terça-feira, 20 de agosto de 2019

Contos e Lendas do Mundo (Izanami e Izanagi: A Criação do Japão)


Izanami (aquela que convida) e Izanagi (aquele que é convidado) eram deuses que representavam o Céu e a Terra, e foram eles os criadores de Oyashima (as grandes oito ilha do arquipélago japonês). Também criaram o Sol, a Lua, as tempestades e outros fenômenos naturais além de serem os responsáveis ​​pelo nascimento de outros deuses e da civilização japonesa como um todo.

Naqueles tempos primórdios, só existia um oceano de caos. Kunitokotachi, o governante eterno da terra, apareceu da massa borbulhante com duas divindades subordinadas. Desses deuses nasceram Izanagi e sua irmã (futura esposa) Izanami, considerados enviados dos céus. Depois de criar uma ilha utilizando um arpão, ali estabeleceram um lar e criaram uma coluna sagrada.

Caminhando em direções opostas ao redor da coluna, o casal se encontrou e Izanami elogiou a beleza de Izanagi. Então se casaram e o primeiro filho que nasceu foi um monstro; o segundo, uma ilha. O casal então pediu explicações aos deuses que lhes informaram que a iniciativa do encontro sexual tinha que partir de Izanagi e não de Izanami, como vinha ocorrendo até então.

Seguindo essa orientação, tiveram mais filhos, não só as ilhas que formam o Japão, como inúmeras divindades. O último a nascer dessa união foi Kagutsuchi, o deus do fogo, que acabou queimando Izanami, provocando sua morte. Do vômito, da urina e dos excrementos da deusa ao morrer, nasceram outros deuses. Izanagi ficou tão furioso com o filho, que o decapitou com a espada.

Das gotas de sangue de Kagutsuchi (deus do fogo) que caíram da espada nasceram oito deuses e do corpo sem cabeça de Kagutsuchi surgiram mais oito divindades da montanha. Inconsolável com a morte de Izanami e como ainda não tinham acabado com o trabalho de criação da terra, Izanagi se dirigiu até a “terra das melancolias” (yomotsu-kuni) para tentar resgatar sua esposa.

Ela o recebeu na porta dos infernos e pediu-lhe que esperasse ali enquanto organizava sua liberação dos poderes da morte, proibindo-o que entrasse e a olhasse de perto. Com saudades de sua mulher, Izanagi não esperou e acendendo uma tocha, penetrou na terra da melancolia e teve a horrível visão de Izanami em plena decomposição, e em volta vermes retorcidos e serpentes.

Sentindo-se humilhada, a deusa mandou soldados do inferno, mulheres horríveis e deuses do trovão para que despedaçassem Izanagi, mas este conseguiu repelir os demônios e fugir. Ao final, Izanami saiu da cova e se divorciou do marido, retornando depois para o inferno, cuja porta foi fechada com uma enorme rocha, separando definitivamente o mundo dos vivos com a dos mortos.

Izanami se sentiu desonrado pelo acontecido e foi se purificar no mar. Ao tirar a roupa e seus objetos pessoais, estes se converteram em deuses e deusas. A sujeira que saiu no banho se transformou em outros deuses malignos, forçando Izanagi a criar deidades marinhas para manter o equilíbrio.

Ao lavar o rosto, de seu olho esquerdo nasceu Amaterasu, a deusa do sol, do seu olho direito, Tsuki-yomi, o deus da lua, e do seu nariz Susanowo, o deus da tempestade. A deusa Amaterasu herdaria os céus, Tsukuyomi tomaria o controle da noite e Susanoo seria o deus da tempestade e dos mares.

Fonte:
Japão em Foco

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Francisco José Pessoa (Domingo, Dia de Graça)


A cortina do meu quarto, contrariando a dos palcos teatrais, fecha-se nos finais de semana, fruto de um acordo matrimonial. Mesmo sem ser chocalhado pelo brilho matinal de um novo dia, no domingo, levanto-me cedo, procurando aproveitar os três turnos a que tenho direito.

Por ser um dia de graça, pela manhã engraço-me com meus escritos. À tarde, tenho as graças afetuosas do meu pai que, revestido dos seus 93 anos, alterna situações avoengas e atuais, num tempero de realidade e fantasia, No turno terceiro, dou graças por estar junto da família "au complet", quando os sentimentos paternais sorriem de contentamento e os filiais vão além dos carinhos.

Domingo é dia de graça, sim, quando meu time do coração joga e vence. Enche-se de mais graça quando é feriado na segunda. Torna-se malvado, querendo voltar o tempo e mexer com meu passado envelhecido, quando ia para a missa na Igreja das Missionárias e rezava para encontrar-me com a menina que eu namorava e ela nem sabia. Malvado por mexer com meu passado de um dia desses, quando deixava meu lar ainda em sossego e me dirigia para o plantão do IJF (Instituto José Frota). Ah! Domingo, lindo dia...

Já não me lembro do último domingo que fui à praia, embora ela fique no meu quintal, posto que, sou morador do Mucuripe. O prazer de saborear caranguejo, esquartejando-o num ritual quase macabro, são páginas passadas das minhas manhãs dominicais. Baco ausentou-se do meu Panteão por estar de férias, talvez...

Antes que o esfaimado cuco anuncie a hora do almoço, acelero o passo da imaginação para terminar meu escrito em tempo e curtir uma merecida sesta que se nega para mim no decorrer da semana.

Domingo, o dia do sol dos pagãos, o mesmo sol do qual me escondo por detrás de uma cortina. Sempre aos domingos.

Fonte:
Livro enviado pelo autor.
Francisco José Pessoa de Andrade Reis. Isso é coisa do Pessoa: em prosa e verso. Fortaleza/CE: Íris, 2013.

Luiz Damo (Trovas do Sul) II


A lua sem vacilar
num olhar de sedução,
garante que seu luar
rompe toda escuridão.

Ao buscares resultados
de uma longa trajetória,
saiba que de pés atados
não terás lugar na história.

Ao plantar singelas flores
para os passos perfumar,
não sinta somente olores
mas vida a se transformar.

As folhas empalidecem,
pelos ventos são levadas,
entre acenos agradecem
e partem em revoadas.

Criança não quer dinheiro,
quer afeto, quer carinho
e que alguém seja primeiro
uma luz no seu caminho.

De amar com força divina,
ao casal ninguém impeça,
a promessa não termina
mas a vida recomeça.

Ecos de fraternidade
por todos sejam ouvidos
e os dons da felicidade
também possam ser vividos.

Fiz das mãos os instrumentos
que dão forma às convicções,
transladei meus pensamentos
ao papel sem evicções.

Felizes dos que convivem
com seus verdadeiros pais.
Escutem enquanto vivem,
de amá-los deixem jamais.

Folhas secas ou maduras,
dançam ao sabor dos ventos,
serão lembranças futuras
e dignas de cumprimentos.

Nada existe de tão certo
quanto a indesejada morte,
quando dela estamos perto
pedimos: Deus nos conforte!

Não denota nenhum luxo
ser gentil e hospitaleiro,
dons presentes no gaúcho
para o orgulho brasileiro.

Ninguém se julgue maior
neste mundo em mutação,
lapidado é bem melhor
nosso ser, nossa missão.

Nosso abraço carinhoso
para quem promove a paz,
que o Deus todo poderoso
recompense o bem que faz.

O amor exige da gente
morte lenta a cada dia,
se ele não fosse exigente
de amor não se chamaria.

O que a vida nos ensina
não venhamos esquecer,
a grande lição divina
é de amar até morrer.

O tempo em ciclo perfeito
faz a folha vangloriar,
na certeza de ter feito
a plantação respirar.

Outono, luz desbotada,
folhas secas pelo chão,
velha marca registrada
dessa marcante estação.

Por mais rigoroso o frio
não faça a alma congelar,
nem mesmo o leito do rio,
tenha efeito similar.

Que a saúde sempre esteja
conosco, todos os dias,
mesmo frágil, nos proteja,
das quedas e das fobias.

Se a demora for imensa
e jamais puder voltar,
a saudade será intensa
na vida de quem ficar.

Se à farinha adicionar
os devidos ingredientes,
pão poderemos formar
com valiosos nutrientes.

Todo o mundo anda apressado
sem ter tempo pra pensar
e eu também estou cansado,
quero à sombra descansar.

Um mar de grande ternura
luz de primeira grandeza,
fonte de sábia cultura,
Mãe de infinita riqueza.

Um sorriso pouco custa
mas muito pode valer,
o pranto que tanto assusta
some sem nada fazer.

Verdes matas orvalhadas
com o néctar da saudade,
sempre vivas, espalhadas,
nos campos da mocidade.

Fonte:
Livro enviado pelo trovador.
Luiz Damo. A Trova Literária nas Páginas do Sul. Caxias do Sul/RS: Palotti, 2014.

domingo, 18 de agosto de 2019

Dorothy Jansson Moretti (Três Cinemas… Três Saudades…)


O cinema foi a grande diversão do meu tempo de jovem. Embora a geração atual critique os filmes daquela época, classificando-os de caretas, e dizendo que eles pretendiam mascarar uma realidade totalmente diferente da que mostravam as telas, o cinema distraiu e encantou o pessoal da minha geração com seus musicais atraentes, com seus astros e estrelas famosos e com suas histórias bonitas que não precisavam apelar para a vulgaridade e a pornografia para atrair o público e garantir a frequência.

E já que estamos no terreno das memórias, também tenho as minhas sobre os cinemas de nossa cidade.

Começo pelo Cine Itararé, o mais novo e que resistiu por maior tempo à avalanche que desabou sobre esse tipo de diversão. Lembro-me bem do dia em que dei meu voto para o nome do novo cinema: Cine Caiçara. A sugestão foi de minha amiga Lourdes Mello e eu aderi imediatamente, sempre adorei o Caiçara. Aguardei com vivo interesse o resultado. Venceu a votação o nome "Itararé", não menos querido e que por isso acolhi também com carinho.

Quando ainda em construção, visitei o prédio em companhia de minha amiga Zilá. O Antoninho Colturato, um dos donos, gentilmente mostrou-nos as excelentes instalações quase prontas, e a enorme e bela cortina que ainda não havia sido colocada.

Estive presente à inauguração, com a Zilá. Estávamos ambas encantadas com as músicas que tocavam antes de começar o filme, selecionadas com extremo bom gosto. Encantava-nos também a beleza do ambiente e sentíamos orgulho por contarmos com um cinema tão requintado em nossa cidade. Fui frequentadora assídua dele, tanto quanto do velho e querido São José.

Do Cine São Pedro quase não me lembro. Povoam-me vagamente a lembrança algumas imagens de um filme de Mojica, "O Capitão de Cossacos"; da música desse filme, entretanto, jamais me esqueci: "O amor... o amor é um mistério que não posso compreender..."

Meio nebulosa também é a lembrança de uma tarde de domingo, muito quente e de muita chuva, em que assisti a uma competição de patins no salão desse cinema. Mais uma ou outra matinê, e está completo o fiozinho de minhas recordações do velho São Pedro. Nesse tempo ele pertencia à família Totti.

Foi, porém, o Cine-Teatro São José, do nosso querido amigo Seu Geninho, o que mais marcou minha infância, adolescência e idade adulta. Fora construído entre os anos 15 e 20, imitando o Teatro Scala, de Milão. Com o advento da tela panorâmica e do cinemascope, ele sofreu as alterações necessárias e perdeu muito de suas características anteriores.

Ali participei de peças e atos variados infantis, ensaiados pela professora Dona Aracy de Mello, no meu tempo de grupo escolar. Ali, mais tarde, aos dezesseis anos, cantei uma seleção de valsas de Strauss, acompanhada ao piano por minha amiga Consuelo Ferreira, num festival dirigido por Dona Maria Alencastro Guimarães Corrêa.

Ali assisti a muitas apresentações do grêmio "Os Repentinos", criado pelo velho Seu Peppo, com um elenco de artistas que não pareciam amadores, mas sim autênticos profissionais, tal a naturalidade com que pisavam naquele palco e viviam os seus papéis.

Ali vi inúmeras companhias ambulantes de teatro e vi muitos dos artistas que se destacavam na época.

Houve um espetáculo que sempre vou lembrar com muita emoção. Foi com o casal Maestro Gaya (para nós, itarareenses, o Dudu Gaya; ele era de Itararé) e sua esposa Estelinha Egg. Ambos tinham feito uma turnê pelo país e — folcloristas como eram - haviam produzido uma infinidade de músicas regionais de muita graça e beleza. À certa altura do espetáculo, a luz faltou (isso ocorria com frequência, para transtorno do pessoal envolvido), e como não voltava a acender-se, foram providenciadas velas em profusão para que o show pudesse continuar. E continuou. E Dudu tocava. A Estelinha cantava. Foi lindo demais! Uma das músicas, de caráter místico, ficou ainda mais impressionante à luz
fantasmagórica das velas.

Ao terminar o espetáculo, fui ao palco, cumprimentar o casal, e falei à Estelinha:

"Garanto que se as luzes estivessem acesas, o efeito não teria sido tão arrebatador!" Ela e Dudu concordaram.

Nas tardes de domingo havia matinê dançante no São José. Amontoavam-se algumas fileiras de assentos, fazendo-se espaço para o pessoal rodopiar as valsinhas, os sambas, os foxes e os boleros da época. A música era ao vivo. O próprio Barbozinha abrilhantou muitas dessas domingueiras, com o seu famoso acordeon.

Terminada a dança, antes de se apagarem as luzes, e começar o filme, era divertido ver o pessoal chegando. Um ou outro rapaz que no momento era objeto de nosso interesse aparecia na entrada. Estava completa a festa.

Um domingo, minha irmã Linéa e eu entramos quando a sala já estava escura. Vindo lá de fora, onde um sol radioso deslumbrava, estávamos ambas às cegas, sem poder divisar nem mesmo vagamente as silhuetas das pessoas sentadas. Sem um “lanterninha" para orientar-nos, entramos de cara na primeira fila onde, palpando uma poltrona vaga, eu me sentei. Linéa não teve a mesma sorte. Tropeçou no pé de alguém e também sentou, mas... quase no colo de um espectador.

"Ai, por favor, me desculpe!"

E o rapaz, que era nosso conhecido, mas que no escuro não podíamos identificar:

"Ora, senhorita! Não precisa se desculpar! Foi até um prazer…"

Fonte:
Livro enviado pela autora.
Dorothy Jansson Moretti. Instantâneos. São Paulo: Dialeto, 2012.

Contos e Lendas do Mundo (Japão: A Raposa e o Tanuki)


Muito, muito tempo atrás, uma raposa encontrou um tanuki*.

“Como vai tudo, Tanu-kun? Quando se trata de transformação nós dois somos os melhores do mundo, mas eu imagino quem seria o número um, eu ou você?”

O tanuki não respondeu, mas apenas apontou para o próprio peito.

“O que você quer dizer? Você acha que você é o melhor transformador?”

“Isso é certo”, disse o tanuki. Então, eles decidiram ter um concurso de metamorfose.

Uma vez que foi decidido, a raposa não perdeu tempo. “Se eu não superar esse tanuki metido”, pensou a raposa, “será uma vergonha para a fama das raposas.”

Só então a raposa notou uma pedra memorial em pé ao lado da estrada. Assim, a raposa ficou bem próximo a ela e se transformou em uma estátua de Jizo-sama.

Em pouco tempo, o tanuki apareceu. Este tanuki tinha um hábito curioso – sempre que via Jizo-sama, ele ficava com fome e comia o almoço que ele estava carregando. Neste dia não foi diferente.

“Meu Deus, eu estou com tanta fome. Acho que vou almoçar.”

O tanuki pegou o almoço que ele estava carregando em suas costas e tirou alguns bolinhos de arroz. Ele colocou um diante de Jizo-sama como oferenda, e inclinou a cabeça.

Talvez ele tivesse orado “que a raposa será vencida no concurso de transformação.” Mas, quando ele levantou a cabeça e abriu os olhos, foi pego de surpresa. O bolinho de arroz que ele tinha oferecido não estava mais lá. Isso foi estranho. Pensando nisso, ele se perguntou se talvez ele realmente não tivesse feito a oferta. Então ele com muito cuidado colocou outro bolinho em frente à estátua de Jizo-sama. Ele abaixou a cabeça, orou “Namu Amida Butsu, Namu Amida Butsu”* e levantou a cabeça imediatamente. O quê? O bolinho tinha sumido!

“Isso não está certo!”

O tanuki colocou mais um bolo de arroz na frente de Jizo-sama, disse rapidamente: “Namu Amida -” e levantou a cabeça antes que pudesse sequer ter a certeza que ele tinha realmente abaixado. O que ele viu foi Jizo-sama com um bolinho de arroz meio comido em uma das mãos.

“Ei!” o tanuki gritou, e agarrou o braço de Jizo-sama. O que havia sido Jizo-sama voltou à sua forma habitual, a raposa.

“O que é tudo isso, Kitsune-san?” perguntou o tanuki.

“Agora é a sua vez”, respondeu a raposa. O tanuki pensou por um momento, e levou de volta o que restava do bolinho antes de falar.

“Cerca de meio dia de amanhã eu vou me transformar no senhor do castelo e passar por aqui, e então olhar de perto.”

E assim, a raposa ficou esperando lá no dia seguinte. Finalmente, ele viu a procissão do senhor vindo em sua direção.

Primeiro vieram os varredores gritando “Abaixo! Todo mundo no chão!” Depois disso veio uma longa fila de samurai, e, em seguida, a liteira em que o senhor estava sentado. A raposa estava cheio de admiração, e correu para a liteira do senhor, sem sequer pensar mudar para a forma humana.

“Senhor Tanu, senhor Tanu”, ele chamou, “você me venceu.”

No entanto, a procissão não era uma transformação do tanuki, e sim uma procissão de verdade. E assim, um dos samurais carregando um grupo correu para a raposa. A surra que raposa levou foi severa. E de verdade.
____________________________
Notas:
* A oração Amida Butsu é amplamente ensinada por ser universalmente eficazes, e também tem a vantagem de ser curto. Isso é útil em um caso como este, quando a pessoa precisa rezar não tem nada de especial para pedir.

* Tanuki – é um personagem do folclore japonês desde tempos antigos. Ele é uma criatura mística, travessa e alegre, mestre no disfarce e na troca de formas, segundo relatos sobre a “criatura” que constam no livro Kojiki (Registro das Coisas Antigas), o livro mais antigo sobre a cultura do Japão, datado de 712. Diz-se que a principal característica do Tanuki é a predileção por saquê (sake, bebida fermentada feita de arroz). A criatura é frequentemente retratada com uma garrafa de saquê em uma mão e uma nota promissória na outra – uma conta que ele nunca paga – e sempre usando um chapéu.
Desde os tempos antigos até os atuais, estátuas de Tanuki podem ser vistas nas portas (tanto do lado de fora como de dentro) de restaurantes e izakaya (um tipo de bar japonês) para atrair clientes. Isso porque imagens de Tanuki são consideradas amuletos de boa sorte e prosperidade, enquanto ele próprio é um grande degustador de comida e bebidas, em especial o saquê, claro.
No Japão antigo, a identificação do Tanuki era incerta. Ele era referido à animais como itachi (doninha), ten (marta), musasabi (esquilo voador). Uma definição mais precisa do termo Tanuki ocorreu a partir da Período Edo (1603–1868), quando acabaram por identificá-lo com o texugo ou guaxinim japonês.
Contam as lendas que os planos fracassados em aplicar brincadeiras nos humanos, em muitas das vezes, seria por conta de sua adoração por saquê. “Ao sentir o aroma da bebida, o Tanuki esquece imediatamente de seu disfarce e levanta o rabo, revelando sua  verdadeira identidade”, conta um trecho em uma de suas lendas descritas no livro “Legends of Japan”, obra compilada em três volumes por F. Hadland Davis, escritor e estudioso da mitologia japonesa. o folclore japonês retrata Tanuki como uma criatura brincalhona, astuta e, ao mesmo tempo, “atrapalhada”. São raros os contos japoneses descrevendo um Tanuki cruel. (Fonte: Mundo-Nipo)


Fonte:
Casa de Cha

sábado, 17 de agosto de 2019

Giuseppe Bezzi (A Última Luz)

Imagem: Lágrima de Mulher, em  http://omundoinvisiveldeumamulher.blogs.sapo.pt

Giuseppe Bezzi é natural de Tolentino/Itália. Reside em São Paulo/SP.

Silmar Böhrer (Lampejos) XVIII


Cecy Barbosa Campos (Quebra de Rotina)


Elegante e simpático, com postura discreta, marcava sua presença onde quer que estivesse.

Brincalhão, sem ser espalhafatoso, tinha sempre uma palavra gentil para todos. Fazia amigos rapidamente e, com a palavra fácil, era um interessante conversador e parecia conhecer qualquer assunto que fosse abordado. Acrescentava pormenores desconhecidos e curiosos sem nunca parecer pretensioso.

As mulheres honestas suspiravam por ele. As não tão honestas chegavam a ter fantasias eróticas a seu respeito, e as mais ousadas investiam claramente, usando todas as armas da sedução, tentando conquistá-lo. Entretanto, era tudo inútil, e ele permanecia inabalável, mostrando-se um exemplo de fidelidade conjugal.

Em relação aos amigos, nada podia ser dito contra ele. Pelo contrário, leal e solidário, era aquele com quem todos podiam contar. O mesmo no trabalho: correto e responsável, era admirado pelos chefes e pelos colegas, parecendo incorruptível.

Casado com a mesma mulher há quatorze anos, Reginaldo e Matilde eram o exemplo do casal perfeito. Levavam uma vida confortável e tranquila num condomínio classe média alta e tinham dois lindos filhos.

Na verdade, Matilde, às vezes, achava que aquela tranquilidade e segurança eram um tanto monótonas, e ansiava por algo diferente que acontecesse no seu dia-a-dia. As vinte e quatro horas do casal eram sempre iguais e aconteciam na mesma sequência. O marido levantava-se bem cedo, para dar uma caminhada, tendo o maior cuidado para não acordar a mulher que gostava de dormir até mais tarde. Na volta, tomava o seu banho - não no banheiro da suíte, para evitar o barulho. Vestia-se no estilo esporte-chique que era o seu preferido e, antes de sair, ainda tomava um breve café matinal com a esposa que acordava a tempo de obedecer a este ritual.

Não se encontravam no intervalo do almoço. O marido preferia comer no restaurante da firma que, com alimentação balanceada, facilitaria o controle do peso ou eventual tentação de ingerir calorias a mais, garantindo sempre a sua perfeita saúde.

Matilde sabia exatamente a que horas o marido chegaria a casa após o trabalho, e a harmoniosa reunião familiar prosseguiria após o jantar com um passeio pelo condomínio, um papo com os vizinhos e as brincadeiras com as crianças.

Um dia, Reginaldo não voltou. Foi numa terça-feira normal, com a caminhada, o café da manhã e o beijo usual. Matilde descera com ele no elevador, conversaram sobre assuntos triviais e, enquanto ela se encaminhava para o salão de ginástica, ainda viu o marido sair com o carro, depois de, gentilmente, abanar a mão para o porteiro.

Tudo isso ela explicou quando as investigações sobre o desaparecimento de Reginaldo começaram.

A principio, quando percebeu o atraso do marido para o jantar, ela nem se incomodou. Achou até interessante acontecer algo fora da rotina. Entretanto, à medida que as horas passavam, começou a se preocupar com a demora do marido. Telefonou para os amigos e para os colegas de trabalho de Reginaldo. Ou não o tinham visto ou haviam se despedido dele ao final do expediente. - Não, não sabiam de nada, Reginaldo não mencionara se iria a algum lugar, nem demonstrara nenhuma preocupação.

Nada diferente, tudo igual, como sempre.

O trabalho da polícia foi inútil. Nenhuma pista do paradeiro de Reginaldo. Nem do carro. Os anos se passaram, as crianças cresceram e, depois da grande trabalheira que dá ter um marido desaparecido, Matilde organizou sua nova vida e, de vez em quando, relembrava com saudade o tédio que sentia durante o seu período de casada, por nunca lhe acontecer nada diferente.

As suspeitas da Polícia foram de que Reginaldo teria sido vítima de bandidos que desapareceram com o corpo e com o carro. Assim, o caso foi arquivado, e como nada foi comprovado, Matilde nem podia se considerar viúva, isto, até o dia em que, folheando um jornal de outra cidade, enquanto aguardava a sua vez de ser atendida pelo dentista, lê, no obituário, a notícia da morte de Reginaldo Lemos, cinquenta anos, de insuficiência respiratória.

Fonte:
Livro enviado pela autora.
Cecy Barbosa Campos. Recortes de Vida. Varginha/MG: Ed. Alba, 2009.

J. G. de Araújo Jorge (Inspirações de Amor) XXIII


ESTRANHO REMORSO...

Às vezes, quando escrevo feliz uma poesia,
me assalta um estranho remorso, incompreensível
que não sei de onde vem:
"Quem sabe? pode ser que esse meu canto de alegria
faça mal a alguém..."

Meu irmão triste, meu irmão doente,
perdoem-me a cantiga frívola e contente,
que me fugiu dos lábios na manhã alvissareira
de verão
Ela brotou sem querer da minha felicidade!
- é  que eu trago uma cigarra cantadeira
e imprudente
dentro do coração!

Não é por mal, não é por mal...

Quem pode condenar a alegria da cigarra
em seu sonho
estival?
- a estridular distraída e tagarela
e a dizer que a vida é bela,
- na árvore verde que há no pátio tristonho
do hospital?

EU SEI QUE ERA
   
Não, não eram teus olhos, que eles estavam cerrados
e embriagados
de misterioso vinho;
nem eram tuas mãos, que elas tateavam
tontas de carinho;
nem era a tua vontade, que havias perdido de ti mesma,
e não encontrarias o caminho....

Eram teus lábios sim, e a tua voz que ainda lutava
com ternura,
num débil balbucio sem alento:
- "Meu amor, é loucura!..."

Eu sei que era! Eu sei que era!
Louco também é o sol, a noite, o mar, o vento!
os pássaros, a terra, o céu, a primavera!

HARPA SUBMERSA

Este retardatário gosto de pureza,
que me vem à boca do fundo coração,
não sei se é tédio ou o sinal de alvoradas renascentes.

Na areia branca onde a onda tenta apagar
vestígios de pés e levar todas as conchas,
me deixo à espera de outra vagas carregadas de conchas
ou de passos que tatuem novas marcas
na epiderme do coração.

Pobre coração marinheiro, tão marcado,
de que canto obscuro desenterras imprevistamente
esta harpa cheia de algas e de sons submersos?

IMPREVIDÊNCIA
Vamos seguindo assim, desprevenidamente
a brincar com  o Destino... e a pensar que brincamos...
quando, na realidade, ele brinca com a gente,
e trama qualquer coisa que não suspeitamos...

Julgamos dominá-lo... e, que somos ? - dois ramos
arrastado por ele ao sabor da corrente...
Bem que percebemos quando nos amamos
mas teimamos, seguindo assim, inutilmente...

Prolongamos em vão um traiçoeiro dilema:
- ou tu te entregarás um dia, com ternura,
ou teremos criado um eterno problema...

Fora disto, há o recuo, bem sei... Mas assim
- tua vida há de ser um remorso sem cura !
- minha vida há de ser uma angústia sem fim !

INCONTENTÁVEL

Quando eu parti, ela chorou, e eu disse
tendo-a entre os braços a enxugar-lhe o pranto:
- "Voltarei logo, meu amor, portanto
não chores, que chorar é uma tolice..."

- "Voltarás?...", perguntou-me. E o seu espanto
quase fez afinal com que me risse.
- " E não hei de voltar, se te amo tanto
e se te quero assim com tal meiguice ?"

E eu que ia me afastar por alguns meses,
fiquei dois dias só. Depois que vim,
ela diz e repete – quantas vezes! –

como quem desabafa imensa dor:
- "Enfim juntos de novo, os dois, enfim!
Mas demoraste tanto meu amor!"

INDISCRIÇÃO...

Tu me perguntas porque escrevo poemas
e estas coisas que dizes que te encantam
tu quiseste saber
como posso fazê-las...

Acaso já indagaste aos rios por que correm
às ondas por que espumam,
e ao céu por que possui tantas estrelas?

INSTANTÂNEO Nº 1 

Há por certo inconstância, maldade, ironia,
no destino que um dia cruza duas vidas
e alheio a uma tragédia imensa:

- põe numa, um grande amor,
e noutra, a indiferença !

INSTANTÂNEO Nº 2
   
Eu vi a asa da borboleta que morreu
rolando ao vento, no chão,
num destino tristonho...

Naquela asa, fina leve, multicor,
como um minúsculo vitral,
via a imagem do sonho...

Fonte:
J. G. de Araújo Jorge. Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou. vol. 2. SP: Ed. Theor, 1965.

Arthur de Azevedo (Denúncia Involuntária)


O Lustosa era muito boa pessoa, mas tinha um defeito: gostava de intrometer-se na vida alheia, e bisbilhotar o que se passava em casa dos outros. Ele observou que uma bonita senhora, que morava defronte da casa dele, na Rua São Francisco Xavier, era regularmente visitada por dois amantes – um, já de meia-idade, gordo, calvo, pesado, feio, e outro, muito novo ainda, bonito e elegante. O Lustosa imaginou logo, e imaginou muito bem, que o primeiro era o pagador e o segundo o amant de coeur. O primeiro, além de ser mais velho, tinha uns ares de dono de casa que não enganava a ninguém; as suas visitas eram mais demoradas, duravam às vezes toda a noite; ao passo que o outro aparecia de fugida, e não saía para a rua sem primeiro examinar se não passava alguém. Ora, aconteceu que certa noite, achando-se numa soirée familiar em casa de um amigo que fazia anos, o Lustosa foi apresentado ao rapaz, que também lá estava. A pessoa que fez a apresentação afastou-se, e o nosso indiscreto disse logo ao Peixoto que já o conhecia. O moço chamava-se Peixoto.

– Já me conhecia? De onde? – perguntou este muito intrigado.

– Da Rua São Francisco Xavier. .

– Cale-se! Por amor de Deus, não me comprometa! Eu tenho família, sou casado, e minha mulher está aqui! Olhe, é aquela senhora vestida de azul.

– Pois eu supunha-o solteiro; mas descanse; por mim ninguém saberá.

– Aquilo é um contrabando. São destas coisas em que a gente se mete não sabe como, e de que é muito difícil livrar-se.

– Ora! O amigo ainda está na idade, não acabou ainda de pagar o seu tributo; mas tenha cuidado: sexta-feira passada, quando o senhor entrou, o outro mal tinha acabado de sair! Por mais dois ou três minutos encontravam-se à porta. Eu moro defronte, e vi tudo por trás da veneziana.

– O senhor disse "o outro". Que outro?

– O dono.

– Como o dono? O dono sou eu! – Quero dizer: o "marchante". – Não há outro marchante senão este seu criado! Dar-se-á caso que aquela mulher receba um homem quando eu lá não estou? Dar-se-á que me engane?

– Não! Não creio que ela o engane com um homem feio, que podia ser pai do senhor… um sujeito barrigudo… careca…

O Lustosa reconheceu a asneira que tinha feito, mas era tarde.

– Meu caro senhor, disse o Peixoto, as mulheres são capazes de tudo. Tenho aí um carro à porta. Vou até lá. Quero verificar agora mesmo se sou traído por aquele diabo. A ocasião e excelente. Ela não me espera, porque sabe que vim a esta reunião… minha mulher está distraída… Até logo!

O Peixoto saiu, e pouco depois ouvia-se rodar o carro. O Lustosa ficou perguntando a si mesmo quando se corrigiria daquele mau costume de intrometer-se na vida alheia.

O Peixoto voltou ao cabo de uma hora, e foi logo ter com ele.

– Obrigado pelo serviço que me prestou. Surpreendi lá dentro o careca em ceroulas. Ela quis me convencer que era um tio. Desavergonhada! Estou livre daquela péla!

– Pois, senhor, disse o Lustosa, dei rata, dei: mas quem podia supor que o senhor, com essa mocidade e com esses olhos, era o marchante, e o outro, com aquela cara, o coió! Decididamente, em se tratando de mulheres, devemos sempre contar com o absurdo e o inverossímil!

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Renato Frata (Encontro com Anna Karenina)


O amor começa quando uma pessoa se sente só
e termina quando uma pessoa deseja estar só.
Leon Tolstoi


Pois foi assim que a conheci, num desses momentos em que o espírito da gente se esforça para encontrar alguém com quem possamos passar um tempo sem que o arrependimento venha à tardezinha. E nos martirize durante a noite toda, e na manhã seguinte e na outra…

Diria que o encontro foi casual, numa minúscula banca de revistas e livros velhos. Era tão pequena a banca que mal abrigava duas pessoas; e estávamos em quatro fuçando as prateleiras do sebo em busca de alguma obra que interessasse.

Minha mão roçou a dela quando buscamos, ao mesmo tempo, retirar da prateleira um exemplar antigo de Anna Karenina, onde Tolstoi denuncia o ambiente da época e realiza um dos retratos femininos mais profundos e sugestivos da Literatura, cuja trama gira em torno do caso extraconjugal da personagem que dá título à obra, uma aristocrata da Rússia Czarista que, a despeito de parecer ter tudo (beleza, riqueza, popularidade e um filho amado), sente-se vazia até encontrar o impetuoso oficial Conde Vronski... - Bom, melhor mesmo é ler o livro.

Mas voltemos ao roçar de mãos, o que faz lembrar que o tato é um dos melhores dos cinco sentidos, se não for o mais agradável deles. O contato de nossos dedos foi instantâneo, a ponto dela recolher a mão enquanto olhava para mim e eu recolher a minha enquanto olhava para ela. A troca de sorrisos foi espontânea e ao mesmo tempo inibitória,

- Desculpe - falei.

- Desculpe - falou ela.

Ambos ao mesmo tempo. Novo sorriso, até que quebrei o gelo:

- Já leu "Anna Karenina"?

- Não, - respondeu - mas sei que Tolstoi foi um dos maiores romancistas da Rússia no século XIX.

- Sim - concordei. Um dos melhores, Na verdade procuro "Guerra e Paz”. Por acaso viu-o por ai?

~ Não, mas interessei-me pelo Anna e com a possibilidade de lê-lo. Amo tudo de Tolstoi...

Então ela retirou da bolsa um papel dobrado e o estendeu: - São citações, frases dele, lindas, que sempre trago para as horas de lazer e para as de penar. Analisá-las e tentar compreendê-las me dá força. É, acho que é isso. - Concluiu.

Desdobrei a folha e li:

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.

Os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.

Enquanto houver matadouros, haverão campos de guerra.

Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.

Em vão, centenas de milhares de homens, amontoados num pequeno espaço, se esforçavam por desfigurar a terra em que viviam. Em vão, a cobriam de pedras para que nada pudesse germinar; em vão arrancavam as ervas tenras que pugnavam por irromper; em vão impregnavam o ar de fumaça; em vão escorraçavam os animais e os pássaros - Em vão... porque até na cidade, a primavera é primavera. (em "Ressurreição").

O homem pode viver 200 anos na cidade sem perceber que já está morto há muito tempo (em "Sonata a Kreutzer").

A felicidade é estar com a natureza, ver a natureza e conversar com ela. (em "Os Cossacos").


Ao terminar a leitura e tentar devolver o papel, ela havia se retirado,

Comprei o "Anna Karenina" e voltei. Sozinho.

Fonte:
Livro enviado pelo autor.
Renato Benvindo Prata. Azarinho e o caga-fogo. Paranavaí/PR: Ed. Gráf. Paranavaí, 2014.

Professor Garcia (Trovas que sonhei cantar) 3


Ao ver-te, ó velha tapera,
senti na dor de teus ais…
Meus sonhos de primavera
e o silêncio de meus pais!

Casarão velho, sem teto,
sozinho à beira da estrada,
és o retrato completo
de uma vida abandonada!

Dos lupanares, bordéis,
vê tu, que te resta agora:
Um trapo arrastando os pés
e um corpo velho que chora!

Família unida e eu risonho
prova o bem que sempre fiz...
Sonho bom é aquele sonho
que faz a gente feliz!

Lembrar momentos risonhos.
dos tempos da mocidade,
é torturar velhos sonhos
no pôr do sol da saudade!

Meu sonho é seguir em frente,
sonhando é que a gente cresce;
se o tempo envelhece a gente,
o sonho, nunca envelhece!

Não há força mais sublime
nem mais sublime oração,
do que a força que se exprime
no silêncio do perdão!

Não há lágrima mais triste,
nem solidão mais sombria,
do que aquela dor que existe
no olhar de um cego de guia!

Não há pior desconforto,
nem um crime mais tirano,
que aquele de um filho morto
no ventre de um ser humano!

Na tapera abandonada,
toda noite a vela acesa
mostra a saudade sentada,
repartindo o pão na mesa!

Na tarde em que tu partiste,
o ocaso mudou de cor;
e o Sol, se pôs bem mais triste
com pena de minha dor!

No outono da vida, e ainda,
me apego à velha quimera,
na ilusão que nunca finda
um sonho de primavera!

Nos braços, de alguém que sonha,
ouço uma voz aos pedaços.
É de uma vida tristonha,
com saudade de outros braços!

No silêncio que me embala,
contemplo a foto, calado.
Se a velha foto não fala,
mostra quem fui no passado!

No trem da vida eu me assumo,
sozinho... E, de peito aberto...
Sou passageiro sem rumo,
em busca de um rumo certo!

O beija-flor pequenino,
astucioso e artesão,
tece no galho mais fino
o altar de sua mansão!

O beijo de um beija-flor,
de manhã cedo é tão lindo,
que a rosa tonta de amor
dorme tonta e acorda rindo!

O orvalho da noite aflora
e afaga a velha cascata,
onde a lua também chora
lágrimas da cor de prata!

O tempo com seus deslizes,
com seus conceitos fatais...
Por pouco nos fez felizes,
mas quase tarde demais!

Partiste!.., E agora meu filho,
depois do sonho desfeito,
teu orgulho maltrapilho
pôs mais dilema em teu peito!

Quando a insônia me atropela,
me faz escravo e me abraça,
insone e nos braços dela,
passa a noite e ela não passa!

Quando a tarde se completa,
e o sol, se acalma e se deita,
no céu, um pintor poeta,
pinta uma trova perfeita!

Rompe a aurora, o galo canta,
o sol põe riso na flor,
e o sabiá, da garganta,
liberta um hino de amor!

Se a brisa cai sorrateira
e arrasta a flor que morreu...
Deixa mais triste a roseira,
chorando a flor que perdeu!

Sei que pesa esse pecado
na palma de cada mão;
mas quero ser perdoado
pelos "sins", que disse "não"!

Se não houve despedida
e desse amor, fui descrente,
que o carrilhão desta vida
acerte os passos da gente!

Se o sorriso me enternece,
sorrir na vida é preciso.
Quem põe no riso, uma prece,
faz dela, um lindo sorriso!

Trovador e abelha nova,
são sempre iguais no serviço:
Se ele põe doce na trova,
ela põe mel no cortiço!

Vivo de sonhos, querida!
E há tantas... Tantas versões...
Que fiz dos sonhos da vida
muitos cordéis de ilusões!

Fonte:
Professor Garcia. Trovas que sonhei cantar. vol.2. Caicó/RN: Ed. do Autor, 2018.  
Livro gentilmente enviado pelo autor.

Francisca Júlia (As Duas Moças)


Duas moças viviam em casa dos seus pais, numa aldeia quase deserta onde todos eram igualmente pobres. Cada um era proprietário do seu próprio terreno donde tirava o sustento para a sua família.

Os habitantes, ignorantes na sua simplicidade, não conheciam a riqueza nem a miséria. Se lhes falavam em palácios de arquitetura custosa, em luxo, carruagens e aparatos de riqueza, eles riam-se, como se de fato estivessem ouvindo contos de fada ou novelas do outro mundo; quando lhes falavam em miséria, em horrores de fome, sorriam também, e diziam que não há jeira* de terra sem couve e couve que não alimente.

Este povo era tão simples, que dormia com as portas abertas, sem receio aos ladrões e malfeitores, porque não acreditava na existência desta gente.

Estas duas moças é que estavam incumbidas do trabalho da casa, plantio das hortaliças, criação das aves, porque seus pais já eram velhos e inaptos para qualquer serviço.

Uma delas, Rosa, quando toda a família estava reunida ao redor da mesa, conversando sobre assuntos domésticos, como as próximas chuvas, a surribação** da terra, a peste das galinhas, ergueu-se e falou assim:

- Meus velhos pais e minha boa irmã, vou deixá-los por algum tempo; estou cansada desta vida monótona, sem futuro, desta pobreza geral, em que cada qual tem de trabalhar para comer; eu nasci para uma existência mais luxuosa e de mais conforto, onde tenho carruagens para exibir a minha formosura, palácios para mostrar minha elegância e leitos de seda e púrpura para afogar minha preguiça. - Adeus.

Todos começaram a chorar, as faces escondidas nas mãos, sufocados pelos soluços.

O velho falou com amargura:

- Ingrata filha, vai; sê feliz; que os teus desejos se cumpram e que a fortuna espalhe riquezas pelo teu caminho, como um semeador lançando grãos sobre um terreno fértil; porém que as saudades de teus velhos pais, que abandonaste, e da pobre aldeia, em que nasceste, arranquem lágrimas aos teus olhos, suspiros ao teu peito e ofegos ao teu coração.

Então a boa filha, que tinha ficado, depois de abraçar os pais, prometeu-lhes com amor que nunca havia de abandoná-los, que havia de ficar sempre na companhia deles, como um consolo à sua velhice.

Os tempos passaram. Um dia um rico lavrador, moço ainda e extremamente belo, passou por essa aldeia, enamorou-se desta pobre rapariga e pediu-a em casamento.

Os velhos consentiram. Era a felicidade esperada por tanto tempo, que lhes entrava em casa. Enriqueceram.

E Rosa, que fora tentar fortuna, voltou mais pobre ainda, coberta de andrajos, os pés descalços.

Os pais, quando a viram, abraçaram-na chorando, sensibilizados pelo aspecto humilde das suas roupas e da sua fisionomia.

E perguntaram-lhe:

- Onde está tua riqueza, Rosa?

- Na experiência, meus bons pais, na miséria que sofri, na fome que me devorou as entranhas. Se eu soubesse dos sofrimentos por que havia de passar, não vos abandonaria e deixava-me ficar convosco. Os meus sofrimentos datam da minha partida: a riqueza das donzelas está no carinho dos seus pais.
____________________
Notas:
* Jeira de Terra – medida equivalente a 2 acres, utilizada antigamente no Império Romano.
** Surribação – Escavação da terra para afofá-la. Escavação em volta de uma árvore para que brote melhor.


Fonte:
O Poeteiro - revisão ortográfica: Iba Mendes

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Silmar Böhrer (Lampejos Poéticos) XVII


Olga Agulhon (Feita de Luz)


Expulsa da cidade, acusada de atrapalhar o sono dos justos, roubando-lhes a negritude da noite, onde todos os gatos são pardos, abrigou-se no campo, num pequeno sítio ao pé da serra, longe de vilarejos e longe de gente de todos os tipos.

Deixou, no antigo apartamento, quase toda a mobília, as roupas de seda, os saltos altos, as lembranças inúteis.

Com o pequeno filho sempre junto ao peito, carregou consigo apenas o necessário, as roupas de algodão, uma botina, algumas recordações agradáveis, não muitas; e seus livros, todos, sem esquecer nenhum título.

No meio do caminho, deu carona a um tipo estranho, grande, negro, mudo, que, por assim o ser, não pôde dizer como era chamado.

Chegando àqueles campos, que seriam seu refúgio, respirou o ar puro da natureza que os acolhia sem pudores ou preconceitos. Cumpriria naquele lugar o seu destino. Desceu para abrir a porteira, carregando o filho, junto ao peito como sempre o mantinha. Mais tarde, ao fechá-la, deixaria definitivamente para trás todo o seu passado de busca e escuridão.

Ao descarregar as malas, dispensou imenso cuidado a uma delas, por conter seu último par de asas.

O negro carregava os livros que não sabia decifrar.

Na casinha branca, de varanda, aguardou o motorista do caminhãozinho que havia transportado a pequena mudança. Antes de ir, após receber seu pagamento, não se conteve e perguntou à mulher sobre os livros, tantos eram.

Ela respondeu que eram o seu alimento; e ele foi-se embora sem entender, mas sem disposição para mais questionamentos.

Há louco pra tudo, mesmo... Livros, pra que tantos livros nesse fim de mundo, ficou pensando o motorista, que de leitura nada sabia.

Sem ter para onde ir, ou quem por ele esperasse, o negro ficou por lá, mudo, arando o campo, tentando descobrir os segredos da terra e da mulher.

Ela também cultivava o solo, descobria os seus desejos, fecundava suas entranhas.   

Cuidava do filho com esmero e amor.

Mantinha a casa limpa e arrumada.

Criava pequenos animais, fazia o pão.

De dia era assim. Parecia uma mulher comum, porém dotada de especial brilhantismo, inteligente, dessas heroínas que existem em todo o mundo e que conseguem assumir tantas funções, porque aprenderam a mágica e se duplicam; ou até mesmo se transformam em muitas, sem que os homens se deem conta da magia realizada.

De noite era outra. Abandonava os trapos de algodão; vestia-se de luz. Bebia o estrato dos imortais e inalava seus perfumes. Nutria-se de poemas.

Espargindo um líquido denso, que brotava ritmado, dava de mamar ao filho e fazia-o dormir ouvindo doces palavras.

O negro, mudo, assistia a tudo como se sonho fosse e, sem acreditar que pudesse existir mulher assim, feita de palavra e luz, em todas as noites era tomado por uma agradável sensação e adormecia, sentindo um cheiro muito bom e sonhando o mesmo sonho.

Depois de adormecidos, o menino e o negro, a mulher ainda permanecia acordada, devorando incontáveis páginas.

Quando se sentia extasiada, vestia seu par de asas e sobrevoava as cidades, como verdadeira heroína alada, exorcizando as dores e a ignorância do mundo, espargindo sobre os homens um pouco de si, noite após noite.

Nada mais tendo a doar e estando leve como uma pluma, não mais batia as asas, flutuava. E, nesses instantes, olhava o mundo por cima dele; e chorava. Chorava porque via o quanto os homens ainda precisavam de poemas, de magia, de sonhos. Ainda havia muito o que salvar...

Então voltava, recolhia as asas e deitava-se para repousar em pouco e recomeçar outro dia, sugando da terra e dos livros novas energias.

Em suaves momentos, observava os primeiros passos do filho. Preparava-o para ser seu sucessor. Mesmo sabendo que, por ser homem, o filho teria mais dificuldades, desejava passar-lhe toda a sua heroica sensibilidade, toda a sua mágica e toda a sua luz. Tinha esperanças.

Assim se passaram os anos.

Depois de toda uma vida feita de luz, a mulher entregou a asa ao filho e adormeceu para sempre, amparada pelo bom amigo negro e inculto, que se despediu falando com os olhos.

Foi tranquila, conhecendo o futuro que dera ao filho.

De longe, ainda pode ver quando ele pôs a velha asa na mala, disse até logo ao negro, e saiu para percorrer o mundo; e ser poeta.

Fonte:
Olga Agulhon. Germens da terra. Maringá/PR: Midiograf, 2004.

Samuel C. da Costa (Série Amor em Vermelho) 1


A CIDADE DAS CHUVAS

Na cidade das chuvas
Ela decidiu ganhar as ruas
Em um ledo dia de sol

Aquela jubiloso dia de sol
Ela toda radiante
Vestiu o que de melhor tinha
Seu sorriso perolado
Em um diáfano vestido floral

Na cidade das chuvas
Justamente naquele dia de sol
Ela ganhou as ruas dissolutas
E foi se reunir
Com o que melhor existe
Na vastidão cósmica sem fim
Foi se encontrar consigo mesma

A NEGRA AURORA AUSTRAL

Toque-me!
Como se eu fosse de aço.

Toque-me
Como se tu fosses de vidro!

Toque-me
Como se eu não fosse nada.

Toque-me
Como se tu soubesses de tudo!

Toque-me
Como se eu fosse um poema
Inacabado sem poesia

Toque-me
Como se não houvesse amanhã

Toque-me
Antes que o mundo acabe

AS LUZES DA RIBALTA
De tudo que eu sou
E de tudo
Que eu sou capaz
De ser

Que as cósmicas
Luzes da ribalta
Façam-me brilhar
Mais e mais
Para além das múltiplas
Inexistências reinantes

De tudo que eu posso ser
E do muito que eu sou
Capaz de ser

Que as milenares
Luzes da ribalta
Façam-me trespassar
A realidade fluída
Em que vivo

CANDURA (ELOGIO A LIBERDADE)

Naqueles turbulentos dias
De abissais confusões inexatas
Ela decidiu quebrar
Os milenares grilhões

Naquele entardecer sem fim
Tempo de dores infindas
Ela se rebelou por completo

Naquele anoitecer sem fim
A manopla deixou de sufocá-la
Aquela negra alma sofrega
Mergulhada em infindáveis dores

Naquela alvorada
Ela simplesmente sorriu para a vida

EPIFANIA ABSTRATA
Para o jornalista Luiz Gonzaga Mattos

O palco é o habitat
Dos artistas

Ah as luzes
As luzes da ribalta
A ciclorama
Os aplausos
Os gritos
Os vivas efusivos
E a saudação curvilínea
Dos artistas ao público
Que pede estridente
Um bis
Ao ver descerrar a cortina

Eu?
Eu fico na porta de entrada
Uniformizado estático
À espera por tudo que não vem

O palco é o habitat natural
De todos os artistas
O microfone
Os alto-falantes
E voz estridente
Que retumba para o além
Da infinitude cósmica

Eu?
Eu esqueço o texto

Eu?
Eu destoa de tudo
E de todos
Com a voz embargada
Olhando para a público sentado
Que espera e espera
Por aquilo que não vem
E que nunca virá

Eu?
Sou eu tentando ser maior
Que a censura cibernética
Facebookiana
E não consigo

Eu?
Eu admiro extasiado
A artista no palco
A minha vaporosa negra musa
Distante de tudo
E de todos

Eu?
Eu tomo a pena
E o mata-borrão
A hialina folha em branco

Eu?
Tento compor um poema
Com poesia abstrata
E não consigo

Eu?
Eu martelo o teclado
Com fúria titânica
Tento compor uma prosa simbolista
E não consigo

Eu?
Tento me exilar
Na arte absoluta
E não consigo

Eu?
Tento esquecer de mim mesmo
Mas não consigo

GAIA ( MAIS PROFUNDA QUE O MAR)

Queria fazer amor perdidamente
Tendo o astros-mortos
Como testemunhas
E com as bênçãos de Gaia

Não! Não queria viver enclausurado
Em um níveo mundo
De sonhos vagos
Presa ad aeternum
Em contemplações quiméricas furtivas

Queria arder em chamas
Entregar-se por inteiro
Na mais profundas das fossas abissais

Qualquer coisa que faça quase sentido
Olho para o mar
Na minha frente
E desejo perdidamente
Que qualquer coisa
Nesta vida
Faça quase sentido

Olho para o mar
E desejo desesperadamente
Que eu possa
Tirar o meu traje de civilizado
De usar somente as roupas
Que Deus me deu
E caminhar celestialmente
Pelas hialinas areias
Da praia

Olho para o mar revolto
Sinto o álgido vento
Revoltar-me o cabelo
E desejar
Que qualquer coisa faça
Realmente sentido
Na minha vida

Olho para imensidão azul
Para o céu sem nuvens
Na esperança vil
Que qualquer coisa faça
Quase sentido
Nesta vida apoplética

Fonte:
Poemas enviados pelo poeta

Manuel de Oliveira Paiva (Dona Guidinha do Poço)

Manuel de Oliveira Paiva (CE, 1861 -1892)

Sua única obra importante Dona Guidinha do Poço ficou ignorada até 1952 quando foi editada, sessenta anos após a morte do autor. Coube a Lúcia Miguel Pereira redescobri-la, fazendo na primeira edição uma elogiosa (e merecida) apresentação.

Obra do autor cearense Manuel de Oliveira Paiva, Dona Guidinha do Poço resgata elementos da cultura nordestina e pormenores da vida interiorana, na história de uma mendiga que, no final do século XIX, era alvo de piadas nas ruas, por ter sido condenada pela Justiça de Quixeramobim pelo assassinato do próprio marido. A tragédia inclui elementos de vingança, prisões e mortes.

Obra de profundidade psicológica vale-se de um estilo vivo, na qual se fundem poesia, reflexão, senso de humor e a presença do falar regional. Há o aproveitamento das tradições orais e dos contadores de história.

RESUMO

É uma história de adultério e crime passional, que escapa ao lugar-comum por dois motivos essenciais; o poder do romancista de levantar o perfil vigoroso do homem como expressão moral e telúrica de determinada região; e as qualidades da linguagem ou do estilo, refletidas nas características orais do processo narrativo.

A paisagem é o Nordeste, e os elementos de psicologia humana e social explorados definem o homem da zona sertaneja. Os detalhes característicos de ambiente, os padrões e valores apontados nos deixam antever um misto de pseudo-aristocracia e rusticidade de costumes, numa fase avançada de definição do patriarcalismo e coronelismo sertanejo, em pleno sistema escravocrata. E ainda aquele período que nos deu lenda e evocações, envolvendo escravos, crimes aprazados, vinganças, assassinatos, muitas vezes sob a inspiração passional ou sob paixões e orgulhos em conflito. Bem próximo do português pioneiro na região, reflete o instante ultimo do seu processo de aclimatação, do que resultou o autêntico fazendeiro das zonas agrestes do Nordeste,

O fundamento dramático da obra repousa em fatos reais, romanescamente tratados em virtude da intuição e poder do romancista de reconstituir no tempo e no espaço, sem se deixar contaminar pelo momento presente em que reelabora.

É o caso em que a técnica e a linguagem foram poderosos auxiliares. É provável a sugestão atuante nele dos processos de contadores de história ou das tradições orais da região.    Relata linearmente, comentando e ilustrando, fatos, tipos, circunstâncias enquanto enriquece o detalhe descritivo com elementos plásticos contidos no termo adequado ao linguajar regional. É este explorado essencialmente nos seus aspectos definidores da capacidade aguda de observação do homem na paisagem, num misto de poesia, percepção rápida e raciocínio crítico repassados de senso de humor.

A frase é contida e objetiva, direta, sem retórica, apesar dos elementos sensoriais e do espírito comentador que se entrosam com as imagens e os fatos. Por tudo isso, pelo seu realismo feito de observação perspicaz dos acontecimentos e de análise de caracteres assim como pela sua linguagem elaborada no sentido da experiência estilística, ele se destaca no romance pseudo-regionalista de fins do século. E, até o pouco desconhecido, assume agora um lugar importante em nossa ficção, bem próximo das melhores realizações do grupo modernista do Nordeste (Antônio Cândido).

A seca, pois, e o regionalismo margeiam o tempo todo a saga trágica acontecida na fazenda Poço da Moita. A linguagem do povo está tão presente que necessária se tornou a elaboração de um glossário no final do livro. Com cerca de quinhentos verbetes esse glossário de termos bem demonstrativos do falar do sertão cearense comprova a preocupação do autor em devassar a vida daquela gente sofrida a partir da sua linguagem. Prova é que a partir da primeira expressão do livro “De primeiro” esse falar já se apresenta. Depois disso vão se configurando cenas e temperamentos entrevistos sem a crueza naturalista em moda, mas deixando-os subentendidos como na estética realista.

Dona Guidinha do Poço é, portanto, um romance comprometido com a estética realista, resgata a linguagem regionalista do centro sul cearense, apresenta uma história de paixão e morte que traz, secundando-a, o fenômeno climático da seca, tão marcante na região Nordeste como nos romances da geração de 30. Daí que o embrião para o romance de seca da segunda fase do nosso modernismo finca-se, segundo Alfredo Bosi, em Dona Guidinha do Poço, de Oliveira Paiva, Luzia-Homem, de Domingos Olímpio e A fome, de Rodolfo Teófilo. Esses três autores cearenses foram testemunhas da grande seca dos anos de 1877, 1878 e 1879. Essa temática aliada ao resgate que faz do regionalismo, faz com que se afirme que nenhum escritor cearense soube trabalhar com tanta felicidade a nossa linguagem do povo - sem desfigurar o conteúdo literário como Oliveira Paiva. Além disso há a técnica narrativa empreendida pelo escritor quando ele consegue tornar sugestiva qualquer minúcia, valendo-se de indicações objetivas para reforçar indiretamente o sentido da narrativa ou insinuar o caráter de um personagem.

Dona Guidinha do Poço, considerado por José Ramos Tinhorão como um clássico da literatura brasileira. Obra de profundidade, psicológica e sociológica, vale-se de um estilo vivo, onde se fundem poesia, reflexão, senso de humor, a presença do falar regional nordestino, além do aproveitamento das tradições orais e das narrativas dos contadores de história.

Tempo

Dona Guidinha do Poço passa-se em dois anos, distribuídos ao longo dos 5 Livros: dois meses para o Livro I (o amor despontando); um mês para o Livro II (o amor se consuma em posse); onze meses para o Livro III (a paixão cega); novamente um mês para o Livro IV (o drama) e um mês ou mais para o Livro V (desenlace). Um preâmbulo de abertura completa a conta.

O tempo cronológico, convencional e linear, com discretos flashbacks, é altamente marcado, em dias, meses e até, por vezes, horas. Uma precisão, a mais óbvia, é, no entanto, insidiosamente escamoteada: o ano dos acontecimentos. Sabe-se que Guida era pequena na seca de 25 (“em 25, ela era ainda pequenota...” p. 56) e que tem, no momento da narrativa, mais de 30 anos. Essa inesperada imprecisão aponta para um desdobramento temporal entre o enunciado e o narrado: na verdade, a história de Guida pertence ao passado, é um “causo”, contado em outro momento. Aconteceu, “foi verdade” (a prova, as marcas de datas), no tempo da história.

Ao tempo cronológico, exterior e ao tempo psicológico, interior, soma-se um tempo cósmico, cíclico, marcado pelas estações. Assim o Livro I é o da seca, em março; no Livro II vêm as chuvas de abril e maio; o Livro III, o mais extenso, cobre as quatro estações – primavera, verão, outono, inverno e novamente as chuvas; o Livro IV retorna à primavera e o Livro V, ao verão.

Tempo cósmico, que é o tempo real do sertão e também o do mito e que, como as outras dimensões, dilui-se no final.

Foco narrativo

Em função do tempo, o narrador é a voz que conta um “causo”. Jogral contador, assegura, através de sua narração, o tempo cósmico-simbólico e restaura, no jogo de corda bamba, o equilíbrio. Narrador sem rosto, voz discretamente onisciente e onipresente, porque situada em outro tempo: a história contada já aconteceu. Mas, se algumas pistas são maliciosamente jogadas cá e lá, ele guarda a surpresa do final (que conhece), mantendo o ouvinte-leitor preso ao narrar.

Narrador popular, oral, que pouco intervém e que tem sua fala própria – e não é de espantar que, como Flaubert, use e abuse do estilo indireto livre.

Alguém conta uma história: o clássico narrador na terceira pessoa vai nos narrar o que sucedeu no Poço da Moita. Vemos na narrativa outras vozes surgirem e vários narradores proliferarem. O narrador de Dona Guidinha é um homem culto, com belo manejo de língua, conhecedor do latim e que julga desabusadamente a sociedade.

Observações:

Nada há, antes de Graciliano Ramos, algo tão denso como Dona Guidinha do Poço, quanto à linguagem incisiva na caracterização dos tipos humanos, e na transposição do latifúndio nordestino, com seu ritmo vegetativo, seus agregados, retirantes e fazendeiros,

Enredo

É a saga da fazendeira Marica Lessa. Essa via foi devassada pelo historiador Ismael Pordeus que teve acesso em cartório de Quixeramobim, ao processo em que a poderosa fazendeira Marica Lessa respondeu pelo assassinato de seu marido o Cel. Domingos d´Abreu e Vasconcelos por volta de 1853. A fazendeira poderosa amasiou-se com um sobrinho do marido, Senhorinho Pereira, e contratou o executante do crime contra seu consorte. Descoberta a trama, a desditosa dama foi condenada a muitos anos de prisão, vindo a cumprir sua pena na cadeia pública de Fortaleza. Ao ser solta, semi-enlouquecida e depauperada, perambulava pelas ruas da capital até quando morreu como indigente. Foi nessa história real que se baseou Oliveira Paiva para escrever Dona Guidinha do Poço.

É um romance modelar do realismo brasileiro. Compromissado com a realidade, ele mostra uma história que realmente aconteceu, mudando os nomes dos personagens e acrescentando alguns detalhes ficcionais e ilustrativos. Depois há a coragem do autor em introduzir na sua linguagem o rico latifúndio linguístico regional. O falar da região aparece como forma de trazer não só o homem mas principalmente sua fala para dentro do enredo. Além disso há outra realidade cruciante no romance, que ainda hoje se faz presente na região do semiárido nordestino que é a seca.

Narra a história da poderosa Margarida Reginaldo de Oliveira Barros, dona de cinco fazendas, prédios, gado, prataria e muitos escravos. Mulher bravia e apaixonada envolve-se por um sobrinho de seu marido, soldado elegante e vaidoso. Este acusado de homicídio esconde-se na casa do tio, que desconfiado de seus amores com a mulher, Dona Guidinha, resolve entrega-lo a polícia.

Como vingança Dona Guidinha manda matar o próprio marido, e como sempre altaneira, é conduzida à prisão, sob vaias da população.

Fontes:
- Joel Cardoso. Literatura Brasileira: resumos para vestibular e Enem. 2.ed. Maringá/PR: Massoni, 2018.
- Passeiweb

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Antonio Carlos de Barros (Tropeiro de Sorocaba)


Salve todos os tropeiros,
protagonistas da história,
foram valentes pioneiros
incrustados na memória.
José Feldman


Tropeiro é o condutor de tropas, do gado vacum, cavalares ou muares. É a pessoa que se ocupa em comprar ou vender as tropas, ou a que ajuda a conduzir a tropa, seja ela xucra ou arreada (cargueira).

O escritor Sorocabano Francisco Luiz D’Abreu Medeiros, descreveu com muita propriedade o que foi a epopeia das tropas, como era a vida de Tropeiro.

Romper sertões extensos, só habitados por indígenas e feras bravias, penetrar até os mais recônditos lugares do Rio Grande do Sul, e, se necessário, transpor os limites da Província, ir até os castelhanos em busca da melhor fazenda e de negócio mais vantajoso; voltar debaixo de rigoroso sol e copiosas chuvas, com uma tropa de quinhentas, oitocentas ou mil bestas; correr a extensão dos campos, penetrar pelas espessas matas após aqueles animais que fogem da ronda, que se extraviam continuamente, e que, por um pequeno descuido, se entreveram com tropas de outros donos, atravessar com grande risco de vida os rios caudalosos que cortam as estradas, comer ao romper do dia e à noite o mal cozido feijão de caldeirão e o velho churrasco; ver-se obrigado por diversos motivos dormir ao relento, sem outro teto mais que a abobada celeste, estendido à beira de um arroio, sobre um chão duro, apenas forrado do xergão* e da carona*, repassadas de suor do matungo* lerdo e cansado, tendo por travesseiro o lombilho*, único arrimo que se conhece por esses despovoados para amparar a cabeça e um pobre corpo alquebrado pelas fadigas do dia.

Uma Quadrinha popular da época definia muito bem o que era a vida de Tropeiro:

“Triste vida a do tropeiro
que nem pode namorar.
De dia – reponta* o gado,
de noite – toca a rondar*”.

Já o poeta José Barros Vasconcellos, em sua obra, Rodeio Emotivo, nos conta:

“Não se perturba nem teme
A chuva, o frio, a geada,
Que são ônus da tropeada,
No cavalgar cotidiano,
O tropeiro é um bravo, um forte
Que enfrenta tranquilo a sorte
E no pampa é soberano”.

E o grande poeta Guilherme Schultz Filho, em sua obra Galponeiras, com saudade recorda:

“Relembro os velhos tropeiros
Da legendária Laguna
Rasgando a pampa reiúna* 
das extensões infinitas,
onde ficaram escritas
tantas páginas de glória,
que ainda refulgem na história
destas paragens benditas”.

Biriva, Beriba ou Beriva era esse o nome dado aos habitantes de Cima da Serra, descendentes de Bandeirantes, ou aos Tropeiros Paulistas, os quais geralmente andavam em mulas e tinham um sotaque especial diferente do da Fronteira ou da Região Sul do Estado.

Dos muitos Festivais de músicas do Rio Grande do Sul, destaco a cidade de Carazinho, onde lá acontece a SEARA DA CANÇÃO, Festival Nativista. O poeta, autor de grandes sucessos no Rio Grande do Sul, Aírton Pimentel, compôs a Canção BIRIVAS e deu para o jovem RUI DA SILVA LEONHARDT, defendê-la nesse Festival. O resultado foi esplendoroso, a música Birivas foi a grande vencedora do festival Seara da Canção Gaúcha, isso em 1982. O sucesso foi enorme e, como ninguém sabia pronunciar o nome Alemão do Rui, ele ficou sendo chamado e conhecido por todos como RUI BIRIVA, e até hoje, mesmo depois do seu prematuro falecimento, é chamado de RUI BIRIVA.

Letra da música Birivas**

Descendo a serra
Pra subir na vida
Abrindo estrada
Cheio de bruacas*
Tropeando mulas para Sorocaba
E semeando por onde passam
Versos, violas, chulas e guaiacas*
Chegando a alma do vale das antas
Domam feras de rio de corredeiras
Rasgam picadas* pra juntar lonjuras
E muitas das cidades do presente
Vem dos pousos birivas o tropeiro
Vem dos pousos birivas o tropeiro

Daqui miles e mulas para feira
De lá mascatarias regionais
Juntando o norte e o sul num vai e vem
Sem saber de que fato ele, o tropeiro
Intercambiava traços culturais
Por isso é que o biriva não morreu
Mudou foi seu produto de tropear
O tropeiro está vivo em todo aquele
Que traz ideias boas ao Rio-grande
E ideias também sabe levar.

Encerro este texto, prometendo escrever mais, pois o tema é de fundamental importância para nossa amada Sorocaba Tropeira, e também para o Rio Grande do Sul, com este verso do escritor amigo, poeta, Mário Mattos:

“Sou Tropeiro Nativista
Da Sorocaba Paulista
Igual a tu meu irmão
Carrego comigo a herança
O que aprendi desde a infância
Nas grandes Feiras da Integração”.
________________________________
* GLOSSÁRIO:
Bruacas – espécie de mala de couro cru, com alças laterais, apropriada para ser conduzida em lombo de animal, pendurada à cangalha, uma de cada lado.
Cangalha – peça do arreamento do animal de carga, constante de uma armação de madeira acolchoada.
Carona – peça dos arreios, constituída de couro, de forma retangular, composta de duas partes iguais cosidas entre si, em um dos lados, a qual é colocada por cima do baixeiro, xergão ou xerga.
Guaiacas – cinto largo de couro macio, às vezes com porte de armas e para guardar dinheiro e pequenos objetos.
Lombilho – é uma espécie de sela, usada no Rio Grande do Sul.
Matungo – cavalo velho, ruim, imprestável.
Picadas – caminhos geralmente estreitos, que se faz no mato, para transito de cavaleiros.
Reiúna – animal reiúno é aquele que pertence à Nação ou ao Estado e tem, para distingui-lo dos demais, a ponta de uma das orelhas, em geral da direita, cortada.
Reponta – tocar o gado por diante, de um lugar para outro.
Rondar – vigiar os animais nos pousos.
Xerga – tecido de lã grossa, que se coloca no lombo do animal.
______________
** Nota do Blog:
A música Birivas, interpretada pelo próprio Rui Biriva está disponível no youtube em: https://www.youtube.com/watch?v=dcuKvS9yIGY
 
Fonte:
Texto enviado pelo autor

Teresinka Pereira (Poemas Recolhidos) II

 
CRIANÇA

Teus olhos são janelas
por onde entra cada dia
o sol da sabedoria e vida.

Tuas mãos inquietas
devem abarcar o mundo inteiro
como um gigante balão
que consente o tato
de tua mágica inteligência.
Criança, teu poder
é ilimitado e fecundo.

Aprende a caminhar
pela senda da humanidade
e a amá-la como toda tua.

ESPERANÇAS?

Um momento, por favor!
A noite dorme tranquila:
porque queres anular
o silêncio do infinito?
Deixa-me em paz
com minha angústia!
Deixa que me proteja
de tuas pérfidas esperanças!

MUDANÇAS

É muito difícil
re-inventar a vida.
A gente carrega
nos ombros
a natureza de nossos erros.

Os que falam deles
ajudam a mudar
a vida dos outros.

NA PRAIA

Uma imensa estrela
cruzou a noite
e caiu na cidade fria.
Na praia seca e vazia
sonho à mercê
do vento e do frio.

Um dia fui sereia
despreocupada e doce
passeando pelos oceanos
onde bosques de peixes bravios
cresciam como segredos,
como imagens que permaneciam
invisíveis com sua beleza e esplendor.

Agora nada mais sou
que o sonho de alguém,
um fantasma de água
e de palavras,
entre o mar e o medo,
luzes e sombras,
e alguns raios de lua
sem destino próprio.

O OLHO

O olho não pode esconder
nossa subjetividade,
mas é um farol invisível
pelo qual percebemos
a supremacia
da natureza,
o mistério da humanidade
e a beleza das flores.

O olho tem o poder
de nos fazer sonhar
com a liberdade
do firmamento.

SECRETA INTRANSIGENTE CÓLERA

Cada vez que eu falo
sinto teu vigilante
e imaginário lápis
apontando palavra
por palavra
meus pecados.

Tua secreta
e intransigente cólera
é uma intrusa
em nosso destino.

Mas o amor não tem
couraças, e das veias
não se podem extrair
impulsos secretos
de censura.

Ao fim e ao cabo,
como viver totalmente
puro das gangrenas
do discurso?

Fonte:
Poemas enviados pela poetisa

Renato Frata (Estrelas Pisadas)


Acordou pisando estrelas, estendeu a mão direita no peito apertando o coração descompassado, abriu o sorriso motivado pelo sonho cortado ao meio, respirou fundo com os olhos semicerrados e instintivamente fez um pensamento positivo. O dedão da mão esquerda se enfiou entre o indicador e o pai-de-todos construindo uma figa. O dia prometia. Cobriu melhor Pedrinho que dormia, correu para a pequena sala e com um toco de lápis anotou as dezenas.

Era dia de mega-sena e sonho sonhado em que números que rolavam ao seu encontro era mais que um sinal positivo.

- É hoje que a onça perde as pintas! - Disse ao encostar o joelho no chão diante de Mãe Aparecida. Botou a marmita em banho-maria, terminou de se arrumar e conferiu as horas: cinco e dois. 52!

Pensou e anotou os números. Logo correria a se juntar no ponto dos cortadores de cana, e ouvir a tagarelice das companheiras, as piadas porcas dos homens; sentir o vento gelado cortar-lhe o rosto e o carinho do sereno de fim de noite a lamber seus cabelos formando neles cristais de cobre. Mas seria o dia da redenção: o sonho fora real por demais, diferente de todos os sonhos.

- Vou ganhar na mega! E como primeira coisa comprarei a caixa de lápis de 72 cores para Pedrinho... ~ Prometeu no momento em que o remorso calou na consciência e a fez engolir saliva engrossada com fel por não ter dado ao filho todos os materiais da lista da escola; e acabou com uma caixa de 12 cores no pacote.

Os olhos tristes do menino disseram tudo, mas o que fazer se a grana curta mal dava para o armazém e a farmácia? Fuçou na bolsa, catou a única nota de R$ 2,00, enrolada, tomou o facão e, com farnel às costas fechou a porta. Entregaria o dinheiro ao motorista que era encarregado das apostas do pessoal.

Pedrinho acordaria com o despertador e iria sozinho para a escola; e só o veria de novo na boca da noite quando estaria quem sabe, a pintar as tarefas escolares com 12 cores ao invés de 72. Menino bom, sem maldade no pensar e no agir. O filho que toda mãe gostaria ter.

- O que faria com o prêmio? - Pensava nos solavancos da condução. - Uma casa linda com uma amoreira na janela de onde pudesse dali catar frutas sem ter que ir ao quintal. E uma tonelada de lápis de cor ao Pedrinho para compensar a caixa de 72 que não pôde dar. Melhor, compraria lápis às crianças da cidade, para que não sentissem a vergonha que o filho passara ao ser repreendido por se apresentar com o material escolar incompleto.

- Liga não, filho, - teria dito - dia haverá em que um arco-íris pousará nas mãos e te trará um pote de ouro - e limpou as lágrimas do rosto.

- Só queria os lápis, mãe. - respondera Pedrinho.

Deu de ombros para a lembrança e: - se sonho vale, que se vá o último tostão para conseguir o intento - e o barulho do ônibus abafou sua doideira.

Imaginou-se num quarto lindo, de paredes forradas com papel colorido e um lustre pendente sobre a cama.

Sonho simples como ela.

Lembrou-se dos buracos do zinco que o barraco real carregava desde sempre; e da luz do poste lá fora, quarada da lâmpada de mercúrio, injetada na escuridão do aposento lançando estrelas pelo chão. - Pisava nelas.

Sorriu enviesado entre a certeza do resultado de logo mais e a realidade do aconchego pobre, mas seguro.

Fonte:
Livro enviado pelo autor.
Renato Benvindo Frata. Azaringo e o caga-fogo. Paranavaí/PR: Paranavaí Ed. Gráfica, 2014.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Silmar Böhrer (Lampejos Poéticos) XVI


Olga Agulhon (Magro Zé)


Dias atrás, desses de ficar remexendo nos baús guardados no sótão de nossa memória, lembrei-me, com saudade, do Magro Zé, um personagem que está presente nas minhas recordações de infância.

Bom lembrar do Magro Zé. O seu nome de batismo eu nunca soube. Tinha esse apelido porque era mesmo muito magro, não tinha muita saúde, pouco comia, bebia muito; acho que o seu primeiro nome nem era José. Era primo de minha mãe, a quem chamava de comadre, sem que houvesse motivo para isso. Viúvo, tinha duas filhas, que não ficaram com ele. Foram criadas por uma tia. Não sei se já bebia ou se o vício começou a partir da viuvez.

Minhas recordações são um tanto vagas e nunca me falaram dele depois que cresci. A única coisa que me contaram é que uma das filhas casou-se, mas me parece que o genro não o quis morando junto. E Magro Zé continuou sozinho.

Talvez ninguém o quisesse porque bebia. Ou, então, bebia porque ninguém o queria. Na verdade, acho que nem ele mesmo sabia por que se embriagava a ponto de vez por outra ser encontrado largado em qualquer canto, com uma garrafa de pinga vazia na mão, tal como um indigente. Era nisto que se transformava o Magro Zé quando bebia: um indigente, sem lar, sem parentes, sem amigos, sem sonhos, sem esperança, sem vontade de viver; um farrapo humano.

Quando estava sóbrio, ele era a pessoa da qual me lembro com carinho. Para a família, devia dar muito desgosto; mas, para mim, ele era legal. Magro Zé tinha inclusive profissão. Era um excelente mestre de obras, daqueles que constroem uma casa, um armazém, uma igreja, sem necessidade de instruções de nenhum engenheiro. Era mesmo bom no serviço, mas nunca teve nada na vida, nem ao menos um emprego seguro, um trabalho fixo. Bebia.

Numa certa altura de sua vida, a pedido de meu pai, veio fazer um trabalho na fazenda onde morávamos, hospedando-se em nossa casa. Terminou o serviço, mas foi ficando, ficando, ficou.

Pegava pequenos serviços por perto, para ir levando a vida. Às vezes, ia mais longe e demorava a voltar, mas voltava. Quando retornava, chegava de braços abertos e me mandava procurar balas e bombons nos bolsos do seu casaco; eu adorava aquilo. Também cuidava de mim quando minha mãe estava muito atarefada, mas não era de todo confiável, porque, de uma hora para outra, bebia.

Foi nessa época que minha mãe pôs na cabeça que iria fazê-lo parar de beber e ele prometeu que iria tentar, fazer de tudo para deixar o vício.

- Comadre, se você encontrar, de hoje em diante, alguma garrafa nesta casa, pode jogar fora.   

E era isso que ela fazia. Encontrava garrafas embaixo da cama, no guarda-roupa, atrás do sofá, na casinha do cachorro, nos mais diversos lugares; esvaziava todas, mas não se zangava com ele e não ralhava; e ele, por sua vez, também não reclamava.

Certo dia, chegou com a perna e o pé direitos engessados, pois havia quebrado um osso da coxa e o tornozelo ao cair de um telhado que estava cobrindo. Veio ajudado por um amigo, não podia andar sozinho.

- É agora que você para de beber, Magro Zé. Não se levanta sozinho e ninguém vai dar-lhe um pingo sequer de álcool.

- Pelo amor de Deus, Comadre, espere eu ficar bom... Como vou parar de beber logo agora que estou doente, entrevado, sem ter o que fazer?

– É uma boa hora!

Eu lhe fazia companhia, mas, para mim, ele somente pedia água e comida. Vivia me aconselhando para que nunca fumasse ou bebesse bebida alcoólica. Hoje, penso em quanto ele sofria e não me deixava perceber. Comigo, era sempre contente e estava sempre disposto a brincar.

No segundo dia, à tarde, toda a família foi até a cidadezinha mais próxima e, quando voltamos para casa, ao entrarmos pela cozinha, vimos um rastro branco de gesso pelo chão, que se estendia pelo corredor. No fim daquele rastro, lá estava Magro Zé bêbado, segurando uma garrafa quase vazia.

Depois do porre, a bronca:

- Quem lhe arrumou pinga, Zé?

- Ninguém, Comadre.

-Alguém tem que ter trazido para você. Aqui em casa é que não tinha nenhuma garrafa. Quem foi?

A explicação, porém, só pôde ser dada no dia seguinte, quando, do álcool, só restava, a ressaca:

- Ninguém, Comadre. Antes do acidente eu tinha escondido a garrafa dentro de uma panela, aquela que você só usa para fazer feijoada. Como está fazendo muito calor, achei que você não iria fazer feijoada tão cedo... Quando não aguentava mais, me virei até cair da cama e me arrastei até o armário; não sei como não bebi lá mesmo.,.

- Você não toma jeito, Zé! Mas foi a última vez. Vou revirar essa casa e não vou deixar uma gota de álcool para você.

Assim o fez. Encontrou mais uma garrafa dentro do saco de arroz guardado na despensa. Esvaziou-a.

Sem a bebida, Magro Zé foi ficando nervoso, não comia quase nada, gritava, xingava. Chegou a tentar se arrastar para fora de casa, mas meus pais o impediram. Por maior que fosse o seu desespero, não ousou enfrentá-los; tinha por eles muito respeito e gratidão, devia-lhes muitos favores. Afinal, eram as pessoas que o tinham acolhido, apesar do parentesco distante.

Voltou para a cama e, não se sabe como, ficou quarenta e cinco dias sem beber. Todos ficamos contentes.

- Se você aguentou todo esse tempo, pode ficar sem beber pelo resto da vida...

- Eu prometo, Comadre. Nunca mais vou pôr álcool na boca. Acho que agora estou curado.

Tirou o gesso. Nos dias que se seguiram, realizava longos passeios pela fazenda, dizendo que precisava fazer exercícios.

A alegria durou apenas mais uma semana; começou a aparecer bêbado todos os dias, apesar de ter ido á venda apenas uma vez. Ninguém sabia onde ele arrumava a bebida, já que não estava saindo da fazenda.

Foi aí que minha mãe resolveu seguir o Magro Zé. Ele atravessou a porteira e entrou no pasto. Daí em diante não deu para continuar, pois certamente ele a veria; o capim estava muito baixo. Observou-o de longe até perdê-lo de vista. Passou-se uma hora e ele não voltou. Fomos procurá-lo, eu e minha mãe, seguindo a direção que ele tinha tomado.

Encontramos o Magro Zé dormindo. O cheiro de pinga impregnava o ar. A seu lado, no meio de uma moita, uma caixa de cimento, feita com muito capricho. Estava destampada e cheia. Era um quadrado com cerca de cinquenta centímetros cada lado. Ainda havia, lá dentro, quatro garrafas de pinga.

Enquanto pensávamos que ele passeava pela fazenda para exercitar-se, ele estava trabalhando na tal caixa, que ainda lhe dava pinga fresquinha. Havia, com certeza, dado dinheiro para que alguém dos sítios vizinhos lhe trouxesse as garrafas da maldita, pois nenhum conhecido nosso o ajudaria em tal ato.

Dessa vez minha mãe ficou furiosa e ele, envergonhado por sua fraqueza, acabou indo embora, mesmo contra a nossa vontade.

Na partida, choramos. Vendo-o partir, acenando e querendo esboçar um sorriso, minha mãe comentou:

- Aquele corpo franzino, derrotado pelo vício, não parece conter uma alma tão grande... tão boa e generosa... Parece uma alma aprisionada.

Eu apenas observava seus olhos; e nunca mais vi tanta dor num olhar.

Nos primeiros tempos, escrevia. Chegou a nos visitar uma vez e me trouxe balas nos bolsos, como sempre fazia. Mas continuava constrangido; não nos olhava nos olhos, não se demorou. Com o tempo, parou de escrever. Ficamos sabendo, anos depois, que ele estava bem. Havia conseguido um bom emprego, era responsável pela construção de casas populares em uma cidade do interior de São Paulo. Tinha criado jeito.

Tempos depois, outra notícia: Magro Zé voltava para o alojamento na carroceria do caminhão que transportava os empregados da construção; já estava bêbado, caiu do caminhão em alta velocidade, quebrou-se todo. Fraco e também com o pâncreas debilitado, morreu na enfermaria de um hospital qualquer. Morreu sozinho, como vivera durante quase toda a sua vida.

Mas ao enterro todos compareceram: amigos, conhecidos, parentes e curiosos, daqueles que gostam de frequentar funerais.

Saudades do Magro Zé.

Fonte:
Olga Agulhon. Germens da terra. Maringá/PR: Midiograf, 2004.