. Uma ilha continha em si, sem se dar conta, a mesmíssima areia das que a antecederam. A terra como um todo estava sempre aprendendo cada vez mais sobre si mesma.

Era mesmo uma tremenda aventura - pensou a ilha enquanto se divertia com os olhares estranhos que as outras lhe lançavam. Uma aventura de cada ilha. Mas também da terra inteira.

(autoria desconhecida)

Fonte:
Universo das Fábulas

Rubens Luiz Sartori (Poemas Avulsos)


NA BEIRA DO LAGO

Na beira do lago
não há "faz de conta".
Só coisas de fato.
Rodeiam os patos,
espreitam os sapos,
incautos insetos
fatores de vida,
da beira do lago.

Nos lagos tranquilos
de mato fechado,
carreiros de pacas,
de antas, capinchos,
galhadas, catetos,
e a noite barulha
nas águas do lago.

E o lago sozinho
nas vagas do tempo
seu mundo refaz.
Encrespa co' vento,
redobra suas ondas,
se torna tenaz.
E os dias escoam,
esvaem nas enchentes,
espraiam banhados
de beira de lago.

A lua debruça
seu manto de paz,
espelho luar
no ventre do lago.
E a vida contínua
na beira do lago,
é como ninar
de mãe benzedeira,
que conta a seus filhos,
centenas de histórias,
infindas de afago,
de todas as horas
na beira do lago.
****************************************

O TIJOLO E A VIDA

I
Ah! o tijolo do oleiro,
que amassa o barro bruto,
é um trabalhador resoluto,
retira da terra altaneiro
o seu sangue absoluto.
Faz na arte primitiva,
uma espécie alternativa
que constrói área e sala,
edifica até a senzala,
da negritude cativa.

II
Os tijolos da minha terra,
que se assentam em seus muros,
são tijolos de seis furos,
de oito, e muitos maciços;
são fortes, não são quebradiços.
São tijolos que guardam nobres,
nas tumbas dos cemitérios;
que também guardam gaudérios,
que viveram assim sem rumo,
mas que se igualam no prumo,
que só a tumba campestre,
nivela a todos os homens
na eternidade celeste.

Ill
São da terra que os adorna,
sem obedecer qualquer norma,
mas só a voz da natureza,
que nos tijolos da igreja,
celebram seu Criador.
Mas de que adianta a oração,
pro rude e louco pagão,
que só fez estripulia,
pois da sua vida um dia
só sobrou maledicência,
que pra muita consciência
é coisa feia e pecado.

IV
Porém, na vida, o passado,
só vale na hora da morte,
pros que têm muito mais sorte,
de ter uma cova bem rasa,
que agora será sua casa,
sem tijolo, porta ou cozinha,
mas na terra, mãe-madrinha,
que a todos recebe em consolo,
ajuntando cada tijolo
pras novas casas-mansões,
sucedendo as gerações
que virão sempre na terra,
qual tijolos cimentados,
na argamassa escondida
nas paredes da existência,
adornando a querência,
nas planuras e no vento,
fazem o arrimo da história,
que canta toda sua glória,
na herança eterna do tempo.

Fonte:
Rubens Luiz Sartori (org.). Compêndio da Academia Mourãoense de Letras.  Campo Mourão/PR: UNESPAR/FECILCAM, 2004.
Livro enviado por Sinclair Pozza Casemiro

Francisca Júlia (O Monge)


Uns mercadores, com suas malas às costas, caminhavam em direção à cidade, para vender suas mercadorias. Mas a viagem tinha sido longa e eles estavam cansados.

Tinham atravessado campos, galgado montanhas e sentiam já tanta fadiga, que resolveram sentar-se sobre a relva para descansar. Mas o sol estava muito ardente e eles seguiram adiante. Entraram num bosque onde a sombra era fresca e em cuja entrada havia uma gruta de pedras brutas, iluminada de alvas estalactites.

Penetraram, não sem algum receio, cautelosos, porque podia ser um covil de malfeitores.

Tudo estava às escuras. Mas, logo que se habituaram às trevas s da gruta, viram um monge de joelhos, as mãos postas, a fronte erguida, absorvido nas suas preces.

— Monge, disse um deles; perdoa-nos ter-te interrompido nas tuas meditações. Entramos em tua habitação para te pedir abrigo contra os ardores do sol.

— Entrai, viajantes, respondeu o monge mal desperto das suas contemplações místicas Todos os peregrinos terão aqui seguro abrigo contra as inclemências do sol e contra as tempestades da noite.

Os mercadores agradeceram, e, como sentissem fome e sede, falaram:

— Na nossa longa e perigosa jornada a fome devorou nossas entranhas e a sede secou nossas gargantas; mas tu deves estar tão acostumado ao jejum, que em tua habitação nada pode haver.

— Nada há, de fato, pobres viajantes; mas o poder de Deus é infinito e a sua misericórdia é sem limites. Então, de um gesto, fez jorrar de uma fenda da rocha um grosso fio de água clara, onde eles beberam até à saciedade; e, arrancando do chão uns calhaus que se transformaram em pães, entregou-os aos peregrinos, dizendo:

— Tomai; cumpriu-se a divina vontade.

Os mercadores, homens materiais e rudes, tremeram de susto, receando algum sortilégio diabólico; mas, ao mesmo tempo, diante da religiosa bondade e aspecto humilde do monge, comeram.

E um deles falou:

— Monge, se tu estás revestido de tanto poder e podes, com um gesto apenas, fazer brotar a água e transformar em pães os calhaus brutos, por que não fabricas também o ouro para gozares as delicias da riqueza? E por que vives oculto nas trevas desta gruta, como uma fera, emagrecido pelos jejuns e cilícios?

— Que errada e falsa compreensão tendes da vida, meus amigos! Sabei que o ouro serve somente para corromper os sentimentos, envenenar a alma, e não poderá dar-me os gozos a que eu aspiro. Ao menos, na pobreza em que vivo e que desprezais, sem as preocupações que acarreta a fortuna e os pecados que ela desperta, posso mergulhar-me inteiramente em minhas preces e na contemplação da divindade.

Os viajantes agradeceram ao monge o generoso acolhimento, beijaram-lhe respeitosamente as mãos e partiram.

Fonte:
O Poeteiro