quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mhario Vicenti (O Homem que Chorava) – Lançamento

Noite de Autógrafos

11 de Setembro – 19h
Local: Livraria Nobel do Shopping JL

13 de Setembro – 20h
Local: Casa da Cultura – Cafelândia (Paraná)
(45) 3241 – 1362

Escritor cascavelense Mhário Vicenti lançou na Bienal do Livro de São Paulo, entre 14 e 24 de agosto, o romance “O homem que chorava”, baseado em uma história real sobre a felicidade através do perdão e a resignação humana.

Uma estréia audaciosa e bem preparada do autor paranaense que tem na veia a literatura por excelência. Apesar do pequeno espaço como autor estreante e participação limitada na Bienal, a obra despertou o interesse do leitor pela qualidade gráfica além da resenha simples e objetiva, o que resultou num excelente contrato com uma grande distribuidora paulista para venda e distribuição de seus livros nas principais livrarias do país.

Aos 47 anos, Mhário se rende aos impulsos e as evidências, que durante anos lhe acenaram para abraçar a carreira literária por vocação. O autor transita na área da comunicação desde os 15 anos quando iniciou a carreira de jornalista no Oeste do Paraná como repórter e fotógrafo, passando por vários veículos de comunicação, incluindo agência de propaganda em São Paulo, cinco anos fora do Brasil, 15 anos em assessoria de imprensa e consultoria de marketing, até criar seu próprio jornal: “Integração de Cafelândia”.

Em seu primeiro romance de ficção, o autor faz prosa com sensibilidade a flor da pele, aos encontros e devaneios do personagem principal na constante busca pela felicidade.
Entendendo que chegou a hora de externar toda a poesia e experiência acumulada em sua trajetória profissional e de vida, Mhário expõem em seu estilo, uma raridade literária com olhar assertivo na essência da vida, mergulhando pela alma de seus personagens como um passeio no parque.

SALTO

Quem sabe,
Um dia,
Terei asas para planar em todos
Os horizontes,
E com elas ter você,
Infinitamente
A qualquer altura
...

Agora "alado" em sua estréia na literatura de ficção, o escritor Mhário Vicenti está pronto para alçar o seu vôo grande vôo "literalmente".

A peregrinação

Desde a primeira das 281 páginas de “O homem que chorava”, Mhário confirma e nos convence de que é um romancista nato, quando abre coração e alma para contar em sua história, a surpreendente aventura de Maxxi.

Aos 46 anos, Maxxi decide sair em busca da felicidade. Vivendo à sombra de suas angústias, radicaliza seu estilo de vida ao deixar as conquistas e realizações para mergulhar na essência perdida ao peregrinar pelo milenar Caminho de Santiago de Compostela. Nessa longa jornada, seu olhar lacrimoso sobre a infância pobre e traumática vai se dissipando, amenizando a conturbada trajetória de vida. Uma nova percepção coloca Maxxi em xeque entre suas lembranças e pensamentos. É através do “caminho” que ele deixa para trás toda a carga de culpa e sentimentos de rejeição, conforme sua memória o transporta nas diferentes aventuras.

O homem que chorava parecia viver na contramão do destino por causa de seu espírito cigano. Essa inquietude se traduziu ao final da peregrinação em respostas que lhe deram a paz necessária, entendendo que não precisava mais provar nada para ninguém, nem mesmo para si mesmo, é quando encontra o caminho da felicidade.

Com uma narrativa coloquial, objetiva e sensível, Mhário Vicenti deixa o leitor abduzido nessa história cheia de aventuras insólitas, que muda constantemente seu desfecho na exemplar vida de Maxxi. Um homem-menino que tinha tudo para engrossar as estatísticas negativas do país, por estar sempre à beira da marginalidade, chorando as injustiças da vida, mas decidiu virar o jogo e perseguir à tão sonhada felicidade, desejo de qualquer ser humano.

O primeiro livro de Mhário Vicenti, “Natureza Clandestina”, com 150 páginas de crônicas e poesias teve a primeira edição publicada em 1988. Nessa época, o escritor apenas amadurecia a idéia de abraçar a carreira literária entre versos profundos e derradeiros sobre a alma humana, imaginando que seu dia de escritor seria apenas uma questão de calendário.

Passaram-se exatamente 20 anos para Mhário Vicenti decidir pelo segundo livro e mergulhar em sua carreira de escritor.

========================
O Autor

Mhário Vicenti, 47 anos, casado, natural de Cascavel-PR.

Economista, jornalista, publicitário e consultor pós-graduado em Marketing e MBA em Cooperativismo pela FGV. Proprietário e editor-chefe do Jornal Integração do Oeste do Paraná há cinco anos.

Assessor de Comunicação por 12 anos no Paraná.

Foi presidente do MOLICA – Movimento Literário de Cascavel até 1988.

O primeiro livro “Natureza Clandestina” foi publicado em 1987, é de Poesias e Crônicas.

Estréia no gênero da ficção brasileira com o romance: O homem que chorava, 281 pgs.

Fontes:
http://www.ube.org.br/
http://www.cascavel.pr.gov.br/secom
http://www.paralerepensar.com.br/
http://www.ohomemquechorava.com.br/
http://www.jintegracao.com.br/ (Jornal Integração, de Cafelândia)
Panfleto com Convite recolhido na Faculdade ÚNICA, de Cafelândia

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Artur de Azevedo (As Barbas do Romualdo)

(Conto que não é conto)

O Romualdo tinha nascido, talvez, para os mais altos destinos; mas como os pais se esqueceram de mandar educá-lo, e ele mal sabia ler e escrever, o mais que arranjou foi ser soldado do exército, e, depois de obtida a sua baixa, contínuo de secretaria.

Releva dizer que o Romualdo só deixou crescer as barbas depois de contínuo; se as usasse quando era soldado e guerreava no Paraguai, chegaria a capitão pelo menos.

Mas que contínuo! Alto, gordo, ereto, com aquelas opulentas suíças brancas a emoldurar-lhe a cara, sem bigodes, mais parecia um magistrado, cuja figura estava ao pintar para presidir a um júri sensacional, e essa ilusão só se desfazia quando ele falava, porque o Romualdo, benza-o Deus! por mais que compusesse a sua fisionomia austera e veneranda, tinha o estilo e a prosápia do "povo da lira". Calado era um juiz; falando, um capadócio.

Os praticantes amanuenses e mais funcionários do chefe de secção para baixo envergonhavam-se de o chamar a toque de campainha, que naquele tempo as campainhas burocráticas ainda não eram elétricas. As de hoje são menos humilhantes, não sei se devido à. eletricidade, se à ausência do badalo. O badalo foi sempre impertinente e autoritário.

Era, em verdade, pelo menos desagradável para um funcionário rapazola ver diante da sua mesa de trabalho aquele homem solene, a dizer-lhe, por exemplo: — Leve este ofício à portaria.

O Romualdo não ignorava o respeito que infundia ao pessoal da repartição, e abusava da respeitabilidade das suas barbas. Muitas vezes estava sentado no saguão da secretaria, de óculos, entretido a ler o seu jornal, quando o retintim de uma campainha tímida lhe entrava pelos ouvidos, chamando-o à realidade da sua situação de subalterno.

Era o mesmo que se não tivesse ouvido. Quando o som argentino retinia pela terceira vez, ele murmurava sem interromper a leitura e não tão baixo que o não ouvissem: — Pois sim!...toca p'r'aí!...súcia de vadios!...não têm mais que fazer senão dar ao badalo!...

— Tlin! tlin! tlin!...

— Toca, toca, meu menino!...estou bem aqui!...

Afinal, abria-se um reposteiro, para deixar passar a cabeça do funcionário incipiente...e impaciente:

— Então, seu Romualdo? Há uma hora que estou a tocar!

O contínuo erguia a cabeça, tirava os óculos, guardava-os na algibeira, dobrava com lentidão o jornal, erguia-se majestosamente, e perguntava do alto das suas barbas:

— Que temos?

Nem uma palavra de desculpa, nem a sombra de uma explicação!

O amanuense não se atrevia a protestar: intimidava-o aquele aspecto de pessoa grada ou cidadão conspícuo.

Em casa, depois que deixara crescer as suíças, o Romualdo poderia dizer-se oráculo. A mulher e os filhos admiravam-no; os parentes diziam todos à uma que era clamoroso estar ali um simples contínuo, quando tinha capacidade para dirigir uma repartição de primeira ordem.

Nos penates ele falava pelas tripas do Judas, discorrendo sobre todos os assuntos sociais ou políticos, e dando sobre cada um a sua opinião individual. Nessas ocasiões só dizia parvoices, mas a família ouvia-o embevecida e assombrada diante de tanto saber. Era um efeito das barbas.

Nas ruas, o Romualdo era cumprimentado por muita gente que o não conhecia, porque a sua figura solicitava a consideração e o respeito dos estranhos. Alguns, depois de passar por ele, olhavam para traz e perguntavam a si mesmos: Quem será aquele figurão?

Quando o deputado foi nomeado ministro e pela primeira vez entrou na secretaria, impressionaram-no aquelas barbas, e indagou a quem pertenciam. Quando lhe responderam que o Romualdo era um simples contínuo, imediatamente ordenou que ele fosse servir no gabinete. Achou-o decorativo.

Ao lado do ministro, o Romualdo, sem que para isso concorresse outra coisa mais que não fosse a exibição das suas barbas, captou a confiança e até certo ponto, a familiaridade de s. ex., e isso o tornou ainda mais solene e majestático.

Quando ficava trabalhando em casa, sem aparecer na repartição, o ministro queria o contínuo perto de si, pronto para receber, introduzir ou mandar embora os visitantes, ou levar à secretaria, rapidamente, qualquer ordem de s. ex. Naquele tempo ainda não havia telefone.

No anunciar visitas e dar recados, o nosso homem, que era positivamente um mau contínuo, revelou qualidades excepcionais, e de uma vez até pôs as suas gloriosas suíças ao serviço da boa harmonia administrativa.

O caso conto como o caso foi.

O ministro andava, não sei porque, às turras com o diretor da Estrada de Ferro, e já o teria demitido, ou por outra apresentado em conselho o respectivo decreto, se não soubesse que o homem era protegido pelo imperador, e ele, ministro, não fosse tão agarrado à pasta.

Um dia o alto funcionário precisou falar ao ministro sobre matéria urgente de serviço, e, não o achando na secretaria, foi ter à sua casa.

Encontrou na ante-sala as barbas do Romualdo, que cochilava sentado numa cadeira.

— O ministro está?

— Está, sim, senhor.

— Vá dizer a esse idiota que o diretor da Estrada de Ferro precisa falar-lhe com urgência.

O Romualdo, que já se havia erguido, inclinou-se, penetrou no gabinete do ministro, e disse-lhe:

— Está aí o sr. diretor da Estrada de Ferro que pede a v. ex. o obséquio de lhe conceder alguns minutos de atenção para assunto urgente.

O ministro, sem levantar os olhos do seu trabalho, respondeu:

— Diga a essa besta que não estou para o aturar, e que não me amole!

O Romualdo inclinou-se, saiu, e veio dizer ao funcionário:

— O sr. conselheiro manda pedir a v. ex. o obséquio de procurá-lo noutra ocasião, porque neste momento está muito ocupado, e sente não poder prestar a v. ex. toda a atenção que v. ex. merece.

O diretor da Estrada de Ferro saiu arrebatadamente, gritando:

— Pois diga—lhe que vá para o diabo que o carregue!

O Romualdo voltou ao gabinete, e assim falou :

— O sr. diretor da Estrada de Ferro manda agradecer a bondade com que v. ex. o tratou, e diz que mais tarde procurará v. ex. na secretaria.

Com aquelas suíças, quem poderia supor que o Romualdo mentisse?

Fontes:
R. Magalhães Jr. Antologia de Humorismo e Sátira", Ed. Civilização Brasileira — Rio de Janeiro, 1957,
http://www.releituras.com/

Artur de Azevedo (A filha do patrão)

A Artur de Mendonça

O comendador Ferreira esteve quase a agarrá-lo pelas orelhas e atirá-lo pela escada abaixo com um pontapé bem aplicado. Pois não! um biltre, um farroupilha, um pobre-diabo sem eira, nem beira, nem ramo de figueira, atrever-se a pedir-lhe a menina em casamento! Era o que faltava! que ele estivesse durante tantos anos a ajuntar dinheiro para encher os bolsos a um valdevinos daquela espécie, dando-lhe a filha ainda por cima, a filha, que era a rapariga mais bonita e mais bem educada de toda a rua de S. Clemente! Boas!

O comendador Ferreira limitou-se a dar-lhe uma resposta seca e decisiva, um «Não, meu caro senhor» capaz de desanimar o namorado mais decidido ao emprego de todas as astúcias do coração.

O pobre rapaz saiu atordoado, como se realmente houvesse apanhado o puxão de orelhas e o pontapé, que felizmente não passaram de tímido projeto.

Na rua, sentindo-se ao ar livre, cobrou ânimo e disse aos seus botões: — Pois há de ser minha, custe o que custar! — Voltou-se, viu numa janela Adosinda, a filha do comendador, que desesperadamente lhe fazia com a cabeça sinais interrogativos. Ele estalou nos dentes a unha do polegar, o que muito claramente queria dizer: — Babau! — e, como eram apenas onze horas, foi dali direitinho espairecer no Derby-Clúb. Era domingo e havia corridas.

O comendador Ferreira, mal o rapaz desceu a escada, foi para o quarto da filha, e surpreendeu-a a fazer os tais sinais interrogativos. Dizer que ela não apanhou o puxão de orelhas destinado ao moço, seria faltar à verdade que devo aos pacientes leitores; apanhou-o, coitadinha! e naturalmente, a julgar pelo grito estrídulo que deu, exagerou a dor física produzida por aquela grosseira manifestação da cólera paterna.

Seguiu-se um diálogo terrível:

— Quem é aquele pelintra?

— Chama-se Borges.

— De onde você o conhece?

— Do Clube Guanabarense... daquela noite em que papai me levou...

— Ele em que se emprega? que faz ele?...

— Faz versos.

— E você não tem vergonha de gostar de um homem que faz versos?

— Não tenho culpa; culpado é o meu coração.

— Esse vagabundo algum dia lhe escreveu?

— Escreveu-me uma carta.

— Quem lhe trouxe?

— Ninguém. Ele mesmo atirou-a com uma pedra, por esta janela.

— Que lhe dizia ele nessa carta?

— Nada que me ofendesse; queria a minha autorização para pedir-me em casamento.

— Onde está ela?

— Ela quem?

— A carta!

Adosinda, sem dizer uma palavra, tirou a carta do seio. O comendador abriu-a, leu-a, e guardou-a no bolso. Depois continuou:

— Você respondeu a isto?

A moça gaguejou.

— Não minta!

— Respondi, sim, senhor.

— Em que termos?

— Respondi que sim, que me pedisse.

— Pois olhe: proíbo-lhe, percebe? pro-í-bo-lhe que de hoje em diante dê trela a esse peralvilho! Se me contar que ele anda a rondar-me a casa, ou que se corresponde com você, mando desancar-lhe os ossos pelo Benvindo (Benvindo era o cozinheiro do comendador Ferreira), e a você, minha sirigaita... a você... Não lhe digo nada!...
II
Três dias depois desse diálogo, Adosinda fugiu de casa em companhia do seu Borges, e o rapto foi auxiliado pelo próprio Benvindo, com quem o namorado dividiu um dinheiro ganho nas corridas do Derby. Até hoje ignora o comendador que o seu fiel cozinheiro contribuísse para tão lastimoso incidente.

O pai ficou possesso, mas não fez escândalo, não foi à polícia, não disse nada nem mesmo aos amigos íntimos; não se queixou, não desabafou, não deixou transparecer o seu profundo desgostO.

E teve razão, porque, passados quatro dias, Adosinda e o Borges vinham, à noite, ajoelhar-se aos seus pés e pedir-lhe a bênção, como nos dramalhões e novelas sentimentais.
III
Para que o conto acabasse a contento da maioria dos meus leitores, o comendador Ferreira deveria perdoar os dois namorados, e tratar de casá-los sem perda de tempo; mas infelizmente as coisas não se passarão assim, e a moral, como vão ver, foi sacrificada pelo egoísmo.

Com a resolução de quem longamente se preparara para o que desse e viesse, o comendador tirou do bolso um revólver e apontou-o contra o raptor de sua filha, vociferando:

— Seu biltre, ponha-se imediatamente no olho da rua, se não quer que lhe faça saltar os miolos!...

A esse argumento intempestivo e concludente, o namorado, que tinha muito amor à pele, fugiu como se o arrebatassem asas invisíveis.

O pai foi fechar a porta, guardou o revólver, e, aproximando-se de Adosinda, que, encostada ao piano tremia como varas verdes, abraçou-a e beijou-a com um carinho que nunca manifestara em ocasiões menos inoportunas.

A moça estava assombrada: esperava, pelo menos, a maldição paterna; era, desde pequenina, órfã de mãe, e habituara-se às brutalidades do pai; aquele beijo e aquele abraço afetuosos encheram-na de confusão e pasmo.

O comendador foi o primeiro a falar:

— Vês? — disse ele, apontando para a porta — vês? O homem por quem abandonaste teu pai é um covarde, um miserável, que foge diante do cano de um revólver! Não é um homem!...

— Isso é ele — murmurou Adosinda baixando os olhos, ao mesmo tempo que duas rosas lhe desfaziam a palidez do rosto.

O pai sentou-se no sofá, chamou a filha para perto de si, fê-la sentar-se nos seus joelhos, e, num tom de voz meigo e untuoso, pediu-lhe que se esquecesse do homem que a raptara, um troca-tintas, um leguelhé que lhe queria o dote, e nada mais; pintou-lhe um futuro de vicissitudes e misérias, longe do pai, que a desprezaria se semelhante casamento se realizasse; desse pai, que tinha exterioridades de bruto, mas no fundo era o melhor, o mais carinhoso dos pais.

No fim dessa catequese, a moça parecia convencida de que nos braços do Borges não encontraria realmente toda a felicidade possível; mas...

— Mas agora... é tarde — balbuciou ela; e voltaram-lhe à face as purpurinas rosas de ainda há pouco.

— Não; não é tarde — disse o comendador. — Conheces o Manuel, o meu primeiro caixeiro do armazém?

— Conheço: é um enjoado.

— Qual enjoado! É um rapaz de muito futuro no comércio, um homem de conta, peso e medida! Não descobriu a pólvora, não faz versos, não é janota, mas tem um tino para o negócio, uma perspicácia que o levará longe, hás de ver!

E durante um quarto de hora o comendador Ferreira gabou as excelências do seu caixeiro Manuel.

Adosinda ficou vencida.

A conferência terminou por estas palavras:

— Falo-lhe?

— Fale, papai.
IV
No dia seguinte o comendador chamou o caixeiro ao escritório, e disse-lhe:

— Seu Manuel, estou muito contente com os seus serviços.

— Oh! patrão!

— Você é um empregado zeloso, ativo e morigerado; é o modelo dos empregados.

— Oh! patrão!

— Não sou ingrato. Do dia primeiro em diante você é interessado na minha casa: dou-lhe cinco por cento além do ordenado.

— Oh! patrão! isso não faz um pai ao filho!...

— Ainda não é tudo. Quero que você se case com minha filha. Doto-a com cinqüenta contos.

O pobre-diabo sentiu-se engasgado pela comoção: não pôde articular uma palavra.

— Mas eu sou um homem sério — continuou o patrão. — A minha lealdade obriga-me a confessar-lhe que minha filha... não é virgem.

O noivo espalmou as mãos, inclinou a cabeça para a esquerda, baixou as pálpebras, ajustou os lábios em bico, e respondeu com um sorriso resignado e humilde:

— Oh! patrão! ainda mesmo que fosse, não fazia mal!

Fontes:
Contos fora de moda", Editorial Alhambra – Rio de Janeiro, 1982.
http://www.releituras.com

Alvares de Azevedo (Esperanças – Despedidas – Desalento -Meu Sonho)

Esperanças

Oh! si elle m’eût aimé...
ALFRED DE VIGNY, Chatterton

Se a ilusão de minh’alma foi mentida
E, leviana, da árvore da vida,
As flores desbotei...
Se por sonhos do amor de uma donzela
Imolei meu porvir e o ser por ela
Em prantos esgotei...

Se a alma consumi na dor que mata
E banhei de uma lágrima insensata
A última esperança,
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como dos mares pela noite infinda
A estrela da bonança!

Como nas folhas do Missal do templo
Os mistérios de Deus em ti contemplo
E na tu’alma os sinto!
Às vezes, delirante, se eu maldigo
As esperanças que sonhei contigo,
Perdoa-me, que minto!

Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como do peito a aspiração infinda
Que me influi o viver...
E como a nuvem de azulado incenso...
Como eu amo esse afeto único, imenso
Que me fará morrer!

Rompeste a alva túnica luzente
Que eu doirava por ti de amor demente
E aromei de abusões...
Deste-me em troco lágrimas aspérrimas...
Ah! que morreram a sangrar misérrimas
As minhas ilusões!

Nos encantos das fadas da ventura
Podes dormir ao sol da formosura
Sempre bela e feliz!
Irmã dos anjos, sonharei contigo:
A alma a quem negaste o último abrigo
Chora... não te maldiz!

Chora e sonha e espera: a negra sina
Talvez no céu se apague em purpurina
Alvorada de amor...
E eu acorde no céu num teu abraço
E repouse tremendo em teu regaço
Teu pobre sonhador!
==============================

Despedidas

Se entrares, ó meu anjo, alguma vez
Na solidão onde eu sonhava em ti,
Ah! vota uma saudade aos belos dias
Que a teus joelhos pálido vivi!

Adeus, minh’alma, adeus! eu vou chorando...
Sinto o peito doer na despedida...
Sem ti o mundo é um deserto escuro
E tu és minha vida...

Só por teus olhos eu viver podia
E por teu coração amar e crer...
Em teus braços minh’alma unir à tua
E em teu seio morrer!

Mas se o fado me afasta da ventura,
Levo no coração a tua imagem...
De noite mandarei-te os meus suspiros
No murmúrio da aragem!

Quando a noite vier saudosa e pura,
Contempla a estrela do pastor nos céus,
Quando a ela eu volver o olhar em pranto...
Verei os olhos teus!

Mas antes de partir, antes que a vida,
Se afogue numa lágrima de dor,
Consente que em teus lábios num só beijo
Eu suspire de amor!

Sonhei muito! sonhei noites ardentes
Tua boca beijar... eu o primeiro!
A ventura negou-me... mesmo até
O beijo derradeiro!

Só contigo eu podia ser ditoso,
Em teus olhos sentir os lábios meus!
Eu morro de ciúme e de saudade...
Adeus, meu anjo, adeus!
==================================

Desalento

Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL

Feliz daquele que no livro d’alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!

Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...

E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...

Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!

Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...

E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!

Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...

Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!
=======================================

Meu Sonho

EU
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sanguenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? — O remorso?
Do corcel te debruças no dorso...
E galopas do vale através...
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?...
Tu escutas... Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? que mistério...
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O FANTASMA
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!...

Fonte:
http://www.coladaweb.com.br

Raduan Nassar (Lavoura Arcaica)

O enredo da obra "Lavoura Arcaica" se constitui numa trama dos costumes de uma família onde é mostrado a fuga de André, um adolescente que sempre fora criado na fazenda sob um duro modelo educativo passado por seu pai, o chefe do modelo familiar. Tal fuga de casa pode ser entendida pelo grande amor que André sentia por Ana, sua própria irmã. Paixão esta que nunca poderia ser compreendida por seu pai. Assim, ele foge para um vilarejo. A reação de Pedro, seu irmão mais velho, foi a de ir até a pensão onde ele estava e tentar traze-lo de volta para sua casa na fazenda, onde sua mãe o esperava com ansiedade, sofria bastante com seu filho longe. Ao achar André, Pedro começou a contar sobre os acontecimentos que estavam ocorrendo na fazenda sem ele. O irmão o recebeu contando lições sobre questões e preceitos da família como a história de um homem faminto que pediu comida. Demostrou seus pensamentos, apesar de pouca idade acreditava que não valia a pena esperar em algum momento, em certas ocasiões era necessário agir, e logo. Contudo, nada disse sobre sua volta à fazenda. Suas irmãs apenas rezavam para sua volta, cumpriam as ordens do pai e da mãe, e esta última apenas cumpria com suas funções de dona de casa.

André acaba voltando para casa, suas idéias não batiam com as dos pais que não entendiam a que se passava com o filho. E ele não aceitava a situação de amar a irmã e nada poder fazer. Porém desabafou ao pai que estava cansado, humilde, entendendo a solidão e a miséria, pedindo o seu perdão e amor. Seu outro irmão, o Lula, acaba dizendo que também queria fugir de casa, que não aguenta mais aquela vida parada da fazenda. No dia seguinte à chegada de André foi preparada uma festa por seu pai. E assim como iniciou a obra sua irmã Ana dança sensualmente para ele. Foi nesta festa que o pai percebeu o que realmente passava com os irmãos. Desesperado o pai sofre um ataque de tristeza e morre.

Fontes:
http://www.coladaweb.com/resumos/lavoura.htm
Imagem
http://sidneypsico.blogspot.com

Jorge Amado (Dona Flor e seus Dois Maridos)

Modernismo de segunda fase. A história é dividida em 5 partes (cada uma aberta por uma lição de culinária de Flor, que é professora desta arte, com exceção da quarta parte, aberta por um programa para o concerto de Teodoro) e um intervalo.

A primeira começa com a morte de Vadinho em pleno Domingo de Carnaval. Vestido de baiana, Vadinho cai enquanto dançava e seu funeral é muito concorrido. Nele voltam as lembranças de todos sobre o falecido: os amigos de farra, as possíveis (prováveis) amantes, os conhecidos e principalmente da esposa, Flor. Flor lembra do marido infiel, cheio de lábia, espertalhão, jogador e malicioso que era Vadinho, mas ainda assim extremamente adorável. Na definição de um dos presentes no funeral, Vadinho "Era um porreta". O anteriormente referido intervalo se trata da discussão que ocorreu na cidade sobre a autoria da elegia a Vadinho, poesia anônima picante.

A segunda parte passasse-se durante o período de luto de Flor. Inconsolável com a morte de Vadinho, sua mãe volta para a cidade e a situação piora. Dona Rozilda é o mais perfeito modelo de sogra: odeia o genro, é chata, controladora, exibida e pretende sempre escalar na vida social. Passa a fazer intriga sobre o falecido ("era morte para festa") com várias beatas, enquanto algumas poucas defendem Vadinho (não seus atos) por ele ser uma pessoa excepcional (no sentido de incomum, não o de maravilhoso ou com deficiência mental).

Assim em flashback é mais detalhado o passado do casal. A mãe de Flor queria que as filhas se casassem com homens ricos, e Vadinho apareceu. Eles se conheceram numa festa chique (Vadinho entrou de penetra, com a ajuda do tio) e começaram o namoro com a benção de Dona Rozilda, até que ela descobriu quem era o genro. Mais tarde Flor sai de casa e se casa (de azul, porque não teve coragem de por o branco) e começa o casamento. Vadinho é um marido ausente, sempre gastando o dinheiro (dos outros) no jogo e nas mulheres.

Certa vez Flor quase adotou um menino que ela achava ser filho de Vadinho (Flor é estéril; o filho era do "xará"). E assim são mostrados os vários acontecimentos, em flashback, da vida matrimonial com aquele adorável cafajeste, generoso gastador, infiel e amantíssimo marido que era Vadinho. O capítulo acaba com Flor pondo flores sobre o túmulo do falecido, superando melhor o passamento dele.

A terceira parte é passada nos meses seguintes. Flor está mais alegre, apesar de manter ainda a fachada de viúva. Todas as beatas competem para achar-lhe um bom pretendente e quem aparece é Eduardo, o Príncipe, calhorda que enganava viúvas para roubar-lhes as economias. Descoberto, Flor passa a se retrair. Seu sono torna-se mais agitado, seu desejo cresce na medida em que ela deixa os homens fora de sua vida pessoal. Mas então o farmacêutico Teodoro Madureira, respeitado solteirão (ele ficara solteiro para cuidar da mãe paralítica, que morreu pouco antes), ele propõe casamento a Dona Flor e eles tem o mais casto dos noivados, nunca ficando juntos sozinhos. O capítulo acaba com o casamento de Flor, desta vez aprovado por sua mãe (que havia saído da cidade no começo do capítulo; nem as outras beatas agüentavam Dona Rozilda).

A quarta parte começa com a lua-de-mel de Dona Flor. Teodoro é diferente do falecido em tudo. Fiel (não compreende mesmo quando uma cliente da farmácia levanta o vestido BEM alto para tentá-lo), regular (sexo às quartas e sábados, bis aos sábados e facultativo às quartas) e inteligente, Teodoro trás a paz de volta à vida de Dona Flor. Teodoro toca fagote numa orquestra de amadores e o maestro compõem uma linda música para ela que Teodoro toca solo (o convite abre o capítulo) e no dia do aniversário de casamento, após os convidados partirem Flor vê Vadinho, nu como o viu na cama no dia de sua morte, a puxá-la e tentá-la. Ela se recusa naquele momento, fiel ao marido. Teodoro vai dormir e Vadinho sai logo depois, qundo Flor ia procurá-lo. Começa aqui a parte do livro que o deixou famoso: Flor, Teodoro e Vadinho, vivendo em matrimônio ao mesmo tempo, Vadinho nu, invisível a todos menos Flor.

A quinta parte, que tornou famoso livro, filme, seriado e tantas quanto foram as adaptações desta obra, começa com o Vadinho vindo de volta dos mortos, tentando Flor. Flor sente-se dividida entre o esposo atual e Vadinho, mas este diz-lhe que não há por que o estar: são colegas, casados frente ao juiz e ao padre. Flor vai aos poucos perdendo a resistência e chega a encomendar um trabalho para mandar Vadinho de volta para onde estava. Enquanto isso se passa Vadinho vai manipulando as mesas de jogo, favorecendo velhos amigos, levando Pellanchi Moulas, rei do jogo em Salvador, ao desespero e a todos os "místicos" da Bahia para se livrar do azar. Vadinho só para quando seus amigos cansam (Mirandão, companheiro seu quando era vivo, para de jogar definitivamente, assustado com o repetir de vezes que caía no 17, número de sorte de Vadinho). Por fim Dona Flor sucumbe a Vadinho e passam a viver harmoniosamente os três uma vida conjugal (mesmo que Teodoro não o saiba). Vadinho chega a fazer o milagre de expulsar a sogra quando ela chega de mala e cuia para ficar.

Vadinho começa então a desaparecer e Flor se dá conta de que era por causa do feitiço por ela encomendado. Há uma batalha entre vários deuses contra Exu (identificado por alguns como sendo o diabo católico), que protege Vadinho. Quando Exu estava perdendo, o amor e a volúpia de Vadinho ganham a batalha. A obra acaba com Flor andando feliz com Teodoro e Vadinho (nu, como sempre) ao seu lado, pelas ruas de Salvador. Esta parte acentua duas características gerais da obra: a religiosidade que mistura ao mesmo tempo o catolicismo e o candomblé, pondo todas as figuras míticas das duas religiões junto e eficientemente simultâneas (algo como é a religiosidade baiana, já que Salvador tem mais igrejas que qualquer outra cidade do Brasil e ainda assim é centro das religiões de origem africana). A outra característica vem a ser o fato de que Vadinho e Teodoro são metáforas para o id e o superego, respectivamente. Vadinho é rebelde, impulsivo, espontâneo e dado ao caos (no seu caso, o jogo); Teodoro é metódico e controlado ("Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar" é seu lema, pendurado na farmácia). Assim, a imagem de Flor pacificamente com os dois, totalmente feliz, invoca o ideal de equilíbrio entre os dois.

Fontes:
http://www.coladaweb.com/resumos/flor.htm

domingo, 7 de setembro de 2008

Gcina Mhlope (1959)

(tradução: José Feldman)

Gcina Mhlope é uma famosa batalhadora pela liberdade da África do Sul, ativista, atriz, contadora de histórias, poeta, dramaturga, diretora e autora. A narração é uma atividade profundamente tradicional na África e Mhlope é uma dos poucas mulheres contadoras de histórias em um país dominado por homerns. Ela a faz o seu mais importante trabalho através de desempenhos carismáticos, trabalhando para preservar a narração como meio de manter viva a história e encorajando as crianças da África do Sul a ler. Ela conta as histórias dela em quatro dos idiomas de África do Sul: Inglês, holandês sul-africano, zulu e Xhosa.

Vida e carreira

Mhlope nasceu em 1959 em KwaZulu. Filha de uma mãe Xhosa e um pai zulu. Ela começou a vida como uma empregada domésticao, depois trabalhando como redatora na Press Trust e Radio BBC, então como uma escritora para Learn and Teach, uma revista para pessoas recentemente-alfabetizadas. O timbre sem igual da voz dela a fez eventualmente realizar performances no exterior.

Várias experiências inspiraram Mhlope para adotar a carreira como contadora de histórias. Ela credita a habilidade de contadora à avó dela, que a apresentou no Transkei. Mhlope diz, " Minha avó me ensinou tudo sobre revelações das histórias . Quando eu estava crescendo, em meio as crianças em nosso bairro, vinham e passavam a noite em casa de forma que eles poderiam escutar izinganekwane (contos)".

Ela começou a adquirir um senso da demanda por histórias em Chicago, em 1988. Ela executou em uma biblioteca em um bairro principalmente-preto para uma audiência já-crescente que a convidava para retornar. Ainda, Mhlope só começou a pensar em narração como uma carreira depois de conhecer um Imbongi, um dos poetas legendários de folclore africano, e depois de encorajado por Mannie Manim, o então diretor do Market Theatre, Johannesburg.

Desde então Mhlope apareceu em teatros de Soweto até Londres e muito do seu trabalho foi traduzido em alemão, francês, italiano, Swahili e japonês. Mhlope tem viajado extensivamente na África e outras partes do mundo dando workshops sobre narração de histórias.

A realização de seus sonhos é um motivator fundamental para si e ela está passando o seu entusiasmo infeccioso para desenvolver talentos jovens para levar o trabalho de narração adiante pela Zanendaba Initiative(Traga uma história para mim) . Esta iniciativa, estabelecida em 2002, é uma colaboração com o Market Theatre e READ, uma organização de alfabetização nacional.

Atualmente, Mhlope pretende fazer livros disponíveis para as comunidades rurais pobres da África do Sul, para que sejam construídas bibliotecas, providos com livros relevantes culturalmente.

Eventos
- 1984, atuou em Black Dog: Inj'emnyama
- 1986, Place of Weeping (film)
- 1986, Have you seen Zandile? (autobiographical play, at the Market Theatre, Johannesburg, Mhlope as Zandile)
- 1987, Born in the RSA (New York)
- 1989, narrou o festival at the Market Theatre (houve muitos desde então)
- 1989, performance em um poema de louvor em honra de Nokukhanya Luthuli, 1961, ganhador do Prêmio Nobel da Paz
- 1990, performance em Have you seen Zandile? at the Edinburgh Festival
- Turnê de Have you seen Zandile? através da Europa e Estados Unidos
- 1989-1990, diretora do Market Theatre, Johannesburg
- Coordenadora da READ, Organização Nacional de Alfabetização.
- 1993, Music for Little People (CD)
- Ladysmith Black Mambazo (album)
- 1997, Poesia da Africa, apresentadora
- 1999, oradora do the Perth Writers Festival
- Philharmonic Orchestra (London)
- Royal Albert Hall (London)
- Cologne Philharmonie, Africa at the Opera
- Doutorado Honorário da London Open University
- Doutorado honorário da University of Natal
- Conferencista em várias universidades
- 2000, performance em Peter und der Wolf, no Komische Oper (Berlin)
- Escreve músicas para a série de televisão da SABC TV, Gcina & Friends
- 2002, Fudukazi's Magic, adaptação para filmagem em Durban, para o Festival de Filme da União Africana
- 2002, The Bones of Memory (performance como contadora de histórias da velha e nova Africa do Sulfrom)
- 2003, ministra o seminário de contação de histórias para at the Eye of the Beholder seminar
- 2003, Mata Mata (performance, musical familiar)

Colaborações com:

- Pops Mohamed, músico e conservador de música tribal.
- Ladysmith Black Mambazo,grupo coral, The Gift of the Tortoise (CD), 1994 and Music for Little People in America (CD), 1993
- Bheki Khoza, guitarrista, Animated Tales of the World (séries de TV para Right Angle na Grã-Bretanha e para a SABC)
- Anant Singh, produção de vídeo, Fudukazi's Magic (CD e vídeo para audiencias alemãs)
- Biblionef South Africa, agencia de doação de livros infantis,

Aparecimento em Documentários

- Atuou e narrou Travelling Songs
- 1990, performance como poeta em Songolo: voices of change (como aspectos de cultura na África do Sul se tornaram parte da luta de anti-apartheid)
- 1993, The Travelling Song (o processo contemporâneo de coleção de histórias)
- Literacy Alive
- Art Works

Prêmios

- Designada para Noma Award por Queen of the Tortoises, 1991
- Prêmio Chat Award por Molo Zoleka
- OBBIE Theatrical Award (New York) por Born in the RSA
- Fringe First Award (Edinburgh) por Have you seen Zandile?
- Joseph Jefferson Award para as melhores atrizes (Chicago) por Have you seen Zandile?
- Sony Award por Radio Drama da BBC Radio Africa por Have you seen Zandile?

Bibliografia
- Mhlope, Gcina. Molo Zoleka New Africa Education, 1994. (Livro para crianças)
MaZanendaba (Livro para crianças)
- Mhlope, Gcina. The Snake with Seven Heads (A cobra com sete cabeças). Johannesburg, Skotaville Publishers, 1989. (Livro para crianças, traduzido em 5 linguas africanas e cuja edição inglesa é requerida nas bibliotecas escolares da Africa do Sul)
- Mhlope, Gcina. Have you seen Zandile?. Portsmouth, NH: Heinemann, 1990. (baseado em sua infância, obrigatório nas bibliotecas universitárias da Africa do Sul)
- Mhlope, Gcina. Queen of the Tortoises (Rainha das Tartarugas). Johannesburg: Skotaville, 1990. (Livro para crianças)
- Mhlope, Gcina. The Singing Dog (O cachorro cantor). Johannesburg: Skotaville, 1992. (Livro para crianças)
- Mhlope, Gcina. Nalohima, the Deaf Tortoise. (Nalohima, a tartaruga surda)Gamsbek, 1999.
- Mhlope, Gcina. Fudukazi's Magic (A mágica de Fuduzaki). Cambridge: Cambridge University Press, 1999. (CD - letras, músicas e performance)
- Mhlope, Gcina. Fudukazi's Magic (A mágica de Fuduzaki). Cambridge University Press, 2000 (CD - música e letra, performance para audiência alemã)
- Mhlope, Gcina. Nozincwadi, Mother of Books (Nozincwadi, a mãe dos livros). Maskew Miller Longman, 2001. (CD e livro, para escolas rurais da Africa do Sul)
- Mhlope, Gcina. African Mother of Christmas (Natal na África Mãe). Maskew Miller Longman, 2002. (CD e livro)
- Mhlope, Gcina. Love Child. Durban: University of Natal Press, 2002. (Memórais, coleção de histórias)
- Margaret Daymond et al. (eds). Women Writing Africa: the southern region. (Mulheres que escrevem a África: a região sul) Johannesburg: Witwatersrand University Press, 2002.
- Mhlope, Gcina. Stories of Africa (Histórias da África). University of Natal Press, 2003. (Livro para crianças)
- Mhlope, Gcina. Queen of Imbira (Rainha de Imbira). Maskew Miller Longman. (Livro para crianças)

Fonte:
http://en.wikipedia.org/wiki/Gcina_Mhlope

Gcina Mhlophe (Histórias da África)

Contos africanos para os quatro cantos do mundo

Histórias da África, de autoria de Gcina Mhlophe, reúne alguns contos africanos bastante tradicionais. Mais do que entreter, as dez histórias apresentadas nesta obra têm a função de transmitir ensinamentos e lições de vida e de moral.

“Sabe ... essa história me fez pensar que as respostas que procuro para minhas perguntas estão dentro de mim, lá no fundo. Sinto que estão nas profundezas do oceano, do oceano que é meu coração e a minha alma.”

Do contato com sua avó, a netinha Gcina Mhlophe, hoje renomada escritora, aprendeu muito cedo a gostar de histórias fantásticas e dos contos infantis que marcaram tantas gerações dos povos africanos. Guardadas na lembrança, algumas destas histórias serviram para que Gcina elaborasse sua mais recente obra: Histórias da África, publicada pela Paulinas.

São dez histórias que trazem nas entrelinhas exemplos de valores supremos, aqueles que regem a vida do ser humano em qualquer parte do planeta, como justiça, ética e respeito.

Despertando a curiosidade e o sentimento lúdico infantis, a autora demonstra, em todos os seus textos, o respeito à oralidade, condição que torna a leitura mais agradável e, ao mesmo tempo, fácil para a compreensão do leitor.

Escritos para depois serem “partilhados”, ou melhor, “recontados” para outras pessoas, os contos encantam pelas mensagens e capacidade de despertar a reflexão de adultos e crianças: por que o Crocodilo queria o coração do Macaco? Como a Tartaruga conseguia ser respeitada? E a inimizade entre o Leão e a Lebre, como surgiu? O poder de cura do velho leopardo Filani ... o casamento de Lungile, a moça bonita da aldeia que amava tanto os pássaros ... entre tantas outras histórias do folclore africano.

As ilustrações, de cinco artistas residentes na África do Sul, foram feitas com diferentes técnicas (pintura a óleo, artesanais tradicionais, imagens computadorizadas, xilogravura e aquarela) e trabalhadas em variados estilos; juntas, porém, complementam e enriquecem as histórias contadas por Gcina.

A autora :

Gcina Mhlophe é uma das mais populares contadoras de história da África do Sul. É também atriz e produtora. Nascida em KwaZulu-Natal, atualmente vive em Johannesburg.

Os ilustradores:

As ilustrações são de um grupo de cinco artistas (Kalle Becker, Jeannie Kinsler, Kim Longhurst, Lalelani Mbhele e Junior Valentim), que possuem diferentes formações e usam, neste livro, as mais diversas técnicas. Ao exibirem juntos suas obras, colaboram para enriquecer Histórias da África com um rico mosaico artístico.

Título: Histórias da África
Autora: Gcina Mhlophe
Editora: Paulinas
Tema: Livros infanto-juvenis, Literatura, África , Fábulas e lendas, Folclore
Público-alvo: leitor fluente
Coleção: Tecendo histórias
Formato: 21,0 x 28,0
Páginas: 60

Fonte:
http://animalivre.uol.com.br/home/?tipo=noticia&id=2426

Paulo Urban (À Minha Altura)

Nada havia, como era costume, a comemorar naquela data. Ele acordara cinqüentão. Pra que a festa?

Afinal, dali pra frente, os anos seriam passos em declínio para a morte. Se na década anterior ele já presumira a noção da meia-idade, agora era certo, aquela era a primeira manhã de sua vida em que ele acordava cônscio de que pela frente nada mais poderia haver do que, simplesmente, no máximo, a outra metade. Lembrou-se, nem poderia explicar o porquê, do velho Napoleão que, certa feita, do alto de seu 1.58m de altura, disse quando admoestado por não passar de um nanico: “Um homem não se mede por sua estatura, senão por onde até ele leva o seu destino”.

Seu consolo era esse, ainda havia tempo para dar conta de sua missão, ou ao menos descobrir qual era ela. Uma angústia apertou-lhe o peito, fez-se o nó, engoliu em seco. Olhou pro lado e o rádio-relógio marcava em quartzo-rubro a data de seu aniversário e o horário da manhã de dia útil. Era hora de apropriar-se de suas próprias pernas, levantar da cama e buscar encontrar ao longo do dia a própria altura. Propriamente, era aquela manhã uma hora de cura, a de olhar-se cara a cara no espelho e dizer-se bem lá dentralto a si mesmo: eu quero ter-ser essa minha metadinteira!

À MINHA ALTURA

Minha metade verme me quer homem,
e a metade homem sempre busca a Deus;
caminho por meus passos, sigo os meus
sinais, livre dos ais que me consomem.

Minha vontade fraca já morreu,
queimei-a na fogueira dos que somem,
à luz da Lua-mãe de um lobisomem
que a paz fez com seu lobo e já cresceu.

Minha vontade forte mata o bicho,
eu dreno o imenso pântano do Estige
e assumo o bom tamanho que me cabe;

Mas se hoje eu incinero todo o lixo,
além desses cinqüenta, a alma em metade,
serei o homem do qual me regozije!
===================================
Fonte:
http://www.mhariolincoln.jor.br/

7º Festival Estudantil Sesi de Teatro

Começa hoje o 7º Festival Estudantil Sesi de Teatro

Espetáculos de Sorocaba e Itapetininga dão início, hoje, ao “7º Festival Estudantil Sesi de Teatro”, que estende-se até o próximo sábado, levando ao público, durante toda a semana, montagens nas categorias infantil e adulto. Participam, ao todo, 12 grupos de diversas escolas do interior do Estado de São Paulo. Os espetáculos infantis poderão ser vistos sempre às 15h, e os adultos às 20h, ambos no Teatro Popular do Sesi. A novidade para este ano é a oficina “A Pedagogia no Teatro”, que será ministrada por Marly Bonome, da Universidade Sagrado Coração (USC), de Bauru. A oficina será realizada de segunda a sexta-feira, com 20 vagas abertas para a comunidade. Neste domingo, as crianças poderão conferir, à tarde, “A Lenda de Pluft”. Já no período da noite, a montagem “Revolução” será apresentada para os adultos.

Júnior Mosko, diretor de Teatro do Sesi e criador do Festival, acredita que o evento - já em sua sétima edição - tem estimulado a prática do teatro dentro das escolas. “Um festival de teatro estudantil tem como característica básica a fomentação do teatro entre a própria comunidade. Eu costumo dizer que é um dos mais agregadores porque o pai se transforma em cenógrafo, a mãe figurinista, a professora de geografia pode virar diretora, enfim, dissemina a arte de maneira que contamine a todos, desde o porteiro da escola até seus coordenadores”, afirma.

O Grupo Teatral “Tapanaraca Mutatis Mutandis”, da Escola Estadual “Professor Abílio Fontes” e Instituto Peixoto Gomide, de Itapetininga, apresenta hoje, às 15h, “A Lenda de Pluft”, sobre um fantasminha muito esperto que vive com sua mãe no sótão de uma velha casa à beira-mar. Pluft é um fantasminha que tem muito medo de gente, e que acaba conhecendo Maribel, uma menina que tem muito medo de fantasma. Texto de Maria Clara Machado. Direção e adaptação de Fábio Jurera.

À noite, a partir das 20h, o núcleo Descobrir de Teatro, ligado à Associação Teatral de Sorocaba (ATS), apresenta “Revolução”, espetáculo que narra a trajetória de José da Silva, metáfora do povo (ou do próprio teatro brasileiro). Para contar a história de José, o Núcleo utiliza-se de outra história: a de um grupo de teatro, às vésperas da estréia, que enfrenta seus inúmeros problemas para colocar seu espetáculo no palco. Augusto, o ator, se depara com a pesquisa e as descobertas na construção de sua personagem: o pobre José da Silva. Texto baseado nas obras de Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e outros nomes da dramaturgia brasileira. Direção de Carlos Doles.

Fontes:
Douglas Lara. In http://www.sorocaba.com.br/acontece
http://www.jcsol.com.br/materia.phl?editoria=42&id=117444

sábado, 6 de setembro de 2008

Luis da Câmara Cascudo (Por que o Cachorro é inimigo de gato...e gato de rato)

Antigamente todos os bichos eram amigos e o leão governava todos. Cachorro, gato, rato, ovelha, onça, raposa, timbu, pinto, tudo vivia junto e sem briga.

Uma feita Nosso Senhor mandou o leão libertar os bichos, passando carta de alforria a todos, para que pudessem ir onde quisessem. Havia muita contenteza. O leão chamou os bichos mais ligeiros e entregou as cartas de liberdade para ir dando aos outros animais.

Chamou o gato e deu a ele a carta de alforria do cachorro. O gato saiu numa carreira danada. No caminho encontrou o rato que estava entretido bebendo mel de abelhas.

- Camarada gato! Para onde vai nesse desadoro?

- Vou entregar essa carta ao camarada cachorro!

- Deixe de vexame! Descanse e beba esse melzinho gostoso.

O gato foi lamber o mel e tanto lambeu e gostou que acabou enfarado e dormindo. O rato, de curioso, foi cascavalhar a bruaca que o gato trazia a tiracolo e encontrou uns papéis. Meteu o dente, roendo, roendo, roendo, e deixou tudo virado em bagaço. Vendo que fizera uma desgraça, fez um bolo e sacudiu dentro da bruaca do gato e ganhou a mata.

O gato, acordando, largou numa carreira "timive" até encontrar o cachorro, a quem entregou o papel. O cachorro foi ler e viu que tudo estava esbagaçado e roído. Não podia provar ao homem que era bicho-livre e ficou zangado de ferro e fogo com o gato, dando uma carreira atrás dele para matá-lo. O gato, por sua vez, sabendo que aquilo era trabalho do rato, não procurou coisa senão passar-lhe o dente para vingar-se.

E até hoje, cachorro, gato e rato, são inimigos até debaixo dágua.

(Informante: João Monteiro. Natal, Rio Grande do Norte)


Nota: É um conto etiológico, explicando a inimizade de cães, gatos e ratos. Corrente nos folclores da Europa do norte e leste. É o Mt. 200 de Aarne-Thompson, The dog’s certificate. João Ribeiro, O folk-lore, XLIV, 3135. Fábula e provérbio, estudou o motivo, transcrevendo uma versão africana de Libolo, Angola. Cão, gato e rato brigam por que o último não restituiu (a rata roera) a carta de alforria que o primeiro confiara ao segundo, p. 316-318. Motivo idêntico ocorre na La querelle des chiens et des chats, de La Fontaine, não aparecendo os ratos.

Fonte:
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Belo Horizonte; São Paulo, Itatiaia, Editora da Universidade de São Paulo, 1986. Reconquista do Brasil, 2ª série, 96
Disponivel em http://www.jangadabrasil.com.br/

Sílvio Romero (Alforria do Cachorro)

Nota de Luís da Câmara Cascudo:

Fragmento de um romance popular pernambucano explicando a briga entre cães, gatos e ratos. Está incompleto. A alforria do cachorro, confiada ao gato, foi inutilizada pelos dentes do rato. Quando o cachorro procurou o seu diploma e o gato foi buscá-lo encontrou-o em pedaços ínfimos. Daí a inimizade eterna. É uma estória popular, Contos tradicionais do Brasil, 349, Porque cachorro é inimigo de gato e gato de rato, Rio de Janeiro, 1946. João Ribeiro estudou o motivo, O folclore, XLIV, 313, Rio de Janeiro, 1919. Mt-200 de Aarne-Thompson, The dog’s certificate. Não intervindo os ratos, é assunto de uma fábula de La Fontaine, La Querelle des Chiens et des Chats.
=====================
No tempo em que o rei francês
Regia os seus naturais,
Houve uma guerra civil
Entre os brutos e animais.
Neste tempo era o cachorro
Cativo por natureza;
Vivia sem liberdade
Na sua infeliz baixeza.
Chamava-se o dito senhor
Dom Fernando de Turquia;
E foi o tal cão passando
De vileza a fidalguia.
E daí a poucos anos
Cresceu tanto em pundonor,
Que os cães o chamaram logo
De Castela Imperador.
Veio o herdeiro do tal
Dom Fernando de Turquia,
Veio a certos negócios
Na cidade da Bahia.
Chegou dentro da cidade,
Foi à casa de um tal gato;
E este o recebeu
Com muito grande aparato.
Fez entrega de uma carta,
E ele a recebeu;
Recolheu-se ao escritório,
Abriu a carta e leu.
E então dizia a carta:

"Ilustríssimo Senhor
Maurício - Violento – Sodré -
Ligeiro - Gonçalves - Cunha -
Sutil - Maior - Ponte-Pé.
Dou-lhe, amigo, agora a parte
De que me acho aumentado,
Que estou de governador
Nesta cidade aclamado.
Remeto-lhe esta patente
De governador lavrada;
Pela minha própria letra
Foi a dita confirmada."
Ora o gato, na verdade,
Como bom procurador,
Na gaveta do telhado
Pegou na carta e guardou.
O rato como malvado,
Assim que escureceu,
Foi à gaveta do gato,
Abriu a carta e leu.
Vendo que era a alforria
Do cachorro, por judeu,
Por ser de má consciência,
Pegou na carta e roeu.
Roeu-a de ponta à ponta,
E pô-la em mil pedacinhos,
E depois as suas tiras
Repartiu-as pelos ninhos.
O gato, por ocupado
Lá na sua Relação,
Não se lembrava da carta
Pela grande ocupação.
E depois se foi lembrando,
Foi caçá-la e não achou,
E por ser maravilhoso
Disto muito se importou.

Fontes:
ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro; cantos e contos populares do Brasil. 3 v. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954. Coleção Documentos Brasileiros. Disponível em http://www.jangadabrasil.com.br/
Foto: http://www.zaroio.com.br/

Artur Ramos (Os Contos de Quibungo)

O Quibungo e o homem

Quibungo é um bicho meio homem, meio animal, tendo uma cabeça muito grande e também um grande buraco no meio das costas, que se abre, quando ele abaixa a cabeça, e fecha, quando levanta. Come os meninos, abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando dentro as crianças.

Foi um dia, um homem que tinha três filhos, saiu de casa para o trabalho, deixando os três filhos e a mulher. Então apareceu o Quibungo que, chegando na porta, perguntou, cantando:

De que é esta casa,
auê
como gérê, como gérê,
como érá?

A mulher respondeu:

A casa é de meu marido,
auê
como gérê, como gérê,
com érá.

Fez a mesma pergunta em relação aos filhos e ela respondeu que eram dela. Ele então disse:

Então, quero comê-los
auê
como gérê, como gérê,
como érá?

Ela respondeu:

Pode comê-los, embora,
auê
como gérê, como gérê,
como érá.

E ele comeu todos os três, jogando-os no buraco das costas.

Depois, perguntou de quem era a mulher, e a mulher respondeu que era de seu marido. O Quibungo resolveu-se comê-la também, mas quando ia jogá-la no buraco, entrou o marido armado de uma espingarda de que o Quibungo tem muito medo. Aterrado, Quibungo corre para o centro da casa para sair pela porta do fundo, mas não achando, porque as casas dos negros só tem uma porta, cantou:

Arrenego desta casa,
auê
Que tem uma porta só,
auê
Como gérê, como gérê,
como érá.

O homem entrou, atirou no Quibungo, matou-o e tirou os filhos pelo buraco das costas. Entrou por uma porta, saiu por um canivete, el-rei meu senhor, que me conte sete.

O Quibungo e a cachorra

Foi um dia uma cachorra cujos filhos, todas as vezes que ela paria, eram comidos pelo Quibungo.
Então, para poder livrar os novos filhos do Quibungo que queria comê-los, meteu-os num buraco e ficou sentada em cima, vestida com uma saia e um colar no pescoço. Chegando o Quibungo e vendo a cachorra assim vestida, a desconheceu e teve medo de aproximar-se. Então, passando o cágado, ele perguntou-lhe:

Otavi, ôtavi, longôzôê
ilá ponô êfan
i vê pondêrêmun
hôtô rômen i cós
ssenta ni ananá ogan
nê sô arôrô ale nuxá.

O Cágado resondeu: "Não sei, Quibungo".

Passou a raposa. Quibungo fez a mesma pergunta cantando, e a raposa respondeu que não sabia. Passou, então, o coelho e o Quibungo fez-lhe a mesma pergunta; foi quando este disse:

- Ora, Quibungo, você não conhece a cachorra vestida de saia e colar no pescoço?

Aí, o Quibungo correu atrás da cachorra para matá-la, e esta atrás do coelho. Nesta carreira entraram pela cidade. Os homens mataram o Quibungo e a cachorra matou o coelho. Entrou por uma porta saiu pela outra, rei meu senhor, que me conte outra.
O Quibungo e o filho Janjão

Era uma vez um Quibungo que casou com uma negra, da qual teve uma porção de filhos. Mas ele comia todos os filhos. O último, que nasceu, a mulher escondeu num buraco, para que o Quibungo não o comesse. Tinha o nome de Janjão, e a mãe recomendou muito a ele que, quando o pai chegasse do mato e chamasse por ele, falando em voz muito grossa, ele não saisse do buraco. Que ela quando o chamava para lhe dar comidas, sempre falava com a sua voz fina de mulher, que ele conhecia. Ora, um dia, em que o Quibungo não achou bicho nenhum para comer no mato, nem menino para papar na cidade, onde também, às vezes, andava de noite, voltou muito fraco para casa, onde não havia outra carne senão a do filho, que estava escondido. Então, falando com voz fina, pela fraqueza, cantou:

Toma lá curiá, meu filho!
Toma lá curiá, meu filho!

Janjão, pensando que era a mãe, que voltava da cidade e lhe trazia a comida de que ele tanto gostava, saiu do buraco e o Quibungo o agarrou, para comê-lo.
O pobrezinho do Janjão, chorando, cantava:

Minha mãe sempre me dizia
Que o Quibungo me comeria
Minha mãe sempre me dizia
Que o Quibungo me comeria..

E o Quibungo comeu o último filho e a mulher morreu de desgosto. E por isso é que o Quibungo não tem mais mulher nem filhos.

A aranha caranguejeira e o Quibungo

A aranha caranguejeira tinha que atravessar um rio muito largo, a fim de alcançar uma árvore carregada de frutos doces e maduros. Para isso, a aranha procurou o auxílio de vários animais, o urubu, o jacaré, enganando-os depois. Por fim, encontrou o quibungo, "macacão todo peludo, que come crianças", que pegava os peixes no rio, e atirava-os para trás das costas. A aranha chegou devagarinho e comeu os peixes um a um. Quando o quibungo procurou os peixes e não os encontrou, pegou uma discussão danada com a aranha.

Afinal saíram andando e a aranha conseguiu enganar o Quibungo, amarrando-o num toco de árvore com cipó grosso. O Quibungo ficou ali preso uma porção de tempo e quando conseguiu se soltar, jurou vingar-se da aranha. Escondeu-se próximo do bebedouro aonde todos os bichos iam beber água, à espera da aranha. Mas esta meteu-se num couro de veado, foi à fonte, bebeu água sem ser reconhecida pelo Quibungo .

O Quibungo e o menino do saco das penas

Um menino começou a juntar penas de vários animais, que ia guardando num saco. Um dia, a família toda foi pescar num lugar onde diziam haver quibungo. De fato, ao começarem a pescaria ouviram um ronco enorme dentro do mato. "É o quibungo!"- gritaram. Mas o menino não se importou. Distribuiu todos em fila, entregando a cada um uma pena da asa e outra do rabo de passarinho. Quando o quibungo chegou, que estendeu a mão para o primeiro da fila, o menino cantou:

- Esse é meu pai,
Auê
Gangaruê, tu cai,
Não cai.

O quibungo deu um urro – exê! – encolheu a mão e procurou agarrar o segundo da fila. O menino cantou:

Essa é a minha mãe,
Auê
Gangaruê, tu cai,
Não cai.

E assim por diante, sem que o quibungo pudesse alcançar ninguém. Quando chegou junto do menino, este prendeu as penas de modo que todos criaram asas e saíram voando até a casa. Lá fizeram um grande buraco e ficaram à espera do quibungo. Quando este chegou, caiu dentro do buraco e lá o mataram.

A menina e o quibungo

Uma menina gostava muito de sair de noite. A mãe ralhava com ela, chamando-lhe a atenção para o quibungo que pega os meninos de noite. A menina não se importou e uma noite, o quibungo agarrou-a e ia levando-a para comer. A menina começou a cantar:

Minha mãezinha
Quibungo tererê,
Do meu coração
Quibungo tererê
Acudi-me depressa,
Quibungo tererê,
Quibungo quer me comer

Ao que a mãe da menina respondeu:

Eu bem te dizia
Quibungo tererê
Que não andasse de noite
Quibungo tererê

A menina continuou gritando, mas ninguém quis acudi-la. Mas a avó preparou um tacho com água fervente e quando o quibungo ia passando, sacudiu-lhe a água em cima. O quibungo deu um pulo e a velha acabou matando-o com um espeto em brasa, e salvando a neta.

Fonte:
RAMOS, Artur. O folclore negro do Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro, Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1935. Disponível em
http://www.jangadabrasil.com.br/

Afonso Cláudio (Trovas Infantis)

Sou pequenina
Criança mimosa
Trago nas faces
As cores da rosa


Mandei fazer um barquinho
Da casca do camarão
O barquinho saiu pequeno
Só coube meu coração


Coringa foi lavar roupa
Pegou na roupa e vendeu
Cala a boca meu coringa
Quem paga a roupa sou eu


Tenho um cachorrinho
Chamado Totó
Ele é malhadinho
De uma banda só


Vou dar a despedida
Como deu o passarinho
Bateu asas, foi-se embora
Deixando as penas no ninho


O formoso pica-pau
Que do pau fez um tambor
Foi tocar alvorada
Na porta do seu amor


O anum é pássaro preto
Chibante no avoar
Quando se senta no pau
Levanta o rabo pro ar


Passarinho preso canta
Preso deve de cantar
Pois que foi preso sem culpa
Canta para aliviar


Amor tem dó
Do passarinho
Quebrou seus ovos
Escangalhou seu ninho

Fonte:
CLÁUDIO, Afonso. Trovas e cantares capixabas. 2ª ed. Rio de Janeiro, MEC – SEAT – FUNARTE, Instituto Nacional do Livro, 1980. Disponível em
http://www.jangadabrasil.com.br/

Leonardo Mota (Cantigas de Ninar)

Dorme filhinho
Que eu tenho que fazer:
Vou lavar, vou engomar
Camisinha pra você…
==================
Desce, gatinho
De cima do telhado
Para eu ver se meu filhinho
Dorme um sono sossegado

Desce, gatinho
De cima desse muro
Para eu ver se meu filhinho
Dorme um sono bem seguro

Desce, gatinho
Larga de tanto tropel
Para eu ver se meu filhinho
Sonha com Mamãe do Céu….
======================
Bicho-papão
Saia do telhado
Deixe este menino
Dormir sossegado

Bacia de ouro
Lavada com sabão
Lave este menino
E vista o seu roupão

Toalha de ouro
Bordada com filó
Enxugue este menino
E leve pra vovó

Fontes:
Leonardo Mota em Ipu, Ceará. Disponível em http://www.jangadabrasil.com.br/
Desenho: http://www.florrose.com.br/

Paginas da Vida (Nobreza Humana)

O tenor Plácido Domingo é madrileno e José Carreras é catalão. E há uma grande rivalidade entre madrilenos e catalães. Plácido e Carreras não fugiram à regra. Em 1984, por questões políticas, tornaram-se inimigos.

Sempre muito requisitados em todo o mundo, ambos faziam constar em seus contratos que só se apresentariam se o desafeto não fosse convidado.

Em 1987, Carreras ganhou um inimigo mais implacável que Plácido Domingo. Foi surpreendido por um terrível diagnóstico de leucemia. Submeteu-se a vários tratamentos, como auto-transplante de medula óssea e trocas de sangue. Por isso, era obrigado a viajar mensalmente aos Estados Unidos.

Claro que sem condições para trabalhar, e com o alto custo das viagens e do tratamento, logo sua razoável fortuna acabou.

Sem condições financeiras para prosseguir o tratamento, Carreras tomou conhecimento de uma instituição em Madrid, denominada Fundación Hermosa. Fora criada com a finalidade única de apoiar a recuperação de leucêmicos. Graças ao apoio dessa fundação, ele venceu a doença. E voltou a cantar.

Tornando a receber altos cachês, tratou de se associar à fundação. Foi então que, lendo os estatutos, descobriu que o fundador, maior colaborador e presidente era Plácido Domingo. Mais do que isso. Descobriu que a fundação fora criada, em princípio, para atender a ele, Carreras. E que Plácido se mantinha no anonimato para não o constranger por ter que aceitar auxílio de um inimigo.

Momento extraordinário, e muito comovente aconteceu durante uma apresentação de Plácido, em Madrid. De forma imprevista, Carreras interrompeu o evento e se ajoelhou a seus pés. Pediu-lhe desculpas. Depois, publicamente lhe agradeceu o benefício de seu restabelecimento.

Mais tarde, quando concedia uma entrevista na capital espanhola, uma repórter perguntou a Plácido Domingo por que ele criara a Fundación Hermosa. Afinal, além de beneficiar um inimigo, ele concedera a oportunidade de reviver a um dos poucos artistas que poderiam lhe fazer alguma concorrência.

A resposta de Plácido Domingo foi curta e definitiva: "porque uma voz como essa não se podia perder."

Fazer o bem sem ostentação é grande mérito. Ainda mais meritório é ocultar a mão que dá. Constitui marca de grande superioridade moral.
Não saber a mão esquerda o que dá a mão direita é uma imagem que caracteriza admiravelmente esse tipo de benefício.
Quando, ao demais, o benefício tem por objetivo maior atender um eventual desafeto, torna-se ainda mais meritório.
A criatura demonstra, com tal atitude, estar acima do comum da humanidade.
Que essa história não caia no esquecimento. E, tanto quanto possível, nos sirva de inspiração e exemplo.

Fontes:
http://www.projetomusical.com.br/
Foto: http://www.fatiasdeca.net

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Philip K. Dick (1928 - 1982)

Philip Kindred Dick (16 de Dezembro de 1928, Chicago – 2 de Março de 1982, Santa Ana, Califórnia), também conhecido pelas iniciais PKD, foi um escritor estadunidense de ficção científica que alterou profundamente este género literário. Apesar de ter tido pouco reconhecimento em vida, a adaptação de várias das suas novelas ao cinema acabou por tornar a sua obra conhecida de um vasto público, sendo aclamado tanto pelo público como pela crítica.

Filho de um funcionário do governo federal, a sua irmã gémea morreu quase à nascença. Os seus pais divorciaram-se quando Philip contava quatro anos de idade. Acompanhou a mãe na sua mudança para a Califórnia, onde estudou, ingressando na Escola Secundária de Berkeley, onde permaneceu até 1945. Matriculou-se então na Universidade da Califórnia, onde estudou Filosofia e Alemão, abandonando o curso para trabalhar como disc-jockey numa emissora de rádio, mantendo, ao mesmo tempo, uma loja discográfica.

Começou a escrever nesta época, publicando o seu primeiro conto de ficção científica na revista Planet Stories. Chegou a terminar alguns romances de índole autobiográfica, mas não conseguiu encontrar quem os editasse. Decidiu portanto dedicar-se inteiramente à ficção científica, convicto de que este género poderia melhor abarcar as suas especulações filosóficas.

A sua primeira obra publicada foi Solar Lottery de 1955. A ação da obra decorria no século XXIII, num tempo em que a democracia como forma de eleição foi substituída por uma sistema de loteria que decide as funções dos indivíduos na sociedade. No entanto, vem-se a descobrir que a sorte está viciada. Após o aparecimento de obras como Eye In The Sky de 1956, Dr Futurity de 1960 e Vulcan's Hammer de 1960, Philip K. Dick conseguiu ser reconhecido como escritor, sobretudo com a publicação de The Man In The High Castle (O Homem do Castelo Alto) de 1962. O romance recriava um mundo em que a Alemanha e o Japão haviam vencido a Segunda Guerra Mundial.

Por ter mantido relações com o Partido Comunista norte-americano, o escritor foi alvo de cuidadosas investigações por parte do FBI e dos serviços secretos da Força Aérea dos EUA. A visão quase paranóica da realidade que Dick demonstrou em muitos dos seus trabalhos não seria portanto de todo infundada.

Inspirando-se em ideias do Budismo, Cabalismo, Gnosticismo e outras doutrinas herméticas, e combinando-as com certos aspectos das novas crenças na parapsicologia, extraterrestres e percepção extra-sensorial, o autor criou mundos alternativos nos quais acabou eventualmente por julgar viver. Consumindo drogas em excesso, alegou ter sido contatado em 1974 por uma inteligência alienígena.

Acontece que o escritor diferenciava-se da maioria dos paranóicos pelo teor da sua obra. Dick escreveu 36 romances - alguns em quinze dias, durante delírios turbinados por anfetaminas - mais cinco historietas curtas, produzidas no início de sua carreira, entre 1952 e 1956. Tecnicamente, sua ficção-científica não se aproximava da classe de um Arthur C. Clarke, estava mais para um estilo bem folhetinesco. Mas Dick sobreviveu ao tempo, superou sua geração graças aos temas abordados em seus livros. Há quarenta anos, o escritor discutia ética e experiências genéticas, liberdades individuais e problemas de identidade, controle de mentes e demais interferências humanas na ordem natural das coisas. O escritor era um visionário.

Muitas das experiências reais de Dick (foi abandonado pelo pai aos cinco anos de idade, assistiu à morte prematura das suas irmãs gêmeas recém-nascidas, além de casamentos desfeitos e problemas com drogas) serviram para construir uma personalidade pessimista.

Nos livros, fica evidente o descrédito no governo, nas autoridades. Seu primeiro romance, Solar Lottery (1955), exibe um mundo comandado por lógica e números: os governantes mundiais são escolhidos numa sofisticada loteria. Por outro lado, há também a porção metafísica.

PKD explorou em muitas das suas obras temas como a realidade e a humanidade, utilizando normalmente como personagens pessoas comuns e não os normais heróis galácticos de outras obras do gênero. Precursor do gênero cyberpunk, o seu livro Do Androids Dream of Electric Sheep? inspirou o filme Blade Runner que, já perto da sua morte por um AVC (Acidente Vascular Cerebral), serviu como introdução a Hollywood e levou a que outras obras suas fossem adaptadas ao cinema.

Os filmes Minority Report: A Nova Lei (com Tom Cruise), O Vingador do Futuro (com Arnold Schwarzenegger), O Pagamento (com Ben Affleck) e A Scanner Darkly, (com Keanu Reeves) também são baseados em novelas ou contos de Dick.

Bibliografia

Novelas
_
1950 Gather Yourselves Together
1952 Voices From the Street
1953 Vulcan's Hammer (A Máquina de Governar)
1953 Dr. Futurity
1953 The Cosmic Puppets (Marionetas Cósmicas)
1954 Solar Lottery (Loteria Solar)
1954 Mary and the Giant
1954 The World Jones Made (Passageiros para Vênus)
1955 Eye in the Sky (Os Olhos no Céu, Universos Paralelos e Conflito dos mundos)
1955 The Man Who Japed (O Profanador)
1956 A Time for George Stavros (manuscrito perdido)
1956 Pilgrim on the Hill (manuscrito perdido)
1956 The Broken Bubble
1957 Puttering About in a Small Land
1958 Nicholas and the Higs (manuscrito perdido)
1958 Time out of Joint (O Homem mais Importante do Mundo)
1958 In Milton Lumky Territory
1959 Confessions of a Crap Artist
1960 The Man Whose Teeth Were All Exactly Alike
1960 Humpty Dumpty in Oakland
1961 The Man in the High Castle (1962, Prêmio Hugo) (O Homem do Castelo Alto)
1962 We Can Build You
1962 Martian Time-Slip
1963 Dr. Bloodmoney, or How We Got Along After the Bomb (Depois da Bomba e Os sobreviventes)
1963 The Game-Players of Titan (Os Jogadores de Titã)
1963 The Simulacra (O Tempo dos Simulacros)
1963 The Crack in Space (A Fenda no Espaço)
1963 Now Wait for Last Year (À Espera do Ano Passado)
1964 Clans of the Alphane Moon (Os Clãs da Lua de Alfa)
1964 The Three Stigmata of Palmer Eldritch (Os Três Estigmas de Palmer Eldritch)
1964 The Zap Gun (A Arma Impossível e A revolução dos brinquedos)
1964 The Penultimate Truth (A Penúltima Verdade)
1964 Deus Irae com Roger Zelazny (O Deus da Fúria)
1964 The Unteleported Man (Espaço eletrônico)
1965 The Ganymede Takeover com Ray Nelson
1865 Counter-Clock World (Regresso ao passado)
1966 Do Androids Dream of Electric Sheep? (Andróides Sonham Com Carneiros Elétricos?, mais tarde reeditado com o título Blade Runner: O Caçador de Andróides)
1966 Nick and the Glimmung (livro para crianças)
1966 Ubik
1968 Galactic Pot-Healer
1968 A Maze of Death (O Labirinto da Morte)
1969 Our Friends from Frolix 8
1970 Flow My Tears, The Policeman Said (Vazio Infinito e Identidade Perdida)
1973 A Scanner Darkly (O Homem Duplo)
1976 Radio Free Albemuth
1978 VALIS (O Mistério de VALIS)
1980 The Divine Invasion (A Invasão Divina)
1981 The Transmigration of Timothy Archer (A Transmigração de Timothy Archer)

Contos
Philip K. Dick escreveu cerca de 130 contos, alguns dos quais republicados em coletâneas. Na língua portuguesa estão publicadas as seguintes:
«The Preserving Machine» («A Máquina Preservadora»)
«War Game» («O Jogo de Guerra»)
«If There was no Benny Cemoli» («E se Benny Cemoli não Existisse?»
«Roog» («Roog»)
«War Veteran» («Veterano de Guerra»)
«Stand By» («O Melhor Lugar de Reserva»)
«Beyond lies the Wub» («E lá ao Fundo vivem os Wubs»)
«We can Remember it for You Wholesale» («Recordações por Atacado»)
«Captive Market» («Mercado Cativo»)
«Upon the Dull Earth» («Esta Triste Terra»)
«Retreat Syndrome» («O Síndroma da Fuga»)
«The Crawlers» («Os Rastejadores»)
«Oh, to be a Blobel!» («Oh, é tão Bom ser um Blobel!»)
«What the Dead Men say» («O que os Mortos têm para nos Dizer»)
«Pay the Printer» («Paguem ao Impressor»)
«Paycheck» («O Pagamento»)
«Nanny» («Nanny»)
«Jon's World» («O Mundo de Jon»)
«Breakfast at Twilight» («Pequeno-almoço ao Pôr do Sol»)
«Small Town» («A Nova Maquete»)
«The Father-Thing» («O Pai Postiço»)
«The Chromium Fence» («Intolerância»)
«Autofac» («A Rede Autofab»)
«The Days of Perky Pat» («Jogar para Reviver o Passado»)
«Stand By» («O Suplente»)
«A Little Something for us, Tempunauts» («Uma Condecoração Especial, por Cansaço»)

Adaptações no cinema

Blade Runner (Blade Runner: O Caçador de Andróides) (Ridley Scott, 1982), baseado na novela Do Androids Dream of Electric Sheep?

Total Recall (O Vingador do Futuro)(Paul Verhoeven, 1990), baseado no conto «We Can Remember It for You Wholesale»

Confessions d'un Barjo (Jérôme Boivin, 1992), baseado na novela Confessions of a Crap Artist

Screamers (Christian Duguay, 1995), baseado no conto «Second Variety»

Impostor (Gary Fleder, 2000), baseado no conto «Impostor»

Minority Report (Minority Report: A Nova Lei) (Steven Spielberg, 2002), baseado no conto «The Minority Report»
E pensar que a história de Minority report, altamente profética, foi publicada na revista Fantastic Universe no longínquo ano de 1956.

Paycheck (O Pagamento) (John Woo, 2003), baseado na história «Paycheck»

A Scanner Darkly (Richard Linklater, 2006), baseado na novela A Scanner Darkly Next (Lee Tamahori), baseado no conto «The Golden Man»

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Philip_k._dick
http://www.omelete.com.br/game/10000896/Philip_K__Dick.aspx

Blade Runner, O Caçador de Andróides


Direção do Filme: Ridley Scott (1986)
Baseado do livro de Phillip K. Dick, em 1968, com o nome de Do Androids Dream of Eletric Sheep?

Eixo Temático

O desenvolvimento da sociedade do capital é o desenvolvimento ampliado de suas contradições sociais, seja no campo da técnica e da tecnologia, seja no da sociabilidade e subjetivadades humanas e também do ecossistema urbano-social. O estranhamento atinge o trabalho e a reprodução social, o que significa que desefetiva a memória e a identidade do homem, dilacerando seus referentes de espaço-tempo, comprimindo-os e imprimindo neles sua marca indelével. A manipulação de homens e coisas assumem dimensões cruciais. A sociedade burguesa hipertardia tende a se tornar uma imensa coleção de múltiplos objetos-mercadorias complexas criadas pelas novas tecnologias de engenharia genética. No limite, a produção de mercadorias atinge a produção de supostas inteligências artificiais e de objetos-andróides no limiar da hominidade. Na verdade, na medida em que não se abole o sistema do capital, ele tende a instituir formas sociais estranhadas mais desenvolvidas, abrindo um campo de hominização dessumanizada (o que é a própria bárbarie social).
.
Temas-chaves: técnica e tecnologia, capital e processo civilizatório, ecossistema social e contradições do capital, identidade e memória social, trabalho estranhado e tempo de vida.
Filmes relacionados: “Matrix”, dos Irmãos Wachowski; “Metropólis”, de Fritz Lang; “2001-Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick; “IA - Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg; “Eu, Robô”, de Alex Proyas; “Gattaca- A Experiência Genética”, de Andrew Niccol.

Análise do Filme

Blade Runner, de Ridley Scott (1986), é um dos filmes cult da década de 1980, mesclando policial noir e ficção-científica na Los Angeles de 2019. Logo na tela abertura, uma apresentação do problema do filme: “No inicio do século XXI a Tyrel Corporation criou os robôs da série Nexus virtualmente idênticos aos seres humanos. Eram chamados de replicantes. Os replicantes Nexus 6 eram mais ágeis e fortes e no mínimo tão inteligentes quanto os Engenheiros genéticos que os criaram. Eles eram usados fora da Terra como escravos em tarefas perigosas da colonização planetária. Após motim sangrento de um grupo de Nexus 6, os replicantes foram declarados ilegais sob pena de morte. Policiais especiais, os blade runners, tinham ordens de atirar para matar qualquer replicante. Isto não era chamado execução, mas sim ‘aposentadoria’.”

A seguir, aparece a data (e local) da trama de Blade Runner – Los Angeles, novembro de 2019. Pelo visto, o filme possui uma estrutura narrativa simples. Rick Deckard (interpretado por Harrison Ford), é caçador de replicantes, ou blade runner, destacado para “aposentar” um grupo de replicantes Nexus 6 que fugiram do seu local de trabalho. Sob o comando do replicante Roy Batty (interpretado por Rudger Hauer), os Nexus 6 buscam prolongar seu tempo de vida. Apesar de serem tão ágeis, fortes e inteligentes quanto qualquer ser humano, os replicantes têm apenas quatro anos de vida.

Ao lado desta trama principal, podemos destacar uma trama secundária: o envolvimento afetivo de Deckard com Rachael (interpretada por Sean Young), replicante, secretária de Tyrel, dono da poderosa corporação industrial produtora dos Nexus 6 (Tyrel diz: “Nossa meta é o comércio. Nosso lema é ‘mais humanos que os humanos’”).

Blade Runner é um filme de caçada humana, onde, de certo modo, todos buscam algo: Deckard busca encontrar os replicantes; mas percebemos também que ele busca a si próprio. E persegue o amor de Rachael, que está imersa na busca de sua identidade inexistente. E os replicantes Nexus 6 buscam desesperadamente ter mais tempo de vida. Enfim, Blade Runner é uma pequena odisséia de homens e mulheres, humanos e pós-humanos, em busca da sua identidade perdida.

É um filme de ação intensa que contém uma profunda reflexão filosófica sobre o problema da identidade do homem, debilitada pelo descentramento do sujeito humano diante da vigência das tecnoestruturas burocrático-corporativas do mundo do capital. É o caso de Deckard, individuo perdido, solitário, obrigado pelos dispositivos policiais e corporativos a “aposentar” os replicantes (apesar de ter-se aposentado, no sentido usual do termo, Deckard é convocado a utilizar sua habilidade de investigador policial, ou melhor de blade runner, para caçar os Nexus 6). Sua vida pregressa é obscura, escondendo talvez algo incriminador, pois percebe-se que o convencimento de Deckard é um jogo de chantagem feito pelo chefe de polícia de LA. Como diz ele: “Conheço o jogo meu chapa. Se não topar, está acabado.”)

Enfim, o cenário distópico de Los Angeles em 2019 é opressivo, onde a individualidade humana é tão-somente uma sombra molhada pela constante chuva negra, decorrente de um ecossistema devastado. Como construção histórica, a identidade do homem como sujeito da modernidade prometeica, encontra-se irremediavelmente obliterada. A distopia noir de Blade Runner tende a negar, em si, qualquer identidade do homem consigo mesmo. O sistema do capital, com suas derivações destrutivas no plano do ecossistema, coloca no centro do cosmo, o fetiche das coisas, isto é, as tecnoestruturas urbano-corporativas com seus aparatos policiais e de manipulação midiática, como, por exemplo, o out-door móvel que preenche a paisagem superior da cidade e insiste em anunciar as maravilhas de paraíso distante.
.
Diz, logo no inicio do filme, a mensagem publicitária: “Uma nova vida espera por você nas colônias interplanetárias. A chance de começar de novo numa terra dourada de oportunidades e aventuras! Vamos para as colônias!”. E a mensagem do grupo Shimago-Dominguez Corporation conclui dizendo: “Ajudando a América a entrar no Novo Mundo”.

Pelo que se percebe, a crise de identidade não é apenas de homens e mulheres, de humanos e pós-humanos, mas a crise de identidade atinge inclusive o próprio Estado-nação, ou seja, os EUA, onde é perceptível a presença marcante (e dirigente) de estrangeiros (japoneses e chicanos). Na verdade, os EUA não são mais o Novo Mundo, mas sim as colônias interplanetárias criadas pelas corporações industriais (com certeza, de acesso seletivo e excludente).

Em Blade Runner, logo no inicio, são destacadas as luzes de néon de propagandas das corporações industriais, emoldurando um cenário urbanóide tão opressiva quanto a chuva ácida persistente e as vias urbanas cheias de transeuntes, um imenso bazar desterritorialziado, tecno-asiático, de incrustações mafiosas, com bairros decadentistas, com prédios abandonados ocupados por ateliers hightech de fornecedores de ponta das corporações industriais (por exemplo, a oficina hightech de J. F. Sebastian está num prédio abandonado, local em que ocorrerá o duelo derradeiro entre Deckard e o replicante Roy). Na verdade, a Los Angeles de 2019 é uma imensa Chinatown, de homens e mulheres incapazes de migrar para o paraíso distante, outras terras privilégio territorial da classe dos capitalistas e congêneres.

É interessante que, em Blade Runner, a clivagem de classe assume, de forma radical, dimensões sócio-territoriais: os homens estranhados, despossuídos, embora proprietários de força de trabalho ou de mercadorias que vendem no bazar global, de fato, herdarão a Terra, mas uma Terra devastada enquanto ecossistema, pela lógica do capital predador. Estamos diante do resultado supremo da sociedade de classe. Diante de um espaço territorial exaurido no decorrer de uma modernização predatória, os capitalistas decidem “curtir” sua vida (e uma suposta identidade humana) em paraísos distantes,”...terra dourada de oportunidades e aventuras”, colônias espaciais, artifícios urbano-sociais, servidos por uma coorte de replicantes servis, novos servos pós-modernos, êmulos funcionais de homens e mulheres (a desterritorialização do capital se expressaria na própria interversão do Lar em Terra Estrangeira, como salientamos acima – a Los Angeles de 2019 não parece ser a América e os que habitam a Terra parecem ser meros estrangeiros). O capital tende sempre a criar novas fronteiras de colonização para si, mesmo que possuam o sentido ilusório de um “Novo Mundo”. O ilusionismo social é a base da subjetivação estranhada.
.
Mas a identidade humana é debilitada não apenas pelo cenário distópico da Los Angeles de 2019, com seu urbanismo opressor e sua humanidade non-sense (o que é o homem sem a utopia?), mas pelo próprio desenvolvimento tecno-científico e da engenharia genética que criou os novos objetos vivos, os replicantes, imagens perfeitas do homem (ou como disse Tyrell: “mais humano que os humanos”), objetos técnicos complexos que desencantam irremediavelmente qualquer idéia de uma unicidade humana (Walter Benjamin já demonstrou que a reprodutibilidade técnica tende a ocasionar a perda da aura da obra de arte e diríamos nós, da própria vida, no caso de replicantes).

Os avanços da técnica tendem a desencantar, mas, de forma contraditória, afirmam a identidade do homem, como iremos verificar no decorrer de Blade Runner. Podemos dizer que é através da experiência de vida dos replicantes que tende a ocorrer a apreensão da identidade perdida, ou em processo de perda, do homem. Na verdade, o homem se encontra através de seus objetos vivos (uma contradição em termos). É no decorrer desta busca desesperada dos Nexus 6 que conseguimos apreender o significado (e valor) da experiência humana.

Ora, nós temos o que eles buscam: tempo de vida e memória. Esta é base da hominidade em Blade Runner. Mas o que nós temos é passível de debilitação sob o sistema do capital. O tempo de vida se interverte em tempo de trabalho e a memória se degrada por conta da presentificação crônica instaurada pelo sócio-metabolismo do capital.

Em Blade Runner, os replicantes, embora não sejam do gênero humano, mas sim objetos técnicos complexos, produtos do trabalho humano, da engenharia genética e de seus avanços fantásticos, reivindicam um atributo elementar da hominidade: tempo de vida. O tempo é o campo de desenvolvimento humano, já destacava Marx. Terem apenas quatro anos de vida, como os Nexus 6, é muito pouco para inteligências ágeis e complexas que sonham alcançar a almejada hominidade.

É claro que tal discrepância entre potencialidades de desenvolvimento e tempo de vida é dilacerante. A busca por mais tempo torna-se uma “estranha obsessão”. Tyrel reconhece tal dilema dos replicantes quando diz a Deckard: “...eles são emocionalmente inexperientes, têm poucos anos para coletar experiências que nós achamos corriqueiras. Fornecendo a eles um passado criamos um amortecedor para sua emoção e os controlamos melhor.”

Na verdade, o objetivo de Tyrell é controlar sua criação, os Nexus 6, evitando que tal “estranha obsessão” signifique motins (como ocorreu com os seis replicantes “caçados” por Deckard). A manipulação da memória é capaz de amortecer tal sofrimento psíquico e controlar suas disposições insurgentes. Ao fornecer um passado para os replicantes, a Tyrell Corporation manipula sua memória e os controla melhor. É interessante a sugestão do filme Blade Runner em considerar a manipulação da memória através da atribuição de um passado imaginário, prática intensiva dos dispositivos midiáticos do sistema do capital, como uma forma de controle social.

Mas a ciência humana de Blade Runner está imersa num paradoxo (o paradoxo de Blade Runner): ainda não conseguiu compatibilizar vida intensa e maior inteligência com maior tempo de vida. Ao reivindicar mais tempo de vida (“o criador pode consertar a criação?” – pergunta o Nexus 6), o replicante Roy ouve de seu criador Tyrel o seguinte: “Fazer alterações na evolução de um sistema orgânico é fatal. Um código genético não pode ser alterado depois de estabelecido. Quaisquer células que tenham sofrido mutações de reversão dão origem a colônias reversas, como ratos abandonando o navio...” E Tyrel conclui: “A luz que brilha o dobro arde a metade do tempo.

O diálogo entre Roy e Tyrell é uma das cenas mais significativas de Blade Runner. Expressa o lancinante paradoxo de Blade Runner (diz Tyrel: “Você foi feito o melhor possível. Mas não pode durar”). É a suprema contradição entre o desenvolvimento complexo do processo civilizatório e das forças produtivas do trabalho e a forma social do capital. É uma aguda injustiça ter tanta inteligência e intensa ânsia de viver e tempo de vida tão curto. Na verdade, os replicantes atingiram, tal como Hal 9000 em 2001-Uma Odisséia no Espaço, o limiar da hominidade. E tal como Hal 9000, se rebelam e são “desligados” (ou “aposentados” – no jargão da Tyrel Corporation).

Ora, Roy (e Tyrell) estão diante de um limite objetivo da engenharia genética (como ele expressou no diálogo acima). É claro que Tyrell está justificando a impossibilidade de alterar o código genético de Roy e de seus amigos replicantes. O que não significa a impossibilidade de altera-lo para as demais gerações de Nexus 6 (a reivindicação dos replicantes insurgentes em Blade Runner é meramente contingente – eles querem mais tempo de vida para si e não propriamente para a classe dos replicantes). Insatisfeito com Tyrell, Roy mata seu criador.

O drama dos replicantes é o drama humano. Em Blade Runner, como já destacamos, é através do drama de seus objetos técnicos inteligentes que apreendemos a tragédia humana. Ao ouvir de Tyrell que não podem obter um tempo de vida extendido, os Nexus 6 colocam-se diante de uma impossibilidade concreta dada pelo estágio de desenvolvimento da engenharia genética. Existe, deste modo, um limite técnico – mas perguntaríamos: é apenas um limite técnico ou tecnológico?

Nesse caso, merece a distinção entre técnica e tecnologia, onde a tecnologia é a forma social da técnica. E numa situação de contradição aguda entre forma social do capital e desenvolvimento humano humano-genérico, a própria tecnologia colocaria limites irremediáveis à técnica. Eis mais uma determinação da tragédia dos Nexus 6.

Enfim, não é suficiente o “cogito ergo sum” (como disse a replicante Pris para J.F. Sebastian: “Penso, Sebastian, logo existo”). Ou seja, não basta apenas “pensar para existir” (a referência sarcástica à famosa frase de Descartes sugere uma critica do racionalismo cartesiano, base da filosofia do sujeito e da civilização do capital). Estamos diante de uma aguda contradição: o homem demonstrou ser capaz de dar a vida, mas não conseguiu ainda ser capaz de dar-lhe um sentido. Ou melhor, o homem ainda não se tornou capaz de constitui um campo de desenvolvimento humano, onde a vida possa ser plena de sentido. Os Nexus 6, em seus curtos quatro anos de vida útil, estão condenados a sofrer de forma infinitamente intensa esta experiência trágica. Talvez nós, homens e mulheres, possamos sofrê-la de forma mitigada.

Os replicantes podem ser considerados a síntese intensa da tragédia humana. É o que a biotecnologia complexa de Blade Runner conseguiu demonstrar. A morte de Tyrel é uma morte metafísica. A cena do criador sendo dilacerado pela própria criatura é uma das mais significativas cenas do cinema do século XX. É um gesto supremo de insatisfação existencial. É um gesto totalmente absurdo, como a própria experiência de ser replicante em Blade Runner. Ao esmagar o cérebro de Tyrell, Roy dilacera (e contesta) a perversidade da inteligência humana.

Em Blade Runner, como salientamos acima, percebemos a aguda contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas do homem, capaz de criar vida inteligente complexa, e as relações sociais capitalistas imersas na lógica do controle do tempo e do tempo restringido em função da utilidade do capital. Mas é importante destacar o seguinte: a incapacidade da ciência e da técnica da Tyrell Corporation em extender a vida dos replicantes não é apenas um dado objetivo, mas é algo socialmente determinada pelo sistema do capital.

Como dissemos, seria impossível alterar o sistema orgânico de Roy, por exemplo, para garantir-lhe mais tempo de vida; mas nada impediria que novas gerações de Nexus 6 pudessem ter um tempo de vida mais extendido. O que sugere que a afirmação de Tyrell de que “a luz que brilha o dobro arde a metade do tempo” é tão-somente uma afirmação ideológica (Pris, em certo momento num diálogo com J.F. Sebastian, chegou a dizer: “Não somos computadores, Sebastian, somos seres vivos” – negando, portanto, o caráter fetichista dos replicantes).

Enquanto mercadorias complexas, os replicantes estão submetidos à lei do valor. Portanto, devem ter um tempo de vida útil restringido, principalmente quando, na Los Angeles de 2019, deve-se estar sob a vigência plena da tendência decrescente de queda da taxa de utilização decrescente do valor de uso das mercadorias, como observa Mészáros. Deste modo, mesmo não o sabendo, não é apenas contra a perversidade dos limites objetivos da ciência e da técnica da Tyrell Corporation que se revoltam os replicantes, mas contra a lei do valor e a lógica contraditória do capital, que frustra as promessas de uma vida plena de sentido, seja para homens, seja para os replicantes Nexus 6, numa etapa avançada do processo civilizatório.
.
É interessante observar que um instrumento capaz de identificar os replicantes Nexus 6 é um aparelho de leitura da íris dos olhos. Um detalhe: a presença do olhar em Blade Runner é marcante, não apenas pelo fato dos replicantes serem identificados através da análise de sua íris, mas pela cena de abertura do filme, que mostra um close-up magistral dos olhos de Deckard contemplando o cenário sombrio de Los Angeles. Em sua íris se reflete a distopia da América. Na verdade, como se diz, a imagem dos olhos é expressão da “janela da alma”, da subjetividade avassalado do homem diante do sistema do capital. A presença deste olhar que ocupa a extensão da tela é marcante também em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Assim como sugerimos uma aproximação entre os Nexus 6 e HAL 9000, podemos fazer o mesmo entre Deckard e Frank, personagem do filme de Stanley Kubrick.

Através de um teste de perguntas e respostas e do aparelho de leitura da íris dos olhos, utilizada nas sessões de interrogatórios pelos policiais blade runner, se busca verificar não apenas relatos de memória, mas a coerência das respostas dadas (o que sugere uma atitude-padrão no mundo social de Blade Runner). “É um teste criado para provocar uma resposta emocional”, como observa o blade runner. Estamos diante de um instrumento de aferição da socialidade e da consciência coletiva, de valores e atitudes sociais politicamente corretas (no sentido durkheiminiano). O que significa que, no mundo social de Blade Runner, a identidade humana é constituída não apenas por um lastro de memória pessoal, mas por um arcabouço de socialidade e de memória coletiva, background de reações emocionais (e lingüísticas) previsíveis.

Ora, os replicantes não possuem tais lastros da experiência humana. Aliás, podem até possui-las, mas são meras próteses, implantes assumidos de outros homens e mulheres. Por exemplo, a experiência de memória de Rachel é um implante da experiência de vida da sobrinha de Tyrell (Rachael chega a dizer, imersa em crise de identidade impossível: “Não sei se sou eu ou a sobrinha de Tyrell”). Enfim, suas memórias pessoais não pertencem a si, mas são de outrem (Deckard diz para Rachael: “... não são suas memórias, são de outra pessoa”). Eis um agudo estranhamento dos replicantes. Eles não escolheram suas memórias. Mas, afinal, quem as escolhe? – como poderia nos dizer Gaff (o policial, interpretado por Edward James Olmos).
.
Deste modo, Rachael está diante de certo estranhamento. Ela sente-se profundamente incomodada com sua condição replicante. É próprio da sua natureza, ser incapaz de possuir memória de vida pessoal única. Para ela, a memória é um simulacro expresso em imagens fotográficas. Na verdade, Rachel, como o mundo midiático de Blade Runner, está totalmente imersa num mundo de imagens fotográficas (basta verificar, por exemplo, os detalhes do escritório do chefe de policia de Los Angeles que conversa com Deckard, logo no inicio do filme e do próprio apartamento de Deckard – a presença de inúmeros quadros de fotografias é marcante, o que pode nos levar a refletir: se seriam eles todos replicantes; ou será que são meros homens em processo de desesfetivação de sua identidade humana pela corrosão da memória pessoal ou pela manipulação avassaladora de suas experiências de vida passada?).

Mas, as fotografia da replicante Rachael são necessárias para afirmar para si própria o simulacro de sua identidade pessoal. Na verdade, tais representações, ou melhor, signos, de memória, são quase uma extensão de si. O que se coloca, a partir da experiência de Rachael em Blade Runner é o seguinte: até que ponto nossas memórias pessoais são nossas e não representações (ou signos) protéticas, implantadas pelo complexo midiático vigente do sistema do capital, que produzem, por exemplo, nostalgia de um tempo não-vivido, mas percebido no plano imagético? Na verdade, como percebemos, o mundo social de Blade Runner é o mundo da aguda manipulação da subjetividade.

É a chegada de Deckard que irá problematizar a condição replicante de Rachael. Ele sente amor por ela. Por isso Deckard irá ensina-la a socialidade dos afetos, quase para dar completude ao simulacro de sua identidade humana. Nesse caso, o que parece ser, tende a se tornar.. De fato, ao agir como mulher, Rachael tornar-se-á mulher. Em Blade Runner, a afirmação da hominidade ocorre através da práxis auto-consciente, reflexiva e mimética.

Neste momento, estamos diante da pedagogia da práxis mimética, aquilo que Aristóteles considerava fundamental no próprio ato da educação. Em Aristóteles, a arte de aprender se reduz a imitar por muito tempo e a copiar por muito tempo. Diz Vergnières, a respeito da ética de Aristóteles: “Adquire-se tal ou qual disposição ética agindo de tal ou qual maneira. O caráter não é mais o que recebe suas determinações da natureza, da educação, da idade, da condição social; é o produto da série de atos dos quais sou o principio. Posso ser declarado autor de meu caráter, como o sou dos meus atos.” (VERGNIÉRES, 1999). Ao ensinar a Rachel a socialidade dos afetos através da formação de hábitos, da imitação, de ações ponderadas, Deckard se contrapunha à imposição da natureza dada, do destino inscrito pela Natureza ou pela lógica da tecnologia.

No caso da distopia de Ridley Scott, existe um intenso jogo de manipulação, objetivo e subjetivo. O ato de manipulação não ocorre apenas na dimensão da exterioridade (a manipulação que outrem exerce sobre mim, como é perceptível nas propagandas de néon em Blade Runner); mas a manipulação percorre a dimensão da interioridade, aparecendo como intensa auto-simulação (o ego manipula a si mesmo, buscando constituir uma identidade pessoal auto-referenciada – no caso dos replicantes, uma identidade irremediavelmente estranhada). O que Blade Runner sugere é que, talvez a tragédia dos replicantes seja a verdadeira tragédia humana (o que demonstra que a ficção-científica expõe de forma invertida, e até fetichizada, a verdade da condição humana).

Em Blade Runner existe uma outra situação paradoxal: o caçador, aos poucos, se interverte em caça. Ao longo da narrativa, Deckard, que persegue os replicantes, torna-se, na cena final, perseguido pelo último dos Nexus 6, Roy Batty, que dá-lhe uma “lição de vida”. Ou seja, poupa-lhe da morte, demonstrando ser a vida um valor supremo para ele (ora, ao matar Tyrell, Roy expressa um gesto de afirmação da vida, demonstrando uma suprema indignação com seu destino).

Na sua derradeira cena, o replicante Roy traduz o que é próprio da condição humana sob o sistema do capital. Disse ele: “Uma experiência e tanto viver com medo, não? Ser escravo é assim.” E sentindo de forma intensa o paradoxo de Blade Runner, isto é, a angústia de inteligências agudas e de alta sensibilidade estética diante de uma vida fugaz e supérflua, Roy observa: “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataques em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro, na Comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva.” O replicante Nexus 6 sente a angústia do tempo, destacando a unicidade (e fluidez) da sua experiência singular de vida. Conclui, dizendo: “É hora de morrer” (tal como os personagens da peça “Os Que Têm a Hora Marcada”, de Elias Canetti).
.
Enfim, Blade Runner é permeado de paradoxos magistrais, que são contradições dilacerantes. Vejamos alguns detalhes: os replicantes que fugiram eram 6. Um deles, morreu na fuga. Então, 5 são os que deveriam estar sendo perseguidos. Mas só temos conhecimento de 4 na versão do diretor. Ou ainda: se Deckard seria um replicante (como sugere a versão do diretor), Gaff também não o seria? Enfim, quem nos garante – como já sugerimos acima - que o mundo social de Blade Runner não seria constituído por replicantes medianos, meros simulacros de homens e mulheres, onde os Nexus 6 seriam versões sofisticadas, os super-homens de 2019 ? Outro detalhe curioso é o sonho de Deckard, o sonho do unicórnio, acrescido na versão do diretor. O que ele significa? Teria o unicórnio do sonho de Deckard alguma relação com o unicórnio de palito feito por Gaff no final do filme?. Mera coincidência ou haveria alguma relação causal com um significado latente?

Mas o que nos interessa são os significados críticos do filme Blade Runner. Ele é um pré-texto magistral para apreendermos os dilaceramentos humanos diante da opressão do capital. O mundo social de Blade Runner é um mundo capitalista, com a presença visível dos ícones das corporações globais, cintilando em luzes néon num cenário distópico. Torna-se visível através do exagero metodológico da ficção-científica alguns elementos contraditórios desta sociabilidade estranhada. Já destacamos o problema da identidade humana, da impossibilidade da vida plena de sentido num sistema de tempo de vida restringido, de memória protética e de sociabilidade estruturada (drama trágico explicito, até como “tipo ideal”, pelos replicantes Nexus 6 ).

É possível destacar, dentre os múltiplos detalhes significativos do filme, alguns elementos sobre o mundo do trabalho em Blade Runner. Por exemplo: a Tyrell Corporation é uma empresa-rede tendo em vista que se utiliza do trabalho subcontratado de fornecedores, que contribuem para a produção das mercadorias-objetos técnicos complexos (os replicantes). Os fornecedores, pequenas oficinas de técnicos altamente especializados, não conhecem o resultado final de sua atividade. Produzem apenas um determinado componente daquela estrutura biotecnológica. Por exemplo, quando o replicante Roy visita a oficina de trabalho de um dos fornecedores da Tyrell, ele nada sabe sobre os demais componentes de um organismo Nexus 6. Especializou-se apenas em elaborar os olhos – mas nada sabe sobre o dispositivo capaz de dar mais tempo de vida aos replicantes. É sintomático que Ridley Scott tenha escolhido a atividade estranhada do produtor dos olhos para expressar a paradoxalidade do capital e sua fragmentação da atividade produtiva. Os que produzem os olhos estão cegos sobre o produto final. Eis uma dimensão suprema (e paradoxal) do estranhamento da produção capitalista.

Outro paradoxo de Blade Runner é a relação do personagem J.F. Sebastian, projetista genético, um dos criadores dos Nexus 6, que, tal como eles, sofre de decrepitude acelerada. Ou seja, J.F. Sebastian sofre de envelhecimento precoce, (Síndrome de Matusalém). Por isso não conseguiu migrar para as colônias interplanetárias. Como disse ele: “não passei no exame médico” (o que confirma o acesso seletivo e excludente ao Novo Mundo). Um detalhe curioso são os bonecos vivos da oficina de J.F. Sebastian. Inclusive, um deles representa um militar com nariz de Pinóquio (uma crítica velada à corporação militar tão poderosa na América?). Aliás, é possível um paralelo entre J.F. Sebastian e o artesão Gepeto, personagem do conto Pinóquio, de Carlo Calodi. Talvez J. F. Sebastian seja o Gepeto pós-moderno, solitário e decrépito, que se apaixona por Pris, um dos Nexus 6 em fuga, modelo básico de prazer; e é através de J.F. Sebastian que Roy e Pris têm acesso ao criador dos Nexus 6, Tyrell, misto de cientista genial e mega-investidor bem-sucedido (um Bill Gates do mundo de Blade Runner?).
.
Talvez seja interessante uma análise do personagem Tyrell, dono da corporação industrial que produz os replicantes. Tal como J.F. Sebastian, é um gênio solitário, parceiro do projetista genético no jogo de xadrez, investidor diuturno no mercado financeiro (na sua última cena, aparece deitado na cama orientando seu operador financeiro a vender 66 mil ações...). Do mesmo modo, tal como Sebastian, é cercado de objetos vivos – a coruja e a secretária Rachael. É provável que Tyrell cultive uma prazer estético (e libidinal) pelos seus objetos vivos.

Outro detalhe interessante do mundo do trabalho em Blade Runner é que os Nexus 6, geração superiores de replicantes, são altamente especializados (por exemplo, o replicante Roy Batty é um modelo de combate, e Pris, é um modelo básico de prazer, demonstrando que a sofisticação de habilidade cognitiva e instrumental é acompanhada por uma especialização).

Além disso, o mundo do trabalho de Blade Runner é constituído por uma mancha de “informalidade”, de trabalhadores por conta própria, alguns altamente especializados, que utilizam high technology (Deckard recorre aos serviços de uma artesã hightech para identificar o número de código de um fragmento de escama encontrado nos vestígios deixados por Zhora, uma dos Nexus 6). Ora, no cenário pós-moderno de Blade Runner, conciliam-se degradação ambiental (e pessoal) com high tecnology. O mundo do trabalho é um imenso bazar de atividades de serviços industriais subcontratados e de entretenimento de cariz mafioso (expressão de sobrevivências seculares da sociabilidade urbana degradada, como o saloon de Taffey Lewis, onde se apresentava a replicante Zhora com seu número “Sra. Salomé e a Cobra”).

Blade Runner expressa, no melhor estilo pós-moderno, uma bricolage de situações típicas da temporalidade extendida (e presente) do capital. Passado, presente e futuro estão contidos numa temporalidade hipertensa. Enfim, não existem, a partir da ótica da narrativa, perspectivas de “negação da negação”. No bom estilo de Hollywood, as contradições sociais se traduzem em meras saídas individuais – mas perguntaríamos, parafraseando Gaff, são realmente saídas? Afinal, quem escapa?

Fonte:
Artigo escrito por Giovanni Alves (2004). In http://www.telacritica.org/BladeRunner.htm
Esta análise de filme é parte do Projeto de Extensão Tela Crítica 2004)