domingo, 21 de agosto de 2022

Carlos Leite Ribeiro (Achado arqueológico)

Num dia de sol ardente, estava o José Pinoca a fazer umas escavações numa terra em Riba d’Aves, para a construção de uma casa.

(Riba d’Aves, para aqueles que não sabem, fica a cerca de 10 Km da cidade de Leiria)
 
A certa altura das escavações, o Pinoca começou a encontrar uns ossos "olha que engraçado encontrei uns ossos... Mas eles têm formas esquisitas...". Voltando-se para os trabalhadores que o estavam a ajudar nas escavações, disse-lhes: "Podem ir para as vossas casas descansar!".

Muito intrigado com o achado, o Pinoca dirigiu-se rapidamente a casa para ir contar a sua mulher, a D. Piquita, a boa nova, pois, se fosse aquilo que ele julgava ser, ia-lhe dar uns tostões na sua exploração.

Piquita, Piquita... Oh mulher, estás aí?” A mulher quando o ouviu assim tão aflito, começou logo a descer as escadas e por fim respondeu-lhe: "Sim, homem, estou aqui. Aonde é que querias que eu estivesse?!"

Oh mulher, tu nem calculas o que é que eu encontrei nas escavações que estou a fazer!" tentando dizer alguma coisa com graça, a Piquita respondeu-lhe: "Pela tua cara... deixa cá ver, deixa cá ver: já sei, encontraste uma cobra!" - disse-lhe a mulher em tom de gozação.

Qual cobra, qual carapuça! Encontrei uns ossos que não sei de quem poderão ser. Percebeste mulher?!"

“Oh, homem, eu não sou estúpida de todo e já compreendi há muito tempo o que tu encontraste. Mas diz-me uma coisa: já foste falar com o coveiro?"

José Pinoca, antes de responder à mulher, sentou-se num banco e só depois lhe respondeu: "Minha esposa esperta, é lógico que não fui falar com o coveiro, pois vim logo para casa e além disso, estou muito cansado. Talvez amanhã vá. Entretanto, estava a esquecer-me de algo muito importante. Peço à minha querida "comandante" que não vá contar isto a ninguém."

A D. Piquita tirou o avental, compôs o cabelo a pôs-se em posição de sentido, respondendo ao marido: "Muito bem, meu comandante! O meu excelentíssimo e digníssimo comandante quer que eu guarde mais alguma coisa, ou esta chega?" O Pinoca sorriu.

No outro dia logo pela manhã, o José Pinoca foi ter com o seu compadre Malaquias, que ao avistá-lo, logo o saudou: "Olha o compadre José Pinoca! então o que o trás por cá ?"

Compadre, nem sei como hei de começar...”. O Malaquias começou a ficar muito curioso e desconfiado com aquela visita do Pinoca e, em determinada altura disse-lhe:

"Não sei o que me quer, mas desde já peço-lhe que esteja à vontade comigo. Vá lá, diga-me lá o que me quer!"

"Então aqui vai... Sabe que eu tenho andado a fazer uns alicerces para uma casa e, qual o meu espanto quando em determinada altura encontrei uns ossos. Ora, como você é perito nesta matéria de ossos, gostaria de saber se aqueles ossos são ou não humanos."

Embora algo admirado, o Malaquias não "desarmou" e com uma certa vaidade, respondeu ao Tinoca: "Fez muito bem em vir ter comigo, pois como diz (e muito bem) eu sou um grande especialista em ossos! Vamos então lá ver esse seu achado."

E lá foram os dois compadres a caminho das fundações. Ao chegar ao local, logo o Malaquias se meteu na vala para melhor examinar os ossos. Depois de um demorado exame, saltou da vala, encarou o compadre, tossiu, piscou os olhos e com ar de pessoa "muito entendida" expressou-lhe a sua avalizada opinião: "Compadre... São ossadas de dinossauro!"

Oh, compadre, estou tão nervoso que nem sei se choro ou se rio! ... Olhe lá, e se fossemos contar o sucedido à D. Fúfia?".

Sou da sua opinião, Pinoca!"

E os dois compadres dirigiram-se a casa da D.Fúfia, uma senhora de certa idade, que não era nada bonita, mas que há muito tinha aprendido a comer com faca e garfo.

Chegaram e logo bateram à porta. Do outro lado respondeu-lhes uma voz muito rouca e autoritária: "Quem é ?!" Depois dos compadres se terem identificado, a D.Fúfia veio abrir-lhes a porta com o seu ar quase marcial, olhando-os por cima dos seus óculos encarapitados no seu quase adunco nariz.

Olá! Entrem, entrem e ponham-se à vontade. Querem um chazinho?... Pelas vossas caras estou mesmo a ver o que vocês queriam era aquilo que eu, para o conseguir beber, tenho sempre que fechar os olhos, ou seja, vinho! Mas infelizmente bebi ainda há pouco a última pinguinha que tinha cá em casa".

"D.Fúfia, por favor não se incomode, cá com a gente" - disse-lhe o Malaquias, e logo o Pinoca concluiu: "Para não incomodar muito a senhora, podemos ir já à questão que cá nos trouxe?"

A senhora mais uma vez os convidou a sentarem-se, sentando-se em seguida, tirando antes de um cesto a sua enorme jiboia de estimação que a pôs ao pescoço.

"Digam-me lá então que questão é essa... será dinheiro?"

Os compadres sorriram e o Pinoca adiantou-se:

"A questão desta vez não é de dinheiro. É o seguinte, eu estava a fazer um buraco numa construção que ando a fazer perto da Lameira, e qual o meu espanto que em determinada altura encontrei umas ossadas, que aqui o nosso distinto coveiro diz que são ossos de dinossauro".

Ao ouvir isto, a D.Fúfia quase que deu um pulo na cadeira e, agarrando a jiboia com a mão esquerda e espetando o dedo indicador em direção dos compadres, logo deu a sua opinião:

"Oh, pessoal!... Vocês tomem muito cuidado, pois o que encontraram pode ser uma manobra política/desportiva. Tomem muito cuidado!".

O Pinoca ficou um tanto ou quanto atrapalhado e foi o seu compadre Malaquias que ousou perguntar à D.Fúfia:

"Então o que é que podemos fazer com as ossadas?!"

"Pois é... deixem-me cá ver, deixem-me cá ver... Ah já sei! Vocês vão já falar com o diretor do Museu de Arte Natural de Riba d` Aves, e apresentem este caso."

Em princípio, o Pinoca não estava nada, mas mesmo nada disposto a ir falar com o diretor do Museu, pois chegou a pensar que aquelas ossadas de dinossauro lhe podiam dar-lhe umas boas coroas (notas...). Mas por fim e aproveitando a sugestão da D.Fúfia, lá foram os compadres falar com o diretor.

Algum tempo depois vieram uns técnicos de Lisboa e, ao fim de alguns meses o enorme esqueleto já se encontrava montado.

No dia da exposição para a apresentação ao público das ossadas do dinossauro, a D.Fúfia, embrulhada na sua enorme echarpe bolorenta e já com alguns buracos de traça, orgulhosamente dizia a toda a gente que tinha sido dela a iniciativa para que as ossadas fossem entregues ao Museu.

Nisto aproximou-se mais do esqueleto para o melhor poder admirar, quando perante a estupefação geral deu um enorme grito e exclamou:

Mas... Mas estas ossadas são do meu querido e único namorado que morreu há mais de 60 anos!!!"

E dizendo isto, caiu redondamente no chão.

Paulo Leminski (Versos Diversos) 18


claro calar sobre uma cidade sem ruínas
(ruinogramas)


Em Brasília, admirei.
Não a niemeyer lei,
a vida das pessoas
penetrando nos esquemas
como a tinta sangue
no mata-borrão,
crescendo o vermelho gente,
entre pedra e pedra,
pela terra adentro.

Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
criminoso por estar
fora da quadra permitida.
Sim, Brasília.
Admirei o tempo
que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.

Adeus, Cidade.
O erro, claro, não a lei.
Muito me admirastes,
muito te admirei.
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o náufrago náugrafo

a letra A a
funda no A
tlântico
e pacífico com
templo a luta
entre a rápida letra
e o oceano
lento

assim
fundo e me afundo
de todos os náufragos
náugrafo
o náufrago
mais
profundo
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bem no fundo

no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas
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sem budismo

Poema que é bom
acaba zero a zero.
Acaba com.
Não como eu quero.
Começa sem.
Com, digamos, certo verso,
veneno de letra,
bolero. Ou menos.
Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,
e sozinho.
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o amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro
ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos
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a lua no cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!
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anch’io son pittore

fra angélico
quando pintava
uma madona col bambino
se ajoelhava e rezava
como se fosse um menino

orava diante da obra
como se fosse pecado
pintar aquela senhora
sem estar ajoelhado

orava como se a obra
fosse de deus não do homem
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podem ficar com a realidade
esse baixo-astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano
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litogravura

Mão de estátua.
Templo. Coluna. Arco de triunfo.
Mil duzentos e cinquenta.

Qualquer pedra na Europa
é suspeita de ser
mais do que aparenta.

Felizes as pedras da minha terra
que nunca foram senão pedras.
Pedras, a lua esfria
e o sol esquenta.
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parada cardíaca

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure
vem de dentro

Vem da zona escura
donde vem o que sinto
sinto muito
sentir é muito lento
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imprecisa premissa

(quantas curitibas cabem numa só Curitiba?)

Cidades pequenas,
como dói esse silêncio,
cantilenas, ladainhas,
tudo aquilo que nem penso,
esse excesso
que me faz ver todo o senso,
imprecisa premissa,
definitiva preguiça
com que sobe, indeciso,
o mais ou menos do incenso.
Vila de Nossa Senhora
da Luz dos Pinhais,
tende piedade de nós.
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sujeito indireto

Quem dera eu achasse um jeito
de fazer tudo perfeito,
feito a coisa fosse o projeto
e tudo já nascesse satisfeito.
Quem dera eu visse o outro lado,
o lado de lá, lado meio,
onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito.
Quem dera um ângulo reto.
Já começo a ficar cheio
de não saber quando eu falto,
de ser, mim, indireto sujeito.

Fonte:
Paulo Leminiski. Distraídos venceremos.  Publicado em 1987.

Sammis Reachers (Ri por último quem ri de bolso cheio)

 As catanças de ferro-velho abarcavam, a partir de nosso sub-bairro Jardim Nazareth ou Palha Seca (a “fronteira” entre os bairros de Tribobó e Arsenal) diversos outros bairros: No poder arcano da canela, alcançávamos Jockey Club e Anaia, Capote e Arsenal, chegando até a Rio do Ouro e Maria Paula, quando não Colubandê e Bairro Almerinda. Era muito chão!

Naqueles finais da década de 80, o bairrismo não era armado pelo tráfico como depois tornou-se, mas existia: Os daqui não se misturavam com os de lá. Mesmo que os de lá fossem os dali, da rua seguinte à sua...

Nessa época de “galeras” e entreveros, surgiu certa feita aqui na Beira do Rio uma dupla de irmãos folgazões, ou folgadaços mesmo. Metidos a bambas, vinham na intenção de namoricar as meninas da área. Bem, as NOSSAS meninas. Na época eu não estava realmente interessado em namoros, mas a marra daqueles espertões incomodava, tanto a mim quanto a muitos outros. Mais fortes que eu e Renato, me lembro de uma feita em que, em plena e nossa área, os sacanas nos intimidaram com sinistras ameaças. Acuados, num tempo em que eu ainda era um péssimo ou inútil boxer de rua, colocamos a viola no saco e ficamos quietinhos...

Eles vinham de uma área próxima, uma espécie de sub-bairro a que chamávamos de “Buraco Quente”. Acontece que este mesmo Buraco Quente era área fiel de nossas coletas, pois havia lá um enorme lixão comunitário, instalado numa espécie de cratera. E não é que foi numa dessas andanças naquelas paragens que acabamos descobrindo em que casa moravam os tais Romeus valentões?

Tempo passou, e belo dia fomos nós nos abeirando da casa deles, cuja cerca de arame farpado, já banguela, coitada, fazia lado a um terreno baldio, coberto por moitas e arbustos. Apenas batíamos aquele terreno em busca de algo, inchados de inocência, quando, lá ao fundo do tal terreno e fronteiriço à cerca da casa dos sacanas, percebemos uma enorme caixa de ferro – um desses baús de geladeiras antigas. Ao nos acercarmos com cuidado, a falha dos valentinos foi descoberta: Os trouxas deixavam, do lado de fora de seu quintal, um depósito de reciclagens composto apenas de alumínio, cobre, chumbo e metal, um depósito repleto. Alumínio já bem amassado, fios de cobre já descascados ou queimados, com sabor de mel.

Não era preciso dizer mais nada, e Renato nem tentou. Apenas sorriu cinicamente; e Deus, como sinto falta daquele sorriso! Eu entendi o que faríamos.

Nas semanas seguintes, aplicamos sobre aqueles canalhinhas nossa velha e experimentada tática do morde-e-assopra: A cada semana pegávamos uma pequena “carga” das mercadorias, para que as vítimas não sentissem o impacto.

A marra daqueles garotões, que depois acabaram “expulsos” de nossa área pelos moleques maiores, nós a consumimos nos sabores Chocolate e Flocos dos sorvetes da Kibon, nossos preferidos...

O dono da padaria sorria quando entrávamos, sujos e amarrotados, mas cheios de dinheiro de nosso suado trabalho – e nossa justa e vingativa rapina!

Fonte:
Sammis Reachers. Renato Cascão e Sammy Maluco: uma dupla do balacobaco. São Gonçalo/RJ: Ed. do Autor, 2021.
Livro enviado pelo autor.

sábado, 20 de agosto de 2022

A. A. de Assis (Jardim de Trovas) 12

 

Renato Benvindo Frata (Nanocontos) 3

AFIRMAÇÃO


Poesia não é "crime de lesa-vida"*: com ela diariamente, até jiló se adoça.
* Paulo Leminski
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BELEZA

As asas de borboletas são esconderijos dos arco-íris. Só saem dali quando chova.
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CONFISSÃO

O calor do seu corpo sempre foi lenitivo; hoje é cobertor contra a frieza da minha idade.
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IDADE

No conta-gotas sendo espremido a ânsia de não vazar dose além da sobrevivência.
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IMPIEDOSO

Sem clemência, pintou de vermelho-amarronzado a pele branca do veranista.
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LEMBRANÇAS

Hoje nosso beijo tem sabor saudade do primeiro. O tremor nas pernas também e a paixão continua.
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MADRUGADA NA FEIRA

Olhou-se no pastel como a num espelho: a cara de sono e ressaca confessaram-a massa enrugada.
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PARADA DE ÔNIBUS

O tempo que passa nunca dá carona e a vida se escorre na espera.
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PAIXÃO

No momento em que a vi, o Cupido trouxe o Amor e o espetou com a flecha em meu coração.
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PROFESSOR

Quando abria a boca, um facho de luz vencia trevas; eram suas explicações.
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RESGUARDO

O amor armazenado num coração, se esconde na saia do gostar quando nota violência.
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VAGANDO...

Meu amor fez brotar relva aos pés da árvore, e ali depositei você.
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VELHICE 2

Pelos eriçavam e o peito batia ao menor toque de mãos; hoje os remédios é que o fazem.
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VERGONHA

De trás da montanha o sol, enamorado, espia a lua na passarela; mas, inibido, deixa-se mergulhar.
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VESTIBULAR


As voltas dos ponteiros dobraram-no sobre cadernos; hoje a alegria se desdobra nas horas de folga.

Fonte:
Renato Benvindo Frata. 308 Nanocontos. Paranavaí/PR: Autografia, 2017.
Livro enviado pelo autor.

Nelson Rodrigues (A mulher das bofetadas)

Chegou atrasado no emprego. Tirava o paletó, quando o Carvalhinho veio avisar:

— Olha, telefonaram pra ti.

— Homem ou mulher?

— Mulher.

— Deixou recado?

— Não. Disse que telefonava depois.

Arregaçando as mangas, bufou:

— OK! OK!

Uns dez minutos depois, estava pondo em ordem uns papéis, quando o telefone bate novamente. O contínuo, que atendeu, berrou:

— Aristides!

Larga o serviço e apanha o telefone. Era uma voz feminina que, a princípio, não identificou. A pessoa perguntava: — “Não me conheces mais?”. Aristides, já impaciente, foi quase grosseiro: — Quer dizer quem fala? Estou ocupadíssimo e não posso perder tempo.

Há uma pausa e, finalmente, a voz responde:

— Sou Dorinha.

Aristides quase cai para trás, duro.

Dorinha era o seu amor jamais esquecido ou, melhor, a sua dor-de-cotovelo confessa e imortal. Que idade teria ela, no momento? Uns vinte e cinco anos. Tinham se namorado na adolescência. Por um motivo bobo, haviam brigado. E quando Aristides, devorado pela nostalgia, quis voltar, ela já estava apaixonada por um outro, o Gouveia. Durante uns seis meses, Aristides andou pensando, dia após dia, em meter uma bala na cabeça. Acabou renunciando ao suicídio, mas ficou-lhe, para sempre, o sofrimento surdo. Dorinha casara-se com o Gouveia, tinha dois filhos de Gouveia. E sempre que a via, acidentalmente, na rua, Aristides precisava tomar um pileque dantesco. E, súbito, ela telefona, a inesquecível, a insubstituível Dorinha! Ao impacto da surpresa, gagueja:

— Ah, como vai você?

— Bem. E você?

— Navegando.

E, então, Dorinha diz-lhe:

— Preciso muito falar contigo.

— Comigo? E quando?

— Já.

— Pois não. Estou às tuas ordens. — E, na sua ternura sofrida, pergunta: — Tu sabes que mandas em mim, não sabes?

Combinaram o encontro, para daí a vinte minutos, numa sorveteria da rua da Carioca.

Aristides largou o serviço, que estava atrasadíssimo, e correu para o elevador. Daí a dez minutos, estava no local. Encontrou-a mais linda, mais fresca do que nunca. Diante da mulher que nunca deixara de amar, não se conteve. Com o coração disparando, começou:

— Sou todo teu. Nunca deixei de te amar.

Tomando refresco, com canudinho, Dorinha vai falando:

— Eu preciso de um favor teu. Mas quero que prometas que não pensarás mal de mim.

O espanto do rapaz foi uma coisa sincera e profunda:

— Você acha que eu posso fazer má idéia de ti? Oh, Dorinha!

Então, sem desfitá-lo, Dorinha disse:

— Meu marido partiu hoje, ao meio-dia, para São Paulo. De hoje para amanhã, eu sou uma espécie de solteira ou, então, de viúva. De qualquer maneira, uma mulher livre. Pensei em você, que merece toda a minha confiança e... Está compreendendo?

Numa confusão total, balbuciou:

— Mais ou menos.

E ela:

— Para falar português claro: — estou oferecendo a minha tarde. Leva-me!

Deslumbrado, exclama:

— Oh, Dorinha!

Ele pagou, trêmulo, a despesa.

Saem e, lá fora, Dorinha observa:

— Mas não devo me expor. Arranja um interior, sim?

Acontece que Aristides mantinha, de sociedade com um amigo, um apartamento em Botafogo. Cheio de escrúpulos, baixa a voz: — “Eu tenho um lugar, assim, assim, discretíssimo”. Dorinha interrompe: — “Ótimo!”.

Tomam um táxi, que ia passando. A caminho de Botafogo, a pequena começa:

— Você, naturalmente, está espantado e querendo uma explicação.

Protesta, veemente:

— Explicação nenhuma! Basta o fato em si! Você está aqui, comigo, a meu lado, e não interessam os motivos, argumentos, nada!

Quando entraram, uns quinze minutos depois, no apartamento, Aristides não sabia o que dizer. Ainda uma vez, Dorinha toma a iniciativa:

— Você não me beija?

Ofereceu-lhe a boca. Aristides experimentou uma espécie de vertigem. O primeiro beijo, depois de tanto tempo, foi uma dessas coisas que marcam para sempre. Em seguida, ele a carrega no colo, como uma noiva de fita de cinema. Uma hora e pouco depois, já a noite entrara no apartamento e Dorinha estava diante do espelho, refazendo a pintura. Aristides veio, por trás, beijar-lhe os ombros nus; e suspira:

— Eu não sabia que gostavas tanto de mim!

Dorinha vira-se, com divertida surpresa:

— Mas eu não gosto de ti.

Atônito, pergunta:

— E isso que aconteceu entre nós? Não conta?

A pequena está de pé:

— Era a explicação que eu queria te dar e que tu recusaste. O meu marido, ontem, discutiu comigo e me deu uma bofetada. Estou aqui por causa da bofetada. Mas amo o meu marido e só meu marido.

Ele insiste, desesperado:

— Quer dizer que não vamos continuar?

Responde:

— Depende. Se meu marido me bater outra vez, já sabe: — eu telefono pra ti.

Sem uma palavra, na maior humilhação de sua vida, deixou-a partir. Mas quando a porta fechou-se atrás da pequena, ele caiu, de joelhos, no meio do quarto, mergulhou o rosto nas mãos e soluçou como uma criança.

Durante uma semana, ele foi o ser mais humilhado e mais ofendido da Terra. Dizia de si para si: — “A cínica! A cínica!”. E pior é que era incapaz de sentir atração por qualquer outra mulher. Uns quinze dias depois, ele atende o telefone: — era ela. Perguntava, alegremente: — Vamos lá, outra vez?

Foram. E, no apartamento, ela suspira:

— Imagina, deu-me outra bofetada.

Encontraram-se outras vezes, sempre em função de novas bofetadas. Até que, uma tarde, entre um beijo e outro, ela exclama:

— Os homens são muito burros!

— Por quê?

E Dorinha:

— Tu não percebeste que não houve bofetada nenhuma? Que meu marido não me esbofeteou nunca? E que eu te amo, te amo e te amo?

Fonte:
Nelson Rodrigues. A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é...; seleção de Ruy
Castro. SP: Cia das Letras, 1993.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Silmar Böhrer (Gamela de Versos) 26

 

Clarisse da Costa (Clarice com C: Perder e Ganhar)

Para Clarice o amor tinha eternas e imortais sensações, que só um coração bom conseguia sentir. Claro, coração inundado de trevas não teria como ver ou sentir qualquer coisa.

Ela mesmo já teve seu momento de trevas, achando que a vida tinha acabado para si, mas com o passar do tempo e o seu amadurecimento a sua percepção foi mudando. É bom mudar às vezes.

Ela já amou e perdeu inúmeras vezes nessa vida, e com essas perdas aprendeu a lidar com muitas coisas. Leva tempo, a dor é profunda, por anos pensou que não fosse se acostumar, mas os livros lhe ajudaram nesse processo tão difícil.

Tem um trecho do livro Jardins da Alma que diz: “- Nunca me perguntaram como é perder alguém que se ama, se me perguntassem eu teria a resposta. Perder alguém é como não ter mais para onde ir. A gente se sente perdido como se não tivesse mais um lar. Falta tudo, falta aquele abraço, carinho…”

Mas perder não é o fim, ao mesmo tempo que a gente perde a gente ganha. Passamos a aprender a saber lidar com a perda e a dor que fica. Depois ganhamos força para mudar o nosso destino.

Claro, a gente não se acostuma. Nem tem como, os laços de afetos são fortes, não morrem. Então perder é necessário às vezes. Até eu entender isso eu ficava me perguntando "por que eu". Obviamente, como tantas pessoas, eu achava que não merecia perder alguém. Mas aí eu virei o jogo, busquei mudanças na minha vida. Era hora de seguir em frente. A saudade fica, choramos às vezes, no entanto, precisamos seguir com a vida.

Fonte:
Texto enviado por Samuel C. da Costa

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Therezinha D. Brisolla (Trov’ Humor) 01

 

Raul Pompéia (Decotes de quinze anos)

Curiosa coincidência, pensava Otília, debruçando-se à janela com a carta que lhe escrevera a prima, curiosa coincidência, aquela carta e aquela situação!

Do outro lado da rua em frente, erguia-se em grande prédio de dois andares. Na última janela do segundo andar, à direita, lá estava ele, o impertinente vizinho, que não lhe tirava os olhos de cima, uns vivos olhos vorazes de meter medo.

Com ela, com a sisuda Otília aquele rapaz perdia o seu tempo.

Mas era interessante a coincidência... Ela e aquele sujeitinho ali... e o assunto da carta, da terrível carta!...

Sob a fuzilada de olhares que lhe chegavam da última janela à direita do 2o. andar fronteiro, a mocinha tornou a ler.

"... Nada conheces, na tua idade de inexperiência e de surpresas.

Sou do número das trintonas de Balzac, um escritor que ainda não leste, entendido nos mistérios da alma feminina, sou do número das educadas do amor, mulheres de curso completo na ciência do coração.

Mas já tive a tua idade, os deliciosos quatorze ou quinze anos de criança, quando o sexo nos revela apenas pela prevenção desconfiada do pudor, essa tolice adorável do sangue.

Amanhã, muito breve, saberás o que valem as flores de fogo que às vezes te abrasam o lindo rosto. Então na hora do amor, compreenderás os vagos temores, indefinidos sustos que te assaltam, como um rebate, de extraordinárias coisas. O coração fugir-te-á do peito, a internar-se como um herói de balada, pela floresta das fantasias. Sonharás o eleito dos teus afetos.

Instintivamente entregar-te-ás à impaciente urdidura de quantas armadilhas imaginares para a caçada do ideal.

A propósito, conto-te uma historieta dos meus quinze anos. Uma lição que te dou de experiência galante.

Eu morava na rua dos Arcos, naquela casa assobradada, de seis janelas, onde hoje habita a família da R . C.

Enclausurada na rede de solicitude, com que nos cercava, a mim e às manas, meu pai, avaro dos seus tesouros (tesouros éramos nós) arredada severamente do comércio da sociedade, ardia-me o desejo curioso de uma aventura, fora do círculo conhecido dos carinhos domésticos.

Diante da nossa casa morava um moço moreno, esbelto... circunstância propícia! Um belo companheiro para a minha escapula.

Ser amada por um rapaz como esse, eu não queria mais! Um só olhar de amor que ele me dirigisse, arrebatar-me-ia às sonhadas viagens azuis.

Dezoito anos parecia ter; sobre os lábios começava a acentuar-se-lhe o desenho volteado de um futuro par de bigodes; grandes olhos negros, exprimindo mansidão, pupilas que se moviam devagar, oleosamente no corte das pálpebras.

De manhã, cedo, aparecia à janela do sótão que lhe servia de quarto e, com um copo-d'água, regava amorosamente o vergel de madressilvas que diante dele se espraiavam pelo telhado até envolver as goteiras prolongadas sobre a rua em bocas de corneta.

Banhava as flores e as flores enviavam-me baforadas de doce perfume.

Mas só as madressilvas se apercebiam de mim. Cândido demais, ou demasiado altivo, o vizinho não me ligava importância.

Ora eu tinha veleidades de beleza; avalias o meu despeito.

Dizem que a melhor maneira de atrair o olhar é olhar. Eu olhava, olhava e perdia o esforço. Cheguei a supor que o inflexível moreno, já não era senhor do seu coração e caprichava em manter a lealdade dos seus compromissos.

Era para desesperar.

Felizmente, um dia, eu o surpreendi a observar-me.

Oh, júbilo! Mas era preciso cativar de uma vez aquele olhar que me podia fugir para sempre, esquivo como a ocasião. O demoninho dos quinze anos soprou-me um expediente. Devia ser aquele beija-flor que me passou pelo rosto zunindo.

O pudor é uma grande força.

Esse tesouro de graça saibam-no despender as mulheres.

Loucas as que distribuem, cegamente, o seu patrimônio de rosas. Tolas as que o soterram no segredo desnaturado da inteira reserva, revelando-o quando muito às frias confidências de cristal do espelho.

Toda esta teoria endiabrada do decote ocorreu-me num segundo.

Na tua idade, eu adivinhava os homens!

Resolvi afrouxar o laço de vexame com que me estrangulava, nos vestidos afogados, prescritos por minha mãe.

Fingi que desdenhava o olhar do vizinho, voltando o rosto para outro lado. E atrevidamente soltei um... dois... três... botões da gola do meu princesa!

Ora, minha bela Otília, dai a pouco, eu guardava no seio submisso, rendido o olhar rebelde do meu moreno; acolhia-o no tépido decote dos meus quinze anos, como um pombo no vinho, friorento, trêmulo.

Assim, no dia seguinte, e no outro e no outro...

E começaram a secar de ciúmes as madressilvas..."

Neste ponto, sem saber como, viu Otília que um... dois... três botões do paletó branco, tal qual na história da prima, se lhe haviam desprendido.

Que horror!

E, sob a fuzilada de olhares da última janela do 2o. andar fronteiro, as abas de fustão, como grandes pétalas, abertas num desabrochar audacioso de magnólia, entremostravam colorações de carne virgem e fugitivas sombras, rendilhadas, ao fundo, por encantadora desordem de crivos claríssimos de camisa.

Fonte:
Raul Pompéia. Contos. Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística da UFSC.

Filemon Martins (Poemas Escolhidos) XVII

GALOPANDO...

Vou galopando em busca do meu sonho
que retrata o que penso desta lida.
No compasso da Fé, hoje componho
e me preparo para a despedida...

Por onde vou, a agradecer me ponho,
que a gratidão é flor sempre querida
e quem a tem se torna tão risonho
e conquista o poder que rege a vida.

Sou valente e não temo que o perigo
venha me perturbar no meu abrigo,
porque me considero um vencedor.

Pois encontrei, feliz, grande tesouro
com mais valor que o cobiçado ouro,
em quilates de Luz, o nosso Amor!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

INSPIRAÇÃO

Busquei a inspiração a duras penas
para escrever, com fé, este soneto,
e quero que as palavras mais amenas
sejam a Paz e o Amor, como dueto.

Que vou dizer das provações terrenas,
se o ninho é construído com graveto?
- Será melhor curar dores pequenas
e confirmar aquilo que prometo.

Mas teimo em encontrar a inspiração
que se escondeu e foge com razão,
deixando amargurado este poeta...

Clamo de novo e então ela aparece
trazendo junto ao peito farta messe
e agora, sim, a noite está completa!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

IPUPIARA

Feliz é quem trilhou estes caminhos
que levam à vibrante Ipupiara,
ouvindo o som de belos passarinhos
numa paisagem deslumbrante e rara.

Ibipetum, Pintada e outros vizinhos
Sodrelândia, Vanique e Caiçara,
Chiquita, Bela Sombra com seus ninhos,
Brejões, Coxim que muito me ensinara.

Jamais vou esquecer... O Olho d'Aguinha,
Veríssimo, Barreiro e até Matinha,
Deus me Livre, Umbaúba e Boa Vista.

Felicidade, então, é ter nascido
e neste berço um dia ter vivido
com gente hospitaleira e idealista!
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JUDAS MODERNO

Tu que habitas palácios decantados,
amante da aparência e do dinheiro.
Os teus castelos ricos, chumaçados,
nada serão no dia... derradeiro.

Tens riquezas e carros importados,
- contas bancárias pelo mundo inteiro,
- trabalhadores pobres, explorados,
tudo para chegares em primeiro...

Esqueceste do exemplo verdadeiro,
quando morreu o pobre carpinteiro,
pregado ao lenho de uma rude cruz.

Queres poder, és Judas do presente
vendendo o que aparece pela frente,
traindo, uma vez mais. Cristo Jesus!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

O LAVRADOR

Sou lavrador do campo e planto certo,
mantenho a crença de quem é cristão:
- a minha vida é como um livro aberto
plantando Paz, Amor, Compreensão...

Mas, se o terreno é seco qual deserto
nada vale investir na plantação,
que a semente caindo a descoberto
se perde e não germina nenhum grão.

É preciso primeiro arar a terra,
tirando a praga que produz a guerra,
que o mundo terá nova diretriz.

Quando o respeito se fizer presente,
nosso Planeta será mais decente
e o Ser Humano será mais feliz!

Fonte:
Filemon Francisco Martins. Sonetos & Trovas. RJ: CBJE, 2014.
Livro enviado pelo autor.

Jaqueline Machado (As visões de um certo Júlio Verne)

“Tudo que um homem pode imaginar, outros homens poderão realizar.”

Essa frase de Júlio Verne desperta o meu imaginário, e me faz viajar tanto ao passado quanto ao futuro em busca de loucas aventuras. Tão loucas, que chegam a lapidar-se em uma lucidez rara e, portanto, pouco conhecida.
 
Esse pensamento Verneano me faz viver as reflexões desse homem que possuía uma mente genial, capaz de prever melhor do que se bruxo fosse, a face do amanhã.
 
Certa vez, em profundo estado de meditação, fui ao passado e adentrei a cabeça prodigiosa de Verne. Dentro dela, enxerguei um ancião de cabelos compridos, barba longa e acinzentada. Ele conversava com os neurônios daquele que, em pouco tempo ficaria, através de suas obras, conhecido como o pai da ficção científica.

O velho lhe contava sobre as engenhosas invenções humanas, que logo se tornariam reais no mundo:  o helicóptero, o arranha-céus, os tanques de guerra, o submarino, a televisão, o cinema falado etc...
 
Resta–nos saber se o sábio que visitava a cabeça do escritor era uma espécie de “guia espiritual” à parte, ou se era um duplo de sua personalidade. Mas isso pouco importa. O importante foi alojar-me em sua mente nos dias em que ele resolveu descrever em seus livros de forma mágica, tudo o que estava por vir.
 
Encantei-me por Júlio Verne. Enamorei-me por sua capacidade de prever o futuro e pelo seu estilo infanto juvenil de criar histórias capazes de despertar as utopias mais secretas do ser humano. Afinal, nem só de previsões viviam seus escritos. Mas também de fábulas lúdicas e inocentes ...
 
Em a Viagem ao Centro da Terra, por exemplo, o professor Otto Lidenbrock é um senhor de idade avançada, mas cheio de sonhos e especulações que decide partir em viagem para confirmar a teoria de que a Terra tem um centro fecundo. Aliando-se a Axel, seu sobrinho e ajudante, parte em expedição. O ponto de partida é um vulcão inativo numa ilha da Islândia. Chegando lá eles encontram um guia chamado Hans, um homem frio e corajoso.
 
No decorrer da inusitada e excêntrica caminhada, os aventureiros ficam sem água, se perdem, se acham, dão de cara com monstros, mastodontes, homens gigantes... Depois da comprovação de que a Terra possui sim, um cetro mágico, eles retornam através da chaminé de um vulcão desativado localizada no sul da Itália.
 
Moral da história: Quem ousa acreditar com pureza, descobre. Quem descobre, enxerga. Quem enxerga, vive. E quem vive, sabe mais. Muito mais...

Portanto, acredite em algo que todos consideram impossível... 
 

Fonte:
Texto enviado pela autora.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Professor Garcia (Reflexões em Trovas) 11

A distância, é infinda, intensa!
Por mais que o tempo me iluda,
muda essa distância imensa,
mas a saudade, não muda!
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A honradez não se enxovalha,
nem se faz dela, adereço;
mas a honradez de um canalha
se compra por qualquer preço!
= = = = = = = = = = =

Daquelas noites antigas,
no altar da velho abadia,
vagueiam sombras amigas
nas sombras da nostalgia!
= = = = = = = = = = =

Dos meus bens que eu tive outrora,
de todos o mais amado,
é o pião que, cochila e chora,
com saudade do passado!
= = = = = = = = = = =

Enquanto as filhas cantando,
seguem meus passos discretos,
vão meus cabelos nevando
de exemplos bons aos meus netos!
= = = = = = = = = = =

É tarde!… Os monges cochilam
com o breviário na mão;
e, em volta deles, desfilam
almas, sonho e solidão!
= = = = = = = = = = =

Há uma inquieta sensação;
um silêncio... E, de repente...
Uma estranha solidão,
desfaz o sonho da gente!
= = = = = = = = = = =

Há um contraste, na verdade,
em quem vive de ilusão
e, troca a luz da humildade
na treva da ostentação!
= = = = = = = = = = =

Lágrima, gota vertida
do olhar triste da emoção;
lágrima, essência da vida,
gota d'água do perdão!
= = = = = = = = = = =

Lembro das noites antigas,
mesmo apesar da distância,
de velhas sombras amigas
dos tempos de minha infância!
= = = = = = = = = = =

Logo assim que o sol se põe,
minha alma, aflita e dolente,
um lindo verso compõe
nos varais do sol poente!
= = = = = = = = = = =

Na aurora, o que me fascina,
e, à ventura me conduz,
é ver a luz peregrina
banhando a aurora de luz!
= = = = = = = = = = =

Não reclames das pedradas
que te dão pelos caminhos.
Vê, que às vezes, de mãos dadas,
há aqueles que vão sozinhos!
= = = = = = = = = = =

No céu, brilha seminua;
no mar, minha alma vagueia,
enquanto os dedos da lua
escrevem versos na areia!
= = = = = = = = = = =

Nós dois, graças ao Senhor,
até no olhar, se traduz,
que eu peço esmolas de amor,
e tu, esmolas de luz!
= = = = = = = = = = =

O velho sino enlouquece,
toda tarde, na abadia;
e, no ensaio de uma prece,
desperta a melancolia!
= = = = = = = = = = =

Por mais que a angústia persista,
crê na força da oração!...
Não há mágoa que resista
ao silêncio do perdão!
= = = = = = = = = = =

Quando a natureza tinha
a fauna e a flora completas,
o orvalho da noite vinha
beijar os pés dos poetas!
= = = = = = = = = = =

Sábia lição, tive um dia,
de um sabiá inocente,
que por cantar, não sabia
que era poeta como a gente!
= = = = = = = = = = =

Se é ilusão, pouco me importa;
mas ouço no pensamento,
os passos dela, na porta,
no sopro da voz do vento!
= = = = = = = = = = =

Senhor!... Não sei se mereço,
seguir teus passos, Senhor!
Mas sigo, e em cada tropeço,
tropeço nos pés do amor!
= = = = = = = = = = =

Se o infortúnio nos condena,
o perdão, aperfeiçoa;
e, é Deus quem perdoa a pena
da pena de quem perdoa!
= = = = = = = = = = =

Só cinzas e plantas mortas!…
Lenhador, tu que destróis,
não percebes quando cortas
que cortas a todos nós.?!…
= = = = = = = = = = =

Tanto plano desejado,
ilusões, sonhos, canseira.
Pra ver tudo sepultado
nas cinzas da quarta-feira!
= = = = = = = = = = =

Tuas cãs loiras, sedosas,
reclamam da sorte ingrata;
serão bem mais preciosas
quando pintadas de prata!

Fonte:
Professor Garcia. Versos para refletir. Natal/RN: Trairy, 2021.
Livro enviado pelo trovador.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Adega de Versos 88: Carolina Ramos

 

Fernando Pessoa (Caravela da Poesia) XLV

NADA. PASSARAM NUVENS E EU FIQUEI

 
Nada.  Passaram nuvens e eu fiquei...
No ar limpo não há rasto.
Surgiu a lua de onde já não sei,
Num claro luar vasto.

Todo o espaço da noite fica cheio
De um peso sossegado...
Onde porei o meu futuro, e o enleio
Que o liga ao meu passado?
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

NADA QUE SOU ME INTERESSA
 
Nada que sou me interessa.
Se existe em meu coração
Qualquer que tem pressa
Terá pressa em vão.

Nada que sou me pertence.
Se existo em que me conheço
Qualquer coisa que me vence
Depressa a esqueço.

Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei de ter.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

NA MARGEM VERDE DA ESTRADA
 
Na margem verde da estrada
Os malmequeres são meus.
Já trago a alma cansada -
Não é de si: é de Deus.

Se Deus me quisesse dá-la
Havia de achar maneira...
A estrada de cá da vala
Tem malmequeres à beira.

Se os quer, colho-os, e tenho
Cuidado com os partir.
Cada um que vejo e apanho
Dá um estalinho ao sair.

São malmequeres aos molhos,
Iguaizinhos para ver.
E nem põe neles os olhos,
Dá a mão pra os receber.

Não é esmola que envergonhe,
Nem coisa dada sem mais,
É pra que a menina os ponha
Onde o peito faz sinais.

Tirei-os do campo ao lado
Para a menina os trazer...
E nem me mostra o agrado
De um olhar para me ver...

É assim a minha sina.
Tirei-os de onde iam bem,
Só para os dar à menina -
E agradeceu-me a ninguém.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

NA NOITE QUE ME DESCONHECE
 
Na noite que me desconhece
O luar vago, transparece
Da lua ainda por haver.
Sonho. Não sei o que me esquece,
Nem sei o que prefiro ser.

Hora intermédia entre o que passa,
Que névoa incógnita esvoaça
Entre o que sinto e o que sou?
A brisa alheiamento abraça.
Durmo. Não sei quem é que estou.

Dói-me tudo por não ser nada.
Da grande noite. embainhada
Ninguém tira a conclusão.
Coração, queres?
Tudo enfada Antes só sintas, coração.
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NÃO DIGAS NADA!
 
Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -  
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
 
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.
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NÃO FIZ NADA, BEM SEI, NEM O FAREI
 
Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.

Vivemos ao encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.

A. A. de Assis (O trem do amor)

A cerimônia estava marcada para as seis da manhã. Isso mesmo: ao nascer do dia. Porque o maria-fumaça passava pela estação de Cambuci-RJ às sete e meia.

Noivos e convidados já estavam de pé antes das cinco; a noiva por certo nem dormira. Seis horas em ponto, escutava-se a marcha nupcial. Qualquer descuido com o relógio significaria o risco de perder o trem.

Casamento bonito, solene, com missa e cantos em caprichado latim, comovente sermão do padre Othon. Terminou às sete, igualmente em ponto. Em meia hora deveríamos, após trocar de roupa e cortar o bolo, estar prontos para o embarque na estação.

O normal era o trem atrasar, mas justamente naquele sábado quebrou a regra: chegou na horinha... sem que lá estivéssemos. O recurso foi os convidados plantarem-se em cima da linha, na frente da locomotiva, impedindo a partida. Sorte que o maquinista estava de bom humor e acabou aderindo à brincadeira, aproveitando para comer a fatia de bolo que alguém se lembrou de oferecer-lhe. Entre podes e não podes, gritos, apitos e assobios, espera-um-pouco e espera-um-pouco-mais, uns quinze minutos se passaram... e o trem ali parado.

Quinze ou vinte minutos, sei lá. Naquele alvoroço, o embarque foi um tumulto. Além de nós, que viajaríamos para o Rio de Janeiro, iriam juntos até São Fidélis e Campos dezenas de convidados. Gente cantando, gente tocando violão, gente gritando “é pique, é pique, é pique...”, gente jogando arroz... O recolhedor de passagens quase endoidou naquela confusão.

Após o desembarque dos barulhentos convidados, Lucilla e eu, enfim sós, poderíamos prosseguir tranquilos nossa lua de mel sobre trilhos, o trem rolando pachorrento a 40 ou 50 quilômetros por hora, soltando fumaça, apitando em cada curva, batendo sinos...

Porém o “enfim sós” pouco durou. Por obra do atraso forçado na estação das núpcias, ficamos famosos e superparicados. Os passageiros todos se fizeram figurantes da história, batendo palmas, gritando vivas, se acercando para abraçar os dois pombinhos. O maquinista mandou perguntar se estávamos bem. O vendedor de jornais ofereceu os matutinos de graça: “Pra vocês escolherem um bom programa na capital”. O baleiro trouxe bombons: “Não precisam pagar, é cortesia da casa”.

Passamos dois dias no Rio, um dia em Aparecida, dois dias em São Paulo, e dali para Maringá. O aeroporto era ainda de chão batido. A Avenida Brasil, por onde passou o táxi, não tinha asfalto. Um poeirão de dar medo. Lucilla não comentou nada, mas até hoje, sessenta e quatro anos depois, fico imaginando o que ela pensou naquele instante. No mínimo sentiu uma vontade enorme de pegar o avião de volta.

Mas quando a gente é jovem tudo é festa. Em pouco tempo ela se adaptou ao jeito maringaense de viver. Graças a Deus.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 28-7-2022)

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Daniel Maurício (Poética) 37

 

Concurso de poemas para crianças (Poemas Premiados no Tema: Tesourinha)


1º Lugar

Katia Sentinaro
Campinas/SP

ENTRE O CÉU E A TERRA


Tesourinha no céu,
Tesourinha no chão.
Com uma, voa o papel.
Com a outra, voa a estação.
Uma supera a colina,
Outra permanece na mão.
Uma é leve, feito bailarina.
E com as duas voa a imaginação
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

2º Lugar

Décio Romano
Curitiba/PR

TESOURINHA


Tesourinha escolar
De cortar papel
O recorte que me encanta
É a nuvem lá no céu.

Quem recorta a figurinha
Que ilustra a página?
A criança que estuda
Ou a tesourinha mágica?
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

3º Lugar
(Poema en espanhol)

Sheina Leoni Handel
Montevidéu/Uruguai

TIJERITA


Corta ,corta , tijerita
Corta, corta tijerita,
y no dejes de cortar;
dale forma a mis hojitas,
que las debo terminar;
con forma de palomita,
para la fiesta final,
pues las clases ya culminan
hoy es el baile especial,
y seremos palomitas,
listas para despegar.
Nuestra maestra querida,
seguro nerviosa está,
un poquito de alegría,
nos ha visto madurar,
más también melancolía,
porque debemos marchar;
piloteando tras la vida,
seguro otro año más;
terminó mi tijerita,
ya tengo pronto el disfraz,
parto para la escuelita,
seguida de mis papás,
a celebrar este día,
fin de otro año escolar,
un momento de alegría,
de esos que hacen llorar.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =
TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS, por José Feldman

TESOURINHA


Corta, corta, tesourinha
Corta, corta, tesourinha,
e não pare de cortar;
molda minhas folhinhas,
que devo terminar;
em forma de pomba,
para a festa final,
pois as aulas acabaram.
hoje é o baile especial,
e seremos pombinhas,
pronto para decolar.
Nossa querida professora,
certeza que está nervosa
um pouquinho de alegria,
nos viu amadurecer,
mas também melancolia,
porque devemos marchar;
pilotando após a vida,
certeza outro ano;
terminei minha tesourinha,
já tenho pronto o traje,
parto para escola,
seguida por meus pais
para comemorar este dia,
fim de mais um ano letivo
um momento de alegria,
daqueles que fazem chorar.
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MENÇÃO HONROSA

Rita Queiróz
Feira de Santana/BA

MÃOS DE TESOURA


Com as mãozinhas mágicas,
Joaninha e Pedrinho fazem arte.
Cortam tudo que veem pela frente
De papel a sabonete, fazem picadinho
Colam num quadro e fazem um mosaico.
Joaninha e Pedrinho querem outro mundo
As mãozinhas são tesouras afiadas
Cortam os galhos das árvores, as folhas
Tudo voa pelos ares como bolas de sabão
Coloridas imagens recortadas nas asas do avião.
Cabelos e unhas cortados, nariz empinado
Bonecas viram Pinóquios, brincam de Pluft
Fantasminha amigo, corta o branco lençol
Buracos nos olhos, bocas abertas,
Risadas dobradas, origâmis bailam.
Tesourinha é uma varinha de condão
Da fada e do mago, farta imaginação
Corta a tristeza, a mágoa e o mau humor
Vira alegria, amor e muita gratidão,
Fartos pedaços de uma fantasia infantil.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

MENÇÃO HONROSA

Flávia Ferrari
São Paulo/SP

FOTOGRAFIA


A menina Rosa gostava de rolar na terra
Correr sozinha pela escola
Contar os tatus-bolas
Olhar as minhocas se esconderem no canteiro
Pendurar-se na trave do goleiro
E durante sua exploração
Aparecia aquele bichinho diferente
De quem a menina não tinha notícia
Com suas garras em forma de pinça
De movimento alongado
E corpo achatado
Gostava de se esconder de Rosa
E ela ficava intrigada
Tocava o sinal e a menina nem se mexia
E logo tirava os sapatos
Voava no balanço sem vontade de aterrissar
Nunca se cansava de brincar
Eis que um dia
Enquanto folheava um livro na sala
Rosa teve uma surpresa
E saiu em disparada
Passou correndo pela amarelinha
Procurou por todo quintal
E a encontrou bem perto do bananal
Com a boca cheia de vontade
Tinha que dizer bem alto
Chegou pertinho da sua nova amiga
Que parecia olhar para Rosa
- Tesourinha, Tesourinha, descobri que você é famosa
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

MENÇÃO HONROSA

Elieder Corrêa da Silva
Curitiba/PR

MOTRICIDADE


Marianinha, garota vivaz,
na mão a tesourinha,
repica papéis, sabe, faz.
Faz toalhinhas floridas,
bandeirolas coloridas,
em folhas brancas de papel.
Recorta animaizinhos,
enfeitarão o carrossel.
O carrossel terá cavalos,
peixes e passarinhos,
Nesses momentos
lúdicos com a
tesourinha na mão,
recortou para a mamãe
bonito coração.

Milton S. Souza (Amante à moda antiga)

Tudo começou naquele encontro casual na floricultura. O relógio marcava nove horas da manhã quando ele estava entrando e o outro sujeito, moreno, alto, de bigode, saindo. Quase colidiram na porta. E o enorme ramalhete de flores, com cerca de 30 rosas brancas e vermelhas, que o outro levava nas mãos, chamou a sua atenção. Foi então que resolveu comprar um igual. Afinal, nada melhor do que presentear a sua “filial” com aquele belíssimo buquê de flores. Ela era tão compreensiva. Nunca reclamava da sua condição de homem casado e sempre estava pronta, naqueles poucos momentos em que conseguiam se encontrar, para cobrir a sua vida de carinhos. Ninguém melhor do que ela para merecer aquelas flores...

Pagou caro pelo ramalhete. E pagou um pouco mais ainda para que as flores fossem enviadas diretamente para a casa da “2ª dama”. Não poderia deixar furo. Se fosse visto saindo da floricultura com aquela belezura de buquê, logo a sua mulher saberia de tudo. Foi discreto até mesmo no cartão que escreveu para colocar junto com as flores: “Tu sabes que és a primeira no meu coração”. Não assinou e nem colocou o nome da amada. Nem precisava. Ela logo saberia que o presente era dele. Ainda mais naquela data, 21 de setembro, quando o calendário marcava o Dia da Amante...

Trabalhou o dia inteiro esperando um telefonema de agradecimento da sua amada-amante. Mas o telefonema não chegou. Até tentou ligar para o apartamento dela, do seu celular, mas não conseguiu completar a ligação. E não quis pedir para a secretária tentar, pois poderia levantar suspeitas. Lamentou não ter tempo sobrando para fazer uma visita-surpresa e saborear em carícias aquele “investimento florido”. O dia terminou sem surpresas. Mas a surpresa maior, sem que ele soubesse, estava esperando na sua própria casa...

Quando entrou no “doce-lar” a mulher não estava. Num bilhete, avisava que tinha ido ao instituto de beleza. “A bruxa querendo se enfeitar”, pensou em voz alta. Quase caiu duro, porém, quando penetrou no quarto e viu, sobre a cômoda, um buquê de flores exatamente igual ao que ele havia enviado para a casa da amante. Seus pensamentos dispararam: como um raio, surgiu na sua mente o fantasma do “cara” moreno, alto e de bigode da quase colisão na floricultura. Sentiu uma estranha coceira repentina na testa. Começou a imaginar que aquele sujeito metido a bonitão era amante da sua mulher. Só poderia ser isso. Receber flores no Dia do Amante!!! Desgraçada. Que instituto de beleza, que nada. A esta hora ela deveria estar em algum motel lambendo os bigodes daquele miserável!!! Sentou na cama, arrasado, com a cabeça entre as mãos. Naquele momento, escutou o barulho da porta se abrindo. Só poderia ser ela, a maldita traidora...

A mulher veio quase correndo na direção dele, cabelo cortado e arrumado, toda maquiada e enfeitada. Nem conseguiu falar. Foi sufocado por um abraço e um beijo. E ela começou a desfiar um rosário de agradecimentos pelas flores e de desculpas “por não estar sendo uma boa esposa ultimamente”. Elogiou o cartãozinho escrito com a letra dele, com a declaração de que ela era “a primeira no seu coração”...

Um turbilhão passou pelos seus pensamentos. Só poderia ser isso. Na hora de escrever o endereço para a entrega das flores, pela força do hábito, colocara o da sua casa no lugar do da amante. Um calafrio desfilou pelo seu corpo. Ainda bem que não escrevera o nome da dita cuja, senão... Sentiu dois pesos pontudos saírem da sua cabeça... E se entregou de corpo e alma para as carícias da esposa, que nem lembrou de fechar a porta do quarto para começar a se despir.  Foi o melhor Dia da Amante da sua vida…

Fonte:
Recanto das Letras do autor.
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/72831

domingo, 14 de agosto de 2022

Lairton Trovão de Andrade (Enxurrada de Poemas) – 7 -

CANÇÃO DE AMOR

 
"Vem, formosa minha, vem!"
(CL 2.10)


Volta, amada minha,
Vem pra junto de mim,
Que uma canção de amor
Te cantarei.

Eu te espero sempre,
Sempre com ansiedade,
E com canção de amor
Te embalarei.

És toda minha vida,
És tudo para mim,
És tudo,
Tudo o que sonho!
Tudo, tudo,
Meu bem,
Meu bem!

Eu não suporto mais
Este exílio sem fim;
E com canção de amor
Te esperarei.

Tão só estou no mundo,
No mundo tão deserto;
E com canção de amor
Te buscarei.

És toda a minha vida,
És tudo para mim,
És tudo,
Tudo o que sonho!
Tudo, tudo,
Meu bem,
Meu bem!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =

DOCE ESPERANÇA

"Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu."
(Ct. 6.3)


Longo tempo de espera passou,
Novo dia raiou na estação;
Trago n'alma o nosso passado,
Pra revê-la com toda emoção.

Na memória, bem viva, a guardei,
Eu só tive você na saudade;
Suspirei encontrá-la de novo
- Casarei com a felicidade.

Vou dizer-lhe que o amor é maior,
Ele é puro tal como o marfim;
Ele sabe que digo a verdade
- É o amor que jamais terá fim.
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MINHA
 
"Graciosa é tua boca!"
(Ct. 4.3)


Bela menina, atraentes olhos,
Com quanto ardor me procuras tanto;
Essa maneira do teu olhar
Faz-me sonhar e compor meu canto.

Lindo botão de rosa vermelha
É tua boca tão redondinha;
Deixa eu te dar, de leve, um beijinho
E, com jeitinho, hás de ser minha.

Que encanto um dia poder beijar-te,
Co'aquele beijo lá d'outro mundo;
Da tua entranha viria um gemido
Estremecido num "ai" profundo.

A brisa iria sentir na tua boca,
Na tua boca tão redondinha;
Suave aroma de puro amor,
Com que calor irias ser minha.

Meiguice estranha deste teu ser
Que, embora em chama, me dá frescor;
És refrigério de sensação,
Rara paixão que fecunda o amor.

Oh, não me deixes, quero-te muito!
Venhas saciar este sonho meu!
Será que alguém te dá mais calor?!
- Maior amor quem te dá sou eu!
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POMBAL
 
"Ali te darei minhas delícias."
(Ct. 7.13)


Rósea pombinha, contempla a alvorada!
Voa pra mim! - É hora da revoada
Para o pombal amigo.
Voarei contigo, no teu doce lado!
Felicidade é o Éden procurado
Que será nosso abrigo.

Não demores mais! - O ágave* te chama
Com voz tangente... O teu ser se inflama
Num idílio de amor.
Voejarei contigo!… Dar-me-ás a mão...
Como ninguém, serás feliz então,
Bem longe do pavor.

Além das vagas, no pombal distante,
O Sol, da Lua, eternamente amante,
Em namoro sem fim,
Contigo ficarei - assim juntinho,
Para te dar amor no mesmo ninho...
E arrulharás pra mim...

Irás repousar em seguros ombros,
Acalentando carícias dos pombos
Do alvejante pombal.
Do mundo esquecerás por um instante,
Reclinarás no ninho aconchegante
- Delícia sem igual.
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* ágave = Planta ornamental. Fig: algo de extrema raridade.
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Fonte:
Lairton Trovão de Andrade. Madrigais: poesias românticas. Londrina/PR: Ed. Altha Print, 2005.
Livro enviado pelo autor.

Machado de Assis (Flor anônima)

Manhã clara. A alma de Martinha é que acordou escura. Tinha ido na véspera a um casamento; e, ao tornar para casa, com a tia que mora com ela, não podia encobrir a tristeza que lhe dera a alegria dos outros e particularmente dos noivos.

Martinha ia nos seus... Nascera há muitos anos. Toda a gente que estava em casa, quando ela nasceu, anunciou que seria a felicidade da família. O pai não cabia em si de contente.

— Há de ser linda!

— Há de ser boa!

— Há de ser condessa!

— Há de ser rainha!

Essas e outras profecias iam ocorrendo aos parentes e amigos da casa.

Lá vão... Aqui pega a alma escura de Martinha. Lá vão quarenta e três anos, — ou quarenta e cinco, segundo a tia; Martinha, porém, afirma que são quarenta e três. Adotemos este número. Para ti, moça de vinte anos, a diferença é nada; mas deixa-te ir aos quarenta, nas mesmas circunstâncias que ela, e verás se não te cerceias uns dois anos. E depois nada obsta que marches um pouco para trás. Quarenta e três, quarenta e dois, fazem tão pouca diferença...

Naturalmente a leitora espera que o marido de Martinha apareça, depois de ter lido os jornais ou enxugado do banho. Mas é que não há marido, nem nada. Martinha é solteira, e daí vem a alma escura desta bela manhã clara e fresca, posterior à noite de bodas.

Só, tão só, provavelmente só até a morte; e Martinha morrerá tarde, porque é robusta como um trabalhador e sã como um pero. Não teve mais que a tia velha. Pai e mãe morreram, e cedo.

A culpa dessa solidão a quem pertence? ao destino ou a ela? Martinha crê, às vezes, que ao destino; às vezes, acusa-se a si própria. Nós podemos descobrir a verdade, indo com ela abrir a gaveta, a caixa, e na caixa a bolsa de veludo verde e velha, em que estão guardadas todas as suas lembranças amorosas. Agora que assistira ao casamento da outra, teve ideia de inventariar o passado. Contudo hesitou:

— Não, para que ver isto? É pior: deixemos recordações aborrecidas.

Mas o gosto de remoçar levou-a a abrir a gaveta, a caixa, e a bolsa; pegou da bolsa, e foi sentar-se ao pé da cama.

Há que anos não via aqueles despojos da mocidade! Pegou-lhes comovida, e entrou a revê-los.

De quem é esta carta? pensou ela ao ver a primeira. Seu Juca. Que Juca? Ah! o filho do Brito Brandão. “Crê que o meu amor será eterno!”. E casou pouco depois com aquela moça da Lapa. Eu era capaz de pôr a mão no fogo por ele. Foi no baile do Club Fluminense que o encontrei pela primeira vez. Que bonito moço! Alto, bigode fino, e uns olhos como nunca mais achei outros. Dançamos essa noite não sei quantas vezes. Depois começou a passar todas as tardes pela Rua dos Inválidos, até que nos foi apresentado. Poucas visitas, a princípio, depois mais e mais. Que tempo durou? Não me lembra; seis meses, nem tanto. Um dia começou a fugir, a fugir, até que de todo desapareceu. Não se demorou o casamento com a outra... “Crê que o meu amor será eterno!”

Martinha leu a carta toda e a pôs de lado.

— Qual! é impossível que a outra tenha sido feliz. Homens daqueles só fazem desgraçadas...

Outra carta. Gonçalves era o nome deste. Um Gonçalves louro, que chegou de S. Paulo, bacharelado de fresco, e fez tontear muita moça. O papel estava encardido e feio, como provavelmente estaria o autor. Outra carta, outras cartas. Martinha relia a maior parte delas. Não eram muitos os namorados; mas cada um deles deixara meia dúzia pelo menos, de lindas epístolas.

 “Tudo perdido”, pensava ela.

E, uma palavra daqui, outra dali, fazia recordar tantos episódios deslembrados... “desde domingo (dizia um) que não me esquece o caso da bengala”. Que bengala? Martinha não atinou logo. Que bengala podia ser que fizesse ao autor da carta (um moço que principiava a negociar, e era agora abastado e comendador) não poder esquecê-la desde domingo?

Afinal deu com o que era; foi uma noite, ao sair da casa dela, que indo procurar a bengala, não a achou, porque uma criança de casa a levara para dentro; ela é que lha entregara à porta, e então trocaram um beijo...

Martinha ao lembrá-lo estremeceu. Mas refletindo que tudo agora estava esquecido, o domingo, a bengala e o beijo (o comendador tem agora três filhos), passou depressa a outras cartas.

Concluiu o inventário. Depois, acudindo-lhe que cada uma das cartas tivera resposta, perguntou a si mesma onde andariam as suas letras.

Perdidas, todas perdidas; rasgadas nas vésperas do casamento de cada um dos namorados, ou então varridas com o cisco, entre contas de alfaiates...

Abanou a cabeça para sacudir tão tristes ideias. Pobre Martinha! Teve ímpetos de rasgar todas aquelas velhas epístolas; mas sentia que era como se rasgasse uma parte da vida de si mesma, e recolheu-as.

 Não haveria mais alguma na bolsa?

Meteu os olhos pela bolsa, não havia carta; havia apenas uma flor seca.

— Que flor é esta?

Descolorida, ressequida, a flor parecia trazer em si um bom par de dúzias de anos. Martinha não distinguia que espécie de flor era; mas fosse qual fosse, o principal era a história. Quem lhe deu?

Provavelmente alguns dos autores das cartas, mas qual deles? e como? e quando?

A flor estava tão velha que se desfazia se não houvesse cuidado em lhe tocar.

Pobre flor anônima! Vejam a vantagem de escrever. O escrito traz a assinatura dos amores, dos ciúmes, das esperanças e das lágrimas. A flor não trazia data nem nome. Era uma testemunha que emudeceu. Os próprios sepulcros conservam o nome do pó guardado. Pobre flor anônima!

— Mas que flor é esta? repetiu Martinha.

Aos quarenta e cinco anos não admira que a gente esqueça uma flor. Martinha mirou-a, remirou-a, fechou os olhos a ver se atinava com a origem daquele despojo mudo.

Na história dos seus amores escritos não achou semelhante prenda; mas quem podia afirmar que não fosse dada de passagem, sem nenhum episódio importante a que se ligasse?

Martinha guardou as cartas para colocar a flor por cima, e impedir que o peso a desfibrasse mais depressa, quando uma recordação a assaltou:

— Há de ser... é... parece que é... É isso mesmo.

Lembrara-se do primeiro namorado que tivera, um bom rapaz de vinte e três anos; contava ela então dezenove. Era primo de umas amigas. Julião nunca lhe escrevera cartas. Um dia, depois de muita familiaridade com ela, por causa das primas, entrou a amá-la, a não pensar em outra coisa, e não o pôde encobrir, ao menos da própria Martinha. Esta dava-lhe alguns olhares, mais ou menos longos e risonhos; mas em verdade, não parecia aceitá-lo. Julião teimava, esperava, suspirava. Fazia verdadeiros sacrifícios, ia a toda parte onde presumia encontrá-la, gastava horas, perdia sonos. Tinha um emprego público e era hábil; com certeza subiria na escala administrativa, se pudesse cuidar somente dos seus deveres; mas o demônio da moça interpunha-se entre ele e os regulamentos. Esquecia-se, faltava à repartição, não tinha zelo nem estímulo. Ela era tudo para ele, e ele nada para ela. Nada; uma distração quando muito.

Um dia falara-se em não sei que flor bonita e rara no Rio de Janeiro. Alguém sabia de uma chácara onde a flor podia ser encontrada, quando a árvore a produzisse; mas, por enquanto, não produzia nada. Não havia outra, Martinha contava então vinte e um anos, e ia no dia seguinte ao baile do Club Fluminense; pediu a flor, queria a flor.

— Mas, se não há...

— Talvez haja, interveio Julião.

— Onde?

— Procurando-se.

— Crê que haja? perguntou Martinha.

— Pode haver.

— Sabe de alguma?

— Não, mas procurando-se... Deseja a flor para o baile de amanhã?

— Desejava.

Julião acordou no dia seguinte muito cedo; não foi à repartição e deitou-se a andar pelas chácaras dos arrabaldes. Da flor tinha apenas o nome e uma leve descrição. Percorreu mais de um arrabalde; ao meio-dia, urgido pela fome, almoçou rapidamente em uma casa de pasto. Tornou a andar, a andar, a andar. Em algumas chácaras era mal recebido, em outras gastava tempo antes que viesse alguém, em outras os cães latiam-lhe às pernas. Mas o pobre namorado não perdia a esperança de achar a flor. Duas, três, quatro horas da tarde. Eram cinco horas quando em uma chácara do Andaraí Grande pôde achar a flor tão rara. Quis pagar dez, vinte ou trinta mil réis por ela; mas a dona da casa, uma boa velha, que adivinhava amores a muitas léguas de distância, disse-lhe, rindo, que não custava nada.

 — Vá, vá, leve o presente à moça, e seja feliz.

Martinha estava ainda a pentear-se quando Julião lhe levou a flor. Não lhe contou nada do que fizera, embora ela lhe perguntasse. Martinha porém compreendeu que ele teria feito algum esforço, apertou-lhe muito a mão, e, à noite, dançou com ele uma valsa. No dia seguinte, guardou a flor, menos pelas circunstâncias do achado que pela raridade e beleza dela; e como era uma prenda de amor, meteu-a entre as cartas.

O rapaz, dentro de duas semanas, tornou a perder algumas esperanças que lhe haviam renascido. Martinha principiava o namoro do futuro comendador. Desesperado, Julião meteu-se para a roça, da roça para o sertão, e nunca mais houve notícia dele.

— Foi o único que deveras gostou de mim, suspirou agora Martinha, olhando para a pobre flor mirrada e anônima.

E, lembrando-se que podia estar casada com ele, feliz, considerada, com filhos, — talvez avó — (foi a primeira ocasião em que admitiu esta graduação sem pejo) Martinha concluiu que a culpa era sua, toda sua; queimou todas as cartas e guardou a flor.

Quis pedir à tia que lhe pusesse a flor no caixão, sobre o seu cadáver; mas era romântico demais. A negrinha chegara à porta:

— Nhanhã, o almoço está na mesa!

Fonte:
Publicado originalmente no Almanaque da Gazeta, em 1897.