quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Nilson Monteiro (Mão)


Pousou no balcão, ao meu lado. Grossa. Dava pra ver. De onde teria vindo aquela borboleta vincada, cansada talvez? Que terras eram aquelas que abrigavam seus vincos, quase cor de vinho, suas unhas, as erosões talhadas em sua carne?

A mão não me perguntava, nem me explicava nada. Pousou indiferente. Com calos aqui e ali, sugerindo vidas. Com riachos roxos em suas linhas. Simplesmente pousou. E ficou. Tamborilou os dedos, pra lá e pra cá no balcão, como a desfrutar do espaço livre para sua existência. Mas não avançou e nem recuou. Parou. Um cheiro geográfico, paranaense, quem sabe?

Parada, a borboleta de cinco pétalas, criava mais emoção, ficção. Instigava. Inspirava. Lavrar, colher, levar o milho para o paiol, derriçar o café, cuidar dos cavalos, afagar suas crinas, puxar água do poço, rachar madeira, quem sabe o labor daquela borboleta e seus dedos de unhas enlutadas? Ou quem pode adiantar os destinos que aquela mão ainda planeja? Talvez remexer o chão para dele brotar o verde? Talvez enterrar uma ex-vida? Nada dizia. Nem questionava. Parada.

Será que não seria a executora de belas sinfonias, tragando poesia no balcão antes de causar emoção por teatros e óperas? Não, não era uma mão fina, bem tratada, de unhas caprichadas nos melhores salões e encharcada de bálsamos. Mas, quem disse que só essas conseguem executar as obras dos imortais ou, melhor, compor novas delícias sonoras? Onde está o sábio que prova que a poesia só pode ser destilada de mão sem calos, cheirosas e intelectuais?

Sim ou não. Nada parecia ferir a paciência e a sensibilidade da personagem. Vez ou outra levantava breve voo, mas logo depois espalmava-se sobre o balcão, indiferente às minhas elucubrações: não poderia ser o instrumento de um preciso bisturi, operando as dores de homens, mulheres e crianças? Ou célere instrumento de um esportista, acostumado à fama? Ou até mesmo o funil de informações, passadas a limpo na neurose das teclas de uma máquina de Redação?

Havia pelos sobre ela, sim. Poderia ser de um tosquiador de ovelhas, nobre e triste operário que descobre aqui para cobrir ali. Ou mesmo de um gênio da argamassa, mestre nas quantidades de cimento e areia e tijolos e água para erguer casas, prédios, pontes etc. Sim, poderia, por que não?, ser de um preocupado bancário, às voltas o dia todo com milhões e milhões de cruzeiros e seus salários no final do mês...

Desta vez o gesto foi mais largo, demorado. Ela traçou parábolas no ar, abandonando a frieza do balcão. Subiu, desceu. Levantou, caiu, garça louca, esparramou-se no chão seco do balcão. Garça não, borboleta. Borboleta é mais infantil, agrada mais às crianças, é mais ágil, brinca com os olhos e lembra a existência das matas, dos matos, dos quintais, do barro grudento, dos rios...

Borboleta.

Assim como pousou, alçou voo. O balcão ficou de novo frio, gelado, impessoal.

Fonte:
300 Histórias do Paraná: coletânea. Curitiba: Artes e Textos, 2004.

Jaqueline Machado (Isadora de Pampa e Bahia) Capítulo 9: A amizade entre Amélia e Simão

Numa tarde de calor fora de época, Amélia, esposa de Juca, se refletiu bela em frente ao espelho do quarto.

Estava ela com um vestido florido, decotado, e perfumada, feito flor de primavera.

Bem ao seu estilo, saiu sem destino cantarolando, fazenda afora.

No meio do caminho encontrou Simão, o mais chegado amigo de sua casa.

- Por onde pensa que vai? - perguntou Simão, chamando a atenção da morena faceira.

- Estou aproveitando o meu dia de folga para perambular por aí. - disse ela se aproximando.

- Aceita me acompanhar num café em meio a esse arrozal, minha amiga?

- E por que não aceitaria?

- Longe do marido, formosa e perfumada assim, tome cuidado... – alerta o peão.

- O que é isso, homem, não sabe que sou uma santa? Gavião não se mete a besta comigo, não! -  respondeu, extrovertida.

Amélia sentou-se ao lado do amigo, e os dois ficaram um bom tempo proseando.

Juca não se encontrava na fazenda. Estava a trabalho para o patrão, na cidade. 

Os demais peões, cheios de maledicências, se entreolhavam, riam e cochichavam entre si ao vê-los conversando alegremente.

- Olha como conversam e riem. - disse Pedro, cutucando Juliano com o cotovelo.

- Sim. Veja só como ela mostra as pernas para ele. - disse o colega.

- É claro que são amantes. Tenho certeza disso. - disse Pedro.

Depois de horas de conversa, os amigos seguem juntos. E os peões continuaram espiando até que as silhuetas deles desapareceram do outro lado da plantação.  

O dia atípico de verão era prenúncio fatal de tempestade chegando. Ao anoitecer, os ventos surgiram encobrindo o céu de nuvens. Enquanto isso, Amélia, com satisfação, preparava o jantar do seu amor que logo chegaria encharcado pela chuva que estava vindo em grande volume.

Ao vê-lo chegando, correu feliz para abraçá-lo, pois de todas as alegrias da vida, abraçar o seu amor, era a sua alegria favorita.  

- Amor, estou encharcado.

- Não me importo, querido.

- Como foi o teu dia? Ficou cuidando da nossa casinha ou aproveitou o belo dia de sol para passear um pouco? - perguntou Juca, à mulher, enquanto ela terminava o jantar.

- Coloquei uma roupa fresca e saí para tomar um pouco de ar.

- Que bom. E aproveitou para conversar com alguém? Às vezes te sinto tão só nesse lugar.

- Conversei com Simão. Mas cedo eu já estava de volta. Ele veio comigo. Queria apanhar umas margaridas do nosso jardim para oferecer à namorada que vem hoje à noite lhe fazer uma visita.

- Simão está namorando? Quem?

- Não sei de quem se trata.

- Simão é um bom e velho companheiro.

-  Gosto de conversar com ele. Mas sei que a nossa amizade causa bochichos por aí... Sabe como é, mulher não pode ter amizades com homens.

- Bobagem. Confio em vocês. Principalmente em ti, minha única e amada mulher.

- Hum... Gostei de saber que sou a única. - disse ela, retribuindo a atenção do marido com envolventes carícias...
 
“Leis, padrões e regras, são invenções criadas pelo ser humano. E ninguém pode jurar sob a cruz sagrada o quanto essas regras estão certas ou erradas.

A amizade entre homens e mulheres, mesmo em tempos mais modernos, sempre foi razão para o despertar de fofocas e maledicências...

Será a amizade sincera entre um homem e uma mulher algo tão improvável assim?... Isso põem a prova a seriedade de uma mulher?  

A seriedade de uma mulher não é ocultada na sua alegria de viver. Ao contrário, a alegria só faz enaltecê-la.

A verdade é que as regras sustentadas em nossa sociedade são fajutas e nada provam. Porém, precisamos admitir que, quando um homem e uma mulher se encontram, tudo pode acontecer.

Afinal, amizades, “casos” e amores andam por aí, em busca de novas experiências...
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continua…

Fonte:
Texto enviado pela autora.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Edy Soares (Manuscritos (Di)versos) – 34: Tributo a Cruz e Souza

 

A. A. de Assis (Ouvido amigo)

Deu-se numa cidade de médio porte. O moço de vinte e poucos anos entrou na primeira igreja que encontrou. “Preciso falar com o padre”. A secretária percebeu o clima e o levou de pronto à sala do pároco. “Sente-se e diga em que lhe posso ser útil”. O rapaz foi direto ao ponto: “Quanto o senhor cobraria para conversar comigo por uma ou duas horas?

– Aqui não cobramos para conversar com ninguém. Mas se o que você procura é um ouvido amigo e se aceita bater um papinho de graça, podemos começar. Sinta-se à vontade.

– Me desculpe se o ofendi. É que o senhor deve ser muito ocupado e então eu não queria abusar. Preciso só desabafar com alguém experiente e botar os meus grilos pra fora. Não pense que eu esteja louco ou bêbado, ou que tenha algum problema de saúde física: não tenho vícios, me alimento bem, faço academia. Também não tenho preocupações financeiras: meu pai tem recursos e cobre todas as minhas despesas.

– Nesse caso, por que parece tão angustiado?

– Sou um rapaz triste. Muito triste. Pra começar, minha família é um desarranjo. Meu pai raramente fala com minha mãe e com os filhos, aliás minha mãe está sempre num canto chorando. Minha única irmã casou com um sujeito safado que explorava o dinheiro dela e com frequência a maltratava, daí que o casamento durou menos de um ano. Comecei a fazer o curso de medicina, mas abandonei no terceiro ano por falta de motivação. Pior: não tenho amigos, não consigo encontrar uma namorada a contento, acho que sou um chato inútil que ninguém suporta. É isso aí, padre. Vim aqui pedir um alento.

– Por acaso você tem uma religião?

– Sei que fui batizado católico, só que nunca frequentei igrejas. Mas também não creio que seja essa a questão no momento. Meu caso é mais pra psi do que pra teologia.

– Ah, sim, entendo. Lembro apenas que teologia, psicologia, filosofia geralmente se entrelaçam, e juntas ajudam a compreender melhor os mistérios da alma e da mente. Mas disso, se lhe interessar, poderemos falar em outra ocasião. Vamos por partes. Você disse que tem o corpo saudável, todavia sente a alma enferma – possível razão de sua tristeza crônica. Tem que então curar a alma, porém antes precisa desatordoar a cabeça e dar um sentido à vida. Topa tentar?… Por ser um moço inteligente e com noções de medicina, ficará mais fácil.

– Tá. Vou nessa. Que caminho o senhor sugere? 

– Temos aqui na paróquia uma Pastoral da Escuta. Vou encaminhá-lo à líder da equipe e pedir que ela o acolha. Só que você não vai como paciente, e sim como colaborador. Em vez de se preocupar tanto com os seus próprios problemas, ajudará a resolver problemas alheios. Com a sua experiência de sofrimento e os seus conhecimentos científicos, terá muito o que oferecer.  

Algumas semanas depois o moço estava de volta à universidade, agora matriculado num curso de psicologia. E mais: integralmente engajado na Pastoral da Escuta. 

(Crônica publicada no Jornal do Povo em 6 de julho de 2023)

Fonte:
Portal do Rigon
https://angelorigon.com.br/2023/07/06/ouvido-amigo/

J. G. de Araújo Jorge (Infinito de Poesias) 1


" A  Flor..."

É uma flor perdida entre alvuras e brumas
que eu persigo,
flor obscura nascida em teu corpo de neve e de sol
e escondida de todos, menos do amor...

Encontro-a depois da escalada entre o céu e a queda.
E quando a tenho em meus lábios, agarrando-me a ti
despenco no abismo.
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" A Enchente..."

E quem diria que a enchente
vindo um dia de repente
iria te arrebatar?

Estão meus braços vazios,
vazios - como dois rios -
que te embalaram, sem ver
que te levavam
pro mar.
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" A Noite... e Teus Olhos..."

Ah! parece que a noite vem se aleitar
de nebulosas e de astros
em teus fugidios.

E que teus olhos se abastecem de luz
e mistério,
nas noites profundas e consteladas…
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" A Nossa Manhã"

Interrompidos todos os caminhos
- ah! perdidas todas as esperanças,
ninguém nos poderia tirar jamais aquela manhã
que nunca será tarde, nem nunca será noite
e será sempre manhã
em nossas lembranças...

As montanhas muravam nosso sonho,
emolduravam nosso encontro,
e nunca a serra fora tão linda...
E havia o rio a rolar, e havia o sol a dourar,
o céu azul nas vidraças, com suas nuvens, distante,
e havia um mundo mais distante ainda...

E havia o vento nos altos eucaliptos
musicando o silêncio,
o canto surdo das águas sussurrando baixinho...
E estavas em meus braços, como o vento nas folhas,
como o rio nas margens,
como a ave no ninho...

Era como se como se acordássemos juntos,
como se viesses de longa viagem feliz,
de uma noite de bodas
- e o que a noite não deu, colhemos na manhã
na longa viagem feliz de uma manhã de sol,
a mais bela de todas!

Era mesmo como se acordassemos, como se a vida
tivesse surgido de repente,
vida que nunca pressentíramos até ali,
e nos olhando nos olhos, nos dissesse
perturbadoramente:
- "Eu é que sou a vida!... E estou aqui!"

Era como se andassemos perdidos
em meio a um temporal, por tanto tempo, ao léu,
e encontrássemos um abrigo à margem do caminho
onde juntos ficamos, e onde juntos, assistimos
o sol jogar depois a serpentina multicor
do arco-íris, pelo céu...

Mesmo que acontecesse o impossível
(interrompidos todos os caminhos,
abandonadas todas as esperanças),
ninguém nos poderia tirar jamais aquela manhã
de nossas lembranças...

Foi nossa aquela manhã, minha a tua, nossa
com o louco amor com que te amei
e o louco amor que me deste
de ternuras e extremos...

Ah! meu amor, nem Deus nos poderá tirar
jamais
aqueles instantes que vivemos...
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" A Semana "

Segunda, me inflamo.
Terça, te amo.
Quarta, te vejo.
Quinta, te desejo.
Sexta, te quero.
Sábado, te espero.
Domingo, te sonho.

E quando longe de ti,
só para ti, componho.
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"A Sós..."

A sós
como duas gaivotas
na solidão do céu,
em pleno mar,
sonhando no ar...
A sós
como duas mãos quando se procuram
e se encontram,
sem voz...
Como eu e tu
quando somos nós
a sós…
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" A Tua Resposta..."
    
E porque eu fui dizer
que depois de te encontrar
já podia até morrer...

- tu me envolveste em teus braços
e me fizeste viver!
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Fonte:
J. G. de Araújo Jorge. A sós. 1. ed. 1958.

Machado de Assis (Um incêndio)

Que esta perna trouxe eu dali ferida.
CAMÕES, Os Lusíadas, c. V, est. XXXIII.

Não inventei o que vou contar, nem o inventou o meu amigo Abel. Ele ouviu o fato com todas as circunstâncias, e um dia, em conversa, fez resumidamente a narração que me ficou de memória, e aqui vai tal qual. Não lhe acharás o pico, a alma própria que este Abel põe a tudo o que exprime, seja uma ideia dele, seja, como no caso, uma história de outro. Paciência; por mais que percas a respeito da forma, não perderás nada acerca da substância. A razão é que me não esqueceu o que importa saber, dizer e imprimir.

B... era um oficial da marinha inglesa, trinta a trinta e dois anos, alto, ruivo, um pouco cheio, nariz reto e pontudo, e os olhos dois pedaços de céu claro batidos de sol. Convalescia de uma perna quebrada. Já então andava (não ainda na rua) apoiado a uma muleta pequena. Andava na sala do hospital inglês, aqui no Rio, onde Abel o viu e lhe foi apresentado, quando ali ia visitar um amigo enfermo, também inglês e padre.

Padre, oficial de marinha e engenheiro (Abel é engenheiro) conversavam frequentemente de várias coisas deste e do outro mundo. Especialmente o oficial contava cenas de mar e de terra, lances de guerra e aventuras de paz, costumes diversos, uma infinidade de reminiscências que podiam ser dadas ao prelo e agradar. Foi o que lhe disse o padre um dia.

— Agradar não creio. - respondeu ele modestamente.

— Afirmo-lhe que sim.

— Afirma demais. E daí pode ser que, não ficando inteiramente bom da perna, deixe a carreira das armas. Nesse caso, escreverei memórias e viagens para alguma das nossas revistas. Irão sem estilo, ou em estilo marítimo...

— Que importa uma perna? – interrompeu Abel. – A Nélson faltava um braço.

— Não é a mesma coisa. - redarguiu B... sorrindo. - Nelson, ainda sem braço, faria o que eu fiz no mês de abril, na cidade de Montevidéu. Estou eu certo de o fazer agora? Digo-lhe que não.

— Apostou alguma corrida? Mas a batalha de Trafalgar pode-se ganhar sem braço ou sem perna. Tudo é mandar, não acha?

A melancolia do gesto do oficial foi grande, e por muito tempo ele não conseguiu falar. Os olhos chegaram a perder um tanto a luz intensa que traziam, e ficaram pregados ao longe, em algum ponto que se não podia ver nem adivinhar. Depois voltou B... a si, sorriu, como quando dera a segunda resposta. Enfim, arrancou do peito a história que queria guardar, e foi ouvida pelos dois, repetida a mim por um deles e agora impressa, como anunciei a princípio.

Era um sábado de abril. B... chegara àquele porto e descera à terra, deu alguns passeios, bebeu cerveja, fumou e, à tarde, caminhou para o cais, onde o esperava o escaler de bordo. Ia a recordar lances de Inglaterra e quadros da China. Ao dobrar uma esquina, viu certo movimento no fim da outra rua e, sempre curioso de aventuras, picou o passo a descobrir o que era. Quando ali chegou já a multidão era maior, as vozes muitas e um rumor de carroças que chegavam de toda parte. Indagou em mau castelhano, e soube que era um incêndio.

Era um incêndio no segundo andar de uma casa; não se sabia se o primeiro também ardia. Polícia, autoridades, bombas iam começar o seu ofício, sem grande ordem, é verdade, nem seria possível. O principal é que havia boa vontade. A gente curiosa e vizinha falava das moças — que seria das moças? Onde estariam as moças? Com efeito, o segundo andar da casa era uma oficina de costura, regida por uma francesa, que ensinava e fazia trabalhar a muitas raparigas da terra. Foi o que o oficial pôde entender no meio do tumulto.

Deteve-se para assistir ao serviço, e também recolher alguma cena ou costume com que divertisse os companheiros de bordo e, mais tarde a família na Escócia. As palavras castelhanas iam-lhe bem ao ouvido, menos bem que as inglesas, é verdade, mas há só uma língua inglesa. O fogo crescia, comendo e apavorando, não que se visse tudo cá de fora, mas ao fundo da casa, no alto, surgiam chamas cercadas de fumo, que se espalhavam como se quisessem passar ao quarteirão inteiro.

B... viu episódios interessantes, que esqueceu logo, tal foi o grito de angústia e terror saído da boca de um homem que estava ao pé dele. Nunca mais lhe esqueceu tal grito; ainda agora parecia escutá-lo. Não teve tempo, nem língua em que perguntasse ao desconhecido o que era. Nem foi preciso; este recuara, com a cabeça voltada para cima, os olhos na janela da casa e a mão trêmula, apontando... Outros seguiram a direção; o oficial de marinha fez o mesmo. Ali, no meio do fumo que rompia por uma das janelas, destacava-se do clarão, ao fundo, a figura de uma mulher. Não se podia distinguir bem, pela hora e pela distância, se o clarão vinha de outro compartimento que ardia, ou se era já o fogo que invadia a sala da frente.

A mulher parecia hesitar entre a morte pelo fogo e a morte pela queda. Qualquer delas seria horrível. Ora o fumo encobria toda figura, ora esta reaparecia, como que inerte, dominando todas as demais partes da catástrofe. Os corações cá de baixo batiam com ânsia, mas os pés, atados ao chão pelo terror, não ousavam ir levá-los acima. Tal situação durou muito ou pouco, o oficial não pôde saber se dois segundos, se dois minutos. Verdadeiramente não soube nada. Quando deu acordo de si ouviu um clamor novo, que os jornais do dia seguinte disseram ser de protesto e de aplauso, a um tempo, ao vê-lo correr na direção da casa. A alma generosa do oficial não se conteve, rompeu a multidão e enfiou pelo corredor. Um soldado atravessou-se-lhe na frente, ele deitou o soldado ao chão e galgou os degraus da escada.

Já então sentia calor de fogo, e o fumo que descia era um grande obstáculo. Tinha que rompê-lo, respirá-lo, fechar os olhos. Não se lembrava como pôde fazer isso; lembrava-se que, a despeito das dificuldades, chegou ao segundo andar, voltou à esquerda, na direção de uma porta, empurrou-a, estava aberta; entrou na sala. Tudo aí era fumo, que ia saindo pelas janelas, e o fogo, vindo do gabinete contíguo, começava a devorar as cortinas da sala. Lá embaixo, fora continuava o clamor. B... empurrou cadeiras, uma pequena mesa, até chegar à janela. O fumo rasgou-se de modo que ele pôde ver o busto da mulher... Vencera o perigo; cumpria vencer a morte.

— A mulher, — disse ele ao terminar a aventura, e provavelmente sem as reticências que Abel metia neste ponto da narração. — a mulher era um manequim, o manequim de costureira, posto ali de costume ou no começo do incêndio, como quer que fosse, era um manequim.

A morte agora, não tendo mulher que levasse, parecia espreitá-lo a ele, salvador generoso. O oficial duvidou ainda um instante da verdade; o terror podia ter tirado à pessoa humana todos os movimentos, e o manequim seria acaso mulher. Foi-se chegando; não, não era mulher, era manequim; aqui estão as costas encarnadas e nuas, aqui estão os ombros sem braços, aqui está o pau em que toda a máquina assenta. Cumpria agora fugir à morte. B... voltou-se rápido; tudo era já fumo, a própria sala ardia. Então ele, com tal esforço que nunca soube o que fez, achou-se fora da sala, no patamar. Desceu os degraus a quatro e quatro.

No primeiro andar deu já com homens de trabalho empunhando tubos de extinção. Um deles quis prendê-lo, supondo ser ladrão que se aproveitasse do desastre para vir buscar valores, e chegou a pegá-lo pela gola; depressa reconheceu a farda e foi andando. Não tendo que fazer ali, embora o perigo fosse menor, o oficial cuidou de descer. Verdade é que há muita vez algo que se não espera. Transpondo a porta da sala para o corredor, quando a multidão ansiosa estava a esperá-lo, na rua, uma tábua, um ferro, o que quer que era caiu do alto e quebrou-lhe a perna...

— Quê... ? interrompeu Abel.

— Justamente, confirmou o oficial. Não sei de onde veio nem quis sabê-lo. Os jornais contaram a coisa, mas não li essa parte das notícias. Sei que logo depois vieram buscar-me dois soldados, por ordem do comandante de polícia.

Tratou-se a bordo e em viagem. Não continuou por falta de comodidades que só em terra podia ter. Desembarcando aqui, no Rio de Janeiro, foi para o hospital onde Abel o conheceu. O vaso de guerra esperava por ele. Contava partir em breves dias. Não perdia tempo; emprestavam-lhe o Times, e livros de história e de religião. Enfim, saiu para a Europa. Abel não se despediu dele. Mais tarde soube que, depois de alguma demora em Inglaterra, foi mandado a Calcutá, onde descansou da perna quebrada, e do desejo de salvar ninguém.

Fonte:
Publicado originalmente em Almanaque Brasileiro Garnier, 1906.
Disponível em Domínio Público 

Estante de Livros (Arsène Lupin contra Herlock Sholmes, de Maurice Leblanc)

Gênios à sua maneira, ladrão e detetive viraram arqui-inimigos nos contos de Maurice Leblanc, mesmo depois do autor britânico recorrer à justiça

Arsène Lupin e Sherlock Holmes parecem lados opostos da mesma moeda. Ainda que ambos sejam elegantes e dotados de habilidades de observação e dedução bem acima da média, cada um usa seus conhecimentos para objetivos diferentes: um comete crimes, o outro os resolve. Ou, como mesmo define o ladrão de casaca no conto A Lâmpada Judaica, enquanto um é “um gênio bom que socorre e salva”, o outro é um “gênio mau que traz o desespero e as lágrimas”.

Independentemente da sua preferência como fã, é fato que o encontro de duas personalidades tão excêntricas é motivo para empolgação. Em 1906, quando os personagens se encontraram pela primeira vez, a resposta positiva não foi unanimidade. 

Já naquela época, não era segredo que o autor francês Maurice Leblanc usara Sherlock Holmes como uma das suas inspirações para criar seu famoso ladrão atrevido. Afinal, quando Arsène Lupin surgiu nas páginas da revista Je Sais Tout, em 1905, o detetive da Baker Street fazia muito sucesso no mundo todo, inclusive na França. Tanto que, não muito tempo antes, Conan Doyle fora obrigado a trazê-lo de volta em O Cão dos Baskervilles tamanho clamor do público. Ou seja, tentar surfar nessa onda era uma estratégia bastante esperta, e Leblanc não demorou muito para incluí-lo no universo de Lupin.

Em Sherlock Holmes Chega Tarde Demais, uma das primeiras histórias do ladrão de casaca, ambos os personagens se debruçam sobre o mesmo mistério. No entanto, é o jovem Lupin quem leva a melhor. Aliás, mais do que isso. Ele humilha seu adversário ao roubar seu relógio e devolvê-lo com um cartão de visitas, uma situação que desagradou e muito a Conan Doyle. O escritor decidiu levar o caso à justiça e, nessa disputa, foi o britânico quem saiu vencedor, obrigando Leblanc a mudar o nome do personagem.

Mas, se Conan Doyle esperava intimidar Leblanc com o processo e impedi-lo de publicar novas histórias usando sua criação, o escritor saiu bastante frustrado. No ano seguinte, quando o francês lançou a hoje famosa coletânea Arsène Lupin, Ladrão de Casaca, o detetive foi rebatizado para Herlock Sholmes. Pois é, o autor francês sequer tentou disfarçar. Não bastasse isso, o detetive da Baker Street voltou a dar as caras em outros três livros do ladrão, Arsène Lupin contra Herlock Sholmes, A Agulha Oca e 813. Quer dizer, a versão paródica dele, que morava na Parker Street e tinha como melhor amigo e companheiro de aventuras um homem chamado Wilson.

O descaramento de Leblanc foi tanto que, no conto A Mulher Loura, publicado entre 1906 e 1907, o francês chegou a escrever: “[...] nos perguntamos se ele mesmo, esse Herlock Sholmes, não é um personagem lendário, um herói expelido do cérebro de um grande romancista, de um Conan Doyle, por exemplo.”

Contudo, por mais afrontosa que pareça a postura do autor francês, ele era um fã de Conan Doyle. Quando o britânico morreu, em 1930, Leblanc escreveu uma homenagem, em que o elogiava enquanto contador de histórias. No texto, ele diz que é “infinitamente preferível” ter a habilidade de inventar as façanhas de um detetive do que realmente ser capaz de desvendar qualquer mistério e, convenhamos, não há dúvidas de que Conan Doyle era um expert em criar casos criativos e inusitados para seu famoso investigador. Essa admiração, ainda que acompanhada de ironia, pode ser sentida até nos contos de Arsène Lupin contra Herlock Sholmes. Porque, não importa quantas peças Lupin pregue em Sholmes, ele sempre se dirige a ele como “meu mestre”.

Como bem explica o ladrão de casaca em A Lâmpada Judaica, não há vencedor, nem vencido em um embate entre Lupin e Sherlock Holmes. Ambos podem reivindicar triunfos. Um raciocínio semelhante se aplica também à disputa entre Leblanc e Conan Doyle, com um porém: gerações de leitores se beneficiaram não apenas com as obras que escreveram, como com as que inspiraram e continuam a inspirar tantos anos depois. A série da Netflix Lupin certamente não é a última delas.

O livro

Arsène Lupin contra Herlock Sholmes é uma coletânea de duas histórias escritas por Maurice Leblanc, sobre as aventuras opondo Arsène Lupin a Herlock Sholmes. É uma continuação de Arsène Lupin, ladrão de casaca, notadamente a última história, Herlock Sholmes chega tarde.

As duas histórias foram publicadas pela primeira vez a partir de novembro de 1906 na revista Je sais tout. O volume saiu em 10 de fevereiro de 1908 com as duas histórias modificadas (o epílogo sobretudo). Uma outra edição surgiu em 1914 com novas modificações.

Esta aventura de Arsène Lupin, com cenário e tom humorísticos, contrasta com as obras mais sombrias de Leblanc, entre elas o livro seguinte, A Agulha Oca, com uma participação trágica de Sholmes.

Conteúdo
A coletânea contém duas narrativas:

1) A Dama Loura, publicada em Je sais tout de 15 de novembro de 1906 até 15 de abril de 1907. Divide-se em seis capítulos. Dois acontecimentos envolvendo uma dama loura e desaparecimentos misteriosos — o bilhete premiado do Sr. Gerbois e o diamante azul da condessa de Crozon — fazem com que chamem o célebre detetive inglês Herlock Sholmes, único capaz de enfrentar Lupin. Num brilhante trabalho investigativo, Sholmes descobre o segredo das quinze casas projetadas pelo arquiteto Destangue e "retocadas" com "tubos acústicos, passagens secretas, tábuas de assoalho que deslizam, escadas escondidas" por Lupin para lhe servirem de esconderijo e para outros fins criminosos. Só que, nesse meio-tempo, Lupin lhe prega uma série de peças.

2) A Lâmpada Judaica, publicada em Je sais tout de 15 de julho a 15 de agosto de 1907. Divide-se em dois capítulos. O Barão Imblevalle, a quem roubaram uma lâmpada contendo uma joia preciosa, chama Herlock Sholmes para encontrá-la. Lupin envia uma carta ao detetive pedindo que não intervenha. Sholmes a ignora e vai para Paris com Wilson. Finalmente consegue encontrar a lâmpada judaica, mas descobre que sua investigação teve o efeito oposto ao pretendido. Na verdade perturbou os planos de Lupin que pretendia ajudar a família do Barão. Primeira menção na obra sobre Lupin do lado "bom" do "ladrão de casaca". "— Então, você faz o bem também? [pergunta Sholmes] — Quando tenho tempo. Isso me diverte. Acho graça que, na aventura que nos ocupou, eu tenha sido o gênio bom que socorre e salva, e você o mau que traz o desespero e as lágrimas [responde Lupin]".

Fontes:
https://www.omelete.com.br/quadrinhos/arsene-lupin-vs-sherlock-holmes
https://mundinhodahanna.blogspot.com/2020/06/arsene-lupin-contra-herlock-sholmes-maurice-leblanc.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ars%C3%A8ne_Lupin_contra_Herlock_Sholmes

domingo, 20 de agosto de 2023

Therezinha D. Brisolla (Trov" Humor) 14

 

Goulart Gomes (O Professor)

A sirene tocou, indicando o final da aula. Os alunos apanharam seus materiais e retiraram-se apressadamente. O Professor, já de costas para a classe, apagava do quadro negro os apontamentos que fizera, sem atentar para o detalhe de que a sala não ficara vazia. Ao acabar seu meticuloso trabalho voltou-se para apanhar seus livros, confirmando a sua suspeita:

— Adorei a aula, Professor. - disse Míriam.

— Foi? Que bom.

— Apenas estou com algumas dúvidas.

— Pois não. É só dizer, eu estou aqui para tirá-las. Para isso servem os professores.

— Bem... eu não gostaria que fosse aqui. Não podemos ir a algum lugar mais sossegado? Lá em casa, por exemplo. Meus pais viajaram e nós poderíamos conversar tranquilamente, a sós.

O Professor olhou em seus olhos e um hiato de tempo abriu-se, então. Ele retornou anos e anos em sua lembrança, para recordar quando pela primeira vez olhos tão belos quanto aqueles o fizeram sentir o que ele chamou de amor. Ele era moço, muito moço ainda, idealista, romântico e sonhador. Luísa aparecera em sua vida por um destes acasos do destino, uma simples colega na sala de aulas, uma colega extremamente bonita e sedutora. Ele, um promissor herdeiro de relativo patrimônio e possuidor de sólida cultura. Atração, namoro e casamento sucederam-se numa pequena fração de tempo.

Depois de algum tempo, a dura rotina cotidiana transformou o sonho em pesadelo. O egocentrismo de Luísa a impedia de suprir a carência afetiva dele e tudo desmoronou. Vieram as discussões, as brigas. A insistência de Luísa em não querer filhos, em defesa da sua beleza estética, foi a gota d'água, e tudo acabou.

Para ela, uma rentável separação; para ele, a desintegração de um sonho, da ilusão de ser feliz, completar e ser completado por uma mulher, viver por e para alguém, amar e ser amado. Ele trouxera em si, até então, a cândida imagem de sua mãe e transportava este sentimento para todas as mulheres, fazendo delas pequenas deusas, seres puros, almas perfeitas, sem máculas e que jamais poderiam ser sequer magoadas. Luísa destruíra toda a sua concepção acerca do ser feminino. Para ele, agora, elas não passavam de seres dissimulados, falsos e mentirosos, que se compraziam em perpetuamente iludir o sexo oposto, deliciá-lo com seus prazeres para, então, enganá-los sordidamente.

Ele fugira. Fugira de Luísa e de todas as mulheres que depois surgiram, fugira do mundo. Apenas encontros casuais, contatos frugais e gozos banais. Ele fugira até de si próprio, refugiando-se em seu subconsciente.

E agora aparecia Míriam. Míriam que o olhava com ternura e lhe falava de amor, Míriam que quase o fazia tornar a acreditar em tudo o que já não acreditava, com seu jeito meigo de pós-adolescente. Míriam e seus lábios que diziam ter tanto a dar, seus olhos que brilhavam ao seu olhar, seu corpo que o fazia ter loucas fantasias, um convite ao prazer.

— Desculpe, Míriam, mas hoje eu vou estar muito ocupado.

— Tudo bem, Professor, fica para outra oportunidade.
*** *** ***

A noite transcorria fresca e calma. Alguns dias se passaram desde a objetiva "cantada" de Míriam. O Professor estava em casa, confortavelmente recostado no sofá, assistindo televisão e pensando. Pensando que buscara aquele recanto, aquele lugar tranqUilo do interior como um refúgio. Um refúgio do mundo, das pessoas e de si próprio. E logo ali o Senhor dos Seus Pesadelos viera buscá-lo, no corpo de Míriam: o Amor. E o Professor, que tanto fugira, deparava-se com ele e voltava a ver que este mesmo Senhor fora, outrora, o Dono dos Seus Sonhos.

Batem à porta e a confusão se fez maior quando, ao abri-la, depara-se frente a frente com Míriam.

— Boa noite, Professor.

— Boa noite, Míriam.

— Posso entrar?

— Claro.

Ela entra e senta-se no sofá, ele ao seu lado, olhando-a.

— O que há?

— Não dá mais. Eu juro que não aguento mais. Será que você não entende que eu te amo? Será que você não percebe que tudo que eu quero é ser sua, que só tenho ido ao colégio para ver você? Poxa, será que você é mesmo assim tão insensível? Será que não é nada disso tudo que eu imagino? Eu sei que você não é assim. Por favor, quebre este gelo. Eu não consigo parar de pensar em você!

Houve um brevíssimo silêncio. Lágrimas escorriam dos olhos dela. Ele se enternecera e sentia, mais uma vez, regredir anos para voltar a ser aquele jovem idealista, romântico e descobrir que Míriam estava a externar o que também ele já sentira ardentemente. Ele cedera, quebrara-se o encanto e uma porta há muito tempo fechada abriu-se: ele deixava o coração agir.

Envolveu-a nos braços e beijou-a.

— Eu te amo, disse ela.

— É. Eu acho que sim, respondeu-lhe.

A partir daí os corpos falaram mais que as bocas e eles se amaram, como nunca haviam amado antes.
*** *** ***

A reunião transcorrera animada. Foram delineados todos os pontos básicos para a fundação do Grêmio: estatuto, diretoria, sócios, direitos e deveres. Quando tudo acabou, Álvaro arrastou o Professor pelo braço e foram para um barzinho sossegado.

— Professor, a reunião foi o máximo, não acha?

— Realmente, foi muito produtiva.

O Professor via-se em Álvaro, quando ainda nos primeiros anos da juventude: idealista e entusiasta.

— Você vai longe, Álvaro.

— Talvez, Professor, talvez. Como se não bastasse esta base que criamos para o nosso Grêmio, terei ainda uma outra feliz reunião hoje.

— É? O que?

— Vou ficar noivo.

— Mesmo? Quem é a felizarda?

— Uma aluna sua: a Míriam.

O impacto não poderia ser maior. E então, o que acontecera? O Professor não sabia, ninguém saberia, nenhum de nós poderá saber. O certo é que no dia seguinte o Professor não foi ao colégio, nem no outro, nem em dia nenhum mais.

Ninguém daquela cidade saberia dizer o que acontecera com ele, para onde fora. O Professor simplesmente desaparecera. Enquanto na festa de noivado, Álvaro sorria feliz e Míriam relembrava os momentos que passara junto ao Professor, acreditando que ainda haveria muitos outros, ele partia, em busca de um outro mundo, onde não existissem ilusões.

Fonte:
Goulart Gomes. Todo tipo de gente. Poético Edições, 2011.

sábado, 19 de agosto de 2023

Carolina Ramos (Trovando) “02”

 

Luiz Augusto Pierin (Fábulas indígenas)


"Macaco velho não mete a mão em cumbuca". Bem velho é esse ditado, -nossos avós já o recitavam. Seu significado, também, não é mistério p:ara ninguém. O que a maioria sequer desconfia é que esse velho ditado foi cunhado em tempos imemoriais pelos índios tupis brasileiros. Eles pronunciavam algo como; "Kaí tuimbaé i pó kuiambuka pupé ndoimonden”.

A "literatura", por assim dizer, de nossos indígenas era vasta, mesmo com sua característica de transmissão oral. Isso incluía os primeiros ocupantes do território que hoje vem a ser o Paraná, principalmente os guaranis. Algumas de suas lendas - como a da criação das Cataratas do Iguaçu, por exemplo – são fartamente conhecidas, Mas suas criações abrangiam, ainda, muitas histórias tipo fábulas, provérbios e trovas — algumas de grande apelo poético.

Diversos antropólogos, linguistas e outros estudiosos, principalmente nos séculos XVIII e XIX, recolheram e compilaram parte da produção literária ou do imaginário dos nossos índios, entre os paranaenses. Fáris Antonio S. Michaele, no seu trabalho “Presença do índio no Paraná" (in História do Paraná - Coleção Grafipar), destaca, por exemplo, belas fábulas como a da onça e a raposa.

Há muito tempo que a onça queria deitar as patas - e a boca - na ladina da raposa. Esta, além de ágil, era muito esperta, e sempre escapava da onça. Até que a onça bolou um plano que julgava infalível para pegar a raposa: fingiu-se de morta. A notícia da morte da rainha da floresta correu a mata, todos os animais apareciam para ver e velar a onça morta.

A raposa perguntou então aos outros animais:

- "A onça já arrotou três vezes?"

Ante a surpresa dos demais animais, a raposa tratou de esclarecer que toda onça, quando morre arrota três vezes. Ao ouvir a explicação, a onça cuidou de convencer a bicharada toda de que, realmente, estava morta, e arrotou forte três vezes. A raposa, mais que depressa, deu no pé, não sem antes dar uma gostosa gargalhada; "Onde já se viu um defunto arrotar?"

Já a história indígena, da raposa e do jabuti lembra em muito a nossa fábula do coelho e da tartaruga. Nas duas histórias os bichos apostam uma corrida. Só que, no caso da fábula indígena, o jabuti é muito mais esperto.

Na história indígena, o vencedor da corrida ganha como prêmio o direito de casar com a filha do gavião. Como é muito devagar, o jabuti pegou sua parentada toda — centenas de outros jabutis iguais a ele — e colocou os bichos em intervalos regulares ao longo do trajeto. E dada a largada e lá se vão a raposa e o jabuti. A raposa dispara na frente, é claro, e volta e meia olha para trás, para se certificar que o jabuti está longe. Mas o que vê a raposa? Um jabuti quase nos seus calcanhares. A raposa apressa a corrida, olha para trás e o jabuti continua no seu encalço. Até que a raposa não aguenta mais, desfalece de cansaço, e o jabuti ganha a corrida.

Para completar, uma trovinha em guarani:
"Ixe, man, guirá mirim!
Xá rekó, man, cepepó.
Xa bebê ne rakaquera
Xapuana ne reko”

A tradução nos revela uma bela e sutil poesia, que nada deixa a dever aos mais sensíveis haicais. A tradução diz: "Se eu fora um passarinho, oh, quem me dera! Eu teria minhas asas, voaria no teu encalço, e me ergueria ao pé de ti."

Fonte:
300 Histórias do Paraná: coletânea. Curitiba: Artes e Textos, 2004.

Afrânio Peixoto (Trovas Populares Brasileiras) – 17


Atenção: Na época da publicação deste livro (1919), ainda não havia a normalização da trova para rimar o 1. com o 3. Verso, sendo obrigatório apenas o 2. Com o 4. São trovas populares coletadas por Afrânio Peixoto.
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Dois beijos tenho menina,
que jamais esquecerei;
0 último de minha mãe
e o primeiro que te dei.
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Comer, beber, já não posso...
0 que foi que aconteceu?
A boca não quer perder
o sabor do beijo teu.
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Dois beijos tenho na boca
que jamais esquecerei:
0 primeiro que me deste,
o primeiro que te dei.
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Tenho fome, tenho sede
e você não adivinha;
Tenho fome dum abraço
e sede duma boquinha.
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Na palma de tua mão
dei um beijo certo dia
e vim com a boca cheirando
a aroma de melancia.
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Olhos pretos matadores,
cara cheia de alegria,
um beijo de tua boca
me sustenta todo o dia.
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Meu amor está mal comigo,
pelo beijo que lhe dei;
Beijo não se pede, dá-se,
foi por isso que eu tomei...
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A tua boca de rosa,
dela tem aroma e cor,
quisera que os seus beijos
fossem abelhas dessa flor.
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Bem contra minha vontade
caí do amor nos laços...
Corri, faltaram-me pernas,
resisti, abrindo os braços.
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Os braços de toda gente
querem o mundo abarcar.
Eu não, eu quero somente
os meus pra te abraçar.
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Vai-te, carta, que te mando
ao pé daquele jardim,
ajoelha, pede licença,
dê vinte abraços por mim.
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Quando eu sinto, em tempo frio
o beiço me resfriar,
nos pés das moças bonitas
dou beijos pra me esquentar.
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Lá vai a lua saindo
por detrás da pimenteira...
Já me dói o céu da boca
de beijar moça solteira.
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Cegou-me a luz de teus olhos
enlouqueceu-me teu beijo:
Louco, porém, mais te adoro
e cego, é que mais te vejo.
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Os meus sorrisos perdidos,
os meus prazeres de outrora,
quem me dera tê-los hoje
sabendo o que eu sei agora!
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Se eu quisesse misturar
leite cru e mel de abelha,
teria, meu bem, a cor
que a tua mais assemelha.
= = = = = = = = = 

Meu amor é trigueirinho,
todo queimado do sol,
assim mesmo é que o quero:
– Quanto mais preto melhor.
= = = = = = = = = 

Esta cor quase da noite,
esta cor que Deus lhe deu,
se os outros não gostam dela,
que importa, se gosto eu!?
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Vinde cá, minha bem feita,
corpo de fita lavrada,
cinturinha de mesura,
rosto de santa louvada!
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Um laço de fita verde
com três dedos de largura...
0 corpo de uma morena
mata qualquer criatura.
= = = = = = = = = 

Queria ser costureira
para te fazer um vestido:
Terias todo o teu corpo
nos meus beijos envolvido.
= = = = = = = = = 

Morena, minha morena,
corpo de linha torcida,
queira Deus você não seja
perdição de minha vida...
= = = = = = = = = 

Se tu fosses uma árvore,
eu quisera ser cipó;
vivia em ti enroscado,
em teu corpo dando nó...
= = = = = = = = = 

Morena, minha morena,
sobrancelha de veludo,
não importa sejas pobre,
teu corpo merece tudo!
= = = = = = = = = 

Por ser assim pobrezinha.
não tenha inveja a ninguém,
o seu vestido tem mancha
mas o seu corpo não tem.
= = = = = = = = = 

Esse teu cabelo louro
é que me faz confusão;
nas franjas deste cabelo
perdeu-se o meu coração.
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Fonte:
Afrânio Peixoto (seleção). Trovas populares brasileiras. RJ: Francisco Alves, 1919.
Disponível em Domínio Público 

Teófilo Braga (A Ogiva sombria)

Sem dúvida, no tempo da mais bela flor da arquitetura gótica, quando foi construída a catedral de Colônia, ligava-se uma grande importância a estes números simbólicos, porque a concepção ainda confusa das ideias racionais, contenta-se facilmente com estes sinais exteriores.

A Catedral! a criação suprema da Idade média, em que a arte, pelo sentimento, em uma estrofe de pedra, sabe concentrar o espírito radiante do cristianismo, pela força audaciosa do símbolo! Ela representa a aspiração incessante da alma que se eleva para o céu; é ela como a Esposa dos Cantares, que espera em silencio a visita do Amado, e se veste de suas galas e realça de encantos. A curva suave da Ogiva imita uns párpados (sobrancelhas) lânguidos, uma pupila cismadora, enleada naquele êxtase sensual do amor divino, que Thereza de Jesus sentia nos seus delírios místicos; as flechas atrevidas, atiradas para os ares, a linha a infinitivar-se, a perder-se no espaço, as agulhas bordadas, rendilhadas, são os cabelos dispersos, flutuantes da donzelinha, que se assenta cansada de errar pelas brenhas e em volta da cabana dos pastores à busca do amado. A cúpula altiva, representando aquele momento em que a alma se desprende dos limos terrenos e se absorve toda na mística unitiva, é o colo, que o poeta dos Cantares comparava à torre de marfim que olha para o ocidente, e cuja majestade é semelhante à da lua que se alevanta. Miguel Ângelo chama também a uma igreja, nas efusões do seu panteísmo artístico, mia sposa.

Cada monumento antigo é como uma fronte veneranda, enrugada pelos séculos, animada por uma expressão profunda. Essa expressão é a linguagem dos vos, criada pelo espírito que não pode contemplar um fato, acreditar na sua existência independentemente de uma ideia, de uma razão de ser que procura achar nele. É a fatalidade do enigma do esfinge. As Catedrais góticas reúnem quase sempre a lenda piedosa com a lenda grotesca e diabólica; elas são como a incerteza da alma que paira duvidosa entre a possessão e o êxtase. Umas vezes, são os anjos que vêm de noite trazer de longe grandes blocos para a edificação da fabrica, que lavram a pedra, que levantam o mosteiro. É a inspiração do anônimo nas obras grandiosas. Ás vezes, é o diabo, que com a mira em dilatar o seu império faz tudo, e transporta para a construção as melhores peças que rouba de outros monumentos, como uma coluna do templo de Diana em Éfeso para o templo de S. Zenon em Verona. A alma do arquiteto está retratada na sua concepção; receando de suas forças para realizar o ideal sublime dos sentimentos do cristianismo nos monolitos de mármore para que cria uma forma, não teme evocar a potencia das trevas. Nas Ogivas escuras, soturnas das Catedrais góticas, nos arabescos extravagantes das janelas esguias, nos monstros boquiabertos que servem de goteiras, nos basílicos informes dos pedestais, reflete-se esta aliança do misticismo poético com o misticismo divino. Muitas vezes a Catedral tem o mistério de um símbolo que se mobiliza para exprimir os sentimentos da humanidade; com as invasões e descobrimentos marítimos ela toma a forma de um navio voltado para o Oriente, donde lhe vem a luz; também imita uma cruz estendida ao longo, como na nossa maravilha de arquitetura, a Batalha, o poema da crença e do heroísmo de um século.

Estamos em plena Idade média. A noite era caliginosa e tétrica; o coriscar frequente dos relâmpagos, o ribombo estridente dos trovões repercutindo-se distante, e o restrugir medonho da floresta, completavam as harmonias intraduzíveis da tempestade. A alma, diante deste espetáculo estupendo da natureza, sentia uma pressão que a fazia concentrar-se possuída do sentimento do infinito, a que os homens que tudo indagam e submetem ás formulas metafisicas chamam—o sublime.

Via-se através da obscuridade absoluta das horas mortas um clarão incerto, como de a lâmpada veladora. Seria algum discípulo de Flamel ou de Lullo absorvido pelos mistérios da alquimia, submetendo a matéria, interrogando este Proteu eterno, que, a cada pergunta ostenta uma forma diversa, e responde de mil modos diferentes, sem que cheguem a surpreender-lhe o segredo de sua simplicidade? Seria um monge solitário enlevado na paz ignota da vigília, procurando, no silencio da noite, elevar-se pelo coração até Deus? A luz jorrava da janela do aposento humilde e sombrio. Dentro, sentia-se o respirar cansado de um peito opresso; a a lâmpada espalhava em torno uma penumbra em que flutuavam as visagens caprichosas de uma mente desvariada, e vinha refletir-se pálida, descorada sobre o rosto macilento, em que os gestos davam uma expressão incompreensível como os pensamentos que o agitam. Via-se naquele rosto impressa a ansiedade dos que penetram pela intuição a verdade de um problema insolúvel, e uma distração leve lhe a fez esquecer. Sobre uma mesa estavam pergaminhos extensos, desenrolados, cobertos de linhas cabalísticas, com que se evocam os espíritos noturnos, compassos e astrolábios, esferas e mapas.

Era ali que morava mestre Gerardo, o arquiteto da Catedral de Colônia. Estava contemplando o traçado da sua obra; a fisionomia animava-se-lhe de quando em quando com uma luz, um resplendor vivo de transfiguração, como num êxtase em que o ideal se deixava tocar, determinar em uma forma só concebida pela mente do homem. Os cabelos andavam-lhe revoltos, espalhados sobre a fronte, como nas convulsões de uma sibila quando entrevê o futuro, e sente o influxo vertiginoso que lhe dita o vaticínio. Depois, uma sombra espessa, como de um desgosto repentino, veio ofuscar-lhe a serenidade que se lhe espelhara na fronte, em que os anos redobravam a majestade.

Nisto, levou a mão à cabeça, como para suster o impulso de uma ideia que lhe ocorrera:

—A arte! a arte! é ela que me vem descobrir estas linhas que eu fixo no mármore, e que hão de ser a admiração dos séculos. Ela vem-me ensinar este segredo do ornato, a variedade disposta de modo, que leva o espírito à unidade do pensamento. A arte é uma religião que inspira também uma fé viva, ardente, intensa, e dá forças para afrontar a duvida, que cerca e punge o espírito criador. Um dia duvidaram de mim; não imaginavam que eu pudesse levantar essa mole de pedras, uma Catedral representando o voo místico da alma! Riram-se do plano da minha obra! Eu tenho pensado dias e noites, como na virgem eleita dos sonhos da mocidade. A Catedral! ela aparece-me na fantasia, iluminada por um sol fulgurante, transbordando de musicas e harmonias suaves, perfumada de incenso, revestida de purpura, reclamada de ouro, como a noiva que se veste para entrar no aposento do real esposo. Cada pedra que se vai dispondo, cada arco, cada pilastra erguida, é a ponta de um véu que se alevanta e me deixa vê-la, sonha-la, idealiza-la sobre essa realidade incompleta. É como a terra que vai aparecendo vagarosamente ao nauta cansado das tormentas, à medida que se esvaece o nevoeiro da madrugada. A Catedral! a Catedral! eu cismo e estremeço diante dela, quando a contemplo; sinto o delírio do artista grego apaixonado pela carnalidade que ia descobrindo o seu escopro (cinzel). Ela parece-me uma fada escondida, e que a arte me descobre o segredo para quebrar-lhe o encantamento, e mostra-la excelsa, bela, radiante elevando-se para o alto numa ascensão divina. Eu queria vê-la suspensa nos ares, servindo-lhe as nuvens e os cúmulos alvacentos de pedestal! Agora já me não inspira terror o desdém dos meus inimigos: descobri a ultima estrofe do poema da minha vida, hei de confundi-los, faze-los curvar-se adorando-a: é o zimbório, a cúpula arrojada ás alturas, semelhante ao voo estático da alma até à absorção em Deus.

Havia nestas palavras a vibração frenética do delírio; mestre Gerardo de Colônia ficou silencioso como na prostração dos fortes impulsos que lhe dera a alegria. Os olhos brilhavam humedecidos, cintilantes, exprimindo o regozijo intimo da contemplação da sua alma. E tornou a inclinar-se sobre a folha de pergaminho, a recompor na mente as linhas que ali traçara num momento de inspiração. Depois, acometido por um novo acesso de entusiasmo, arremessou de si o traçado; os olhos flamejaram coruscantes, parecia que estava doido:

—Eu quero mostrar assim, que essas Confrarias dos obreiros construtores de Strasburg, de Viena, de Zurique e Magdeburgo não podem disputar a proeminência a Colônia. Todos os obreiros e artífices da Baixa-Alemanha hão de reconhecer em mim a supremacia do chefe. Que importa que Strasburg queira ser a sede da grande mestria? De que vale a homenagem prestada pelas confraternidades maçónicas da Alta-Alemanha, de uma parte de França, da Hesse, da Suábia, de Thuringe, da Francônia e da Baviera? O zimbório da Catedral há de erguer-se bem alto para a admiração de todos.

E calou-se de repente, como envergonhando-se diante de si mesmo, de se haver deixado possuir daquela vaidade. Depois continuou com dor:

—Quantos monumentos estupendos, quantos obeliscos gigantes, que assombram as idades, e que mostram o poder criador do homem, competindo com as criações de Deus, quantas maravilhas espalhadas pela superfície da terra, e que o arquiteto não quis que se soubesse o seu nome, com uma abnegação sublime da gloria do mundo! Eu que ainda não completei a minha obra, que a tenho aqui na cabeça, nem sei mesmo se chegarei a realizar este sonho, se terei a força de Atlante para suster nos ares a cúpula audaciosa, eu, mesquinho, ufano-me, ensoberbeço-me! O gênio não tem consciência de si, não conhece o poder mágico de que dispõe, por isso não se infatua. O que é a gloria do mundo ante a glória celeste! Ilusão que nunca chega a ter um momento só de realidade; é uma nuvem tenuíssima que tolda o azul diáfano do empíreo. Para a alma do que preliba os encantos do céu, a glória do mundo é uma tentação dolorosa, um martírio incessante; porque então para ela a vida é como a luz vivida da a lâmpada, que se consome no silencio da noite diante da imagem veneranda; assim, a alma procura envolver-se no olvido, no esquecimento de si para resplandecer mais pura.

Os legendários estão cheios destas lutas violentas com os sentimentos mais profundos do coração do homem. Um dia Rubens estremeceu atônito diante de um quadro escondido na penumbra de um coro em uma igreja espanhola; o quadro era um mistério quase impossível de ser traduzido, divulgado pelas cores sobre a tela. Era a morte do justo. A mórbida expressão do rosto macilento, uma auréola divina difundindo-se em roda, a alma ansiosa pelo jubilo do céu a exalar-se docemente, como o último raio do sol da tarde, e por sobre a cabeça os anjos debruçando-se das alturas a contemplarem o monge na hora do passamento! Era uma transfiguração sublime, a ideia mais bela, a que resume todo o cristianismo, revelada pela arte. Quando o grande pintor voltou a si daquele êxtase imprevisto, sentiu-se pequeno ao pé de uma criação tão perfeita. Perguntou ao monge que o conduzia, que pincel realizara tamanha obra, para confessar-se seu discípulo, e proclama-lo à admiração do mundo. O monge sentiu um estremecimento convulsivo, e respondeu-lhe apenas:—«Não é já do mundo!» e quando ele voltou à sua cela, juntou os pincéis, a palheta e lançou-os na corrente de um ribeiro que deslizava manso à falda da janela; e para esconder as lágrimas que ainda uma vez lhe escaldaram as faces retintas na palidez da penitencia, foi procurar conforto na oração fervorosa. Como não teria também esta energia para lutar consigo aquele que escreveu na mudez da cela um livro de resignação e conforto, a Imitação de Cristo, e que abnegou dessa gloria para não torna-lo uma mentira!

Mestre Gerardo de Colônia ficara absorvido em uma meditação profunda. A tempestade continuava solene e grandiosa na mudez da noite. Sentiu um leve rumor no aposento, que a contenção de espírito em que estava mal deixou perceber. Prestou ouvidos. Batiam à porta.

—Quem será? assim tão fora de horas!—e correu os ferrolhos. Entrou uma figura alta, embuçada em um gabinardo longo, o rosto assombreado pelas abas de um largo chapelão.

—Quem sois?—inquiriu o arquiteto, preocupado ainda na sua abstração.

—Sou um irmão da Confraria dos obreiros construtores de Strasburg;—tornou o desconhecido com uma voz cava.

—Entrai.

Sentaram-se, contemplando-se um instante silenciosos.

—A que vindes?

—O que me traz?—redarguiu o desconhecido com um tom de ironia acerba,—deves sabe-lo melhor do que ninguém. Confias no zimbório da Catedral de Colônia, para quereres assim submeter à tua supremacia a mestria central de Strasburg. É impossível e quimérica essa tua loucura. As grandes lojas querem todas a independência. Demais o zimbório, a obra que é o teu orgulho, não está pronta e talvez nunca a possas levar ao cabo.

Mestre Gerardo ficou espantado, hirto de raiva diante da audácia do desconhecido. Depois, volveu-lhe com uma severidade que lhe abafava a voz:

—Ainda sou arquiteto! E o zimbório há de ser o primeiro a saudar no alto os alvores do sol quando se alevanta. Juro pela minha alma.

—Aposto em como te enganas!

—Aposto em como te hei de confundir, e a todas as maestrias rebeldes da Alemanha! —insistiu o arquiteto.

—Pois bem! Eu comecei há dias a obra do Aqueduto de Treves, e espero ainda vê-lo acabado antes de teres pronta a Catedral. Se assim não for, no dia em que deres por acabada a tua obra, despenho-me do Aqueduto. Tu precipitas-te também dos coruchéus (torres pontiagudas) da Catedral se eu vier reclamar primeiro? Aceitas a aposta?

—Aceito.

—Juras?

—Juro.

A este instante ouviu-se longe o canto do galo. O interlocutor misterioso desapareceu subitamente ás primeiras notas do anúncio da alvorada. Foi então que o arquiteto reconheceu o diabo; não quis acreditar na realidade daquele pesadelo. O canto do galo é celebrado nos hinos da igreja, principalmente nos de Santo Ambrósio.

Galo canente vigilemus omnes. (vamos todos assistir com o canto) Ele simboliza a voz interior que desperta a alma do sono da tentação; foi o canto do galo que despertou também a Pedro no átrio do Pretório, quando renegou o Mestre. No misticismo poético ele representa uma parte importante. A imaginação exaltada pelos sonhos da noite não podia deixar de revesti-lo de mistério. Já a Grécia lhe havia formado o mito: é o castigo de Alectrião. A sombra que reclama de Hamlet uma vingança, o coro das feiticeiras de Macbeth, desaparecem com a magia desse canto.

Um dia o arquiteto subira à Catedral; estava prestes a terminar-se a cúpula. A alegria alucinava-o. Aparecer-lhe então uma cabeça disforme, rindo, confrangendo-se em esgares satânicos por entre as sombras profundas de uma ogiva. Disse-lhe que estava pronto o Aqueduto de Treves. Mestre Gerardo empalideceu e voltou o rosto à pressa! Aquela nova enterrava-o. Baixou os olhos como para suspender uma vertigem instantânea, fatalmente o relance mediu a altura da Catedral; o ângulo visual dilatou-se de modo que lhe produziu a atracação do abismo. Resistiu debalde, vacilou um instante e despenhou-se por fim. Disseram que fora a alegria explosiva de ver a sua obra, que lhe causara o desvario que o precipitou.

Assim conseguiu estabelecer o seu predomínio à Maestria central de Strasburg.

Fonte:
Disponível em Domínio Público
Teófilo Braga. Contos Phantásticos. Lisboa: Livraria de Antonio Maria Pereira, 1894.
Português atualizado por J. Feldman